Skip to main content

Full text of "Historia De Portugal Volume I A H De Oliveira Marques"

See other formats


HISTÓRIA DE PORTUGAL 


A. H. de Oliveira Marques 
volume 1 


VOLUME 1 
DAS ORIGENS ÀS REVOLUÇÕES LIBERAIS 


A. H. DE OLIVEIRA MARQUES 
HISTÓRIA DE PORTUGAL 


DESDE OS TEMPOS MAIS ANTIGOS ATÉ AO GOVERNO 
DO SR. PINHEIRO DE AZEVEDO 


Manual para uso de estudantes e outros curiosos por assuntos do passado pátrio 
PALAS EDITORES - LISBOA 

7º Edição - Março 1977 - 10 000 ex. 

PREFÁCIO 


Esta História tem uma pequena história. No Verão de 1967, passei dois meses em 
Nova York, leccionando na Universidade de Columbia. Pouco antes de partir para 
a Europa, já em férias, almocei com três colegas americanos, todos eles 
interessados por temas portugueses. Falou-se em histórias de Portugal em inglês, 
nos três ou quatro manuais existentes, contra os quais eu me insurgi com 
veemência. Enfaticamente declarei que nada havia de recomendável, nada, em 
boa verdade, que um professor de história de Portugal pudesse aconselhar aos 
seus alunos como obra de conjunto. Nem em inglês, nem em português, 
acrescentei. 


Isto passou-se. De regresso aos Estados Unidos, nos meados de Setembro desse 
ano, fui encontrar uma carta da Imprensa da Universidade de Columbia, 
convidando-me a escrever um manual de história de Portugal em um volume, 
atendendo à falta notória de manuais actualizados em língua inglesa. O meu nome 
fora-lhes sugerido, pelo Prof. Bradford Burns, um dos participantes no tal almoço. 


Colhido de surpresa, enredado nos meus próprios argumentos, não pude dizer 
que não. Pus de parte ou afrouxei os diversos trabalhos que tinha entre mãos - um 
estudo pormenorizado da cidade de Lisboa na Idade Média em colaboração com 
Maria Teresa Campos Rodrigues; uma antologia de textos medievais hispânicos; 
etc. - e lancei-me à tarefa de corpo e alma. O livro ficou escrito em cerca de dois 
anos e meio: de Janeiro de 1968 a meados de 1970. E as 400 páginas 
inicialmente previstas subiram para 1000 e obrigaram à criação de dois volumes 


em vez de um só. 
XIV 


Uma das condições que propus à Imprensa da Universidade de Columbia, e que 
ela aceitou, dizia respeito à publicação da obra em português, sem que esta 
publicação se pudesse considerar uma «tradução» da edição americana e 
incorresse, portanto, no Copyright que lhe pertencia. De facto, embora o livro 
fosse originariamente redigido em inglês, reescrevi-o depois, na sua totalidade, em 
português. Resultaram assim duas versões diferentes, até porque o texto definitivo 
inglês sofreu consideráveis «podas», a bem da concisão a-romântica e a-barroca 
do idioma de Shakespeare, estruturalmente oposto à língua de Camões. A par da 
variedade e maior quantidade de figuras, mapas, quadros genealógicos, etc., isto 
veio tornar a versão portuguesa bastante mais rica e completa do que a 
americana, como aliás seria de esperar. Sai também antes dela, ao menos o 1.0 
volume, já que o processo editorial se revelou mais moroso além do que aquém- 
Atlântico. 


O plano deve muito a Vitorino Magalhães Godinho, na medida em que se mostra 
uma adaptação do plano geral previsto para a grande História de Portugal em 
vários volumes, que aquele historiador projectava e projecta orientar, e onde eu 
também me honro de ter parte. A divisão por épocas segue-o de perto. O carácter 
de manual de consulta levou-me, todavia, a desdobrar cada época em duas 
partes: uma relativa à Metrópole e outra ao Ultramar. Foi resolução que destruiu 
um pouco a unidade e a homogeneidade dos vários capítulos, mas que me parece 
ter beneficiado o leitor que do livro se queira servir. 


Insista-se que estamos em presença de um manual para o grande público. Daí a 
importância concedida aos resumos, aos factos, à economia das palavras. Daí a 
fuga quase sistemática aos grandes voos interpretativos, às sínteses globais 
cobrindo vários séculos de passado, que teriam cabimento em livro mais pequeno, 
tipo ensaio, ou, pelo contrário, em História altamente desenvolvida -a tal, dirigida 
por Vitorino Magalhães Godinho, que há-de surgir num futuro próximo - mas que 
estariam deslocados em livro de consulta permanente. Não excluí, todavia, 
interpretações e explicações sempre que me pareceram indispensáveis, a par e 
passo, mesmo como súmula de algumas grandes épocas. 


Por isso mesmo, também, o livro não vai muito vincado em ideologia. Não fugi a 
meia dúzia de adjectivos nem a meia dúzia de casos de apresentação de doutrina 
que serão antipáticos a muitos. Mas tenho esperança de que até estes 
encontrarão utilidade na obra e conseguirão usá-la quotidianamente, com menos 
asco do que quando eu me sirvo, por exemplo, da obra de Fortunato de Almeida e 
me vejo obrigado a ler os seus termos ofensivos para os meus princípios e as 
minhas ideias. Repetindo aquilo que escrevi algures, «acaso a ausência de uma 
ideologia vulgarmente reconhecível fará destes... capítulos uma obra de tendência 
burguesa a olhos marxistas e um livro de cheiro socialista a olhos burgueses. 
Oxalá assim seja, porque a nada de melhor aspira o autor do que a fugir aos 


rótulos ideológicos com que se costumam etiquetar as pessoas. São rótulos que 
tornam as obras antipáticas e os autores, se a eles aderem bem, falsificadores do 
passado e péssimas testemunhas do presente.» 


XVI 


Com poucas excepções, a bibliografia não vai além do ano de 1970. Para cada 
capítulo ou sub-capítulo, houve a preocupação de indicar preferentemente obras 
gerais, quando as há, evitando os artigos e as monografiãs especializadas em 
excesso. Entre as dezenas de obras utilizadas e citadas, devo salientar o 
Dicionário de História de Portugal e testemunhar ao seu criador uma palavra de 
profundo agradecimento. Sem ele, creio que este livro não poderia ter sido escrito. 


A todos - e foram muitos - os que ajudaram com conselhos ou sugestões ao 
crescimento da História, vai a minha gratidão mais sincera. E uma saudade sem 
nome para minha mulher, que estimulou e acompanhou a obra desde o início, mas 
que o Destino ceifou antes da sua publicação final. 


Lisboa, 29 de Setembro de 1971. 

NOTA À 4.- EDIÇÃO 

O sucesso que este livro tem alcançado não faz esquecer ao autor a sua mágoa 
pela quase completa inexistência de críticas válidas. Para além de algumas 
correcções devidas a amigos, o autor só tem a registar, neste período de mais 
dois anos, a recensão crítica do p.e Domingos Maurício Gomes dos Santos (S. J.) 
publicada em dois números da revista Brotéria, em Junho e Dezembro de 1973. 
Com reconhecimento a refere, tendo dela aproveitado numerosos 
esclarecimentos, correctivos e pontos de vista. 

Serra d'El-Rei, Setembro de 1974. 

INTRODUÇÃO 

AS RAÍZES DE UMA NAÇÃO 

1 -Traços permanentes 

a) O espaço 

«Se relancearmos no seu conjunto os traços geomorfológicos mais gerais da 
Península Hispânica, particularidade geográfica alguma parece justificar uma 
fragmentação política dentro dela.» * 

Jaime Cortesão, Os Factores Democráticos na Formação de Portugal, Obras 


Completas, |, Lisboa, Portugália, 1964, pp. 16-17. 


Na verdade, torna-se difícil falar de uma unidade do território português baseada 


em condições naturais, ou de uma individualidade de Portugal dentro do conjunto 
da Península Ibérica. 


O Minho continua a Galiza tanto na orografia e no clima como nas formas da 
exploração do solo. Trás-os-Montes e o norte da Beira prolongam a Meseta 
Ibérica. A Cordilheira Central (Serra da Estrela, etc.) separa o Norte e o Sul de 
Portugal assim como separa o Norte e o Sul da vizinha Castela. A Beira Baixa e o 
Alentejo compartilham de condições que se encontram na Estremadura 
espanhola. E a província mais meridional do País, o Algarve, não difere 
grandemente da Andaluzia litoral. Em todos os casos se deparam semelhanças, 
não só no solo e no clima mas também nas maneiras de viver e nas condições 
económicas gerais. As regiões mais originais de Portugal encontram-se, na 
realidade, numa faixa relativamente estreita do território litoral (Beira Litoral, 
Estremadura portuguesa) e na planície aluvial da bacia do Tejo (Ribatejo). O todo, 
porém, não ultrapassa 25 % do País. 


É facto que a excepcional extensão dos planaltos de baixa altitude confere a 
algumas regiões de Portugal uma característica bem própria, em comparação com 
o resto da Espanha. Todavia, este fenómeno resulta mais de considerarmos a 
unidade política, Portugal, como termo de comparação com ess'outra unidade 
política, Espanha, do que de separarmos, da Península Ibérica considerada no 
seu conjunto, uma unidade geográfica. Características morfológicas próprias, tão 
diversificadas como as portuguesas, também as encontraríamos na Catalunha- 
Aragão, em Múrcia-Valência, e na Andaluzia, para mencionar só as mais 
relevantes. Na grande variedade da Ibéria, várias das suas regiões são 
destacáveis. Portugal -em boa verdade, só uma parte de Portugal - é uma delas. 
Mas, para citarmos Salvador de Madariaga, «a Espanha é una com todas as suas 
Espanhas». 


Este facto, por si só, não faz da independência de Portugal um absurdo político, 
como não justifica também uma união ibérica. Por toda a Europa, por todo o 
Mundo, Geografia e História contradizem-se com frequência. A unidade 
morfológica das planuras da Europa Setentrional foi e é quebrada por fronteiras, 
aparentemente tão arbitrárias como as portuguesas. E o mesmo se diria de 
inúmeras regiões da África e da América. 


Muito mais importante do que uma pretensa individualidade geográfica, é antes a 
situação geográfica, que explica muitos dos traços característicos da história 
portuguesa e a própria existência de Portugal como nação. Sendo o país mais 
ocidental do continente europeu, Portugal foi durante séculos o fim do mundo. 
Finisterre, o nome de um cabo da Galiza, melhor se poderia aplicar ao cabo da 
Roca, a ponta da Europa. Para ocidente nada existia, nem mesmo ilhas. De facto, 
a costa portuguesa, com os seus 848 km, não tem quase ilhas; se esquecermos 
os pequenos rochedos das Berlengas, ao largo de Peniche. Além disso, é uma 
costa de poucas aberturas, apesar das longas tiras de praia. O número de bons 
portos abrigados reduz-se a três ou quatro. E embora o mar afecte quase todo o 
Portugal, quer em condições climáticas quer em vegetação, não há praticamente 


golfos e a quantidade de vida económica dependendo do mar mostra-se 
secundária. Batida pelos fortes ventos do ocidente, com frequência tempestuosos, 
e dispondo de uma plataforma continental assaz estreita ( = 30 km), a costa 
portuguesa não parece, à primeira vista, favorável a aventuras marítimas. Pelo 
contrário, as condições geográficas da maioria do País explicariam antes uma vida 
marítima limitada, restringindo-se à pesca local ou a curta distância. 


Fim do mundo, lugar de destino mais que de passagem, com pouca atracção do 
mar, a situação geográfica de Portugal não era exactamente das mais propícias 
ao desenvolvimento de culturas superiores. Por longos séculos estaria por trás do 
atraso de muitas das características nacionais. E, apesar de todas as mudanças 
do Mundo no que respeita a transportes e a descobertas, por parte das quais 
Portugal foi responsável, esse facto continua a permanecer constante. 


Embora atlântico por posição, Portugal mostra-se na maioria dos seus caracteres. 
Clima, vegetação, tipo de economia, modos de vida, características do solo são 
mais gregos ou sicilianos do que bascos ou bretões. A precipitação e a 
temperatura obedecem à típica distribuição mediterrânea, com um Verão seco e 
quente seguido por um Inverno chuvoso mas suave. A maior parte da flora do País 
apresenta aspectos mediterrâneos. Todos os visitantes de Portugal reconhecem a 
sua grande variedade de paisagem. Não existem autênticas florestas, mas antes 
maciços de árvores e arbustos, matas e vegetação dispersa. As árvores de fruto 
desempenham papel de relevo, quer isoladas quer associadas com sementeiras 
ou outras culturas. Por toda a parte a vinha, por toda a parte os cereais, trigo, 
milho, centeio e cevada. O solo mostra-se em geral leve e pobre, montanhoso em 
grande parte, rapidamente varrido pela erosão. Menos de metade da terra está 
dada à cultura. As condições do solo favorecem, ou herdades muito pequenas, 
centros de formas individualistas de vida e de trabalho, ou vastos latifúndios, mal 
explorados, abandonados em parte a pastagens e a baldios. 

O gado bovino tem pouca importância comparado com o ovino, o caprino, O 
asinino e o porcino. Por toda a parte persistem o trabalho manual e as técnicas 
rudimentares. 


É claro que, quanto mais se caminha para sul, mais o Mediterrâneo se sente. A 
grande variedade de Portugal explica as enormes diferenças entre Norte e Sul. 
Sem esquecer o traçado mediterrâneo geral, os geógrafos puderam dividir o País 
em duas grandes regiões, aproximadamente separadas uma da outra pelo 
paralelo 40 ou um pouco mais a sul em latitude. O Norte e o Sul de Portugal 
contrastam em clima e em terreno. Todas as outras diferenças, na economia, na 
psicologia e na história, não passam de resultados seus. 61,5 % das terras baixas, 
inferiores a 200 metros, localizam-se no Sul; 95,4 IQIO dos planaltos e das 
montanhas acima de 400 metros situam-se no Norte. No que respeita a clima, 
quase todo o Norte é húmido, com percentagens muito mais elevadas, tanto de 
precipitação como de humidade relativa, em contraste com o Sul, seco, com 
períodos sem chuva que vão de quatro a seis meses. Não é de estranhar que dois 
modos de vida tenham saído de uma oposição tão marcada. Vales profundos e 
húmidos favoreceram o isolamento e os localismos, condicionando um 


povoamento denso (até 200 habitantes/KkM2) mas disperso. Conservaram também 
os arcaísmos e resistiram a invasões e a novidades. As planícies áridas do Sul, 
pelo contrário, contribuíram para abrir os espíritos e as estradas. Se facilitaram as 
invasões, também trouxeram comunicações rápidas. E condicionaram um 
povoamento escasso (até 25 habitantes /km2), concentrado em núcleos grandes 
mas separados entre si. 


Bibliografia-A melhor geografia de Portugal, rica em pormenores históricos e 
oferecendo simultaneamente uma vigorosa síntese e uma observação científica 
detalhada, deve-se a Orlando Ribeiro, Portugal (em espanhol), Barcelona, 1955, 
volume V da Geografia de Espanha y Portugal, dirigida por Manuel de Terán. O 
mesmo autor escrevera antes um sugestivo sumário das características 
geográficas de Portugal, intitulado Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, 12 
edição, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1970 (2a edição, 1941). 


O pequeno manual de Pierre Birot, Le Portugal. Étude de géographie régionale, 
Paris, Armand Colin, 1950, e um dos melhores trabalhos escritos fora de Portugal. 
Poderá ser completado com outra descrição sucinta por Michel Drain, Geografia 
da Península Ibérica, Lisboa, Livros Horizonte, 1969 (edição francesa, Géographie 
de la Péninsule Ibérique, colecção «Que sais-je». n., 1091, Paris, P. U. P., 1964), 
que permite uma Integração no quadro geral da Península Ibérica. Excelentes na 
dou trina e na exposição e ainda actualizados se mostram os livros de Hermann 
Lautensach sobre Portugal, sobretudo a Geografia de Espanha y Portugal, versão 
espanhola, Barcelona, Vicens Vives, 1967. 


Veja-se ainda o artigo de Orlando Ribeiro intitulado «Portugal, formação de», no 
Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, volume III, Lisboa, 
Iniciativas Editoriais, 1966, pp. 432 ss. 


Todos os livros e artigos mencionados incluem bibliografias desenvolvidas. 


O conceito de «posição» teve em Antônio Sérgio um dos seus cultores mais 
brilhantes, num livro que é um modelo de interelacionação de aspectos 
geográficos e históricos: História de Portugal, vol. |, Introdução Geográfica, Lisboa, 
Portugália, 1941. 


b) O povo 


O homem chegou à Península Ibérica bem cedo na história. Encontraram-se em 
abundância culturas pré-Abbevillenses e Abbevillenses -as mais antigas que os 
arqueólogos puderam até hoje caracterizar- na Península Ibérica, de sul a norte e 
de oriente a ocidente. Isso prova a existência de seres humanos do grupo 
Pithecanthropus, contemporâneo da primeira glaciação «(Gúnz») ou até anterior, 
recuando a estadia do homem na Península a pelo menos 500 000 anos. 
Recolectores, sobreviveram à primeira, segunda «<Mindel») e terceira («Riss») 
glaciações e aos correspondentes períodos interglacias com todas as 
consequentes mudanças de clima. Ainda subsistitam em formas já mais 


desenvolvidas de cultura (Acheulenses) na aurora da última glaciação 0(Wuúr-, há 
mais de 120 000 anos. Outros grupos aproximadamente contemporâneos ligavam- 
se antes à floresta e aos seus modos de vida próprios. Os pré-historiadores 
classificam-nos como Clactonenses e atribuem-lhes um longo período de 
actividade, com cerca de 300 000 anos (entre 540 000 e 240 000 anos). 
Mudanças significativas só se deram quando, em vez de recolher frutos e plantas, 
os homens aperfeiçoaram práticas de matar e passaram a depender cada vez 
mais da caça. Tanto os Levalloisenses (250 000-70 000) como os Mousterienses 
(140 000-70 000) e os Languedocenses (depois de 70 000) eram caçadores e 
tenderam a tornar-se cada vez mais assim à medida que o tempo ia passando. 
Contudo, não resultavam de uma simples evolução do grupo Pithecanthropus 
erectus. Relacionavam-se, ao que parece, com outras origens étnicas, 
principalmente com o tipo de homem de Neandertal, aparecido há mais de 
100.000 anos. 


Todas estas culturas se distribuíram pela totalidade da Península. A parte de 
ocidente, onde hoje é Portugal, abunda em evidência arqueológica. De norte a sul 
têm sido descobertas inúmeras jazidas de culturas do Paleolítico Inferior. No 
entanto, essas culturas concentraram-se aparentemente em duas grandes 
regiões, com pouca comunicação entre si: uma, cobrindo a maior parte da 
Estremadura e a bacia do Baixo Tejo, com ramificações ocasionais na direcção 
das planícies alentejanas; a outra, ocupando os territórios a norte do Douro, 
sobretudo os actuais Minho e Galiza. Entre elas, devia haver povos. Mas o seu 
número terá acaso sido menor e não concentrado. Os mapas arqueológicos de 
hoje sugerem entre ambas uma área de densidade reduzida. 


Teria essa área qualquer significado do ponto de vista cultural? Corresponderia a 
uma espécie de terra de ninguém, estrategicamente separando grupos rivais? Não 
o sabemos. Apesar de a arqueologia estar relativamente desenvolvida em 
Portugal, no que respeita ao Paleolítico Inferior e Médio, precisamos de muito 
mais descobertas de campo, e especialmente de mais representações 
cartográficas, antes de nos aventurarmos a quaisquer hipóteses científicas. 


Com a chegada do Paleolítico Superior, há uns 40 000 anos, atingimos terreno 
mais firme. Seres humanos pertencendo ao sedimento étnico de base a que nós 
pertencemos também, o grupo Homo Sapiens, entraram na Europa e aos poucos 
conquistaram-na, matando, expulsando ou absorvendo os indígenas. Vários 
subgrupos, tais como os tipos de Combe-Capelle, Cro-Magnon e Grimaldi, todos 
eles associados com uma única vasta cultura - a Aurignacense continuada pela 
Solutrense e pela Magdalenense -, espalharam-se por quase todo o continente. 
Um pouco mais tarde, outro subgrupo, o do homem de Chancelade, surgiu 
diferenciado em dois tipos étnicos básicos, o dolicocéfalo e o braquícéfalo. Ligado 
sobretudo à cultura Magdalenense, o homem de Chancelade apareceu entre 40 
000 e 10 000 a. C. Em traços físicos, esse homem não se mostrava muito 
diferente do homem mediterrâneo médio, que habita ainda hoje na Europa. 


As culturas do Epipaleolítico ou Mesolítico revelaram-se fundamentais na 


Península Ibérica para a difusão de uma raça humana cujos traços anatómicos 
ainda hoje se encontram na vasta maioria, tanto de Espanhóis como de 
Portugueses. Desde aproximadamente 8000 até 5000 a. C., sucederam-se várias 
culturas, das quais o Azilense, o Sauveterrense, o Campignyense e o 
Tardenoisense foram as mais importantes. Ao mesmo tempo, entraram na 
Península os Capsenses, vindos de África. Ao que parece, todos eles pertenciam 
ao mesmo grupo étnico, e da sua fusão originou-se um tipo humano bastante 
homogéneo. Autores como Pericot consideram-nos mesmo como a base 
demográfica da Península Hispânica. A descoberta de uns trezentos esqueletos 
em território português (a maior parte em Muge, na Estremadura) mostrou uma 
maioria esmagadora de tipos dolicocéfalos. Encontraram-se também uns quantos 
braquicéfalos, os primeiros conhecidos na Europa, talvez descendentes do 
homem de Cro-Magnon, embora mais baixos em altura. 


O Neolítico puro mostra-se raro, principalmente em Portugal. Por volta de 3000 a. 
C., surgiram as primeiras culturas do Bronze, subdivididas em quatro grandes 
grupos. a cultura de Almeria, espalhada pelo Sul e Sueste, incluindo o Portugal 
Meridional; a cultura Megalítica, disseminada por toda a Espanha; a cultura do 
Vaso Campaniforme, igualmente muito difundida; e por fim a cultura de El Argar, 
pouco representada na parte ocidental da Península. 


Etnicamente falando, todas as culturas do Bronze testemunharam o predomínio de 
um mesmo tipo humano, dolícocéfalo, de média estatura, provavelmente moreno, 
misturado com alguns mesaticéfalos. Releve-se uma vez mais a separação entre 
culturas do Norte e do Sul. Uma zona meridional, cobrindo o Alentejo, a 
Estremadura e o Algarve, e geralmente associada com outras estações 
hispânicas, parece separada de uma zona setentrional, a norte do Mondego e do 
Douro, formando um todo com a Galiza. Não admira. As duas maneiras mais 
fáceis de alcançar o extremo ocidental da Península foram e são as planícies 
alentejanas ou o extremo norte. Têm sido durante séculos os caminhos naturais 
de invasão. Contudo, quando essas tribos ou clãs primitivos chegaram finalmente 
ao termo da sua viagem, em boa verdade o fim do mundo, decorrera já tempo 
bastante para apagar semelhanças de grupo originais, se é que algumas houvera, 
e para as tornar estrangeiras umas às outras. Passavam a inimigos, encarando-se 
suspeitosamente e acaso lutando com ferocidade entre si. A melhor maneira de 
conseguir uma existência pacífica seria deixar entre eles uma terra de ninguém. E 
à medida que o tempo passava, ia-se acentuando a diferenciação cultural. 


O «esplendor» da cultura megalítica, a sua abundância de formas, com exemplos 
antiquíssimos no ocidente da Ibéria, têm levado muitos autores a atribuir-lhe 
origem peninsular, talvez como irradiação marítima a partir da sua região mais 
ocidental. Não temos, ao presente, provas bastantes desse facto. Na verdade, se 
a cultura megalítica cobre uma grande parte da Europa, incluindo as Ilhas 
Britânicas e a Escandinávia, nada parece autorizar a teoria de que houve viagens 
directas, por mar, de Portugal para oriente. Pelo contrário, as jazidas megalíticas 
portuguesas situam-se em geral bastante longe da costa, sugerindo antes um 
povoamento vindo de leste, dissociado do mar. 


O chamado período Bronze Ill viu provavelmente a chegada dos primeiros povos 
Indo-Europeus. Eram os pré-Celtas, Ligures ou o que quer que lhes chamemos, 
porque só suposições são possíveis. Com eles, começou a mineração do cobre, o 
que faz pensar que Alentejo e Algarve, onde se encontra esse metal, tenham 
constituído regiões favoritas do seu povoamento. Mas daí a admitir que essa 
metalurgia correspondeu a certo avanço cultural no Sul, não passa de hipótese. 


O Bronze IV, associado com o Ferro |, e o Bronze V, associado com o Ferro II, 
trouxeram os Celtas e os Iberos, assim como a primeira chegada de povos 
marítimos altamente civilizados, os Fenícios (antes de 1000 a. C.) e os Gregos. Há 
pouco a dizer sobre a sua contribuição para a composição rácica dos futuros 
portugueses. Uns e outros eram semelhantes antropologicamente. Uns e outros 
acentuavam o tipo de homem mediterrâneo. O mesmo aconteceu com invasores 
chegados mais tarde, que, em parte ou no todo, conquistaram a Península Ibérica: 
os Cartagineses, os Romanos e os Muçulmanos (tanto árabes como berberes). E 
porque todos eles se mostravam semelhantes nos seus traços étnicos de base- 
não porque fossem poucos ou se não fundissem com os indígenas-é que os 
Portugueses e os Espanhóis de hoje se podem neles espelhar, com os seus 3000 
anos de existência. 


Tanto a colonização fenícia como a grega pouco tocaram na parte norte do que é 
hoje Portugal. Não apareceram ainda provas da sua chegada a setentrião da 
Estremadura, com excepção de algumas moedas que, por si só, não são 
sinónimos de presença. No sul de Portugal, contudo, exerceram influência: têm 
sido desenterrados vestígios convincentes no litoral algarvio e alentejano e na 
bacia do Tejo. O Algarve, continuação da Andaluzia, foi decisivamente colonizado 
por eles. Ossonoba, perto da presente Faro, teve acaso fundação fenícia. A 
descoberta arqueológica de materiais da indústria da pesca sugere que, já nesse 
tempo, as pescarias desempenhavam papel de relevo na economia da região. 
Delas iriam mais tarde cuidar os Romanos. 


Ao mesmo tempo, para norte do Mondego, e na Galiza, com ocasionais 
infiltrações para sul, estava a surgir uma cultura arcaica de povos do Ferro. Na 
sua localização homogénea, tal cultura continuava a antiga tradição das culturas 
do noroeste, atrasadas mas individualmente caracterizadas. Só na Galiza se 
descobriram mais de 5000 castros, pequenas aldeias fortificadas no topo de um 
monte. Esta cultura, cnamada castreja, durou até tempos romanos. 


Quando os Romanos conquistaram a Península Ibérica e a civilizaram para 
sempre (século ii a. C. até século i d. C.) encontraram no Ocidente vários povos 
indígenas que classificaram e rotularam. Para norte do Douro, viviam os Gallaeci, 
subdivididos em Lucenses (aproximadamente para norte do Minho) e Bracari (a 
sul do Minho). Correspondiam à cultura castreja ou descendiam dela. Passado o 
Douro, viviam os Lusitani. A bacia do Guadiana estava povoada com Celtici. 
Finalmente, na parte mais meridional, havia os Conú ou Cunei. De todos estes 
grupos, os mais importantes pareciam ser os Gallaeci e os Lusitani, e só eles se 


mantiveram na geografia e na administração. Entre Lusitani e Celtici não havia 
grandes diferenças, nem em grau nem em formas de civilização, porque os 
primeiros eram com toda a probabilidade povos indígenas celticizados. Os Conii 
deviam ser muito poucos. Assim, o cunho romano mareou permanentemente e 
decisivamente a diferenciação Norte-Sul que fora uma constante desde as épocas 
mais remotas. 


Bibliografia-A melhor narrativa das culturas pré-históricas na Península Ibérica, 
com inúmeras referências a Portugal, deve-se provavelmente a Luís Pericot 
García, Lu Espanha Primitiva, Colección Histórica Laye, VI, Barcelona, Editorial 
Barna, 1950. Contém bibliografia, com referência a todos os «Clássicos» da pré- 
história peninsular, tais como Obermaier, Bosch Gimpera, Martín Almagro, Santa- 
Olalla, H. Breuil, Georg e Vera Leisner, Mendes Correia, etc. Para aspectos mais 
pormenorizados, veja-se Ramón Menéndez- Pidal, Historia de Espanha, t. L, vol. |, 
Madrid, Espasa Calpe, 1947, e t. I, vol. Il, Madrid, 1952, com a colaboração de 
especialistas como Hoyos Sáinz, Martín Almagro, Alberto del Castillo, Maluquer de 
Motes, Mata Carriazo e Garcia y Bellido, 


Exclusivamente para Portugal, não há nada de geral e de recomendável, embora 
o número de artigos e de conferências seja numeroso. Os melhores e mais 
actualizados resumos são talvez os publicados no Dicionário de História de 
Portugal, dirigido por Joel Serrão, volumes |, Il, Ill e IV, Lisboa, Iniciativas 
Editoriais, 1960-70, sob as entradas «Paleolítico» (111, 298), «Mesolitico» (111, 
43), «Neolítico» (111, 142), «Eneolítico» (11, 33), «Bronze» (1, 386), «Ferro» (11, 
223), «Celtas» U, 549), «lberos» (11, 463) e «Lusitanos» (11, 830). Todos eles 
incluem bibliografias actualizadas e estão escritos por especialistas. O artigo já 
mencionado de Orlando Ribeiro, sobre «Portugal, formação de», mostra-se 
também útil. Vejam-se igitalmente as duas obras de Torquato de Sousa Soares, 
Reflexões sobre a origem e a formação de Portugal, tomo |, Coimbra, 1962, e 
Contribuição para o estudo das origens do povo português, Sá da Bandeira, 1970. 
Autores portugueses, como José Leite de Vasconcelos e António Mendes Correia, 
estão hoje geralmente ultrapassados, embora se colham ensinamentos e 
sugestões em alguns livros do primeiro. Sobre arqueologia pré-histórica, saiu o 
manual de Manuel Farinha dos Santos, Pré-História de Portugal, Lisboa, Verbo, 
1972, com excelente ilustração. 


O estudo de Glyn Daniel, The Megalith Builders of Western Europe, Pelican 
Books, 1963 (|.(Q* edição, 1958) ajuda a relacionar a área Peninsular com o resto 
da Europa, enquanto o livro de Frederick E. Zeuner, Dating the Past. An 
Introduction to Geochronology, 4.a edição, Nova York, Hafner, 1958 (reimpresso 
em 1964) se mostra sempre útil para datação e relacionações cronológicas. O 
mesmo se diga do livro de H. Alimen, Atlas de Préhistoire, vol. |, Paris, Editions N. 
Boubée, 1950. 

A edição portuguesa de André Varagpac, O Homem antes da Escrita (Pré- 
História), colecção «Rumos do Mundo», Lisboa, edições Cosmos, 1963, tem 
utilidade porque fornece anotações complementares sobre a pré-história 
portuguesa e dá uma bibliografia valiosa e actualizada. 


C) A língua 


A origem do português está longe de resolvida de uma maneira satisfatória. Em 
regra, os filólogos têm prestado mais atenção à evolução linguística a partir do 
século XII do que às suas raízes no passado remoto. E contudo, parece não haver 
dúvida de que diferenças dialectais «portuguesas» podem encontrar-se já no 
período romano e em regiões de onde sairia a futura nação. Isto, claro, nada tem 
de peculiar ao português e quase todas as línguas românicas se poderiam gabar 
de antiguidade semelhante. 


De todas as razões que os filólogos geralmente apontam para explicar a 
diferenciação do latim vulgar, a saber, o isolamento geográfico relativo dos grupos, 
o desenvolvimento de unidades políticas separadas, a variação das circunstâncias 
culturais e educacionais, o período de romanização, as diferenças dialectais na 
língua dos colonos, os substratos linguísticos originais e as sobreposições 
linguísticas subsequentes, sempre haverá que salientar as diferenças dialectais na 
língua dos colonos porque lhes corresponde o papel de maior relevo. Para mais, 
como salientou Meyer-Lúbke, as formas de comunicação dentro da mesma 
província ou entre províncias vizinhas mostraram-se de enorme relevância para 
produzir contactos entre grupos linguísticos e uniformizá-los. 


As línguas indígenas pouca ou nenhuma importância tiveram no nascimento e na 
evolução do português. Pode desprezar-se a sua contribuição, quer para o 
vocabulário quer para a sintaxe. Eram os indígenas que aprendiam o latim, e não 
os Romanos que aprendiam os idiomas locais. Todas as comunicações, a 
legislação e o sistema escolar assentavam no latim. Durante alguns séculos, 
podiam os indígenas ter falado um dialecto local qualquer acrescentado a palavras 
e a formas latinas abastardadas. A medida que o tempo ia passando, esse falar 
desvaneceu-se até desaparecer por completo. Não faltam as provas históricas 
para afirmar que a colonização romana cuidou a sério da difusão da língua latina e 
dos costumes romanos entre os indígenas. Os resultados seriam perfeitos e 
permanentes. 


A influência na língua das legiões e das forças auxiliares tem de ser 
diferentemente avaliada em «Portugal». Passado um primeiro e obscuro período 
de conquista militar, evacuaram-se a maioria dos soldados e o ocidente da 
Península progrediu em paz durante todo o período romano. Na Lusitânia, ou seja 
no sul e no centro de «Portugal», nunca estacionaram legiões. Na Tarraconensis, 
da qual seria mais tarde desmembrada a Callaecia ou Gallaecia (isto é, a Galiza), 
estacionaram duas legiões na região de Leôn (León deriva exactamente de 
Legionem, a legião), aí permanecendo por algum tempo. Estradas militares 
ligavam Legionem com Bracara Augusta (a presente Braga) e com Aquae Flaviae 
(hoje Chaves), os dois mais importantes centros urbanos no sul da Gallaecia. 
Portanto, é de presumir que as formas dialectais do latim vulgar falado pelos 
legionários tenham determinado ou influenciado o surto do galaico-português. 


Contudo, o português medieval primitivo não deve confundir-se somente com o 
galaico-português. Igualmente importantes eram o dialecto, ou dialectos, falados 
na Lusitânia. E se aí não havia legiões estacionadas, havia contudo núcleos de 
colonos itálicos povoando os centros nascentes do sul. Duas colónias, compostas 
em parte de cidadãos de Roma e em parte de outros itálicos, foram fundadas nos 
primórdios da conquista romana (século i a. C.) dentro dos limites da Lusitânia: 
Pax lulia (a -futura Beja) e Seallabis Praesidium lulium (a futura Santarém). Ambas 
eram centros administrativos (capitais de conventus) e ambas estavam ligadas por 
estrada. Esta mesma estrada passava por Ebora Liberalitas lulia (a futura Évora), 
um municipium latino, e Olisipo Felicitas lulia (a futura Lisboa), um municipium de 
cidadãos romanos. Existiam dois outros municipia latinos na Lusitânia, a saber 
Myrtilis (hoje em dia, Mértola) e Salacia (hoje Alcácer do Sal). Na Gallaecia nunca 
se fundaram colónias nem municipia. Assim, a influência dos dialectos romanos ou 
outros itálicos foi provavelmente marcante no surto de um «português» meridional. 
Na verdade, averiguaram-se já semelhanças entre o português e dialectos do sul 
da Itália, tais como o óscio, mas muito mais haveria a fazer neste campo. Também 
não sabemos até que ponto se falava «lusitano» na parte oriental da província, 
onde estava localizada a cidade-capital, Emerita Augusta (a Mérida de hoje) com a 
sua grande expansão cultural e portanto linguística. E podem ainda ter tido sua 
influência outros dialectos que acaso se falassem na Baetica. 


O português, como todas as línguas românicas, não saiu apenas do latim vulgar. 
O latim literário, língua da escrita e portanto língua da administração, também 
desempenhou o seu papel, que não foi pequeno. Ajudou a manter a unidade entre 
os vários dialectos, impedindo-os, durante séculos, de se fragmentarem em 
línguas diferentes. 


O declínio gradual do mundo romano, acompanhado pela irregularidade das 
comunicações e pelo prático desaparecimento de um governo central, implicou 
liberdade para os dialectos e a sua rápida evolução. O sistema escolar e o número 
de pessoas cultas decresceu enormemente. É óbvio que a influência destas sobre 
o povo havia de decrescer também. Pelos tempos visigodos (séculos vi a viii), os 
dialectos da Espanha estavam rapidamente a transformar-se em línguas. 


Nem os Suevos nem os Visigodos afectaram os idiomas hispânicos. Passaram 
para o português não mais de uma trintena de palavras germânicas e a maioria 
delas veio através do baixo latim (e também, muito mais tarde, do francês), não 
por contactos directos com os invasores, que geralmente falavam latim. São 
desconhecidas palavras suevas. Mas é verdade que, dentro da Península Ibérica, 
o português foi a língua menos permeável a vocábulos germânicos. 


Os Árabes chegaram nos começos do século viii e com eles o segundo e último 
componente significativo da língua portuguesa. Umas 600 palavras passaram do 
árabe para o português. Há que explicar, contudo, o que aconteceu, dado o 
número pequeno de palavras árabes que existe no português coloquial de hoje. A 
influência deu-se sobretudo nos substantivos, e não na estrutura da língua, que 
permaneceu puramente latina. Ora, sendo os Muçulmanos e a civilização 


muçulmana na Espanha requintados e tecnicamente evoluídos, não admira que a 
maior parte dos substantivos de origem árabe se referisse a coisas como vestuário 
e mobiliário, agricultura, instrumentos científicos ou apetrechos diversos. A medida 
que o tempo ia passando e o Islam declinando, o avanço muçulmano foi 
ultrapassado por novas conquistas e influências, de origem francesa, italiana ou 
inglesa. Assim, modas ou coisas, outrora tão populares, mudaram de nome, 
simplesmente porque desapareceram a favor de outras, mais modernas. O 
mesmo aconteceu com os termos técnicos e científicos. No português medieval, 
as palavras árabes surgiam por toda a parte, impondo a presença de uma 
civilização avançada. No português moderno, mostram-se em sua maioria 
obsoletas. Da posição de destaque de outrora, passaram a um papel menor, 
embora ainda revelador da influência primitiva. 


A conquista muçulmana só foi duradoura no centro e no Meio-Dia de «Portugal», 
isto é, na região a sul do Douro, onde nunca se falara galaico-português. O 
«lusitano», a que poderíamos agora chamar moçárabe, ou a língua dos 
moçárabes, evoluiu separadamente e em diferentes circunstâncias culturais. 
Sabemos pouco das suas características, distintas como seriam dos restantes 
dialectos moçárabes, falados por toda a Espanha muçulmana. Mas não há dúvida 
de que possuía individualidade própria, Uma vez mais, a posição ocidental de 
«Portugal» favorecia o seu isolamento e os seus arcaísmos linguísticos. A 
civilização muçulmana teve menos brilho na Lusitânia ocidental do que na 
Lusitânia oriental ou na Baetica. Não admira que o português recebesse menos 
palavras árabes do que o castelhano, embora mais do que o catalão. 


O português Pelos séculos xi e xii, quando os exércitos cristãos cruzaram 
definitivamente o Mondego e, a seguir, o Tejo, o galaico-português e o «lusitano- 
moçárabe» entraram em contacto directo e permanente. Deste encontro nasceu o 
«português». Não sabemos até que ponto o dialecto nortenho influiu sobre o do 
sul, ou vice-versa. Havia provavelmente mais nórdicos do que meridionais. Muitos 
representantes da élite moçárabe tinham morrido ou fugido. Por outro lado, os 
mais importantes centros urbanos, como Lisboa, Santarém, Évora, Beja, Silves, 
localizavam-se no Sul. Com a mudança da «capital» para sul, para Lisboa, nos 
meados do século xiii, realçou-se provavelmente o papel desempenhado pelo 
dialecto meridional. Só existem fontes em vernáculo, incluindo textos literários, nos 
fins do século xiii e no século xiv, quando quase ou mais de um século havia 
passado já sobre a conquista, e ambos os dialectos se começavam a fundir numa 
língua comum. Nem sequer se conhecem fontes galegas importantes do mesmo 
período, que permitissem comparações significativas. Contudo, as enormes 
transformações que sofreu o português entre o século xiii e o século xv não devem 
ter resultado só da evolução natural de um único dialecto. 


O quadro actual dos «dialectos» portugueses mostra nitidamente a divisão de 
base norte-sul, embora complicada por formas intermédias que provavelmente 
recuam ao período da «Reconquista». Dentro da língua portuguesa encontram-se, 
em Portugal, três grandes áreas dialectais, uma a norte, incluindo o Minho e Trás- 
os-Montes (com duas grandes regiões subdialectais), outra ao centro, englobando 


a Beira, e a terceira a sul, com todo o resto do País. O dialecto nortenho 
corresponde ao antigo galaico-português, enquanto o falar do Sul se mostra o 
herdeiro directo do «lusitano-moçárabe». O dialecto do Centro, embora mais 
semelhante ao do Norte do que ao do Sul, explicar-se-ia pelas circunstâncias da 
guerra entre cristãos e muçulmanos, que espalhou o galaico-português para sul 
dos seus limites originais. 


Bibliografia -Entre as muitas obras gerais e artigos sobre a filologia histórica da 
Península Ibérica, com particular menção da sua parte ocidental, salientem-se a 
obra de Ramón Menéndez-Pidal, Orígenes del Espanhol. Estado linguístico de la 
Península Ibérica hasta el siglo XI, 3.a edição, Madrid, 1950, assim como os vários 
artigos contidos na Enciclopedia Linguística Hispânica, dirigida por M. Alvar, A. 
Badía, R. de Balbin e L. F. Lindley Cintra, vol. |, Antecedentes, Onomástica, 
Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Madrid, 1960. A Historia de la 
Lengua Espafiola, 2.a edição, Madrid, s/d, de Rafael Lapesa, e a História da 
Língua Portuguesa de Serafim da Silva Neto, Rio de Janeiro, 1952-57, são 
também úteis como fundo geral. Merece especial referência o artigo de Harri 
Meier, «A formação da língua portuguesa», reeditado nos seus Ensaios de 
Filologia Românica, Lisboa, Revista de Portugal, 1948, pp. 5-30, em que se põe 
com muita clareza o problema das relações entre o português e os dialectos 
latinos. 


Entre as várias gramáticas históricas, deve salientar-se a Gramática Portugitesa, 
por Pilar Vázquez Cuesta e Maria Albertina Mendes da Luz, 2.1 edição, Biblioteca 
Románica Hispánica, Madrid, Editorial Gredos, 1961. 


O único historiador digno de menção que pôs o problema de uma individualidade 
dialectal do ocidente da Península como importante factor para o nascimento de 
Portugal foi Jaime Cortesão em Os Factores Democráticos na Formação de 
Portugal, reeditado como vol. | das suas Obras Completas, 2.,* edição, Lisboa, 
Portugália, 1966. Os seus argumentos foram postos em dúvida, mas com pobreza 
de razões, por Damião Peres Como nasceu Portugal, 7.-, edição, Porto, 
Portucalense Editora, 1970. 


d) Administração 


A fronteira portuguesa, tal como existe desde o século xiii, não é um simples 
produto dos acasos da Reconquista sobre os Muçulmanos. Nem sequer se pode 
considerar o resultado fortuito de aventuras militares contra os vizinhos cristãos. 
As suas origens e características permanentes têm de procurar-se no passado 
remoto e explicar-se principalmente pelos sistemas administrativos romano e 
muçulmano, acrescidos ainda do quadro eclesiástico cristão. 


No século i a. C. (27), as reformas administrativas de Augusto dividiram a antiga 
Hispania Ulterior em duas províncias, Lusitânia e Baetica, aproximadamente 
separadas pelo rio Guadiana. A Lusitânia, com capital em Emerita, compreendia 
toda a faixa ocidental da Hispânia, do mar do sul ao mar do norte. Contudo, pouco 


depois, entre 7 e2 a.C. a região a norte do Douro (Gallaecia) foi desmembrada 
da Lusitânia e anexada à província Tarraconensis, a antiga Hispania Citerior. 


Para fins judiciais, cada província dividia-se ainda em unidades mais pequenas, 
chamadas conventus. No primeiro século da nossa era, este sistema conventual 
achava-se já bem estabelecido. A Lusitânia englobava três deles, denominados 
Pacensis (da sua cidade capital, Pax), Scallabitanus (de Scallabis) e Emeritensis 
(de Emerita, que era também a capital de toda a província). Os primeiros dois 
estavam separados um do outro pelo Tejo. Uma fronteira artificial, provavelmente 
baseada em divisórias tradicionais de tribo, extremava o terceiro conventus dos 
outros dois. Também artificial, mas da mesma forma baseada em separação de 
povos indígenas, se mostrava a fronteira entre o nordeste da Lusitânia e a 
Tarraconensis. Esta última província estava dividida num grande número de 
conventus. Para o nosso caso, só os do noroeste podem ter algum interesse. 
Eram o Bracarensis (de Bracara), o Lucensis (de Lucus) e o Asturicensis (de 
Asturica). 


De todos estes pormenores, realcemos dois aspectos: a divisão entre sul e norte 
de «Portugal» pela linha do Douro, e a quase completa coincidência entre a área 
dos três conventus contíguos (o Bracarensis, o Scallabitanus e o Pacensis) e o 
presente Portugal. Existem, claro, diferenças mínimas, que derivam da 
«Reconquista», como procuraremos mostrar adiante. Para já, salientemos apenas 
que, embora o Guadiana representasse a principal separação entre a Lusitânia e a 
Baetica, alguns enclaves para oriente desse rio pertenciam administrativamente à 
Lusitânia. Era o caso de Serpa, hoje em dia parte de Portugal também. 


Na história subsequente do Império Romano existiram outras reformas 
administrativas. Nenhuma delas alterou a divisão conventual básica que 
acabámos de descrever. No século iii criou-se, durante pouco tempo, uma 
província de nome Antoniniana, que subtraiu a Gallaecia da Tarraconensis. Mas 
foi só nos fins do século Ill (2977) que o imperador Diocleciano instituiu a 
Gallaecia como província separada definitiva, com os três supramencionados 
conventus de Bracara, Lucus e Asturica. A capital era Bracara. 


Sabemos muito menos das subdivisões administrativas da província. Em cada 
uma existiam núcleos urbanos, os municipia, as coloniae, as praefecturae e as 
civitates, bem como áreas rurais conhecidas por gentes, mas não possuímos 
quaisquer mapas com as suas fronteiras nem listas do seu número. A medida que 
o tempo ia passando, foram-se desvanecendo as distinções entre os respectivos 
estatutos políticos e administrativos, que derivavam da sua origem, prevalecendo 
as civitates sobre todas as outras como nome geral. Não está ainda estudada a 
possível coincidência entre elas e unidades territoriais mais modernas. 


Algumas cidades emergiram como centros de relevância maior, quer política quer 
económica. Foi nelas que mais se desenvolveu o cristianismo, religião 
essencialmente urbana. Não admira assim que se tenham também tornado fulcros 
importantes de irradiação cristã. Pelos finais do período romano, maioria delas 


eram residência de bispos e capitais de distritos religiosos conhecidos como 
dioceses. No conventus Pacensis encontramos exemplos de cidades episcopais 
em Ossonoba e Ebora; no Scallabitanus, Olisipo ou Olisipona; no Bracarensis, 
Bracara e Aquae Flaviae. As dioceses coincidam em geral com municipia 
romanos tardios, mas nem sempre. Da mesma forma, não havia coincidência 
entre cidades episcopais e capitais de conventus. Ou, se a havia, a lista dos 
bispos conhecidos vem indicar algumas mudanças significativas no papel político 
desempenhado pelas cidades romanas, e provavelmente derivado de razões 
económicas e sociais. Scallabis, por exemplo, parece ter declinado a favor de 
Olisipo, visto que nunca houve bispo residente na antiga capital do conventus 
Scallabitanus. O mesmo se poderia dizer de Pax a favor de Ebora. Em alguns 
casos, porém, a escassez de fontes explica melhor a nossa ignorância sobre o 
assunto. Em regra, dentro de cada província, um dos bispos -o que vivia na 
capital- gozava de certa preeminência sobre os outros, embora sem autoridade 
real. Era o chamado metropolita e correspondia à autoridade civil da província. O 
metropolita da Lusitânia vivia em Emerita, o da Gallaecia em Bracara. 


Do quadro eclesiástico do ocidente da Península Ibérica, o facto significativo nos 
finais do Império Romano parece ter sido o surto de uma nova diocese no sul, a 
de Ossonoba. Foi a base para uma nova unidade administrativa e política 
permanente dentro da Lusitânia. 


Os Suevos e os Visigodos não trouxeram consigo grandes alterações. A civitas e 
o seu território circunvizinho, o territorium, foram suprimindo, aos poucos, para fins 
administrativos e políticos, tanto o conventus como a província. Isto queria dizer 
que a unidade política primeira e os problemas locais iam tendo cada vez mais 
importância, em oposição directa à existência de uma centralização geral e 
eficiente. Para fins práticos, a província (por vezes chamada ducado, porque o seu 
chefe era agora um duque, dux) deixou de ter qualquer significado real. Até a 
lembrança do seu nome se foi desvanecendo sem deixar traços na Idade Média. 
Durante a época visigoda, o enfraquecimento da autoridade provincial deu 
realidade única ao conventus, não porque desempenhasse qualquer papel de 
relevo na justiça ou na administração, mas porque a organização episcopal, 
sobrepondo-se a ele, o garantia e fixava. 


O conventus, todavia, iria desaparecer também. À medida que o cristianismo se 
expandia, novos bispados se iam fundando dentro de uma mesma área 
conventual. E estes, por sua vez, tornavam-se as unidades administrativas 
básicas acima das cidades e dos territórios. Na Lusitânia, novas dioceses 
surgiram, possivelmente durante os séculos vi e vii: em Pax, em Conimbria ou 
Colimbria, em Egitania, em Veseo, em Lamecum. Ao norte do Douro, fundaram-se 
bispados em Portucale, em Dumio e em Tude. Se, quanto a fronteiras, o 
conventus pô de sobreviver, isso deveu-se apenas a que as dioceses eclesiásticas 
estavam enquadradas por ele e acabavam nos seus limites. Porém, dentro de 
cada conventus, novas fracções se tornavam doravante possíveis, seguindo a 
fronteira de cada bispado. No ocidente da Península Ibérica, foi isso que 
aconteceu com as dioceses de Tude e Auriense, que compreendiam a área entre 


o Lima e a fronteira norte do conventus Bracarensis. Parte de Tude veio a tornar- 
se «portuguesa» por razões que iremos ver. A diocese de Egitania, um pouco para 
oriente do conventus Scallabitanus, e ao que parece pertencente ao Emeritensis, 
foi mais tarde acrescentada ao novo país. 


A conquista árabe respeitou e manteve por toda a parte as unidades 
administrativas existentes. Tal aconteceu na Síria e no Egipto, como na Pérsia. Tal 
aconteceu também na Península Ibérica. Só as denominações é que mudaram. 
Por todo o Islam estabeleceram-se emiratos, cada qual correspondendo a uma 
província ou grupo de províncias. Abaixo dos emiratos havia as kuwar (singular 
kura), ou distritos, coincidindo com os antigOs conventus ou com as dioceses 
religiosas. Dentro de cada kura existiam unidades menores, as quran (singular 
garya), ou comunidades locais. Razões de ordem militar levaram ao surto de 
outros distritos ou marcas, perto da fronteira, englobando várias kuwar, e onde os 
poderes civil e militar se achavam unificados sob um comando único e forte. Parte 
da Lusitânia formou, no fim do período muçulmano, uma dessas marcas, al-Tagr 
al-Adna, a marca «inferior», com sede ou em Marida (Emerita) ou em Batalyaws. 
Compreendia o território a norte e noroeste do Guadiana, para norte de Baja 
(Pax). 


No ocidente da Península Ibérica temos notícia de umas cinco ou sete kuwar: de 
sul para norte, eram UhOu nuba (Ocsonoba ou Ossonoba) com capital em Silb, 
Baja (Páx), Yabura (Ebora), al-Usbuna (Olisipone ou Olisipo), Santarin (Scallabis) 
e possivelmente Qulumriyya (Colimbria) e Antaniya (Egitania). Em alguns casos 
parece que a kura não coincidia com as unidades judiciais, abrangendo duas ou 
mais destas últimas. É por isso que há dúvidas sobre a existência de uma kura 
com capital em Yabura, que, não obstante, constituía a sede de um qadi (juiz), tal 
como Báãja. Mais para sul, a capital da kura de Uhsunuba foi transferida para Silb, 
enquanto a sede judicial parece ter permanecido na antiga cidade capital. Nos 
princípios do século xi, os juízes de al-UODbu nae Santar-in- foram fundidos num 
só, mas não sabemos qual deles prevaleceu. O mesmo deve ter acontecido com 
as duas kuwar, por razões militares. A norte do Douro, a autoridade muçulmana 
desaparecera nos fins do século VIl, depois de uns cinquenta anos de domínio 
irrequieto e incompleto. Ignoramos tudo dos seus problemas administrativos. Mas 
não há razões para supor que a conduta aí tenha sido diferente da de outras 
partes e que as unidades tradicionais hajam sido desfeitas. 


É fácil de ver que todas as kuwar correspondiam à divisão romana e eclesiástica 
mencionada atrás, pelo menos até ao Mondego. Para norte, razões militares 
aconselharam à unificação dos distritos mais pequenos para fins de melhor 
comando e defesa. Veseo e Lamecum eram cidades fronteiriças. Os seus bispos 
haviam fugido logo que puderam e deram conta de que se aproximava a 
protecção cristã. O mesmo aconteceu aos de Egitania e Colimbria. Vamos 
encontrá-los acompanhando os reis de León nas suas peregrinações. Os acasos 
da «Reconquista» trouxeram de novo os dois primeiros, mas forçaram-nos depois 


a fugir de novo. 


Nada de semelhante aconteceu no Sul, onde os bispos continuaram a residir em 
regiões pacíficas e bem organizadas. Contudo, escasseiam as fontes, pelo que 
nada ou praticamente nada sabemos acerca de alguns deles, mesmo se a sua 
existência se manteve até fins da era islâmica. 


Igualmente nos faltam estudos a informarem sobre as quran e sua coincidência 
provável, quer com civitates quer com territoria. Investigações neste campo 
mostrarão acaso uma impressionante continuidade. 


Assim, quando a «Reconquista» começou e a ordem cristã foi gradualmente 
submergindo todo o ocidente da Península Ibérica, nada de essencial fora mudado 
nas fronteiras e nas tradições administrativas que, em alguns casos, tinham quase 
um milénio de existência. Não admira que um tal quadro permanecesse sempre 
no espírito de reis, senhores, bispos e comunidades, nos seus esforços para 
organizar, governar ou simplesmente explorar. 


Bibliografia-O melhor estudo de conjunto sobre a administração romana na 
Espanha foi escrito por Eugêne aAlbertiffi, Les divisions administratives de 
VEspagne Romaine, Paris, E. de Boccard, 1923. Podem ver-se resumos em 
qualquer história da Península Ibérica, nomeadamente na Historia de Espafia, 
dirigida por Ramón Menéndez Pidal, t. Il, Espafia Romana (218 a. de J. C. -414 de 
J. C.), 2.a edição, Madrid, Espasa Calpe S. A., 1955, cujos capítulos sobre 
administração foram escritos por Manuel Torres. Para as épocas visigoda, sueva e 
muçulmana, os tomos Ill e V da mesma Historia de Espa-fia, Madrid, 1940-57, 
permitem uma visão geral (capítulos respectivamente por Manuel Torres e E. Lévi- 
Provençal). Este último volume é, na parte escrita pelo mencionado autor, uma 
tradução 'adaptada (por Emílio Garcia Gómez) de Lévi-Provençal, na edição 
francesa original, Histoire de VEspagne Musulmane, volume Ill, Le Siécle du 
Califat de Cordoue, Paris, Ed. Maisonneuve, 1953. É importante completar e 
corrigir este trabalho, em especial para períodos mais recentes do domínio 
muçulmano, com os vários artigos da Encyclopaedia of Islam, nova edição, 
dirigida por B. Lewis, Ch. Pellat e J. Schacht, Leyde-Paris, 1960 ss. (existe 
também edição francesa). 


Para pormenores sobre a Lusitânia, encontra-se ainda uma boa descrição no 
clássico Cardeal Saraiva (D. Francisco de S. Luis) no seu artigo «Limites da 
Lusitania Antiga» (Obras Completas, vol. Il, Lisboa, Imprensa Nacional, 1873, pp. 
67-94). Muito melhor se mostra naturalmente Cláudio Sânchez-Albornoz no seu 
artigo «Divisiones tribales y administrativas del solar del reino de Asturias en la 
época romana» (Boletín de la Real Acade-mia de la Historia, t. 95, 1, Madrid, 
Julho-Setembro 1929, pp. 315-395). 


Sobre as divisões eclesiásticas veja-se Zacarias Garcia Villada, Historia 
Eclesidstica de Espalía, vols. 1 e Il, Madrid, 1929-36, Fortunato de Almeida, 
História da Igreja em Portugal, vol. |, nova edição, Porto, Portucalense, 1966, e 
Pierre David, Études historiques sur la Galice et le Portugal du Vle au XIje siêcle, 
collection Portugaise, VII, Institut Français au Portugal, Lísboa-Paris, 1947. 


Sobre a divisão muçulmana e, em geral, a geografia do futuro Portugal sob o 
domínio árabe, ver o artigo de David Lopes, «Os Arabes nas obras de Alexandre 
Herculano», Boletim da Segunda Classe, Academia das Ciências de Lisboa, vols. 
111 (1909-1910) e IV (1910-1911). 


Jaime Cortesão (em Os Factores Democráticos na Formação de Portugal, 
mencionada atrás) foi o primeiro historiador a notar e a salientar o papel 
desempenhado pelos limites administrativos romanos nas origens de Portugal. 


e) Comunicações e povoamento 


Já foi mencionada a existência de uma área escassamente povoada entre a parte 
sul e a parte norte do ocidente da Península Ibérica. Os Romanos, no seu esforço 
para centralizar a administração, civilizar e pacificar as tribos indígenas, 
construíram uma vasta rede de estradas, ligando para sempre regiões que até 
então se tinham mantido em maior ou menor isolamento. Tornaram-se assim 
possíveis comunicações fáceis entre todas as províncias e entre todos os 
conventus. No ocidente da Espanha, a Lusitânia e a Gallaecia estavam unidas por 
duas estradas principais, uma ligando Bracara com Olisipo, passando por 
Portucale, Conimbriga e Scallabis, e a outra relacionando Bracara com Emerita 
através das montanhas, via Caurium. No conventus mais meridional da Gallaecia, 
Bracara emergia como um centro vital de comunicações, de onde irradiavam 
quatro estradas com direcções diferentes, a saber, para noroeste (Iria), nordeste 
(Asturica), sudoeste (Portucale) e sueste/leste (Aquae Flaviae). Na Lusitânia, para 
sul do Tejo, existiam várias estradas importantes: uma começava defronte de 
Olisipo e seguia para a Baetica via Pax e Serpa; em Salacia, um ramo da mesma 
estrada dirigia-se para nordeste, para Ebora, e daí para Emerita. Ebora e Pax 
estavam também ligadas por uma estrada directa. Outro ramo da estrada Olisipo- 
Baetica, um pouco para sul de Salacia, seguia para Ossonoba, passando pela 
parte central do Alentejo de hoje. Uma outra via relacionava Pax com Aesuris, no 
extremo sul, a ocidente do Guadiana; e daí, cruzando o rio, havia estrada directa 
para Hispalis, a capital da Baetica. De Baesuris para ocidente, ao longo da costa, 
uma estrada muito frequentada atingia Ossonoba. Duas outras estradas, no norte 
do conventus Pacensis, começavam defronte de Scallabis, dirigindo-se 
respectivamente para Norba e Emerita. 


De todo este bastante complexo sistema de comunicações, salientemos dois 
factos: primeiro, a existência de duas áreas desenvolvidas, uma a norte do Douro, 
outra a sul da bacia do Tejo (incluindo portanto a margem norte do rio), separadas 
por uma vasta região de escasso povoamento e poucos núcleos relevantes; 
segundo, a ligação por estrada entre o Sul e o Norte, que pôs essas duas áreas 
em contacto relativamente fácil. 


Jaime Cortesão realçou a importância desta estrada sul/ norte para o surto e 
desenvolvimento de novos povoados e de uma vida económica complementar: 
«Ao longo dela e no ponto de encontro com as vias fluviais se formaram os 


centros urbanos de maior importância nesta região, durante a época romana e 
ainda em quase toda a Idade Média.» E, um pouco adiante, <tO sistema das 
estradas romanas, como instrumento de organização social, envolvia duas 
consequências do maior alcance para o futuro: aquilo a que chamaremos a 
atlantização, do povoamento e a sua unificação por meio duma linha dorsal no 
sentido meridiano.» * 

* Os Factores Democráticos na Formação de Portugal, Obras Completas, vol. |, 
Lisboa, 1964, p. 39, 


A rede vial romana expandiu-se com probabilidade depois do século iv. Dois dos 
mais importantes centros urbanos em tempo visigodo, sedes de novos bispados, 
situavam-se longe das estradas principais: Veseo e Lamecum. Um terceiro, 
Egitania, estava de facto ligado por estrada com Emerita, passando por Norba, 
mas provavelmente não tinha contacto com a parte ocidental da Lusitânia. Fora 
estas excepções, não há dúvida de que todas as cidades com significado político 
e económico em tempos visigodos e muçulmanos se localizavam ao longo das 
estradas romanas: as capitais de província, todas as sedes de conventus, kura e 
unidades judiciais, todas as cidades episcopais e até núcleos urbanos e centros 
rurais menores. 


Durante o período islâmico, a rede vial melhorou ligeiramente, sobretudo no Sul, 
onde se construíram algumas novas estradas. Todavia, entre os itinerários romano 
e muçulmano poucas diferenças existem, o que prova que, essencialmente, nada 
se modificou. 


Não temos suficientes provas, seja do período romano, seja dos primeiros tempos 
do período muçulmano, de que o Norte estivesse mais densamente povoado do 
que o Sul, como sucede hoje. Pelo contrário, conhecem-se mais povoados a sul 
do Tejo do que a norte. Embora quase tudo precise de ser investigado neste 
campo, parece que foi só nos tempos da «Reconquista» que tiveram lugar 
mudanças dignas de atenção. A situação explicava-se pelo próspero comércio e 
artesanato que caracterizavam todo o sul da Península. Ainda que ambas as 
partes se mostrassem predominantemente agrárias em suas características 
económicas, não há dúvida de que tanto o comércio como a navegação 
desempenharam no Sul um papel muito maior. Unir as duas regiões traria portanto 
uma fusão de sistemas diferentes, mas de certa maneira complementares, de 
economia e de actividade quotidiana. Vários historiadores têm salientado este 
aspecto para explicar a viabilidade de Portugal como unidade económica. Sem 
esquecer a sua importância, notemos porém que essas formas complementares 
foram muitas vezes o produto de tempos da «Reconquista», quando o Sul 
muçulmano entrava já em declínio, quer em recursos, quer em território. Não 
datarão de antes de isso. O Sul podia viver perfeitamente só, com suas correntes 
desenvolvidas de contactos «horizontais», oriente-ocidente e ocidente-oriente. 
Apesar de uma já existente e acaso intensa circulação de pessoas e mercadorias 
ao longo da estrada sul-norte, foi o fenómeno político-militar que explicou a 
inevitabilidade de um eixo «vertical», criando e consolidando a nação portuguesa. 


Bibliografia -Além das descrições da rede vial contidas nas histórias gerais antes 
mencionadas, faça-se especial referência aos excelentes mapas publicados por 
Emil Húbner, nas Inscriptiones Hispaniae Latinae, vol. II, e vol. Il, Supplementum, 
do Corpus Inscriptionum Latinarum, Berlim, 1869-92. E. Lévi-Provençal, Histoire 
de VEspagne Musulma-ne. tomo 111, Paris, 1953, inclui dois mapas dos 
itinerários muçulmanos. 


Jaime Cortesão escreveu um bom sumário dos problemas demográficos e 
económico-sociais no ocidente da Peninsula antes da «Reconquista», no seu já 
mencionado estudo, Os Factores Democráticos na Formação de Portugal (Obras 
Completas, vol. 1). 


2 -As unidades políticas 


Antes da formação de Portugal como estado separado no ocidente da Península, 
diversas outras unidades políticas surgiram e subsistiram por algum tempo em 
parte do seu futuro território. Entre elas nunca existiu continuidade. Muito se tem 
escrito sobre a influência que esses estados teriam exercido no nascimento de 
Portugal e na sua permanência como Nação. Mas as provas são dúbias, e à 
serena objectividade histórica têm-se sempre sobreposto objectivos patrióticos de 
encontrar tradições antigas para o novo reino. Em passado tão remoto, parece 
difícil descobrir mais do que raízes, e estas mesmas bastante ténues. 


a) O reino dos Suevos 


Entre os povos bárbaros que invadiram a Espanha nos começos do século v, os 
Suevos desempenharam um dos principais papéis. Chegando por terra ou por 
mar, já em 411 haviam atingido o distante Noroeste, estabelecendo-se na 
Gallaecia como foederati e, a pouco e pouco, emergindo num forte reino. A sua 
história é toda ela confusão e obscuridade. E as fontes documentais mostram-se 
tão escassas que não resta aos historiadores esperança de quadro mais claro até 
se ter avançado consideravelmente no campo da arqueologia. 


Por volta de 419, depois de se terem visto livres dos Alanos e dos Vândalos, os 
Suevos ficaram sós em campo e dividiram a Gallaecia com os indígenas. Como de 
costume, escolheram as zonas rurais e viraram as costas às cidades onde a 
população romana foi deixada em paz. O seu número era obviamente escasso, e 
diminuto foi o cunho que imprimiram na região. Não mais que meia dúzia de 
topónimos suevos parece terem sobrevivido até hoje. Não obstante, mostrou-se 
grande a sua combatividade, que durante muito tempo desafiou o domínio 
visigodo na Península. Pelos meados do século v, apogeu do império suevo na 
Espanha, este povo exercia soberania sobre a Gallaecia, Lusitânia, Baetica e 
parte da Cartaginensis,, efectuando razias contra a Tarraconensis. Como a 
maioria dos outros reinos bárbaros, contudo, o seu declínio foi tão rápido como o 
seu crescimento. 

O refluxo da maré trouxe os Visigodos ao próprio coração da monarquia sueva: 
Bracara foi atacada e tomada (456) e o rei Rechiarius feito prisioneiro e morto em 


Portucale (457). Uma nova dinastia, encetada por Maldra (ou Masdra), salvou o 
reino suevo de morte prematura. Quer como tributária dos Visigodos, quer 
coexistindo com eles numa área muito reduzida, a monarquia dos Suevos 
conseguiu durar mais de cem anos. Após um segundo período de combates 
contra os Visigodos (457-469) 

- em que os Suevos tiveram de evacuar Olisipone (469), conquistada num 
derradeiro avanço para sul - torna-se completo o silêncio que cai sobre eles. 
Aparentemente, conseguiram manter uma linha fronteiriça que incluífa-a Gallaecia 
e os dois bispados lusitanos de Veseo e Conimbriga, mais tarde transformados em 
quatro. Em suma, conseguiram conservar o Norte. 


Nem sequer sabemos se a dinastia deMasdra consistia em Suevos autênticos, ou 
se o rei com seus descendentes eram apenas indígenas (isto é, romanos) tintos 
de algum sangue suevo e reclamando a herança real sueva. Esta segunda 
possibilidade explicaria muito melhor a quase completa ausência de vestígios 
bárbaros tanto na Gallaecia como na Lusitânia. Fosse como fosse, o elemento 
romano veio depressa ao de cima e os bispos romanos cristãos ajudaram a 
organizar e a enquadrar a monarquia. Os Suevos eram originariamente pagãos. 
Por volta de 448, Rechiarius fez-se católico, desafiando assim os Visigodos, 
empedernidos na fé ariana. Por 465, Remismundus ou Recchismundus, filho de 
Masdra, converteu-se ao arianismo, provavelmente para manter o reino livre de 
conquista visigoda. Todavia, em meados do século vi, a influência e o crescimento 
da fé católica levaram os dirigentes suevos a nova conversão. Um missionário 
romano da Pannonia, Martinus (o futuro S. Martinho de Dume), talvez mandado 
por Constantinopla com objectivos político-religiosos (Justiniano empreendia ao 
tempo a conquista de toda a Espanha), chegou à Gallaecia (550) e rapidamente 
pôde exercer uma enorme influência sobre a élite dirigente, se não sobre o povo. 
A conversão pessoal do rei Chararicus data desse mesmo ano. Contudo, parece 
que, neste caso, a influência de Martinus tem de ser posta em dúvida, porque a 
conversão do monarca se explica melhor pelos contactos havidos com a 
monarquia franca e pelo prestígio de S. Martinho de Tours. Só em 559, no tempo 
de Theodemirus, se verificou segunda e decisiva conversão, desta vez partilhada 
por rei e corte. A reacção visigoda não se deu logo, mas quando veio foi brutal e 
definitiva. Cerca de 576 começou a campanha contra os Suevos. Depois de um 
breve intervalo, o último monarca suevo, Andeca, foi atacado e derrotado em 
Bracara e Portucale. O seu reino ficou incorporado no estado godo (585). 


De real interesse para o futuro Portugal só há que sublinhar a organização 
eclesiástica dos Suevos. 

Já se falou da fundação de novas dioceses - Egitania, Lamecum, Portucale e 
Tude. Mas Bracara e Lucus continuaram a desempenhar o papel maior. As suas 
cidades eram as mais importantes do reino, as verdadeiras « capitais». No século 
vi, as actas do segundo concílio de Bracara (572) mostram que dois centros 
metropolitanos coincidiam com elas, cada qual com seu número de bispados 
dependentes. Bracara dirigia as dioceses de Dumio, Portucale, Lamecum, Veseo, 
Conimbriga e Egitania. A linha divisória com Lucus passava no rio Lima. O facto 
interessante neste agrupamento está em que as dioceses de Lamecum, Veseo, 


Conimbriga e Egitania, outrora incluídas na província metropolitana de Emerita 
(Lusitânia), se atribuífam agora a Bracara (Gallaecia) por causa da nova unidade 
política. Esta 


43 


atribuição iria persistir até 660, setenta e cinco anos passados sobre a queda do 
reino que a originara. E os documentos onde se continha a lista dessas sete 
dioceses sob a égide de Bracara seriam invocados ainda, muito mais tarde, já no 
período da «Reconquista", pelos bispos de Braga, com o apoio dos soberanos de 
Portugal, para reclamar a herança eclesiástica dos Suevos e assim unificar todo o 
território compreendido entre o Lima e a bacia do Tejo. 


Bibliografia- Sobre os Suevos, todas as histórias não passam de resumos, tão 
escassas se mostram as fontes. Além das poucas páginas que lhes consagra 
Manuel Torres, na Historia de Espafia, dirigida por R. Menéndez Pidal, vol. III, 
existe um sumário actualizado no livro de Lucien Musset, Les Invasions: les 
vagues germaniques, colecção «Nouvelle Clio», n.' 12, Paris, P. U. F., 1965, pp. 
108-110 e 294. Sobre a sua origem e modo de chegada à Espanha, veja-se o 
interessante e assaz revolucionário artigo de Robert L. Reynolds, 
«Reconsideration on the history of the Suevi>, Revue Belge de Philologie et 
d'Histoire, XXXV, n.” 1 (1957), pp. 19-47. Embora de valor, o manual de Wilhelm 
Reinhart, Historia, General del Reino Hispánico de los Suevos, Madrid, 1952, deve 
ser usado com cuidado, particularmente no que respeita à história cultural, porque 
o autor apressa-se a creditar aos Suevos factos e vestígios que datam de outros 
períodos. 


Encontra-se ainda uma descrição política e religiosa digna de notícia em José 
Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia na parte que principalmente se refere 
a Portugal, vol. Ill, Lisboa, Imprensa Nacional, 1913, pp. 545-575. Para os 
aspectos religiosos e administrativos, o trabalho fund damental deve-se a Pierre 
David, Etudes Historiques sur la Galice et le Portugal du VI, au XIII* siécle, Lisboa- 
Paris, 1947, pp. 1-118. Veja-se por fim Luís Ribeiro Soares, A Linhagem Cultural 
de S. Martinho de Dume, Usboa, 1963. 


b) Os Condados da «Reconquista» no Norte 


Os Muçulmanos desembarcaram na Espanha, com objectivos de conquista, em 
711. Dois anos mais tarde, praticamente toda a Península se achava subjugada 
ao Islam. A Lusitania e a Gallaecia caíram em 713 também. A «Reconquista» 
cristã começou só nos meados do século viii, partindo, não de um reduto indómito 
no Norte, mas antes de uma rebelião fortalecida por várias migrações de nobres e 
de soldados para o norte. 


Como tantas outras campanhas militares na história, a «Reconquista» saltou de 
um pedacinho de território nas Astúrias 


44 

para uma vasta região limitada a sul pela bacia do Douro. Parece que uma revolta 
de Berberes deixara desarmados bom número de cidades e de castelos. Isto 
explica, em grande parte, as vitórias do rei Afonso |, que na verdade abrangeram 
toda a Gallaecia (à qual, daqui em diante, passaremos a chamar Galiza, com 
cheiro mais vernáculo) e alcançaram a Lusitania até Veseo (Viseu). Os 
Muçulmanos responderam com várias campanhas devastadoras, principalmente 
as de 764, 791, 794 e 840. Durante mais de um século, a maior parte da Galiza 
converteu-se, se não num campo de batalha, pelo menos numa zona de fronteira 
muito pouco segura, assaz desorganizada, com cidades meio desertas e meio 
queimadas, empobrecida e escassamente povoada, com todos os seus bispos 
(isto é, a maior parte das suas autoridades) em fuga para junto do rei onde 
gravitariam por longo tempo. O sul da Galiza, entre os rios Mínho e Douro, sofreu 
muito particularmente com uma tal situação. 


Foi só pelos meados do século ix que as condições melhoraram e se julgaram 
favoráveis bastante para uma reorganização - 

e um repovoamento generalizados. Duas antigas cidades, uma no Sul, Portucale, 
a outra no Norte, Chaves (a Flaviae romana), tornaram-se importantes centros 
administrativos de onde irradiou a maioria desses esforços. Al se estabeleceram 
condes nomeados pelo rei para dirigir as tarefas do povoamento. Vimara ou 
Vimarano Pérez, a quem o rei Afonso Ill confiou o governo de Portucale, não deve 
ser esquecido em qualquer descrição histórica das origens de Portugal. Pelos fins 
do século, a região deixara de ser considerada fronteira. Este era agora o caso 
das áreas a sul do Douro, onde as hostes cristãs se afadigavam na conquista de 
importantes cidades como Coimbra (a antiga Conimbriga ou Colimbria, a 
Qulumriyya árabe) em 878, Viseu, Lamego (a antiga Lamecum) e Idanha (a 
Egitania romana, a Antaniyya árabe). A sua reorganização começou pouco depois, 
pelo menos até ao rio Mondego. Pelos finais do século ix, todos os bispos a sul do 
Minho estavam de volta às suas dioceses, com excepção dos de Braga e Idanha. 


O optimismo cristão revelava-se, todavia, prematuro. Os Muçulmanos voltaram, e 
com eles novas destruições e nova desorganização. Ataques esporádicos e 
correrias para cá e para lá - numa delas, o rei Ordonho Ill atacou Lisboa em 955 - 
foram seguidos por uma campanha sistemática nos fins do século x: al-Mansur 
voltou a colocar a fronteira permanente no Douro, embora tivesse devastado toda 
a Galiza com seus ataques vitoriosos. Precisaram os cristãos de setenta anos 
mais para tornarem ao Mondego. Só em 1057 foi Lamego definitivamente 
reconquistada, depois Viseu (1058) e a seguir Coimbra (1063 ou 1064). Para 
avaliar das desastrosas condições de todo esse território, basta ter em conta as 
datas em que os bispados se restauraram: 1070-Braga; 1080-Coimbra; 1114- 
Portucale; meados do século xii - Lamego e Viseu. Dume (a antiga Dumio) nunca 
foi restaurada, sendo absorvida por Braga. A Idanha transferíu-se para a Guarda, 
mas só em 1199 é que foi para lá nomeado um novo bispo. 


Dentro do reino das Astúrias (ou de Leão como passou a ser conhecido depois do 
século x), as grandes unidades para fins administrativos eram Astúrias 


propriamente dita, Leão, Galiza e Castela. Eram as chamadas terrae, às vezes 
também provinciae, e o seu governo confiava-se a um conde (comes), igualmente 
chamado duque (dux). Contínuava-se, portanto, e reforçava-se a antiga tradição 
romana e visigoda. Havia, é claro, muitos outros condes (comites) que 
administravam unidades mais pequenas, também chamadas terrae ou territoria. É 
este duplo sentido, um lato e um restrito, de ambas as palavras terra e comes, que 
confunde frequentes vezes a análise histórica. Dux e provincia aplicavam-se 
sempre ao governador da unidade maior e à unidade maior em si. 


De tempos a tempos, testamentos régios e discórdias internas tornavam a Galiza 
«independente». Aconteceu isso com Ordonho Il, de 910 a 914, que foi rei da 
Galiza antes de ser rei de todo Leão. Aconteceu outra vez com Sancho Ordôilez, 
seu filho, de 926 a 929, e novamente com Ordonho IV, em 958-961. De 926 a 930, 
a Galiza foi ainda desmembrada em duas partes, dando-se o sul a Ramiro 
Ordóflez, que foi assim «rei de Portugal» antes de herdar a totalidade dos 
domínios de seu pai, como 


47 


Ramiro II (930-950). A última decisão real que concedeu à Galiza individualidade 
política teve lugar em 1065 quando, por morte de Fernando |, o país foi dado a um 
dos seus filhos, Garcia. Governou de 1065 a 1071. 


Estes curtos períodos de separação nada significavam. Eram coisa normal na 
maioria dos estados feudais e geralmente não implicavam quaisquer fins 
permanentes de autonomia. Nem sequer resultavam de esforços locais visando a 
independência. 


Nos finais do século ix, o território para sul do Lima e para norte do Douro, 
achando-se já suficientemente reorganizado e julgando-se importante de mais 
para se manter unificado com o resto da Galiza, foi destacado dela e entregue a 
um novo governador. Este funcionário surge com o titulo de dux, pelo menos a 
partir dos meados do século x. A nova unidade política tinha por sede Portucale, 
uma das primeiras cidades a ser repovoada e acaso a maior de todas à época. E 
o seu nome tornou-se gradualmente Portucale também, aparecendo esta palavra 
pela primeira vez, com sentido lato, em 938. O território (igualmente chamado 
terra e provincia) de Portucale - Portugal no dialecto que realmente se falava - 
estava além disso dividido em pequenos condados, da mesma forma 
denominados terrae ou territoria. 


Um dos primeiros governadores nomeados para a nova unidade, se não o 
primeiro de todos, foi um nobre castelhano de nome Diego Fernández. Casou com 
Onelga Lucidez, filha de Lucido Vimaraniz e neta do famoso Vimara Pérez. Estes 
dois tinham também sido condes mas nada sabemos sobre a extensão dos seus 
territórios, que se limitavam provavelmente às terrae mais pequenas. Diego 
Fernández morreu antes de Dezembro de 928. Sua filha Mumadona Díaz casara 
em 926 com o conde Hermenegildo (ou Mendo) Gonçalves, filho de um conde 


galego chamado Gonçalo. Todos três surgem apenas como comites, mas Diego e 
Hermenegildo, pelo menos, parece terem governado mais do que uma pequena 
terra. 


A linha dos duces conhecidos iniciou-se com o filho de Hermenegildo, Gonçalo 
Mendes, que herdou a província em 950 e morreu antes de 999. Depois dele, uma 
dinastia de cinco a seis 


48 


governadores mantiveram Portugal unido como um verdadeiro feudo dentro da 
mesma família até meados do século xi: Mendo Gonçalves, Tuta ou Toda, Alvito 
Nunes (talvez), Nuno Alvites, Mendo Nunes e Nuno Mendes. 


O papel desempenhado por Portugal e pelos seus dirigentes na monarquia 
leonesa estava longe de insignificante. Os seus duces interferiram várias vezes 
nos negócios políticos do reino. Bermudo Il (984-999) foi posto no trono pelo 
partido português. Seu filho Afonso V (999-1028) foi educado em Portugal, ao 
cuidado de Mendo Gonçalves, que tomou conta da regência durante a menoridade 
do rei (999-1008) e com ele casou a filha. 


49 


Mais tarde Nuno Mendes, neto de Mendo Gonçalves, ameaçou a autoridade do rei 
Garcia da Galiza. O seu espírito turbulento eclodiu finalmente em rebelião 
declarada, que Garcia conseguiu esmagar em 1071, pondo fim à dinastia ducal. 


A sul do Douro, os territórios conquistados formavam outra província chamada 
Coimbra, logicamente continuando a velha tradição administrativa. Parece, 
contudo, que no território de Coimbra jamais se processou a transmissão 
hereditária do governo, embora a mesma família o tivesse conservado por 
bastante tempo. Os condes Hermenegildo, Aires- Mendes, Ximeno Dias e Gonçalo 
Monis eram todos parentes. Ao conde Gonç alo Monis sucedeu como governador 
(tenens) de Coimbra seu filho Muno Gonçalves, cuja autoridade ficou depressa 
reduzida a nada quando todas as terras a sul do Douro caíram de novo nas mãos 
dos Muçulmanos. Os Cristãos voltaram, mas durante algum tempo não 
senhorearam mais que uma pequena área, colocada sob a égide dos duces 
portugueses. Era a chamada terra de Santa Maria (hoje em dia, Feira). 


50 

O crescimento e a força cada vez maior de Portugal constituíram problema óbvio 
para o rei Pernando | e para a sua política centralizadora. Tanto quanto sabemos, 
o monarca demitiu Mendo Nunes do governo da província, substituindo o dux por 
vários funcionários subalternos e amovíveis (chamados infanzones, maiorini, 
vicarii e economi), directamente nomeados por ele e dependentes da sua 
autoridade. Aparecem-lhes referências desde 1050. Fernando também separou de 
Portugal, para fins administrativos, a terra de Santa Maria. Incluiu-a na nova 


província de Coimbra, que voltou a criar e entregou (1064) ao moçárabe 
Sesnando Davidiz, um rico proprietário rural da região. Sesnando governou como 
dux ou alvasil ou praeses desde essa data até à sua morte, em 1091. Não tendo 
filhos, sucedeu-lhe seu genro Martim Monis. Estava a surgir, portanto, nova 
dinastia a sul do Douro. A evolução política de Portugal não a deixou prosseguir. 


Assim, durante quase duzentos anos, o todo ou uma grande parte do norte de 
Portugal manteve-se unido sob uma mesma família, com um governo central 
rudimentar, uma corte «ducal» estabelecida a norte do Douro (em Portucale, em 
Vimaranis, em Braga) e problemas comuns consequentes. Pouco se sabe da 
história social e económica deste autêntico feudo. Ainda parte do reino leonês e 
intimamente relacionado com os seus negócios políticos, não curaremos aqui de o 
estudar em pormenor. Mas não há dúvida de que um primeiro princípio de coesão 
fora alcançado, mantendo-se a separação permanente do resto da Galiza. Em 
tempos feudais, um tal facto tinha muito mais significado do que todas as tradições 
da administração romana ou mesmo visigoda. Traduzia um princípio de 
autonomia, a primeira afirmação continua de individualidade política frente ao 
reino de Leão. 


Bibliografia - Sobre os aspectos políticos rudimentares da «Reconquista» dos 
séculos viii a xi, pode utilizar-se qualquer boa História de Espanha. A mais 
actualizada e de confiança é talvez a de Luis Garela de Valdeavellano, Historia de 
Espafia, vols. 1 e 11, 3.11 edição, Madrid, Manuales de la Revista de Occidente, 
1968. 


Os primeiros dois séculos de «Portugal» foram conscienciosamente estudados por 
Luis Gonzaga de Azevedo na sua História de Portugal, 


51 


vol. Il, Lisboa, edições Bíblion, 1939. Contudo, foi Paulo Mereia que, em vários 
artigos modelares, precisou os limites e as circunstâncias do nascimento do novo 
estado. Veja-se a sua mais moderna colectânea de escritos, História e Direito 
(Escritos Dispersos), vol. |, Coimbra, Acta Universitatis Conimbrigensis, 1967, 
especialmente o seu «De Portucale (civitas) ao Portugal de D. Henrique» (pp. 177- 
214). 


c) Os reinos muçulmanos «taifas» no Sul 


Razões de ordem geográfica e económica conservaram sempre a região a sul da 
bacia do Tejo em íntima relação com o resto da Península. Não existia qualquer 
isolacionismo e só com dificuldade se elevavam os localismos a características 
gerais de coesão e autonomia. Não obstante, o Sudoeste da Península 
desempenhou o seu papel, que não foi pequeno, na história da Espanha 
muçulmana. De tempos a tempos, rebeliões locais alastravam por grandes áreas e 
davam origem a unidades políticas esporádicas. Sabemos pouco das suas 
possíveis raizes profundas. Mas não poderíamos omitir uma breve narrativa da 


sua existência, tanto mais que ela pode ajudar a explicar a unidade do futuro 
Portugal. 


Os Muçulmanos chamavam al-ãarb al-Andalus (o ocidente de Andaluz) a todo o 
território para ocidente e noroeste do Guadiana, correspondendo 
aproximadamente à Lusitânia romana e visigoda. Como o seu domínio efectivo 
sobre essa área ficou bem depressa reduzido aos territórios para sul do Mondego 
e depois, gradualmente, se estreitou ainda mais, al-garb foi perdendo em 
significado até se tornar apenas a faixa de território que constitui hoje a província 
portuguesa do Algarve. 


Pelo século ix, contudo, al-Garb al-Andalus era uma florescente e vasta região, 
abrangendo mais de uma kura e compreendendo várias grandes cidades. Foi aí 
que o rico proprietário rural de AÉírida, “Abd al-Rahmãn b. Marwan b. Yunus, 
cognominado Ibn al-Jili-ii-gi (o Galego), porque pertencia a uma família espanhola 
originária do Norte que se convertera ao Islam e tornara muwallad (convertido), se 
revoltou em 868 contra o emir de Córdova, Muhammad |. Durante algum tempo, 
conseguiu dominar a maior parte do al-garb, com base na região de Mérida. 


52 

Derrotado pelos exércitos do emir e obrigado a viver em Córdova, conseguiu fugir 
em 875, voltando para a sua cidade natal onde se rebelou outra vez, apoiado por 
Afonso Ill das Astúrias. Resistiu até 877. Exilado depois nas Astúrias, regressou 
em 

885, revoltando-se pela terceira vez. Primeiro em Antaniya, mais tarde em 
Batalyaws (Badajoz), al-Jilliqui separou-se dos príncipes de Córdova, e fundou um 
estado meio independente, teoricamente subordinado ao Emir, que duraria até 
930. Seu filho, que lhe sucedeu por volta de 912, teve de se render ao 

poderio do califa. O seu estado abrangera todo ou quase todo o al-Garb. 


No século xi, o califado de Córdova desmoronou-se. Em seu lugar surgiram por 
toda a Espanha muçulmana pequenos reinos chamados de taifas (do árabe al- 
tawa'if, partido ou bandeira). Entre 1012 e 1094 seis desses reinos nasceram e 
morreram no al-garb al-Andalus. 


A primeira revolta triunfante (1012) aconteceu em Walba (Huelva), onde a dinastia 
Bahri conseguiu governar durante cinquenta anos. Embora fosse uma das taifas 
menores, dominava não obstante uma faixa de costa que, de origem, incluía 
UhQúnuba, agora mais conhecida por Santa Mariya. Em 1026 a 'sua parte mais 
ocidental separou-se por seu turno para formar o principado ainda mais pequeno 
dos Banu-Harun. Com sede em Santa Mariya, os Banu-Harun, outra família de 
proprietários locais, mantiveram-se até 1052. A falta de outros vestígios, deixaram 
pelo menos o seu nome, que sobreviveu em vez de Santa Mariya na actual capital 
do Algarve, Faro (> Harun). 


No vale do Guadiana, Mártula (Mértola) com Baja (Beja) e provavelmente a 
totalidade da kura de Baja formava outra taifa sob Ibn Tayfur. Temos muito poucas 


informações acerca deste reino, mas parece que Baja foi mais tarde conquistada 
pelo governador de (ilb (Silves), ao serviço do rei de Isb-iliya (Sevilha). Mirtula 
ficou portanto isolada, o que apressou a sua. 


53 
54 As raízes de uma nação 


queda, por volta de 1044. Dilb separou-se também, mas só em 
1048. Al governaram os Banu Muzayn até 1063. 


As duas importantes taifas no al-garb foram, contudo, Isbiliya (Sevilha) e 
Batalyaws (Badajoz). Revoltando-se contra o califa logo em 1023, os Banu 'Abbíd 
alargaram o seu território para oriente e ocidente, absorvendo alguns dos vizinhos 
e ameaçando todos eles. A ocidente, Abu 'Amr 'Abb(ãd b. Muhammad, 
cognominado Al-Mu'tadid (1042-1069), conquistou sucessivamente Mártula 
(1044), Walba (1052), Santa Mariya (1052) e Silb (1063), impedindo o seu vizinho 
setentrional de se expandir para sul. Al-Mu'tamid (1069-1091) conquistou Qurtuba 
(Córdova) e Tulaytula (Toledo), bloqueando assim por completo o reino de 
Batalyaws a sul e oriente. 


Este reino de Batalyaws era o maior de todos, compreendendo o grosso da antiga 
Lusitânia, com capital em Batalyaws, nova cidade militar que aos poucos foi 
substituindo Mérida (Mérida). Sob a dinastia dos Banu- 1-Aftas, durou de 

1022 a 1094, tendo sido um dos últimos a cair. Teve por origem a marca inferior 
de al-Andalus, sucessora da Lusitânia, correspondente às kuwar de Marida, 
Batalyaws, Yabura, al-Us'bu-na, Santarin e Qulumriyya. Bãja também pertenceu 
durante algum tempo aos Banu 1-Aftas. Estes soberanos protegeram a cultura em 
especial Muhammad b. * Abd Allah al-Muzaffar (1045-1093), escritor e poeta, um 
dos mais prendados homens do seu tempo. Mas uma luta contínua com a taifa de 
Isbiliya enfraqueceu Batalyaws favorecendo o avanço cristão. Todo o norte do 
reino sucumbiu ante os exércitos de Fernando | de Leão e Castela, incluindo 
Qulumriyya. No reinado de * Umar al-Mutawakkil (1077-1094), Quriyya (Coria) 
rendeu-se também (1079), implicando o acesso ao vale do Tejo. Tão perigoso se 
afigurava o avanço cristão que al-Mutawakkil decidiu correr o risco de pedir 
auxílio aos Almorávidas. No pedido juntou-se-lhe o seu inimigo de IObLliya. Ora 
os Almorávidas haviam erguido imponente império no Norte de África. Sentiu-se a 
ameaça que representavam para a independência dos pequenos reinos de taifa. 
Mas os 

55 

Muçulmanos espanhóis não tinham outra escolha. Os  Almorávidas 
desembarcaram na Península, repeliram de facto os Cristãos mas resolveram ficar 
a reunificá-la sob o seu jugo. Invertendo alianças, o rei de Batalyaws pediu ajuda 
aos Cristãos, .1. . - abrindo-lhes as portas de Santarin e al-UGObuna (1093). Em 
vão. O poder Almorávida tornara-se forte de mais para que se lhe resistisse. Todo 
al-garb lhes caiu nas mãos (1094-1095). Pouco depois, as duas referidas cidades 
eram recuperadas (allUQbÚna em 1094, Éantarin em 1103) e a fronteira 


muçulmana atingia novamente a bacia do Mondego. 


Os reinos de taifa não duraram o bastante para criar no sudoeste da Península 
Ibérica um conjunto político unificado. Para mais, os seus laços com o resto da 
Espanha muçulmana mantiveram-se sem quebra, dentro dum sistema fácil de 
comunicações e de relações económicas desenvolvidas. Foram estados que 
nunca se sentiram auto-suficientes nem isolados do resto do mundo. Os seus 
chefes jamais assumiram o título de califa, ou sequer o de rei (malik) actuando 
sempre como representantes teóricos de uma autoridade suprema fictícia. 
Acentuaram-se, apesar de tudo, os localismos durante a sua existência. E se tais 
localismos nunca tiveram força bastante para cristalizar em independência, 
ajudaram certamente a sacudir um jugo doravante havido por insuportável. 
Cônscias dos seus pequenos interesses e oprimidas por um sistema militar cada 
dia mais pesado e mais rude, as parcelas locais do al-garb tornaram-se as 
melhores aliadas dos cristãos na consecução da « Reconquista?>. 


1 Bibliografia- Não existe qualquer história geral dos reinos de taifa. Lévi- 
Provençal morreu antes de ter concluído a análise monumental da história 
muçulmana, que se detém em 1031. O livro de Reinhart Dozy, Histoire des 
Musulmans d'Espagne jusqu'ã la conquête de VAndalousie par les Almoravides 
(711/1110), 4 vol., Leyde, E. J. Brill, 1861 (2.a edição, 

1932), é ainda o clássico a ser utilizado. Na nova edipão de The EncycloPaedia of 
Islam, Leiden-Londres, 1960 ss. (em publicação), encontram-se alguns excelentes 
artigos, tais como os sobre «Aftasids U, 242), «al-Andalus» U, 486) «Badia» U, 
862), «Batalyaws» U, 1092), «Gharb al-Andalus» (11, 1009), etc. Esses artigos 
incluem bibliografia actualizada. O artigo de David Lopes, «Os Arabes nas obras 
de Alexandre Herculano», Boletim da Segunda Classe, Academia Real das 
Ciências, Lisboa, vols. 111 (1909-1910) 


56 

e IV (1910-1911), contém muitos informes e comentários úteis. Só para o reino de 
Badajoz, desde as primeiras revoltas até à reconquista cristã, é que existem 
monografias razoáveis: Matias Ramóri Martínez y Martínez, Historia del Reino de 
Badajoz durante la dominación musulmana, Badajoz, 1904-05, e sobretudo 
Manuel Terrón Albarrán, El Solar de los Altásidas. Aportación Temática al Estudio 
del Reino Moro de Badajoz. Siglo XI, Centro de Estudios Extrernefios, Badajoz, 
1971. 


O livro de Antonio Prieto y Vives, Los Reyes de Taifas. Estudio histórico- 
numismático de los Musulmanes espafioles en el siglo V de la Hégira (XI de J. C.), 
Madrid, Junta para Ampliacióri de Estudios e Investigaciones Científicas, 1926, 
traz pouco de novo, a não ser no que respeita à numismática. 

CAPÍTULO 1 


A FORMAÇÃO DE PORTUGAL 


1 - O norte cristão 
a) De condado a reino 


Tem-se em geral por provado que o feudalismo nunca exiStiU- A base na 
Península Ibérica, à excepção da Catalunha, onde a influencia feudal francesa se 
fez sentir com maior intensidade do que noutras partes. A maioria dos 
historiadores espanhóis e portugueses negam, sem compromissos, a existência 
de estruturas feudais nos respectivos países, sublinhando o papel desempenhado 
pelos pequenos proprietários livres e a força decisiva da autoridade central. Foi a 
«Reconquista», argumentam, que impediu o feudalismo de evoluir até ao fim e o 
limitou a traços rudimentares. 


Esta escola de pensamento correspondeu a uma época em que se olhava o 
feudalismo sob um ponto de vista jurídico ou político apenas, e se aceitava como 
único padrão o feudalismo francês. Estruturas feudais e império carolíngio eram 
considerados indissolúveis. Umas resultavam do outro. 


Hoje em dia,-porém, tende-se a rejeitar tais princípios e a esclarecer que as 
estruturas feudais derivaram essencialmente das estruturas económicas e sociais 
romanas e que, onde quer que o império romano existiu ou exerceu influência, o 
feudalismo resultou como sua consequência lógica.- 


No capítulo Il estudar-se-ão com mais pormenor as estruturas feudais do ocidente 
da Península. Por ora, consideremos apenas alguns dos seus aspectos primários 
que possam explicar a formação de Portugal. 


60 

Não parecem dignas de consideração as comparações entre a França feudal e o 
estado português, ou entre a França e Leão, ou entre a França e Navarra. A 
França medieval nos séculos xi a xiii era um grande país, com uma superfície total 
de 

440 000 kM2 , enquanto Portugal passou de 35 000 kM2 (1096) a 89000 (1250), 
Leão com a Galiza de 78000kM2 nos fins do século xi a 118 000 (1230), data da 
sua união final com Castela, e Castela de 104 000 kM2 nos fins do século xi a 138 
000 (1230). A Navarra nunca excedeu 15 500 kM2 desde os fins do século xi. 
Aragão e a Catalunha (ou seja os estados da Coroa de Aragão) chegaram aos 
103 000 kM2 , nos meados do século xiii. Separados, as suas áreas reduziam-se 
para 16 000 kM2 (Aragão nos fins do século xi) e 32 000 kM2 (a Catalunha pela 
mesma altura). Por conseguinte, seriam mais legítimas comparações de tipo 
feudal entre qualquer dos reinos ibéricos e as unidades feudais francesas, tais 
como a Aquitânia (84 000 kM2 ), a Borgonha (44 000), a Bretanha (35 000), a 
Gasconha (29 000), ou a Normandia (28 000). 


Sobre os pequenos reinos que existiam na Península sempre pairou o mito de 
uma monarquia hispânica unida. Bem cônscios deste ideal, os reis de Leão, como 
herdeiros teóricos dos soberanos visigodos, adoptaram o título de imperador, que 


começaram a usar, embora esporadicamente, a partir dos princípios do século x. 
Afonso VI (1072-1109) e seu neto Afonso VII (1126-1157) procuraram impor a sua 
autoridade suserana a todos os soberanos da Espanha. Como «imperadores», 
podiam e deviam ter reis por vassalos. E é exactamente essa relação entre tais 
«reis» e o seu «imperador» que precisa de ser analisada primeiro. No caso de 
Portugal, ela mostra-se altamente reveladora e constitui explicação suficiente para 
o seu nascimento como estado autónomo. 


Pelos finais do século xi, antecedendo franceses das cruzadas do Oriente, 
chegaram à Península Ibérica, com o objectivo primacial de combater o infiel e 
ajudar os príncipes cristãos contra a ameaça almorávida, vários contingentes de 
cavaleiros franceses, acompanhados também de alguma peonagem. A maioria 
dos cavaleiros e dos seus chefes haviam sido 


61 

recrutados, como se sabe, entre os filhos-segundos a quem escasseavam terra e 
glória. Um deles era Raimundo, conde de Amous, quarto filho de Guilherme | o 
Grande (cognominado Tête-hárdie, «cabeça ousada») conde da Borgonha (1059- 
1087). Como apanágio, Raimundo tinha um condado muito pequeno e de pouca 
importância na região do Jura. Veio uma primeira vez em 1086 ou 1087, sob o 
comando do duque de Borgonha Eude | (1079-1102) e depois, uma segunda vez, 
em 1090, para ficar. Agora, o objectivo da sua vinda não era militar, ou pelo 
menos não o era primacialmente. Chamaram-no para noivo de Urraca, a única 
filha legítima e herdeira do «imperador» Afonso VI, rei de Leão, Castela, Galiza e 
Portugal, e de Constança, tia do duque Eude. Este casamento fora tratado, ou 
pelo menos apoiado, por esta última e pelos beneditinos da congregação de 
Cluny, cujo abade, Hugo, era também tio da rainha Constança. 


Raimundo casou de facto com Urraca em 1091. Enquanto 'Henrique não ascendia 
ao trono com sua mulher, foi-lhe dado o governo de Borgopob, (tenência) da 
Galiza, em 1093. Ao que parece, conquistou certa fama e glória quando dirigiu 
uma campanha militar na bacia do Tejo entrando em Santarém e em Lisboa 
triunfalmente, a convite do rei muçulmano de Badajoz que decidira entregar as 
cidades aos Cristãos ante promessa de ajuda contra os Almorávidas. Talvez 
devido a isso, foi-lhe também concedido o governo de Portugal (entre o Minho e o 
Douro) e mais o de Coimbra (a sul do Douro), em 1094. Era um território grande 
de mais para ser dado a uma pessoa só, mesmo a um genro que esperava herdar 
a coroa. Assim, em 1096, Afonso VI decidiu entregar Portugal e Coimbra ao seu 
novo genro, Henrique. Este Henrique era primo de Raimundo, irmão de dois 
duques da Borgonha, Hugo | que abdicara e se tornara monge cluniacense depois 
de um curto governo de três anos (1076-1079), e Eude |. Henrique era também 
um quarto filho-família, e aparentemente sem apanágios. Como Afonso não tinha 
mais filhas legítimas - e, de qualquer maneira, a Igreja proibiria um casamento 
entre primos directos - Henrique teve de aceitar Tarasia (Teresa), filha bastarda 
mas filha favorita do imperador. Contudo, quer como compen- 


62 


sação tácita, quer como condição estabelecida, foi-lhe dado todo o território a sul 
do Minho, na forma de feudo à maneira francesa. Embora se tenha perdido o 
documento original, outros documentos quase contemporâneos referem-se à 
concessão como tendo sido «jure hereditario» ou « pro sua hereditas» (sic), e a 
Henrique como «tenente». Estas expressões parecem contraditórias, porque um 
«tenens» (governador ou simplesmente detentor) não devia teoricamente 
transmitir o governo aos herdeiros. Contudo, isto acontecera várias vezes em 
Leão, embora sem expressa autorização régia. Os condes de Castela, pelo menos 
a partir dos meados do século x, tinham transmitido hereditariamente as suas 
terras: o conde Fernán González (930-970), o primeiro da dinastia, casou a filha 
Urraca com dois reis de Leão, Ordonho Ill e Ordonho IV. Em 1028, o jovem conde 
de Castela, Garcia Sánchez, ia casar com Sancha, filha do rei Afonso V e irmã do 
pequeno rei Bermudo Ill. CoMo uma espécie de dote, foi-lhe dada a tenência 
hereditária das terras de Pisuerga e Cea. De tempos a tempos afirmavam-se 
princípios de hereditariedade e, a partir do século x, a tendência geral foi para o 
governo dos condados ser mantido dentro da mesma família. Também em 

1089, ao famoso Cid, Rodrigo Díaz, prometeram-se todas as terras que 
conquistasse aos Muçulmanos, a oriente, «iure heredítario». Por último, é 
interessante lembrar que uns sessenta anos antes, o avô do conde D. Henrique, o 
duque Roberto |, recebera a Borgonha de seu irmão, Henrique | de França, não 
como apanágio mas em plena propriedade, «pro sua hereditate». 


Ao seu suserano, o conde D. Herrique ficava ligado pelos habituais laços de 
vassalagem: devia ser-lhe fiel e leal e prestar-lhe ajuda e conselho quando 
necessário. Fê-lo sempre, ao que parece, pelo menos até à morte de Afonso VI 
(1109). Confirmou diplomas imperiais, o que prova que era chamado às cúrias de 
Afonso e nelas participava. Ajudou o sogro em campanhas militares e ia com 
frequência à corte do imperador. Comportava-se, em suma, como um autêntico 
senhor feudal. 


Para o fim da vida, Afonso VI acalentou o sonho de transmitir a coroa ao seu único 
filho, Sancho, fruto ilegítimo que 


63 

lhe dera a concubina Zaira, filha do último rei muçulmano de Sevilha, al-Mu'tamid. 
A criança nascera provavelmente em 1099, quando Afonso se abeirava dos 
sessenta anos. Raimundo e Urraca, alarmados com a perspectiva, buscaram todo 
o apoio que puderam para manter os seus direitos. Por isso assinaram um pacto 
com Henrique (1105), nos termos do qual este se comprometia a apoiar as 
pretensões de Raimundo como herdeiro do trono, em troca do governo hereditário 
de Toledo e do seu antigo reino de taila, com um terço de todos os tesouros da 
cidade. Se Raimundo lhe não pudesse entregar Toledo, então a Galiza faria o 
mesmo efeito. 


Houve pouco tempo para Henrique e Raimundo consolidarem este pacto 
sucessório. Raimundo morreu em 1107, Sancho foi morto em 1108 e Afonso VI 
veio a fechar os olhos em 1109. Urraca herdou a coroa mas não o título 


«imperial», visto ser mulher. O seu segundo casamento com Afonso | de Aragão 
(1109) inaugurou um estado de guerra civil quase constante, que iria durar até à 
sua morte, em 1126. Nobres aragoneses, leoneses, castelhanos e galegos 
lutaram entre si durante anos a fio. Antes de morrer, Afonso VI investira, 
conjuntamente, a tenência da Galiza em Urraca e seu filho Afonso Raimundes 
com a cláusula de que este último governaria só se a mãe casasse outra vez. 
Afonso era ainda uma criança, mas os nobres galegos exigiram sem demora que 
fosse respeitada a cláusula testamentária do imperador, o que lhes dava muito 
maior liberdade de movimentos. 


Estas circunstâncias têm a sua importância para explicar a definitiva separação de 
Portugal. Muito habilmente, o conde D. Henrique nunca se comprometeu de todo 
com qualquer dos partidos, preferindo o lado sucessivamente vencedor e 
mantendo completa liberdade de acção, bem próxima da independência. De 1109 
até à morte, em 1112 ou 1114, deixou de cumprir os deveres feudais, embora sem 
se revoltar abertamente. Sua viúva D. Teresa herdou tanto o governo como a 
política do marido. Tinha jeito para intrigar e fê-lo várias vezes. Conseguiu também 
manter uma relativa independência, mas não com tanto 


64 

sucesso como Henrique, visto que foi forçada a acatar os cnamamentos da irmã 
para ir a Oviedo (1115) e teve, mais tarde, de lhe prestar expressamente 
homenagem (1121). Chegou a ser atacada pelos exércitos de Urraca e derrotada. 
Mas, em última análise, não só conservou todo o Portugal, como ainda lhe 
acrescentou alguns feudos, quer em terra quer em rendas, na Galiza, em Leão e 
em Castela. 


A morte de Urraca pôs Afonso Raimundes no trono (1126) com o nome de Afonso 
VII. O novo monarca não tardou a lembrar à tia os deveres feudais a que era 
obrigada, levando-a à submissão depois de uma breve campanha (1127). Pela 
primeira vez surgiu na história Afonso Henriques, filho de Teresa, um jovem de 
dezoito anos: cercado em Guimarães pelos exércitos do primo, teve de se render 
e prometer vassalagem. Em seu torno reunira um grupo de nobres que se 
opunham ao governo de D. Teresa e dum seu favorito galego, o conde Fernando 
Peres de Trava. Uma rebelião dentro de Portugal deu a Afonso Henriques vitória 
fácil na batalha de S. Mamede (próximo de Guimarães) em 1128. Teresa e Peres 
de Trava fugiram para a Galiza para não voltar. Aí viria a falecer a condessa 
destronada, em 1130. 


De 1128 a 1137, Afonso Henriques esteve em quase que permanente rebelião 
contra o primo Afonso Vll. Falar de independência, porém, seria anacrónico. O 
que Afonso Henriques provavelmente queria era a expansão territorial do seu 
feudo, com base em promessas e pretensões, mais ou menos fictícias ou 
falaciosas, que datavam do tempo de Urraca. Além disso, aspirava com certeza ao 
título de rei (rex). 


Na Espanha dos séculos xi e xii, rex (rei), regnum (reino) e regnare (reinar) 


significavam coisas diferentes. Regnare queria dizer, apenas, governar. Não só os 
reis (reges) regnabant mas também os duques, os condes, etc. Henrique, por 
exemplo, surge frequentemente na documentação como regnante (isto é, 
governando) em Portugal. Regnum tinha um significado muito mais preciso. 
Implicava um estado completamente independente, e não já um território feudal, 
embora com subordinação possível 

65 

a um imperador ou ao papa. Rex e o seu feminino regina eram apenas títulos, mas 
correspondendo a situações muito elevadas, porque só os possuidores de reinos 
(regna), suas mulheres e seus filhos é que os podiam usar. Assim, Afonso VI era 
rex (e além disso imperador) porque seu pai fora rex também e porque era o 
governante real de um estado independente. Urraca, sua filha, era regina pelas 
mesmas razões, e assim também Teresa, visto ser filha de rex, embora não 
governasse um reino. Afonso Henriques, contudo, não tinha direito a rex porque 
seu pai fora um conde e sua mãe não possuía regnum nenhum. Teoricamente, 
nem sequer era conde, porque se revoltara contra a mãe, a comtissa-regina legal, 
sem licença do seu senhor o rei, e, pior do que isso, tomara armas contra o 
próprio monarca. A face da lei, Afonso Henriques não passava de um rebelde, 
incorrendo no crime feudal de felonia. 


É interessante verificar que em todos os documentos anteriores a 1139, Afonso 
Henriques se apresenta sempre e apenas como infans (isto é, pertencendo à 
família real) ou como princeps (título geral, destituído de sentido preciso). Poder- 
se-ia ter intitulado dux, o que estava na tradição e fazia sentido. Mas, como dux, 
viria hierarquicamente abaixo de todos os grandes dirigentes da Península, o que 
ele obviamente não queria. 


Desejar ser rex não era loucura e tinha já precedentes. Antes de 1028, os nobres 
castelhanos pediram licenç a ao rei de Leão para que o seu conde-Garcia 
Sánchez assumisse o título de rex, visto que ia casar com a filha do rei. Depois de 
1035, Ramiro Sánchez, filho ilegítimo de Sancho de Navarra, tornou-se rex em 
Aragão. Seu filho, contudo, que não tinha direito ao título (visto que o pai estava 
sujeito à suserania do rei de Leão) assumiu-o sem embargo, e assim o fizeram 
todos os sucessores. No período de 1128-37, havia na Espanha cristã, além do 
rei-imperador de Leão e Castela, dois outros reges governantes, o de Aragão e o 
de Navarra. Afonso Henriques, cujo estado era maior do que qualquer dos dois, 
podia perfeitamente aspirar ao mesmo título. Rex não implicava independência no 
sentido de uma quebra completa dos laços feudais. Para mais, Afonso VII de Leão 
e Castela fizera-se solenemente proclamar «imperador» 


66 

nas cortes de Leão em 1135. Ora um imperador podia e devia ter reis como 
vassalos. Era coisa que só lhe enaltecia o prestígio e o poder. Assim se explica 
por que motivo Afonso VII não se opôs demasiadamente à ambição do primo. O 
que não podia era aceitar um rebelde como rei. Antes de mais, exigia-se 
submissão, lealdade e amizade. 


Em 1137 alcançou-se uma primeira paz. Foi assinado em Tui um acordo ou pacto 
onde se expunham algumas cláusulas feudais típicas: Afonso Henriques prometia 
ao seu senhor fidelidade O(ut sit... fidelis bona fide»), segurança, auxílio militar e 
conselho. Mas depressa se renovaram as hostilidades. Em 1140 Afonso 
Henriques invadiu a Galiza, enquanto Afonso VII entrava por sua vez em Portugal. 
Parece que, por essa altura, já Afonso Henriques se apresentava como rex, talvez 
depois da sua primeira vitória importante sobre os Muçulmanos, conseguida um 
ano antes. Foi só em 1143 que pôde ser negociado um acordo definitivo de paz, 
com a intervenção de um legado papal, o cardeal Guido da Vico, diácono de SS. 
Cosme e Damião. Perdeu-se o texto do tratado ou pacto. Aparentemente, 
concedia a Afonso Henriques o título de rei, embora mantendo todas as cláusulas 
de auxílio militar sempre que necessário. Não era ainda a independência. Mas era 
um enorme passo na sua direcção. 


A política externa do novo rei ia agora jogar-se na Itália. 

O seu objectivo consistia em obter reconhecimento formal do papa, tanto para o 
título quanto para o reino (como regnum). A maneira tipicamente feudal, Afonso | 
encomendou Portugal à Santa Sé e considerou-se, com todos os seus 
sucessores, vassalo lígio do papa. Prometeu também pagar, todos os anos; um 
pequeno tributo de quatro onças de ouro (umas 120 9). Esta submissão feudal 
constituía outro acto de felonia contra o seu senhor real, o imperador de Leão. 
Afonso Henriques não tinha o direito de dispor de Portugal como se de um reino 
«alodial» se tratasse. Sabia-o perfeitamente, como o sabiam os embaixadores 
leoneses que, mais tarde, o iriam contradizer junto do papa. O Pontífice sabia-o 
também e respondeu-lhe, sem subterfúgios e correctamente (1144). Não estava 
na política de Roma 

67 

apoiar tentativas de separação mas antes promover a união política sob uma 
chefia suprema que pudesse facilitar a luta contra o Islam. Além disso, Afonso VII 
de Leão era um filho favorito do papado, que lhe concedera a rosa de ouro. 
Portanto, embora louvando Afonso Henriques pelo seu acto e aceitando-lhe o 
tributo, o papa Lúcio Il chamou-lhe apenas dux portugalensis e, a Portugal, terra. 


la levar trinta e cinco anos ao monarca português a modificar a disposição do 
papa. la-lhe também custar importantes privilégios a conceder à Igreja. Além 
disso, teria de pagar quatro vezes mais do que antes, visto que o tributo anual foi 
aumentado de quatro onças para dois marcos (460 9), com uma importante soma 
paga adiantadamente Por este preço, o papa Alexandre Ill solenemente 
reconheceu Afonso como rei e o seu estado como reino, em 1179. 


Muito mudara, também, na monarquia leonesa. Depois da morte de Afonso Vil, 
em 1157, seus dois filhos Fernando e Sancho dividiram entre si o reino. Fernando 
herdou Leão e a Galiza com o título de Fernando Il, enquanto Sancho conservava 
Castela como Sancho Ill. Os dois reinos permaneceriam separados até 1230. O 
título de imperador foi abandonado. Não havia razão para que Afonso Henriques 
ou os seus sucessores se sentissem ligados a um acto de vassalidade teórica feita 
para com um imperador. Não admira que o rei de Portugal depois de 1157 


sentisse os mesmos direitos e os mesmos deveres que o rei de Léão ou o rei de 
Castela. 1157 foi para Portugal quase tão importante como 1143: mais um passo 
no caminho para a separação final. 


A luta por um Portugal autónomo esteve intimamente relacionada com certos 
problemas de administração eclesiástica. Foi acompanhada pela luta entre os 
arcebispos de Braga e os 

de Toledo, e pela tentativa de criar uma província metropolitana portuguesa 
coincidindo com as fronteiras políticas de Portugal. 

O arcebispo de Toledo, a quem o papa garantira, nos fins do século xi, o primado 
sobre toda a Espanha (que remontava ao 

68 

estado visigótico unido), deparou com a resistência do de Braga, consciente dos 
seus privilégios e tradições como metropolita da Galiza (até ao Douro). O longo 
conflito teve os seus heróis e os seus actos de desespero: o bispo D. Pedro de 
Braga, por exemplo, colocou-se, e à diocese, sob a autoridade do antipapa 
Clemente Ill (1091), para não se submeter à do seu rival toledano. Quando o 
conde D. Henrique recebeu Portugal, prontamente compreendeu a importância 
das pretensões de Braga, que desde logo apoiou. Conseguiu obter do papa 
Pascoal Il (1100) sentença favorável ao seu arcebispo. Alguns anos mais tarde, o 
arcebispo Geraldo deu novo passo em frente, conseguindo que o mesmo papa lhe 
reconhecesse o primado, não apenas sobre as antigas dioceses galegas, mas 
também sobre as de Coimbra, Viseu e Lamego (1103). Estava assim restaurada a 
velha tradição dos Suevos. 


Querelas entre Braga e Coimbra, a fraqueza do governo da condessa D. Teresa e, 
por fim, a decisão fatal do arcebispo de Braga, Maurício Burdino, de apoiar o 
imperador Henrique V, aceitando ser eleito como antipapa com o título de 
Gregório VIII (1118), comprometeram toda a situação. Braga perdeu o primado 
sobre os bispados a sul do Douro. Restaurada a antiga metrópole de Mérida, foi a 
rival de Braga, Compostela, que a recebeu com autoridade sobre as dioceses que 
outrora lhe tinham pertencido. 


Levou vários anos a restabelecer as conquistas do arcebispo D. Geraldo. Com 
Afonso Henriques, todas as dioceses de Portugal se unificaram uma vez mais sob 
o primado de Braga. Mas a conquista de Lisboa e do Alentejo veio repor o 
problema, porque estavam em restauração bispados que jamais haviam 
pertencido a Braga. Nem os reis portugueses nem os bispos portugueses 
conseguiram, em tempos medievais, resolver a questão na medida dos seus 
desejos. Praticamente, porém, Braga manteve a sua supremacia sobre todo o 
Portugal, sem que a obediência teórica a Santiago de Compostela ameaçasse a 
independência do País. Outro tanto acontecia na Galiza e em Leão, onde parte 
das dioceses aceitavam Braga como primaz. 

69 

Ás querelas com o papa e com os bispados limítrofes, sucederam-se novas 
questões: as que opunham o rei, de um lado, e a igreja portuguesa, do outro. 
Individualmente consideradas, tais questões parecem-nos hoje insignificantes e 


assaz triviais. Nasciam de conflitos sobre privilégios, doações régias ou jurisdição. 
Evoluíam e desapareciam consoante o capricho e as circunstâncias de um 
monarca, um bispo e um período de tempo. Tinham seus altos e baixos, suas 
épocas de violência e de transigência e acabavam sempre por se resolver em 
compromisso. Num contexto ampliado, porém, os conflitos entre rei e clero 
significaram muito mais. Corresponderam, em Portugal, a essas 

lutas ferozes do rei com a nobreza, que dilaceraram tantos países da Europa 
medieval. Foram lutas mortais entre os dois maiores proprietários de Portugal para 
a posse de influência permanente e de poder sem limites. A solução medieval 
pareceu um compromisso, um equilíbrio entre Igreja e Estado. Analisada em 
pormenor, todavia, significou o triunfo deste último, por incompleto e instável que 
pudesse ser. Ou melhor, correspondeu ao fim da primeira fase do combate que 
ainda continua e que pode encarar-se como uma das grandes constantes da 
história portuguesa. 


Embora com precedentes, os passos principais da luta começaram no reinado de 
Sancho |, opondo o rei aos bispos do Porto e de Coimbra. Parte do clero tomou o 
partido de Sancho, e assim o fizeram também os burgueses do Porto, revoltando- 
se contra o seu senhor feudal. Excomungado, o monarca pediu perdão ao 
aproximar-se a morte, e favoreceu a Igreja com generosas doações (1211). Seu 
filho Afonso II foi muito mais longe, conseguindo levantar a maioria do clero contra 
si e os seus partidários que, uma vez mais, inclufam cidadãos das cidades 
(Coimbra, por exemplo). Morreu, ao que parece, excomungado (1223). Sancho Il 
atacou os bispos de Braga, Coimbra e Porto, os mais poderosos do reino, que lhe 
pagaram na mesma moeda. Tão acerba foi a luta que resultou impossível 
qualquer compromisso, o que custou a Sancho o trono. Apoiados por outros 
membros do clero, aqueles três bispos conseguiram do papa Inocêncio IV a 
deposição do rei português (1245). Seu irmão D. Afonso, que então 


70 

vivia em França (era conde de Boulogne-sur-Mer pelo casamento com a condessa 
Matilde em 1238), aceitou o governo do País depois de assinar um acordo solene 
com o clero (Paris, 1245), Finda uma curta guerra civil, tomou posse do reino, 
expulsou Sancho e ascendeu ao trono pela morte deste último em Toledo, sem 
filhos (1248). Como rei, todavia, Afonso Ill revelou-se o maior inimigo daqueles 
que o tinham entronizado. Uma vez mais, a luta veio opor o monarca à grande 
maioria do clero. Uma vez mais o rei foi excomungado. E uma vez mais se 
submeteu, ao aproximar-se a morte (1279). Foi só no reinado do seu herdeiro e 
sucessor D. Dinis, que se assinou, com toda a solenidade, uma concordata com a 
Igreja (1289). 


O papel desempenhado, quer pela nobreza quer pelo povo, mostrou-se, em 
comparação, moderado e de pouca importância. Ambos actuaram, mais como 
aliados de qualquer das partes, do que como principais figurantes de uma causa 
própria. É verdade que sabemos muito menos das lutas políticas que o poder 
central teve de travar com os nobres e com o povo, do que daquelas que o 
opuseram ao clero. Afonso Il, Sancho Il, Afonso Ill, todos eles tiveram seus 


inimigos entre os nobres, em oposições de interesses que levaram muitas vezes 
ao conflito aberto. A guerra civil entre os dois irmãos (Sancho e Afonso) teve os 
seus aspectos de pugna feudal. Mas, no conjunto, a figura do Portugal político foi 
quase inteiramente moldada pelo rei e pelo clero, com seus partidários fiéis. 


b) O quadro do Norte 


Durante cerca de oitenta anos (dos meados do século xi aos meados do século 
xii) não se deram em Portugal modificações territoriais duradoiras. Isso permite- 
nos esboçar alguns dos traços mais característicos do seu quadro estrutural. 


Nota: O breve pontificado de João XXI (1276-77), o papa português de nome 
Pedro Julião, constituiu um interlúdio no conflito. 


71 

Portugal tinha uma área de aproximadamente 34 000 km2. Era um país muito 
pequeno para o nosso século vinte, mas assaz 

razoável em extensão na Europa do século xii. Vários outros 

reinos se lhe podiam comparar, como fossem Aragão, Navarra, a maior parte das 
tailas, Jerusalém, a Dinamarca, etc. Conquanto separado da Galiza, com a qual 
partilhava a maioria das condições geográficas, mostrava-se um país bastante 
homogéneo na 

sua parte fundamental, no que dizia respeito a clima, vegetação, características do 
solo, tipos e formas de povoamento humano, propriedade, e tradição religiosa, 
política e administrativa. O seu povo falava a mesma língua. Era um estado lógico, 
possível. Possuía coesão bastante para durar e para resistir a ameaças externas. 
Nestes termos, por causa das suas possibilidades expansivas, era um país com 
futuro-mesmo para padrões medievais. 


Contava uma elevada densidade de população. O coração do condado, ou seja, a 
área entre os rios Lima e Ave (actual distrito de Braga), tinha 667 paróquias ao 
findar o século xi. Isto correspondia à alta densidade de quase 2,5 paróquias por 
cada 10 km2. Outro tanto se registava, sem dúvida, no território entre o Lima e o 
Minho. A sul do Ave e a norte da bacia do Douro, a densidade era provavelmente 
ainda maior, como o tem sido sempre ao longo dos séculos. 


Mas noutras partes verificavam-se condições diferentes. 

O Sul de Portugal constituía terra de fronteira, mais fracamente colonizada. 
Também em Trás-os-Montes se notava um povoamento escasso, porque as 
características do solo e do clima não eram tão propícias como no Minho. Um 
historiador moderno, que analisou com cuidado a situação demográfica do 
bispado de Braga nesse tempo, calculou a sua população nuns 100 000 
habitantes. Se a este número somássemos outros 100 000 para o bispado do 
Porto, uma parcela mais ou menos semelhante para o território setentrional, e 
outro tanto para a restante parte do País, atingirí'amos uns hipotéticos 400 000. 
Em relação à área 


72 
73 
total, corresponderiam a uma densidade média de 16 habitantes por km2. 


A maior parte do povoamento encontrava-se disperso, como o exigiam as 
condições do solo e do clima. Apesar de todas as invasões, razias e ocupações, a 
população jamais fora erradicada dos seus lares, tão favorável se mostrava a 
geografia à 'multiplicação das pequenas herdades, das casas e das arroteias. Se 
havia poucos centros urbanos, existiam, em contrapartida, grande número de 
villae e de outras unidades rurais de exploração da terra. Braga era a grande 
cidade do Norte de Portugal. Perdera parte da sua povoação e ficara reduzida em 
área, se comparada com os tempos romanos. Nisto, limitava-se a seguir a regra 
geral em toda a Europa. Não obstante, ainda dispunha de uns 14 “hectares dentro 
das suas poderosas muralhas que datavam dos começos da «Reconquista». Era 
uma grande metrópole, com quatro paróquias e um número de habitantes não 
muito abaixo dos 5000. Importante nó de linhas de comunicação, Braga possuía 
um mínimo de condições para prosperar e para conduzir um país política e 
religiosamente. A sua grande catedral, começada a elevar-se nos fins do século xi 
ou nos princípios do século xii, correspondia no tamanho à importância da cidade. 


Próxima de Braga se mostrava Coimbra, a «capital» do Sul. As suas muralhas 
abrangiam uns 12 hectares, o que lhe conferia população semelhante, se não 
superior, porque as cidades muçulmanas contavam geralmente com uma 
densidade maior, conquanto menores em área. Tal como Braga, Coimbra tinha 
tradições de chefia religiosa e política. A sua situação geográfica iria favorecê-la 
definitivamente logo que a «Reconquista» recomeçasse e se fossem conquistando 
mais terras para sul. 


Portucale, ou simplesmente o Porto, vinha em terceiro lugar, mas a grande 
distância das outras duas. Em área, não ia muito além dos seis hectares. Seguia- 
se talvez Chaves, outra cidade de longas tradições. Todos os restantes «centros 
urbanos» eram apenas aldeias ou sedes de villa, mas dificilmente lhes 
poderíamos chamar cidades, mesmo com terminologia medieval. Assim sucedia 
com Guimarães, a villa de Vimara, pequeno burgo de 


174 

menos de um hectare, amuralhado nos fins do século x em protecção contra os 
ataques normandos, e mais tarde residência temporária do conde D. Herrique,-de 
D. Teresa e de D. Afonso Herriques. O crescimento de Guimarães, como o de 
outros burgos (Constantim de Panóias, Mesão Frio, Vila Nova de Gaia, Castro 
Laboreiro e mesmo o Porto, ou os burgos religiosos em redor de mosteiros 
fortificados, como Arouca, Lorvão e Tarouca) era fenómeno dos fins do século xi. 
Por volta de 1096, ainda o conde D. Henrique julgava necessário conceder-lhe 
foral, privilegiando todos aqueles que o tinham povoado ou queriam vir a povoá-lo. 


A revolução demográfica dos séculos xi, xii e xiii chegou provavelmente a 
Portugal, como a toda a Europa. Os forais mostram-nos povoamento recente ou 


quase em localidades como S. João da Pesqueira, Ansiães, Freixo, Ponte de 
Lima, etc. Regiões semidesertas na Beira e em Trás-os-Montes, que nunca 
haviam sido sistematicamente ocupadas antes, eram-no agora por pequenos 
grupos de colonos, como o revelam as cartas de foral, especialmente as 
concedidas pelo rei D. Sancho | (1185-1211). Contudo, o grosso do crescimento 
afectou as unidades rurais existentes, e é nelas que deve ser estudado. Acelerou- 
se o parcelamento da antiga Villa romana. Metades, terços e fracções ainda 
menores de villa foram surgindo por toda a parte para permitir um modo de vida - 
isto é, um rendimento - a um número crescente de filhos-segundos. Dentro de 
cada villa, as unidades mais pequenas (os casais, correspondente português do 
mansus), assignadas a cada família, eram parceladas para efeitos práticos entre 
os herdeiros sobreviventes, mesmo que permanecessem unidas para fins de 
pagamento de impostos. Os alódios tornaram-se menores e, em muitos casos, 
economicamente absurdos. Começaram então as migrações locais de área para 
área, e do campo para a cidade. As arroteias, quer de bosques quer pelo cultivo 
de baldios, ajudaram a resolver o problema. Foi por este tempo que se fundaram, 
aqui e além, novas villae, agora já mais no sentido de lugares ou de aldeias, do 
que no da antiga forma romana de centros de exploração rural. Um mapa das 
ainda existentes vilas novas, 


15 

aldeias novas e outros topónimos semelhantes mostra, sem sombra de dúvida, 
que o movimento afectou sobretudo o Minho e o vale do Douro: de 124 vilas novas 
setentrionais, 75 localizam-se a norte do Douro ou ao longo deste rio, com 
exclusão de Trás-os-Montes; a área favorita das aldeias novas foi o actual distrito 
do Porto, onde se encontram 43 do total de 74 para todo o Norte. Para os demais 
topónimos surgem números e percentagens correspondentes. No Sul, passado o 
Mondego, só existem 22 vilas novas e 12 aldeias novas, traduzindo, em 
percentagens sobre o total, 15 % e 14 % respectivamente. Portanto; o movimento 
resultou muito mais de necessidades internas de crescimento (afectando 
sobretudo províncias pacificadas e de há muito estabilizadas) do que de 
consequências da «Reconquista» com o objectivo de preencher espaços vazios 
causados por guerra e destruições. 


Não existem praticamente monografias sobre propriedade ou sobre formas de 
exploração agrária no Portugal dos séculos xi 

e xii No século x, muitas antigas villae continuavam nas mãos de um único 
proprietário, mas o processo de desintegração estava a acelerar-se e o quadro ia 
mostrar-se muito diferente já cem ou duzentos anos mais tarde. Não se 
encontravam praticamente grandes latifúndios, em parte devido às consequências 
do clima e das condições do solo. Não obstante, sempre existiam villae com os 
seus 600 hectares de área (Creixomil, por exemplo, no concelho de Guimarães), 
seguidas por outros exemplos como Vila do Conde (550 hectares) ou Abação (525 
hectares). Mas eram raras. Exemplos mais comuns deparavam-se em villae de 
tamanho médio, tais como Fromariz (100 hectares) e Quintela (60 hectares). E a 
maioria eram provavelmente ainda menores. Em cada villa, o sistema primitivo de 
organização económica e social atribufa uma grande parte (não contínua, mas 


distribuída pelo maior número possível de tipos de terra - campos de cereais, 
vinhas, pomares, pastos, bosques, etc.) ao proprietário, que directamente a 
explorava: era o palatium (paço em português), que também incluía a casa de 
morada, as casas dos trabalhadores, os estábulos, os celeiros e a igreja. O 
restante 


76 

estava dividido em parcelas, concedidas de forma precária a vários tipos de 
detentores: eram os casales (casais), quintanae (quintãs ou quintas) ou villares 
(vilares), correspondentes aos mansi da Europa Ocidental. Cada casal ou quinta 
dividia-se ainda em glebas, pedaços de terra longe de contínuos em área. Assim, 
à unidade do casal não correspondia qualquer continuidade de terra. 


Teoricamente, cada casal produzia o bastante para o viver de uma família, mas a 
sua área mudava muito de villa para villa. Das mencionadas anteriormente, 
Quintela, a mais pequena, englobava quatro casais, ou seja uma média de menos 
de dez hectares por cada um. Os sete casais de Fromariz tinham área idêntica 
cada qual. Abação compreendia uns trinta, com médias semelhantes. Creíxornil 
englobava uns cinquenta e quatro, cada um provavelmente ainda menor que dez 
hectares. A desintegração gradual da villa resultou na autonomia prática do casal. 
Na maioria dos casos, porém, era mantida oficialmente a unidade, que resultava 
da tradição, tanto para fins de administração central como para pagamento de 
impostos. Heranças, ou simplesmente a necessidade, podiam levar à partilha de 
uma villa mas não lhe afectavam a unidade, visto que o conjunto dos co- 
proprietários se substitufa ao proprietário único. O mesmo acontecia dentro de 
cada casal. Migrações para sul e para outras partes do País serviam, além disso, 
para evitar situações criticas que fizessem perigar o sistema existente, tornando-o 
economicamente impossível. 


Grande parte de terra pertencia à Igreja. A «Reconquista» cristã respeitara os 
direitos de propriedade, onde quer que existissem, mas transferira para os bispos 
e para os recém-criados mosteiros boa soma dos bens pertencentes às mesquitas 
muçulmanas. Enormes doações feitas por monarcas generosos rivalizavam com 
legados à hora da morte devidos a reis, nobres e até populares. Durante o século 
x e seguintes, a Igreja aumentou este património com numerosas compras. Não 
admira que, pelos começos do século xiii, os seus bens fundiários excedessem, 
em conjunto, os de qualquer outro proprietário do País. 


117 

A sé e cabido de Braga vinham à frente na lista dos grandes terratenentes 
eclesiásticos. As sés de Coimbra e do Porto possuíam um quinhão menor mas 
ainda assim imponente. Entre as ordens religiosas, estavam à cabeça os 
Beneditinos, com os mosteiros de Arouca, Paço de Sousa, Tibães e muitos outros, 
a maioria localizada a norte do Douro. Os Cluniacenses, chegados pelos finais do 
século xi, possufam alguns conventos de pouca importância e a sua riqueza e 
poder mostraram-se sempre muito reduzidos. Mas já os Cistercienses, que 
apareceram em Portugal nos meados da centúria seguinte, foram durante muito 


tempo altamente favorecidos pela realeza e pela sociedade. Travaram quase por 
completo o avanço beneditino para sul, absorvendo até alguns dos mosteiros 
desta ordem, como Lorvão. S. João de Tarouca, no norte, e Alcobaça, no centro, 
foram os mais ricos conventos da ordem de Cister. Os cónegos de Santo 
Agostinho (que, como os da Ordem de Prémontré seguiam o ordo novus da regra 
de SantO Agostinho) possufam a famosa igreja de Santa Cruz de Coimbra, 
ricamente dotada. As ordens militares conseguiram extensas doações no Sul mas 
a sua força económica a norte do Mondego mostrava-se pequena. Franciscanos e 
Dominicanos chegaram nos começos do século xiii para depressa rivalizarem com 
todas as outras ordens e catedrais em influência pastoral e cultural, bem como, 
mais tarde, em riqueza e em poderio. 


o crescimento das rendas da Igreja alcançara tais proporções no princípio do 
século de Duzentos que assustou e pôs em cheque a autoridade real. Afonso Il foi 
O primeiro monarca a atrever-se a desafiar a Igreja, proibindo compras de terra 
pelos institutos religiosos mas ainda assim permitindo aquisições particulares por 
parte de clérigos. A tentativa falhou mas estava lançado o princípio: Sancho Il 
continuou a política de seu pai com alguns resultados, não só efectivando as 
primeiras leis de Afonso Il como também decretando novas medidas, tais as que 
proibiam compras particulares pelo clero e até doações e legados à Igreja. A sua 
deposição em 1245 resultou, em parte, de decretos como este. 


A Igreja seguia-se imediatamente o rei na posse de propriedade territorial. O seu 
património fora adquirido por confisco, quer de terras fiscais (isto é, bens do fisco 
muçulmano), quer 


78 

de terras cujos proprietários haviam desaparecido ou tinham sido mortos, sem 
esperança de sucessão regular. A fortuna régia ainda incluía rendas e tributos 
sobre os seus novos súbditos. Mas os monarcas hispânicos eram prontos a dar o 
que tinham obtido por direito de conquista. Concessões à parentela, à nobreza em 
geral, ao clero, a bravos combatentes e clientes, não tardaram a reduzir esse 
património e a fazer, quantas vezes, perigar a posição do rei frente aos seus 
súbditos. Em Portugal, todo o património régio fora transferido pelos monarcas 
leoneses para as mãos do conde D. Henrique e de seus sucessores. 


Uma terceira parte dos bens fundiários estava nas mãos da nobreza. Adquiridos, 
fosse por doação real, fosse por direito de conquista, acrescidos depois por 
usurpação de tenências régias em propriedade alodial, as terras da nobreza 
espalhavam-se também por todo o País. Foi uma vez mais no reinado de Afonso Il 
que se tomaram as primeiras medidas de violação do poderio da nobreza. O 
monarca ordenou que todos os títulos de propriedade e todos os privilégios 
resultantes de doações régias lhe fossem apresentados para que os confirmasse 
a sua chancelaria. Esta medida tinha de ser seguida por um sistema organizado 
de inquéritos (inquirições), ordenados também por ele em 1220. Seguiram para o 
Minho (onde as usurpações e a confusão na posse da propriedade se mostravam 
maiores do que em qualquer outra província), comissões régias a determinar a 


natureza e a condição jurídica dos títulos e, mais especialmente, os direitos 
possuídos pela coroa (direitos reais) em terra, rendas e padroados religiosos. A 
morte do soberano (1223) e a subida ao trono do jovem D. Sancho Il impediram o 
prosseguimento de tais medidas e a sua efectivação prática. Para mais, a 
autoridade real não era ainda suficientemente forte e mostrava-se descentralizada 
em excesso para poder travar os abusos com eficácia e permanência. 


Mais pequena em área e em proventos se revelava a quarta e última parte, 
composta pelas terras alodiais na mão de pequenos proprietários livres, e as 
terras comuns exploradas por comunidades agrárias ou urbanas. 


19 

Examinando o número de documentos existentes a partir de 950 e até aos 
começos do século xii, fica-se com impressão de que a propriedade se manteve 
notavelmente estável, pelo menos até à década de 1060. Só uma percentagem 
muito reduzida de terra parece ter mudado de proprietário durante esse período. 
Pelos fins do século xi, pouco antes da doação de Portugal a Henrique de 
Borgonha, a situação mudou. Característica de nova era; dinâmica, no limiar de 
um período de expansão? Não o podemos afirmar com segurança, na falta 
absoluta de estudos neste campo. 


A estrutura social resultava das formas feudais típicas de Sociedade propriedade e 
de renda. Dentro dos seus senhorios (geralmente chamados coutos se pertenciam 
à Igreja, honras se à nobreza), os senhores detinham autoridade plena para todos 
os efeitos embora o rei conservasse os direitos de justiça suprema (expressa pelo 
exclusivo direito da pena de morte e do talhamento de membros) que sempre se 
esforçou por pôr em prática. Aí vivia uma população composta principalmente de 
servos, ligados à terra que cultivavam por tradição e por costume, impedidos de a 
deixarem mas também dê serem expulsos dela, e obrigados ao pagamento de 
uma renda proporcional à produção do ano, a que havia ainda a acrescentar 
prestações de serviços e outros tributos vários. Existiam diversas categorias de 
servidão, que têm sido teorizadas e classificadas pelos especialistas mas que, em 
boa verdade, significavam pouco na 

situação real do trabalhador. É certo que a mobilidade social causada pela 
«Reconquista» impediu uma completa estagnação dessa classe, contribuindo para 
libertar grande número de servos que, voluntariamente, deixavam os seus 
senhores, quer com licença destes quer muito simplesmente fugindo. 


Em torno do paço ou solar, vivia outro tipo de servos, cujos laços para com o 
senhor se mostravam mais pessoais e cujos deveres se relacionavam 
preferentemente com tarefas domésticas ou de artesanato. Não possuíam terra, 
sendo alimentados, vestidos e alojados directamente pelo senhor. Existiam 
também graus na sua condição, que os rotulavam e classificavam. Parte 


80 
do paço compunha-se de terra. Embora o seu cultivo fosse principalmente 
assegurado pelas jeiras dos servos (dois ou três dias de trabalho semanal), o 


senhor tinha, não obstante, os seus próprios feitores, fiscais e outra gente mais 
humilde. O rei mostrava-se um senhor como outro qualquer, e a situação social e 
económica dos habitantes das suas terras (reguengos) não parece ter sido 
melhor. 


Além dos servos, havia outros trabalhadores rurais, assim como artífices e criados 
de casa, que teoricamente podiam dispor da sua pessoa e dos seus bens, sair das 
terras ou deixar livremente os amos. Os laços que os prendiam baseavam-se 
antes em contratos de arrendamento ou de trabalho assalariado, mas a sua 
situação económica não seria essencialmente diferente da dos servos. Pelo 
contrário, podiam ser despedidos em qualquer momento ou receber ordem de 
despejo das terras e das casas onde viviam com relativa facilidade. Só detinham 
uma vantagem real, a de poderem adquirir um pedaço de terra própria ou de se 
mudarem para dentro da área dos concelhos, onde a sua promoção social e 
económica era já possível. Exactamente por causa disto, foi crescendo o seu 
número como consequência da «Reconquista» e, mais particularmente e 
rapidamente, a partir do século xii. A documentação refere-se-lhes utilizando 
vários nomes, consoante as suas posses e os seus laços de dependência para 
com o senhor: foreiros, se detinham um pedaço de terra que cultivavam mediante 
um contrato de aforamento, e herdadores, quando possuíam terra própria, 
constitufam os dois tipos básicos. Os mais ricos destes herdadores viviam em 
geral dentro da área de um concelho, que praticamente governavam. Se 
dispunham de rendimentos bastantes para ter um cavalo e ir à guerra a cavalo 
(com o armamento correspondente, entenda-se) recebiam nome de cavaleiros- 
vilãos. Todos os outros cafam dentro da categoria militar de peões. 


A escravatura nunca desapareceu de todo durante a Idade Média, variando o 
número de escravos muçulmanos com a intensidade e a violência das campanhas 
militares. Para os séculos xii e xiii, parece bem documentado o crescimento do 
seu número. Correspondeu às grandes guerras e conquistas iniciadas por volta de 
1130-40 e apenas concluídas um século mais tarde. 


81 

Entre os nobres, surgem-nos hoje confusas as distinções sociais, precisamente 
por causa do surto de uma nova nobreza em Portugal, durante os séculos xi e xii. 
A maioria das genealogias medievais começaram por esta época, devido 
sobretudo à emigração de além-fronteiras (Leão, Castela, França, Norte da 
Europa) e à promoção social como recompensa na guerra e em serviços. Bem 
depressa foram caindo nas mãos de um pequeno grupo de arrivistas e favoritos 
régios -a que teríamos de acrescentar uma pequena percentagem de proprietários 
locais - a maior parte das posições de vanguarda no poder e na riqueza. Esse 
número pouco excederia a centena anteriormente ao século xiii. Abaixo destes 
ricos-nomens vinha uma outra camada de aristocratas terratenentes, 
descendendo acaso, na sua maioria, de antigas famílias de homens livres 
(ingenui) dos períodos romano, suevo e visigodo. Muito maior em número (dez 
vezes mais, talvez), este grupo ou classe de infanções, cavaleiros e escudeiros 
ressentia-se com o poderio dos ricos-nomens e frequentes vezes causava 


perturbações e formava partidos. Não temos ainda estudos que nos dêem uma 
imagem clara de tais rivalidades e lutas. Mas é provável que os conflitos políticos 
nos reinados de Afonso Il e Sancho Il possam, em parte, explicar-se por 
oposições de interesses adentro da nobreza. A situação complicava-se pelo facto 
de muitos pequenos-nobres estarem ligados por laços feudais aos ricos-homens, 
a quem serviam como vassalos, tanto no seu sentido mais geral como no seu 
significado restrito de clientes pessoais. 


Como grupo social, o clero possuía pouca individualidade própria. A sua 
homogeneidade e coesão mostravam-se muito mais do ponto de vista religioso e 
intelectual do que do social ou económico. Nas fileiras superiores, os bispos, os 
abades e os mestres das ordens militares eram grandes senhores feudais, 
actuando e reagindo como membros da alta nobreza. Abaixo deles, vinha um 
grande número de clérigos descendo todos os degraus da hierarquia social, desde 
níveis de baixa-nobreza até condições inferiores de servidão. Alguns eram mesmo 
servos pessoais. 


82 

Economia 

A principal actividade económica e fonte de riqueza do País 

era provavelmente a criação de gado. Grande percentagem de terra consistia em 
pastagens. Os vales apertados e húmidos do Minho e da Beira setentrional 
mostravam-se- altamente propícios à pecuária. De facto, bois e vacas surgem 
constantemente mencionados na documentação dos séculos x, xi e xii como 
símbolos de riqueza e de bem-estar. Em gado ou nos seus equivalentes se 
avaliavam preços, medidas agrárias e impostos. Em Trás-os-Montes e em partes 
da Beira, gado ovino e gado caprino faziam as vezes do gado bovino. E em todo o 
País se criavam cavalos. 


Não era muito variada a produção agrária, predominando as terras de semeadura, 
as vinhas e os linhares, com alguns pomares e maciços de árvores à mistura. 
Entre os cereais, o trigo e o milhete desempenhavam o primeiro lugar no Minho, 
enquanto o centeio e a cevada predominavam nas regiões mais do interior. A 
cevada, necessária para forragem do gado, existia praticamente por toda a parte. 
Do linho provinha a matéria-prima para uma das poucas actividades «industriais» 
do País, tradicional em todo o Norte. Também o vinho se mostrava importante. 
Entre a fruta produzida, detinham o lugar cimeiro as maçãs e as castanhas. O 
papel da pesca como actividade económica do litoral não pode ser nem esquecido 
nem subestimado. Ao longo da costa existiam várias pequenas aldeias que 
dependiam só do peixe e que possuíam bom número de barcos para pescar. 
Pelos começos do século xiii, foi-se desenvolvendo uma política régia de impedir o 
avanço das dunas sobre os campos cultivados e de povoar o litoral. Assim se 
criaram ou desenvolveram diversas póvoas marítimas ao longo da costa nortenha. 


A maior parte da economia portuguesa do tempo tinha um carácter puramente 
local. Cada villa ou pequeno grupo de villae tendia a ser auto-suficiente e 
conseguia-o em regra. Unidades económicas e divisórias se mostravam também 


as possessões em terra de cada mosteiro ou de cada catedral, espalhadas 
normalmente por uma área bastante pequena. Grande parte do comércio local 
fazia-se em géneros. Existia, claro está, circulação monetária, mas estava longe 
de generalizada ou exclusiva. 


83 

O grosso dos contratos de aforamento, arrendamento ou compra-e-venda dos 
séculos x, xi e xii mencionam pagamento em géneros, muitas vezes combinado 
com dinheiro. Nem o conde D. Henrique nem D. Teresa julgaram necessário 
cunhar moeda, embora o pudessem ter feito. Circulavam os dinheiros de bilhão 
leoneses, juntamente com o cffnãr de ouro e o dirham de prata islâmicos e até 
nomisraata áureos de Bizâncio. Afonso Henriques, cujo longo reinado implicou 
acréscimo de fortuna, desenvolvimento do comércio e necessidade de prestígio, 
fez cunhar os primeiros morabitinos de ouro portugueses, que copiavam em 
tamanho e em valor, assim como em nome (morabitino, vem de al-Murabi- tun, o 
dinheiro dos Almorávidas), o seu modelo muçulmano. Cunhou também dinheiros 
de bulhão e porventura meios-dinheiros ou mealhas da mesma liga. Este duplo 
aspecto monetário espelhava com muita precisão a integração económica de 
Portugal, compromisso entre a influência meridional (muçulmana) e a origem 
setentrional (cristã). O comércio português nascera da viabilidade das correntes 
de intercâmbio, tanto com Leão como com o mundo islâmico (mais exactamente o 
reino de Badajoz). Portugal, porém, não tinha ainda muito que oferecer em troca. 
Foi, assim, vagarosamente, que esse comércio se desenvolveu. Pelos fins do 
século xi, já se mencionavam mercados em diversas cidades e aldeias, mas as 
primeiras feiras só surgiram nos finais da centúria seguinte, se esquecermos o 
exemplo único da feira de Ponte de Lima, criada antes de 1125. 


Em torno dos castelos do Porto, Guimarães, Constantim de Panóias, Mesão Frio, 
Gaia e outros, assim como em redor de alguns mosteiros fortificados, foram-se 
juntando pequenas colónias de mercadores. Nas «cidades» (Braga, Coimbra, 
Lamego, Viseu, Chaves) viviam outros mercadores. É possível que Coimbra 
desempenhasse, neste caso, um papel de relevo, próxima como estava do 
território muçulmano. Foi também em Coimbra, pouco antes de 1111, que se 
registou a única revolta «comunal» de que temos notícia, obrigando o conde D. 
Henrique a conceder-lhe novo e mais favorável foral. Mas Coimbra era uma 
excepção, e nenhuns outros exemplos nos ficaram. Este simples facto mostra 
claramente a fraqueza do elemento burguês, e o 


84 
papel apagado que os «burgenses» desempenharam na história política do tempo. 


Não sobreviveram grandes vestígios de comércio externo, embora as costas e os 
portos de Portugal fossem bem conhecidos de normandos e de cruzados, que 
regularmente faziam escala por eles, com fins múltiplos, desde o século ix e até 
meados do século xiii. Podem datar-se, porém, de 1194, os começos de um 
comércio a longa distância, data em que um navio flamengo carregado de 
mercadoria naufragou em costas portuguesas. 


O comércio aparentemente florescente dos meados da centúria de Duzentos (ver 
o capítulo Il) pressupõe longo período de preparação e actividade irregular, acerca 
do qual ignoramos tudo. 


administração 

Para fins políticos e administrativos, Portugal estava essencialmente dividido em 
terras ou territórios, cujo número sempre se mostrou flutuante. Regra geral, cada 
terra ou território correspondia a uma unidade política de suserania feudal, ou seja 
uma senhoria, mas esta regra estava cheia de excepções. Regra geral, também, 
cada terra era governada por um tenente, de nomeação ou confirmação régia, que 
se identificava com o senhor e suserano local. Mas bastas vezes os reis 
entregaram várias terras a um único tenente ou administrador por parte da coroa. 
Isso aconteceu, por exemplo, em regiões de Entre-Lima-e-Minho ou de Entre- 
Lima-e-Douro, cada qual subdividida em numerosos territórios. A norte do Douro, 
chegou a haver mais de quarenta, enquanto a sul desse rio e até à bacia do 
Mondego o número de territórios não ultrapassava os trinta. Onde se encontravam 
em maior concentração, no Minho e no Baixo Douro, a sua área mostrava-se 
bastante pequena. Em Trás-os-Montes e na maior parte da Beira, os territórios 
eram muito maiores e menos povoados. 


Para fins religiosos, os bispados faziam as vezes de grandes unidades 
administrativas. A norte do Lima, todas as terras pertenciam ao bispado de Tui, na 
Galiza. Entre o Lima e o Ave-Visela, incluindo a totalidade de Trás-os-Montes até 
ao Douro e duas regiões que mais tarde se tornariam leonesas (Baronceli 


85 

e Aliste), existia o arcebispado de Braga. A sul deste último, o bispado do Porto 
abrangia uma área relativamente pequena mas densamente povoada, 
correspondendo ao Baixo Douro. Seguia-se o bispado de Coimbra, estendendo-se 
até aos confins da conquista cristã e englobando os antigos bispados de Lamego, 
Viseu e Idanha que só foram restaurados nos meados e nos fins do século xii. 
Pela área, população e riqueza, Coimbra mostrou-se, durante algum tempo, a rival 
e a competidora próxima de Braga no que respeitava à supremacia e importância 
práticas nos planos religioso e político. Os bispados dividiam-se em arcediagados, 
cada qual mais ou menos correspondente a uma terra. A unidade religiosa mais 
pequena chamava-se paróquia ou freguesia. A freguesia surgira como substituta 
do antigo paço rural, sempre que o seu senhor, nos casos em que sobreviveu, 
deixara de constituir a fonte de protecção eficaz e o símbolo da riqueza e da 
autoridade junto da população de cada villa. Em vez dele, foi o padre da paróquia 
(ou o abade do mosteiro) que se tornou o chefe respeitado de muitas 
comunidades, aquele cuja influência jamais diminuiu. A sua área de acção 
coincidia com a da antiga villa, herdando dela a tradição unificadora. Não admira, 
pois, que o termo tradutor da realidade religiosa -filhos da igreja- persistisse como 
sinónimo da nova realidade político-social. 


A administração central pertencia ao rei e seus conselheiros, alguns dos quais 
com cargos bem determinados: a chefia do exército (alferes mor), a chefia da casa 


real (mordomo) e a detenção do selo real (chanceler). Antes dos começos do 
século iMi não existia qualquer registo sistemático dos actos régios. Os originais 
dos documentos copiavam-se duas ou três vezes e depositavam-se nos arquivos 
das mais importantes abadias ou igrejas. Com Afonso Il, embora mantendo-se o 
mesmo princípio, começaram a usar-se registos sistemáticos dos actos reais, que 
se conservavam juntamente com o selo e as outras insígnias do poder. Datam 
igualmente daquele monarca as primeiras leis gerais. Favoritos régios, 
funcionários e membros da família real formavam um pequeno grupo de pessoas 
que o rei frequentemente convocava e escutava. Era a sua cúria ou con- 


86 

selho. Quando havia assuntos mais importantes a requererem debate 
generalizado, o rei chamava então um grupo mais amplo de pessoas, incluindo os 
arcebispos e bispos, os principais abades, os chefes da nobreza ou os mais 
respeitados entre ela, os mestres das ordens militares, etc. Foi dessas 
convocações que derivou o princípio de assembleia ou parlamento do reino. A 
cúria real funcionava também como tribunal, podendo mesmo dizer-se que as 
atribuições jurídicas lhe ocupavam a maior parte do tempo e dos esforços. 


Bibliografia- 

Abundam as histórias gerais e os resumos, na sua maior parte de confiança no 
que respeita a factos e a desenvolvimentos políticos. As melhores são a História 
de Portugal, dirigida por Damião Peres, vols. | e Il, Barcelos, Portucalense, 1928- 
1929; a História de Portugal de Fortunato de Almeida, vol. |, Coimbra, edição do 
autor, 1922; a História de Portugal de Luís Gonzaga de Azevedo, vols. Ill a VI, 
Lisboa, Biblion, 

1941-44 (pára no fim do reinado de Sancho Il); e sempre, e acima de todos, 
Alexandre Herculano, História de Portugal, 9.a edição, oito volumes, Lisboa, 
Bertrand, s. d. (pára com Afonso III). 


A concessão de Portugal a Henrique de Borgonha tem sido estudada por 
numerosos autores: os melhores são Paulo Merêa, em defesa da tese tradicional, 
antifeudal, «Sobre as Origens de Portugal», in História e Direito (Escritos 
Diversos), t. |, Coimbra, 1967, pp. 177-311, e Charles Verlinden num curto mas 
claro artigo demonstrando o carácter feudal da tenência («Quelques Aspects de la 
Tenure au Portugal», Recueils de la Société Jean Bodin, Ill, Bruxelas, 1938, pp. 
231-243). 


Para as negociações com a Santa Sé, existe um excelente estudo por Carl 
Erdrnann, O Papado e Portugal no 1.0 Século da História Portuguesa, tradução 
do alemão de J. da Providéncia e Costa, publicações do Instituto Alemão da 
Universidade de Coimbra, Coimbra, 1935. A História da Igreja em Portugal dê 
Fortunato de Almeida, vol 1, nova edição, Porto, Portucalense, 1965, oferece um 
bom pano de fundo para o conhecimento das questões entre rei e clero. 


Os aspectos demográficos do norte de Portugal foram pormenorizadamente 
estudados por Avelino de Jesus da Costa, O Bispo D. Pedro e a Organização da 


Diocese de Braga, vol. | e Il, Coimbra, Instituto de Estudos Históricos Doutor 
Antônio de Vasconcelos, 1959. A villa e todo o sistema da propriedade tiveram em 
Alberto Sampaio («As villas do norte de Portugal», in Estudos Históricos e 
Económicos, vol. I, Porto, 1923, páginas 1-247) um consciencioso historiador. 
Para tudo isto, e para aspectos pormenorizados administrativos, sociais, 
económicos e até políticos, a obra de base continua a ser Henrique da Gama 
Barros História da Adminis- tração Pública em Portugal nos Séculos XIl a XV, 
segunda edição, onze volumes, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1945-54, apesar da 
tentativa pouco 

bem sucedida de Armando Castro de repor problemas e métodos (A Evolução 
Económica de Portugal dos Séculos XIl a XV, onze volumes, Lisboa, Portugália, 
1964-71). A visão resumida de Jaime Cortesão, tantas vezes mencionada, Os 
Factores Democráticos na Formação de Portugal, continua a merecer leitura 
atenta, em especial no que respeita à evolução económica e social. O artigo de 
Paulo Merêa na História de Portugal, dírigida por Damião Peres, vol. Il, pp. 445- 
524, é talvez a melhor tentativa de combinar problemas sociais e administrativos 
com factos numa forma compreensiva e erudita («Organização Social e 
Administração Pública»), 


A maior parte das obras indicadas inclui bibliografias desenvolvidas sobre 
aspectos mais pormenorizados. Também o Dicionário de História de Portugal, 
dirigido por Joel Serrão, quatro volumes, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1960-70, se 
deve recomendar vivamente como ad :udante imprescindível para toda a sorte de 
problemas e actualização bibliográfica. 


2 - O Sul islâmico 


O Império A sul do vale do Mondego continuava a existir e a progredir, cultural e 
economicamente, a civilização muçulmana, já velha de três séculos. 


A vitória almorávida de 1092-94 trouxera de novo a unificação. Al-Andalus estava, 
uma vez mais, governado por mãos fortes, senão por emires tolerantes e 
intelectualmente dotados. Meia Espanha era ainda muçulmana. Não havia 
quaisquer razões para acreditar que a outra metade fora perdida para sempre e 
que o domínio do Islam estava condenado à morte sem remissão. 


Ao reinado glorioso de Yu suf b. Tasufin (1061-1106), sucedeu-se o do mais fraco 
mas ainda capaz de impor respeito “Ali b. Yusuf (1106-43). Acontecimentos 
ocorridos em África, contudo, obrigaram “Ali a passar a maior parte do tempo em 
Marrocos e a aliviar por isso a pressão que exercia sobre os Cristãos. Não 
obstante, os Muçulmanos conseguiram ainda reconquistar Santarin (1110) e 
ameaçar os novos povoados cristãos situados a sul do Mondego. 


A queda de Saraqusta (Zaragoza) às mãos de Afonso | de Aragão (1118) deu o 
sinal da mudança. A rebelião geral de Qurtuba (Córdoba) foi seguida pela vitória 
aragonesa de Cutanda e pela perda de vários castelos e cidades. Em Marrocos, 
um novo Mahã surgiu a pregar a guerra santa, congregando em seu torno o 


partido dos fanáticos al-Muwahhidun (de onde Almohadas) ou seja, monoteístas 
unitários, que breve começaram 

89 

a levantar as massas (1121). O domínio almorávida em Espanha tornara-se, por 
esse tempo, mais e mais intolerável, obrigando centenas de moçárabes a, fugir 
para o norte. 


Em Leão, a morte de Urraca (1126) resultou em paz e em novas possibilidades de 
expansão. Na década de 1130, os três estados da Espanha cristã lançaram-se ao 
ataque que, com altos 

e baixos, vitórias e derrotas, iria durar trinta ou quarenta anos 

e somar novos territórios à cristandade. Este movimento foi acompanhado, e na 
verdade facilitado, pelo completo desmoronar do império almorávida. No ocidente 
da Península, Afonso Henriques fez construir o castelo de Leiria (1135), para 
servir de poderosa base defensiva e ofensiva. Alguns anos mais tarde, atreveu-se 
mesmo a um ousado, mas de forma alguma inédito raid, bem no coração da 
mourama. Atravessou o Tejo e internou-se na vasta planície quase deserta do 
Ribatejo e do Alentejo norte. Uns 110 km a sul do Tejo alcançou provavelmente a 
antiga estrada romana e muçulmana que o levou com facilidade para sul, distante 
mais de 200 km da fronteira. Em Ourique, pequena cidade perto dessa estrada, 
encontrou por fim o exército defensivo muçulmano, que conseguiu derrotar à 
frente de algumas centenas de homens a cavalo (1139). Era a sua primeira 
grande vitória mas não a pôde explorar. Tratara-se apenas de uma razia, sem o 
apoio de qualquer sistema organizado de abastecimentos e sem cobertura de 
reservas. Ourique estava longe de mais para ter algum significado na conquista 
cristã. Afonso Henriques regressou ao reino, muito provavelmente sem ter 
provocado no Alentejo islâmico qualquer perturbação de monta. 


Pouco tempo depois, começava o segundo período taifa. 
Este segundo período taifa revela-se do mais alto interesse por causa das suas 
relacionações com movimentos sociais e reli- 


90 

giosos. os sufis foram a alma da maioria das revoltas e o seu 

programa revolucionário e herético marcou o nascimento e a ascensão desses 
pequenos estados. Embora o sufismo se mostrasse essencialmente um modo de 
pensar e de sentir no domínio religioso, uma corrente mística reagindo contra o 
intelectualismo e o formalismo do Islam, as suas consequências e maneiras 
práticas de lutar tornáram-no socialmente significativo e 

perigoso. Pelo século x, o sufismo constitufa a mais poderosa força espiritual entre 
o povo. A sua carreira triunfal continuou durante os séculos xi e xii, com os 
inevitáveis altos e baixos. Especialmente permeáveis aos ensinamentos dos sufis 
se mostravam as organizações de mesteres, adoptando éticas e cerimónias que 
muitas vezes as convertiam numa espécie de associações secretas com fins 
subversivos em mente. 


Ora o grande dirigente da insurreição ocidental ibérica contra a autoridade e a 


centralização foi exactamente um sufi, Abu-l-Qasim al-Husaym b. Qasi, nascido 
em Silb, que viajara e estudara largamente por toda a Espanha. A sua revolução 
começou em Setembro de 1144 em AdQOírtula, onde era governador, com apoio 
de grande parte da população. Proclamou-se inym e Mahcú e o seu apelo às 
armas teve pronto acolhimento em QOilb e Eâbla. Um outro chefe religioso e social, 
Abu Mulfârnrnad Sídra,y b. Wazir, que era governador da maioria do Al-Garb, 
incluindo Batalyaws, Éája e )Wâbura, revoltou-se na sua cidade natal de 

Baja, recusando obedecer ao governo central (1144). Um terceiro chefe 
insurgente, Abu Wali-d Muhámmad b. al-Mundir, também de 8ilb, capturou, nesse 
mesmo ano, a sua cidade natal e logo depois UnhGdu nuba. Ambos vieram a 
Mártula e reconheceram 

a autoridade suprema de B. Qasi. Em troca, ambos foram confirmados nos» seus 
governos. Assim, Al-darb passou a formar como que uma confederação de três 
kuwar, sob a presidência de Adártula. Não sabemos até que ponto a rebelião se 
espalhou a al-U(ODbuna e a Santariin. Al-Mundir conseguiu apoderar-se de Wílba e 
| (O(bla (1145) mas falhou na conquista de IS'IjW711iya e Qurtuba. 91 

Por seu turno, Sidray entrava em Batalyaws (1145). Todo o Al-garb estava assim 
perdido para os Almorávidas. Mas a história da «confederação» não foi mais que 
uma guerra civil entre os três chefes, que alternadamente governaram nas cidades 
capitais das taifas. 


Tanto os Cristãos como os Almohadas se aproveitaram da anarquia política 
reinante. Afonso Henriques, evidentemente bem informado do que se estava a 
passar, avançou com os seus exércitos e conseguiu capturar Santarin (Março 
1147). Aproximadamente pela mesma altura, os Almohadas empreendiam com 
sucesso a submissão do Al-garb. Ddártula, Silb e todas as outras cidades caíram 
em seu poder. Quando, três meses mais tarde, com o valioso auxílio de uma frota 
de cruzados que se dirigiam para a Palestina (2.1 cruzada), Afonso Henriques se 
atreveu a cercar al-Usbu-na, a cidade não conseguiu reforços e rendeu-se após 
um cerco de três meses (Outubro 1147). 


A perda de territórios tão importantes não pôs fim às dissenções internas dos 
Muçulmanos. Por 1150, B. Qasi revoltou-se de novo em Qilb e recusou obedecer 
aos Almohadas. Apoiaram-no diversas outras revoltas em Qádis (Cádiz) e 
Batalyaws. Para obter auxilio, B. Qasi repetiu o traiçoeiro acto de sessenta anos 
atrás, mendigando uma aliança com os Cristãos em condições que 
desconhecemos no pormenor (1151). De qualquer maneira, o que conseguiu foi 
provocar uma revolta da sua própria gente, que o matou, entregando a cidade a 
al-Mundir (1151). Os Almohadas restauraram a ordem uma vez mais em 1156, 
quando Sidray, desta vez combatendo a seu favor e por sua delegação, entrou em 
Taliára (Tavira) e em Éilb. Mártula só veio a cair em 1157. 


O resultado óbvio de todas estas lutas foi a continuação da ofensiva cristã. 
Passado o Tejo, a fronteira deslocou-se para o Sado e as terras alentejanas. Al- 
Qasr Abu Danis (Alcácer do Sal) foi conquistada em 1158. Irradiando daí e do 
norte, outras ofensivas foram lançadas contra o Islam. Baja caiu (1162), ao que 
parece atacada por contingentes enviados pela cidade de Santarém (Santarin) sob 


o comando de Fernão Gonçalves. Um chefe 


92 

local e aventureiro, de nome Geraldo Geraldes (cognominado «O sem pavor»), 
lançou-se à conquista de diversas cidades onde é hoje a Estremadura espanhola, 
sendo ousado bastante para atacar e subjugar Y;ã-bura (Évora) em 1165, depois 
âirba (Serpa) em 1166, e até parte de Batalyaws (Badajoz) em 1168. Parecia que 
o mar do sul ia ser rapidamente alcançado, e que todo o Al-garb estava 
definitivamente perdido para o Islam. Mas não foi assim. Os Almohadas e o rei de 
Leão, Fernando Il, decidiram juntar forças contra os agressores portugueses que 
se mostravam empenhados em conquistar territórios, tanto nas áreas muçulmanas 
como naquelas a que os Leoneses se julgavam com direito. Unidos, conseguiram 
deter Afonso Henriques em Badajoz, quando o monarca português ajudava 
Geraldo Geraldes a concluir a conquista da alcáçova da cidade. Fernando Il pôde 
mesmo aprisioná-lo depois de um acidente a cavalo em que o rei de Portugal 
partiu a perna. Posto em liberdade, com a condição de entregar todos os castelos 
a leste do Alentejo e a norte, do Minho, para sempre incapaz de montar a cavalo, 
Afonso | tornou para o Norte para não voltar. Os Muçulmanos tinham agora tempo 
para sarar as feridas e construir novo e mais potente sistema defensivo e ofensivo. 


A grande invasão Almohada, que seria o último esforço muAlmobada çulmano 
importante para expulsar os Cristãos, começou com 

o califa Abu- Ya'q-ub Yu suf I, cognominado al-(Dahid (1163-84) e continuou com 
o seu sucessor Abu Ya'qub Yusuf Il, al-Mansur (1184-99). Em 1178, os exércitos 
portugueses comandados por D. Sancho, o futuro rei, haviam levado a efeito um 
raid para sul, atingindo a Andaluzia e os arredores de IsbÉiya. Era simplesmente 
uma razia sem consequências de maior, mas desta vez os Muçulmanos sentiram- 
se com força bastante para ripostar. Em 1184, uma grande ofensiva levou-os de 
novo até à linha do Tejo, onde foram cercar Santarém. Invertendo a sua primeira 
aliança, Fernando Il de Leão apressou-se agora a ajudar os Portugueses, 
obrigando os Almohadas a retirar para o Alentejo, onde algumas cidades 
fortificadas haviam resistido. A fronteira 


93 
situava-se agora a sul daquele rio e aí permaneceria durante quase meio século. 


Por 1189, os Portugueses atacaram de novo, apoiados por uma frota de cruzados 
que fizera escala em Lisboa (3.1, cruzada). -ilb (Silves) e seus arredores foram 
conquistados depois de feroz combate. Como consequência, o califa al-Mansur 
decidiu tirar vingança, Não apenas reconquistou 8ilb após demorado cerco (1190- 
91), mas também se dirigiu para norte, atravessou o Tejo e devastou a 
Estremadura até Torres Novas (1190). Em duas devastadoras campanhas, a de 
1184 e a de 1190, deslocou* uma vez mais a fronteira para o Tejo, com a única 
excepção de Évora que permaneceu cristã no meio de um deserto muçulmano. 


A «Reconquista» prosseguiria só muito mais tarde, quando o poderio dos 
Almohadas declinava visivelmente. Em Las Navas de Tolosa (1212) anunciou-se o 


fim do seu império; um exército coligado de castelhanos, aragoneses, navarros e 
portugueses desbaratou por completo o califa Ibri 'Abd Allah Muhammad, 
cognominado al-Nasir (1199-1213). 


Apesar desta derrota, os Muçulmanos tinham ainda força. Em Portugal, a única 
vantagem obtida pelos Cristãos durante o reinado de D. Afonso II (1211-23) foi a 
conquista de Alcácer do Sal, sobre o Sado. Nova esquadrilha de cruzados (5.1 
cruzada) tornou essa conquista possível em 1217. Mas seria apenas nas décadas 
de 1220 e 1230 que o colapso patente do império Almohada suscitou novo 
período de avanço, desta vez ininterrupto. Conduzidos pelo jovem Sancho II 
(1223-45), mas mais frequentemente pelas ordens militares de Santiago, 
Calatrava e Hospital, os Portugueses foram sucessivamente conquistando o 
Alentejo (1226-38) e parte do Algarve oriental (1234-38). Afonso III, irmão e 
sucessor de Sancho (1248-79) completou a conquista, apoderando-se do enclave 
isolado que os MuÇulmanos ainda detinham no Algarve ocidental, incluindo Silves 
e Faro (1249). 


Consideremos agora por um momento as características civilizacionais de todo 
esse Sul que, por tanto tempo, detivera 


94 
o avanço cristão. Bem escassas se mostram as fontes e escasso, também, se tem 
mostrado o interesse dos historiadores por essa área. 


Nos meados do século xi, mais de metade de Portugal era ainda muçulmano: uns 
53 500 kM2 . Gradualmente, 

a ofensiva cristã foi reduzindo esse espaço: um século passado, quando o Tejo se 
alcançou definitivamente como fronteira, restavam ainda aos Mouros 37 300 km1. 
Na década de 1230, pertenciam ao Islam menos de 15 300 krn2. Por último, o que 
ficou aos Muçulmanos entre 1238 e a conquista final de 1249 não compreendia 
2500 kM2. 


Que estes números, porém, não nos induzam a conclusões apressadas sobre o 
número de habitantes que viviam no al-garb. As condições geográficas a sul do 
Tejo eram, como são, opostas a uma densidade elevada de povoamento. O que 
dava importância demográfica e prosperidade económica ao al-éxarb não era 

uma distribuição populacional equilibrada, mas sim a existência de algumas 
grandes cidades e aldeias, desconhecidas do Norte. Aí residiam, tanto os ricos 
proprietários de campos de trigo, pomares e rebanhos, como os trabalhadores que 
os faziam produtivos. Aí viviam mercadores, artífices, marinheiros e pescadores 
também. O Sul mostrava-se urbano em carácter, embora exigisse pouco 
povoamento humano entre essas cidades. 


Os principais núcleos eram al-UGObu na e Santarin, cuja importância foi 
constantemente declinando, à medida que se lhes achegava a fronteira. Vinham 
depois Dintara (Sintra), al-Ma'din (Almada), al-Qasr Abu-Danis (Alcácer do Sal), 
Yalbas (Elvas), Yábura, (Évora), Julumâniya (Juromenha) Maura (Moura), Baja 


(Beja), Eirba (Serpa), Mártula (Mértola), Qilb (Silves), al-'Aliyã (Loulé), Santa Mar- 
i*ya al-Harun (Santa Maria de Faro), Talijíra. (Tavira) e Qaswálla (Cacela). Esta 
ordem é puramente geográfica e não corresponde a qualquer hierarquia na 
importância económica, política ou demográfica, hoje difícil de determinar. 


96 

Os escassos elementos da arqueologia, baseados sobretudo nas muralhas e nas 
fortificações das cidades, sugerem prioridade para al-Usbuna, Santarin, al-Qasr, 
Silb, Yabura e Martula. A importância de BãJa parece ter diminuído, enquanto 
pequenas aldeias de outrora, como Yalbas (Elvas) e al-Qasr, se ergueram a 
posições de relevo. Razões estratégicas, certamente, mas possíveis 
circunstâncias económicas também. Ai-uOb Úna era uma 

grande cidade para o ocidente de al-Andalus. Dentro das muralhas compreendia 
uns quinze hectares, embora a área urbana real se mostrasse maior, devido aos 
populosos subúrbios localizados a ocidente e a oriente. Não se podia comparar, 
claro está, com as grandes metrópoles peninsulares do tipo de fil3-1hya, 
(cinquenta hectares), Balansiyya (quarenta e cinco hectares) ou Malaga (trinta e 
sete hectares) já para não mencionar Tuláytula ou Qurtuba. Se considerarmos o 
número de habitantes de qualquer destas cidades, chegamos à conclusão de que 
o peso demográfico de al-UGbÚ:na não poderia ir muito além dos cinco mil. 
Mesmo assim, era uma cidade média para padrões europeus, pouco maior do que 
as suas rivais cristãs, Braga e Coimbra. Yabura tinha uns dez hectares e Silb não 
mais de sete. Não possuímos números para as outras cidades. 


A densidade de povoamento variava de região para região. A norte de al- 
UGQb una, o País mostrava-se bem cultivado e povoado. O vale do Tejo, 
especialmente a sua bacia oriental, continha núcleos importantes de gente. Outra 
região de concentração humana era a actual península de Setúbal. Seguiam-se as 
vastas áreas despovoadas do Alentejo e do Ribatejo de hoje, com alguns oásis de 
vida particularmente dignos de nota a leste de Yáibura e ao longo do Guadiana, 
nos actuais concelhos de Évora, Redondo, Portel, Reguengos, Alandroal, Vila 
Viçosa, Borba, Estremoz e Elvas. No Baixo Alentejo existiam algumas zonas 
dispersas de povoamento elaborado, mas era no Sul, no Algarve, que borbulhava 
uma vida intensa de pequenas comunidades rurais, semelhante à do Minho 
cristão. 


97 

A vida económica baseava-se evidentemente na agricultura. O Sul produzia 
cereais em abundância, sobretudo trigo, sendo famosa a região de Baúãta (entre 
al-UObu na e Santar-in) pela sua alta produtividade, o que fazia considerá-la um 
verdadeiro celeiro. A fruta e o azeite seguiam-se, se é que não detinham mesmo o 
primeiro lugar. Todo o país estava coberto de olivais, frequentes vezes à mistura 
com o trigo. O actual Algarve era 

então já um dos grandes produtores de figos e amêndoas, objecto de larga 
exportação. Em redor da cada cidade pomares, acompanhados de férteis e verdes 
hortas, alimentavam a população local, permitindo algumas exportações também. 
Os Muçulmanos ficaram famosos pela sua contribuição para as técnicas e 


melhoramentos agrícolas. Já sem falar em inventos e aperfeiçoamentos menores, 
foram eles que introduziram dois engenhos relevantes, a naura (nora) e a sanzya 
(azenha). Ambos estiveram na base do desenvolvimento rural de certas áreas do 
Sul, especialmente a nora. Os Muçulmanos também introduziram diversas plantas 
ou espalharam o seu uso. Trouxeram ou difundiram uma variedade botânica do 
trigo (trigo mourisco), o arroz, a laranja e o açafrão, só para mencionar uns poucos 
exemplos. 


Na economia, parte importante era desempenhada pelo peixe e pelo sal. As 
costas de Lisboa, de Setúbal e do Algarve, viradas ao meio-dia, tinham condições 
que muito particularmente favoreciam as actividades piscatórias. Pescadores do 
Sul terão ido a Marrocos e à costa africana, assim como para ocidente, até limites 
que hoje desconhecemos. É interessante notar que al-UObúna foi ponto de 
partida de aventuras marítimas, devidas acaso a pescadores, e que lendas 
tradicionais mencionavam a descoberta de terras inabitadas, porventura as Ilhas 
Canárias. Também ao longo dos estuários dos rios Tejo e Sado eram frequentes 
as salinas. 


Pouco se sabe da criação de gado, mas produzia-se bastante leite, manteiga e 
queijo, provavelmente de ovelha e de cabra. A abundância de bolota convidaria à 
criação de porcos, ao menos entre os camponeses cristãos, já que a religião 
islâmica se mostrava contrária à existência de tais animais. 


98 

Havia minas de cobre e de prata no Alentejo, minas de estanho no Algarve e 
recolhia-se algum ouro no Baixo Tejo. Também se conseguia âmbar em redor de 
al-UGOb una e de Santarin. 


Pesca, sal e águas pacíficas, acompanhadas por forte concentração demográfica, 
foram causa evidente de um surto de navegação e de comércio marítimo a 
distância com o resto do mundo islâmico, do qual praticamente ignoramos tudo. 
Não obstante, a descrição de Idrisi sugere a existência de uma indústria de 
construção naval, auxiliada pelos pinhais que cresciam em redor de al-Qasr. 
Segundo parece, os Muçulmanos de al-áarb eram considerados temíveis piratas, 
o que determinou a conquista cristã de portos tais como al-Usbuna, al-Qasr e 
ODilbo, antes propriamente de ter sido conquistado o território interior. Tudo isto 
pressupõe uma frota relativamente poderosa e certa familiaridade com o mar e 
suas maneiras. 


Escasseiam também as fontes sobre comunicações do comércio. A rede vial 
romana foi provavelmente mantida e reparada, se não alargada. Planícies e 
alguns rios (embora a navegabilidade fosse limitada pelas condições do solo e do 
clima) permitiam contactos e transportes mais fáceis do que no Norte. Circulava 
moeda em abundância, de ouro, prata e cobre. Durante à segundo período taifa, 
Mártula teve a sua própria casa da moeda onde se fizeram algumas emissões. 


Sabemos pouco do artesanato. A tradição transmitida a tempos posteriores sugere 


número grande de obreiros especializados, em relação com as necessidades 
domésticas e quotidianas, tais como alfaiates, carpinteiros, sapateiros, oleiros, 
pedreiros, seleiros e outros semelhantes. Alguns estavam organizados em 
corporações rudimentares e estabelecidos em ruas ou zonas bem determinadas. 
Fabricava-se possivelmente papel, mas é provável que houvesse sobretudo 
importações do oriente de al-Andalus. A palavra árabe para uma pilha de papel 
era riznw, de onde o português, bem como o castelhano, tiraram resma. 


A estrutura social de al-Garb al-Andalus nos séculos xii e xiii não se mostrava 
muito diferente da do norte cristão. Uma 


99 

classe de proprietários rurais detinha a maior parte do solo e 

controlava a maior parte do poder. Ao contrário dos portugueses nortenhos, 
contudo,-esses latifundiários habitavam geralmente nas cidades ou em grandes 
aldeias, onde recebiam as rendas das suas herdades que, de tempos a tempos, 
visitavam por curtos períodos. Parece que muitos deles se sentiram atraídos pela 
vida de corte tal como existia em torno da pessoa do califa (que vivia, quer na 
Espanha quer em África) ou dos reis e emires taifas. As cidades capitais 
continuavam a revestir-se de grande significado e a suscitar mobilidade pessoal e 
intensas viagens. 


O tipo de propriedade correspondente no sul à villa chamava-se dai'a (plural 
diya*), donde o português tirou a palavra aldeia. O processo de conversão de uma 
dai'a em freguesia, em tempos posteriores, foi semelhante àquele que transformou 
a villa em freguesia também. O seu núcleo, onde se localizava a casa senhorial, 
rodeada pelas habitações dos clientes e por outras dependências, tornou-se, em 
tempos cristãos, a aldeia propriamente dita, isto é, uma «aldeia», no moderno 
sentido da palavra. 


Em cada 'dai'a a exploração rural pertencia a camponeses livres (muzãri*) que 
estavam ligados ao proprietário pelo pagamento de uma renda, a qual podia 
ascender a metade da produção. Por sua vez, o proprietário devia ao Estado (no 
Islam, não separado da Igreja) uma dízima, relacionada com a obrigação religiosa 
do pagamento do zakãt (esmola). Em teoria, todas as terras pertenciam ao Estado 
que, ao tempo da conquista, as concedera perpetuamente a um guerreiro e a seus 
herdeiros. 


Umas quantas herdades, ou antes, certos pequenos minifúndios, foram deixados 
nas mãos de agricultores cristãos. Tinham de pagar um tributo chamado harã1*, 
muito superior à dizima. Mais tarde, quando boa parte dos Cristãos se foi 
convertendo ao islamismo e passando a muwalladun (daí a palavra portuguesa 
malados), essa contribuição fundiária não foi reduzida. Ficaram assim os malados 
em situação fiscal pior que a dos velhos muçulmanos, o que acarretou 
perturbações sociais e divisão bem nítida entre os dois tipos de crentes, 


100 


À medida que a autoridade central se ia tornando mais fraca, a área das diya* 
aumentava e as terras de haraj diminuíam, visto que muitos pequenos 
proprietários preferiam alienar o seu direito à propriedade plena e encomendar-se 
antes à protecção e autoridade de ricos proprietários de diya*, o que lhes reduzia 
o peso dos impostos e lhes aumentava a segurança. Mercadores e altos 
funcionários investiram os seus ganhos ou economias na compra de terras, 
convertendo assim as cidades em grandes núcleos de absenteístas vivendo de 
rendas fundiárias permanentes. 


Teoricamente, não existia, no Islam, Igreja separada. Para fins práticos, porém, o 
Estado consignava às mesquitas as rendas de grande percentagem de 
propriedade, tanto rural quanto urbana, assim como a sua administração real. 
Nestes termos, podiam considerar-se as mesquitas como grandes proprietários 
também. 


Apesar de todas as cedências, o Estado manteve-se extremamente rico e 
poderoso nos países muçulmanos. Através do califa e de seus representantes, 
possuía terras cultivadas, propriedade urbana, meios de produção (tais como 
moinhos, fornos e lagares) e a maior parte dos baldios. Este papel do Estado não 
pode esquecer-se nem minimizar-se, se quisermos compreender as condições do 
poder real quando os monarcas cristãos se apoderaram de tudo aquilo que 
pertencia ao estado muçulmano. 


O desmembramento do califado, pela segunda vez em cem anos, e o 
consequente surto de unidades locais de administração política implicaram 
tendências autónomas e governos hereditários regulares. Em muitos casos, os 
impérios Almorávida e Almohada mantiveram e até reforçaram a hereditariedade 
como meio poderoso de impedir a anarquia e de resistir a ataques externos. 
Grandes senhores locais receberam o governo das áreas onde residiam e 
conseguiram mantê-lo dentro da sua família por mais de uma geração. Se não se 
desenvolveram pequenas dinastias locais, foi apenas por falta de tempo. Em 
Santarin e al-Qasr, por exemplo, as tenências militares transmitiram-se de pai a 
filho até à conquista cristã. Quanto mais conhecemos as genealogias 


101 

muçulmanas, mais impressionados ficamos com os parentescos entre os diversos 
funcionários superiores locais no al-darb al-Andalus. Uma pequena oligarquia 
detinha aparentemente o poder, limitando-se a trocar entre si os principais cargos. 
Faltam-nos monografias a darem-nos conta da extensão desse governo 
oligárquico e da medida em que ele determinou rebeliões sociais ou ajudou 
mesmo a acolher favoravelmente o invasor cristão. 


Segundo parece, ai-darb nunca constituiu uma província Administração unificada 
em si mesma, excepto no tempo de B. Qasi, que consta ter sido nomeado wali 
(isto é, delegado do califa) do al-ãarb pelo almohada Al-Qa'im (1145). Mas tratou- 
se provavelmente de uma medida de emergência para pacificar o território e 
ganhar nele alguns partidários. Al-Garb constituía geralmente, com Isbiliya, e o 


conjunto do Ocidente e do Sudoeste, um comando militar dependendo de um 
único waff Mas a história administrativa da Espanha muçulmana mostra-se, em 
boa verdade, ainda muito confusa para os séculos xii e xiii. Parece que o primitivo 
al-úxarb apenas incluía as kuwar meridionais de É-aja, Oilb e L;Obla, enquanto o 
Norte (com Yãbura, al-Us'bu-na, Santarin e Batalyaws) constituía a chamada 
marca militar inferior, com sede em Batalyaws. Mais tarde, as incursões cristãs 
tornaram necessário unificar ambos os governos e acentuar o seu carácter militar. 


O quadro, das kuwar revela-se igualmente confuso. Santarin e al-Usbuna foram 
certamente unidas numa simples kura, mas não sabemos qual das duas cidades 
terá prevalecido no supremo comando. Outra sede de distrito era Yílbura, que 
inclufa a maior parte do vale do Alto Guadiana, confinando com o de Batalyaws. 
Para ocidente, porém, os limites parecem ter mudado com o tempo, sendo criada 
uma nova kura com capital em al-Qasr. Para sul, também, estão longe de 
determinadas as divisórias. A importância de Baja declinou aparentemente, 
enquanto a da sua rival Martula subia. Pelos meados do século xii, esta última 


102 

passara, sem sombra de dúvida, a sede de administração. 

O extremo sul constituía outra kura com capital em Silb. Como todas estas 
cidades, e muitas outras, tinham governadores militares com o mesmo nome (al- 
ga'id, em português alcaide), torna-se difícil determinar a hierarquia relativa de 
umas para com as outras. Num contexto militar o ga'icl era o chefe de uma 
companhia de cem homens. Dez batalhões, cada qual com dez companhias, 
tinham por chefe um amir. 


Abaixo da kura, havia ainda a pequena unidade rural chamada qgarya (plural 
quran) assim como a cidade (gasaba ou madina). Estas palavras deram, em 
português, (al)caria, (al)cáçova e (al)medina. 


Para fins judiciários, existia coincidência aproximada entre as suas unidades e as 
kuwar. Cada cidade e muitas aldeias grandes tinham o seu qâdi* (de onde vem 
alcalde) ou juiz próprio. Nas comunidades mais pequenas, este funcionário era 
substituído por um hákim (alfaqui em português). Outro funcionário importante, 
que praticamente controlava a vida económica de cada cidade, era o muhtasib 
(em português, almotacé), que tabelava os preços, aferia os pesos e medidas, 
estabelecia a importância das multas, servia como árbitro em disputas 
económicas, superintendia no abastecimento da cidade em mantimentos e em 
água, etc. Em teoria, todos estes funcionários eram nomeados, mas a prática 
tornou-os ou hereditários ou escolhidos entre um pequeno grupo de notáveis 
locais. 


Por todo o al-Garb mostraram-se numerosos os Judeus e os 

Cristãos (Moçárabes), formando suas comunidades segregadas do resto da 
população, vivendo em bairros próprios e elegendo as suas autoridades privadas. 
Muitas vezes habitavam fora das muralhas da cidade. Sempre que o seu número 
era grande bastante, os Cristãos tinham como governante um conde (comes, em 


árabe kumis), escolhido entre os notáveis ou simplesmente hereditário. As 
comunidades cristãs tinham seus conselhos próprios, adoptavam as suas próprias 
leis (direito consuetudinário, antigo direito romano e direito visigótico) e tabelavam 
o seu 


103 

próprio sistema de multas e de impostos. Para fins de justiça, elegiam um juiz 
(iudex) que, nas comunidades mais pequenas, substitufa também o comes. Era 
este ou o iudex quem representava toda a comunidade e fazia de responsável 
perante os Muçulmanos pelo pagamento do imposto por cabeça. Religiosamente, 
os Moçárabes mostravam-se também bastante livres, ou, melhor dizendo, 
tolerados pelo Islam. A liberdade religiosa, claro está, era irregular e dependia das 
condições locais e gerais. Algumas comunidades cristás maiores conservaram 
mesmo o seu bispo. Tal foi, ao que parece, o caso de al-Usbuna, cujo bispo, 
juntamente com outras autoridades muçulmanas e cristãs, pediu mercê aos 
atacantes e negociou a rendição da cidade em 1147. Como tantos outros dos seus 
correligionários, foi na realidade morto pelos cruzados logo que o saque e o 
massacre exorbitaram das possibilidades de controle. 


Nada se sabe praticamente do avanço cultural de al-áarb Cultura al-Andalus 
durante os séculos xii e xiii. Quando muito, conhecemos alguns poetas e 
escritores que aí nasceram, mas ignoramos as condições gerais e os meios de 
toda a actividade cultural. Cultivava-se a poesia e diz-nos al-Qazwini (falecido em 
1283) que, em Silb, até os cavadores se mostravam capazes de improvisar 
estrofes. Baladas líricas e canções conhecidas por muwâ(Dah e zajal foram 
porventura introduzidas do centro e do oriente do Andalus onde estavam em voga 
a partir do século xi. A rápida propagação do sufisma e o turbilhão religioso dos 
meados do século xii poderiam explicar-se simplesmente por razões sociais e 
económicas. Todavia, não deixam de sugerir certa cultura religiosa e filosófica de 
raiz urbana. Existiriam por certo escolas, embora nada saibamos, por exemplo, do 
número e da localização de madrasahs («universidades» ou escolas secundárias 
muçulmanas). Seja como for, toda essa cultura era árabe, dependendo da fé 
islâmica. A «Reconquista» destruiu-a completamente, matando ou reduzindo ao 
exílio a maioria dos seus representantes. O alfabeto árabe, contudo, difundira-se 
até entre os Moçárabes, que se serviram dele para escrever os seus dialectos 
latinos. 


104 


É curioso que, para uma civilização estabelecida de há tanto 

tempo e de certa maneira requintada, quase nada se sabe do movimento artístico 
no al-garb. A maior parte dos historiadores da arte tem concluído que pouco ficou 
porque pouco fora originariamente criado. A explicação pode bem ser outra, 
embora não haja comparação possível entre a faixa ocidental do al-Andalus e o 
centro do seu florescimento, tal como Qurtuba ou IOIAlliya. Grande número, se 
não a maioria dos monumentos muçulmanos, foram mais tarde «disfarçados» ou 
transformados pelos Cristãos. o que vemos particularmente em relação às 


mesquitas, que foram convertidas em igrejas. Muitas ainda existem, à espera que 
as descubra algum arqueólogo ou historiador, um pouco como as igrejas 
«redecoradas» dos séculos xvii e xvili 

que esconderam os seus traços originais românicos e góticos sob um pastiche 
barroco ou rócócó. A igreja matriz de Mértola, onde se descobriu um mihrab, é 
bom exemplo disto. A maior parte dos castelos e das muralhas construídos a sul 
do Mondego ou do Tejo nos séculos xi, xii e xiii foram produtos da construção civil 
e da ciência militar muçulmanas. Ainda existem, na actualidade, reconstruídas e 
julgadas ser obra cristã. Plantas de cidades que remontam ao período islâmico 
subsistem também em grande número de povoados portugueses, tais como 
Lisboa. Princípios gerais de decoração, com predomínio nos elementos do 
estuque e do azulejo, foram criados ou desenvolveram-se nesse tempo. Noutro 
capitulo estudaremos o seu renascimento tardio, conhecido como estilo mudéjar. 


Bibliografia -Uma das obras fundamentais é o artigo de David Lopes, «Os Árabes 
nas obras de Alexandre Herculano», Boletim da Segunda Classe, Academia Real 
das Ciências, Lisboa, vols. Ill (1909-10) e IV (1910-11), que simultaneamente 
indica fontes, trata da análise linguística e dá um resumo político, administrativo e 
económico. 


Muitos elementos de interesse encontram-se unicamente nas páginas da nova 
edição de The Encyclopaedia of Islam, Leiden-Londres, 1960 ss. Para os 
acontecimentos políticos e militares, veja-se Alexandre Herculano, História de 
Portugal, 9.a edição, oito volumes, Lisboa, s/d, ainda uma obra básica. Para 
completamento (em pormenores de somenos importância), veja-se Luís Gonzaga 
de Azevedo, História de Portugal, prefácio e revisão de Domingos Maurício 
Gomes dos Santos, vols. IIl-VI, Lisboa, Biblion, 1939-44. 


105 


Para comparações gerais com o resto do mundo islâmico, utilize-se qualquer bom 
manual de história muçulmana, por exemplo, Philip G. Hitti, History of the Arabs, 
oitava edição, Londres, MeMillan, 1964 (especialmente útil pelos seus capítulos 
sobre a cultura na Espanha); Reuben Levy, The Social Structure o/ Islam, 2.a 
edição, Cambridge University Press, 

1965; e Gustav E. von Grunebaum com as suas várias obras sobre o mundo 
islâmico medieval. 


O livro de S. M. Imamuddin, Some aspects of the Socio-Economic and Cultural 
History of Muslim Spain 711-1492 A. D., Leiden, E. J. Brill, 

1965, é às vezes útil como catálogo, embora os seus erros de pormenor e as suas 
gralhas tipográficas sejam tantas que não se torna aconselhável a sua utilização 
regular. 


3 - À «Reconquista» e a União do Norte e do Sul 


Foi a «Reconquista» uma guerra religiosa? Poderá acaso ser Reconquista» 


comparada com as cruzadas, como tantos cronistas e, mais tarde, historiadores, 
têm defendido? Assume algum significado a expressão «Cruzadas do Ocidente», 
espécie de variação geográfica do grande movimento para a libertação da Terra 
Santa? 


É duvidosa a resposta, dependendo das épocas. Antes do século xii, raras vezes 
se encontram quaisquer semelhanças entre a «Reconquista» e uma guerra santa 
de religião. Depois dessa época, a situação mudou indubitavelmente, embora 
preconceitos políticos lhe tivessem sempre dado carácter genuinamente ibérico. 


Parece que o papa Urbano Il, um cluniacense por certo bem informado dos 
negócios hispânicos, planeou também uma cruzada geral para ocidente com o fim 
de libertar o resto da Península do «jugo» muçulmano. Com essa ideia no espírito, 
proibiu a todos os Espanhóis que partissem na chamada primeira Cruzada, 
proibição que se manteve até fins do século xii. Contudo, as esperanças do 
pontífice de suscitar uma cruzada geral e um sentimento de cruzada na Península 
Ibérica tiveram pouca resposta, devido à atitude tradicional para com os Mouros. 
Quatro séculos de luta intermitente haviam aproximado uns dos outros 
muçulmanos e cristãos ibéricos. Relações comerciais e culturais aliavam-se a não 
raras alianças políticas e a contratos de tipo pessoal. Para espíritos medievais e 
para a intolerância generalizada, os Espanhóis davam um exemplo surpreendente 
de coexistência pacífica e respeito religioso. 


107 

Esta atitude foi gradualmente mudando. Os Cristãos iam-se a pouco e pouco 
tornando os senhores, e o fim do domínio muçulmano começava a encarar-se com 
boas perspectivas. Em resultado, a antiga tolerância e respeito, baseados 
sobretudo na necessidade de coexistir, deram lugar a perseguições maiores e a 
uma certa pressa em terminar a conquista. Da mesma forma, o fanatismo de 
Almorávidas e Almohadas fez pouco para selar boas relações e tolerância mútua. 
Perdendo agora constantemente, os Muçulmanos lutavam com mais ardor num 
combate que, bem depressa, se ia tornando em luta pela sobrevivência. Por 
último, influências e modas estrangeiras tiveram a sua importância também. 
Nenhum país da Europa cristã poderia deixar de ser afectado pelas sucessivas 
pregações de guerra santa contra o infiel. Para mais, tais apelos à guerra, à 
violência e ao ódio eram apoiados por armas altamente eficientes, do tipo 
indulgências espirituais e concessão temporal de dizimas e outras rendas. 


A terceira Cruzada e as seguintes foram pregadas em Portugal também. Por 
diversas vezes teve o clero português de contribuir para as cruzadas do oriente 
(em 1215, 1245, 1274 e 1312). Os reis de Portugal foram mesmo convidados a 
tomar a Cruz e a juntar-se aos seus correligionários nas expedições à Palestina. 


O mais importante, porém, era o crescente sentimento de que a guerra contra os 
Mouros na Espanha podia e devia ser colocada em pé de igualdade com a guerra 
para a libertação da Terra Santa. Em suma, que se tratava de uma «Cruzada do 
Ocidente». Como tal, devia gozar de todas as habituais indulgências concedidas 


aos cruzados; atraía também todos os soldados cristãos da Europa e implicava o 
emprego de meios e fins semelhantes. 


Foi assim que os Portugueses pediram e obtiveram a ajuda dos cruzados seis 
vezes: em 1147 (conquista de Lisboa), duas vezes em 1189 (conquistas de Alvor 
e Silves), em 1190 (ajuda a Santarém cercada pelos Mouros), em 1197 (ataque 
fracassado contra Silves) e em 1217 (conquista de Alcácer do Sal). Na última 
mencionada, os cruzados tiveram de implorar do papa autorização para invernar 
em águas portuguesas e assim atrasar, em vários meses, a sua chegada à 
Palestina. A autorização 


108 
foi concedida. Em 1151, o bispo inglês de Lisboa, Gilberto, antigo cruzado na 


expedição de 1147, foi à sua terra natal pregar a «Cruzada de Ocidente» e 
conseguir reforços em homens e armas. 


Também os Portugueses contribuíram para várias cruzadas fora das suas 
fronteiras: em 1212 (vitória de Las Navas de Tolosa), em 1218-19, e, muito mais 
tarde, em 1340 (vitória do Salado). 


Bulas e indulgências papais ajudaram a radicar o ideal de 

cruzada em Portugal: eram concedidas, quer a reis e ao clero, quer às ordens 
militares, quer ainda a nobres e a guerreiros individuais. Uma dessas bulas, em 
1197, até prometeu a indulgência de Jerusalém à guerra planeada contra Afonso 
IX de Leão, que era amigo e aliado dos Muçulmanos. 


A criação na Espanha de ordens religiosas e militares com os mesmos fins das 
criadas na Palestina, ou simplesmente a introdução na Península daquelas já 
existentes, contribuiu para fortalecer o ideal e os objectivos da cruzada. O século 
xii foi 

o seu século. Em Portugal, os Templários apareceram por volta de 1128. 
Seguiram-se-lhes os Hospitalários em meados da centúria e, depois, as ordens de 
Calatrava e Santiago (ambas por 

1170). Todas tinham uma tarefa clara a cumprir: expulsar os Mouros, libertar as 
terras para Cristo. Quanto mais enriqueciam e se tornavam poderosas, mais o 
ideal de cruzada era mantido e reforçado, porque de nada serviriam sem ele. 


A «Reconquista» em termos de cruzada, todavia, mostrou-se sempre muito 
imperfeita e diferente das guerras do Próximo Oriente. Em Espanha (e portanto 
em Portugal também), predominavam os aspectos políticos, tornando raras e 
difíceis quaisquer empresas comuns contra a mourama. A cruzada era sentida à 
maneira local. Julgava-se sempre inseparável dos interesses do rei em cada reino, 
dependendo estreitamente deles. Indulgências, auxílio estrangeiro e milícias 
religiosas serviam o rei de Portugal na tarefa primária de ganhar mais terras 
debaixo da sua autoridade. Para tal, revelaram-se aliados preciosos. 


Mais interessantes e importantes se afiguram os aspectos Militares e políticos da 


«Reconquista». Por toda a Espanha, tor- 

109 

na-se possível determiná-la por uma sucessão de linhas diagonais no sentido 
Ocidente-Oriente. Assim, quando metade da costa ocidental (isto é, Portugal) fora 
já ganho pelos exércitos cristãos (em meados do século xi dá-se a conquista de 
Coimbra e de Montemor-o-Velho, a 40º Norte), Huesca, a 42º Norte, permanecia 
muçulmana. Em 1147, quando Lisboa (39º Norte) foi definitivamente conquistada, 
Tortosa (41º) continuava a ser islâmica. Em 1250, quando os Portugueses 
completaram a «sua» tarefa e incorporaram todo o Algarve, não fora ainda 
conquistada a totalidade do reino de Múreia. Como a Espanha muçulmana se 
explicava pelo Mediterrâneo e estava essencialmente centrada nele, não admira 
que a costa oriental e o seu correspondente interior provassem ser mais difíceis 
de conquistar do que o Ocidente. 


Fig. 18-A «Reconquista» cristã em suas principais fases 


110 
Dentro de Portugal, a linha divisória seguia o mesmo Modelo, pelo menos durante 
a maior parte dos séculos xi, xii e xiii. 


As razões eram várias. O receio de ataques marítimos muçulmanos levou ao 
planeamento de conquistas, tais como de Lisboa, Alcácer e Silves, excelentes 
bases para operações de pirataria. A paragem nos rios, que podiam revelar-se 
boas fronteiras para ambas as partes, explica também as linhas diagonais, no que 
respeita ao Mondego e ao Tejo. Além disso, era difícil aos Cristãos a conquista 
das regiões interiores do al-darb, onde a 

concentração urbana se mostrava maior e a defesa mais bem organizada e 
coordenada. 


Em cada estado ibérico, as terras a sul das respectivas fronteiras consideravam- 
se sua área de conquista. Os pormenores fronteiriços seguiam o quadro 
administrativo muçulmano do tempo que, como vimos, remontava quase sempre 
ao período romano. Portugueses, leoneses, castelhanos e aragoneses aceitavam 
em geral esse acordo básico que parecia lógico e impedia a concorrência 
excessiva. Cláusulas mais precisas eram algumas vezes estabelecidas por escrito 
ou aceites oralmente. Havia casos frequentes, contudo, em que cada parte violava 
as regras e se lançava à conquista na área do vizinho. Levaria tempo a dar a 
narrativa completa de tais eventos respeitantes a Portugal e a Leão. O que 
importa acentuar é que nunca duravam muito e que os altos e baixos das guerras 
obrigavam sempre um soberano mais ousado ou mais ambicioso a ter de 
abandonar esses ganhos ilegítimos. O ataque português a Badajoz e sua perda 
servem como bom exemplo. 


A grande excepção foi o Algarve. Al-Garb estava dividido em várias kuivar; 
pertencia também a diversos reinos taifas, Ao tempo da conquista portuguesa, o 
último desses reinos era o de Labla, cujos domínios incluíam a linha de costa 
ocidental com Santa Mariya e Éilb. Para conseguir ajuda, que nunca se 


efectivou, ou dinheiro, que terá provavelmente chegado, o rei de Ltbla cedeu os 
seus direitos ao infante D. Afonso, filho e herdeiro de Fernando Ill de Castela e 
Leão. Depois de algumas hostilidades pouco importantes e de negociações entre 
Portugal e o país vizinho, a guerra rebentou em 1252, quando Fernando 


117 

morreu e Afonso herdou a coroa com o título de Afonso X. Não durou muito, é 
verdade, porque logo em 1253 o papa Inocêncio IV conseguiu que fosse tratada a 
paz: Afonso Ill de Portugal casaria com Beatriz, filha ilegítima de Afonso X, 
renunciando temporariamente aos seus direitos como suserano do Algarve 
(incluindo todas as terras a leste do Guadiana) a favor do seu sogro. Assim, 
Afonso X tornava-se vassalo do rei de Portugal e o Algarve passava a feudo 
recebido deste. Esta situação continuaria até o filho primogénito de Beatriz e 
Afonso atingir os sete anos. Em 1263, porém, cinco anos antes do sétimo 
aniversário do jovem príncipe D. Dinis, um acordo entre os dois monarcas deu o 
senhorio do Algarve ao moço infante. Quatro anos mais tarde, novo tratado 
ratificava a situação existente e estabelecia a fronteira entre Portugal e Castela. 


No estudo da «Reconquista», deve sempre procurar distinguir-se com clareza 
entre operações de razia e conquistas efectivas. Muitas vezes, os monarcas 
cristãos penetravam profundamente em território muçulmano com o fito de 
saquear, destruir e aprisionar, mas sem qualquer intuito de conservar terras. Outro 
tanto faziam os Muçulmanos em território cristão. São razias desse tipo que 
explicam Ourique (1139) e diversas outras vitórias ou derrotas. Raras vezes 
duravam mais do que uma estação e, em geral, até menos do que isso. É que os 
soldados precisavam depois de voltar para casa, a fim de proceder às colheitas ou 
às vindimas. 


Conquistas efectivas requeriam planeamento mais cuidadoso. Exigiam mão-de- 
obra permanente, organização económica e política, e sistema defensivo 
apropriado que, pudesse deter um esforço muçulmano de reconquista. Muito 
interessantes como símbolos de conquistas duradouras - ou que o pretendiam ser 
- foram as linhas de castelos que, em Portugal (como por toda a Espanha), são 
ainda hoje visíveis de Norte a Sul, separadas umas das outras às vezes por 
centenas de quilómetros. Esses castelos construfam-se em pontos estratégicos, 
porventura em regiões semidesertas, como por exemplo o de Leiria, edificado por 
volta de 1135. Mais frequentemente, o lugar caído em poder do invasor achava-se 
já fortificado, requerendo apenas 


Fig. .19-A «Reconquista» cristã em Portugal 


113 

umas quantas reparações. Embora a maioria das cidades estivessem fortemente 
amuralhadas, eram de notar algumas excepções de interesse. Santarém, por 
exemplo, uma das posições-chave para manter a linha do Tejo e igualmente 
cidade de importância, não dispunha de muralhas excepto na cidadela. Foram os 
Cristãos que, provavelmente, lhe construíram a primeira cinta de muralhas, 


embora o problema esteja longe de resolvido. 


Tácticas ofensivas e defensivas exigiam serviço militar organizado. O sistema 
feudal dotava o rei com soldados, que lhe vinham das contribuições separadas 
dos vários senhores. Cada ordem militar e cada concelho eram também obrigados 
a contribuir com certo número de contingentes. Por sua vez o rei recrutava as 
suas forças próprias, tanto nas terras de que era senhor directo como nas 
propriedades alodiais. Em vez de soldados, podia também obter numerário para 
despesas militares e até géneros dos mais variados tipos, através do pagamento 
da fossadeira, espécie de taxa militar anual obrigatória. Cavaleiros dos concelhos 
serviam como forças ofensivas, enquanto a maioria dos peões se convocava 
especialmente para finalidades de defesa. 


Sob o ponto de vista estritamente político, todos os reis espanhóis se 
consideravam herdeiros legítimos e descendentes dos antigos monarcas 
visigóticos. Consequentemente, haviam por sua toda a terra que pudessem 
ganhar ao infiel. Assim surgiu a palavra Reconquista, plena de significado. A 
guerra permanente tinha-se por justa, até que fosse alcançado o objectivo último. 
Mais do que um conflito religioso, a «Reconquista» surgia a todos, na Europa 
cristã, como uma questão de herança. 


Ainda nos séculos xi, xii e xiii, todos os monarcas pretendiam descender dos 
antepassados góticos. A «Crónica dos Godos», que começava com a partida 
lendária dos Godos «de terra sua», e se continuava pela descrição do seu 
estabelecimento na Espanha, foi escrita para servir esses fins, num registo oficial 
da verdade. Os reis de Portugal apareciam aí como legítimos herdeiros do 
governo da parte ocidental da Península. 


114 

A união do Norte com o Sul implicou, primeiro que tudo, 

um movimento de população. A vitória cristã causou vasta migração de 
muçulmanos para regiões da Espanha, ainda por conquistar, e para África. Este 
movimento afectou sobretudo as classes superiores, mas incluiu mercadores, 
artífices e camponeses também, embora em escala mais reduzida. A conquista 
não fora bem acolhida por ninguém, nem sequer pelas classes mais baixas da 
população muçulmana. Era passado o tempo da tolerância e do respeito mútuos. 
As novas formas de coexistência entre cristãos e muçulmanos mostravam-se 
agora intoleráveis para a maioria dos vencidos. Se muitos ficaram, foi 
simplesmente por não disporem dos meios para a partida ou por terem receio do 
que poderia acontecer durante a viagem. Outros eram velhos demais, doentes 
demais ou humildes demais para partir. 


Não obstante, nunca houve um vazio demográfico, sobretudo no Sul. Cidades e 
aldeias podem ter perdido um terço ou metade das suas populações, mas não 
ficaram desertas. O elemento moçárabe, somado àqueles muçulmanos que 
resolveram ficar ou que foram apanhados pela rapidez da conquista, persistiu e 
manteve a vida na continuidade. A maioria dos Judeus parece ter ficado também. 


(Na realidade, durante todo o período medieval, continuou a emigração 
muçulmana para Granada ou para África, o que mostra que a sua condição em 
terras cristãs se achava longe de melhorada pela paz permanente.) Muita gente foi 
reduzida ao cativeiro, quer por direito de conquista quer por razões de dívidas. 


Em cada cidade conquistada, a regra geral obrigava a população muçulmana a 
deixar o recinto amuralhado dentro do prazo de um ano e a ir habitar nos 
subúrbios. Tratava-se essencialmente de uma medida de segurança. No campo, 
podiam ficar em paz, mas a sua contribuição aumentava, tornando-se até pior do 
que a dos Moçárabes em terras muçulmanas. Todos os anos tinham de pagar um 
imposto por cabeça, 1/40 de toda a sua propriedade e a dizima sobre a produção 
que lhes coubesse, além da sisa, de impostos alfandegários e de outras taxas, 
sem excepção. Ao que parece, perderam quaisquer direitos de plena propriedade, 
acaso porque todos os proprietários alodiais tives- 


115 

sem partido ou sido mortos. Não nos esqueçamos de que no Sul predominava a 
grande propriedade, o que reduzia portanto o número real de proprietários. A 
maioria dos Muçulmanos que os documentos revelam habitando em Portugal nos 
fins da Idade Média eram de condição social e profissional baixa: artífices ou 
camponeses humildes, pequenos almocreves e outros idênticos. A sua existência 
tornou-se obscura e mínimo o seu peso social. Em cerca de três séculos, quase 
todos eles se fundiram com os Cristãos, deixando à Inquisição muito pouco 
material com que lidar. Campos houve, porém, onde persistiram as suas 
estruturas, adoptadas como foram pelo invasor, com o forte apoio do elemento e 
da tradição moçárabes. 


Desconhecemos quão rápida e completamente se preencheram as clareiras 
demográficas. A documentação mostra-se avara, respeitando em regra a um 
período muito mais tardio. É bem possível que a tendência geral europeia para o 
crescimento da população ajudasse a povoar as casas desertas e os campos 
semidesabitados por um aumento apenas na taxa de natalidade. A solução óbvia 
era a emigração do Norte, o que também ajudava a manter melhor o equilíbrio 
entre Norte e Sul. Tanto reis como clero promoveram sem desfalecimento a vinda 
de novos povoadores por todos os meios de que dispunham: promessas de 
segurança e de privilégio, concessão ou reconhecimento de governo próprio, 
isenção ou redução tributária, liberdade de servidão e de perseguições da justiça, 
chamamento de estrangeiros, etc. A «Reconquista» contribuiu decisivamente para 
uma mutação social, através da mobilidade que implicava. Todos os elementos da 
sociedade tiveram condições para subir no seu estatuto económico-social; o rei, a 
igreja e a nobreza aumentaram seus patrimónios e poderio deles consequente; os 
colonos e outros cultivadores dependentes tornaram-se muitas vezes em 
pequenos proprietários; e muitos servos passaram a colonos ou a artesãos numa 
cidade. Durante os séculos xii e XIII, foi claro o surto de uma nova sociedade. 


Problemas bem graves resultaram, sem dúvida, do encontro entre os cristãos do 
Norte, rudes em cultura e em maneiras, arrogantes pela vitória, subitamente 


promovidos a uma condi- 


116 

ção social para que não estavam preparados, e os moçárabes do Sul, mais 
requintados na sua maneira de viver islâmica, de mentalidade mais urbana, 
obrigados a conviver com estrangeiros a quem se consideravam superiores. 
Puseram-se problemas como o da apropriação da terra e das casas; o da 
hierarquia social; o dos cargos governativos e administrativos. Nenhum historiador 
tentou ainda analisar esta contradição e mostrar de que maneira ela pôde ser 
resolvida. E, no entanto, foi deste encontro que nasceram Portugal e os 
Portugueses. 


A norte do Mondego, grande parte das terras ocupadas pelos 

invasores vitoriosos foram-no na forma de presúria (> prendere, tomar). Tratava-se 
da simples ocupação de uma terra havida por vaga, e era aceite como um dos 
mais legítimos títulos de. propriedade. Houve vários tipos de presúrias, umas 
dirigidas e organizadas por qualquer autoridade (rei, igreja, nobres), outras 
resultando apenas de um acto individual de ocupação. Originaram, quantas vezes, 
abusos e violências de toda a ordem, e tiveram de ser regulamentadas em época 
mais tardia, até que praticamente desapareceram. Podemos aventar que muitas, 
se não a maioria das terras alodiais existentes no Norte, derivaram de actos de 
presúria. 


A sul do Mondego, porém, tais actos mostravam-se bastante mais raros. A 
«Reconquista» tornara-se num movimento organizado e centralizado. As 
pequenas propriedades substitufam-se unidades maiores e latifúndios. A 
autoridade real deixou de reconhecer apropriações de terra desmesuradas, a 
menos que ostentassem a capa de doações graciosas. Além disso, muitas das 
regiões a sul do Tejo não atrafam ocupadores privados. Eram vastas planícies ou 
charnecas incultas, entremeadas de diminutas áreas bem cuidadas em torno de 
um centro urbano, que o rei imediatamente guardava para si. 


A acção das ordens religiosas-militares ajudou igualmente a impedir as presúrias. 
No Sul, a maior parte da guerra e das suas vitórias gloriosas pertenceu às Ordens 
de Santiago e de Calatrava, aos freires do Templo e do Hospital. Mostraram-se aí 
secundárias as iniciativas do rei. Feitos individuais, como o de 

117 

Geraldo Geraldes, no Alentejo, ou a incursão do povo de Santarém contra Évora, 
eram excepções. E também pequena se revelara a participação nobre. Não 
admira, assim, que a distribuição da terra, no Sul, obedecesse a um quadro 
inteiramente diferente do do Norte. 


Para si próprio (ou para os seus protegidos) o rei guardou a parte essencial das 
novas conquistas: as cidades e os grandes povoados. Nunca se concedeu 
qualquer centro urbano importante às ordens religiosas-militares. Todos os 
povoados foram organizados em concelhos, mas o sistema de impostos e a 
administração superior, bem como vasta proporção de casas, fornos, lagares e 


outros meios de produção pertenciam ao monarca. Alguns foram mais tarde dados 
como apanágios a membros da família real, mas só em dias de suas vidas. 


Depois de deduzidas áreas maiores ou menores, conhecidas como termos e que 
faziam parte do alfoz do povoado, o rei praticamente doou todo o resto, em plena 
propriedade, às ordens militares: os Templários receberam a maior parte da Beira 
Baixa e um vasto território entre o Mondego e o Tejo; os Hospitalários ficaram com 
um quinhão relativamente pequeno e pouco importante no Alto Alentejo, no Alto 
vale do Tejo e para lá do Guadiana; Calatrava (depois conhecida como Avis, por 
causa do seu principal castelo) obteve a maior parte do Alto Alentejo; para 
Santiago ficou a maior parte do Sul, com quase todo o Baixo Alentejo, a península 
de Setúbal e vários quinhões importantes no Algarve. As ordens não militares e a 
igreja secular foram também contempladas: os Cistercienses, por exemplo, 
receberam enormes doações na Beira Litoral e na Estremadura; o mesmo 
aconteceu quanto aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, especialmente os 
de Coimbra (Santa Cruz) e Lisboa (S. Vicente). Os Franciscanos, os Dominicanos, 
as sés de cada cidade e outros ainda obtiveram extensos quinhões dentro e fora 
dos povoados. Do pouco que sabemos sobre o desenvolvimento agrário do Sul 
muçulmano, deduz-se que as regiões mais férteis e produtivas do Alentejo 
couberam aos freires de Avis. Combinados, porém, 


118 
Fig. 20-Doações às ordens religiosas-militares no Centro e Sul de Portugal 
(segundo Rui de Azevedo, simplificado) 


1 - Ordem do Templo, 
2 - Ordem do Hospital (Crato) 
3 - Ordem de Calatrava (Avis) 
4 -Ordem de Santiago 


119 

tamanho e rendimento, as três ordens do Templo, Calatrava e Santiago situavam- 
se em posição muito equilibrada em relação umas às outras, o que, sem dúvida, 
testemunha da política inteligente dos primeiros reis portugueses. 


Relacionados com a «Reconquista» estiveram também o surto da organização 
municipal. Nas cidades muçulmanas, onde existia uma considerável população 
moçárabe, a lei reconhecia a organização e representatividade das comunidades 
cristãs (bem como das judaicas) através de diversos órgãos e magistrados. Existia 
um conselho dos chefes de família, ou dos homens bons, existia um dirigente 
eleito e um sistema de impostos responsáveis. Assim, quando a gente do Norte 
chegou e conquistou as cidades meridionais, achou em cada uma delas um 
regulamento tradicional de autogoverno. Eram pouco necessárias inovações, pelo 
que as novas autoridades se limitaram a reconhecer a situação pré-existente. Com 
a chegada de emigrantes, porém, a situação começou a mudar, tanto na esfera 
social como na económica. É que o comércio e as relações internas obedeciam 
agora a quadros diferentes. A nova população trouxera consigo usos e leis das 


bandas do Norte. Por todas as áreas reconquistadas houve, assim, necessidade 
óbvia para novas regulamentações. A elas, concedidas pela graça de reis e 
senhores (clérigos e nobres), chamamos geralmente forais. Raro criavam novas 
instituições, cuidando em boa verdade pouco de organização municipal. O seu 
objectivo número um consistia em definir e precisar o sistema de impostos e a 
administração da justiça a. 


Durante os séculos xii e xiii, concederam-se forais à maior parte das cidades e 
grandes aldeias. O seu tipo variou consoante a época, o tamanho do aglomerado, 
os objectivos do senhor e até a preparação legal do conselheiro do rei. Algumas 
formas foram importadas de Leão e de Castela, outras mostraram-se tipicamente 
portuguesas. A ciência histórica pôde determinar uns seis tipos básicos de forais e 
estabelecer uma espécie de árvore genealógica relacionando os que se mostram 
semelhantes dentro de cada tipo. 


120 

Não se confundam forais com cartas comunais. Os forais não criavam comunas, 
cujo princípio de governo colectivo estava muito distante da tradição ibérica. 
Aceitavam-se, é certo, formas de autogoverno, mas só até determinados limites. 
Com frequência, todos os magistrados tinham de receber confirmação por parte 
do senhor da cidade, geralmente o rei. A auto-administração ficava grandemente 
reduzida pelo sistema rígido de impostos e pela limitada esfera da justiça local. O 
rei tinha o direito de intervir frequentemente. Poucas tentativas se fizeram para 
conseguir graus mais evoluídos de governo próprio, a que se opunham a tradição 
islâmica e as condições de vida do Portugal de então, onde havia a necessidade 
premente de um forte comando central. 


Cada concelho possuía a sua própria assembleia de notáveis ou homens bons, 
em regra pequenos proprietários locais ou ricos mercadores. Esta assembleia 
elegia diversos magistrados, cujos nomes e atribuições claramente reflectiam o 
compromisso entre as organizações de tipo muçulmano e cristão. Os dois ou 
quatro alvasis (do árabe al-wazir), também chamados alcaldes (do árabe al-qadi) 
ou juízes, eram os supremos representantes e dirigentes da comunidade. O 
almotacé (> al-muhtasib), eleito também, controlava a vida económica do 
concelho, como o costumava fazer em tempos islâmicos. O rei estava sempre 
representado por um outro magistrado, directamente nomeado por ele, umas 
vezes chamado alcaide (> al-ga'id) se existia castelo ou cidadela, outras vezes juiz 
se as suas funções se revelavam simplesmente jurisdicionais. Em alguns 
concelhos, esse representante escolhia-se entre os homens bons. Em regra, 
porém, era um nobre. 


Em quase todo o Norte, o número de concelhos mostrava-se muito reduzido, 
porquanto o País fora definitivamente organizado havia muito tempo já, segundo a 
tradição feudal, com poucos grupos individualizados dentro dos centros urbanos e 
com poucos centros urbanos também. Só os burgos recém-formados é que 
recebiam alguma atenção e mudança de situação por parte dos seus senhores. 
Mas quanto mais se descia Para Sul, mais numerosos se mostravam os 


concelhos. Corres- 


121 

pondiam a fases modernas da «Reconquista» e à necessidade de atrair 
povoadores concedendo-lhes imunidades e privilégios. A Beira e a Estremadura, 
onde o povoamento era um tanto disperso, exibiam a maior concentração de forais 
e de concelhos, concedidos a pequenas aldeias e a núcleos de emigrantes. Mas 
havia que baixar ainda mais ao Sul, ao Alentejo e ao Algarve, para encontrar os 
concelhos mais poderosos, correspondentes às cidades e às aldeias maiores na 
área e no número dos habitantes. 


Bibliografia -Não existe qualquer história geral da «Reconquista» portuguesa em 
separado, embora disponhamos de vários estudos de conjunto de relativa 
confiança, insertos nas histórias gerais de Portugal. Leiam-se, por exemplo, os 
vários capítulos da História de Portugal de Alexandre Herculano, da História de 
Portugal de Luís Gonzaga de Azevedo, da História de Portugal de Fortunato de 
Almeida, e da História de Portugal dirigida por Damião Peres, vols. | e 11 e, em 
especial, o excelente capítulo de Rui de Azevedo, «Período de formação territorial: 
expansão pela conquista e sua consolidação pelo povoamento. As terras doadas. 
Agentes colonizadores» na História da Expansão Portuguesa no Mundo, dirigida 
poT António Baião, Hernani Cidade e Manuel Múrias, vol. 1, Lisboa, Ática, 1937, 
pp. 7-64. Este artigo é seguido por vários outros que merecem também leitura, 
embora não se refiram exclusivamente à «Reconquista». Para actualizações, veja- 
se o Dicionário de História de Portugal, nos seus vários artigos. 


Não se esqueçam as fontes espanholas. Podem ler-se bons capítulos nas 
histórias gerais de Espanha, existindo, além disso, um excelente manualzinho, La 
Reconquista Espafiola y la Repoblación del País, Conferencias del Curso 
celebrado em Jaca en Agosto de 1947, Consejo Superior de Investigaciones 
Científicas, Escuela de Estudios Medievales, XV, Zaragoza, 

1951, muito útil para elementos comparativos. 


Sobre o problema da Cruzada, existe um trabalho fundamental por Carl Erdmann, 
A Ideia de Cruzada em Portugal, tradução portuguesa de A. Pinto de Carvalho, 
Publicacões do Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1940. 


Sobre os concelhos e seus forais, vejam-se, além das obras gerais acima 
mencionadas, os vários artigos e livros de Torquato Brochado de Sousa Soares, 
especialmente a sua contribuição para a História da Expansão Portuguesa no 
Mundo, vol. |. Uma vez mais se mostram indispensáveis os artigos publicados no 
Dicionário de História de Portugal, para actualizar doutrina e bibliografia. 
CAPÍTULO II 

A ERA FEUDAL 


1 -As estruturas do final da Idade Média 


**alereamarcar 
O Portugal dos finais da Idade Média apresentava muitas O Portugal 
características próprias, consequência natural do encontro e da feudal fusão de 
estruturas do Norte com estruturas do Sul. Reunia, na verdade: à) elementos 
puramente feudais, comuns a toda a Europa Ocidental, resultado da evolução de 
categorias romanas 


e bárbaras (principalmente visigodas) e, mais tarde, do declínio do próprio 
feudalismo;, (O-ú)* elementos feudais deturpados, consequência das necessidades 
e circunstâncias da «Reconquista»; ..0) elementos moçárabes, com uma longa 
tradição cúbe autodesenvolvimento e isolamento da Europa cristã; e -.d) 
elementos islâmicos típicos, comuns a todo o mundo muçulmano, o qual, pelos 
séculos xii e xiii, se mostrava já feudal ou rapidamente tendendo para o 
feudalismo. 


O Portugal feudal, como a Castela feudal, apresentava assim características do 
maior interesse, que só em comparação com os demais países europeus e com 
os estados islâmicos podem ser cabalmente interpretadas e compreendidas. Foi 
por, em geral, se recusarem a fazê-la que quase todos os historiadores 
portugueses (com muitos dos seus colegas espanhóis) vieram a 


criar e a defender um Portugal artificial, «senhorial, não-feudal», espécie de «avis 
rara» de incerta origem e difícil descrição. Uma vez posta de parte a ideia de um 
feudalismo monolítico e geograficamente delimitado, a interpretação do estado 
português da Idade Média e dos começos da era moderna deixa de se apresentar 
como enigma, embora continuando a levantar numerosos e inevitáveis problemas. 


126 A era feudal 


A vassalidade, como instituição, achava-se perfeitamente estabelecida em 
Portugal nos séculos xiii, xiv e xv. Em vez de fidelis, tão costumada anteriormente, 
foi vassallus (vassalo) que se passou a generalizar e a referir a todos os nobres na 
dependência directa do seu rei. A pequena extensão do País e o facto de ser o 
monarca um dos maiores proprietários dele explicam o número relativamente 
grande de vassalos directos e a consequente força do rei. 


Concessões régias em forma de beneficio denominavam-se préstamos 
(prestimonia). Não eram, a principio, hereditários mas, com o andar do tempo, a 
hereditariedade generalizou-se e aceitou-se como prática corrente, embora muito 
mais tarde do que algures na Europa feudal. Pelos meados do século xiii, e depois 
dessa data, existiam por todo o Portugal feudos semelhantes aos franceses e aos 
ingleses. Muitas concessões régias começaram revestindo a forma de morgadios 
ou morgados, que implicavam inalienabilidade, indivisibilidade e sucessão 
perpétua dentro da mesma família, geralmente seguindo o direito de primogenitura 
e preferência masculina. 


In prestimonium podiam ser dados e foram dados latifúndios, pequenas herdades, 


casas, cargos e até rendas (alfândegas, portagens, foros, etc.). A palavra feudo 
(leu, feodum) é que se 


mostrava rara, mas ainda assim aparece algumas vezes, como, por exemplo, na 
concessão hereditária do cargo de almirante ao genovês Manuel Pessagno 
(1317). Os feudos portugueses exibiam variedade grande de condições onerosas,- 
do tipo serviços. Contudo, serviços militares ou administrativos não se tinham por 
condição indispensável para benefício régio, sendo muitas vezes substituídos por 
qualquer forma de pagamento. Outros feudos, semelhantes aos bem conhecidos 
«feudos livres ou francos» da Europa transpirenaica, quase implicavam plena 
propriedade na concessão, como recompensa de serviços prestados. O rei, 
todavia, conservava sempre um certo número de direitos, tais como o de justiça ao 
nível superior, interferindo também em matéria de sucessão. O termo honra 
parece ter-se aplicado às senhorias de qualquer tipo, e até aos alôdios. No 
Portugal da Idade Média, como em França, senhoria queria dizer o mesmo que 
feudum. 


As estruturas do flizal da Idade Média 
127 


Referia-se geralmente aos feudos mais importantes, em especial aos de maior 
antiguidade, para norte do rio Mondego. Concessões régias à Igreja 
denominavam-se antes coutos, palavra que traduzia o complexo dos privilégios e 
das imunidades do território. Em todas as senhorias, definia-se imunidade como a 
proibição de entrada de funcionários régios, a inexistência de impostos da Coroa e 
o exercício, pelo senhor, da autoridade pública, com autonomia administrativa, 


judicial e financeira. 


Entre os feudos detidos por vassalos laicos e pelo próprio rei, contavam-se igrejas 
paroquiais, mosteiros e capelas. Os senhores respectivos, muitas vezes 
fundadores ou descendentes de fundadores dessas instituições pias, recebiam as 
rendas da dizima e as dotações da Igreja, incluindo por vezes rendimentos que 
resultavam de ofertas dos fiéis, de direitos eclesiásticos, etc. Tão rendosos se 
mostravam esses feudos (padroados) que tinham larga procura e eram muito 
apreciados. A Igreja, claro está, fazia o que podia para os extinguir ou reduzir-lhes 
o número, devido aos abusos que sempre implicavam e ao considerável 
empobrecimento que traziam para os curas e seus meios de acção. 


A pequena área de Portugal e as circunstâncias peculiares que acompanharam o 
seu nascimento e crescimento, impediram sempre uma organização feudal 
desenvolvida até às últimas consequências. Em todas as senhorias, o rei tinha a 
última palavra nos casos de alta justiça. No século xiii, a Coroa encetou como que 
um plano de repressão das imunidades e da plena autonomia dos senhores 
feudais. O sistema das confirmações de Afonso Il foi acompanhado e seguido de 
sucessivas inquirições, que duraram até aos fins do século xiv, alcançando o 
climax com D. Dinis (1284, 1301, 1303 e 1307). Talvez influenciadas, nas suas 


formas mais evoluídas, pela prática francesa dos «enquêteurs royaux» (Luís IX, 
1248), as inquirições régias portuguesas serviram para prover a administração 
central com um cadastro rigoroso de grande parte do País (quase todo o Norte, 
com o Minho, Trás-os-Montes e a Beira). Ajudaram assim o rei, mediante o 
conhecimento pormenorizado dos direitos de propriedade e das rendas 


128 A era feudal 


devidas, a estabelecer com firmeza a sua autoridade, impedindo abusos e 
periodicamente interferindo a bem de uma justiça centralizada e de um sistema 
financeiro planificado. 


Durante o século xiv, outras decisões régias tenderam a travar a expansão do 
regime senhorial. O monarca preveniu a nobreza contra abusos de jurisdição 
(1317), mandou os seus funcionários impedirem a criação de novas honras (1321) 
e obrigou todos os nobres a provarem os seus direitos feudais (1325). Com D. 
Fernando, o direito de justiça feudal foi negado às honras constituídas a partir de 
1325, com excepção de uma dúzia de senhorias. Restringiram-se também as 
concessões régias aos descendentes legítimos (desde 1384) e, depois, aos filhos 
varões apenas (1389). D. João | seguiu certo número de regras nas doações que 
fez, medida que seu filho e sucessor D. Duarte passou a lei (1434) com o título de 
lei mental: todas as doações régias só se poderiam transmitir dentro da linha 
legítima e não seriam consideradas feudais. Porque esta lei se aplicava ao 
passado, como ao futuro, muitas terras reverteram para a Coroa. Algumas famílias 
nobres protestaram e conseguiram eximir-se oficialmente ao estabelecido, 
nomeadamente a mais poderosa de todas, a do conde de Barcelos, futuro duque 
de Bragança. 


Apanágios Mas os próprios monarcas foram os primeiros a prejudicar e doações 
os seus interesses com generosas concessões, que as circunstâncias ou a 
irresponsabilidade do poder determinavam. Aos príncipes reais, por exemplo, 
doaram-se importantes apanágios que, de tempos a tempos, os levantavam por 
rivais do soberano. Isso já acontecera à morte de Sancho, |, quando os extensos 
legados feitos à filharada deram origem a uma quase guerra civil e à vitória final 
do primogénito, o rei Afonso Il. Com D. Dinis (1279-1325), seu irmão Afonso 
esteve na posse de grande parte do Alentejo, o que acarretou luta permanente 
entre os dois. No reinado de D. João 1 (1385-1433), os apanágios ainda se 
tornaram maiores e mais opulentos. A seus filhos legítimos Pedro, Henrique, João 
e Fernando, bem como ao bastardo Afonso de Barcelos, doaram-se enormes 
quinhões do solo e da fortuna de Portugal. O século xv foi um século de 
turbulência civil, em 


As estruturas do flizal da Idade Média 
129 


parte por causa de tais doações e da concentração final de propriedade fundiária 


nas mãos de uma sã família, os descendentes de Afonso de Barcelos 
(Braganças). 


Concessões a favoritos ou simplesmente fraqueza e generosidade reais para com 
os nobres e o clero vinham de par com a política dos apanágios. D. Afonso III, D. 
Pedro |, D. Fernando e D. Afonso V contaram-se entre os mais generosos dos reis 
medievais. A família Meneses nos finais do século xiv e três ou quatro outras 
(incluindo os mesmos Meneses e os Braganças) durante o século xv podiam bem 
comparar-se, em riqueza, prestígio e força militar, a alguns senhores feudais 
típicos da França ou da Alemanha. É verdade que o seu poderio não durou, 
mostrando-se até uma aberração em país tão pequeno, uma espécie de «finale» 
desesperado do período feudal. 


O sistema dos aforamentos ou emprazamentos, com sua Prazos forma precária 
de concessão de bens, cobria todo o reino e afectava quase toda a população. 
Grandes proprietários doavam herdades maiores ou menores a vilãos, do mesmo 
modo que as haviam recebido do rei. Alguns concelhos nasceram até deste tipo 
de concessão, feita a um grupo de pessoas. Integravam-se na hierarquia feudal, 
dependendo dos seus senhores e não do monarca. Na maioria dos casos, porém, 
os aforamentos ou emprazamentos faziam-se a agricultores individuais (foreiros), 
perpetuamente, com diversas condições, como fossem o pagamento de um foro 
de parte da produção do solo (1/4 a 113 geralmente), a prestação de serviços no 
paço senhorial, diversos tributos ocasionais, e os típicos monopólios feudais dos 
meios de produção (forno, lagar, moinho, etc.). Outros prazos, comuns nos 
séculos xiv e xv, eram feitos temporariamente, em três, duas ou uma vida, ou até 
em períodos menores. Implicavam condições mais duras, sendo, evidentemente, 
preferidos por muitos senhores, e nomeadamente pela Igreja. Em todos os casos, 
mesmo quando a origem da tenência se não revelava tipicamente feudal, os 
resultados práticos eram-no sem sombra de dúvida. 


A população de Portugal no século xiii não excedia provavel- CaracíerísUca mente 
o milhão de habitantes. De Norte a Sul mostrava-se muito demográficas 


130 A era feu” 


irregular a sua distribuição. Até ao vale do Tejo, com excepção de Braga, Porto, 
Guimarães (que crescera consideravelmente desde o século xii), Coimbra e talvez 
Bragança, não havia grandes cidades, até para padrões medievais. O povoamento 
era denso no Minho, no vale do Douro e na Beira Alta, mas dispersando-se em 
numerosos pequenos núcleos de habitantes. Os grandes centros populacionais 
continuavam a existir no Sul, graças à tradição romana e muçulmana: Lisboa, 
Santarém, Évora, Estremoz, Elvas, Silves, Beja, Faro, Tavira e outros menores. 
Mas as vastas regiões quase desabitadas que os separavam 

- à excepção do baixo Algarve - conferiam ao Sul um apecto semidesértico. 


Fig. 21-0 povoamento de Portugal no LO quartel do século xv, 


segundo o rol dos «besteiros do conto» 


Cada ponto corresponde a um centro populacional obrigado a contribuir com 
determinado número de besteiros para o exército. Os círculos correspondem às 
cidades principais, hierarquizadas em função da quantidade de besteiros nelas 
recrutados. Faltam, neste mapa, as terras pertencentes a privilegiados, 
dispensadas de contribuição militar. 


As estruturas do Iffial da Idade Média 131 


Importante fora o progresso do povoamento ao longo da costa nos séculos xiii e 
seguintes. Aqui e além surgiram pequenas aldeias piscatórias (as póvoas), urnas 
espontaneamente, outras por actos reais ou senhoriais. Viam-se em grande 
número, em especial a norte do Tejo. Não tinham peso de maior na população 
total do Pais, nem desempenhavam qualquer papel de relevo no comércio 
externo, que se fazia somente a partir de Lisboa, do Porto e do Algarve. Mas 
ajudaram, a expandir e a cimentar a tradição marítima e navegadora, contribuindo 
também para a difusão do consumo de peixe, tudo condições decisivas para o 
futuro de Portugal. Não nos esqueçamos de que essas condições já existiam no 
Sul desde tempos imemoriais. 


No Norte, merece a nossa atenção a cidade do Porto. Comér- O Porto cio e 
artesanato colaboraram no surto deste burgo, inundando-o com um núcleo 
relativamente importante de autênticos «burgueses», cuja história faz aproximar o 
Porto das comunas europeias típicas. Durante os séculos xiii e xiv, os habitantes 
do Porto sublevaram-se várias vezes contra o bispo seu senhor. Em 1354 a 
cidade obteve autonomia feudal, ficando apenas a depender da Coroa. Não resta 
dúvida de que, para tal, contribuiu o papel desempenhado pelo Porto na economia 
do País. Não só os seus cidadãos controlavam a maior parte do comércio 
significativo nortenho como também se dedicavam a operações a distância com 
países estrangeiros, nomeadamente a Inglaterra. Embora pequeno em área e 
população, o Porto era uma cidade próspera e a sua riqueza baseava-se em 
formas «modernas» de expansão económica. 


Contudo, foi o desenvolvimento de Lisboa que caracterizou, Lisboa 
demograficamente, o fim da Idade Média em Portugal. Tão importante quão 
Coimbra, Braga, Évora ou Silves no século xii, Lisboa levava já a dianteira cem 
anos depois, para alcançar quatro ou cinco vezes mais habitantes e espaço 
urbano do que qualquer outra cidade portuguesa ao findar a centúria de 
Trezentos. Apesar da preferência tantas vezes concedida por reis e rainhas a 
várias outras cidades e aldeias (onde chegavam a 


132 A era feudal 
passar mais tempo do que na própria capital), Lisboa tornou-se o centro da vida 


económica, social, política e cultural do País. Identificou-se muitas vezes até com 
o próprio Portugal, no sentido de que possuir Lisboa significava possuir o reino 


inteiro. Com este facto se iniciou outra constante na história portuguesa, a 
contradição entre o vulto e as possibilidades da capital e as de todos os demais 
povoados do País. As razões eram múltiplas: Lisboa achava-se, geograficamente, 
bem colocada, tanto em termos de posição absoluta - um porto excelente, o 
melhor de Portugal, com um interior rico em água e em recursos alimentares, 
incluindo sal e peixe, rico até em pedreiras e minas -, como relativa, quase a meio 
caminho entre as duas metades de Portugal. Lisboa tinha também tradições 
urbanas e comerciais que ajudaram ao seu tremendo surto. Fora um centro de 
pirataria, portanto de construção naval e de navegação. Estava bem defendida, 
tanto por mar como por terra. Possuía um núcleo cristão importante, tendo-se 
mantido sede de bispado. É provável que tivesse igualmente as suas tradições 
culturais. Enfim, Last but not least, gozava de um dos melhores climas de Portugal 
e -trava-se «saudável» ao modo medievo (muito ventosa, logo propícia a libertar- 
se de pestes e de ar poluído). Um dos Cruzados que a conquistou em 1147 
chamou-a «aere salubris» (de ares saudáveis). 


“omércio O surto de Lisboa e de outras cidades menores acompanhou o 
desenvolvimento do comércio, tanto externo como in- terno. A costa ocidental da 
Península Ibérica, que nos séculos x 


e xi mal se podia considerar de relevância internacional, passou, nos anos de 
Duzentos, a contactar com o, maior parte dos mercados da Europa do Ocidente. 
Este facto foi essencialmente uma consequência da expansão comercial da 
Europa, que afectou todas as suas regiões, até as mais remotas. Acompanhou 
também o desenvolvimento das viagens e a crescente actividade dos almocreves 
e mercadores ambulantes. A reabertura da via marítima de Ocidente pelos 
Normandos e pelos Cruzados pôs em ligação directa os homens do Norte com os 


As estruturas do fipal da Idade Média 133 


Portugueses. Laços políticos levaram Portugal à França, à Flandres e à Inglaterra. 
1Viatilde ou Teresa, filha de Afonso Henriques, casou em 1184 com o conde 
Filipe da Flandres, e depois, dez anos passados, com o duque Eude Ill da 
Borgonha. Em 1199, veio de Inglaterra uma embaixada a negociar o casamento 
do rei João Sem Terra com uma das filhas de Sancho i. Por volta de 1211, o 
infante D. Fernando, filho do mesmo monarca português, consorciava-se com 
Joana, condessa da Flandres. Na década de 1230-40, era a vez de Afonso, futuro 
Afonso IIl, casar com -ut ou Matilde, condessa de Boulogne. E assim por diante. 
Emissários de monarcas portugueses convidaram e conseguiram algumas 
dezenas ou centenas de povoadores nessas mesmas regiões e na Alemanha, que 
vieram para Portugal ajudar a povoar as áreas recém-conquistadas. 


Não admira que, por causa de tudo isto, se'tenham desenvolvido os contactos 
comerciais. Pelos fins do século xii, os Portugueses haviam já chegado às Ilhas 
Britânicas, alcançando Dublin, na Irlanda. Londres era o seu principal ponto de 
destino, e conseguiram, ao que parece, boas ligações com o rei e com a corte. Os 
soberanos ingleses concederam-lhes numerosos privilégios e salvo-condutos. Em 


troca, mercadores portugueses, fixados em Bordéus, chegaram a emprestar-lhes 
dinheiro. Existem provas da sua presença até em Colónia, na Alemanha, 
conquanto estivesse fia Flandres a sua mais importante base de operações. Pelos 
fins do século xiii, havia portugueses firmemente estabelecidos por toda a Europa 
Ocidental, detendo aparentemente nas mãos a maior parte do comércio com 
Portugal. Em 1293, D. Dinis aprovou uma bolsa de mercadores portugueses que 
comerciavam com a Flandres, a Inglaterra e a França. Essa bolsa incluia um 
sistema de seguros para-todos os navios que recebessem carga em Portugal ou 
que fossem fretados por mercadores portugueses a fim de seguirem para o 
estrangeiro. Parte da soma assim obtida seria conservada na Flandres, embora o 
grosso ficasse em Portugal. Nos meados do século xiv, o número de mercadores 
estabelecidos na Flandres e o volume do seu negócio justificaram a constituição 
oficial de uma feitoria em Bruges, que durou até ao século xvi. Em 1353, os portu- 


134 A era feudaõd 


gueses que faziam comércio com a Inglaterra ou para lã navegavam assinaram 
um acordo com o rei Eduardo Ill, que garantia segurança aos mercadores de 
ambos os países pelo período de cinquenta anos. Esse tratado foi mais tarde 
oficialmente reconhecido pelo soberano de Portugal, Afonso IV. 


As exportações portuguesas para a Europa Ocidental consistiam em fruta (figos e 
passas), sal, vinho, azeite e mel, algumas matérias-primas, como pez, cera, 
cortiça e grã, couros e peles, e balais, aparentemente em grande procura para 
fabrico de vassouras. De Inglaterra, da Flandres e de França, Portugal recebia 
sobretudo têxteis. Qualidades e proveniências variaram do princípio do século xiii 
até ao século xv, reflectindo a evolução da indústria têxtil da Europa e do 
Ocidente. Assim, os panos ingleses aumentaram sem cessar, tanto em número 
como em preço, enquanto os flamengos e os franceses tiveram de sofrer a sua 
difícil concorrência. Outros produtos importados eram madeira, tintas e cavalos. 


O número de mercadores do Norte da Europa em Portugal parece ter sido 
relativamente pequeno na centúria de Duzentos e no começo da de Trezentos, em 
comparação com o número de portugueses então no estrangeiro. Para os 
Flamengos, os Ingleses ou os Franceses, Portugal proporcionava reduzidas 
possibilidades e escasso lucro. Além disso, achavam-se muito menos 
desenvolvidas, no século xiii, as vastas concentrações de monopólios comerciais 
nuns quantos países. Era ainda possível, para estados pequenos e 
subdesenvolvidos, segurar as rédeas das suas próprias actividades de comércio. 


Outra área do tráfico internacional português situava-se na Espanha e no 
Mediterrâneo. Diferentes se mostravam, contudo, as suas características, em 
confronto com as do comércio com o Norte. Para começar, nem a Espanha nem 
qualquer dos outros países mediterrâneos precisavam das exportações 
portuguesas típicas, que mediterrâneas eram também. Portanto, o comércio tinha 
de depender de outros artigos, com a moeda de ouro e de prata a desempenhar 
um papel primacial. Não obstante, Portugal ainda podia oferecer um pouco de 


peixe seco, mel, cera, couros, peles, lã e algum sal também. Em troca*, recebia 
espe- 


As estruturas do final da Idade Média 135 
ciarias, açúcar, têxteis de seda e de lã, armas, cereais e toda a 


espécie de artigos domésticos e de luxo. Era-lhe mesmo possível manter uma 
posição de certa importância no enquadramento geral do comércio mediterrâneo, 
em parte pela sua posição intermédia entre os países nórdicos e o Sul da Europa 
junto com o Norte de África. Havia regiões muçulmanas a dependerem muitas 
vezes do mercado português (assim como do espanhol) para conseguirem obter 
produtos do Norte. Abundavam, no Portugal dos séculos xiii e xiv, as moedas de 
ouro e de prata do Islam que até serviam de substituto para a falta de numerário 
local. E, apesar de todas as proibições, o comércio com o mundo islâmico 
manteve-se florescente durante a Idade Média. 


Contactos comerciais com Castela eram, claro está, favorecidos, tanto pela 
proximidade dos dois países como pela intensidade das suas relações políticas. 
Comerciar com o vizinho revelava-se muitas vezes uma mera continuação do 
comércio interno. Artigos de produção local de Portugal e de Castela viam-se à 
venda na maior parte das feiras dos dois países e até em mercados menores. 
Bem conscientes da importância deste comércio, os monarcas de ambas as 
partes fizeram por o proteger através de sucessivos tratados e privilégios. Trigo da 
Andaluzia e da Estremadura espanhola serviu para impedir, ou pelo menos 
minorar, períodos de escassez em Portugal. Os panos castelhanos tinham grande 
popularidade entre a nobreza e o povo. Em Sevilha era frequente a presença de 
mercadores portugueses. Também intensos se mostravam os contactos marítimos 
com a Galiza e a costa setentrional de Espanha. Marinheiros e mercadores 
galegos e bascos demandavam a costa portuguesa, donde levavam mercadorias 
para o Norte, enquanto marinheiros e mercadores portugueses procuravam as 
cidades galegas e do Setentrião espanhol. Com Aragão e a Catalunha foram as 
alianças políticas que acaso serviram de estímulo a uma intensificação do 
comércio. Entre os numerosos estrangeiros residentes em Portugal, contavam-se 
catalães e aragoneses, assim como castelhanos em grande quantidade. 


Com as cidades e os reinos de Itália, as relações comerciais desenvolveram-se 
um tanto mais tarde, mas logo os Italianos 


136 A era feudal 


as tomaram quase completamente em suas mãos. A partir da década de 1270, e 
coincidindo com as suas primeiras viagens marítimas para a Flandres, os 
mercadores italianos (sobretudo de Génova, Florença, Milão, Placência e Veneza) 
estabeleceram-se em Lisboa e em outros portos portugueses, ligando o País à 
sua complexa rede de contactos e de feitorias internacionais. Acrescentaram 
Portugal às escalas regulares em portos localizados a caminho das suas viagens 


para Inglaterra e para a Flandres. Não só controlaram o comércio entre a Itália e 
Portugal, como também boa parte de todo o comércio português no Mediterrâneo, 
servindo ainda de intermediários com os países da Europa setentrional e, aos 
poucos, empurrando os Portugueses para fora deles. A sua destreza e opulência 
trouxeram-lhes protecção real e privilégios. Entraram em compita com os Judeus 
na actividade de empréstimo de dinheiros e na influência política. Foram eles 
também que melhoraram a ma- 


rinha portuguesa e influfram talvez, com as suas técnicas navais, na expansão de 
Portugal no século xv. 


Comércio O passo decisivo na história do comércio interno foi a introdução do 
principio de mercado no decorrer dos séculos xii e xili. 


Ao ideal de auto-suficiência, expresso pela armazenagem sistemática de quase 
toda a produção e pela inexistência de um sistema regular de compra e venda, 
substituiu-se o novo princípio de mercado. No começo, só os excedentes eram 
enviados para se trocarem por dinheiro; mais tarde, a própria produção foi 
condicionada pela colocação em mercado e pela circulação dos bens. Este novo 
sistema implicava uma troca organizada entre o campo e a cidade. Por outras 
palavras, cada latifúndio passou a enviar o grosso da sua produção para a cidade 
mais próxima. A pouco e pouco, foi-se generalizando uma economia de tipo 
monetário. 


Não quer isto dizer que o princípio do mercado tenha comPletamente abolido as 
antigas formas feudais de auto-suficiência. Tal não foi o caso, nem mesmo em 
épocas mais modernas. Mas o que importa é que, a partir do século xii, o mercado 
tornou-se gradualmente a forma habitual da organização econó- 


As estruturas do filial da Idade Média 137 


mica e que uma das características da actividade dominial passou a consistir na 
produção para o mercado local. 


Unia análise dos forais mostra à evidência a generalização do princípio de 
mercado. Todo o Portugal se lhe mostrou permeável. Nos centros maiores ou 
mais desenvolvidos, o volume do comércio até justificava a existência de dois 
tipos de portagens, unia sobre os carregamentos transportados em cavalos e 
mulas, outra sobre os transportados por burros. Ao primeiro tipo pertenciam, 
evidentemente, Lisboa, Coimbra, Santarém, Porto e diversas outras cidades. Nos 
povoados menos importantes, a portagem estabelecia-se sobre o tipo de 
mercadorias, sem cuidar do peso. 


Além dos mercados (chamados açougues e fangas em português medieval), 
superintendidos de perto por um almotacé de boa tradição muçulmana, a criação 
das feiras ainda alargou mais as formas da circulação interna de mercadorias. É 
verdade que as feiras portuguesas jamais desempenharam papel semelhante às 


da Flandres ou da França, nem deram origem a quaisquer centros urbanos. A 
posição excêntrica de Portugal impedia-as de se converterem em lugares de 
encontro internacional, não obstante os poucos mercadores castelhanos ou 
italianos que porventura participassem nelas de vez em quando. Contudo, as 
feiras tiveram o seu interesse no desenvolvimento do comércio interno. Em 
Portugal, a sua grande época foi o século xiii, quando se criaram quarenta e três 
das noventa e cinco feiras conhecidas. Vinte e seis mais apareceram no século xiv 
e vinte e três no quinze. Mais precisamente, foi o reinado de D. Dinis (1279-1325) 
que ficou marcado por unia enorme concentração de cartas de feira - 48 -, isto é, 
mais de metade do total, o que traduziu, sem dúvida, uma grande época na 
história do comércio interno. Tipo especial de feiras eram as chamadas feiras 
francas, onde os mercadores ficavam livres do pagamento de quaisquer impostos. 
Muito raras nos séculos xiii e xiv, tornaram-se bastante mais comuns na centúria 
seguinte, quando todos os processos pareciam bons para estimular o comércio. 


A actividade industrial, em contrapartida, não se revelou Artesanato paralela ao 
florescimento do comércio. Além de alguns têxteis 


138 

A era feudal 

Fig. 22 -Feiras medievais portuguesas (segundo V. RaDú, simplificado) 
As estruturas do filial da Idade Média 139 


baratos, destinados a consumo local, de uns quantos utensílios domésticos e 
rurais de madeira e de barro, de objectos de ourivesaria, da construção de navios 
e tanoaria, do fabrico de sabão e alguns produtos mais, não existia transformação 
de matérias-primas feita em Portugal. Quando os documentos mencionam 
artesãos, estão geralmente a referir-se a barbeiros, ferreiros, alfaiates, sapateiros, 
pedreiros, carpinteiros, oleiros, padeiros, almocreves, carniceiros, pescadores e 
outros semelhantes. Contudo, não foi pela falta de artífices autênticos que o 
sistema corporativo não surgiu em Portugal antes dos finais da Idade Média. Isso 
deveu-se antes à forte interferência e controle pelo rei e pelos concelhos 
rigidamente organizados, assim como ao papel sempre desempenhado pelos 
camponeses pequenos proprietários. Todavia, os artífices tiveram as suas formas 
rudimentares de associação, expressas pelas confrarias religiosas. Nos fins do 
século xiv, fez o seu aparecimento em Lisboa o primeiro esboço de sistema 
corporativo. Mas não seria antes dos finais da centúria de Quatrocentos que se 
organizaria o primeiro grupo de autênticas corporações. 


A expansão do comércio interno e externo trouxe consigo Preços novos 
problemas relativos a preços e a moeda. Como por toda a Europa, os preços 
subiram em Portugal desde os começos do século xiii aos meados do xiv. O preço 
do trigo, por exemplo, aumentou de um soldo por alqueire no princípio do século 
xiii, para mais do dobro por volta de 1264, para seis a oito soldos na década de 


1270-80, para entre dez e doze em 1317, e para entre onze e treze soldos no 
começo da década de 1360-70. Em meados do século xiii, o rei decretou o 
primeiro tabelamento geral de preços (1253). Arrolaram-se quase todos os artigos 
vendáveis, revelando um mercado bastante complexo e desenvolvido, tanto no 
que dizia respeito aos bens nacionais como aos importados. Só se omitiram 
cereais e outros produtos agrícolas, talvez para defender os interesses dos 
grandes proprietários (incluindo o rei) contra os dos mercadores. Depois de 1253 
decretaram-se diversos outros tabelamentos, mas quase sempre pelos conce- 


140 A era feudal 


lhos. As épocas mais instáveis parece terem correspondido ao terceiro quartel do 
século xiii e ao segundo quartel do século xiv. 


Moeda O sistema monetário português desse tempo baseava-se 


quase exclusivamente nos dinheiros de bilhão, doze dos quais faziam um soldo. A 
contagem por libras, cada qual equivalente a vinte soldos, foi a grande novidade 
do século xiii, introduzindo-se em Portugal nos começos da década de 1240, e 
generalizando-se depois quando o conde de Boulogne, com todas as influências 
trazidas de França, subiu ao trono com o título de Afonso 111 (1248). O sistema 
libra-soldo-dinheiro era na realidade muito antigo, tendo surgido primeiramente no 
império de Carlos Magno. Aos poucos, toda a Europa o foi aceitando. Em 
Portugal, os últimos morabitinos de ouro cunharam-se no reinado de Afonso III, 
mas em pequena quantidade. Depressa desapareceram da circulação. Moedas 
muçulmanas e outras estrangeiras, de ouro e de prata, substituíram inteiramente 
as moedas portuguesas durante mais de um século. Foi só na segunda metade da 
centúria de Trezentos, e durante um curto período (1357-1383), que os reis D. 
Pedro | e D. Fernando | tentaram reintroduzir moedas de ouro e de prata com o 
seu nome 

- dobras, torneses, etc. -, copiando os modelos espanhóis e franceses, quer no 
nome quer no valor. Depreciaram-se depressa, tornando-se raras e obsoletas. 


Uma das maneiras medievais de conseguir dinheiro consistia em desvalorizá-lo. 
Cunhavam-se novas moedas com o mesmo valor oficial mas com menor 
quantidade de ouro ou de prata. A medida que se iam tornando mais complexas, 
tanto a administração como a maneira de viver, surgiram também os primeiros 
orçamentos deficitários e houve a necessidade de mais dinheiro. Na falta dos 
habituais espólios conseguidos pelo saque na guerra contra o Islam, Afonso Ill e 
seus sucessores encararam um problema que se mostrava bastante familiar já à 
maior parte dos monarcas europeus. Afonso Ill desvalorizou a moeda três ou 
quatro vezes, com e sem consentimento dos povos. Seu filho D. Dinis, mais 
afortunado, conheceu tempos de maior prosperidade que o não forçaram a 
extremos desses. Afonso IV, 


As estruturas do f- da Idade Média 141 


porém, teve de proceder a desvalorizações mais de unia vez, e a grande crise que 
sobreveio iria tornar normal este sistema. 


A gradual complexidade da vida e da política tornou neceS- Gov-no e sária a 
criação de novos cargos de governo e de administração. administraçã Governar o 
país não era já o mesmo do que governar a casa do rei. Assim, a importância de 
um homem como o mordomo-mor, espécie de primeiro-ministro exactamente 
porque tinha à sua conta a casa real, declinou a favor do guarda do selo régio, o 
chanceler. A partir dos fins do século xiii, esta personagem tornou-se o autêntico 
chefe do governo. Sob as suas ordens passou a existir um número crescente de 
funcionários, notários e escribas, formando um quadro permanente localizado em 
Lisboa e constituindo uma repartição cada vez maior para a redacção de toda a 
espécie de documentos régios (chancelaria). Só o chanceler e uns quantos 
escrivães é que seguiam o rei nas suas numerosas deambulações pelo País. A 
partir da segunda metade do século xiv, a importância do chanceler sofreu a 
concorrência de outro funcionário, o escrivão da puridade, que assistia o rei nos 
seus assuntos mais Íntimos e em decisões imediatas. 


Abaixo de chanceler estavam os livradores do desembargo, espécie de 
subsecretários de estado que informavam o chanceler e o rei daquilo que se 
passava e preparavam os assuntos a serem decididos. Eram, em geral, legistas, 
treinados na prática do direito civil e do direito canónico e, muitas vezes, 
possuindo graus universitários. 


Para assuntos judiciais (porque uma das principais tarefas do rei era a 
administração da justiça), havia magistrados permanentes na corte, chamados 
sobrejuízes e, mais tarde, ouvidores. Nos começos do século xiv, a justiça em 
Portugal tornara-se complexa bastante para justificar a especialização das funções 
dos ouvidores. Surgiram assim três tipos de funcionários: os que tratavam da 
jurisdição civil, os relacionados com o crime, e os que tomavam conta de todo e 
qualquer negócio dizendo respeito ao tesouro real e aos bens do rei. Estes últimos 
vieram a ser conhecidos como vediares da fazenda, actuando como autênticos 
ministros das finanças. Para fins práticos de admi- 


142 A era feudal 


nistração da justiça, estes três principais tipos de funcionários públicos, todos eles 
nomeados pelo rei, constituíam três tribunais mistos: um permanentemente fixado 
em Santarém (mais tarde em Lisboa), lidando sobretudo com o direito civil (Casa 
do Cível), um segundo acompanhando o rei por todo o Pais, e um terceiro tratando 
apenas da propriedade régia. Havia ainda um magistrado especial encarregado da 
policia: o corregedor da corte. 


Também a administração local se fez mais complexa. Dobrou ou tripliceu o 
número de magistrados eleitos pelo concelho de cada município, e as suas 
funções restringiram-se e especializaram-se. Dois desses magistrados tratavam 
apenas de feitos em que os Judeus fossem parte. Dois outros ocupavam-se dos 


órfãos e das tutorias. Existia também um procurador, servindo de advogado 
público. Para as finanças havia os tesoureiros. Criaram-se arquivos para registo 
das escrituras locais. 


Fig. 23 -Concelhos medievais portugueses (segundo T. Soares, simplificado) 
As estruturas do final da Idade Média 143 


Ainda mais importantes foram as modificações introduzidas no sistema de 
relações entre a administração central e a administração local. Conseguir 
centralização era o supremo objectivo de cada monarca; defender os direitos de 
autogoverno (por limitados que fossem), o objectivo supremo de cada concelho. 

O conflito, que se mostrou particularmente violento durante a Idade Média, 
terminava sempre com a vitória do soberano. 


A partir dos meados do século xiii, os alcaides ou representantes do rei passaram 
a ser assistidos por alguns novos funcionários, de nomeação régia, para que 
melhorasse a administração da justiça e a manutenção da ordem. Foram os 
meirinhos-mores, que iam de terra em terra em vez de estarem fixos numa cidade 
ou numa aldeia. Apareceram depois os corregedores, no século xiv, igualmente 
para manter justiça, lei e ordem, Sempre que necessário, mandavam-se juízes de 
fora julgar todos os assuntos que requeressem maior imparcialidade do que 
aquela que os juízes locais podiam oferecer. Com D. Afonso IV, até os juízes 
locais passaram a ser confirmados pelo rei, caindo a administração da justiça sob 
o monopólio firme da coroa. As reformas e regulamentos deste monarca tiveram 
importância decisiva. Foi ele que determinou também que fossem eleitos novos 
magistrados à escala local - os vereadores - para assistirem os juízes em todos os 
feitos de justiça. Nomeou igualmente um novo juiz para superintender nos 
testamentos e legados. 


Na história dos parlamentos medievais, a Península Ibérica cortes ocupou um dos 
primeiros lugares. Não só os seus parlamentos surgiram muito cedo na evolução 
política da Europa, como também o papel por eles desempenhado se mostrou 
relevante na vida política das monarquias ibéricas. Pelos finais do século xii, as 
cortes castelhanas inclufam já representantes do povo, além dos membros do 
clero e da nobreza que costumavam aconselhar o rei sempre que necessário. Em 
Portugal, porém, não há prova evidente de uma tal participação antes de 1254. 
nas cortes de Leiria. A convocação de representantes populares 

- isto é, delegados dos homens bons, sobretudo proprietários rurais, e apenas de 
alguns concelhos -, embora mostrasse a 


144 
A era feudal 


importância que o terceiro estado ia tendo na vida do Pais, deve antes entender- 
se como um expediente régio para conseguir mais impostos. Tal era a regra geral, 


a principal razão de convocar o povo, pelo menos durante o século xiii e os 
princípios do xiv. Assim se explica porque, durante o reinado de D. Dinis e com o 
tesouro aparentemente próspero, as cortes raramente se reuniram. 


Direito O enquadramento da administração e da justiça definia-se 


por várias fontes jurídicas. O direito canónico, por exemplo, que dava a solução 
para numerosos casos da vida quotidiana (como fossem, casamento, relações de 
parentesco, doações pias, testamentos, usura e lucro, etc.), compreendia cinco 
corpos de lei principais: os Decretos de Graciano, as Decretais do papa Gregório 
IX, o Livro VI do papa Bonifácio VIII, as Clementinas do papa Clemente V e as 
Extravagantes do papa João XXII. Todas estas matérias eram ensinadas e 
comentadas na Universidade. 

O renascimento do direito romano, no século xii, cnegou a Portugal muito cedo, 
pelos meados da centúria, mas as suas aplicações práticas demoraram mais 
tempo. De favor maior gozavam os vários códigos castelhanos, que em si mesmos 
transmitiam uma boa percentagem de direito romano: o Fuero Real, traduzido para 
português entre 1273 e 1282, as Partidas, traduzidas na mesma época e seguidas 
durante todo o século xiv, etc. 


A legislação portuguesa autóctone incluía as leis gerais promulgadas por cada 
monarca desde os começos do século xii, os forais muito numerosos, 
acrescentados de tradições e costumes locais, as concordatas com a Igreja, 
costumes e regulamentos seguidos na corte, e até a autoridade de alguns legistas 
mais cotados. O primeiro corpus, incompleto, de todas essas leis apareceu só 
pelos fins do século xiv: foi o chamado Livro dás Leis e Posturas. Seguiram-se-lhe 
duas outras importantes colecções, uma organizada pelo rei D. Duarte 
(Ordenações de D. Duarte), a outra, maior, no reinado de D. Afonso V 
(Ordenações Afonsinas). 


Instrução Existiram escolas nas igrejas catedrais portuguesas, pelo e cultura 
menos desde o século xi. Embora o seu único objectivo fosse a 


As estruturas do final da Idade Média 145 


preparação de futuros clérigos, não pode esquecer-se o papel que tiveram no 
enquadramento geral da educação pública. Além destas escolas episcopais, 
funcionavam ainda salas de aula em muitos mosteiros, como, por exemplo, nos de 
Alcobaça e Santa Cruz de Coimbra, entre os mais famosos. Em ambos os tipos de 
escolas, as matérias ensinadas mostravam-se muito semelhantes, e em Portugal 
como no resto da Europa: gramática (isto é, ler e escrever latim), dialéctica (isto é, 
lógica) e, evidentemente, tudo o que se relacionasse com a fé e a liturgia. 


Em 1288, um grupo de clérigos, tendo à frente os priores de Alcobaça, Santa Cruz 
de Coimbra e S. Vicente de Fora de Lisboa, solicitaram do papa Nicolau IV a 
confirmação da criação de uma Universidade, que tinham estabelecido em Lisboa 
de comum acordo com o rei. Sugerida pela Igreja e financeiramente mantida pela 


Igreja também, a Universidade destinava-se a constituir uma espécie de seminário 
para futuros clérigos. Só a pouco e pouco é que os laicos foram entrando nela. 


Comparada com as universidades de Itália, França ou Inglaterra, a Universidade 
portuguesa surgiu bastante tarde. Mesmo em Castela e Aragão haviam sido 
criadas universidades muito anteriormente. Contudo, em contraste com outros 
países marginais da Europa - como os da Escandinávia, a Escócia e os estados 
eslavos - ou com a Alemanha, Portugal veio muito à frente., o que implicava a 
existência de uma vida cultural assaz desenvolvida para o tempo. É verdade que 
nunca foram grandemente favoráveis as condições para que a Universidade 
prosperasse, pelo menos antes do século xv. Teve sempre pouco prestígio, tanto 
em Portugal como no estrangeiro. Não evitou a saída de estudantes para Oxford, 
Paris, Salamanca ou Bolonha, nem a qualidade dos seus professores jamais 
atraiu estudantes estrangeiros. 

O seu corpo docente nunca excedeu umas vinte pessoas, limitando-se a cinco 
lentes nos começos do século xiv. Para fins locais, contudo, a Universidade 
revelou-se indubitavelmente útil, preparando alguns clérigos de melhor qualidade, 
advogados, notários e uns quantos médicos. 


Muito mais importante do que a cultura oficial, transmitida pelas escolas e pela 
Universidade, foi aquela que nobres, clérigos 


146 A era feudal 
e até leigos obtinham noutras partes. Em toda a casa senhorial 


estavam presentes professores doutos, importados muitas vezes do estrangeiro. 
Sacerdotes e frades cultos eram companheiros diários de muitas cortes, tanto 
laicas como eclesiásticas. É bem sabido que as cortes reais, pelo menos a partir 
do reinado de D. Sancho 1 (1185-1211), acolheram jograis que viajavam pelo País 
ou vinham mesmo de além fronteiras, revelando-se focos intensos de cultura, 
especialmente de poesia e de música. 


As origens desta cultura, dita trovadoresca, têm sido muito discutidas. Embora a 
influência francesa haja provavelmente desempenhado o papel decisivo, quer por 
introdução directa da França (Afonso III, que vivera aí, é o melhor exemplo, mas a 
tradição francesa estava presente desde os tempos do conde D. Henrique, sendo 
alimentada por contactos políticos e religiosos de toda a sorte), quer via Catalunha 
e a corte aragonesa, parece não haver dúvida de que a tradição islâmica no Sul - 
que, por sua vez, influenciou também a França - deu aos 


trovadores portugueses e à sua expressão poética uma forma extremamente 
original. A grande época da cultura trovadoresca foi o século entre 1250 e 1350, 
mas a existência de composições muito anteriores sugere um longo período de 
incubação que pode recuar ao século xii ou até anteriormente. Dos poemas 
sobreviventes, que geralmente classificamos em três tipos principais - cantigas de 
amigo, cantigas de amor e cantigas de escárnio ou maldizer - nota-se um 


ambiente cosmopolita na elite portuguesa, em que autores galegos, leoneses e 
castelhanos concorrem com os naturais do País. A cultura trovadoresca, contudo, 
não se restringiu a Portugal, difundindo-se também pelas cortes real e senhoriais 
castelhanas, onde os poetas portugueses rivalizavam com os seus colegas 
estrangeiros. 


Os trovadores eram geralmente nobres. Compunham ou, pelo menos, escreviam 
as palavras para as canções que os jograis 

- homens do povo, mouros, judeus e alguns nobres de condição inferior - 
cantavam depois. Era igualmente de nobres, na sua grande maioria, o público 
ouvinte. Reis e outros -membros da 


As estruturas do fipal da Idade Média 147 


família real partilhavam este dom da composição poética: tal foi o caso de Sancho 
| e, especialmente, de D. Dinis, a quem se creditam umas cento e trinta e nove 
canções. 


A linguagem de todos estes poemas era o português ou, melhor dizendo, o 
galego-português, visto que as duas línguas não estavam ainda diversificadas 
nesse tempo. Tão forte se revelava a associação entre o galaico-português e a 
poesia, e tão enraizada se mostrava a sua área de expansão que os trovadores 
leoneses e castelhanos escreviam nele, em vez de o fazerem nos seus próprios 
dialectos-línguas. O melhor exemplo foi o do famoso rei Afonso X de Castela 
(1252-1284) com as suas celebradas Cantigas de Santa Maria. Alguns autores 
pretendem que o galego-português era tido por mais próprio, em flexão e 
vocabulário, e por mais doce em som, do que o leonês ou o castelhano. 


Seja como for, este desenvolvimento cultural ajudou decisivamente a aperfeiçoar o 
português como língua e a fazê-lo apto para o seu papel nacional. Nos meados do 
século xiii, o português usava-se já como idioma de muitos documentos públicos e 
privados. Nos fins do mesmo século, foi oficialmente adoptado como língua escrita 
do Pais, substituindo o latim, e rapidamente tomou o lugar deste último, até em 
documentos eclesiásticos. Se tivermos em conta a época tardia em que muitas 
línguas vernáculas da Europa foram adoptadas como idioma oficial, podemos 
avaliar como o português amadureceu num período de tempo relativamente curto. 


Além da poesia, as outras formas literárias desenvolveram-se comparativamente 
muito menos. Na prosa literária, os Portugueses vinham atrás dos Castelhanos ou 
dos Aragoneses, com uma historiografia bastante primitiva antes dos meados do 
século xv. A única grande produção foi uma espécie de romance de cavalaria 
chamado Amadis de Gaula (século xiv), cuja autoria portuguesa aliás se discute *. 


* Não importa mencionar aqui o papel de um Santo António, que todo se 
representou fora de Portugal. 


148 A era feudal 


Arte Grande parte, se não a maioria do imenso espólio acumuconstrufão lado por 
reis e senhores durante o saque da «Reconquista», foi e Militar 


investido em construções religiosas. Este facto explica o tremendo surto de 
catedrais, abadias, igrejas paroquiais e capelas num país relativamente pobre 
como era Portugal. Também explica por que motivo a grande época das 
construções correspondeu aos cem anos entre os meados do século xii e os 
meados do século xiii. É interessante verificar que a maior parte dos monumentos 
desse tempo revela o carácter militar da «Reconquista» e a necessidade de 
defesa. São edifícios volumosos e sólidos, providos de ameias e dispondo de 


poucas aberturas, à maneira de castelos. Na realidade, serviam muitas vezes 
como tais. 


Do ponto de vista artístico, a época apresenta traços muito interessantes: o estilo 
românico declinou até ceder o lugar ao novo estilo gótico. Na arte, esta mudança 
traduziu a resposta às condições cambiantes da economia e da sociedade. Novos 
estilos, porém, precisam de tempo para varrer a tradição e o preconceito. 
Irradiando de França, nos meados do século xii, o gótico não alcançou logo os 
países mais distantes. Quando chegou a Portugal, havia já muitos anos que a 
maioria das catedrais e dos outros edifícios religiosos se achavam em construção. 
Não foi tarefa fácil mudar arquitectos, superintendentes e artífices especializados, 
mesmo dando de barato que bispos e abades aceitavam as novas modas de 
construir. Os resultados foram compromisso atrás de compromisso: estruturas 
híbridas, capelas góticas ou decorações góticas acrescidas mas, essencialmente, 
a manutenção de uma estrutura de base românica. O gótico puro chegou tarde a 
Portugal e ainda mais tarde competiria com o românico, tanto em número como 
em grandiosidade de edifícios. 


Cada uma das nove dioceses quis para si uma Sé magnífica, maior e mais bela do 
que a sua rival. Para a maior parte delas, o modelo teria de ser a enorme catedral 
de Santiago de Compostela, na Galiza, igreja de peregrinação no mais puro estilo 
românico, construída entre 1078 e a década de 1130. Braga foi a primeira catedral 
portuguesa a ser edificada, nos começos do 


As estruturas do flital da Idade Média 149 


século xii. Embora destinando-se a Sé metropolitana do País, e 
correspondentemente grandiosa, nunca recebeu abóbada, construindo-se de 
madeira o telhado. Pode-se imaginar que as verbas requeridas para o seu 
completamento exorbitavam dos magros recursos de Portugal antes de reiniciada 
a «Reconquista». Mais tarde, quando houve dinheiro, Braga estava já um tanto 
posta de parte e longe de mais do teatro real das operações. Outras sés herdaram 
dela o interesse e também a maioria dos fundos. Tal aconteceu com Coimbra e 
com Lisboa, ambas construídas na segunda metade do século xii. As restantes 
seis catedrais (Porto, Viseu, Lamego, Guarda, Évora e Silves) foram mais 
pequenas. Se o Porto, Lamego e a Guarda se fizeram ainda inteiramente em 


românico, e se Viseu acrescentou a uma estrutura românica uma abóbada de 
gótico final, já Évora, edifício aliás notável, exibiu um caso evidente de 
compromisso entre os dois estilos, enquanto Silves, construída muito mais tarde, 
reflectiu já o estilo gótico puro. 


Grande número de outras igrejas e mosteiros de menores dimensões foram 
construídos no decorrer dos séculos xi, xii e começo do xiii, sobretudo a norte do 
rio Mondego. Em muitos destes templos, particularmente nos grandes, 
trabalharam arquitectos e artífices franceses, introduzindo formas e aspectos 
locais dos monumentos de além-Pirinéus. Além da influência de Santiago de 
Compostela, deve mencionar-se outro impacto estrangeiro, o das abadias de 
Cluny e Clairvaux, em França, transmitido naturalmente pelos monges 
cluniacenses e cistercienses que vieram para Portugal. O melhor exemplo desta 
influência sentiu-se nas abadias cistercienses aqui construídas. Alcobaça, erigida 
entre 

1172 e 1252, a principal igreja e mosteiro dessa ordem, era um enorme edifício. 
Conquanto românico em concepção, área, volume e estrutura geral, exibia, não 
obstante, uma abóbada gótica. Simples e austera na sua decoração, Alcobaça 
realizava perfeitamente os ideais religiosos e estéticos dos Cistercienses, opostos 
à decoração pomposa e rica da maioria das igrejas do tempo. 


Também as demais ordens religiosas e religiosas-militares tiveram as suas igrejas 
e os seus mosteiros no Portugal do sé- 


150 A era feudal 


culo xii e do século xiii. Os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho fizeram 
edificar em Coimbra outra jóia da arte românica, a igreja de Santa Cruz (1121-54) 
e, em Lisboa, a de S. Vicente, que não sobreviveu até hoje. Nos fins do século xii, 
os Templários principiaram uma igreja magnífica em Tomar, na tradição das 
igrejas redondas do Médio-Oriente. 


Se as dioceses, os Beneditinos e seus continuadores (Cluniacenses e 
Cistercienses), e as ordens militares estiveram geralmente associadas com o 
românico ou com o híbrido românico-gótico, as novas ordens religiosas, fundadas 
no século xiii e depois dele -franciscanos, dominicanos e outros-, construíram as 
suas igrejas e mosteiros no enquadramento do novo estilo. Sendo ordens 
essencialmente urbanas no seu modo de viver e nos fins que pretendiam atingir, 
não admira que a maioria dos seus monumentos fosse construída nessa parte de 
Portugal onde as cidades se mostravam mais numerosas e mais populosas-o Sul. 
Este facto, e ainda porque a chegada do novo estilo coincidiu com a reconquista 
da maior parte do Alentejo e do Algarve, explica por que motivo Portugal ficou 
aproximadamente dividido em duas grandes áreas consoante o estilo artístico 
nelas predominante: o Norte, românico, o Sul, gótico. As excepções eram, 
naturalmente, as igrejas já construídas no Sul (muito poucas, na realidade) e os 
novos monumentos edificados no Norte posteriormente ao século xiii (poucos, 
também, em comparação com os já existentes). Como os proventos deixaram de 


ser abundantes finda a «Reconquista», e como muitos outros interesses os 
distraíram para outros fins, construfram-se ao todo em Portugal, até meados do 
século xv, menos monumentos góticos do que românicos. 


No século xiii, as duas igrejas maiores e mais importantes foram os templos 
franciscanos de S. Francisco e de Santa Clara em Santarém, o de Santa Clara em 
Coimbra e o de S. Francisco em Lisboa, que não chegou até nós. Depois, a partir 
da década de 1390, e durante o século xv, erigiram-se templos mais vastos e mais 
requintados. O maior de todos foi o mosteiro da Batalha, construído depois de 
1388, em resultado da promessa feita por D. João 1 na véspera da batalha de 
Aljubarrota. 


Fig. 24 -O Portugal românico e o Portugal gótico 
1 -Principais monumentos românicos 
2 -Principais monumentos góticos 


152 A era feudal 


Tanto ele como todos os seus sucessores até D. João Il preocuparam-se com o 
novo edifício, fazendo-lhe doações sem fim para o seu completamento (que nunca 
se conseguiu) e embelezamento. O mosteiro da Batalha ficou, na realidade, o 
exemplo mais perfeito da arquitectura e decoração góticas em Portugal e um dos 
mais perfeitos da Europa. Muito comprido, largo e alto, o mosteiro da Batalha 
combinou a arte e a técnica dos melhores arquitectos, escultores e decoradores 
do tempo, tanto portugueses como estrangeiros. Além dele, edificaram-se 
numerosas igrejas e mosteiros por, todo o País mas principalmente no Sul, como 
o do Carmo em Lisboa, S. Francisco em Évora, Graça em Santarém, etc. 


Menos numerosos se mostraram os monumentos civis, que o tempo e a fortuna 
destruíram também mais. Não existiu uma autêntica vida comunal, que justificasse 
o orgulho das cidades-estados da Europa, com sua soberba exibição de câmaras 
municipais e outros monumentos públicos utilitários. Em Portugal, a maioria dos 
actos públicos tinha lugar dentro das igrejas. Os únicos exemplares realmente 
importantes de arquitectura não-religiosa - para lá dos numerosos chafarizes, 
casas, aquedutos, pelourinhos, etc. - foram os castelos e as muralhas das 
cidades. Uma vez mais, a «Reconquista» desempenhou papel de relevo na 
construção e manutenção de tais fortificações, mas 


aqui a ciência bélica muçulmana e a própria experiência local foram além de toda 
e qualquer influência estrangeira. Os castelos portugueses só são comparáveis 
aos da Espanha e aos do mundo muçulmano. A sua grande época coincidiu com 
as guerras ofensivas e defensivas dos séculos xii e xiii, embora grande número de 
fortificações possam naturalmente remontar a um passado distante. Com D. Dinis, 
muitos castelos foram reparados e várias muralhas construídas de novo, à medida 
que se desenvolvia a vida urbana. Mais tarde, tanto D. Fernando como D. João | 
se ocuparam cuidadosamente de castelos e outras fortificações. 


Numerosos castelos residenciais e palácios, sobretudo construídos durante o 
século xv, atestaram a prosperidade de umas quantas famílias nobres espalhadas 
por todo o Portugal. 


As estruturas do final da Idade Média 153 


A escultura e a pintura desenvolveram-se segundo princípios idênticos aos 
apontados. No Norte, o granito local impediu elaborações requintadas de efeitos 
escultóricos. No Sul, porém, materiais menos duros permitiram aos artistas 
portugueses e importados do estrangeiro a criação de formas afinadas, quer em 
escultura decorativa quer em estatuária independente. Os exemplos que nos 
restam para os séculos xiii, xiv e xv mostram à evidência o alto nível de 
desenvolvimento alcançado pela escultura. Ao contrário, a pintura parece ter sido 
algo desprezada, talvez por faltarem técnicas muçulmanas ou meridionais, depois 
dos muitos séculos de domínio islâmico. 


Bibliografia -Além das obras gerais já mencionadas (História de Portugal, dirigida 
por Damião Peres; História de Portugal, de Fortunato de Almeida; História de 
Portugal, de Alexandre Herculano; História da Administração Pública em Portugal, 
de Gama Barros; História da Expansão Portuguesa no Mundo, dirigida por António 
Baião, Herriâni Cidade e Manuel Múrias; Dicionário de História de Portugal, 
dirigido por Joel Serrão, e Os Factores Democráticos na Formação de Portugal, de 
Jaime Cortesão), existem diversas monografias sobre cada um dos assuntos 
tratados. 


Sobre o problema do feudalismo, vale a pena consultar os estudos bem 
documentados de Paulo Mereia, principalmente a sua Introdução ao Problema do 
Feudalismo em Portugal, Coimbra, França Amado, 1912. Armando Castro 
apresenta um ponto de vista económico em A Evolução Económica de Portugal 
dos Séculos XIl a XV, vol. I, Lisboa, Portugália, 

1964, pp. 50-64, enquanto Charles Verlinden prova convincentemente o carácter 
feudal da tenência no seu artigo «Quelques aspects de | histoire de la tenure au 
Portugal», Recueils de la Société Jean Bodin, vol. Ill, Bruxelas, 1938. Revelam-se 
úteis para comparação as obras gerais sobre o feudalismo, táis como F. L. 
Ganshof, Que é o feudalismo”, tradução de Jorge Borges de Macedo, colecção 
Saber, Lisboa, Europa-América, 1959. 

O livro de Marcelo Caetano, Lições de História do Direito Português, Coimbra, 
Coimbra Editora, 1962, mostra-se extremamente útil para uma visão geral das 
instituições medievais. Também útil para a contrapartida espanhola é o livro de 
Luís García de Valdeavellano, Curso de Historia de las Instituciones Espafiolas. 
De los Orígenes al final de la Edad Media, Madrid, Revista de Occidente, 1968. 


Sobre história demográfica e económica existem algumas monografias úteis, tais 
como o clássico Alberto Sampaio, Estudos Históricos e Económicos, vol. |, Porto, 
1923, Virgínia Rau, Subsídios para o Estudo das Feiras Medievais Portuguesas, 
Lisboa, 1943, A. H. de Oliveira Marques, Introdução à História da Agricultura em 
Portugal. A questão ceredlífera 


154 A era feudal 


durante a Idade Média, 2.a edição, Lisboa, Cosmos, 1968 e, do mesmo autor, os 
Ensaios de História Medieval Portuguesa, Lisboa, Portugália, 1965. 


Os aspectos culturais foram competentemente analisados por Antônio José 
Saraiva, História da Cultura em Portugal, vols. 1 e Il, Lisboa, Jornal do Foro, 1950- 
53, e por Manuel Rodrigues Lapa, Lições de Literatura Portuguesa. Época 
Medieval, 4.1 edição, Coimbra, Coimbra Editora, 1956. Sobre arte existe uma 
história geral aconselhável, História da Arte em Portugal, vols. | e Il, Porto, 
Portucalense Editora, 1942-48, começada por Aarão de Lacerda e continuada por 
vários outros autores quando aquele faleceu. 


2 -A Crise 


Não temos qualquer prova de uma crise geral em Portugal, antes dos meados do 
século xiv. A verdade é que estudos sobre o comportamento dos preços ou sobre 
a população das cidades poderão esboçar um quadro diferente, forçando-nos a 
recuar a tempos mais atrás a fim de encontrar raízes e sementes de crise. Em 
1340, continuava a tendência para a subida de preços nos produtos industriais, 
fazendo-se comparações com eras do passado, quando os preços estavam mais 
baixos. 


Os problemas sociais, contudo, pareciam preocupar reis e conselheiros, talvez 
porque os achassem novidade perturbadora. Segundo uma famosa lei ou 
pragmática, promulgada nesse ano, a aristocracia gastava demais e tendia a 
arruinar-se. Por outro lado, uma burguesia próspera rivalizava com os nobres em 
todas as marcas de hierarquia e opulência. A terra já não bastava como fonte 
suficiente de rendas, não podendo competir com os lucros do comércio e do 
artesanato. Obviamente, a nobreza lutava com um problema de adaptação. 
Incapazes de encarar as novas realidades, investindo no comércio e em outras 
actividades lucrativas, os nobres pareciam saudosos de um período de 
prosperidade fácil, resultado da Reconquista e do suas presas. Essa mesma 
pragmática de 1340 revelava certa inquietação no seio das classes inferiores, 
expressa pela ruptura da estabilidade feudal e pelo surto de um proletariado 
móvel. 


A falta de outras fontes, a Peste Negra de 1348 trouxe, pelo p,,t, menos, um sinal 
muito mais claro do que se estava a passar. Negra 


158 A era feudal 


e promovendo a repartição da mão-de-obra entre os diversos proprietários. A lei 
de 1375 -conhecida como Lei das Sesmarias - foi ainda mais longe no obrigar dos 
trabalhadores ao seu mester tradicional, impedindo a liberdade de trabalho, 
mantendo os salários baixos e dificultando a vagabundagem. Mas apesar desta lei 


e de outros regulamentos locais, promulgados nos fins do século xiv e nos 
princípios do século xv, a tendência para a liberdade de trabalho ou, pelo menos, 
para uma maior liberdade de trabalho continuou. Cem anos mais tarde, boa parte, 
se não a parte decisiva de toda a mão-de-obra era já inteiramente livre, baseando- 
se em contratos de trabalho revogáveis e temporários. 


Consequências Outro aspecto da crise do século xiv sentiu-se na produção e 
económicas na paisagem agrícolas. Terras despovoadas converteram-se em 


excelentes reservas de caça e em pastagens. Até ao século xv, documentam-se 
perfeitamente o número e a regulamentação das primeiras. Parece que aqueles 
solos onde a produtividade se mostrava especialmente baixa foram os primeiros a 
ser abandonados e convertidos em baldios. No Alentejo e noutras partes, 
aumentou consideravelmente a criação de gado ovino. Mas não dispomos ainda 
de monografias que nos informem dos pormenores de tais modificações, 
relativamente à produção de lã e seu comércio, assim como a um possível 
crescimento das receitas das ordens militares. Por outro lado, o uso mais 
extensivo do sistema de pousio tornou imediatamente improdutivas vasta 
percentagem de terras, embora fornecesse alimento bastante para todas as 
espécies de gado. 


Os resultados destas transformações foram múltiplos. Assim por exemplo, 
desconhece-se qualquer falta de cereais antes dos meados do século xiv. Depois, 
gradualmente, essa escassez tornou-se assunto de preocupação geral. O número 
de crises frumentárias aumentou no século xv: as cidades, em especial Lisboa, e 
algumas regiões da província (o melhor exemplo é o Algarve) passaram a 'sofrer 
fome ou grande falta de pão periodicamente. Por todo o Portugal, o montante das 
colheitas decresceu COM certeza durante este período. Para isso contou, obvia- 


A crise 159 


mente, o declínio da população: havia menos braços para os trabalhos rurais, 
menos bocas a alimento, na província, grande número de campos para cultivar, 
em suma, menos condições para uma boa colheita. Por outro lado, a maior 
procura de excedentes nas cidades podia ter estimulado a produção. Assim, as 
razões para a constante escassez devem antes buscar-se numa falta de 
ajustamento duradoura entre a produção e o consumo, e num sistema anacrónico 
de distribuição geográfica e social que já não correspondia às grandes mudanças 
sentidas por todo o País. 


A baixa na produção cerealífera foi provavelmente acompanhada ou até 
provocada por um aumento em outros géneros agrícolas, tais como o vinho e o 
azeite. Temos provas bastantes de que a área entregue à vinha cresceu durante 
este período, conquistando muitos campos antes semeados de trigo ou de 
cevada. A vinha, como a oliveira, requer menos trabalho e, portanto, menos mão- 
de-obra, embora dê um rendimento compensador. Foi por esta época que as 


exportações de vinho de Portugal começaram a desempenhar papel importante na 
economia do Pais. Para combater a escassez cerealífera e a procura de pão nas 
crescentes cidades, estabeleceu-se uma política regulamentada de importações 
do estrangeiro, em ritmo sempre acelerado. Não admira que se tivessem 
desenvolvido contactos comerciais a distância com países como a Inglaterra, a 
França Setentrional, a Itália do Sul e até o mundo alemão, assim corno com o 
Norte de África e com toda a Espanha. 


Na história do comércio externo português durante o século xv, o abastecimento 
cerealífero desempenhou com frequência papel de relevo, determinando correntes 
de comércio e artigos de comércio. Mas os Portugueses ainda se mostravam 
relutantes em admitir uma situação permanentemente deficitária. Tentaram vários 
esforços com vista a uma melhor utilização do solo. Experimentaram-se também 
arroteias em pequena escala, na vã tentativa de revalorizar aquilo que a 
«preguiça» ou a «incúria» dos homens, no dizer coevo, deixara abandonado. 
Alguns autores deitavam as culpas para os aforamentos em uma 


160 A era feudal 


ou duas vidas que, segundo afirmavam, não davam incentivo a que se cuidasse 
da terra adequadamente. 


A tendência geral foi de contracção, particularmente durante o século xv. Os 
preços, em regra, baixaram depois de um período de altos níveis, precedendo o 
inevitável reajustamento. Excepto em períodos de crise, o preço do trigo e dos 
outros cereais, por exemplo, baixou ou estagnou até à década de 1470. 


Consequências Além do possível impacto dos tipos de aforamento na crise 


sobre a propriedade agrícola, a posse das terras em si mesma desempenhou 
papel 


de relevo. A Peste Negra e as outras muitas pestes que devastaram Portugal, 
como toda a Europa, desde meados do século xiv, suscitando, como nunca até 
então, a angústia de morte iminente, trouxeram consigo consequências 
económico-sociais de enorme alcance. Proprietários alodiais, tanto de extracção 
nobre como vilã, deixaram os seus bens às ordens religiosas, às igrejas paroquiais 
e às sés, numa tentativa desesperada de obter a salvação eterna. Legados deste 
tipo eram teoricamente proibidos por lei, mas não havia autoridade que os 
pudesse impedir numa época dramática como essa, quando o Juízo Final se 
esperava a todo o momento e quando os cortesãos e os próprios funcionários 
públicos (incluindo o rei e a família real) tentavam, com desespero, apaziguar a 
cólera divina e salvar as próprias almas. A acreditarmos nas queixas feitas em 
cortes, e em muitas declarações de contemporâneos, a propriedade da Igreja 
aumentara tanto logo após 1348 que,,em pouco tempo, «todo o Portugal estaria 
nas suas mãos». Isto, claro, não passava de exagero grosseiro, mas reflectia a 
extensão da mobilidade da terra e a preocupação geral de muitos cidadãos 


conscienciosos. Proibições régias, porém, mostravam-se tímidas e ineficazes, pelo 
que as doações particulares, acrescidas de frequentes compras de terra, 
continuaram a aumentar a riqueza da Igreja, pelo menos até finais do século. 
Múltiplas foram as consequências. O clero não estava devidamente preparado 
para tratar adequadamente de uma tão súbita concentração de propriedade. 
Muitas terras foram deixadas por ocupar, por organizar, por produzir, ou 
produzindo menos do que antes. Os impostos a pagar ao rei ou aos concelhos 
cessa- 


monel(írias 
A crise 161 


ram, visto que a Igreja era privilegiada e as suas terras isentas de contribuição. 
Consequentemente, os rendimentos reais e municipais ficaram prejudicados. A fim 
de reorganizar vastas áreas outrora produtivas, a Igreja preferiu insistir no sistema 
dos aforamentos em uma a três vidas, que aliás o direito canónico, recomendava. 
Houve, contudo, um aspecto vantajoso em todo este quadro: com o tempo, 
concessões e compras substanciais de terra levaram a uma melhor organização e 
exploração rural em si, concebida em larga escala. Convidaram também a Igreja a 
tentar uma reconstituição dos antigos limites da propriedade, emparcelando 
pequenas unidades que o crescimento demográfico determinara. 


Mais importantes ainda foram as consequências da crise ; sobre a moeda. A partir 
da década de 1350, a desvalorização do numerário jamais parou até 1435. Pode 
este facto parecer pouco significativo, porque as moedas medievais se 
desvalorizavam constantemente antes e depois da crise do século xiv. Mas é o 
montante da desvalorização que tem de ser observado. Em 

1325, quando D. Afonso IV subiu ao poder, um marco (=230 gramas) de prata 
valia dezanove libras portuguesas (1 libra = 20 soldos = 240 dinheiros). Em 1435- 
36, esse mesmo marco avaliava-se em vinte e cinco mil libras. É verdade que a 
inflação galopante só começou por volta de 1369, sendo em parte causada pelas 
aventuras militares de D. Fernando e pela guerra da independência no reinado de 
D. João |. Mas, findo o século, a guerra atingira praticamente o seu termo, e 
quando o pior período de inflação chegou, por volta de 1409, o Pais gozava de 
paz e de tranquilidade. É que as causas estavam algures, na profunda extensão 
da crise, na falta de ouro e de prata, nas fases transicionais do ajustamento 
económico e social. Falharam as várias tentativas conhecidas de contra-reacção. 
Pelos fins do século xiv, uma nova moeda, o real, copiado de Castela, substituiu o 
tradicional dinheiro e seus múltiplos, por então completamente desvalorizado. Em 
1435-36, D. Duarte conseguiu estabilizar a moeda, mas a tendência para a 
desvalorização continuou. Para evitar uma completa paralisia económica, os 
pagamentos no princípio 


111 


A era feudal 


1350 1370 1390 1410 1430 1450 


Fig. 25 - Desvalorização da moeda portuguesa nos séculos xiv e xv (escala 
logarítmica) 


Valor do marco de prata (230 9) em libralO 
A crise 163 


do século xv faziam-se muitas vezes em moeda estrangeira ou simplesmente em 
géneros. O povo recusava as moedas nacionais, que o rei tinha de impor por 
constantes éditos. Desconhece-se ainda todo o conjunto de consequências da 
crise monetária nas rendas e no bem-estar da população, mas é óbvio que ela há- 
de ter trazido uma baixa considerável em muitos rendimentos e um estado geral 
de descontentamento e de inquietação. 


Pouco se sabe também das grandes transformações sociais que resultaram da 
crise ou com ela nasceram. De uma maneira geral; parece que a grande 
beneficiária foi a classe média dos núcleos urbanos. Comerciantes, antigos 
artesãos, pequenos proprietários rurais e outros semelhantes viram os seus 
proventos grandemente aumentados e investiram-nos em empresas lucrativas. 
Competiram com os comerciantes estrangeiros - embora nunca fossem capazes 
de os ultrapassar - em empreendimentos a longa distância, cujo volume crescera 
com a exportação de produtos, tais como o vinho, o sal, o azeite e diversos outros. 
Detinham praticamente na mão o comércio local, também em aumento à medida 
que o mercado urbano impunha as suas necessidades em crescente procura. 
Muitos desses homens investiram na terra, comprando quer alódios quer 
simplesmente foros, o que os colocava dentro da categoria dos ricos e médios 
proprietários em busca de mão-de-obra, a qual obrigavam a trabalhar de acordo 
com os baixos salários tabelados. Em alguns concelhos importantes, como no 
caso de Lisboa, conquistaram o poder ou consolidaram-no, mas nunca 
conseguiram controlar a administração local na maioria do País, que estava 
firmemente nas mãos da antiga cavalaria-vilã (esta última também beneficiara da 
crise, que muitas vezes a libertou das extorsões e dos abusos dos senhores 
feudais). 


No que respeita aos grupos sociais inferiores de proletários, pobres pedintes e 
outros, esta classe média de que acabámos de falar representava o inimigo 
natural, cuja opressão era sentida directamente e mais abertamente do que 
nenhuma. Também para a nobreza, o número crescente e a opulência da média 
burguesia constitufam assunto de escândalo e ameaça evidente 


164 A era feudal 


às suas prerrogativas tradicionais. Os aristocratas estavam agora em vias de 
competir com a classe média pelo poder económico. Rivalizavam também com os 


burgueses na posse do dinheiro e na maneira de dispendê-lo. Se essa 
concorrência durasse, resultaria dela unia transformação radical nas formas 
tradicionais, de conseguir proventos e investilos depois. Assim, o seu 
ressentimento contra a classe média estava largamente difundido e mostrava-se, 
embora de modo diferente, tão violento como o das classes inferiores. 


As barreiras sociais, todavia, eram ainda mais complexas. Dentro da própria 
classe média, existiam pelo menos dois grupos sociais: por um lado, os mais ricos, 
uns quantos indivíduos bem colocados em posições económicas predominantes, 
dispondo de capital e de terras, já orgulhosos do seu nome e até de uma pequena 
linhagem; pelo outro, um grupo muito maior de burgueses, em ligação directa com 
as camadas inferiores do trabalho. O que os primeiros queriam era poderio político 
e pro. moção às honras e cargos da nobreza. O que os segundos principalmente 
desejavam era uma expansão das suas fontes de receita e dos seus 
empreendimentos comerciais. 


De todo este torvelinho beneficiava também o rei. Aliando-se, ora com uns ora 
com outros, mas mais frequentemente com a alta burguesia e o baixo povoléu, ia 
conseguindo uma centralização e domínio político cada vez maiores. 


A revolução de 1383-85, cujos acontecimentos adiante descreveremos, constituiu 
só um exemplo, o maior de todos, o símbolo do conjunto destas transformações. 
Contudo, algumas outras manifestações menos violentas, no decurso da segunda 
metade do século xiv e na maior parte do século xv, têm de merecer a nossa 
atenção, não podendo de forma alguma ser esquecidas. 


Uma das consequências políticas da crise foi consolidar os D50'ífícd$ laços entre 
rei e Nação. Os novos tempos advindos exigiam a consulta constante aos 
populares, porque acima de tudo exigiam. concessões cada vez maiores de 
subsídios pelo povo ao seu monarca. A instabilidade social implicou desordens, 
inquietação e, 


Fig. 26 -Cortes medievais portuguesas Cada ponto representa uma reunião de 
cortes 


166 
A era feudal 


portanto, um clamor generalizado por justiça. Reunir cortes tornou-se coisa normal 
para todos os governantes, de Afonso IV a Afonso V, num período de mais de cem 
anos. D. João | foi «eleito» em cortes, ficando dependente delas por algum tempo. 
Pediram-lhe mesmo que as convocasse todos os anos, o que ele nunca quis fazer 
com foros de continuidade. Mas a verdade é que as cortes se reuniram 
frequentemente nos fins do século xiv 


e nos princípios do xv, como o mostra o rol que se segue: 1325, 


1331, 1334, 1335, 1340, 1352, 1361, 1371, 1372 (duas vezes), 

1373 M, 1376, 1383, 1385, 1387 (duas vezes), 1389, 1390, 1391 (duas vezes), 
1394-95, 1398, 1399, 1400, 1401, 1402, 1404, 1406, 

1408, 1410, 1412, 1413, 1414, 1416, 1417, 1418, 1427, 1430, 1434, 

1435, 1436, 1-438, 1439, 1441, 1442, 1444, 1446, 1451, 1455 (duas vezes), 1456, 
1459, etc. 


Estudar as novas mentalidades que resultaram deste período de crise e 
perturbação implicaria uma investigação demorada. Que sabemos nós, por 
exemplo, das atitudes em face da vida ou em face da morte? E, no entanto, 
esperar viver pouco verificava-se, tanto em Portugal como no resto da Europa. O 
número de pestes e de fomes ocorridas provam, sem sombra de dúvida, que cada 
geração de portugueses presenciara a eclosão de, pelo menos, uma epidemia, o 
que habituava à ideia da morte súbita e falha de preparação. Mas desconhecemos 
todo o pormenor daí resultante. 


Verificou-se, sim, um surto de devoção e desenvolveram-se certas formas de 
piedade. Requeria-se contacto mais Íntimo com 


Deus, com a Virgem Maria e com os santos, e traduzia-se esse contacto com 
muitas novas maneiras de expressão. O culto do Espírito Santo, adaptado ao forte 
gosto popular e às necessidades da vida quotidiana, tornou-se um dos favoritos 
durante os séculos xiv e xv. O mesmo aconteceu com o culto de S. Francisco e 
com a devoção aos Franciscanos, seus intérpretes na 


busca de um maior amor e de uma forma mística de viver. A devoção a Nossa 
Senhora, antiquíssima como era, adquiriu nova intensidade. Símbolo característico 
dos novos tempos foi a difusão da «Salve Rainha», oração típica da Idade Média, 
com seu 


A crise 167 


sabor místico e suas expressões romântico-dramáticas. Surgiram também as 
procissões de flagelantes, embora raras e de forma moderada. Aumentou o 
movimento religioso associativo, fundando-se novas confrarias e irmandades com 
fins beneficentes. Adquiriu maior expressão a caridade e o interesse geral pela 
pobreza, criando-se por todo o País hospitais, albergarias, mercearias, gafarias e 
outros abrigos semelhantes. Multiplicou-se igualmente o número de 
peregrinações, tais como as de Nossa Senhora das Virtudes, Nossa Senhora da 
Nazaré, Senhora do Cabo e outras muitas. Todas estas modificações religiosas 
tiveram sua influência nos nomes próprios, de que pouco ainda se sabe. De menor 
significado se revestiam nomes de membros da família real e da nobreza, muitas 
vezes arreigados a uma tradição genealógica ou reflectindo apenas passageiras 
influências estrangeiras. 


De muito interesse parece ter sido o impacto na literatura, Impacto em Portugal 
quase por completo negativo..A segunda metade na cultun, 


do século xiv e a maior parte do século xv foram pobres, tanto em poesia como 
em prosa. O grande florescimento da época dos trovadores murchou para não 
reviver. Mesmo admitindo que muito se perdeu na voragem dos séculos, ou que 
muito se 


desconhece por ora, crê-se fora de dúvida um declínio importante na poesia 
nacional. O mesmo se diga das obras de prosa. Depois de um período 
relativamente áureo, que se desvaneceu nos começos da centúria de Trezentos, o 
número de manuscritos originais diminuiu. Mesmo cópias de obras estrangeiras, 
coetâneas ou passadas, tão abundantes até então, foram rareando. De 330 
códices medievais pertencentes à biblioteca do mosteiro de Alcobaça, um dos 
mais salientes centros culturais de Portugal, 26 produziram-se no século xii, cerca 
de 228 no século xiii 


e começos do xiv, enquanto apenas 40 datam dos finais deste último e só 36 se 
atribuem ao século xv, antes de 1475. Portanto, enquanto em 150 anos se 
produziram 228 livros, nos seguintes 

125 anos a produção baixou para 76. Não obsta este facto, é preciso dizê-lo, a 
queO tenham sido publicadas durante este período de declínio algumas obras- 
primas, todas visando fins práticos 


168 A era feudal 


e didácticos: D. João 1 escreveu ou rubricou o Livro da Montaria entre 1415 e 
1430; seu filho D. Duarte foi o autor do Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda 
a Sela e do Leal Conselheiro, tratado de moral e de vida virtuosa, ambos redigidos 
pelas décadas de 1420 e 1430; outros escreveram livros de cetraria, veterinária, 
etc. A grande obra histórica de Fernão Lopes (Crónica del-rei D. Pedro, Crónica 
del-rei D. Fernando e Crónica del-rei D. João), escrita entre 1430 e 1450, 
representa já, mais do que o findar de uma época, o começo de uma nova escola, 
cujo perfeito florescimento iremos encontrar nos fins do século e no seguinte. 


Uma análise da temática encontrada nos manuscritos portugueses originais deste 
período de crise, e bem assim nos importados do estrangeiro e copiados ou 
traduzidos em Portugal, não revela qualquer interesse peculiar pelo macabro ou 
pelo tema da morte, ao menos antes de findar o século xv. Os exemplos típicos de 
novas formas literárias encontram-se antes nas produções puramente religiosas. 
Aqui, o misticismo florescia sem sombra de dúvida. Traduziram-se para português 
numerosos tratados de nome, como o Livro de José de Arimateia (Joseph 
d'Arimathie, de Robert de Boron), a Visão de Túndalo, o Desprezo pelo Mundo, de 
Isaac de Ninive, o Vergel da Consolação, de Jacob de Benavente, o Castelo 
Perigoso, de Frei Robert, o Bosque Deleitoso, etc., alguns, é facto, datando de 
muito antes da crise mas agora melhor compreendidos e por vezes readaptados. 
Originais de portugueses foram o Horto do Esposo, escrito na primeira metade do 
século xv, e o Didlogo de Robim e do Teólogo. Também pertencem ao género 
místico os poemas religiosos de Fr. André Dias (13487-1440), onde se apelava 


constantemente para a experiência concreta e onde a palavra « sentir» surgia por 
toda a parte. 


Ao ensino cabe a nota final sobre o declinio cultural da época. O exemplo da 
Universidade é claro. Cresceram-lhe as dificuldades e os problemas económicos. 
Depois da década de 1340, o número de mestres estrangeiros parece ter 
aumentado, mas com pouca continuidade e acaso nenhuma eficiência. Baixaram 
os ordenados dos lentes nacionais. Muitos estudantes preferiam 


A crise 169 


ir estudar fora, o que não abona a favor da excelente qualidade do ensino. Tanto 
Afonso IV como Fernando | tentaram reformar os estudos e combater os males, 
mas aparentemente com pouco proveito. As sucessivas 'transferências, de Lisboa 
para Coimbra (1308), Coimbra para Lisboa (1338), Lisboa para Coimbra (1354), e 
Coimbra para Lisboa, uma vez mais (1377), conquanto motivadas ou pretextadas 
diferentemente, indicam não obstante certa inadaptação e instabilidade. As duas 
últimas foram acompanhadas de um evidente declínio. Por volta de 1377, D. 
Fernando tomou a decisão de criar uma nova universidade, ao transferir para 
Lisboa os Estudos. - não temos provas de que as condições houvessem 
melhorado por causa disso. Durante todo o século xv, escassas foram a influência 
e a participação efectivas da Universidade na vida cultural do País. Os seus lentes 
sumiram-se na obscuridade, desempenhando papel mínimo nas letras, nas artes e 
na ciência. Os melhores teólogos, médicos, jurisconsultos e estadistas parece 
revelarem preparação extraportuguesa, obtida em França, Itália, Inglaterra ou 
Alemanha. 


Pouco ainda se sabe do impacto da crise sobre a arte. Houve imPacto 
provavelmente um certo vacum artístico, que ocupou os meados na arte 


do século xiv até à década de 1390. Construífram-se nesse período multo poucos 
monumentos, em contraste com os tempos anteriores e com a centúria de 
Quatrocentos. A inexistência de boas escolas portuguesas de arte, com diminuta 
renovação e fraco espírito inventivo, impermeáveis às mudanças de mentalidade e 
de condições de vida, explica provavelmente a falta de temática europeia 
contemporânea. Poucos se revelaram, no Portugal desse tempo, os motivos 
clássicos da escultura e da arquitectura dos séculos xiv e xv. O tema da morte, por 
exemplo, só muito ao de leve foi abordado. 


Bibliografia - Não existe qualquer estudo de conjunto sobre a crise dos séculos xiv 
e xv. Um grupo de professores e alunos da Faculdade de Letras de Lisboa 
realizou uma primeira tentativa nesse sentido, mas limitada à Peste Negra e às 
suas consequências: Para o estudo da Peste Negra em Portugal, Centro de 
Estudos Históricos da Faculdade de Letras de 


170 A era feudal 


Lisboa, separata de Bracara Augusta, vol. XIV-XV (Janeiro-Dezembro 1963), n.o 
1-2 (49-50), pp. 210-239. 


Pode colher-se uma visão geral dos séculos xiv e xv, com algumas referências à 
crise, na História de Portugal, dirigida por Damião Peres, vols. Il e Ill. Sobre os 
aspectos agrários, cf. Virgínia Rau, Sesmarias Medievais Portuguesas, Lisboa, 
1946, e A. H. de Oliveira Marques, Introdução à História da Agricultura em 
Portugal, 2.a ed., Lisboa, Cosmos, 1968. Sobre a sociedade e alguns aspectos da 
economia e das finanças, cf. A. R. de Oliveira Marques, Ensaios de História 
Medieval Portuguesa, Lisboa, Portugália, 1965. 


Não existem monografias pormenorizadas e baseadas em investigação dos 
aspectos sociais e económicos da Revolução de 1383-85. Os melhores estudos 
de conjunto foram escritos por António Sérgio, «Sobre a revolução de 1383-85», 
Ensaios, vol. VI, Lisboa, 1946, pp. -153-203, e por Joel Serrão, O carácter social 
da revolução de 1383, Cadernos da «Seara Nova», Lisboa, 1946. Marcelo 
Caetano publicou duas importantes monografias sobre os problemas políticos: As 
Cortes de 1385, separata da Revista Portuguesa de História, vol, V, Coimbra, 
1951, e O concelho de Lisboa na crise de 1383-85, separata dos Anais, Academia 
Portuguesa da História, vol. IV, Lisboa, 1953. 


Sobre as transformações psicológicas e religiosas, cf. A. H. de Oliveira Marques, A 
Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos de Vida Quotidiana, 

2.(O edição, Lisboa, Sã da Costa, 1971. Sobre a arte apenas dispomos das 
histórias gerais no género da colectiva História da Arte em Portugal, vol. II, Lisboa, 
Jornal do Foro, 1953, assim como de Manuel Rodrigues Lapa, Lições de Literatura 
Portuguesa. Época Medieval, 4.a ed., Coimbra, 1956. 


3 -A evolução política 


O reinado de Afonso 111 (1248-79) foi ainda relativamente Afonso 111 
conturbado, no que respeita a negócios internos. O somatório de duas, em boa 
verdade de três nações - a cristã, a moçárabe e a muçulmana -, precisava de ser 
convertido em entidade homogénea, nacional portuguesa. Seria difícil a tarefa 
numa só geração; na realidade, levou pelo menos um século a produzir 
«Portugal», a fundir Norte e Sul num país viável. Três longos reinados e três 
monarcas competentes ajudaram, sem dúvida, a cimentar essa união difícil. É por 
isso que o período de cem anos, que começou com a subida ao trono de Afonso 
Il e findou com a Peste Negra, foi uma das épocas cruciais de toda a história 
portuguesa. Quando a crise adveio, encontrou já um estado bem organizado, 
razoavelmente centralizado em torno do rei, e economicamente harmonioso. 


O surto de Lisboa como «capital» do novo país teve grande Lisboa,s< significado 
na fusão. Parece que Afonso Ill gostou da cidade significado melhorando as 
suas condições de residência e adquirindo a posse de casas e tendas, o que 
alargou o quinhão real dos tempos da conquista. Mais precisamente, as suas 
tentativas de «comprar» a cidade, objectivo que seu filho e sucessor D. Dinis levou 


a bom termo, até o envolveram em disputas com o povo urbano, queixoso da 
cupidez do rei e seus consequentes abusos de autoridade. Em última análise, 
porém, o monarca permanecia como o melhor protector natural da cidade, na 
medida em que deti- 


172 
A era feudal 


nha em seu poder grande parte dela. Por seu turno, Lisboa quase sempre apoiou 
o poder central, dando ao rei o seu pleno auxílio em tempo de crise. Ao fim e ao 
cabo, centralizar queria dizer, para Lisboa, aumentar os seus privilégios, a sua 
força e a sua prosperidade. 


A mudança para Lisboa da administração central trouxe consigo outras 
consequências. Realçou o papel do Sul no quadro português e o peso dos seus 
valores culturais e económicos sobre todo o Pais. Embora muitos monarcas 
portugueses, após Afonso Ill, tenham preferido a Lisboa outras cidades e vilas 
para residência demorada, nunca alteraram a posição da cidade como sede do 
governo. É de notar, aliás, que tais cidades e vilas se situavam geralmente na 
Estremadura ou a sul do Tejo, nunca no Norte. Apesar de os monarcas medievais 
andarem constantemente em viagem, a presença real sentia-se muito mais no Sul 
do que em outras partes. E como o Sul pertencia sobretudo às ordens religiosas- 
militares e ao próprio rei, toda a política régia se havia de dirigir no sentido de uma 
união intima entre rei e ordens, até à nacionalização destas nos fins do século xv e 
no século XVI. 


Estabilidade Se Afonso Ill teve o País nas mãos, apesar dos ressentimen 
governativa tos causados por uma guerra civil de três anos, isso deveu-se em 


parte a uma estabilidade grande nos principais cargos públicos. 

O seu mais importante conselheiro e íntimo amigo, Estêvão Eanes, deteve o cargo 
de chanceler por 34 -anos, ou seja, durante todo o reinado do monarca e ainda 
três anos mais no de seu filho D. Dinis. Outro dos favoritos do rei D. Afonso, João 
Peres de Aboim, ocupou vários cargos continuamente, por um período idêntico de 
tempo. A constância do rei, se, por um lado, encorajava abusos de poder e actos 
de rapina por parte dos seus favoritos, ajudava, pelo outro, a constituir quadros de 
administração, a pôr em prática princípios e métodos de governo e a assegurar a 
estabilidade de um partido de adeptos fiéis. De?*o e nobreza A subjugação de 
tanto o clero como a nobreza foi empreendida de maneiras diferentes. Como não 
pareciam possíveis sub- 


A evolução política 173 
terfúgios com a Igreja, o combate revelou-se directo e frontal. Já se disse antes 


como Afonso Ill lutou primeiro contra o bispo do Porto e, depois, contra todos os 
demais prelados, à excepção do de Evora que controlava o Sul. Por pouco não 


morreu excomungado, como seu pai. Contra a nobreza (incluindo parte do clero 
também), o monarca preferiu enviar comissões de inquérito, que indagassem de 
abusos e violações da propriedade e justiça da Coroa no Norte. Os métodos de 
inquirir mostravam-se mais estritos do que em tempo de seu pai, e mais rudes 
também. Talvez por causa disto, não há notícia de que os nobres constituíssem 
qualquer problema de insubmissão durante todo o reinado de Afonso Ill. Além das 
inquirições, o monarca introduziu outras medidas tendentes a refrear os privilégios 
da aristocracia e a conceder ao povo melhor justiça e maior protecção. A sua 
política de conseguir apoio popular parece ter resultado, como ficou patente na 
sua luta contra o clero e contra Roma. 


Outro sucesso importante de Afonso Ill foi o passo final Independên no sentido da 
independência plena. A reunião de Leão e Castela plena (1230) pusera 
novamente o problema de um vizinho poderoso, ao qual se deviam, em teoria, 
algumas promessas de vassalidade. Mas uma hábil política de negociações a 
respeito do Algarve, aliada às relações pacíficas e amigáveis entre os reis 
castelhano e português, favoreceram a resolução final de um assunto mais formal 
que real. Segundo os cronistas castelhanos, foi nos começos da década de 1270 
que D. Afonso Ill conseguiu obter de Afonso X de Castela a abolição perpétua de 
todos os direitos feudais (ajuda militar e assistência) que ainda impendiam sobre o 
estado português. 


Questões internas começaram só após a sua morte, em 1279. D. Dinij; Afonso 
casara duas vezes, a primeira com Matilde, condessa de Boulogne, a segunda 
com Beatriz de Guillén, filha bastarda do rei de Castela, Afonso X. Contudo, ao 
tempo do segundo casa- 


mento (1253), Matilde, que o rei abandonara ao aceitar a herança portuguesa, 
vivia ainda, vindo a falecer apenas em 1258. A anulação papal do primeiro 
casamento e o perdão concedido à 


174 A era feudal 


intempestiva realização do segundo só chegaram em 1263, quando já três filhos 
existiam do matrimónio, um dos quais Dinis, o herdeiro da Coroa. Ao ser este 
proclamado rei, seu irmão D. Afonso (1263-1312), primeiro filho nascido depois de 
chegada a dispensa papal, alegou os seus direitos ao trono como herdeiro 
legítimo. Do pretexto resultaram diversas rebeliões. Mas a verdade é que 
desconhecemos outros motivos, acaso mais profundos, para o conflito, porventura 
de tipo social, dada a relativa facilidade com que D. Afonso recrutou partidários e o 
número de revoltas que encabeçou: 1281, 1287 (desta vez em aliança com um 
partido castelhano levantado também contra o seu rei) e 


1299. Para mais, o espírito da guerra civil -ou da guerra feudal - não morreu com a 
submissão de Afonso, persistindo em muitas outras rebeliões que salpicaram os 
séculos xiv e xv: 

1321-22, 1323, 1324, 1326, 1355, 1383-85, 1438-41, 1449. Não se tentou ainda 


encontrar um denominador comum para todas estas revoltas, que lhes desse 
explicação mais profunda e convincente. A primeira vista, parece corresponderem, 
em Portugal, conquanto em grau muito menor, aos conflitos feudais típicos que 
dilaceraram outros países europeus, especialmente nos fins da Idade Média. 
Facto interessante a ter em conta é que todos eles aconteceram entre o monarca 
e os seus parentes próximos (irmãos ou filhos), sempre os opositores mais 
temíveis à política centralizadora e autoritária do soberano. As rebeliões dos 
últimos anos do reinado do D. Dinis, por exemplo, puseram frente a frente o rei - 
acusado de preferir um filho ilegítimo ao herdeiro do trono para efeitos de 
sucessão - e seu filho legitimo D. Afonso, aliado temporariamente à mãe, D. 
Isabel, a futura Rainha Santa. Outro aspecto interessante a salientar é que tais 
conflitos jamais conseguiam mobilizar a grande maioria dos outros nobres que, ou 
alinhavam com o seu senhor o rei, ou simplesmente esperavam o resultado final 


da luta. A única excepção foi o movimento de 1383-835. 


Guerra As querelas internas foram seguidas pela guerra com Castela com Castela 
(1295-97), com quem se estava em paz desde 1200. Portugal 


juntou forças com Aragão e ambos apoiaram um, dos partidos 
A evolução política 
175 


na luta civil castelhana, cuja vitória significaria nova divisão entre Leão e Castela. 
A guerra findou em compromisso que veio a beneficiar territorialmente os 
Portugueses, entregando-lhes a região entre os rios Coa e Águeda e rectificando a 
fronteira no Alentejo (tratado de Alcaílices, 1297). A nova fronteira manter-se-ia 
até hoje, com poucas alterações. 


De 1297 a 1320 um período de paz interna e externa caracterizou o apogeu do 
reinado de D. Dinis e provavelmente o apogeu da Idade Média portuguesa. As 
querelas civis tinham sido apaziguadas. Com o clero, D. Dinis assinara a 
concordata em 1289, que pôs fim a uma longa fase de disputas. Em 1288 fundara- 
se em Lisboa a primeira universidade. 

O português tornou-se língua oficial do País. A corte régia era um centro de 
cultura, com o próprio monarca distinguindo-se pelos seus méritos de poeta, 
Portugal prosperava mercê do desenvolvimento do comércio e do artesanato. O 
tremendo surto de Lisboa durante o reinado 


Apogeu **díofúSiakiO 
Monforte 
: é pUguela 


Campo Maior O 


100 km 
Fig. 27 - Definição da fronteira portuguesa nos fins do século xiii 
176 A era feudal 


de Afonso Ill, continuado no de seu filho, convertera a cidade numa metrópole 
internacional, em contacto íntimo e permanente com muitos países estrangeiros, e 
onde viviam diversas colónias de mercadores de fora-parte. D. Dinis preocupou-se 
também com a defesa do reino, promovendo e parcialmente financiando a 
construção de novos castelos e novas muralhas em redor das cidades em via de 
crescimento (a muralha ribeirinha de Lisboa, por exemplo), e a reparação de 
numerosas outras fortificações. A sua época foi ainda marcada por uma intensa 
actividade arquitectónica, com exemplos de toda a ordem nos campos religioso e 
civil. A fim de organizar ou desenvolver a marinha, o rei contratou mareantes 
genoveses e um técnico genovês, Manuel Pessagno, a quem concedeu o cargo 
perpétuo e hereditário de almirante. Por fim, um dos seus maiores triunfos 
consistiu em evitar que a enorme riqueza dos Templários, extintos em 1312, 
deixasse o País ou fosse atribuída a outros religiosos. O rei obteve do Papa a 
criação de uma nova ordem, nacional, a de Nosso Senhor Jesus Cristo (1317), 
para a qual foram transferidas todas as pertenças da Ordem do Templo. 
Independente dos grão-mestres espanhóis, a Ordem de Cristo depressa se 
tornaria uma das melhores armas ao serviço do poder real. 


Alonso IV Tempos mais difíceis se começaram com o filho e sucessor 


do rei D. Dinis, Afonso IV (1325-57). Aproximava-se a grande crise do século xiv e 
todos os seus elementos, políticos, económicos e sociais, principiavam já a fazer- 
se sentir, embora de maneira preliminar, nas décadas de 1320 e 1330. É 
igualmente possível que o monarca não fosse um governante tão apto e um 
diplomata tão dotado como seu pai o fora. 


A breve guerra civil dos primeiros tempos do reinado sucedeu-se um conflito mais 
duradouro com Castela, que passou por fases alternadas de guerra «quente» e 
«fria». Representados, quer pelos seus reis, quer pelos seus senhores feudais, 
ambos os países interferram ou tentaram interferir activamente e 
continuadamente nos assuntos internos do outro. No enquadramento geral da 
grande querela europeia, a «Guerra dos Cem Anos», que 


A evolução política 
LATA 
se lhe somou e o tomou mais confuso ainda, este conflito com o pais vizinho iria 


ser uma constante na história política de Portugal e de Castela até aos começos 
do século xv. 


Como habitualmente, as bodas reais desempenharam o seu papel: Afonso IV 
casou a filha, D. Maria, com o rei de Castela Afonso XI (1328). Foi uma união 
desgraçada desde o começo: que D. Maria ainda agravou com as queixas 
dirigidas a seu pai. 

O monarca português começou a apoiar toda a espécie de opositores políticos ao 
genro e fez realizar os esponsórios entre seu filho primogénito e herdeiro da 
coroa, D. Pedro, e D. Constança, filha de D. João Manuel, um dos dirigentes da 
oposição castelhana (1335-36). O resultado óbvio foi a guerra, com vitórias, 
derrotas e destruições para ambos os lados (1336-38). Negociou-se a paz, por 
mediação do Papa e do rei de França, com concessões e humilhações por parte 
do monarca castelhano (1339). A cruzada pregada contra os Muçulmanos, que 
ameaçavam as fronteiras cristãs em Espanha, introduziu uma curta lua-de-mel nas 
relações entre os dois governantes: o próprio rei de Portugal marchou à frente do 
seu exército, juntou-se às forças castelhanas e teve parte decisiva na derrota do 
infiel na batalha do Salado, na Andaluzia (1340). 


Afastado o perigo muçulmano, prosseguiu a querela entre os dois. Afonso XI 
intrigou junto do Papa, conseguindo que lhe fosse atribuída a posse das ilhas 
Canárias (v. o capitulo Ill). Na perspectiva de nova guerra, o rei português tentou 
aliar-se com Eduardo Ill de Inglaterra, propondo-lhe o casamento com sua filha 
Leonor. Quando as negociações falharam com o Inglês, casou-a com Pedro IV de 
Aragão (1347), pais que se revelava sempre aliado natural contra o poderoso 
vizinho comum. Mas a Peste Negra veio dissolver a aliança, levando consigo a 
jovem noiva (1348). Dois anos mais tarde, outra peste causava a morte de Afonso 
XI. 


Uma paixão amorosa altamente romanceada tornou-se agora pretexto para a 
influência castelhana em Portugal. D. Pedro, herdeiro da Coroa portuguesa, 
apaixonou-se por uma dama da casa de sua mulher, Inês de Castro, que pertencia 
a uma pode- 


12 
178 A era feudal 


rosa família de terratenentes em Castela. Ao que parece, D. Pedro converteu-se 
em joguete nas suas mãos e, segundo a versão «oficial» da história, na de seus 
parentes castelhanos também. o idoso e orgulhoso Afonso IV não podia tolerar tal 
facto, acabando por ordenar a morte de Inês (1355). As consequências deste 
crime foram uma curta guerra qv11 e coisa de muito maior importância- o surto de 
um drama histórico que se aguentaria no cartaz durante mais de cinco séculos. 


A Peste O grande acontecimento do reinado de Afonso IV foi indubitavelinente a 
Peste Negra, que devastou o País por três meses, 


no Outono de 1348. Como vimos, terríveis se mostraram as consequências do 


flagelo, e imPortantes as mudanças que acarretou na economia e na sociedade. 
Também no plano político a peste deu ao poder central um excelente motivo para 
se fortalecer, com vista a refrear injustiças e evitar uma subversão social 
completa. Rei e classes superiores deram-se as mãos para deter a ameaça dos 
ousados trabalhadores rurais e-artesãos. E apesar das transformações sociais e 
económicas que, a pouco e pouco, conquistaram o País sem que nenhuma 
autoridade as lograsse desafiar, Afonso IV e os seus sucessores imediatos 
conseguiram travar algumas convulsões mais ameaçadoras e evitar revoltas 
declaradas por um período superior a três décadas. 


Pedro | Embora auxiliando seu sobrinho, Pedro 1 de Castela, nas 


disputas internas do pais vizinho, D. Pedro 1 de Portugal reinou dez anos de paz 
contínua, de 1357 a 1367. Mostrou-se uma figura típica dos fins da Idade Média, 
meio louco e depravado em moral, preocupadíssimo, com a administração da 
justiça, em íntimo contacto com o povo, que o adorava **a-oesar dos seus actos 
de crueldade e loucura. Parece ter feito pouco para refrear o Poderio dos nobres, 
mas foi, no entanto, temido por eles. Contra o clero tomou várias medidas, mais 
de carácter pessoal e caprichoso do que coerentes e razoáveis. Em 1361 proibiu 
que se Publicassem bulas papais sem a sua aprovação (Beneplácito Régio. 
Conquanto muito aplaudida pelos anticlericais dos sécUIOS xIX e xx, esta medida 
deve antes ser encarada corno visando 


A evolução política 179 


primacialmente à boa justiça do reino, devido à frequência com que eram 
falsificados documentos pontifícios em assuntos importantes e à necessidade que 
o rei tinha de travar conhecimento oficial com a documentação oriunda da Cúria. A 
D. Pedro se deve também o começo do processo de (nacionalização » das ordens 
religiosas-militares, ao investir seu filho bastardo D. João (o futuro D. João 1) no, 
mestrado de Avis (1363). 


O interlúdio de paz chegou ao fim com o advento de D. Fer- Fernando | 


As guerras nando, filho e sucessor de Pedro (1367-83). Tirando partido da e o 
Cisma conturbada situação interna castelhana, o monarca português apresentou- 
se como candidato ao trono, na sua qualidade de neto legitimo de Sancho IV de 
Castela, contra Henrique de Trastámara (Henrique Il), que assassinara seu meio- 
irmão Pedro 1 (1369). D. Fernando tinha como aliados Aragão e o reino 
muçulmano de Granada. A guerra (1369-71) foi desastrosa para os Portugueses, 
embora o tratado de paz, negociado por mediação do Papa, não implicasse 
humilhação de maior para D. Fernando. Mas não tardou que o monarca português 
se envolvesse num segundo (1372-73), e depois num terceiro conflito com o país 
vizinho (1381-82), de ambas as vezes integrado, como comparsa menor, nesse 
outro conflito mais vasto, conhecido por «Guerra dos Cem Anos». Renunciando às 
suas anteriores pretensões ao trono de Castela, o rei português passou a apoiar 
um novo candidato, o pretendente inglês João de Gante, filho de Eduardo Ill de 


Inglaterra e marido de Constança, filha ilegítima do falecido rei Pedro | de Castela. 
Henrique de Trastárnara, por sua vez, solicitara e obtivera a aliança e o apoio da 
França. Assim, a Península Ibérica transformou-se em novo teatro de guerra para 
o conflito secular entre França e Inglaterra. Aragão desempenhou papel bastante 
dúbio, quer alinhando com os Ingleses e com os Portugueses, quer com os 
Franceses e com os Castelhanos. Mas dúbio foi também o papel dos 
Portugueses. Terminada a primeira guerra, D. Fernando aceitou uma espécie de 
aliança com o seu antigo inimigo, comprometendo-se a casar com a filha de 
Henrique, Leonor, depois de ter feito promessa semelhante ao seu antigo aliado 
aragonês... (Ao fim e ao cabo veio a casar com uma terceira Leonor -porque tal 
fora também o nome 


A era feudal 

Fig. 28 Guerra com Castela, 

1369-71 

Vão marcadas: as incursões, respectivamente, de D. Fernando em terra 
castelhana e de Henrique Il em terra portuguesa; o regresso por mar do monarca 
português e a rota da esquadra portuguesa até Barrameda; e, por fim, as 
principais localidades castelhanas que tomaram voz por D. Fernando. 

A evolução política 

Fig. 29 Guerra com Castela 

1372-173 

Vão marcadas as invasões castelhanas no Centro e Norte 

182 

A era feudal 

Fig. 30-Guerra com Castela, 1381-82 Vão marcadas: as rotas das frotas 
castelhana e portuguesa; as incursões castelhanas na foz do Tejo; e as operações 
no Alentejo e na Beira. 

A evolução política 183 

da princesa aragonesa - de uma nobre família portuguesa, por quem se 
apaixonou). Depois da segunda guerra, que para ele significou segunda derrota, 
inverteu novamente as alianças. Voltou-se então para a Inglaterra, combateu 


contra Castela uma terceira vez e de novo foi derrotado. Pela terceira vez 
também, mudou de aliados e tornou-se amigo dos Castelhanos. 


Este torvelinho político e militar era agravado pela questão religiosa, causada pelo 
Grande Cisma do Ocidente. Portugal seguiu a princípio o papa de Roma, Urbano 
VI, em 1378-79, aceitou depois Clemente VII de Avinhão em 1379-81, visto que tal 
fora o lado tomado por Castela. Ao renovar a aliança inglesa, voltou a preferir 
Roma (1381-82). A derrota trouxe-o uma vez mais para o partido de Avinhão 
(1382-83). 


Tanto a guerra como o cisma exerceram em Portugal tremenda influência. Os 
Castelhanos devastaram e pilharam parte considerável do Pais. Durante a 
segunda guerra, Henrique Il chegou até Lisboa e ocupou a maior parte da cidade 
(que se situava extra-muros), queimando, destruindo e saqueando o que podia. 
Os «aliados» ingleses mostraram-se pouco melhores, ao tratarem Portugal como 
pais conquistado. A frota portuguesa foi quase completamente aniquilada. Os 
problemas sociais, que Afonso IV e Pedro | tinham conseguido refrear, elevaram- 
se agora a um estado geral de descontentamento, em especial entre os 
mercadores e as classes baixas. Nas cortes, revelou-se claramente em que 
medida crescia a inquietação e se espalhava por todo o País. Apenas a nobreza 
tirou vantagem das guerras e provavelmente- apoiou as pretensões de D. 
Fernando, se é que não as provocou. Os Meneses e os Castros alcançaram 
poderio e privilégios inauditos. Os Judeus foram protegidos pelo rei, parecendo 
desempenhar papel de relevo nas finanças públicas. 

O cisma veio, por fim, dividir tanto o clero como os fiéis em geral, suscitando ódios 
e irregularidades de todo o tipo. 


A sua política desastrada, que era, em boa verdade, o resultado de uma tentativa 
desesperada, pela aristocracia terra- Teles tenente, de conservar a sua força e os 
seus privilégios tradicionais, D. Fernando juntou um casamento impopularíssimo, 
ao 


184 A era feudal 


fazer de Leonor Teles de Meneses sua rainha. Esta senhora e seu partido 
conseguiram tornar-se odiados por parte da população. Para a maioria dos 
Portugueses, a rainha incarnava os interesses da nobreza latifundiária e - com 
razão ou sem ela - 


incorporava todos os maus conselhos que o rei aparentemente seguia. 
Actividade Não obstante, tanto o soberano como o «governo» fizeram 


pacífica o que puderam para refrear abusos e legislar sobre defesa, economia e 
questões sociais. Muitos castelos foram reparados e 


novas muralhas edificadas em redor das principais cidades, tais como Lisboa, o 
Porto e Évora. Leis sobre a agricultura e a criação de gado tentaram adaptar e 
ainda mais proteger a economia feudal e a sociedade tradicional ante as novas 
condições originadas pela crise. É verdade que tais medidas cuidavam menos do 


povo do que dos interesses imediatos dos grandes proprietários. Protegeu-se 
também a navegação comercial. No seu conjunto, porém, as medidas pacíficas 
tomadas por D. Fernando parecem ter soçobrado no quadro geral das 
perturbações causadas pela guerra e pela má administração e vertidas no cadinho 
de uma crise internacional. Os seus dezasseis anos de governo foram lembrados, 
não pela protecção dispensada ao povo como um «bom rei», mas antes pela 
incapacidade de lhe dar paz, justiça e prosperidade. 


O O As primeiras querelas sociais haviam já começado quando 


D. Fernando casara com Leonor Teles (1372). Cedo voltaram a eclodir, quando o 
rei morreu, em 1383. 


Na falta de herdeiro masculino, a sucessão de D. Fernando passou para a sua 
única filha legitima, D. Beatriz, que ele casara com D. João |, rei de Castela, 
depois da sua terceira derrota. As cláusulas do matrimónio confiavam a regência e 
o governo do reino à rainha-mãe, Leonor Teles, até filho ou filha nascer a Beatriz. 
Quaisquer que fossem as circunstâncias, os dois reinos deveriam viver 
permanentemente separados. 


Manobras políticas e ambições pessoais impediram qualquer solução pacífica. D. 
João | de Castela decidiu invadir Portugal e tomar conta do poder. A este passo 
violento moveu-o, porven- 


A evolução política 185 


tura, a crescente oposição ao governo. de Leonor Teles e do seu amante, o conde 
João Fernandes Andeiro, um nobre galego. Andeiro e Leonor, provavelmente 
apoiados pela maioria da nobreza terratenente, tinham contra si as fileiras médias 
e inferiores -da burguesia, sob o comando do Mestre de Avis, D. João, filho 
ilegítimo do rei D. Pedro. Ao que parece, o Mestre de Avis convidara a princípio o 
monarca castelhano a entrar em Portugal, de preferência a aceitar uma situação 
perigosa para os seus partidários e para si próprio. Mais tarde, porém, a situação 
mudou. O ódio contra Castela e os Castelhanos (estava ainda fresca na memória 
de todos a devastação passada que se lhes devia) obrigou o Mestre de Avis a 
encabeçar uma revolta contra os dois grupep: Leonor Teles-Andeiro e D. João |- 
Beatriz. 


Ele próprio ajudou a matar o Andeiro, obrigou a rainha D. Leonor Teles a fugire a 
unir forças com João | de Castela, e proclamou-se a si mesmo «regedor e 
defensor do reino». Fez depois enviar embaixadores a Inglaterra com o propósito 
de renovar a aliança política contra Castela. Começou também a organizar a 
resistência. 


A guerra passou por três fases principais: na primeira Guerra (Janeiro-Outubro de 
1384), D. João | invadiu Portugal, alcançou Lisboa e cercou-a em vão durante 
quatro meses; no entretanto, os Portugueses, chefiados por Nuno Alvares Pereira, 


filho ilegítimo do Mestre dos Hospitalários, derrotou os Castelhanos em Atoleiros, 
no Sul (Alentejo). Na segunda fase (Maio-Outubro de 1385), D.*João | de Castela 
invadiu Portugal de novo, para sofrer completa derrota em Aljubarrota, às mãos de 
um exército muito mais pequeno mas dispondo de organização superior e 
beneficiando do apoio dado por archeiros ingleses e acaso por conselheiros da 
mesma nacionalidade; algures, os Portugueses também derrotaram os 
Castelhanos em lides menos significantes (Trancoso, Valverde). Na terceira e 
última fase (Julho de 1386-Novembro de 1387), um tratado formal entre Portugal e 
a Inglaterra trouxe o duque de Lencastre à Península Ibérica como pretendente à 
coroa castelhana. O teatro da guerra passou agora para fora das fronteiras 
portuguesas. Uma primeira trégua foi 


160kM 


Fig. 31 - RevOluÇão de 1383-85 e guerra com Castela 

1 - Lugares que tomaram voz por D. Beatriz; 2 - Lugares que tomaram voz pelo 
Mestre de Avis; 3 - Outras localidades; 4 - Principais batalhas; 5 - Percurso da 
invasão castelhana, 1384; 6 - Campanha de Nun'Álvares: 7-Percurso de invasão 
castelhana, 1385; 8-Campanha de nun'álvares. 


A evoluÇão política 197 


assinada em 1387. Ainda se deram em 1396-97 escaramuças pouco importantes, 
a que logo se seguiu uma trégua de dez anos, renovada por períodos sucessivos. 
A paz, porém, só viria a ser assinada em 1432. 


No entretanto, o Mestre de Avis fizera-se proclamar rei COM D. João | o título de 
D. João 1 (1385) em cortes convocadas para Coimbra, onde- conseguiu libertar-se 
de outros dois pretendentes (D. João e D. Dinis, filhos ilegítimos do rei D. Pedro e 
de Inês de Castro, os quais pretendiam que seu pai casara com ela secretamente) 
com a ajuda de um famoso legista, João das Regras, que ele prontamente 
nomeou seu primeiro chanceler. 


Foi fácil de obter o reconhecimento do exterior: como regente, João mudara uma 
vez mais do Papa de Avinhão para o Papa de Roma, que se apressou a aprovar o 
seu casamento com Filipa de Lencastre, filha de João de Gante. 


Tanto a rebelião como a guerra contra Castela enfileiram sigtlificalo entre os 
acontecimentos decisivos de toda a história portuguesa. da Reroluc. Foram um 
dos grandes testes da sua independência e trouxeram consigo uma mudança 
digna de nota na estrutura social do País. 


Esquematicamente, a rebelião opôs a aristocracia terratenente ao resto da Nação, 
sendo o seu núcleo mais activo formado por uma classe média de burgueses e de 
artesãos. Na realidade, a situação foi muito mais complexa e o conhecimento que 
temos dela mostra-se ainda bastante imperfeito no que respeita a motivações de 
classe e a resultados finais. A alta burguesia, com a ajuda de muitos funcionários 


públicos e de judeus ricos, alinhou com Leonor Teles e com D. Beatriz, pelo 
menos no começo da crise. Mais tarde, possivelmente receosa de uma conquista 
total pelos Castelhanos, parece ter mudado de ideias e concedido a maior parte 
do seu apoio a D. João, o Mestre de Avis. As camadas baixas da nobreza e os 
filhos-segundos, desejosos de obter terras e cargos que pertenciam aos 
poderosos senhores feudais, alinharam com o Mestre também. Por diferentes 
motivos, a média burguesia e o artesanato, que aspiravam 


188 A era feudal 


a uma maior participação na administração local (sobretudo em Lisboa) e nos 
assuntos - económicos em geral, escolheram o Mestre de Avis por seu chefe 
contra os defensores da velha ordem. As classes inferiores, também, desejosas 
de apoiar fosse quem fosse que lhes pudesse dar ou prometer esperança de vida 
melhor, ou simplesmente devido ao desespero ou a um comando demagógico, 
seguiram os chefes do movimento e activamente cooperaram nele, gritando, 
matando e saqueando. Em suma, o quadro das outras revoluções europeias do 
tempo verificou-se em Portugal também, apenas com menores variações. Foi mais 
um exemplo clássico da crise social e económica dos fins do século xiv;/Uma 1 
vez mais, a falta de monografias comparadas com as revoluções nos outros 
países impede toda e qualquer explicação frutuosa e seguramente interpretativa. 


Governo A vitória do Mestre de Avis significou uma nova dinastia e ioaníno uma 
nova classe dirigente. D. João 1 (1385-1433) rodeou-se de 


legistas experimentados e de burocratas, procurando também apoio entre os 
mercadores, tanto portugueses quanto estrangeiros. Promoveu a posições 
importantes, política e socialmente, gente de «baixa condição», oriunda da 
burguesia, da pequena nobreza e até do artesanato. Foram importantes as 
mudanças na administração local, com os mesteiraisa desafiarem a força, até 
então avassaladora, dos terratenentes. Contudo, D. João | não pôde impedir -nem 
isso estaria nos seus intentos- o surto de uma nova e forte aristocracia detentora 
de terras, em parte resultado da concentração de latifúndios e honrarias nuns 
poucos nomes. A cabeça desta nova classe de senhores feudais foi Nuno Alvares 
Pereira, o herói da guerra, que o monarca fizera seu condestável. Quando 
Nun'Álvares, decidiu retirar-se para um mosteiro -em circunstâncias e sob 
pressões que hoje nos escapam - seu, genro D. Afonso, filho bastardo do próprio 
rei, herdou os bens e a posição de chefe da nova aristocracia desafiadora e 
arrogante. A fim de contrabalançar o seu poderio, D. João | (e, depois dele, seu 
sucessor D. Duarte) dotou generosamente os familiares legítimos: dois dos seus 
filhos, D. Pedro e D. Henrique, foram feitos duques, enquanto dois outros rece- 


A evolução Política 189 
biam a direcção das opulentas ordens religiosas militares, D. João como mestre 


de Santiago e D. Fernando como mestre de Avis. D. Henrique recebeu também o 
mestrado de uma das mais ricas de todas as ordens, a de Cristo. Foi só a 


autoridade pessoal do monarca sobre os filhos e o seu enorme prestígio que 
evitaram quaisquer desafios ao poder da Coroa durante a sua vida. 


Depois de 1411, D. João | associou o primogénito e herdeiro Expansão do trono, 
Duarte, ao governo do País. Ambos organizaram um africana plano de expansão 
militar no Norte de África que visava canalizar as energias turbulentas da nobreza 
e conseguir pingues proventos para ela e para a burguesia. A expedição africana, 
na realidade, foi um assunto muito complexo, onde intervieram variadas forças 
sociais, motivações e objectivos (cf. capitulo Ill). Politicamente considerada, teve a 
vantagem de manter a nobreza ocupada fora das fronteiras portuguesas. - 
Também ajudou a aliviar a pressão da crise económica, desviando as atenções da 
situação interna do País, que estava longe de satisfatória. 


Pensou-se primeiro em conquistar Granada, mas a reacção desfavorável de 
Castela desaconselhou a empresa. Estava-se numa época fértil em expedições 
aventurosas, por vezes com pouca ou nenhuma motivação de tipo económico ou 
político. Condições desfavoráveis na pátria vinham, sem dúvida, ajudar ao 
pensamento de emigração e de busca por algo de melhor, mesmo quando esse 
melhor se mostrasse indeterminado. Os fins do século xiv e os começos do século 
xv foram períodos típicos em aventuras políticas, assaz anárquicas na 
organização e nos fins, e dirigidas com frequência para bem longe da mãe-pátria. 
Neste sentido, mas só nele, foi uma época de expansão, como se viu pelos 
Catalães, os Franceses e os Italianos na Grécia e no Médio Oriente, e pelas 
derradeiras «Cruzadas» ou sua preparação. 


Comandados pelo rei, pelo condestável e pela maior parte da nobreza, os 
Portugueses atacaram Ceuta, no estreito de Gibraltar, e facilmente conquistaram a 
cidade (1415). Regressaram depois a Portugal, bem carregados de despojos e 
deixando atrás forte guarnição. Mas depressa se deram conta de que Ceuta, por si 
só, de nada valia, e que, ou conquistavam outras 


190 A era feudal 


cidades e algum território em Marrocos, ou abandonavam a praça capturada. 
Formaram-se dois partidos, o primeiro capitaneado pelo duque de Viseu (infante 
D. Henrique), o segundo pelo duque de Coimbra (infante D. Pedro). Os senhores 
feudais estavam igualmente divididos, embora a maioria se inclinasse para a 
política expansionista, quer dirigida para Marrocos quer para Granada. O já idoso 
e prudente D. João | refreou, todavia, as tentativas de continuação da guerra, 
preferindo dedicar os seus últimos tempos de vida à literatura e à redacção de um 
livro sobre a caça. A corte transformou-se em centro cultural, lembrando a de D. 
Dinis, mas com menos variedade de temas e menor liberdade de expressão. 


D. Duarte O novo rei, D. Duarte (1433-38), hesitou por algum tempo 


mas aderiu finalmente ao partido da guerra. Preparou-se uma segunda expedição, 
que atacou Tânger mas sofreu pesado revés (1437). Quase cercados pelos 


Mouros, os Portugueses viram-se obrigados a deixar reféns para poder embarcar, 
ficando em mãos inimigas o infante D. Fernando, mestre de Avis, que morreria no 
cativeiro. Apesar de todos os seus esforços, nem D. Henrique nem ninguém do 
seu grupo conseguiram persuadir D. Duarte a organizar imediatamente uma nova 
expedição. O rei não tardou a morrer e seu filho mais velho, criança de seis anos 
de idade, ascendeu ao trono com o nome de Afonso V. D. Duarte indicara a 
mulher, Leonor de Aragão, para única regente na menoridade do jovem Afonso. 
Apoiava a rainha a maioria do partido de guerra, encabeçado por D. Henrique e 
por seu meio-irmão, o conde D. Afonso de Barcelos (o famoso genro de 
Nun'Alvares). Contra ela, porém, levantaram-se D. Pedro, o duque de Coimbra, 
apoiado por seu irmão D. João, o mestre de Santiago e, ao que parece, por 
grande parte da burguesia e das classes baixas de Lisboa e outras cidades. O 
clero parecia dividido também, embora na sua maioria estivesse pela rainha D. 
Leonor. Era claramente a repetição do movimento de 1383-85, conquanto os fins 
fossem menos patrióticos e as opções menos definidas. Mas enquanto em 1383- 
85 quase toda a nobreza terratenente de algum significado formava um grupo 
unido, interes- 


A evolução política 191 


ses e ódios pessoais dividiam-na agora. Por seu turno, enquanto em 1383-85 
quase todo o povo se mostrava unido e pronto a lutar por uma causa bem 
determinada, o seu apoio a D. Pedro e a D. João tinha agora muito de adesão 
demagógica. A revolução de 1383-85 fora, na sua essência, um movimento social 
com cheiro político; a rebelião de 1438-41 foi, na sua essência, uma querela 
feudal com cheiro social. Uma vez mais seriam de enorme alcance comparações 
com as outras questiúnculas feudais que se iam verificando por toda essa Europa 
do outono da Idade Média. 


A vitória coube primeiro a D. Pedro, depois de uma curta Regência guerra civil e 
de um compromisso com seu meio-irmão que deu a de D. Pedro 


este o título de duque de Bragança e acrescidos privilégios. Mas D. Pedro ficou 
com pouca força para impor permanentemente a sua autoridade. Governou como 
regente durante sete anos (1441-48), período conturbado de agitação política e de 
interferência nos negócios internos de Castela. Finalmente Afonso V, atingindo a 
maioridade, dispensou-lhe os serviços e prontamente aceitou o conselho e a 
influência do tio Afonso. O partido derrotado voltara ao poder, e agora por muitos 
anos. Com ele começou também a última fase do Portugal feudal. Forçado à 
rebelião, D. Pedro pegou em armas contra o seu rei. Foi derrotado e morto em 
Alfarrobeira, perto de Lisboa, com quase todos os seus partidários (1449). 


Bibliografia-A sucessão dos factos políticos está geralmente contida nas duas 
principais histórias de Portugal, já várias vezes mencionadas, a História de 
Portugal dirigida por Damião Peres e a História de Portugal de Fortunato de 
Almeida, além do Dicionário de História de Portugal dirigido por Joel Serrão. Até 
aos fins do reinado de D. Afonso Ill, a História de Portugal de Alexandre Herculano 


mantém-se o trabalho fundamental. A História da Administração PúNica em 
Portugal nos séculos XIl a XV, de Gama Barros, é extremamente útil para teoria 
política, assuntos militares, alianças estrangeiras, etc. 


Alguns aspectos políticos e biográficos da crise de 1383-85 foram estudados por 
Salvador Dias Arnaut, A Crise Nacional dos fins do século XIV, 
1, A Sucessão de D. Fernando, Coimbra, Faculdade de Letras, 1960. 


192 A era feudal 


Sobre os problemas internacionais relacionados com a Guerra dos Cem Anos e a 
aliança inglesa existe uma excelente monografia em inglês por Peter E. Russell, 
The English Intervention in Spain and Portugal in the time of Edward Ill & Richard 
Il, Oxford University Press, 1955. Sobre o cisma, vejam-se pormenores em Júlio 
César Baptista, «Portugal. e o Cisma do Ocidente», in. Lusitânia Sacra, vol. |, 
Lisboa, 1956, pp. 65-208. 


CAPITULO III 

PRIMÚRDIOS DA EXPANSÃO 

navegar 

1 - Apetrechamento e necessidades 

Do ponto de vista puramente tecnológico, as grandes desco- Invento; 


n4 irte bertas teriam sido possíveis nos começos já do século xiv, cem de anos 
mais cedo do que realmente principiaram. Estavam conseguidos os principais 
inventos na arte de navegar.* E era inegável a sua convergência na Península 
Ibérica, nomeadamente em Portugal. 


Passo decisivo fora a invenção do leme central fixado ao cadaste da popa, em 
substituição dos lemes laterais à maneira de remos. Creditado ao mundo báltico, 
onde apareceu primeiro, nos meados do século xiii, o leme central era conhecido 
em Espanha em 1282, pelo menos, e usado pelos navios cantábricos. A bússola, 
outra novidade do mesmo período, veio da China e generalizou-se na área do 
Mediterrâneo por intermédio dos Árabes. Uma terceira invenção da centúria de 
Duzentos, o portulano, derivara da observação directa mediante o uso da bússola 
e levara à possibilidade de determinar uma rota em considerável extensão de mar 
alto, contrastando com a tradicional navegação de cabotagem. Os mareantes 
italianos serviam-se já de portulanos assaz evoluídos pelos começos do século 
xiv, com as características rosas-dos-ventos e a consequente representação de 
linhas de rumo. 


Estes três inventos, combinados com um aperfeiçoamento nas artes de navegar e 
da construção naval, sugeriam imensas possibilidades. A vela triangular ou latina, 


invenção grega ou síria da Alta Idade Média, tornava possível manobrar com rela- 
196 Primórdios da expansão 


tiva presteza até os mais largos navios. Em relação com ela, os mareantes do 
Mediterrâneo sabiam como navegar à bolina, ou seja, aproveitando a força 
contrária do vento. Mas tinham pouca necessidade de desenvolver ou aperfeiçoar 
esta técnica, uma vez que a navegação era sobretudo costeira, com distâncias 
curtas e ventos geralmente favoráveis. Na região do Atlântico, tanto setentrionais 
como meridionais iam aumentando o tamanho das suas naves, fazendo-as, ao 
mesmo tempo, mais leves e fáceis de manobrar. Os Cantábricos eram 
considerados peritos em construção naval, exportando navios para diversas partes 
da Europa durante todo o século xiv. 


Como inventos e melhoramentos técnicos se relacionam quase sempre com 
vastas áreas, e não com países, torna-se difícil determinar o papel exacto 
desempenhado por Portugal em toda esta revolução náutica. Do que não resta 
dúvida é de que a sua posição geográfica e as suas características culturais 
favoreciam o encontro de processos novos, vindos do Atlântico, do Mediterrâneo 
cristão e do Mediterrâneo muçulmano. Sabemos também que o sul de Portugal, 
com sua longa tradição islâmica e moçárabe, teve importância decisiva no surto 
da navegação a 


distância e na recepção de influências múltiplas. Grande variedade de naves, 
principalmente usadas na pesca, traiam uma origem muçulmana, quer no nome, 
quer no tipo. Entre elas salientar-se-ia o caravo ou caravela (do árabe garib), 
semelhante ao pagaio usado pelos Árabes no Oceano índico. Os Portugueses 
aperfeiçoaram-no aos poucos, surgindo, pelos começos do século xv, um novo 
tipo de navio, ideal para viagens a longa distância, longe da linha de costa. Esta 
caravela de Quatrocentos, que aliás não parou de se transformar até ao século 
xvi, possuía um casco largo calando pouca água, com três mastros hasteando 
velas triangulares, ligadas a compridas vergas. Tudo isto permitia grande 
mobilidade na manobra e em tomar um rumo que podia fazer um ângulo de mais 
de 500 com a direcção do vento. A tonelagem média não excedia cinquenta 
toneladas. Um navio com estas características e apetrechado para viagens de 
descoberta precisava de mais de vinte homens de tripulação. 


Apetrechamento e necessidades 
197 


Entre as aquisições práticas deste tipo, resultado da experiência e da perícia dos 
mareantes, e o conhecimento teórico partilhado por escolares e governantes, o 
golfo era imenso. A pouco e pouco fora-se formando um vasto corpus de ciência 
astronómica e matemática, pacientemente moldado por longos séculos de estudo 
islâmico, judaico e cristão, mas essencialmente fundamentado nos conhecimentos 
do mundo romano. Os Muçulmanos haviam sido os criadores de uma extensa e 


complexa terminologia que cobria todos os ramos da ciência. Tinham mantido viva 
a doutrina grega da esfericidade da Terra. Calcularam o comprimento do grau do 
meridiano com, notável precisão, definindo a circunferência da Terra em cerca de 
33 000 km, não muito longe dos 40 076 km reais. Aperfeiçoaram também o antigo 
astrolábio. Grande parte destas aquisições teóricas tiveram lugar na Espanha 
muçulmana. Quando os Cristãos a conquistaram, muitos tratados árabes 
começaram a ser traduzidos para latim, surgindo em Toledo uma famosa escola 
de tradutores. Foram astrónomos muçulmanos e judeus que compuseram 
igualmente as chamadas tábuas toledanas, contendo grande número de 
importantes observações matemáticas com aplicação náutica. Pelos fins do século 
xiii, O rei Afonso X de Castela fez compilar a um grupo de escolares cristãos e 
judeus uma espécie de enciclopédia de astronomia, os Libros del Saber de 
Astronomia. Vários outros tratados foram compostos por toda a Península Ibérica, 
particularmente na Catalunha. 


O conhecimento geográfico estava também partilhado, e 


diferentemente partilhado, entre cientistas, mareantes e mercadores. A costa 
ocidental africana era conhecida até além do cabo Bojador (26,50N), como 
claramente mostra um atlas catalão de 1375-80. A mesma fonte testemunha sem 
sombra de dúvida que, tanto as Canárias como o arquipélago da Madeira, haviam 
sido visitados por Ocidentais. O interior da África do Norte era descrito até ao sul 
do Sahara, com profusão de pormenores sobre os seus oásis, pistas caravaneiras 
e reinos indígenas. Toda esta informação, que derivava de noticias dispersas, fora 
obtida 


Ciéncia nJutica 

conbecime geogr,fficoi 

198 Primórdios da expansão 

sobretudo do interior e transmitida pelo e ao mundo muçulmano. 


Teoricamente, porém, o Europeu Ocidental ainda sabia mais. 

O anónimo Libro del Conoscimiento, escrito em Espanha nos meados do século 
xiv, parece provar que o golfo da Guiné e a consequente mudança de direcção na 
costa africana constituífam conhecimento real do tempo. Os geógrafos árabes 
chegavam a mencionar a costa oriental de África até ao Cabo da Boa Esperança. 


Para noroeste e ocidente, a geografia mostrava-se mais imprecisa. Escolares 
cristãos, como Santo Isidoro de Sevilha, registavam a existência das ilhas 
Fortunatas, Górgades e Hespérides, estas duas povoadas de monstros fabulosos. 
Aqui e além surgia nos mapas de navegação do século xiv e começos do xv um 
vislumbre de terra, coincidindo aproximadamente com a 


Islândia e vagamente transmitindo o eco da descoberta e colonização normandas. 


A ser autêntico, o chamado Mapa de Viniand também representaria a Gronelândia 
e a costa norte-americana ou simplesmente a Terra Nova. A ocidente da Europa 
apareciam umas quantas ilhas: a Antillia ou Ilha das Sete Cidades, as ilhas de S. 
Brandão, Brasil e Satanazes, uma cadeia de oito ou nove ilhas mais pequenas na 
direcção norte-sul, etc. Em conjunto, todas elas fundiam uma boa dose de 
imaginação com a tradição de descobertas antigas, remontando porventura às 
fontes da descrição platónica das ilhas do Atlântico e de um continente ocidental. 
O nome «Sete Cidades» derivava dos lendários sete bispos que tinham fugido à 
invasão árabe da Espanha no século viii e fundado sete dioceses numa ilha 
descoberta algures no Atlântico. O nome de S. Brandão andava associado à 
viagem lendária empreendida por um santo irlandês antes do século x, talvez uma 
consequência das expedições normandas à Islândia e Gronelândia. 


Mais do que nenhuns outros, todavia, foram os Árabes e algumas das suas 
viagens reais no Atlântico que estiveram por trás das suspeitas de terra a 
ocidente. Anteriormente ao século xii, uns «Aventureiros» (como lhes chama a 
historiografia árabe) largaram de Lisboa, descobriram certo número de ilhas 


Apetrechamento e necessidades 199 


habitadas - provavelmente as Canárias -, regressando depois à Península. Outras 
viagens árabes ou de negros enquadrados na zona cultural muçulmana parece 
terem alcançado a ilha do Sal, no arquipélago de Cabo Verde, que visitaram com 
regularidade durante algum tempo a fim de carregarem sal. É bem possível que os 
Mouros da Península Ibérica tenham igualmente descoberto (ou redescoberto) a 
Madeira e os Açores, mas ambos os arquipélagos se situavam longe demais da 
costa e suscitavam pouco interesse económico para um povoamento permanente. 
O historiador Leo Wiener afirmou mesmo, com impressionante acervo de 
elementos, que os Negros islamizados do Stidão, haviam descoberto a América e 
deixado testemunho do seu feito em muitos aspectos da agricultura, indústria, 
organização política e social, costumes e práticas religiosas, e até terminologia 
nas civilizações pré-colombinas do continente americano. 


Todas essas ilhas e terras, tanto reais como imaginárias, exerceram enorme 
influência nas viagens dos Portugueses dos séculos xiv e xv. Constitufram uni dos 
mais importantes estímulos e uni objectivo preciso para muitas expedições de 
descoberta, ao mesmo tempo que preenchiam, as mentes com descrições exactas 
(assim o julgavam) e pormenorizadas das novas regiões. Eram um incentivo para 
toda a gente, desde o homem culto e aristocrata até ao ignorante e vilão. E 
haviam de persistir em muitos topónimos das ilhas e continentes que vieram a ser 
de facto explorados. 


O reverso da medalha estava nas terríveis histórias que se O Mar contavam de 
semelhantes terras e mares. Toda a classe de monstros, perigos e obstáculos 
povoavam o Oceano Atlântico na crença geral. Transmitida ou forjada pelos 
Árabes, a lenda do Mar Tenebroso descrevia um oceano habitado por seres 
estranhos e mergulhado em escuridão constante, onde todos os navios 


naufragariam nas ondas medonhas ou nas águas ferventes. Toda a classe de 
superstições afrouxava a curiosidade e refreava o desejo de presa. Durante muito 
tempo os Portugueses da Idade Média, como os Europeus em geral, hesitaram 
entre a vontade de seguir além, para ocidente e para sul, e o temor de não regres- 


200 Primórdios da expansão 


sar mais. Era necessária a pressão de grande número de forças poderosas para 
vencer esse medo e forçá-los a ir. 


A Ásia A Ásia, com seus mistérios, constituía outra fonte de cnamado Preste João 
mento. Da Asia provinham as cobiçadas especiarias, assim como 


os materiais corantes, o marfim, as pedras preciosas e todo o género de 
mercadoria requintada. A geografia medieval punha a Ásia a começar no Nilo, e 
não no mar Vermelho, incluindo portanto nela a maior parte da moderna Etiópia. 
Alargava também o sentido da palavra «índia», parte da qual englobava o 
nordeste da actual África. Havia várias «índias» e numa delas vivia um grande 
imperador cristão, governando um vasto território, densamente povoado, 
imensamente rico e espantosamente poderoso. Era conhecido como o Preste 
João, visto ser ao mesmo tempo padre (presbítero) 'e rei. Faziam parte do seu 
império toda a espécie de monstros, figuras lendárias e paisagens edénicas. Este 
mito do Preste João revelar-se-ia de enorme importância no esclarecimento dos 
fins da expansão portuguesa e dos modos como se processou. Sabe-se hoje que 
o conceito medieval de «Preste João» (cujo nome parece derivar de (Dan hoy, 
«meu, 


senhor», forma como os Etíopes se dirigiam ao seu rei) fundia e confundia 
diversas tradições e informações relativas a três núcleos de cristãos distintos e a 
várias entidades e realidades políticas: o reino cristão-monofisita da Abissínia ou 
Aksum, as comunidades cristãs-nestorianas da Ásia Central, e os grupos 
nestorianos espalhados pela índia. Com o nuto também se associavam e 
identificavam, com frequência, os imperadores mongóis, no seu constante ataque 
aos reinos «pagãos» e islâmicos de toda a Ásia, o que explica as repetidas 
tentativas ocidentais de entrar em relações com eles. No século xv, conseguira-se 
já informação mais exacta acerca do Preste João, que fora identificado como o 
soberano da Etiópia, depois de alguns contactos directos tentados e obtidos* de 
ambas as partes. O que permanecia objecto de grande controvérsia era a maneira 
de chegar à Etiópia por via de sudoeste ou de ocidente, continuando também a 
saber-se pouco do efectivo poder e riqueza do Preste Joá o. 


Apetrechamento e necessidades 201 


A maior parte de todo este conhecimento geográfico era transmitido aos 
Portugueses, não apenas pelas correntes comerciais e políticas que detinham 
com o resto da Europa, mas também pelos embaixadores, viajantes e peregrinos 
que regressavam aos seus lares. De particular importância parecem ter sido as 


viagens do infante D. Pedro a diversos países e cortes da Europa (1425-28) e 
talvez a peregrinação do conde de Barcelos, D. Afonso, à Terra Santa por volta de 
1410, ao lado das embaixadas enviadas aos concílios de Pisa (1409), Constança 
(1414-17), Basileia (1433-37) e Ferrara-Florença (1438-39). 


Extensas e sistemáticas viagens de descoberta e exploração Mão-de-obra, 
exigiriam naturalmente mão-de-obra adestrada e abundante, quer na tripulação 
das naves, quer na direcção e planeamento gerais. É isto o que tende a intrigar 
muitos historiadores, quando se debruçam sobre as potencialidades 
demográficas, sociais e 


económicas de Portugal no século xv. Na realidade, um dos aspectos importantes 
a salientar é que, durante muito tempo, as viagens dos Portugueses não foram, 
nem continuadas, nem extensas, nem sistematicamente orientadas. Por muito 
mais de um 


século, pescadores do Sul de Portugal, despreocupada mas ousadamente, e 
durante várias gerações, foram chegando cada vez 


mais longe na sua busca de pescado, baleias e saqueio. Seguindo a boa tradição 
muçulmana, alcançavam com frequência águas africanas, dando caça a 
barquinhos muçulmanos (e cristãos) que lhes fossem inferiores. Não haviam de 
desprezar eventuais baixadas a terra inimiga, se estivessem certos de que o 
perigo era pequeno e a colheita lucrativa. Vagarosa mas continuadamente, foram 
aperfeiçoando os métodos de navegar dos seus barcos. Vagarosa mas 
continuadamente também se foi desenvolvendo a sua destreza, transmitida de pai 
para filho. Quando, ao raiar o século xv, outras circunstâncias permitiram maior 
consciência do que fora já conseguido, e quando burgueses, senhores nobres e o 
próprio rei, feitos armadores, precisaram de mão-de-obra especializada para as 
suas novas empresas, foram achá-la em quantidade bastante para a distraírem 
dos 


202 Primórdios da expansão 
fins puramente piscatórios e empregarem em esforços mais complexos. 


Também não saberíamos esquecer o papel desempenhado pela pirataria. 
Obviamente, e pela própria natureza da pirataria, notícias históricas do seu roteiro 
preciso terão sempre de ser escassas. Contudo, há provas bastantes de 
actividade pirata desenvolvida ao longo da costa portuguesa durante todo o final 
da Idade Média. Piratas portugueses, muçulmanos e estrangeiros participavam 
nela. É bem possível que tenham procurado bases permanentes de operação em 
algumas das ilhas Canárias ou mesmo no arquipélago da Madeira, tão perto da 
costa africana. No seu próprio interesse, tinham de disfarçar os esconderijos com 
toda a casta de mentiras e de induções em erro. 


Avanço técnico e mão-de-obra especializada, todavia, não bastavam para suportar 


um esforço continuo visando à descoberta e exploração sistemáticas do mundo 
desconhecido. Houvera, nos séculos xiii e xiv, viagens de descobrimento 
esporádicas, mas sem continuidade nem persistência, como iremos ver. Haviam 
de intervir forças maiores e mais profundas. Tinha de existir um ajustamento de 
condições favoráveis, uma conjuntura a seu favor. Foi isso o que aconteceu na 
primeira metade do século xv. 


o problema A Europa tinha falta de ouro. Por todo o continente decres- 
do ouro cera continuadamente a produção aurífera desde os meados da 


centúria de Trezentos, enquanto as compras feitas ao Oriente aumentaram com 
quase igual continuidade. Escassez de numerário impediu um florescimento maior 
do comércio e incitou mercadores e negociantes a uma tentativa de domínio das 
minas de ouro fora da Europa. As desvalorizações de moeda alcançaram níveis 
impensáveis. Em Portugal, como já se viu (cf. cap. ID, esta fome de ouro -e 
também de prata- sentiu-se muito especialmente no primeiro terço do século xv, 
quando um marco (=230 9) de ouro subiu de 250 libras (fins de Trezentos) para 
251000 libras em 1433. Ora, sabia-se muito bem no Ocidente que existia ouro 
algures em África, a sul do Sahara, visto que as caravanas árabes ou dominadas 
pelos Árabes o traziam 


Apetrechamento e necessidades 203 


para o mundo muçulmano. Para o obter, duas vias se afiguravam possíveis: ou 
alcançar a posse de alguns entrepostos norte-africanos - o que explica, em parte, 
os ataques portugueses a Marrocos -, ou tentar um contacto directo com os povos 
a Sul do Islam - o que explica, em parte também, as viagens portuguesas de 
descobrimento. Na verdade, nenhuma nação da Europa Ocidental se encontrava 
mais perto das jazidas auríferas do que a portuguesa. 


Para mais, a desvalorização monetária tinha outra consequência ainda: reduzia os 
proventos, tanto do rei como dos senhores feudais, numa época em que os seus 
gastos iam em aumento. Apesar de todas as actualizações de rendas e de 
impostos tentadas e conseguidas pelos conselheiros régios e pelos legisladores, a 
nobreza -particularmente nas suas fileiras de baixo - sentia-se empobrecer e 
lutava como podia para superar esse empobrecimento. Soluções óbvias eram a 
guerra de conquista, a actividade de corso e o saque. 


Não sabemos, por ora, até que ponto é que um alargamento Outras sistemático 
das áreas piscatórias influiu nas viagens de des- motivações coberta. Boa parte da 
indústria da pesca achava-se nas mãos do rei, de burgueses ricos e de senhores 
feudais, cujos conselheiros podem perfeitamente ter planeado um alargamento 
permanente das águas «territoriais». Também precisamos de muito mais 
investigação sobre as migrações de peixe e de baleias, que forçaram porventura 
os barcos de pesca a segui-las. 


Ainda seriam de discutir outras motivações, conquanto de menos peso. Assim, por 
exemplo, a escassez de trigo, e a atracção das férteis searas marroquinas; ou o 
surto das plantações de cana de açúcar no Algarve, levando ao desejo de as 
duplicar com outras, abundantes, em Marrocos; ou a procura de escravos, de 
novo «em moda» nos finais da Idade Média, redescobertos como empreendimento 
rendoso quer para tarefas domésticas quer para exportação; ou a busca de 
materiais corantes e de 


goma laca para a indústria têxtil; ou ainda a procura de couros e peles, tidos por 
abundantes no Norte de Africa; etc. 


de cruzada 
204 Primórdios da expansão 


Marrocos, como todo o país islâmico, exercia grande atracção sobre os 
Portugueses (e sobre os Castelhanos também) da Idade Média, exagerando-se 
enormemente a sua opulência e fertilidade. Este aspecto tem de ser bem 
compreendido para se explicarem os objectivos e os futuros desapontamentos da 
expansão quatrocentista. 


O espíríDo Razões económicas e sociais, todavia, são geralmente insuficientes 
para unia compreensão global de qualquer feito da Idade Média. Dão-nos a base, 
a plataforma racional da acção, mas omitem esse invólucro colorido que todo o 
homem exige para se desculpar a si próprio e para convencer os outros de uma 
empresa nobre e idealista. No caso da expansão do século xv, um tal invólucro 
era feito de contextura religiosa dupla: a luta contra o infiel e a salvação das 
almas. 


No século xii, o ideal de cruzada ganhara a Península Ibérica, entrando 
gradualmente na mente de soberanos e de guerreiros. A luta comum contra os 
Almohadas nos começos do século xiii, a empresa que levou Afonso IV e o seu 
exército ao Salado, em 1340, pareciam-se muito com cruzadas, embora de cor e 
cheiro fortemente ibéricos. Nos princípios do século xv, os Portugueses tinham 
pensado em conquistar Granada; em vez disso, lançaram-se ao ataque contra 
Ceuta e Tânger. Mais instruídas e mais conhecedoras do passado, as elites 
peninsulares de então podiam perfeitamente admitir que, não só a conquista de 
terras muçulmanas constitufa uma cruzada per se, mas também que, 
conquistando Marrocos, continuavam simplesmente a repelir o infiel e a recobrar 
território antes pertencente à Cristandade. 


Uma cruzada, diga-se de passagem, implicava vários aspectos, podia exprimir-se 
de diversas maneiras e visava a diferentes fins: defendia a Cristandade contra 
possíveis ataques por não-Cristãos; atacava o infiel com o objectivo de o aniquilar 
e impedir que espalhasse o «erro» entre outros; obtinha para os Cristãos bases 
económicas que serviam a prosperidade de todo o mundo cristão; salvava as 
almas dos descrentes. Guerra aberta, traição, pirataria, pilhagem, escravização, 


tudo podia ser con- 
Apetrechamento e necessidades 205 


siderado elemento de cruzada e justificado como tal. Expansionismo e 
imperialismo políticos eram meios legítimos de converter o infiel, da mesma forma 
que a redução ao cativeiro. Assim, não admira que a Igreja aprovasse a expansão 
portuguesa e lhe desse a sua mais calorosa bênção. Sucessivas bulas papais, 
aliás engenhosamente negociadas pelos representantes portugueses em Itália, 
apoiaram os projectos militares de Portugal ou aplaudiram as conquistas já 
levadas a efeito, rotulando uns e outras de santos e de cruzada, convidando os 
soberanos cristãos a darem-lhes sua ajuda, concedendo indulgências e até uma 
percentagem nos rendimentos da Igreja -fim desde sempre almejado. Nem a 
Igreja nem os Portugueses estavam em boa verdade sendo hipócritas, porque o 
Cristianismo medieval abrangia todos estes meios, e outros muitos, que os nossos 
preconceitos de hoje geralmente consideram cruéis, desumanos e puramente 
materialistas. 


Outro aspecto que tem de ser cuidadosamente analisado é Os estrange o da 
participação de estrangeiros e de interesses estrangeiros. 


Os Italianos dominavam boa parte do comércio português a distância, sobretudo 
no que respeitava ao mundo mediterrâneo. Não admira, portanto, que os Italianos 
se mostrassem interessados em atingir certo número de objectivos comerciais que 
poderiam ser de menor interesse para os Portugueses. Os Italianos, contudo, 
eram mais ricos, mais peritos e adestrados na prática comercial, e possufam uma 
rede internacional de operações. Estavam idealmente colocados para guiar e 
canalizar muitos empreendimentos em direcção aos seus próprios objectivos. 
Começou logo nos meados do século xiv a sua participação na expansão 
portuguesa, na primeira grande viagem de que temos notícia segura. Mais tarde, 
estiveram muitas vezes presentes. Vieram também como aventureiros, 
conselheiros técnicos, mareantes experimentados, tomando parte nas viagens e 
até dirigindo algumas delas. Foram eles que, com os Catalães, provavelmente 
ensinaram os Portugueses a servir-se do portulano e da bússola. E foram eles 
também que, de terra, exerceram pressão sobre muitos capitães, marinheiros e 
até senhores mais poderosos 


206 Primórdios da expansão 


para que levassem a efeito esta ou aquela expedição com este ou aquele 
objectivo bem determinado. 


Juntamente com os Italianos outros muitos vieram, Bascos, Castelhanos, 
Catalães, Europeus do Norte e, claro está, Muçulmanos. A sua participação e o 
seu contributo nas viagens portuguesas nem devem ser esquecidos, nem 
sobrevalorizados. 


Interesses Interesses locais hão-de ter intervindo também. Os pescadores dores e 
os comerciantes do Algarve não concordavam necessariamente, nos fins e nos 
meios, com os Lisboetas ou com os Nortenhos. Os concelhos, em seus objectivos 
tacanhos e egoístas, contribuíram certamente para explicar pormenores estranhos 
e aparentemente absurdos, atrasos ou empreendimentos apressados. O mesmo 
aconteceu com os senhores feudais (como classe e individualmente), com as 
ordens religiosas e com o rei. Nada que se assemelhasse a uma empresa 
«nacional» ocorreu antes dos finais do século xv, quando quase toda a expansão 
foi como que «nacionalizada» e «monopolizada» pela Coroa. Na sua primeira 
fase, é antes como somatório de iniciativas individuais de pequenos grupos que a 
expansão portuguesa tem de ser estudada. Isto não exclui o papel mais 
importante e por vezes decisivo desempenhado por alguns ou por algumas 
comunidades. 


D. Henrique Todo este problema traz à baila a discutidíssima questão 


da chefia. Quem foi o real dirigente das descobertas? Qual o papel efectivamente 
desempenhado por um homem como o infante D. Henrique? 


Entre os apanágios que D. João | concedeu a seus filhos, o quinhão de D. 
Henrique não era, nem o maior, nem o mais rico. Foi feito senhor, e depois duque 
de Viseu. Foi também feito senhor de vários outros lugares da Beira. Quando 
Ceuta caiu nas mãos dos Portugueses, o rei deu-lha numa espécie de governo- 
geral, com encargo de a abastecer e defender. Alguns anos mais tarde, recebia o 
governo perpétuo do Algarve, nomeação compreensível para quem estava 
oficialmente ocupado com o destino da cidade africana. Consequentemente, D. 
Henrique transferiu a sua residência habitual e a sua casa feudal de Viseu 


Apetrechamento e necessidades 207 


para Lagos, ao tempo a maior cidade algarvia (como se sabe, a famosa Vila do 
Infante, que ele fundou perto do cabo de Sagres, foi de diminuta importância na 
história da expansão portuguesa). Em 1420 foi-lhe confiado o governo da Ordem 
de Cristo, que lhe garantia uma força militar permanente e amplos rendimentos em 
moeda e em géneros. Durante a maior parte da sua vida, preocupou-se 
principalmente com as campanhas de Marrocos (assim como de Granada) e com 
um plano sistemático de conquista militar no Norte de África. Como tal, defendeu 
sempre que se sustentasse Ceuta contra os ataques muçulmanos, desempenhou 
o principal papel na infeliz expedição a Tânger, esforçou-se fortemente pela 
conservação de Ceuta mesmo a custo do abandono do infante D. Fernando ao 
perpétuo cativeiro e à morte, apoiou o «partido da guerra» contra seu irmão D. 
Pedro, contribuindo para a derrota e morte deste último, e esteve provavelmente 
por detrás de toda e qualquer tentativa de expansão no Norte de África em anos 
posteriores. Em 1458, velho e cansado, ainda tomou parte na conquista de Al- 
Qasr al-Sagir (Alcácer-Ceguer). Até ao fim manteve-se um militarista e um 
expansionista, mas muito mais preocupado com Marrocos do que com as viagens 
de descoberta. Conquistar o Norte de África, «reavê-lo» para a Cristandade, eis 


sem dúvida alguma o seu ambicioso e acarinhado objectivo. 


Além de Marrocos, o infante D. Henrique nunca viajou para parte alguma, em 
contraste com alguns membros da sua família (dois irmãos e um sobrinho), que 
conheciam a Europa e os seus problemas. Não obstante, como muitos 
aristocratas do tempo, mostrou-se interessado por astrologia e astronomia, 
matemática e ciência náutica. Reuniu à sua volta uns quantos escolares, além de 
físicos hebraicos e peritos comerciais italianos. Caso típico de príncipe dos finais 
da Idade Média e dos alvores do Renascimento, acolheu favoravelmente os 
estrangeiros, escutou-os e exibiu a sua generosidade em dádivas e recompensas. 
Mais do que um escolar ou um cientista (conquanto fosse instruído e talentoso), 
parece ter sido um senhor modelo, sempre rodeado de clientes fiéis e louvado por 
eles. No outono da vida, os interessantes e inesperados resultados das 
descobertas desenvolve- 


208 Primórdios da expansão 


ram e estimularam acaso o seu desejo de maior conhecimento e de objectivos 
mais precisos. 


As viagens de descobrimento, se podem ter interessado o infante D. Henrique 
(como certamente interessaram, mas num grau muito menor), foram não obstante 
encaradas, antes de mais nada, como uma maneira de aumentar património e 
receitas, constantemente em maré baixa devido aos seus empreendimentos 
políticos e militares e à sua casa opulenta. D. Herrique estava sempre 
necessitado de dinheiro: nem o seu ducado nem os seus governos produziam 
rendimentos que bastassem. Em rendas, a Ordem de Cristo vinha abaixo das 
Ordens de Santiago e de Avis. Assim, o infante esforçou-se muito, não só por 
obter novos senhorios e proventos, mas também por aumentar e tornar mais 
rendosos os que já possuía. Tem interesse notar que muitos desses esforços se 
relacionaram com a pesca e actividades marítimas, incluindo a pirataria e a guerra 
de corso. Como governador do Algarve e de Ceuta, onde a navegação e a pesca 
desempenhavam papel económico de primeira grandeza, o infante D. Henrique 
sabia muito bem dos lucros que o mar podia conceder, se convenientemente 
explorado. Foi assim que obteve o monopólio da pesca do atum em todo o reino 
do Algarve; a dizima de todo o peixe apanhado pelos pescadores de Monte Gordo; 
privilégios e proventos na pesca de toninhas e de corvinas. Tinha nas mãos a 
maior parte do abastecimento de peixe a Ceuta. Mais tarde, conseguiria ainda o 
monopólio da pesca do coral. Outros proventos vinham-lhe dos privilégios sobre a 
moagem, a indústria tintureira e a produção de sabão. Como veremos, não 
descurou a exploração económica das terras recém-descobertas, tanto no que 
respeitava à produção do solo como ao tráfico dos escravos. E obteria ainda uma 
espécie de «subsidio» regular da Coroa. 


A pouco e pouco, o infante D. Henrique foi-se relacionando intimamente com as 
coisas do mar e com a gente do mar. Muitos dos seus cavaleiros e escudeiros 
possufam navios ou participavam em actividades marítimas. Todos eles 


dependiam inteiramente do Infante como seu senhor feudal e comandante-em- 
Chefe. Problemas de obediência parece nunca se terem posto. 


Apetrechamento e necessidades 209 


Portanto, D. Henrique estava em condições ideais para se lançar num vasto plano 
de expansão marítima, desde que assim o quisesse. 


Todavia, não se vislumbram traços de qualquer plano durante muitos anos. 
Parece estar bem estabelecido que, de todas as viagens que conhecemos, 
realizadas entre 1415 e 1460 (data da morte do Infante), só cerca de um terço 
foram devidas a iniciativas suas. Os outros dois terços deveram-se ao rei (D. João 
|, D. Duarte, D. Afonso V), ao regente D. Pedro, aos senhores feudais, aos 
mercadores e terratenentes vilãos, etc. Outro tanto se diga da exploração 
económica das novas terras descobertas. Este facto, sem obliterar o papel 
desempenhado pelo infante D. Henrique, reduz consideravelmente a sua chefia a 
uma dimensão mais humana e mais medieval. 


Bibliografia - Todo e qualquer estudo dos descobrimentos portugueses deve incluir 
as quatro obras gerais seguintes, que aliam investigação original com síntese 
vigorosa: Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, vol |, Lisboa, Arcádia, 
1958; Vitorino Magalhães Godinho, A Economia dos Descobrimentos Henriquinos, 
Lisboa, Sã da Costa, 1962 (como introdução aos muitos outros livros e artigos do 
mesmo autor e provida de uma excelente bibliografia critica); Duarte Leite, História 
dos Descobrimentos. Colectânea de Esparsos, 2 volumes, Lisboa, Cosmos, 1958- 
61; e a História da Expansão Portuguesa no Mundo, vol |, Lisboa, Ática, 1937, em 
alguns dos seus capítulos. 


Embora as histórias gerais das técnicas e das ciências incluam visões de conjunto 
sobre os inventos do fim da Idade Média e sua aplicação prática, omitem, em 
geral, aspectos mais pormenorizados, mas que se revelam fundamentais para 
compreender a expansão portuguesa. Para estes, vejam-se, entre outros muitos, 
Luciano Pereira da Silva, Obras Completas, 3 volumes, Lisboa, Agência-Geral das 
Colónias, 1943-46; Abel Fontoura da Costa, A Marinharia dos Descobrimentos, 
3.& edição, Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, 1960; e Luís de Albuquerque, 
Introdução à História dos Descobrimentos, Coimbra, 1962. Deste último autor são 
também variados artigos, dignos de leitura, no Dicionário de História de Portugal, 
dirigido por Joel Serrão. Sobre cartografia, a obra padrão foi escrita por Armando 
Cortesão, Cartografia e Cartógrafos Portugueses dos Séculos XV e XVI 
(contribuição para um estudo completo), 2 volumes, Lisboa, Seara Nova, 1935, 
sumariada e actualizada em 1960 com o título de Cartografia Portuguesa Antiga. 


Não existe biografia satisfatória do infante D. Henrique. Os velhos trabalhos de 
Oliveira Martins, Major, Beazley e outros acham-se hoje com- 


14 


210 Primórdios da expansão 


pletamente desactualizados. Vitorino Nemésio escreveu um livrinho sobre D. 
Henrique e a sua época, que merece atenção: Vida e Obra do Infante D. Henrique, 
Lisboa, Comissão Executiva do Quinto Centenário da Morte do Infante D. 
Henrique, 1959. Merecem também leitura a conferência de Peter E. Russell, 
Prince Henry the Navigator, Londres, 1960, e o artigo de Yves Renouard, L'Infant 
Henri le Navigateur dans Ihistoire de VOccident, sep. da Revue d'Histoire 
Economique et Sociale, vol. XL (1962), n.o 1, Paris, 1962. 


2 - As viagens de descobrimento 


são raras e dispersas as memórias sobre viagens de descobrimento realizadas no 
século xiv e começos do século xv. Nos fins da centúria de Duzentos, uma 
expedição genovesa partiu de Itália com destino à costa ocidental africana, 
ultrapassando a latitude das Canárias e desaparecendo sem mais vestígios. Nos 
princípios do século xiv, outra viagem genovesa alcançou as mesmas ilhas: seu 
chefe, um tal Lancellotto Malocelli, ocupou uma ou várias delas durante alguns 
anos e regressou depois h pátria, deixando a sua presença assinalada no nome 
da ilha de Lanzarote, que era o seu, depois traduzido para castelhano. Nos 
meados do século, mercadores italianos de Lisboa conseguiram convencer D. 
Afonso IV a financiar (e acaso organizar) uma expedição de três navios às 
Canárias: os capitães eram italianos (genoveses e florentinos), mas a tripulação 
inclufa castelhanos, portugueses e aragoneses-catalães. A expedição visitou 
todas as 


treze ilhas Canárias e provavelmente o arquipélago da Madeira também. Pela 
primeira vez na cartografia, um famoso portulano catalão de 1339 registou 
correctamente a maior parte das ilhas, com muitos dos seus actuais nomes. 


As Canárias eram habitadas por tribos selvagens vivendo Canárias numa espécie 
de estádio neolítico de cultura. O arquipélago mostrava-se rico em possibilidades 
económicas, o que explica os esforços portugueses e castelhanos de o submeter, 
abundando em escravos, materiais corantes e peixe. Os Italianos, claro está, 


212 Primórdios da expansão 


localizavam-se longe de mais para competir a sério com Portugal ou com Castela. 
A corrida para o domínio permanente das Canárias durou mais de cem anos, 
ambos os reinos organizando e 


enviando expedições sucessivas que fracassaram na obtenção de uma vitória 
completa. Era ainda cedo demais para tentativas duradouras de expansão: 
acontecimentos locais e internacionais ocupavam as gentes da Península Ibérica, 
travando quaisquer manobras persistentes de organização política e exploração 
económica. Para mais, os povos indígenas lutavam arduamente pela liberdade. 
Também os Franceses intervieram, tendo o rei de Castela doado algumas ilhas na 


qualidade de feudos a cavaleiros franceses. Em 1436, o papa Eugénio IV 
reconheceu formalmente os direitos de Castela à posse das Canárias, facto que 
os Portugueses se recusaram a aceitar, continuando o despique até 1480. 


Madeira Diferente foi o caso da Madeira. Portugal não lhe prestou 


grande atenção até começos do século xv. Por volta de 1417, todavia, Castela 
enviou uma importante frota à ilha de Porto Santo. Mas, desta vez, Portugal 
respondeu sem hesitar e com decisão: em 1419 e 1420, duas expedições 
largaram do Algarve e ocuparam a Madeira e Porto Santo permanentemente. Foi 
o começo real da grande expansão ultramarina. É interessante notar que se 
traduziram para português os nomes italianos ou catalães das ilhas, o que mostra 
que os povoadores se não consideravam autênticos descobridores: assim, 
Legname passou a Madeira, Porto Santo não careceu de tradução p Deserte 


transformou-se em Desertas. 
Açores O passo seguinte foi um tanto mais difícil. Na década de 


1420 os Portugueses conheciam já perfeitamente a costa ocidental marroquina, 
que costumavam bordejar até ao paralelo 26 ou 

25 Norte. Não lhes oferecia também surpresas o Atlântico em redor dos 
arquipélagos das Canárias e da Madeira. Sempre que navegavam um pouco mais 
para ocidente, sabiam da dificuldade em obter ventos favoráveis que os levassem 
de regresso a casa, a menos que rumassem, para noroeste e aí apanhassem os 
alisados soprando de oeste. É possível que tentassem igualmente evi- 


As viagens de descobrimento 213 


tar a pirataria castelhana, muito activa na zona das Canárias. Num desses 
desvios, por 1427, um piloto algarvio de nome Diogo de Silves avistou a ilha de 
Santa Maria, depois a de S. Miguel e possivelmente mais cinco ilhas dos Açores 
em sucessão, visto que todas elas se apercebem à distância unias das outras. Ao 
baptizá-las, quer os descobridores, quer alguém por eles em 


Portugal, transigiram entre a terminologia lendária e o direito de atribuir novos 
nomes a terras descobertas. Na verdade, os 


portulanos existentes mostravam-se muito menos claros e precisos em referir o 
arquipélago dos Açores do que em descrever, quer a Madeira, quer as Canárias. 
Assim, do primeiro grupo de sete ilhas, só a uma foi mantida a designação 
cartográfica: S. Jorge, traduzido de San Zorzo ou San Giorgio. Santa Maria, S. 
Miguel, Terceira (nome popular para a «terceira» ilha achada ou localizada no 
arquipélago, em vez do nome oficial de ilha de Nosso Senhor Jesus Cristo), Pico 
(outro nome popular alusivo à alta montanha com seu pico coberto de neve, em 
lugar do nome oficial de ilha de S. Luís), e. Faial (em vez de ilha de S. Dinis), 
todas elas testemunham o descobrimento e a ocupação dos Portugueses. A 


A 


sétima ilha, Graciosa, pode equivaler à tradução de outra palavra italiana que 


surge nos portulanos, mas pode também significar que a ilha foi julgada 
«graciosa» pelos seus descobridores ou primeiros povoadores. Quanto ao termo 
«Açores», constitui novo enigma. Existiriam muitos açores no arquipélago, quando 
se efectuou a descoberta? Ou -foi o nome simplesmente traduzido e adaptado do 
árabe raham, ave de rapina, que o. geógrafo e historiador muçulmano idrisi usara 
no século xii para denominar uma ilha lendária no Atlântico? 


A descoberta da costa ocidental africana constituiu o prin- c cipal objectivo das 
viagens dos começos do século xv. Algures “,fricani para sul existia o afamado «rio 
do ouro», com as minas auríferas que abasteciam todo o Islam. Em 1346, um 
navio catalão navegara para o Meio-Dia em busca do «rio de For» que se pensava 
ser um dos braços do Nilo. 


Vários navios portugueses seguiram nessa direcção na década de 1420 e 
princípios da de 1430. A linha de costa era bem 


214 Primórdios da expansão 


conhecida até ao paralelo 26 ON aproximadamente. Do cabo Não em diante, a 
região mostra-se desolada e perigosa, com nada à vista excepto rochedos 
escarpados e dunas de areia. O rugido das vagas batendo contra os penhascos 
ouve-se a muitas milhas de distância. Quando sopram os ventos de oeste, a altura 
das ondas na costa pode exceder 15 m. De Outubro a Abril são vulgares os 
nevoeiros espessos. Para um marinheiro medieval, com longa prática de escutar 
todo o género de narrativas fabulosas sobre o Mar Tenebroso e o fim do Mundo, 
essa linha de costa traiçoeira e deserta anunciava sem dúvida alguma o limite da 
navegação possível. O longo promontório do cabo Bojador, penetrando com 
profundidade no mar, mostrava claramente onde se situava a barreira. Quem 
ousaria passar além? 


Enviado pelo infante D. Henrique, Gil Eanes foi ousado e 


experimentado bastante para cometer a proeza. Se as fontes narrativas contam a 
verdade, quinze vezes o tentou e quinze vezes o não conseguiu. De qualquer 
maneira, o habitual exagero medieval serve aqui para demonstrar quão difícil a 
empresa se afigurava a todos e quão importante a passagem do cabo Bojador se 
revelou na história dos descobrimentos marítimos. Em 1434 Gil Eanes dobrava 
finalmente o famoso cabo ' continuando por algumas milhas e regressando com a 
boa nova de que, para efeitos de navegação, o mundo ainda não acabava ali. 
Como prova convincente, trouxe consigo algumas rosas silvestres colhidas além 
do promontório do Bojador. Hoje em dia, historiadores e geógrafos discutem se o 
cabo famoso do século xv corresponde de facto ao moderno cabo com esse nome 
(26,50N, no actual Sahara Espanhol) ou antes ao cabo Juby, várias milhas a sul. 


Depois de 1434, a descoberta da costa ocidental africana prosseguiu num ritmo 
bem mais acelerado. No ano imediato, Gil Eanes com Afonso Gonçalves Baldaia 
passaram o trópico de Câncer (23,5'N) e chegaram ao que supunham ser e 


portanto denominaram o Rio do Ouro (actual Rio de Oro, no Sahara Espanhol). Aí 
obtiveram as primeiras amostras daquilo que sobretudo buscavam: ouro. As 
viagens começavam a produzir lucro que se visse e a atrair número maior de 
gente. Tornaram-se 


As viagens de descobrimento 215 


mais numerosos os empreendimentos e as expedições passaram a largar de 
Portugal ano após ano. 


Em 1441 Nuno Tristão atingiu o cabo Branco (cap Blane) na actual Mauritânia, a 
21 graus norte. Este mesmo navegador, ao que parece apto e experimentado, 
descobriu pelo menos mais dez graus de costa para sul, em viagens sucessivas 
durante os cinco anos que se seguiram. Foi provavelmente o primeiro a chegar à 
foz do Senegal e, depois, aos rios Gâmbia e Salum. Outros navegadores 
descobriram o cabo Verde, a 14,5>N, e o cabo dos Mastros, ambos na actual 
república do Senegal. 


O ritmo dos descobrimentos não afrouxou na década de 

1450. Seguindo a costa, o, piloto Diogo Gomes e vários outros mareantes 
(incluindo os italianos Cadamosto e Uso di Mare, ao serviço do infante D. 
Henrique) alcançaram a Guiné e a Serra Leoa. Nos começos da década seguinte, 
ou talvez antes, Pedro de Sintra chegou à latitude da actual Monróvia (6,5<>N) 
onde a linha costeira indubitavelmente mostrava curvar para leste. 


Portanto, em menos de trinta anos, 20 graus da Terra haviam sido descobertos, 
baptizados e cuidadosamente descritos. Os Portugueses estavam prestes a entrar 
no amplo golfo da Guiné, que, durante algum tempo, julgaram ser o «mar do Sul», 
ou seja, O fim da África. 


Ao largo da costa foi descoberto e explorado o arquipélago ilhas de Cabo Verde 
nas décadas de 1450 e 1460. A ilha do Sal já era de Cabo VOO 


conhecida antes e aparecia nos mapas: por isso os Portugueses lhe mantiveram o 
nome. As restantes ilhas foram em geral nomeadas de acordo com o santo do dia 
em que iam sendo achadas: Santo Antão, S. Vicente, S. Nicolau, Santa Luzia, S. 
Cristóvão (depois mudado para Boavista), Santiago, S. Filipe (posteriormente 
mudada em Fogo, devido ao seu vulcão). Este facto permite concluir que as ilhas 
de Cabo Verde foram descobertas em duas fases, uma na Primavera (Abril-Maio) 
e a outra no Inverno (Dezembro-Janeiro). 


No Atlântico Norte, os mareantes portugueses iam igual- Viagens mente tentando 
novas descobertas, em busca das terras lendá- par,* Ocídei; 


As viagens de descobrimento 217 


rias apontadas nos mapas ou narradas pela tradição. Muito pouco se conhece das 


suas viagens para ocidente, porque não existiam quaisquer ilhas e portanto raros 
testemunhos ficavam dessas expedições. O mar, como tal, era de somenos 
importância e só o aparecimento de terra merecia as atenções. Atendendo à 
escassa documentação possuída, alguns historiadores admitem que, pelos 
meados do'século, os Portugueses haviam alcançado ou pelo menos avistado 
algumas das Antilhas, o nordeste do Brasil e o nordeste do continente norte- 
americano (Terra Nova e Gronelândia). Numa dessas viagens, descobriram as 
duas mais ocidentais ilhas dos Açores, invisíveis do resto do grupo. Preservaram 
um dos nomes lendários -Corvo, tradução de Co-rvi marini- mas baptizaram de 
Flores a outra ilha, designação mais do que apropriada à sua exuberância florida. 


Em qualquer caso, os mareantes portugueses chegaram sem dúvida ao Mar dos 
Sargaços e reuniram elementos e experiência bastantes para traçar um mapa 
muito completo e preciso dos ventos e das correntes do Atlântico, que seria usado 
por todos os futuros navegadores. 


Bibliografia (além das obras gerais já mencionadas) -A melhor narrativa das 
viagens de descobrimento, cronologicamente tratadas, deve-se a Damião Peres, 
História dos Descobrimentos Portugueses, Porto, Portucalense Editora, 1943. 


Sobre as expedições às Canárias, veja-se também Florentino Pérez Embid, Los 
Descubrimientos en el Atldntico y la Rivalidad CastellanoPortuguesa hasta el 
Tratado de Tordesillas, Sevilha, 1948. 


3 -Os primeiros resultados 


Durante muitos anos, nem a Madeira nem os Açores receberam colonização 
permanente. Navios portugueses e navios castelhanos visitavam de quando em 
vez ambos os arquipélagos, sobretudo a Madeira, à procura de matérias-primas 
facilmente carregáveis. Nessas condições estava, por exemplo, o muito apreciado 
«sangue de dragão», resina de cor vermelha extraída do dragoeiro (planta liliácea) 
e utilizada na indústria têxtil para fins de tinturaria. Todas as ilhas se mostravam 
também ricas em madeira. 


Madeira Na década de 1420, o receio de uma ocupação castelhana 


levou Portugal a decidir o povoamento da Madeira. Menos de um centenar de 
pessoas, dirigidas pelos três « descobridores» (João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz 
Teixeira e Bartolomeu Pallastrello ou Perestrelo, um italiano), desembarcaram nas 
duas ilhas da Madeira e Porto Santo para ficar. Haviam sido provavelmente 
recrutados nas terras pertença do infante D. Henrique e da Ordem de Cristo. A 
maioria proveio, ao que parece, do Algarve. 


A estrutura social e económica da metrópole foi introduzida sem grandes 
alterações nas duas ilhas. Os três dirigentes pertenciam aos escalões inferiores da 
nobreza - dois deles eram escudeiros do Infante e o terceiro, um aristocrata 
italiano -, o mesmo acontecendo com cerca da catorze outros. O resto compunha- 


se de plebeus (incluindo alguns degredados), social e economicamente 
dependentes daqueles. Zarco tinha certa preemi- 


Os primeiros resultados 219 


nência dentro do grupo e recebera o encargo de dirigir o povoamento. Quer por 
iniciativa própria, quer em obediência a instruções, dividiu o arquipélago em três 
partes, uma para si, abrangendo metade da Madeira, e duas para os seus 
companheiros, uma correspondendo à restante parte da ilha maior e a terceira 
limitada ao Porto Santo. As Desertas nunca foram povoadas. A divisão da ilha da 
Madeira seguia uma linha meramente convencional, traçada diagonalmente do 
extremo noroeste para o extremo sueste. Em cada quinhão, o « senhor» tinha o 
direito de conceder terras, fosse pelo sistema de aforamento, fosse em plena 
propriedade. Exigia-se a ocupação efectiva da terra e o seu cultivo dentro de um 
prazo estabelecido. 


Levou mais de uma geração a conseguir uma perfeita organização da Madeira do 
ponto de vista administrativo. As ilhas dependeram primeiramente da Coroa. Em 
143á, o rei D. Duarte doou-as, como uma espécie de feudo, a seu irmão D. 
Henrique, embora só em vida deste e conservando para si a dizima do peixe 
apanhado. A maneira feudal ibérica, o monarca não alienou os direitos de cunhar 
moeda nem de prestar justiça suprema. Espiritualmente, as ilhas foram entregues 
à Ordem de Cristo, o que garantia também a D. Herrique todos os seus 
rendimentos eclesiásticos. 


Como senhor da Madeira, o Infante criou um sistema de três capitanias perpétuas 
e hereditárias, que confiou aos três «senhores» locais existentes, confirmando 
assim a partilha original. Os capitães, ou capitães-do-natários, exerciam a 
jurisdição em nome de D. Henrique, concediam terras aos povoadores e detinham 
o monopólio dos meios de produção (moinhos, fornos e lagares comuns) e da 
venda do sal, assim como o décimo da dizima (=redízima) pertencente ao senhor 
supremo. Este sistema inspirava-se no que fora adoptado pelas repúblicas 
italianas nas colónias do Levante depois das Cruzadas, e também pelos Catalães 
e os Franceses nessa mesma área. Longe de se limitarem a uma mera imitação, 
todavia, os Portugueses (e os Castelhanos, depois deles) relacionaram as 
instituições europeias com as novas condições que encontraram nas terras 
descobertas, 


220 Primórdios da expansão 

estabelecendo assim uma estrutura altamente original de administração colonial. 
Em 1451, já o Funchal e o Machico, as duas principais aldeias da Madeira, e 
sedes de administração das -duas capitanias da ilha, eram elevadas à categoria 


de vila e recebiam o seu foral. 


Pouco antes de morrer, o infante D. Henrique convenceu o rei Afonso V a 


transferir o seu senhorio sobre as ilhas para D. Fernando, irmão mais novo do 
monarca e filho adoptivo do Infante. O feudo de D. Fernando, porém, incluía o 
direito de transmissão ao filho mais velho. 


Do ponto de vista económico, as ilhas ofereciam enormes vantagens mas não 
menos obstáculos a um desenvolvimento harmonioso. Estavam cobertas de densa 
vegetação que precisava de ser desbastada e arrancada em vastas áreas para 
permitir campos de semeadura, pomares e hortas. Se bem que férteis em água, 
careciam de um complicado sistema de canais e de irrigação, assim como de 
escoamento. Essencialmente montanhosas, não favoreciam as práticas agrícolas 
sem um esforço prévio de conversão em terraços dos declives orográficos. Não 
havia nelas gado nem animais domésticos. Se tinham peixe em abundância, 
faltava-lhes em contrapartida carne. E assim por diante. Foram todas estas 
barreiras que impediram o desenvolvimento acelerado da Madeira (como das 
demais ilhas) como lucrativa colónia de povoamento. 


Não obstante, existiram lucros desde os começos. Boa madeira de cedro e de 
teixo proporcionou logo fontes de rendimento. Entre as primeiras exportações dos 
colonos contavam-se o sangue de dragão, o anil e outras matérias tintureiras. (Em 
1439, uma carta régia isentava de direitos aduaneiros toda a mercadoria enviada 
da Madeira para Portugal. Este privilégio foi renovado, pelo menos até 1449.) O 
peixe servia de base da alimentação local. Depois, a pouco e pouco, um esforço 
persistente e bem dirigido - onde a arte tradicional muçulmana e moçárabe estava 
porventura presente - criou uma rede de levadas ou comportas, que permitiu 
avanço grande da agricultura. 


Desde cerca de 1450 a cerca de 1470, a Madeira revelou-se um grande centro 
produtor de cereais (umas 3000 a 3500 tone- 


Os primeiros resultados 221 


ladas por ano), exportando-se para Portugal mais de metade do seu trigo, quer 
para consumo metropolitano, quer para abastecimento de Ceuta e das expedições 
ultramarinas. Parte deste comércio cerealífero estava nas mãos de mercadores 
catalães e italianos. Cobriam a ilha azenhas e atafonas, cujo monopólio (com o 
dos fornos públicos) pertencia aos capitães. Com um solo virgem, que era ainda 
enriquecido pelas cinzas dos grandes fogos de arroteia, a produtividade mostrava- 
se tão elevada que os preços tiveram de ser mantidos artificialmente altos. 
Abundava já o gado, e o vinho e o açúcar iniciavam a sua carreira triunfal, Em 
1452, o infante D. Henrique assinara um contrato com um tal Diogo de Teive para 
o estabelecimento de um engenho de açúcar. Quatro anos mais tarde, exportava- 
se para Inglaterra o primeiro açúcar madeirense. Aos poucos, atraídos pela 
perspectiva de bons lucros, foram chegada à ilha e ai se estabelecendo número 
relativamente grande de mercadores estrangeiros e nacionais: entre os mais 
proeminentes contavam-se os Judeus e os Genoveses, embora os Portugueses 
nunca tivessem alienado a sua parte no comércio açucareiro e ainda menos na 
produção do açúcar. Pela década de 1460, o açúcar começava já a revolucionar a 


economia da ilha e as suas condições de vida. Em vez do habitual barco por ano 
que o ligava à metrópole, o Funchal passou a ser demandado com frequência por 
navios portugueses e estrangeiros em ligação directa com os mercados da Europa 
Ocidental. A população aumentou, superando os 

2000 habitantes entre 1460 e 1470, onde se inclufam os primeiros escravos 
trazidos das ilhas Canárias, de Marrocos e da costa africana para trabalharem nas 
plantações. 


De interesse social foi a rápida transformação de parte dos primitivos povoadores 
(onde, apesar da diferenciação social vigente, não se registavam desigualdades 
económicas desmedidas) em classe muito mais opulenta de terratenentes 
absenteistas, que preferiam viver no Funchal ou no Machico, entregando a 
rendeiros ou feitores as tarefas agrícolas locais. O surto do trigo e, depois, do 
açúcar e do vinho, quer na produção local, quer na exportação, depressa originou 
uma classe de ricos proprietários, muitos deles de nome e linhagem aristocráticos. 
Na 


222 Primórdios da expansão 


Madeira, como em Portugal, uma estrutura de tipo feudal caracterizou assim os 
finais da Idade Média. 


Açores A colonização dos Açores começou muito mais tarde e produziu os seus 
primeiros resultados importantes muito mais tarde também. No começo da década 
de 1430 foram deixados nas ilhas de S. Miguel e de Santa Alaria carneiros e 
outros animais domésticos como medida preliminar para uma ocupação 
permanente. Contudo, foi só em 1439 que um diploma régio autorizou -o infante D. 
Henrique a iniciar o povoamento, que na verdade começou nos primeiros anos do 
decénio de 1440. Tal como sucedera à Madeira, todo o arquipélago fora 
concedido a D. Henrique e -à Ordem de Cristo. Mas ao contrário do que 
acontecera na Madeira, o senhorio do Infante encontrou competidores. Seu irmão 
D. Pedro, ao tempo regente do reino, pretendeu também um quinhão no rendoso 
empreendimento. Apropriou-se de S. Miguel e, segundo parece, ordenou o 
povoamento sistemático da ilha. Santa Maria foi doada por D. Henrique a Gonçalo 
Velho, segundo o sistema das capitanias. Tal como na Madeira, a isenção de 
direitos alfandegários sobre a mercadoria exportada para o continente tomou-se 
uma espécie de pedra angular do crescimento da economia açoreana. Para mais, 
em 1447, o infante D. Pedro alargou as possibilidades de S. Miguel renovando 
essa isenção e tornando-a perpétua, privilégio que estimulou a futura prosperidade 
da ilha. Porém, o fim da sua carreira política e a morte pouco posterior (1449) 
comprometeram durante algum tempo a colonização efectiva de S. Miguel. Tal 
como na Madeira, todas as ilhas - à excepção do Corvo, doada como feudo ao 
duque de Bragança- foram mais tarde concedidas pelo rei ao seu irmão mais novo 
D. Fernando, pouco tempo antes da morte do infante D. Henrique. 


Só no decénio, de 1460 é que os Açores se converteram em objecto de 
permanente interesse. Além de Santa Maria e de S. Miguel, também a Terceira, a 


Graciosa, o Faial. e o Pico foram povoadas e entregues a capitães-donatários, um 
para as duas últimas nomeadas, um para a Graciosa e outro para a Terceira 
(ulteriormente dividida em dois quinhões, segundo uma linha 


Os primeiros resultados 223 


recta diagonal que separava a ilha em duas metades). Capitães e povoadores 
receberam privilégios, terras e rendas de forma muito semelhante à da Madeira. 
Contudo, verificou-se a curto trecho que o recrutamento de colonos não se 
mostrava tarefa tão fácil. O infante D. Henrique foi obrigado a entregar duas das 
mais importantes capitanias a estrangeiros (ambos da Flandres), que trouxeram 
consigo número considerável de compatriotas. Na estruturação social, todavia, 
poucas foram as diferenças. 


Tal como na Madeira, materiais tintureiros e madeirame detiveram o primeiro lugar 
no desenvolvimento económico dos Açores durante algum tempo. O peixe teve, 
da mesma forma, papel decisivo no abastecimento local. Gado e trigo tornar-se- 
iam as principais fontes de receita, mas não anteriormente à década de 1470. A 
produção de açúcar nunca se desenvolveu, tanto devido ao desfavor do clima 
como à rivalidade madeirense. Em consequência, poucos escravos fizeram a sua 
entrada no arquipélago. 


Proventos económicos da costa ocidental africana não come- Escravos çaram a 
afluir antes de 1440-50. Durante algum tempo, viu-se que os escravos eram mais 
abundantes, fáceis de obter e lucrativos do que o ouro. É conveniente recordar 
que as Canárias muito antes da costa ocidental africana, constituíam a fonte mais 
importante da escravização, e que os Castelhanos, os Franceses e os Italianos, 
ao mesmo tempo ou antes que os Portugueses, se dedicaram ao tráfico de 
escravos com pingues lucros. Como todos os outros, os Portugueses fizeram as 
costumadas razias nos Canarinos, trazendo muitos como escravos para a 
Madeira. A competição com Castela, todavia, impediu Portugal de se servir do 
arquipélago das Canárias como mercado de escravos permanente. Por volta de 
1460-70, quando ia em gumento na Madeira a procura de mão-de-obra barata 
para as plantações de açúcar, Castela defendia activamente os seus direitos à 
exclusiva propriedade e exploração económica das ilhas. Nas águas do 
arquipélago enxameavam os piratas. Além do mais, os Canarinos mostravam-se 
difíceis de capturar e de escravizar, resistindo ferozmente e parecendo ser 
melhores lutadores do que 


224 Primórdios da expansão 
trabalhadores. Os Portugueses preferiram muitas vezes ocupá-los como 
guerreiros contra os seus rivais, em obstáculo permanente à colonização efectiva 


por Castela. 


Podiam também obter-se escravos na costa marroquina, mas era tarefa mais 
perigosa. Excelentes guerreiros, os Mouros possuíam uma organização militar 


eficaz que travava as veleidades de escravização. Seria necessário que os 
Portugueses controlassem primeiro uma vasta área de hinterland marroquino, o 
que nunca conseguiram fazer. 


Continuando para sul, quando se alcançava a África negra e se achava menos 
subido o nível civilizacional, mostravam-se mais promissoras as condições de 
escravatura. Os primeiros negros foram trazidos em 1441 por Antão Gonçalves, 
que fez suas batidas na costa norte da Mauritânia (a cerca de 200 Norte). Foi 
grande o entusiasmo em Portugal e, três anos mais tarde, um grupo de algarvios, 
associado numa espécie de companhia temporária dirigida pelo almoxarife de 
Lagos, armou seis caravelas, alcançou a costa da Mauritânia e trouxe consigo 
triunfantemente 

235 escravos. Daí por diante, o tráfico continuou florescente: entre 1441 e 1448 
importaram-se em Portugal um mínimo de 

1000 escravos e talvez mais; na década de 1450, uma média de 

700 a 800 escravos entrava anualmente na Europa, via Algarve e Lisboa. A costa 
da Guiné revelou-se um mercado melhor do que qualquer outra área atingida até 
então pelos Portugueses. 


Se parte dos cativos resultava de incursões directas no interior, a maioria provinha 
de compras regulares a mercadores muçulmanos e aos próprios Negros. 
Trocavam-se escravos por panos e por outros artigos que os Portugueses iam 
muita vez adquirir a Marrocos, de novo por vias legais. De Portugal, grande 
número, senão a maioria dos escravos vendiam-se depois -com bons lucros para 
Castela, Aragão e outros países europeus, e só uma parte ficava nas plantações 
de açúcar (e em serviços agrícolas ou domésticos) da Madeira e de Portugal. 
Juntamente com o açúcar, o tráfico de escravos podia considerar-se um dos mais 
rendosos entre todos, atraindo numerosos mercadores de toda a Europa, Italianos 
sobretudo. 


Os primeiros resultados 
225 
OUÍrOS produtos 


Da Guiné, os Portugueses traziam também goma arábica, gatos de argália (de 
onde se extrafa um produto medicinal muito apreciado), malagueta, algodão, 
marfim e vários outros artigos menores, incluindo papagaios. Davam igualmente 
lucros consideráveis o peixe e o óleo de peixe e de baleia. Além de peixe 
propriamente dito, os navios portugueses caçavam baleias e lobos marinhos nas 
águas das Canárias e do Norte de África, vendendo depois em Portugal, de onde 
eram exportadas para outras partes, as peles e o azeite. 


Ouro, o tão cobiçado objectivo, chegou pela primeira vez Ouro a Portugal em 
1442, a darmos crédito às crónicas. Era trocado por trigo, género de grande 
procura entre os Negros. Este facto explica que os Portugueses, em si mesmos 


sempre falhos de trigo para consumo, o fossem comprar no estrangeiro ou na 
Madeira só com o propósito de conseguirem ouro. Os Negros apreciavam 
também, e trocavam pelo precioso metal, tecidos e peças de vestuário, 
cobertores, contas de coral e prata. Não sabemos, nem mesmo aproximadamente, 
quanto ouro chegou à Europa nesses tempos, a bordo das embarcações 
portuguesas. Mas a intensidade do tráfico com a costa africana, o seu monopólio 
pelo infante D. Henrique, e as alterações para melhor que se registaram na moeda 
nacional (v. Cap. IV) indicam que o 


comércio de ouro desempenhou papel de relevo na economia do Pais e 
correspondeu aos almejados fins em vista. 


Até 1443, eram livres o comércio e a navegação com a África: qualquer pessoa 
podia armar um navio e mandá -lo a Marrocos ou à costa norte-africana com 
objectivos de comércio regular ou simplesmente para pilhagem e pirataria. De 
todos os lucros, porém, a quinta parte pertencia à Coroa, na velha tradição da 
«Reconquista». Apenas os infantes D. Pedro e D. Henrique estavam isentos deste 
tributo e unicamente no que respeitava à guerra de corso. 


Em 1443, o infante D. Henrique conseguiu obter o monopólio de todo o comércio 
efectuado com a costa africana a sul do cabo Bojador. Foi-lhe mesmo doado o 
quinto que devia per- 


IS 

Formas 

comerci iis 

226 Primórdios da expansão 


tencer ao Estado. Por esse tempo, D. Pedro controlava o governo e beneficiava de 
todos os seus proventos e privilégios: podia bem permitir-se ser generoso para 
com o irmão mais novo, de cujo apoio necessitava. 


Monopólio de comércio não queria dizer exclusivo de navegação. Continuaram os 
empreendimentos de particulares, embora passasse a ser necessária a 
autorização de D. Herrique.- 

O seu poderio e organização de tipo económico não bastavam ainda para um 
monopólio efectivo implicando coordenação completa de todo o tráfico. Em vez 
disso, o Infante preferia conceder uma licença de cada vez que lha pediam, 
recebendo em contrapartida uma quinta parte livre de qualquer esforço. Desta 
forma, o monopólio henriquino assemelhava-se antes a um senhorio, à maneira 
dos que -possuía na metrópole. 


As licenças para comerciar obedeciam a duas formas principais: se os particulares 
tomavam para- si as despesas com a armação e com a viagem, D. Henrique 


recebia 25 % dos lucros; se era ele a ter os encargos de armar o navio, os 
proventos seriam divididos a meio. 


Não sabemos muito de como se faziam os contratos entre particulares ou se 
criavam sociedades. Na maioria dos casos, parece que os próprios mercadores 
participavam nas expedições. Negociantes de maior fazenda ou mais bem 
organizados, claro está, haviam de enviar os seus representantes e preferir ficar 
em casa. O mesmo acontecia, evidentemente, quando um senhor feudal se 
decidia a ganhar o seu quinhão no tráfico africano. Os lucros mostravam-se 
elevados, em geral acima dos 

100 %, às vezes podendo montar aos 700 %. 


Feitorias Pelos fins da década de 1440, foi criada a primeira feitoria 


regular na ilha de Arguim (20,51> N), não longe do continente. Servindo-se de 
materiais locais mas com ferramentas e mão-de-obra trazidas de Portugal, um 
Soeiro Mendes de Évora dirigiu a construção de um castelo ou fortaleza para 
protecção e chefiou o primeiro grupo organizado de povoadores, incluindo um 
sacerdote. A feitoria foi quase imediatamente arrendada a uma companhia 
portuguesa (porventura com acções de Italianos tam- 


Os primeiros resultados 227 


bém) por um período de dez anos. Ulteriormente, as condições modificaram-se. A 
morte de D. Henrique (1460) inaugurou novo período de liberdade comercial (v. 
Cap. V) mas onde o papel da Coroa seria cada vez maior. 


No decénio de 1450 foi fundada uma segunda feitoria (e provavelmente um 
castelo também) algumas milhas a sul de Arguim. O seu objectivo consistia em 
comerciar com malagueta, marfim, almíscar e papagaios. Por esse tempo 
começava a própria Coroa a organizar rudimentarmente o comércio ultramarino, 
nomeando funcionários - por exemplo, um almoxarife para os escravos mouros 
importados e para toda a mercadoria vinda da Guiné - e criando uma espécie de 
repartição pública, a Casa de Ge-uta, para superintender nas terras ultramarinas, 
principalmente em Marrocos. Por 1445 criava-se outra repartição, em Lagos, 
especializada no comércio com Arguim. Depois da morte do infante D. Henrique, 
este escritório seria* transferido para Lisboa. 


Discutiram-se já as motivações particulares do Infante e as Planeamem 
motivações gerais da expansão. É sumamente duvidoso que das viagem D. 
Henrique possuísse alguma vez um plano bem organizado com o fim de explorar 
terras desconhecidas, e ainda menos que acalentasse o sonho de chegar à Ásia e 
àquilo a que hoje chamamos Índia. Mas seria errado supor que as condições 
gerais ao tempo em que as descobertas começaram eram as mesmas que por 
alturas da morte do Infante, em 1460. Muito se modificara no entretanto, resultado 
quer das variações da conjuntura mundial quer dos próprios descobrimentos. 
Variaram também os pontos de vista, as finalidades e os conhecimentos do 


próprio D. Henrique. No outono da sua vida, é muito provável que albergasse em 
seu espírito uma imagem bem mais clara do, mundo e daquilo que se poderia 
atingir nele do que quarenta anos atrás. 


Mas se não encontramos um plano definido de atingir a Ásia por via marítima na 
primeira metade do século xv, encontramos, em contrapartida, uma definição 
assaz exacta dos fins a alcançar em África e um estudo bastante completo dos 
seus meios. Provas datando da segunda década de Quatrocentos e 


228 Primórdios da expansão 


continuando por mais de cem anos a seguir mostram claramente que estava na 
ideia de muitos dirigentes portugueses, incluindo D. João |, D. Duarte, D. Afonso V 
e o infante D. Henrique, um plano de conquista da África muçulmana com o 
objectivo final, embora distante, de reconquistar Jerusalém. Em suma, o ideal, de 
cruzada norteava os seus esforços. Este ideal seria depois associado com as 
possibilidades de atingir a Ásia por via marítima e vasado num vasto 
empreendimento de descoberta do mundo por Cristo, mas só nos finais da 
segunda metade do século xv. Até então, a política portuguesa tem de entender- 
se no enquadramento geral das últimas cruzadas e de explicar-se por . ele. 


A KRecon- Teoricamente os Cristãos nunca haviam aceite a ideia da 


perda permanente da Terra Santa e das regiões outrora submetidas ao 
«ecuménico» Império Romano. A reconquista do Norte de África, seguindo-se à 
da Península Ibérica, parecia a todos um objectivo natural e, pelo menos em 
teoria, entrava nos objectivos políticos dos monarcas ibéricos. Tanto o rei de 
Castela como o rei de Portugal sentiam essa mesma obrigação, acrescida e 
adornada da perspectiva de acrescentar novas províncias a seus reinos e aduzir 
novas rendas a seus tesouros. 


Existia desde havia muito um bispo nominal de Marrocos. Nos princípios do século 
xv, oO rei D. João | conseguiu que o Papa nomeasse como tal um sacerdote 
francês que era o confessor da rainha D. Filipa de Lencastre. Depois de Ceuta ter 
caído em mãos portuguesas, esse mesmo bispo foi feito bispo de Ceuta, sendo- 
lhe agora entregue uma diocese real para governar. Um português fora também 
investido no bispado nominal de Cartago. Assim, Portugal mostrava-se já no 
comando da administração eclesiástica de boa parte do Norte de África, no caso 
de ser bem sucedida a guerra contra os Mouros. 


Em 1418, uma bula papal convidava todos os países cristãos e todos os fiéis em 
geral a juntar forças com o rei de Portugal contra o Islam, aconselhava o clero 
português a pregar a cruzada, autorizava conquistas de território e concedia as 
inevitáveis indulgências. Foi seguida por diversas outras bulas com 


Os primeiros resultados 229 


objectivos idênticos e cláusulas parecidas. No mesmo ano, os Portugueses 
obrigavam os Mouros a levantar o cerco a Ceuta e planeavam um ataque contra 
Gibraltar que nunca se efectivou. .As diversas tentativas europeias de organizar 
uma cruzada, os monarcas portugueses responderam sempre com entusiasmo, 
quer em teoria quer em prática. Em 1437, por exemplo, proclamava-se 
solenemente a cruzada em todo Portugal (que levaria ao desastre de Tânger). O 
papa Eugénio IV não se poupou a esforços para incitar os reis e os senhores da 
Europa a combater o Islam. onde quer que ele se encontrasse. Na década de 
1440, concebeu unia aliança com o Preste João que atacaria os Muçulmanos pelo 
sul. Concedeu a Portugal novas bulas, recheadas de exortações e de privilégios, 
apoiando a empresa de Ceuta e 


os projectos ultramarinos, garantindo indulgências aos chefes, etc. Ao mesmo 
tempo, o Papa procurava não se comprometer inteiramente com Portugal, a fim de 
estimular os interesses de Castela e beneficiar dos seus esforços também. Assim, 
recusou as Canárias ao monarca português e confirmou-as ao castelhano. Nos 
fins do decénio de 1440 e durante o de 1450, Castela despertou da sua 
indiferença e resolveu participar activamente nas descobertas e nas conquistas. 
Os seus piratas foram interferindo cada vez mais com a navegação portuguesa, 
enquanto se concedia formalmente ao duque de Medina Sidónia, em desafio ao 
monopólio português, o tráfico mercantil com as novas terras descobertas. Pouco 
tempo depois, a África era oficialmente declarada «conquista, de Castela», 
proclamação destituída de sentido nos seus aspectos práticos, mas mesmo assim 
desafiadora da política portuguesa. A morte do rei castelhano João Il (1454) 
resolveu momentaneamente o problema, visto que o novo monarca, Henrique IV, 
nunca prosseguiu a sério os esforços empreendidos pelo pai. Ao mesmo tempo os 
Portugueses atarefavam-se junto da Cúria Pontifícia na obtenção de mais amplos 
privilégios papais. Conseguiram uma vitória retumbante em 

1455 quando a bula Romanus Pontifex definitivamente endossou Portugal e só 
Portugal, sancionando o monopólio de descobrimento e de conquista, e afirmando 
outras prerrogativas importantes. No ano seguinte, nova bula concedia à Ordem 
de Cristo 


230 Primórdios da expansão 


a espiritualidade (patronato) de todas as terras recém-descobertas e a serem 
descobertas no futuro. 


Conquistar a África, portanto, e conquistá-la no enquadramento geral de cruzada, 
implicava muito mais do que Marrocos ou o Norte do continente: significava a 
conquista de quaisquer territórios negros a sul do Sahara, em resumo, todo o 
continente, onde quer que ele terminasse e uma vez que os seus habitantes não 
adorassem a Cristo. Os Portugueses ficavam com as mãos completamente livres 
para governar em África com plena aprovação da Santa Sé: só o reino do Preste 
João permanecia à margem da sua soberania política. 


Preste JQÍ:O É preciso ainda recordar que os modos de alcançar o Preste 


João por sul e ocidente continuavam obscuros. Supunha-se que o rio Nilo corria 
na direcção oeste-leste antes de inflectir para sul-norte. Por várias vezes julgaram 
os Portugueses que o haviam descoberto, ou pelo menos um dos seus braços. 
Pensavam achar-se muito mais perto da Etiópia do que era realmente o caso. Isto 
explica que os seus objectivos políticos, ligados a um ataque ao Islam «pelas 
costas», se afigurassem viáveis aos estadistas europeus da época (sobretudo ao 
Papa e aos dirigentes portugueses) e prestes a verificarem-se. Justificava-se, 
assim, a continuação das viagens de descobrimento e a sua integração na 
cruzada geral. 


Bibliografia (além das obras gerais já mencionadas) - Sobre a colonização da 
Madeira e dos Açores, ver Vitorino Magalhães Godinho; A Economia dos 
Descobrimentos Henriquinos, Lisboa, Sã da Costa, 1962, obra igualmente 
fundamental para o estudo de todos os aspectos da expansão pré-quatrocentista. 
O artigo «Madeira», de Joel Serrão, no Dicionário de História de Portugal, vol. II, 
dá uma excelente síntese dos primeiros tempos da vida do arquipélago. Um 
sumário da colonização portuguesa do século xv (particularmente sobre os 
aspectos agrícolas), encontra-se também no livro de A. H. de Oliveira Marques, 
Introdução à História da Agricultura em Portugal (A Questão Cerealífera durante a 
Idade Média), 2.a edição, Lisboa, Cosmos, 1968. Sobre o mesmo assunto, 
Charles Verlinden escreveu um artigo interessante que merece referência: « 
Formes féodales et domaniales de la Colonisation Portugaise dans la zone 
Atlantique aux xive et -O siécles et spécialement sous Henri le Navigateur», 
Revista Poriuguesa de História, vol. IX (1960), pp. 1-44. 


CAPÍTULO IV 
O ESTADO DO RENASCIMENTO 
234 O estado do renascimento 


ção como colonos nas terras recém-descobertas ou conquistadas; as migrações 
internas na metrópole, do campo para a cidade e da montanha para a planície; a 
expulsão dos Judeus e dos Mouros; o aumento no número dos juízes e de outros 
magistrados e funcionários; as reformas administrativas e judiciais subdividindo o 
número das circunscrições; a criação de novos bispados e concelhos; a promoção 
a cidades de muitas vilas; etc. 


Em 1527-32 foi ordenado, por decisão de D. João Ill, o primeiro censo da história 
portuguesa. Mostrou a existência de 

280 528 fogos, ou seja, um mínimo de 1000 000 e um máximo de 1 500 000 
almas. Estes números correspondiam à densidade média de 30 a 40 habitantes 
por kM2(Q o que não se afastava consideravelmente dos outros países da Europa. 
A distribuição da população pelas várias províncias seguia o esquema medieval e 
não era, em boa verdade, muito diferente da do século xx: cerca de 20 % dos 
habitantes viviam em Entre Douro e Minho, a mais pequena das unidades 


administrativas do País (13 % da área de Portugal), enquanto outros 20 % se 
distribufam pelo Alentejo e o Algarve, quase metade do território português. Entre 
Sul e Norte, a balança pendia decididamente para o último, fenómeno tipicamente 
moderno, que só o nosso próprio século xx 


viria combater. 


Cidades A vida urbana reflectia o crescimento contínuo da população, iniciando as 
cidades nortenhas a sua marcha ascensional. 


Se, no conjunto, existia ainda um número maior de núcleos urbanos no Sul - 29 
cidades das 37 com mais de 500 fogos situavam-se sobre ou a sul da bacia do 
Tejo -, por outro lado a segunda cidade do País deixara de ser Santarém ou Évora 
para ser o Porto, com Guimarães ocupando já posição de relevo na escala das 
cidades. Aveiro e Viana, aldeias insignificantes duzentos anos atrás, haviam-se 
tornado centros urbanos com mais de 

900 fogos cada um. Para Braga dispomos mesmo de números reveladores das 
etapas do crescimento durante este período crucial: 275 fogos em 1477, 492 em 
1506, 622 em 1514, 800 em 1527 e 1724 em 1591. Estes números não incluem, é 
certo, nem clérigos nem outros privilegiados. 


09.OC.deVíde 
O I-.Por t alegre 


7- Arronches o 

6-Monforte O o é- C MaDor 

130-LISBOA 

9-E 5t remo z 19 E lvas 

7 

O 10-N. Içosa ArraiolosO -B.r 10 Oli,.n,.., 


o* (Q2C-Evora 
9-M-O-Nov ( 


Fig. 33 -Portugal urbano, 1527-32 (segundo O. Ribeiro) 

Os números indicam centenas de fogos 

236 O estado do renascimento 

Em números absolutos, depois de Lisboa, grande metrópole à escala europeia e 
cidade enorme para o tamanho de Portugal 


- 13 010 fogos, isto é, entre 50 000 e 65 000 habitantes - vinham o Porto com uns 
3000 fogos, Evora com 2800, Santarém com 


2000, Elvas com 1900, Tavira com 1500, Guimarães com 1400, Coimbra e Lagos 
cada qual com 1300, Setúbal, Beja e Portalegre no nível dos 1200, etc. Na maioria 
destas cidades iam-se construindo novos edifícios e até novos bairros fora do 
recinto amuralhado, num movimento espraiante que lembrava a situação do 
século xiii e dos começos do xiv. Em Lisboa, como sempre o melhor exemplo para 
analisar o crescimento urbano, os novos bairros construídos a ocidente e a norte a 
partir dos finais de Quatrocentos acabaram por cobrir urna área total que equivalia 
a uns 20 O/o da superfície intramuros. Na parte antiga da cidade, reduziram-se ou 
desapareceram vastos jardins e espaços abertos, enquanto o número de andares 
aumentou em muitas das casas existentes. O espírito da Renascença teve sua 
importância no crescimento de muitas cidades, tanto na magnificência e na 
concepção geral dos edifícios, como no planeamento dos novos bairros, com ruas 
mais largas e mais compridas, orientadas segundo o plano em xadrez, praças 
esplendidamente adornadas, etc. 


Escravos Impressionados com o afluxo de escravos que entravam em 


Portugal, escritores dos séculos xv e xvi exageraram o seu número, como 
habitualmente acontecia em «estatísticas» literárias medievais. Em boa verdade, 
não existem fontes de confiança para avaliarmos do impacto da escravatura no 
crescimento da população, mas é pouco provável que o número de escravos 
alguma vez tenha excedido 1/1, da população total, mantendo-se quase sempre 
muito abaixo dessa cifra. Viam-se mais em Lisboa do que algures devido à 
concentração urbana, mas provavelmente nunca ultrapassaram aí os 5000. 


Jiideus Os Judeus formavam um grupo relativamente pequeno, mas 


cuja cifra total exacta desconhecemos. Vivendo nas cidades e entregues a 
profissões urbanas, estavam organizados em comunas logo que o seu número 
excedia as dez famílias. Por todo o 


A recuperação da crise 237 


Portugal, mas especialmente em Lisboa, seguida pelo Porto, Lamego, Santarém, 
Benavente e Evora, existiam comunas com seu funcionalismo próprio copiado da 
organização municipal, sob a 


autoridade suprema do arrabi-mor, de nomeação régia. 


Socialmente, os Judeus compunham pelo menos três grandes classes: os 
banqueiros ricos, mercadores, financeiros e detentores de cargos públicos, grupo 
pequeno mas economicamente importante; os artesãos, sobretudo alfaiates, 
ourives, ferreiros e sapateiros; e os pobres e indigentes, acaso uma minoria. 
Todos eram obrigados ao pagamento de pesados impostos. Possuindo as suas 
sinagogas e sendo relativamente livres para praticar a sua religião, os Judeus 
tinham, não obstante, de viver em bairros separados, as Judarias, segregados das 
zonas cristãs por muralhas, cercas e portões que se fechavam à noite. Nos 


séculos xiv 


e xv existiam em Lisboa nada menos de três judarias, com uma superfície total de 
1,5 hectares, cerca de 1,4 % da área da cidade. 


Os Mouros, originariamente minoria muito mais vasta, fo- Mouros ram a pouco e 
pouco reduzindo-se a um grupo pequeno, devido à constante absorção na 
comunidade cristã e à emigração para países muçulmanos. Estavam organizados 
de forma semelhante aos Judeus, mas em cada cidade viviam fora do recinto 
amuralhado, nas Mourarias. Ao contrário dos Judeus, a maior parte dos Mouros 
eram camponeses ou artífices pobres, quer possuindo pequenas quintas, quer 
servindo senhores cristãos. Um grupo bastante numeroso habitava a Baixa 
Estremadura, em redor de Lisboa, onde a sua presença sobreviveu em topónimos 
e numa tradição de horticultura e pomicultura apuradas. Outros viviam no Alentejo 
e especialmente no Algarve. 


Característica interessante deste período foi a chegada dos Ciganos primeiros 
ciganos. Originários da Índia, atingiram a pouco e pouco os mais remotos 
extremos da Europa. Depois de terem atravessado Castela, alguns grupos 
entraram em Portugal pela segunda metade do século xv. Nómadas e adestrados 
em toda a casta de actividades irregulares ou proibidas (roubo, engano, feitiçaria, 
etc.), suscitaram em 1526 uma proibição oficial ao 


238 O estado do renascimento 


seu ingresso, que se renovou vezes sem conto mas jamais conduziu ao resultado 
desejado. 


Agricultura As duas principais características da agricultura portuguesa e arroteias 
entre 1450 e 1550 foram provavelmente a nova fase de arroteias 


e a introdução de novas culturas, em especial o milho. 


Não dispomos de análises pormenorizadas das novas arroteias, tão semelhantes 
as da grande expansão dos séculos xix 


e xiii. Todavia, um contacto demorado com a documentação dos finais da Idade 
Média permite afirmar, sem sombra de dúvida, que essa nova tendência se 
registou. Por todo o País, mas sobretudo ao longo dos vales dos rios e nas 
planícies, terras baldias foram sendo convertidas em campos de cultura, bosques 
e matas queimados ou derrubados e lavrados por cima,- pauis enxutos, e 
pastagens transformadas em searas e pomares. É, aliás, muito provável que raras 
vezes se tivesse ido além dos limites já alcançados duzentos ou trezentos anos 
atrás, e perdidos aquando da crise. Ao estudar este fenómeno dos fins do período 
medieval e dos começos do moderno, ao querer identificar topónimos e 


ao procurar analisar povoamentos «novos», embrenhamo-nos frequentemente no 


labirinto das datações precisas, das distinções entre aquilo que foi, de facto, novo, 
e o que se limitou a reocupar terras já usadas no passado e ulteriormente 
abandonadas. 


Para todo esse movimento de arroteias existia um corpus de leis abundante. 
Servia a legislação antiga, como a moderna, se porventura fosse útil. Em cortes, 
os representantes do povo solicitaram, muitas vezes, privilégios para aqueles que 
cuidassem bem das suas terras. Um desses privilégios respeitava à isenção do 
recrutamento militar. As cortes protestaram também contra a extensão das 
coutadas senhoriais, conseguindo reduzir-lhes a área para fins agrícolas. 


Um exemplo de arroteias de certa importância foi o da bacia do Baixo Mondego, 
dirigidas pela Sé de Coimbra e pelo mosteiro de Santa Cruz da mesma cidade, 
dois dos maiores latifundiários da região. Desde cerca de 1480, mais de 10 000 
hectares de bal- 


A recuperação da crise 
239 


Novas culu, 
O Milbo 


dios foram sendo convertidos em terra arável, vinhas, olivais, pomares, etc. 


Nos séculos xii e xiii, a maior parte das terras arroteadas semeara-se de trigo, 
centeio e outros cereais; nos séculos xv e xvi, preferiram-se vinhas e olivedos, 
tendência muito típica dos finais da Idade Média com base nos maiores proventos 
que ao lavrador traziam o vinho e o azeite e na menor quantidade de mão-de-obra 
exigida. Em consequência, aumentou a produção de vinho e de azeite, enquanto a 
de cereais permanecia estacionária ou decrescia até. 


Entre as novas culturas introduzidas ou divulgadas durante este período, o 
primeiro lugar pertenceu indubitavelmente ao 


milho. Importado da América pelos Castelhanos nos finais do século de 
Quatrocentos ou começos do seguinte, era já conhecido em Portugal antes de 
1525. Tem-se, discutido o ponto de irradiação da cultura do milho, que uns 
imputam ao vale do Mondego, outros à região minhota. De qualquer maneira, o 
milho não tardou a impor as suas qualidades ao lavrador português, substituindo- 
se gradualmente ao milhete e expulsando o 


trigo de áreas onde tradicionalmente era cultivado. 
Contudo, não foi antes dos séculos xvii e xviii que a verdadeira «revolução do 


milho» se fez sentir sobre os hábitos conservadores dos campónios nortenhos, 
com seu impacto sobre a 


alimentação, as técnicas, a produtividade e as rendas. Os alicerces, porém, 
haviam sido lançados bem antes. 


Aumentara a população e estagnara, ou até diminuíra, a Cereais área entregue à 
cultura cerealífera. O resultado óbvio foi a necessidade de importar cada vez mais 
e, assim, o surto do comércio cerealífero com Portugal. O urbanismo implicava 
crescentes necessidades de abastecimento e obrigava à sua precisa 
regulamentação e organização. Até começos do século xvi, foram sempre 
temporárias, embora cada vez mais frequentes, as licenças para importar cereais 
e as isenções aduaneiras que as acompanhavam,: de 1450 a 1500 a região de 
Lisboa, o Porto e o Algarve receberam autorizações e privilégios desse tipo em 
1452-55, 


240 O estado do renascimento 


1459-61, 1467-68, 1472-73, 1475-78, 1484-88, 1490-91 e 1494-96. Finalmente, D. 
Manuel | houve por bem determinar (1502) isenção de dizima para todo o cereal 
importado por Lisboa e por Setúbal durante sua vida. Depois da grande fome de 
1521-22, seu filho D. João Ill tornou essa isenção permanente (1525) e alargou-a 
à sisa, O que convertia praticamente em livres de direitos as importações de 
cereais. Findara um longo período de história, em que o ideal de auto-suficiência 
agrária, simbolizada pela produção de trigo, cedia o passo a uma nova era 
comercial, baseada no comércio lucrativo e dependente das necessidades de 
consumo dos grandes centros urbanos. 


Pecuária Como consequência do surto agrícola e das novas arroteias, 


declinou inevitavelmente a criação de gado. Foram tomadas pelos lavradores 
medidas mais eficientes, que a legislação apoiou, contra as devastações 
causadas pelos rebanhos e pela transumância. A redução no número e na área 
das pastagens levou a unia diminuição gradual no número de cabeças de gado 
que só seria plenamente medida e avaliada nos séculos xvii e 


xviii. Baixou também a produção de lacticínios, com seu reflexo na alimentação 
geral, o que carece de análise pormenorizada. 


Artesanato As actividades artesanais continuaram a desempenhar papel 


secundário nas necessidades do País. Além de alguns têxteis de inferior qualidade 
(o veludo constituía excepção), e de algumas «indústrias» ligadas à agricultura e a 
fins domésticos imediatos, só a ourivesaria adquiriu certo renome. Tentativas 
esporádicas de melhorar a qualidade do artesanato nacional levaram a fracassos 
ou só excepcionalmente resultaram. Deve ter-se desenvolvido a metalurgia, 
conquanto viessem do estrangeiro as melhores armas e armaduras. As únicas 
«indústrias» realmente importantes foram a construção naval e a produção de 
biscoito, que empregaram vasto número de obreiros e demandaram avultados 


capitais. Ambas pertenciam à Coroa. Na construção naval, com todos os seus 
acessórios, os modelos e as técnicas foram sendo constantemente inovados, 
alcançando os navios portugueses fama e procura internacionais. 


externo 
A recuperação da crise 241 


A expansão ultramarina trouxe para o comércio português Comércio dos fins da 
Idade Média um novo e decisivo elemento, a saber, a introdução de toda uma 
gama de mercadoria exótica e cara, antes desconhecida ou só raramente 
divulgada. Foi o caso de produtos como o ouro, o açúcar, as especiarias, os 
escravos, certos tipos de madeira, o marfim, matérias corantes, etc., que 
começaram a entrar no País em quantidades cada vez maiores a partir de meados 
do século xv. Artigos como estes, não apenas se iam tornando mais e mais 
relevantes no que respeitava à procura e às necessidades de mercado, como 
também ultrapassaram, em valor económico, todos os outros produtos 
anteriormente exportados. Esta tremenda alteração no conteúdo do comércio a 
distância converteu Portugal, de mero exportador de matérias-primas, em 
intermediário entre a Europa e a África (ou as ilhas atlânticas), e mais tarde, entre 
a Europa e a América também. A nova posição assumida por Portugal iria tornar- 
se constante histórica até ao presente, explicando aquilo a que alguns têm 
chamado o seu papel económico «parasitário», mas igualmente uma das mais 
importantes contribuições portuguesas para a economia e o progresso mundiais. 


Não foi de repente, como é óbvio, que os produtos ultramarinos substituíram o 
vinho, o sal e a fruta, os quais, até meados da centúria de Quatrocentos, 
resumiam a exportação portuguesa de base. Em boa verdade, essa substituição 
jamais se verificou de todo, muito embora os lucros com o comércio de além-mar 
se elevassem a níveis incalculáveis e os colocassem muito à frente de qualquer 
matéria-prima metropolitana. Houve que esperar pelo primeiro quartel do século 
xvi para que a nova tendência se afirmasse plenamente. Mesmo assim, o sal, O 
vinho e a fruta, sem esquecer a cortiça, continuaram a ser exportados em 
quantidades avultadas e a enriquecer boa cópia de proprietários rurais e de 
comerciantes. O que acontecia era atravessar-se então um período de expansão 
geral económica que comportava ambos esses tipos de comércio, facto que passa 
muitas vezes despercebido ou atenuado aos historiadores. É preciso considerar 
também que o comércio ultramarino pertencia essencialmente a um número 
circunscrito de pessoas e de iniciativas: 


16 
242 O estado do renascimento 
importava ao rei, a um grupo reduzido de senhores feudais Gaicos e eclesiásticos) 


e a uns quantos mercadores, na sua maior parte estrangeiros ou servindo-se de 
investimentos estrangeiros (cf. Cap. V). Só tenuemente tocava a grande maioria 


do País e a rede comercial de há muito estabelecida, feita à base dos produtos do 
solo. 


As importações consistiam sobretudo em produtos têxteis, cereais e artigos 
manufacturados, incluindo grande quantidade de metal (cobre, estanho, etc.), 
indispensável para o comércio africano. As cidades metropolitanas onde existiam 
corretores pelos fins do século xv, podendo assim ser consideradas os principais 
centros do comércio externo português, eram Lisboa, o Porto, Elvas,. Évora, Faro, 
Tavira e Loulé. O Norte ainda desempenhava um papel internacional diminuto 
comparado com o Algarve (onde se efectuava abundante tráfico de fruta e com o 
Ultramar em geral, apesar da decadência de Lagos) e o Alentejo (importante nos 
seus contactos com Castela), já sem mencionar Lisboa. 


Não se haviam registado modificações essenciais nas áreas da Europa 
interessadas no tráfico com Portugal. Vinha cada vez mais trigo do mundo báltico 
(através da Hansa, principalmente de Danzig), mas igualmente de França (trazido 
por navios bretões), Castela, Inglaterra e Sicília. Marrocos servia acima de tudo 
para abastecer as cidades e as guarnições portuguesas em África. De Castela, as 
importações chegavam quer por mar (vindas de Cádiz e de outros portos 
andaluzes para o Algarve e Lisboa), quer por terra (da Andaluzia e da 
Estremadura castelhana para o Alentejo). Artigos têxteis e outros produtos 
industriais eram remetidos pela Flandres, Inglaterra, Alemanha e Itália, provindo 
alguns de Castela e de Aragão também, 


Quanto a exportações, o sal (com a cortiça, o vinho, etc.) avultava nos envios para 
o mundo hanseático, enquanto o vinho e a fruta se expediam principalmente para 
os Países Baixos, a Inglaterra e a França. Estas quatro regiões, com algumas 
outras menos importantes, reexportavam-nos para toda a Europa. O caudal das 
mercadorias ultramarinas era absorvido sobretudo pela Flandres, que funcionava 
então como centro de distribui- 


A recuperação da crise 243 


ção internacional número um no Ocidente. Italianos e Franceses Feitorias 
recebiam também o seu quinhão. Como agências do comércio externo português 
existiam as feitorias, em conexão com as colónias de residentes portugueses no 
estrangeiro. A mais famosa e importante de todas as feitorias portuguesas, 
datando do século xiv (cf. Capítulo ID, era a da Flandres, estabelecida primeiro em 
Bruges, e mais tarde (1488-98) transferida para Antuérpia, quando Bruges deixou 
de ser o maior centro comercial da Europa. Originariamente fundamentada nos 
produtos do solo, tais como a fruta, o vinho, a cortiça e os couros, a feitoria da 
Flandres rapidamente passou a anunciar as novas virtualidades de Portugal. Na 
década de 1460, já o açúcar da Madeira e o sangue-de-dragão desempenhavam 
papel de relevo. Nos começos do século xvi, o grosso dos negócios da feitoria 
consistia em especiarias trazidas da África e da índia (ver Cap. V). O feitor, 
funcionário público nomeado e pago pelo rei, actuava como uma espécie de 
cônsul moderno, representando os interesses comerciais do seu país mas 


principalmente do seu soberano. Pelos meados do século xv, o feitor português 
em Bruges ocupava-se da compra de armas e munições, cobre e toda a sorte de 
jóias e vestuário para a família real. Outras aquisições inclufam mobiliário, 
pergaminho, têxteis, livros, objectos de arte, etc. Diga-se de passagem que a 
maioria dos têxteis que Portugal importava da Flandres não dependiam do feitor 
mas sim de iniciativas particulares de homens de negócios flamengos (com outros 
estrangeiros) e portugueses. 


Nos finais da centúria de Quatrocentos e durante a primeira metade do século xvi 
foram criadas diversas feitorias: na década de 1460 já a Coroa dispunha de um 
feitor na Andaluzia, vivendo habitualmente em Sevilha, embora a organização real 
da feitoria não se tivesse processado antes de 1508. O feitor passou a residir em 
Málaga ou em Cádiz, com o fito principal de comprar e expedir cereais para 
abastecimento das praças portuguesas de Marrocos. Em Inglaterra e em Veneza, 
outras feitorias serviam objectivos semelhantes. Colocavam produtos ultramarinos 
no mercado internacional, comprando metais e artigos manufactu- 


244 O estado do renascimento 


rados, tanto para consumo local da metrópole como para comércio em África e 
Ásia. 


Grande número de portugueses vivia permanentemente no estrangeiro, em 
colónias numerosas de residentes ocupados na 


prática do comércio. O núcleo maior habitava Bruges, passando depois para 
Antuérpia: umas trinta famílias pelos meados e fins do século xv, número que foi 
aumentando aos poucos nas décadas seguintes, e sobretudo a partir de 1526, 
quando grande número de judeus emigrados de Portugal ai se estabeleceram. 
Além dos Países Baixos, havia colónias de portugueses em Castela 
(principalmente em Sevilha), Inglaterra (Londres, Bristol, Southampton), França e 
Itália (Gênova, Florença, Veneza). 


Os feitores e os colonos estrangeiros que em Portugal viviam - especialmente em 
Lisboa, mas também no Algarve e no Porto - provinham dos países acima 
mencionados e ainda da Alemanha, onde poucos portugueses jamais se 
aventuraram. Além do enquadramento comercial que os unia, a maioria desses 
estrangeiros agrupava-se em confrarias religiosas - a dos Flamengos, ou 
Borgonheses, a dos Ingleses, a dos Alemães, etc. Porventura mais numerosos, 
conquanto menos organizados, seriam os Genoveses, Venezianos, Florentinos e 
Prazentins, os Franceses, os Castelhanos, os Aragoneses e os Bascos. 


Comércio Poucas alterações se registaram nas práticas do comércio 
klerno interno. Não se haviam modificado ainda os princípios e os 


modos medievais de intercâmbio, embora se começasse a afirmar a tendência 


para um mercado nacional devido à centralização do poder do rei e ao sistema 
alfandegário mais preciso. Ao longo da raia foi-se forjando toda uma cadeira de 
cidades e vilas aduaneiras - os chamados portos secos, em oposição aos portos 
marítimos - cujo objectivo consistia em fechar o País e ajudar à criação de uma 
economia nacional. Nos começos do século xvi, os portos secos eram, de norte a 
sul, Bragança, Miranda, Freixo, Almeida, Sabugal, Marvão, Arronches, Elvas, 
Olivença e Mourão. 


A importância das feiras no tráfico interno começou lentamente a declinar, embora 
tivessem desempenhado ainda papel 


A recuperação da crise 245 
Fig. 34 -Os portos secos no começo 
do século xvi 


de relevo durante a primeira metade do século xvi. Nos fins de Quatrocentos 
criaram-se mesmo unias quantas mais, em Sintra (1460) e Estremoz (1463), por 
exemplo, ao passo que outras eram confirmadas e restauradas. A concentração 
urbana, toda via, fez realçar o papel dos mercados, que permanentemente 
serviam os interesses económicos da comunidade, tornando obsoletas as feiras 
locais. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento do comércio ultramarino ajudava a 
concentrar o grosso do tráfico mercantil nos portos marítimos, especialmente em 
Lisboa. 


Tenderam, assim, a expandir-se os mercados locais. Em cada cidade multiplicou- 
se e fez-se mais complexo o número de tendas, sua concentração e 
especialização. Aumentaram também os regulamentos régios e municipais, visto 
que o mercado se tornava fonte de receitas que a todos importava, tanto ao rei 
quanto aos senhores feudais e às câmaras municipais. 


246 O estado do renascimento 


Pesos e Sentiam-se de há muito os obstáculos que representavam, medidas para 
o surto de um comércio nacional, as dezenas de pesos e 


medidas diferentes. A Coroa tentara impor, já nos meados do século xiv, um 
padrão único para todo o reino, mas fracassara nos seus intentos, como 
fracassaria sempre até quase aos nossos dias. No entanto, sempre se atingiram 
alguns objectivos, nomeadamente a redução no número de pesos e medidas e a 
imposição de padrões únicos em certos casos. 


Tanto Afonso V como João Il conseguiram introduzir certa ordem no sistema 
caótico vigente, impondo a todo o País os 


padrões de três cidades apenas: Santarém, Porto e Lisboa. Mas foi no reinado de 


D. Manuel | que se decretou reforma mais precisa e completa: a partir de 1499, a 
Coroa decidiu que todas as medidas e pesos obedecessem a padrões de cobre 
expressamente confeccionados para o efeito e conservados na câmara municipal 
da capital. Só se admitia variedade nos pesos e nas medidas muito pequenas. O 
novo código legislativo conhecido por Ordenações Manuelinas (primeira 
publicação em 1512) incluía os princípios reformadores, tão típicos da tendência 
renascentista para a centralização. 


Moeda Do ponto de vista monetário, o período de 1450-1550 pode 


aproximadamente dividir-se em dois grandes subperiodos, separados pela reforma 
de 1489. Durante o primeiro, a desvalorização da prata e do bilhão não se 
interrompeu, em consequência da escassez daquele metal em toda a Europa. O 
marco (=230 9) de prata lavrada subiu de 800 reais em 1436, para 960 (1441), 
1050 (1445), 1100 (1451), 1500 (1460), 1896 (1472) e 2280 (1489), num total de 
185 % de desvalorização. Várias reformas monetárias (1435, 1457, 1472, 1485), 
todas elas tendentes a manter uma sólida moeda de prata, falharam e sempre 
pelo mesmo motivo: falta do metal branco, drenagem contínua das moedas de 
prata para fora do País, entesouramento por particulares. 


O ouro, todavia, começou a abundar logo que os Portugueses atingiram as fontes 
africanas. Em 1457, quando preparava a sua grande cruzada (que jamais se 
efectivaria), o rei Afonso V ordenou a cunhagem do famoso cruzado de ouro, 
moeda de ouro 


248 O estado do renascimento 


quase puro, que se iria manter estável durante mais de oitenta anos, e prosseguir 
depois na sua carreira com uma diminuta desvalorização. O cruzado, símbolo do 
afluxo, aurífero a Portugal e a toda a Europa durante os finais do século xv e os 
princípios do xvi, traduziu outra alteração significativa: o sistema português do 
ouro, que até então obedecia à dobra muçulmana-castelhana, passou a seguir o 
padrão italiano do florim-ducado, sintoma bem nítido de nova época económica. 


A partir de 1450, a descoberta de processos técnicos aperfeiçoados na extracção 
da prata veio finalmente pôr termo à escassez: a produção argêntea começou a 
aumentar regularmente, sobretudo na Europa Central. Todos os sistemas 
monetários europeus foram afectados pela mudança, verificando-se em geral uma 
estabilização das moedas. Assim, a reforma de 1489 pôde triunfar e impor a 
permanência das novas moedas de prata (primeiro o vintém = 20 reais, e depois o 
tostão = 100 reais) durante muito tempo. 


Este afluxo combinado de ouro e de prata explica o período de grande 
estabilidade monetária que se estendeu em Portugal desde 1489 a 1539, e que 
marcou o começo de uma nova era na história da moeda portuguesa. O valor do 
marco de prata amoedada não sofreu grandes mudanças: uns 2300 reais no 
começo da década de 1490, 2400 em 1517, 2500 em 1539 -no conjunto, menos 


de 9% de desvalorização, comparada com os 185% do meio século anterior. Nos 
últimos anos da centúria de Quatrocentos, D. Manuel fez cuniiar os fabulosos 
portugueses de ouro, com uns 3 cm de diâmetro e 35 g de ouro puro, equivalentes 
a 10 cruzados; alguns anos mais tarde, os portugueses ou escudos de prata 
exibiam a mesma opulência: valendo 400 reais, pesavam 39,7 ge 


eram maiores ainda de diâmetro. Bons instrumentos de propaganda, estas e 
outras moedas proclamavam eficazmente, sobretudo na Ásia, o poderio e a 
riqueza dos soberanos portugueses. 


Finanças As finanças públicas sofreram profundos melhoramentos 


durante a época renascentista. Por toda a Europa, uma distinção mais nítida entre 
rei e Coroa permitiu que se precisasse a organização dos serviços públicos, entre 
os quais as finanças eram 


A recuperação da crise 249 


porventura os mais importantes. Os fins do Século xy e os começos do xvi 
presenciaram, em Portugal, número significativo de reformas financeiras. Todas 
elas tenderam a melhorar as estruturas existentes e a dotar o Estado com mais 
largos rendimentos, ao mesmo tempo que procuravam simplificar a rede complexa 
dos impostos locais entravando os tráficos interno e externo. 


De 1472 em diante foi levada a efeito uma revisão geral dos forais, primeiro como 
resposta a variadas reclamações concelhias contra exageros e ilegalidades na 
cobrança dos impostos, depois como tentativa régia de uniformização das 
múltiplas formas e espécies de rendimentos. Mas uma reforma autêntica só se 
iniciou no reinado de D. Manuel |, abrangendo aproximadamente os anos de 1497 
a 1520: os novos forais quase se reduziram a listas de impostos a pagar ao 
soberano ou aos senhores feudais dentro de cada município. Além disso, os 
impostos foram mais ou menos uniformizados e receberam tratamento 
comparativo e sistemático. É evidente que uma reforma deste tipo não seria eficaz 
sem a mudança correspondente nos pesos e nas medidas, atrás mencionada já. 


Igualmente importante para o comércio interno e externo foi o novo regulamento 
das sisas, decretado em 1476 e depois modificado em 1489, 1509, etc. Também 
as Ordenações reformadas por D. Manuel incluíam mudanças significativas 
quanto ao pagamento das jugadas, num esforço de conseguir maior uniformização 
e colheita de rendimentos. 


As alfândegas foram igualmente reorganizadas, sobretudo no que se referia aos 
rendimentos ultramarinos, (v. Cap. V). A abundância de cartas de quitação 
datando dos fins do século xv 


em diante (embora com longa tradição de existência) mostra sem sombra de 
dúvida que se caminhava no sentido da fiscalização sistemática, eficaz e directa 


de todo o sistema das finanças públicas. O modo feudal do arrendamento das 
receitas da Coroa a particulares, tão comum durante os séculos xiv e xv, foi a 
pouco e pouco substituído por uma organização geral por conta do próprio Estado. 


Para incorporar muitas das novas leis e divulgá-las por todo o País, organizaram- 
se e imprimiram-se dois códigos: os Regi- 


250 O estado do renascimento 


rnentos e Ordenações da Fazenda, em 1516, e os Regimentos dos Contadores 
das Comarcas, em 1514, que criaram os modelos devidos para a metrópole. 


Outra inovação, o orçamento, tornou-se gradualmente peça indispensável no bom 
funcionamento da coisa pública. O primeiro exemplo que conhecemos data de 
1473. As receitas públicas ascendiam a 47 milhões de reais (uns 145 000 
cruzados de ouro), enquanto as despesas se mantinham em 37,6 milhões (uns 
115 600 cruzados). Não estavam incluídas as receitas ultramarinas. As enormes 
despesas com a política externa e com armamento (guerras com Castela e 
Marrocos), o custo ascendente dos matrimónios dentro da família real e das 
tenças à nobreza (em 1478, por exemplo, 81 % de todos os dinheiros públicos 
foram para a dotação da família real e para subsídios anuais aos vassalos da 
Coroa) e as novas despesas que resultavam dos progressos da administração, 
rapidamente transmutavam esse saldo optimista em deficit quase permanente. Se 
a expansão comercial e agrária, assim como o aumento demográfica e uma 
administração mais eficiente depois de 1481 causaram um aumento substancial 
das receitas públicas (ainda 132 000 cruzados em 1477, mas já 197 000 em 1506, 
285 000 em 1518-19, 

388 000 em 1534 e 607 000 em 1557), as despesas cresceram igualmente e num 
ritmo ainda mais acelerado. Em 1477, a Coroa despendeu 144 000 cruzados, o 
que implicava um deficit de 12 000. Faltam-nos números precisos para a primeira 
metade do século xvi, mas o aumento dos empréstimos contraídos pelo Estado e 
da dívida pública (tanto consolidada quanto flutuante) são prova suficiente dos 
problemas com que se debatia o Tesouro. As cortes votaram diversos pedidos, ou 
subsídios, para ajudar a Coroa a financiar despesas extraordinárias: 60 milhões de 
reais para defesa nacional em 1478 (mais do que toda a receita pública), DO 
milhões para dívidas novamente com a defesa em 

1483, 20 milhões para obras de fortificação no norte de África em 1502, 150 000 
cruzados em 1525, 100 000 cruzados em 1535, 

200 000 em 1544, ete. Em 1500 foram criados os primeiros padrões de juro 
(títulos do tesouro), prática muito seguida por todos os estados do Renascimento. 
Uma segunda emissão surgiu em 1528, 


A recuperação da crise 251 
uma terceira em 1530, e assim por diante: até 1542, seis emissões de padrões, ao 


todo. Nascera a divida consolidada. O juro baixou dos 7 % iniciais para 6,25 % em 
1528. Quanto à dívida flutuante, começou praticamente em 1522, na forma de 


empréstimos contraídos por letras de câmbio sobre as feiras de Antuérpia e de 
Medina del Campo. O juro manteve-se no nível dos 20 % até 

1544, subindo depois para 25 %. O montante da dívida pública consolidada 
alcançara 1620 500 cruzados em 1534 e 1881720 em 1557; nos mesmos anos, o 
valor da dívida flutuante foi, respectivamente, de 400 000 e de quase 2 000 000 de 
cruzados. Todas estas cifras dão uma ideia clara da expansão económica e 
financeira do Portugal quinhentista, que só pode compreender-se cabalmente num 
contexto internacional e imperial (v. Cap. V). 


É facto bem conhecido que o século xvi e parte do século xvii preços e 


se caracterizaram por um aumento geral de preços e de salários em toda a 
Europa. As respectivas taxas de aumento, todavia, variaram enormemente com as 
circunstâncias nacionais e locais. Em termos genéricos, pode dizer-se que, antes 
da década de 1530, o aumento de preços se manteve entre moderado e mínimo, 
sem se afastar essencialmente da tendência geral afirmada já a partir de 1475. A 
grande revolução dos preços situou-se, regra geral, na segunda metade da 
centúria. Foram diversas as causas da subida, tais como a maior quantidade de 
ouro e de prata em circulação, * acréscimo na procura (resultado do aumento da 
população), * guerra, a expansão geográfica e a criação de novos mercados, etc. 
Os salários, pelo contrário, não acompanharam a curva dos preços, tendendo 
muitas vezes para decréscimos reais. 


Em Portugal, os poucos elementos existentes parecem revelar um aumento nos 
preços agrícolas desde 1470-80, como em toda a Europa: em gramas de prata, os 
preços do trigo subiram de uma média de 1,8 para uma média de 2,7 em 1497- 
1504. Este último número não sofreu grandes alterações até à década de 

1530, pelo menos no que respeita à metrópole (a situação nos Açores e na 
Madeira foi diferente). Daí por diante, e até meados do século, os preços do trigo 
subiram de 30 reais em média por alqueire para o dobro. O mesmo aconteceu 
com os preços 


252 O estado do renascimento 


do vinho e do azeite. Faltam-nos, infelizmente, dados suficientes para o 
comportamento dos preços industriais, que nos revelassem com clareza a 
tendência geral, por certo não muito diferente da do resto da Europa. 


Assim, e apesar do tremendo afluxo de ouro africano dos finais do século xv e do 
século xvi, não houve o que poderíamos chamar uma revolução de preços no 
nosso período, sintoma bem claro de que a maior parte desse ouro se escoava 
rapidamente para fora do País, trazendo um impacto mínimo sobre a sua 
economia interna. 


A nobreza Como já vimos (cf. Cap. Il), a concentração da terra nas 


mãos de uns poucos caracterizou a segunda metade da centúria de Trezentos e 


quase toda a de Quatrocentos. Nem D. João | nem os seus dois imediatos 
sucessores conseguiram travar o crescente poderio de uma nova aristocracia 
terratenente, embora conseguissem que parte das herdades outrora possuídas 
pela Coroa a ela revertessem. A irresponsabilidade e a fraqueza de um Afonso V 
tornaram-no presa fácil das ambições dos nobres. Durante os seus trinta anos de 
governo pessoal, a quantidade de bens da Coroa e respectiva jurisdição alienadas 
à maneira feudal atingiram proporções inauditas. Um mapa esquemático do 
Portugal senhorial na década de 1470 mostraria claramente que o património régio 
quase se reduzia à Estremadura e ao Algarve, com algumas ilhotas aqui e além. 
Em defesa de Afonso V, pode alegar-se que a situação não diferia essencialmente 
da de dois séculos atrás. A diferença, contudo, estava no peso de património e de 
direitos adquiridos por um limitado número de famílias, em oposição ao mosaico 
feudal primitivo. Para mais, e seguindo a tendência geral europeia, uma avalanche 
de novos títulos (duques, marqueses, viscondes, barões) ia revelando as 
preferências e os favoritismos régios que, com frequência, promoviam obscuros 
nobres às mais proeminentes dignidades. Com D. Duarte, existiam em Portugal 
apenas dois duques e seis condes; à morte de Afonso V (1481), esse número 
subira para quatro duques, três marqueses, vinte e cinco condes, um visconde e 
um barão, trinta e quatro ao todo, aumento a que cor- 


A recuperação da crise 253 


respondiam rendas da terra e privilégios. Tinha, assim, toda a razão D. João Il ao 
dizer que seu pai o deixara «rei das estradas de Portugal». Terra e títulos estavam 
divididos por umas quinze grandes famílias ou linhagens, das quais as mais 
poderosas eram os Braganças (doze títulos, a saber, dois ducados, três 
marquesados e sete condados), os Meneses (cinco condados), os Coutinhos e os 
Melos, cada uma com dois condados. Além destas famílias, havia ainda o irmão 
do rei, Fernando (falecido em 

1470), tido como o homem mais rico de Portugal, o qual acumulava dois ducados, 
o mestrado de duas ordens militares e numerosos outros senhorios. O seu 
património foi herdado pelo filho Diogo. 


A esta grande nobreza (urnas quinhentas pessoas acaso) teríamos de somar um 
grupo maior, a que já não chamaríamos «grande», mas que hesitaríamos em taxar 
de «médio». Compunham-no os chamados vassalos do rei que, como tais, 
recebiam da Coroa uma contia ou rendimento fixo, independente do seu 
património pessoal. O pagamento das contias fazia-se, regra geral, mediante a 
doação em préstamo de uma terra ou de uma renda. Nestes termos, quanto mais 
vassalos o rei tinha, menos rendimentos a Coroa cobrava. Além disso, os nobres 
de contia recebiam um subsidio de casamento, transmutado, quando ao tesouro 
régio faltavam fundos, em tença anual, que gradualmente tendeu a tornar-se fixa e 
hereditária, pesando fortemente no orçamento. Outras tenças, concedidas pelo 
real capricho, iam alargando o rol ano após ano. Como contrapartida, o vassalo 
devia estar sempre pronto para ajudar o soberano com um número fixo de 
«lanças», termo militar que abrangia quer o cavaleiro, quer o peão com todo o seu 
armamento. Nos fins do século xv, o número de vassalos obrigados a possuir 


cavalo e armas foi fixado no número ideal de dois mil, o que, em termos sociais, 
equivalia a umas seis a oito mil pessoas, incluindo mulheres e crianças. 


Abaixo deste grupo vinham outros dois mil, obrigados a 
possuir armas, mas sem direito a rendas da Coroa. Era uma 


espécie de classe média dentro da nobreza, superior ainda à camada ínfima da 
aristocracia, a dos fidalgos, mais numerosos, 


254 O estado do renascimento 


menos ricos em terra, menos importantes na detenção de cargos administrativos e 
militares, mas mais estáveis em influência ao nível local e na manutenção das 
estruturas económicas e sociais. As palavras cavaleiro, escudeiro, ou 
simplesmente fidalgo serviam para designar todos estes nobres, incluindo o 
conjunto dos vassalos mas excluindo o da nobreza titular. Tratava-se, ao que 
parece, de termos gerais apenas. Aliás, também a designação de vassalo se 
podia aplicar aos grupos inferiores da aristocracia. 


Se D. João Il conseguiu esmagar o poderio de algumas das mais importantes 
famílias nobres - nomeadamente os Braganças e seu primo Diogo - e 
substancialmente alargar o património régio à custa delas, os seus sucessores 
Manuel | e João Ill tiveram de fazer marcha atrás e devolver aos antigos 
proprietários a maioria dos bens confiscados. Contudo, e esse fora, na realidade, 
o principal objectivo de D. João Il, a nobreza dos começos do século xvi, 
conquanto intacta em seus privilégios e rendimentos, mostrou um facies 
completamente alterado, muito mais em concordância com a política de 
centralização real. Em primeiro lugar, aceitou subordinar-se ao rei e à sua nova 
concepção de estado absoluto (os corregedores, por exemplo, deixaram de 
encontrar obstáculos à entrada nas terras senhoriais); em segundo, tornou-se 
cada vez mais dependente de nomeações régias para cargos públicos e de 
subsídios temporários, que lhe garantiam a subsistência. Como resultado, grande 
parte da nobreza (sobretudo nos escalões mais altos) emigrou das suas terras e 
cortes locais para a corte régia, onde habitualmente passou a residir. O próprio 
monarca encorajou essa tendência ao conceder a chamada **nwradia (outra tença 
anual) a todos os nobres que, pelo menos teoricamente, vivessem na corte. O 
número de moradias aumentou de 1092, com D. Afonso V, para 

2493 com D. João Ill (meados do século xv,), embora tivesse baixado 
consideravelmente entre um e outro. 


Surgiu assim uma nova nobreza de corte, entre a qual o governo regularmente 
escolhia os mais proeminentes funcionários para cargos metropolitanos e 
ultramarinos, na diplomacia, no exército, na marinha, na descoberta e na 
colonização. Ao 


A recuperação da crise 255 


mesmo tempo, a grande maioria dos nobres dedicava-se a actividades comerciais 
de todo o tipo, competindo com a crescente burguesia e impedindo-lhe o 
desenvolvimento pleno. Seguindo o exemplo do rei, ele próprio mercador e 
monopolista (v. Cap. V), os nobres não desdenhavam investir os seus 
rendimentos em actividades de transporte e de exploração económica. I(O verdade 
que, na maioria dos casos, re-investiam os lucros em terra e em actividades não- 
produtivas (construção, luxo, etc.), em vez de se tomarem autênticos homens de 
negócios. Ao contrário da Itália, onde o burguês ascendeu à aristocracia, em 
Portugal foi o nobre que «desceu» e se meteu no comércio como meio de 
alargamento do património. 


A estrutura do clero sofreu menos alterações durante este O clero período, não se 
registando modificações importantes antes da Reforma católica dos meados e fins 
do século xvi. Do ponto de vista político e económico, a união à Coroa das ordens 
religiosas-militares foi talvez o único facto significativo a dever ser registado. 


Antes deste acontecimento, houvera casos, a partir do século xiv (cf. Cap. Il), de 
concessão de mestrados a membros da família real. Depois, entre 1418 e 1434, 
os três principais mestrados - Santiago, Avis e Cristo- passaram ao domínio 
permanente de príncipes seculares, todos eles da família do monarca. As vastas 
rendas das ordens militares constituíam apanágios convenientes para os herdeiros 
do trono e seus irmãos, quase sempre atribuídos na fase da adolescência. Ao 
suceder ao pai, D. João Il uniu à Coroa os mestrados de Santiago e Avis, que 
daria pouco tempo depois a seu filho Afonso, aliás contra o parecer das cortes. D. 
Manuel, ascendendo ao trono em 1495, uniu definitivamente à Coroa o mestrado 
de Cristo. Mais tarde, à morte do infante D. Jorge (1550), o Papa sancionou a 
perpétua união de Santiago e de Avis ao património régio sob a ficção de nomear 
o rei de Portugal como seu mestre. Pela primeira vez na história portuguesa, os 
bens da Coroa, quer do ponto de vista teórico quer do prático, cobriram mais de 
metade do Pais, superando qualquer outro património, tanto em extensão quanto 
em 


256 O estado do renascimento 


rendas. Esta nacionalização das ordens militares foi acompanhada pela sua 
secularização: autorizados a casar e a possuir propriedade privada, os cavaleiros 
deixaram de estar ligados à condição eclesiástica e a cavalaria passou a constituir 
mero sinal de distinção, espécie de título de honra ou de condecoração, que os 
nobres, e só eles, avidamente ambicionavam. 


Embora nem todos os arcebispados e bispados estivessem nas mãos da nobreza, 
a grande maioria estava-o sem dúvida. Existia como que uma hierarquia nas 
dioceses portuguesas, sendo os prelados muitas vezes «promovidos» a bispados 
mais ricos e mais «civilizados» sempre que se abria uma vaga ou quando o seu 
prestígio e a protecção régia os empurravam para cima. Nas dioceses menos 
prezadas, no género de Silves, da Guarda ou de Lamego, tornava-se mais fácil 


encontrar prelados de origem social humilde. As dioceses objecto de especial 
cobiça eram Lisboa e Braga, os dois arcebispados. Vários arcebispos foram feitos 
cardeais na centúria de Quatrocentos; mas, ulteriormente, como novo exemplo de 
centralização, os príncipes de sangue conseguiram o monopólio do cardinalato. 
Assim, D. Afonso (1509-40), filho de D. Manuel |, foi feito cardeal aos oito anos; 
seu irmão D. Henrique (1512-80), o futuro rei, ascendeu também à púrpura, mas 
na idade mais aceitável de trinta e três anos. 


A acumulação de dignidades eclesiásticas, essa praga do século xv e começos do 
xvi, desconheceu-se praticamente em Portugal até à década de 1480: D. Jorge da 
Costa, favorito de D. Afonso V e em quem seu filho não ousou tocar, mostrou-se o 
único caso escandaloso do tempo, visto ter acumulado os arcebispados de Lisboa 
e Braga e os bispados de Évora e Silves, embora pelo curto prazo de oito anos. 
Mas tarde, as acumulações tornaram-se um tanto mais frequentes, mas apenas 
no seio da família real. Bispados e arcebispados distribufam-se como autênticos 
apanágios: assim D. Afonso, o já mencionado cardeal, acumulou a direcção das 
dioceses de Évora, Guarda, Viseu e Lisboa; seu irmão D. Henrique teve para si, 
sucessivamente, Braga, Évora e Lisboa. Abadias, diaconados, chantrados e 
outras dignidades menos importantes, embora por vezes de pingues 


A recuperação da crise 257 


rendas, acumulavam-se com maior facilidade. Não possuímos ainda o catálogo 
organizado e sistemático destas dignidades, que traria nova luz sobre o papel 
social e económico desempenhado pelos benefícios eclesiásticos dentro da 
nobreza e da família real. 


A maior parte das ordens monásticas decaiu consideravelmente durante todo este 
período, decadência revelada tanto no decréscimo dos rendimentos como na 
crescente relaxa-cão dos costumes. Só os mosteiros muito ricos, como Alcobaça e 
Santa Cruz de Coimbra, foram capazes de manter o antigo prestígio e a influência 
junto do povo. O abuso na concessão de comendas (benefícios eclesiásticos 
compostos por rendimentos pertencentes a uma igreja ou mosteiro), muito 
florescente nos finais do século xv e começos do xvi, embora com longa tradição 
anterior, desfalcava os fundos eclesiásticos locais em proveito de qualquer 
pessoa. As comendas tornaram-se num meio favorito para, quer o rei quer o alto 
clero, recompensarem serviços ou beneficiarem protegidos. Assim, boa parte das 
rendas eclesiásticas caíram nas mãos de clientes papais, reais e episcopais, 
convertendo-se em fonte de luxo e de vida despreocupada para a nobreza e o alto 
clero. 


Fracassaram todos os esforços no sentido de corrigir tais abusos; um renascer da 
disciplina monástica e da pureza religiosa manifestou-se antes pela criação de 
novos institutos, que depressa se tornaram queridos da nobreza e do povo: os 
Jerónimos, de fundação italiana, entraram em Portugal nos começos do século xv 
mas só floresceram pelos finais da centúria; os cÓnegos regulares de S. Salvador 
de Vilar ou cÓnegos de S. João Evangelista (popularmente chamados Lóios), de 


origem portuguesa, surgiram igualmente no século xv; os Capuchinhos, oriundos 
de Castela, chegaram pelos finais de Quatrocentos; os Arrábidos, portugueses, 
foram fundados pelo duque de- Aveiro em 

1539; os Jesuítas, finalmente, chegaram pela primeira vez em 1540, mas só na 
segunda metade do século ascenderam à importância extraordinária que 
referiremos (cf. Cap. VI). 


17 
258 O estado do renascimento 
O 3.0 Estado Nos finais da Idade Média, a tradicional divisão tripartida 


da sociedade, em clero, nobreza e povo, foi sendo substituída por uma 
classificação mais complexa e muito mais fluída, que reflectia as enormes 
transformações sociais do período. Transições de classes adquiriram carácter 
menos rígido e subdivisões adentro de cada uma daquelas três ordens 
começaram a desempenhar papel social cada vez de maior relevo. Dentro do 
povo, eram de distinguir, nesse final de Quatrocentos e começo de Quinhentos, 
quatro grandes categorias pelo menos: legistas, cidadãos, artesãos e todos os 
demais. 


Os legistas, que visavam obter privilégio de nobre e o conseguiram em parte, 
tinham subido de número e de importância. Constitufam uma classe especializada 
de funcionários públicos, magistrados, advogados e conselheiros legais, 
professores universitários e outros semelhantes. A sua beira situavam-se ainda os 
físicos e os farmacêuticos. Na sua maior parte, dependiam de salários pagos pela 
Coroa, mas beneficiavam ainda, largamente, de contribuições e serviços 
garantidos pelo povo, na 


forma de alojamento, alimentação, etc. A Coroa fiscalizava-lhes as aptidões 
profissionais, vigiava-os no exercício das profissões respectivas, nomeava-os ou 
propunha-os para os cargos existentes, e assim por diante. Os legistas haviam 
conseguido importantes privilégios, tais como serem isentos de impostos gerais e 
de castigos judiciais vis, poderem trazer armas e andar a cavalo. Indispensáveis 
na complexidade crescente da coisa pública, letrados ou apresentando-se como 
tais, investindo os rendimentos havidos em terra e em actividades de comércio, 
tinham-se a pouco e pouco guindado a uma posição tão importante e significativa 
quanto a do clero e a da nobreza, e feito respeitar como eles. Era frequente 
casarem-se, ou casarem os filhos, dentro da aristocracia. Alguns foram nobilitados 
e até receberam títulos, como, por exemplo, João Fernandes da Silveira, 
conselheiro do rei, escrivão e chanceler, convertido em primeiro barão de Alvito 
em.1475. IO preciso recordar que muitos, se não a maioria destes burocratas, 
pertenciam ao estado eclesiástico (Com ordens maiores ou menores), gozando 
dos privilégios e do prestígio do clero. 


A recuperação da crise 259 


Os cidadãos, também chamados homens bons, gente honrada e gente limpa - 
porque não trabalhavam com as mãos - 


formavam uma classe de proprietários e de mercadores que igualmente sabiam 
investir na terra parte dos seus lucros. Manobravam a maioria esmagadora dos 
cargos municipais, estavam representados em cortes e eram os únicos escutados 
pelo monarca e pelos burocratas. Poderíamos também taxá-los de burgueses. 
Embora o seu poderio económico e político houvesse aumentado dentro do País, 
a participação que detinham no comércio externo e ultramarino declinou a favor 
dos estrangeiros, da Coroa, da família real, da nobreza e dos burocratas. Segundo 
parece, os cidadãos mostravam-se mais preocupados com a terra e com o 
investimento nela dos seus lucros do que com a competição activa em empresas 
de comércio. Por outro lado, todo o século xv foi um período de luta entre os 
cidadãos e a classe inferior dos artífices. Se nenhuma das partes conseguiu vitória 
plena pode, todavia, afirmar-se que os cidadãos mantiveram as suas posições 
muito melhor, conseguindo até recobrar alguns dos anhos obtidos pelos mesteirais 
em fins do século xiv. 


Para o artesanato, em contrapartida, o período revelou-se de estagnação e de 
derrota. Ao longo do século xv, os mesteirais foram gradualmente perdendo os 
escassos privilégios atingidos, nomeadamente o de estarem representados e 
terem direito a voto nas assembleias municipais de algumas cidades. Só em 
Lisboa conseguiram manter essa conquista, mas de maneira muito diminuída. D. 
João Il confirmou a sua quase completa subordinação aos cidadãos na 
administração local. D. Manuel e 


D. João Ill completaram o seu nivelamento e organização geral dentro do estreito 
quadro do sistema corporativo. 


Tal como em Castela, as corporações não surgiram em Portugal antes dos finais 
do século xv, e mais como resultado de imposição régia e de política de 
organização em acordo com os cidadãos do que como necessidade para 
protecção comum e defesa contra a concorrência. Contudo, seria contrária aos 
factos a asserção de que os mesteirais não beneficiaram com o sistema ou foram 
forçados a ele. Uma tradição já longa de costumes orais e de associação religiosa 
em confrarias preparara os 


260 O estado do renascimento 


mesteirais para a aceitação de regulamentos permanentes. A quebra do seu poder 
político, juntamente com o espírito centralizador do século, dispuseram-nos para 
fiscalização mais estrita por parte da Coroa e para tutelagem por outra classe. Em 
1487, o rei ordenou que cada mester tivesse dois representantes ou deputados 
(vedores) para servirem de juízes em assuntos económicos e profissionais. 
Seriam nomeados pelos concelhos. Era já esta a prática seguida por certas 
profissões em algumas cidades. Dois anos mais tarde, foi aprovado para os 


sapateiros e curtidores de Lisboa o primeiro regulamento (regimento) dos 
mesteres, contendo diversas normas relevantes quanto a condições de trabalho, 
preços e recrutamento de mão-de-obra. Seguiram-se-lhe muitos outros que, pelos 
começos do século xvi, praticamente abrangiam todo o artesanato nos mais 
importantes centros urbanos. Em 1539, a maioria dos mesteres de Lisboa 
organizaram-se em catorze corporações (ofícios), cada uma com sua profissão 
principal encabeçando uma série de outras: barbeiros e armeiros com 28 outras; 
livreiros e boticários com dez outras; sapateiros (+3); seleiros (+2); tecelões de 
linho (+3); cirieiros; pedreiros e carpinteiros (+3); tosadores (+1); alfaiates (+ 3); 
tanoeiros; cordoeiros (+ 1); ourives da prata (+ 1); ourives do ouro ( + 4); e oleiros 
(+ 2). Cada corporação tinha a sua bandeira e o seu santo padroeiro. 


A vedoria obrigatória e os regimentos generalizados haviam sido precedidos pela 
constituição oficial de assembleias profissionais de vinte e quatro ou de doze 
membros, que tanto o rei como os concelhos reconheciam como representativas 
dos mesteres existentes. Começando em Lisboa pelos finais do século xiv, essas 
assembleias ou conselhos espalharam-se a outras cidades, tais como Santarém, 
Évora, Coimbra, Porto, Guimarães e Tavira, durante a centúria de Quatrocentos e 
princípios da de Quinhentos. Detiveram por uns tempos algum poder político 
efectivo, elegendo representantes às assembleias municipais e interferindo nas 
deliberações destas, mas depressa o perderam. Lisboa ficou sendo a única 
excepção, com grande «raiva» das cortes (onde a representação popular se 
restringia aos proprie- 


A recuperação da crise 261 


tários e mercadores) que, em 1481-82, amargamente se queixavam de tal 
«escândalo». 


Abaixo dos mesteirais- vinha o imenso mundo dos que nada possuíam, nem terra, 
nem casas, nem ferramentas; os que trabalhavam para os outros, como 
jornaleiros nos campos ou operários contratados nas cidades; os servidores; os 
muitos vendedores e vendedeiras, lavadeiras, etc. A sua situação conheceu 
poucas mudanças neste período. 


Finalmente, a crescente importação de escravos introduziu nova classe de 
população a quem se negavam todos os direitos. Os escravos muito jovens eram 
geralmente vendidos com as mães, mas quaisquer outros laços de família não 
mereciam respeito. Os donos dos escravos, contudo, não tinham o direito de os 
matar e, de uma maneira geral, parece que os tratavam bem. A conversão ao 
cristianismo podia ajudar à libertação, mas estava longe de a implicar 
necessariamente. Para mais, os libertos eram conservados como uma espécie de 
clientes, dependendo inteiramente dos seus antigos donos ou de novos 
protectores. 


Para fins administrativos e judiciários, o reino de Portugal Administraí estava 
dividido em seis províncias, também chamadas comar- e justiça 


cas: Entre-Douro-e-Minho, Trás-os-Montes, Beira, Estremadura, Entre-Tejo-e- 
Odíana (também chamada Alentejo) e o Algarve. Como esta última tinha a 
categoria de reino (remontando à conquista do século xiii, quando o Algarve 
pertencia a um dos reinos taifas), o soberano português intitulava-se oficialmente 


«rei de Portugal e do Algarve». 


As origens desta divisão administrativa podiam ser traçadas a um passado já 
remoto. Contudo, foi só durante o século xv 


que ela se oficializou e converteu em permanente. Iria durar até às grandes 
reformas administrativas do século xix. Substituindo gradualmente a complexa 
repartição de tipo militar-feudal em terras ou alcaidarias, a que se tinham ainda de 
somar as unidades concelhias, a divisão por comarcas simbolizava bem a 
tendência renascentista para a centralização, a regularização e 


a intervenção real. Em cada comarca, o rei achava-se represen- 
262 
O estado do renascimento 


Fig. 36 - Divisão administrativa e financeira do Pais nos séculos xv e xv7. Vão 
indicadas a divisão entre comarcas ou províncias e as 


sedes dos almoxarifados 


1 -limite habitual 
2 - limite da Estremadura até começos do séc. xvi 


tado, por um corregedor, cujas atribuições nos campos jurídico e administrativo 
jamais deixaram de crescer. 


Além da divisão em comarcas, o reino dividia-se, também, para propósitos fiscais, 
em almoxarifados, cada qual superintendido por um almoxarife, que cobrava as 
rendas da Coroa 


A recuperação da crise 
263 


na sua área. Nos finais do século xv e começos do xvi, o número de almoxarifados 
ascendia a 26 ou 27: 3 em Entre-Douro-e-Minho, 

2 em Trás-os-Montes, 5 na Beira, 7 na Estremadura, 5 no Alentejo e 4 ou 5 no 
Algarve. O surto demográfico levou à criação de novas unidades financeiras em 
meados da centúria de Quinhentos: 1 em Entre-Douro-e-Minho, 1 em Trás-os- 
Montes, 2 na 


o 50 k4m 1-4 
Fzg. 37-Divisão eclesiástica do País nos séculos xv e xvi 


1 -Sede de arcebispado 

2-Sede de bispado 

3-Limites originais das dioceses 

4 -Novos limites diocesanos estabelecidos nos séc. xv-xvi 


264 O estado do renascimento 


Beira, 1 na Estremadura (embora suprimindo um outro) e 2 no Alentejo, sintoma 
bem claro do maior peso que o Norte estava a assumir dentro do País. Ao todo, 
portanto, o número de almoxarifados passou a 32 ou 33. 


Havia ainda uma terceira divisão de Portugal, que respeitava principalmente à 
lÉreja mas se usava com frequência para efeitos civis: a dos nove bispados, sem 
alterações desde o período da Reconquista. Eram eles Braga, Porto, Lamego, 
Viseu, Coimbra, Guarda, Lisboa, Évora e Silves. Esta divisão eclesiástica já não 
correspondia às realidades sociais do País. Levou, contudo, muito tempo a 
substituí-la por outra, melhor adaptada ao Portugal do século xvi, mas ainda 
bastante imperfeita: criaram-se, com efeito, novos bispados em Miranda do Douro 
e Leiria (1545), Portalegre (1549) e Elvas (1570). 


As reformas na administração e na justiça, se bem que menos conspícuas e 
revolucionárias do que em tantos outros campos, deram, não obstante, a medida 
das «modernas» tendências governativas. Para começar, um novo código de leis 
fez a sua aparição (1512-21): as chamadas Ordenações Manuelinas. Vinha alterar 
e suprimir muitas das leis compiladas nas Ordenações Afonsinas, ao mesmo 
tempo que introduzia a nova legislação promulgada nos reinados de Afonso V, 
João Il e Manuel |. Além disso, as Ordenações Manuelinas introduziram um 
princípio novo na forma de redacção e apresentação das leis: em lugar de as 
atribufrem aos respectivos autores, como fora o caso até então, reportavam-nas * 
na sua maioria, a D. Manuel, como se de novas leis se tratasse. Daí o carácter 
verdadeiramente moderno das Ordenações Manuelinas, como código legislativo, 
em oposição à mera compilação de leis antigas. 


Embora não trouxessem modificações essenciais, as Ordenações Manuelinas 
discriminaram e precisaram melhor, tanto as funções quanto os órgãos da justiça. 
Mas era inevitável que se introduzissem inovações de peso no campo do 
processo. Dentro dos dois principais tribunais (Casa do Cível e Casa da Justiça da 
Corte ou Casa da Suplicação), afirmou-se a tendência para uma maior 
centralização, através de fiscalização mais estrita por parte dos magistrados em 
Intimo contacto com o soberano. 


A recuperação da crise 265 


O novo tribunal criado por D. João Il, a Mesa ou Tribunal do Desembargo do Paço, 
ocupava-se especialmente de petições de perdão, privilégios, liberdades e 
legitimações. Típico do Estado do Renascimento, este tribunal constituía bom 
exemplo de órgão de administração central com competência em assuntos tanto 
judiciais quanto administrativos. Um segundo tribunal foi a Mesa da **Consci- e 
Ordens, instituído em 1532. Os seus funcionários -cnamados ministros ou 
deputados- pertenciam à ordem eclesiástica e à ordem laica, embora 
predominasse a primeira. Destinado a funcionar como uma espécie de corpo 
moral e religioso para aconselhar o rei em todos os negócios afectando a sua 
«consciência», este novo tribunal depressa se converteu numa maneira subtil de 
interferência régia nos assuntos eclesiásticos, sendo, como tal, odiado e criticado 
por muitos clérigos. O monarca concedeu-lhe plenos poderes deliberativos em 
certos assuntos, colocando debaixo da sua supervisão as ordens religiosas- 
militares. Um terceiro tribunal foi o Santo Ofício da Inquisição, tentativa bem 
sucedida de interferência régia nas consciências do povo. Trataremos dele mais 
adiante. 


A legislação dos fins do século xv e dos começos do século xvi tornou-se também 
mais precisa. O processo sofreu mudanças várias, todas elas visando uma maior 
eficiência mas exigindo igualmente uma maior burocracia. O número de juízes de 
fora, nomeados pelo monarca, aumentou em cerca de 50 % entre 

1481 e 1521 (outra prova do surto demográfico), com alargamento de atribuições. 
Em todas as províncias, a mais ampla autoridade- assumida pelos corregedores 
(em especial a* partir da promulgação do Regimento dos Corregedores, em 1524) 
e a sua interferência em toda a classe de feitos, com pouco respeito pelos juízes 
de eleição local, suscitaram vãos protestos e mostraram, sem sombra de dúvida, o 
advento de nova época. Depois de 1538, a maioria dos juízes passou a ser paga 
pelo tesouro, em vez de receber a tradicional aposentadoria e alimentação por 
parte das populações locais, fonte constante de abusos e queixas. 


Ao nível governamental, a crescente complexidade e extensão dos negócios 
públicos determinaram a criação de um autên- 


266 O estado do renascimento 


tico gabinete, composto por seis ministros ou secretários: o chanceler-mor, 
encarregado dos negócios da chancelaria real; o escrivão da puridade, mais 
intimamente ligado à pessoa do rei e suas decisões; o secretário d'el-rei, ainda 
mais perto do monarca e seguindo-o por toda a parte; os dois corregedores da 
corte, espécie de procuradores gerais ou secretários da justiça (um para o cível, 
outro para o crime); e o meirinho-mor, com o encargo de prender nobres e de 
fiscalizar a administração da justiça nas terras senhoriais. Além destes, o rei era 
ainda assistido por diversos outros secretários e por um conselho de estado de 
vinte e sete membros, de funções meramente honorárias no seu conjunto mas 
representado, para efeitos práticos, por um grupo mais pequeno, de nove 
membros apenas, escolhido periodicamente entre os conselheiros e ajudando o 


monarca sempre que necessário. É interessante notar que nenhum destes 
«ministros» parece ter ascendido à proeminência de «primeiro-ministro», embora 
o soberano tivesse obviamente os seus favoritos, a quem confiava a tarefa real da 
governação. 


Em torno do rei, e para sua protecção especial, surgiu nos finais do século xv um 
novo corpo, a guarda real, constituída por uma centena de homens, escolhidos 
indiferentemente dentro das fileiras da aristocracia e da plebe, mais em atenção h 
sua coragem e ousadia do que à sua condição social. Este corpo seria 
ulteriormente subdividddo em três corpos de guarda menores e mais 
especializados. 


D. Manuel criou ainda, antes de 1520, o primeiro sistema postal do País, inovação 
que já existia em França desde o reinado de Luís XI. 


Cortes Uma vez que centralização e afirmação do poder real dominaram política e 
governo, é fácil de compreender que o papel das cortes tendeu a mostrar-se cada 
vez menos relevante. De facto, se Afonso V ainda foi forçado a transigir com os 
pedidos dos povos e a convocar cortes ano após ano (na maior parte dos casos 
porque necessitava de dinheiro), situação completamente diferente surgiu após a 
sua morte, em 1481. De 1434 à 

1481, as cortes haviam-se reunido, em média, todos os 1,5 a 2 


A recuperação da crise 267 


anos; de 1481 a 1502, essa média subiu para 3 anos; mas a partir de 1502, e até 
1544, as cortes só foram convocadas três vezes. A pouco e pouco, o povo foi 
abdicando do seu direito de fiscalizar o governo ou até de tentar aconselhar o seu 
monarca. A pouco e pouco, o rei foi esquecendo o diálogo periódico e saudável 
com o seu povo. Entre um e outro deixaram de ser directos os contactos, 
espraiando-se uma sempre crescente burocracia em quem ambas as partes 
tinham de confiar. 


Outro passo no sentido da centralização e do melhoramento Assístélicí dos 
serviços públicos foi a decisão de reformar o serviço hospitalar. Em Lisboa 
suprimiram-se (1492) os numerosos mas pequenos hospitais, albergarias, 
mercearias e outros asilos, dependentes de subsídios particulares, surgindo, em 
seu lugar, um único hospital, vasto e bem organizado. Seguiu-se, ao que parece, o 
modelo dos hospitais florentinos e sieneses. Todos os fundos e rendas existentes, 
acrescidos de um generoso subsídio régio, foram incorporados para constituir o 
orçamento do novo hospital. Simbolicamente denominado Hospital de Todos os 
Santos, uma vez que reunia todos os santos patronos dos antigos hospitais, a 
nova fundação aspirava a conceder alojamento e tratamento melhores, sob 
fiscalização de funcionários nomeados pela Coroa. 


Fora de Lisboa, e na capital também, foi fundada, em 1498, sob patrocínio da 
rainha-mãe D. Leonor, a nova irmandade de Nossa Senhora da Misericórdia. O 


seu fito estava em espalhar e organizar a caridade por todo o País, abrangendo 
um vasto sistema hospitalar. Doações particulares e régias rapidamente 
aumentaram os fundos existentes, convertendo as Misericórdias em rede caritativa 
eficiente e difundida, que continua ainda hoje a existir. 


Bibliografia -Além das histórias gerais, já tantas vezes mencionadas, 
recomendam-se: 


Para os aspectos gerais de tipo económico, administrativo e social, veja-se 
Henrique de Gama Barros, História da Administração Pública em Portugal nos 
séculos XIl a XV, 2.a edição, 11 volumes, Lisboa, Sã da Costa, 

1945-50. Para a demografia, o capitulo de Orlando Ribeiro no seu resumo 
geográfico de Portugal, Portugal (vol. V da Geografia de Espafia y Portugal, 


-268 
O estado do renascimento 


dirigida por Manuel de Terán, Barcelona, Teíde, 1955) e o seu artigo «Cidade» no 
Dicionário de História de Portugal, vol. 1, pp. 574-580, oferecem a visão mais 
coerente até ao censo de 1527. Sobre agricultura, encontram-se alguns 
pormenores em A. H. de Oliveira Marques, Introdução à História da Agricultura em 
Portugal. A questão cerealífera durante a Idade 

Média, 2.a edição, Lisboa, Cosmos, 1968, bem como em Maria Olímpía, da Rocha 
Gil, Arroteias no Vale do Mondego durante o século XVI. Ensaio de História 
Agrária, Lisboa, Centro de Estudos Históricos, 1965. Sobre a introdução do milho 
é, de novo, Orlando Ribeiro a dar a visão de conjunto mais sugestiva no seu artigo 
«Milho», Dicionário de História de Portugal, 

111, 58-64. 


Sobre comércio existem diversas monografias pormenorizadas, tais como 
Anselmo Braanicanip Freire, Notícias da Feitoria de Flandres, Lisboa, 1920; A. H. 
de Oliveira Marques, «Notas para a História da Feitoria Portuguesa na Flandres, 
no século XV» (Ensaios de História Medieval Portuguesa, Lisboa> Portugália, 
1965, pp. 219-267); Manuel Henrique Corte Real, A Feitoria Portuguesa na 
Andaluzia (1500-1532), Lisboa, Centro de Estudos Históricos, 1967; Virgínia Rau, 
A Exploração e o Comércio do Sal de Setúbal, Lisboa, 1951; A. H. de Oliveira 
Marques, Hansa e Portugal na Idade Média, Lisboa, 1959; Violet M. Shillington e 
Anníe Beatrice W. Chapinan, The Comniercial Relations of England and Portugal, 
Londres, 

1907; etc. 


O melhor estudo sobre moeda, desvalorização e afluxo do ouro e da prata 
encontra-se, hoje, no livro de Vitorino Magalhães Godinho, Os Descobrimentos e a 
Economia Mundial, vol. |, Lisboa, Arcádia, 1963 (Parte D. 

O mesmo autor escreveu uma óptima sintese sobre finanças públicas no 
Dicionário de História de Portugal, vol. II, pp. 244-64 («Finanças Públicas 


* Estrutura do Estado»). Mais pormenores sobre legislação, administração 
* burocracia acham-se no manual de Marcelo Caetano, Lições de História da 
Direito Portugués, Coímbra, Coimbra Editora, 1962. 


Sobre preços, a bibliografia mostrwse escassa: vejam-se achegas em A. H. de 
Oliveira Marques, Introdução à História da Agrícultura em Portugal, 2aed., Lisboa, 
Cosmos, 1968; A. de Sousa Silva Costa Lobo, História da Sociedade em Portugal 
no século XV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1903; e sobretudo Vitorino Magalhães 
Godinho, «A revolução dos preços e as variações económicas no século xvi», in 
Ensaios, vol. Il, Lisboa, Sã da Costa, 1968, pp. 155-174, e «Preços», in Dicionário 
de História de Portugal, vol. IV, pp. 487 ss. 


Nada existe de moderno nem de recomendável sobre propriedade ou estruturas 
sociais para lá de alguns artigos no Dicionário de História de Portugal. Sobre o 
clero, deve ver-se sempre Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, 
vols. | e Il, nova edição, Porto, Portucalense Editora, 1967-68. Acerca das 
corporações, Franz Paul de Almeida Langlians coligiu e publicou muito material útil 
em As Corporações dos Ofícios Mecânicos. Subsídios para a sua História, vol. |, 
Lisboa, 1943. 


A recuperação da crise 269 


Sobre o sistema hospitalar e as misericórdias, veja-se o bom resumo de A. J. R. 
Russel-Wood, Fidalgos and Philanthropists. The Santa Casa da Misericórdia of 
Bahia, 1550-1755, University of California Press, 1968. 


O trabalho moderno de Frédérie Mauro, Le XVI, siéele Européen. Aspects 
économíques, col. Nouvelle Clío, n.o 32, Paris, P.U.F., 1966, estuda, com grande 
clareza e rigor, a posição económica de Portugal na conjuntura internacional do 
século xvi. 


2 - Humanismo, Renascimento e Reforma 
Humanismo O Humanismo em Portugal começou mais tarde do que em 


Castela, mas mais cedo do que em muitos outros estados europeus. Na sua 
primeira fase, chegou-nos directamente de Itália, devido aos intensos contactos 
com as cidades-estados daquela península, sobretudo no campo económico. Em 
Lisboa residiam permanentemente numerosos mercadores genoveses, florentinos 
e outros italianos. Na Itália havia comerciantes e emissários de Portugal, que 
estudavam as condições do mercado e estabeleciam relações com banqueiros e 
funcionários. Alguns deles residiam mesmo em cidades como Florença, Génova e 
Veneza, na qualidade de agentes diplomático-comerciais dos soberanos e 
homens de negócio portugueses. 


Além destas fortes conexões económicas, os laços religiosos e culturais faziam da 
Itália o país mais frequentemente visitado por portugueses no século xv, 


porventura mais ainda do que a própria Castela. O Papa vivia em Itália e o Papado 
exigia constantemente contactos directos com clérigos e burocratas de toda a 
Europa. Para mais, viviase num século de concílios ecuménicos em que 
nenhuma nação católica ousaria estar ausente. Para Itália viajavam ainda 
príncipes da família real com suas comitivas, a fim de adquirirem cultura e 
conhecimento directo do cerne da Cristandade. As peregrinações a Roma e a 
outros santuários italianos (tais como Pádua, onde Santo António estava 
sepultado) atrafam numerosas pessoas. O prestígio das universidades itálicas e 
dos seus mestres chamavam estudantes a 


Humanismo, Renascimento e Reforma 271 


Bolonha, Siena, Florença, Pádua e outros centros afamados. Para Portugal 
vinham professores italianos ensinar os jovens aristocratas e o próprio rei. Eram 
bem acolhidos, bem tratados e bem pagos. 


Nestes termos, realizações no campo da cultura e novas correntes de pensamento 
originárias da Itália haviam de entrar depressa em Portugal. Se o Humanismo 
quatrocentista jamais floresceu na Península Ibérica, isso deveu-se apenas a ser 
ainda cedo demais para que a Europa Gótica absorvesse inteiramente os valores 
de uma nova época, avançada talvez de um século em relação à restante 
Cristandade. Não houve, de facto, Humanismo quatrocentista fora de Itália. 
Necessitava-se de mais preparação, de mais subtis e indirectas influências. E, 
fundamentalmente, as estruturas de base tinham de mudar. Era preciso tempo. 


As influências indirectas cnegaram via França, os Países Baixos, a Inglaterra ou a 
Espanha, onde bom número de portugueses se achava a estudar nos meados e 
fins do século xv - em 


Paris. Lovaina, Oxford, Salamanca e outros lugares. Em Salamanca, cerca de 
oitocentos estudantes portugueses frequentaram sobretudo Leis e Cânones 
durante a primeira metade do século xvi. Mas foi em França, em Paris mais do 
que noutro lado, que a nata do Humanismo português se preparou. 


O interesse renovado pela Antiguidade surgira em Portugal antes dos meados do 
século xv. Tanto o infante D. Pedro, como outros tradutores revelavam já 
conhecimento assaz apurado da língua latina nas versões para vernáculo do De 
Offiffis, De Senectute e De Amicitia, de Cícero, ou do Panegyricus Traiano, de 
Plínio o Moço. Na década de 1430 e 1440 chegaram a Portugal dois intelectuais 
italianos, convidados para mestres do moço rei Afonso V: Mateus Pisano, que 
escreveu em latim uma «História da Conquista de Ceuta», e Estêvão de Nápoles. 
Mais para os finais da centúria, o famoso humanista italiano Cataldo Aquila Sículo 
veio como professor do moço D. Jorge, filho ilegítimo de D. João Il, bem como de 
diversos outros jovens da aristocracia. Foi enorme a sua influência em cavar 
novos caboucos culturais e em preparar essa plêiade de portugueses que 
floresceria nos reinados de D. Manuel 1 e de D. João Ill. No começo de 


272 O estado do Renascimento 


Quinhentos, a prosperidade económica e a moda cosmopolita levaram centenas 
de moços portugueses aos principais centros intelectuais da Europa. Na sua 
maioria regressaram ao País, marcando profundamente a vida cultural 
portuguesa. 


A grande época do Humanismo nacional correspondeu ao período de 1525-1550. 
Podemos analisá-lo sob três aspectos fundamentais: o ensino, a produção literária 
e os contactos internacionais. 


Ensino Praticamente, todas as escolas ao nível médio e superior 


sofreram a influência humanista. Na Universidade -primeiro em Lisboa, depois em 
Coimbra -, nas muitas escolas monásticas e catedrais (de que Santa Cruz de 
Coimbra constituiu o melhor exemplo), nos colégios recém-fundados e no ensino 
particular, o número de professores preparados além-fronteiras e a qualidade do 
seu magistério renovaram inteiramente matérias e programas. Entre as novas 
disciplinas ministradas surgiram o Grego e o Hebreu, enquanto o ensino do 
próprio Latim passava a obedecer a um conhecimento perfeito das regras e 
formas clássicas. Além disso, bom número de escolares estrangeiros foram 
convidados pelo rei a ocupar variadas cátedras: mencionem-se, entre os 
especialmente celebrados, Nicolau Clenardo, natural dos Países Baixos, e o 
escocês George Buchanan. 


Os colégiOS Em Paris, o rei D. Manuel tentou comprar um dos mais 


famosos colégios da cidade, o Colégio de Santa Bárbara. Embora as negociações 
tivessem falhado, esse colégio tornou-se praticamente uma escola para 
estudantes portugueses em França, subsidiado pelo soberano que lhe concedeu 
cinquenta bolsas de estudo (1527). Três distintos humanistas portugueses de 
reputação internacional e pertencentes à mesma família (Gouveia) sucederam-se 
como reitores do Colégio de Santa Bárbara durante um período de trinta e sete 
anos (1520-57): a um deles, André de Gouveia, cnamou Montaigne «o maior 
Principal da França». Os seus métodos de ensino e de organização escolar 
mostraram-se revolucionários. para o tempo, o que explica os convites que 
recebeu para criar e reformar colégios tanto em França como fora dela. Foi devido 
aos seus esforços que o «Collêge de 


Humanismo, Renascimento e Reforma 273 


Guyenne», em Bordéus, para onde André de Gouveia se mudou em 1534 e que 
dirigiu durante treze anos, se tornou o melhor da França. 


Por essa mesma época iam sendo fundados em Portugal diversos colégios. 
Alguns continuavam a antiga tradição de primariamente concederem alojamento a 
estudantes necessitados ou a membros de ordens religiosas que desejavam 


assistir a aulas num ambiente de reclusão conventual. Outros, contudo -a grande 
novidade do tempo-, destinavam-se a jovens aristocratas ou a burgueses ricos, 
iniciando assim o sistema moderno do internato. Na sua maioria, procuravam 
copiar métodos actualizados de organização e de ensino, seguindo em regra 
modelos franceses ou espanhóis. Em alguns -os chamados colégios maiores - 
existiam cursos de nível universitário, ou até mais desenvolvidos. Correspondiam, 
assim, a estudos como que post-universitários. Outra novidade de muitos colégios 
- os chamados colégios menores - estava em oferecer estudos «secundários», 
como melhor preparação para a Universidade. Ensinavam-se aí Humanidades e 
Matemáticas, num contexto humanista típico, obedecendo a critérios bastante 
avançados e utilizando manuais de renome internacional. Esta preparação, 
outrora inexistente, iria permitir uma completa reorganização do sistema 
universitário e uma considerável subida do seu nível científico. Em vez de ser um 
mero «liceu» para quem desejasse prosseguir estudos elementares, a 
universidade podia agora converter-se em centro de maior especialização e 
aprendizagem. 


Nas décadas de 1530 e 1540, mais de vinte colégios se fundaram nas principais 
cidades de Portugal, mas especialmente em Coimbra. Um dos mais interessantes 
foi o de Braga, criado por Clenardo. Embora não tivesse durado muito, a influência 
dos seus métodos de ensino e da sua organização persistiria. Denominada Luclus 
(«o Jogo»), a escola de Clenardo propunha-se, entre outras coisas, substituir os 
clássicos castigos corporais por meios de atracção e engodo como forma de 
conseguir bons resultados no ensino. Clenardo introduziu igualmente novos 
métodos na aprendizagem das línguas. 


18 
271 O estado do Renascimento 


Mas o mais famoso de todos os colégios humanistas portugueses foi o Colégio 
Real, também chamado Colégio das Artes e Humanidades, fundado e 
estipendiado pelo rei em 1547. Seguia modelos franceses, nomeadamente o 
célebre Collêge Royal, instituído em Paris por Francisco 1 (1530), por influência de 
Guillaume Budé. Para o Colégio Real português, D. João Ill chamou André de 
Gouveia, dando-lhe plenos poderes para programar os estudos e contratar os 
professores. Gouveia voltou a França e organizou um corpo docente de cerca de 
dez mestres, franceses, escoceses e portugueses, para as disciplinas de 
Gramática, Retórica, Poesia, Latim, Grego, Hebreu, Lógica, Filosofia e 
Matemática. Com mais uns quantos que já. haviam ensinado em Portugal, o 
Colégio abriu as suas portas, ante as melhores expectativas e no meio do aplauso 
geral, em Fevereiro de 1548. Estava oficialmente relacionado com os cursos da 
Universidade, parte dos quais exigiam frequência obrigatória prévia dos 
ministrados no Colégio. Mas a súbita morte de Gouveia, em Junho de 1548, veio 
comprometer inteiramente o papel atribuído a esta importante escola e ajudar ao 
seu ulterior domínio pelos Jesuítas. 


A reforma da Universidade, permeável como foi às novas tendências expostas 
pelo Humanismo, não deve ser encarada como uma reforma humanista típica, 
dirigida e executada por escolares com fins meramente intelectuais. Pelo 
contrário, levou a marca do Estado e situou-se antes entre os grandes esforços de 
centralização política. Tal como existia, a universidade de Lisboa, para além do 
seu baixo nível intelectual e da sua geral indisciplina, revelada tanto por mestres 
como por discípulos, desafiava a indiscutível autoridade do rei na sua-própria 
cidade-capital, onde se verificaram com mais frequência motins e arruaças. A 
típica maneira feudal, a Universidade possuía antigos privilégios, agora tidos por 
intoleráveis mas que não parecia fácil calcar aos pés. Era um organismo 
corporativo e electivo. Dependia do Papa e da Igreja mais do que do rei e do 
Estado. Corpo de escolares, legistas e canonistas conscientes, a Universidade 
sabia muito bem como lembrar ao monarca e a seus conselheiros as regalias de 
que gozava e como fazê-las cumprir. 


Humanismo, Renascimento e Reforma 275 


Para mais, a Universidade pretendia deter o «monopólio» cultural no País, embora 
não conseguisse acompanhar a cultura humanista do tempo. Baluarte de 
escolasticismo e de preconceito medieval, havia de reagir contra toda e qualquer 
tendência «moderna» e impedir-lhe a entrada no seu seio. 


As primeiras querelas entre a Universidade e a autoridade régia começaram no 
reinadoo de D. Manuel. Como não dispomos de monografias sociais e 
económicas para as décadas de 1480 e 1490, não sabemos qual o papel que o 
corpo docente terá desempenhado nos cruciais acontecimentos políticos do 
reinado de D. João Il e na questão judaica, Sob pretexto de conceder um novo 
edifício e de aumentar os ordenados aos professores, D. Manuel impôs à 
Universidade novo regulamento (entre 1499 e 1504) -que consideravelmente lhe 
limitava a autonomia tradicional-, ao mesmo tempo que tentava pôr cobro a 
irregularidades notórias. Mas pouco se conseguiu em qualquer dos sentidos 
porque tanto mestres como estudantes resistiam ou simplesmente ignoravam as 
determinações régias. Por volta de 1520, D. Manuel pensava já seriamente em 
criar uma segunda universidade em Évora, hipótese aliás encarada nos meados 
da centúria anterior. Falta de pessoal apetrechado -impediu-o de levar a cabo os 
seus intuitos. Mas mais determinado do que seu pai e culturalmente melhor 
orientado também, D. João Ill veio por fim a empreender uma reforma completa, 
com o propósito definido de se ver livre da universidade de Lisboa e de fundar, 
algures, escola mais dócil e renovada. Diga-se de passagem que a qualidade do 
ensino descera porventura ao seu nível mais baixo, preferindo os licenciados 
portugueses ir doutorar-se a Salamanca ou a outras partes. 


Na década de 1530 eram já tantos os cursos de tipo «secundário» e «post- 
universitário» frequentados em Coimbra (em ligação com o mosteiro de Santa 
Cruz e sob sua orientação) que parecia absurda a inexistência na cidade de uma 
autêntica universidade. Depois de demorada luta, até a universidade de Lisboa 
teve de reconhecer que os seus dias tinham chegado ao fim: 


1536-37 foi, de facto, o seu último ano lectivo. 
276 O estado do Renascimento, 
Embora alguns dos professores, as insígnias, os arquivos e 


muitas das tradições e dos privilégios da antiga universidade tivessem sido 
transferidos, a universidade de Coimbra deve considerar-se uma nova fundação. 
Como tal, tornava-se necessária a sanção papal para as faculdades de Teologia e 
de Cânones. Como tal, também, D. João Ill não se sentiu obrigado a dar 


aos professores lisboetas cátedras automáticas em Coimbra, a 


maioria das quais ficaram reservadas a novos mestres. A Universidade de Lisboa 
fora, na realidade, extinta, para só reviver em 1911. 


Toda a estrutura da Universidade foi afectada pelas modificações no plano de 
estudos. Se os cinco grandes temas - Teologia, Cânones, Leis, Medicina e Artes-, 
juntamente com Matemática, foram mantidos sem alteração, o número de cadeiras 
dentro de cada um aumentou consideravelmente, às vezes até duplicando, o que 
se traduziu por um aumento correspondente no ensino e na preparação do 
estudante. A nova universidade copiava claramente o padrão de estudos 
estabelecido para Salamanca, de onde, aliás, proveio a maioria do seu corpo 
docente. 


Além disso, as novas ordenações ou regulamentos concedidas à universidade de 
Coimbra sublinhavam a subordinação à autoridade régia e limitavam a tradicional 
relacionação com o Papado e a Igreja. Em vez de ser um. foco latente de 
dissensão política ou de autonomia eclesiástica, a Universidade passou a ser um 
instrumento do poder real. O reitor deixou de ser electivo, cabendo ao monarca a 
sua nomeação. A centralização cultural foi ainda reforçada quando uma lei de 
1541 proibiu os estudantes portugueses de receberam graus universitários no 
estrangeiro. Este pedido já antes o fizera a universidade de Lisboa, mas sem 
resultado. A plena importância de uma proibição deste tipo só a partir da década 
de 1560, porém, pode ser claramente apercebida (cf. Cap. VI). 


Literatura Se, do ponto de vista do ensino, o impacto do Humanismo 


se traduziu por melhoramento e progresso, não foi tão clara a mudança no campo 
da literatura e da produção literária em geral. 


Humanismo, Renascimento e Reforma 277 


Formas medievais, conquanto permeáveis a influências humanistas, continuaram 
a florescer em Portugal nos reinados de Afonso V, João Il, Manuel | e mesmo 
João Ill, como contrapartida literária e cultural da expansão ultramarina e do afluxo 
de riqueza sua resultante. As cortes de D. João | e de D. Duarte prepararam o 


ambiente requintado de épocas mais tardias, em que a influência combinada do 
despique feudal e da protecção régia à cultura produziram as condições favoráveis 
dos, finais do século xv e começos do xvi. 


Cronologicamente, o primeiro género literário que floresceu foi a história. Por trás 
dela havia uma motivação burocrática de registo exacto. A revolução do Mestre de 
Avis veio depois exigir uma justificação conveniente, encomendando o príncipe D. 
Duarte ao arquivista Fernão Lopes a história «verdadeira» da época e feitos de 
seu pai (cf. Cap. ID. Fernão Lopes, porém, ainda um homem «medieval», 
combinou o inevitável louvor aos vencedores com um relato franco dos 
acontecimentos e dos seres humanos, que o tornou espantosamente «moderno» 
e científico. Os seus sucessores, menos rústicos e mais cortesãos, como 
verdadeiros homens do Renascimento, produziram monumentos elaborados de 
retórica laudatória e de outras prendas formais, que não excluíam, aliás, 
descrições, por vezes admiráveis, de factos e de pormenores. Gomes Eanes de 
Zurara (1,410-14747) escreveu o único relato hoje existente das navegações do 
século xv feito por um contemporâneo. Mais tarde, Rui de Pina (14407-1522), 
João de Barros (1496-1570) e Damião de Góis (1502. -1574), três magníficos 
exemplos de formalismo renascentista, escreveram histórias detalhadas de 
eventos contemporâneos, quer na metrópole quer no Ultramar. 


Em condições semelhantes às que outrora haviam originado a poesia dos 
trovadores, surgiu, principalmente nas cortes de Afonso V e João Il, um género de 
poesia leve no assunto e tradicional na forma, cheia de encanto e de 
espontaneidade. Suas trovas foram compiladas por Garcia de Resende (14707- 
1536) no chamado Cancioneiro Geral. Contudo, o melhor representante deste 
florescimento medieval tardio foi, sem dúvida, Gil Vicente (14657-153797). criador 
do teatro português. Influenciado pelo 


278 O estado do Renascimento, 


autor castelhano Juan del Encina, mas profundamente original na elaboração dos 
temas e na concepção geral das peças, Gil Vicente deixou-nos dezenas de autos, 
curtos, vivos e adoráveis, onde, com penetração, criticou a sociedade da época. 


Foi só a partir de 1520 que os Humanistas começaram a reagir contra aquilo que 
consideravam temas e formas passadas de moda, varrendo a pouco e pouco, com 
a sua crítica, o meio cultural português. Autores de influência italiana, como 
Bernardim Ribeiro (1482-1552) e Sã de Miranda (14857-1558), clamaram contra a 
sobrevivência obsoleta dos tempos «Góticos», introduzindo com sucesso nova 
métrica, nova rima e nova temática, tanto na poesia lírica como no teatro. 


Devido a este triunfo tardio do Humanismo nos círculos literários, os grandes 
nomes do Renascimento português floresceram apenas na segunda metade do 
século xvi (ver Cap. VI). Não obstante, um numeroso grupo de gramáticos, 
filólogos, juristas, poetas, teólogos, historiadores, filósofos e pedagogos, todos 
profundamente imbuídos dos princípios e dos ideais do Humanismo, surgiu com 


os começos da centúria de Quinhentos, produzindo uma complexa e fecunda obra 
literária. Muitos deles eram clérigos ou haviam professado em ordem religiosa. A 
maior parte estudara no estrangeiro e vários nunca regressaram à pátria. Um bom 
número ascendeu à cátedra na Universidade e nos colégios, ou ensinou moços 
nobres e burgueses. Os mais famosos dentre todos foram, porventura, André de 
Resende (1500-73), bom filólogo, poeta e dado às arqueologias clássicas, e Aires 
Barbosa (147W-1540), pedagogo e gramático. 


Contactos A chave para compreender o surto e a evolução do Humanismo em 
Portugal está antes na intensidade dos contactos inter- 


nacionais. País pequeno, de limitada vida cultural autóctone, com escassas 
possibilidades de a renovar pelos seus próprios meios, Portugal teve, como terá 
sempre, de depender de amplas relações internacionais para acompanhar 
correntes de pensamento, absorvê-las e adaptá-las às condições do País, 
ajudando, aliás, muitas vezes a contribuir para a vida intelectual da Humanidade. 
A expansão ultramarina, distraindo para Lisboa os olhos 


int 
Humanismo, Renascimento e Reforma 279 


de toda a Europa, trouxe a Portugal unia vasta publicidade cosmopolita e 
contribuiu de maneira intensa para o seu desenvolvimento cultural. Aos 
comerciantes seguiram-se os escolares ou simples curiosos que desejavam saber 
mais sobre as fabulosas descobertas. Um aumento de riqueza permitiu a larga 
migração de estudantes portugueses para os principais centros culturais da 
Europa, onde ouviam professores afamados e se punham em contacto com 
formas diferentes e superiores de vida e de pensamento. Alguns nunca 
regressaram, aparecendo mais tarde os seus nomes entre o professorado e a elite 
intelectual da Europa. 

- Ao mesmo tempo, assistiuse a uma importação maciça de escolares 
estrangeiros - atraídos por pingues salários - com o 


propósito de ocuparem lugares no ensino e de prepararem as futuras elites 
nacionais. Foram convidados grandes nomes na história do Humanismo - Erasmo 
é o melhor exemplo - e, mesmo quando recusaram o convite, por uma razão ou 
por outra, nem por isso deixaram de se sentir lisonjeados e de olhar para Portugal 
com olhos simpáticos. O mesmo Erasmo dedicou a D. João Ill, em 1527, uma das 
suas obras, as Chrysostomi Lucubrationes. Dois anos mais tarde, cabia a vez ao 
matemático francês Jean Fernel de fazer o mesmo com a sua Cosmotheoria. Em 
1531, o pedagogo espanhol Juan Luis Vives dedicou ao monarca o seu trabalho 
De tradendis Disciplinis. Outros exemplos se poderiam ainda aduzir. Mediante 
copiosas dádivas de dinheiro e outros favores, mediante bolsas de estudo a 
estudantes portugueses, mediante sucessivos convites a escolares e a artistas de 
toda a Europa, mas especialmente mediante unia política inteligente de 
desenvolvimento cultural, os dirigentes portugueses da primeira metade do século 


xvi -fossem reis, fossem conselheiros seus- achavam-se no caminho certo para 
conseguir uma mudança radical na estrutura cultural do País, se acaso tivessem 
podido manter essa política. 


Contemporâneo deste grande movimento, e um dos princi- Imprensa pais factores 
do seu surto, foi o estabelecimento da imprensa. Como o próprio Humanismo, o 
seu desenvolvimento em Portugal deu-se bastante tarde. Não se conhecem livros 
impressos para o período de 1465-72, que a tradição marca para o primeiro 


280 O estado do Renascimento 


prelo português. Depois de uma breve imprensa judaica (1487-95), operante nas 
cidades de Faro, Lisboa e Leiria, e publicando apenas livros religiosos em Hebreu 
(com uma única excepção), a imprensa nacional só começou em 1489, por 
iniciativa de impressores alemães. Foram estes, a que se seguiram depois 
italianos e franceses, que controlaram parte significante da imprensa portuguesa 
durante muitas décadas. Até aos fins do século xv, menos de vinte livros 
diferentes se imprimiram, número mínimo se comparado com a produção 
correspondente da maioria dos países da Europa. No século xvi a imprensa 
portuguesa conheceu mais algum desenvolvimento, com cerca de mil livros 
publicados até 1550, o que de novo representava percentagem pequena em 
comparação com o resto do mundo ocidental. Obras de teologia e religião 
compunham cerca de 50 % do total das impressões, sendo menos de 10 % 
dedicado a livros científicos. Abundavam também traduções, facto bem 
compreensível num país pequeno como Portugal. Publicaram-se relativamente 
poucas obras sobre classicismo, visto que importações de fora alimentavam a 
escassa procura dos escolares residentes no País. Tenha-se em conta que 
numerosos trabalhos de autores portugueses se viram impressos no estrangeiro, 
de preferência a Portugal. Salamanca, Lyon, Paris, Antuérpia, Veneza foram os 


centros mais importantes da expansão cultural portuguesa através da imprensa, 
podendo no entanto mencionar-se uns trinta outros locais onde foram publicados 
livros de autores lusitanos. 


Também não se deve esquecer que o livro manuscrito continuou a predominar 
sobre o livro impresso até, pelo menos, meados do século xvi. Só 
excepcionalmente se faziam impressões, cujo uso se limitava quase que 
exclusivamente à Igreja, ao Estado e à Universidade. A maioria dos impressores 
dependia destas três instituições e não de qualquer público vasto de particulares. 


Arte O período clássico da arte renascentista revela, quanto a 


Portugal, uma complexidade assaz interessante. Quatro «estilos» diferentes, 
conquanto raros numa forma pura, interagiram e fundiram-se com grande 
originalidade na maior parte dos monumentos. Foram eles o Gótico final, o 
chamado estilo Manuelino, 


Humanismo, Renascimento e Reforma 
281 
Gótico finA 


o Mudéjar e, finalmente, o estilo Renascentista. Para cada um destes quatro, a 
principal área de construção -visto que a sua expressão superior foi sempre a 
arquitectura e a decoração a ela ligada - mostrou-se o Sul e o Centro de Portugal, 
aparecendo o Norte pouco representado e com escassos nomes de artistas locais. 
Embora o centro de gravidade do País se estivesse a mover lentamente para 
norte, a arte - em regra atrasada nas suas manifestações em relação às 
tendências económicas e sociais - continuava a florescer nas regiões tradicionais 
que contavam já séculos de existência. 


O Gótico final exibiu-se, primeiro, como reacção arcaizante contra a exuberância 
das formas dos séculos xiv e xv. Tão simples quanto o Gótico primitivo do século 
xiii se construíram, por exemplo, o elegante claustro do mosteiro da Batalha (entre 
1448 e 1477), o mosteiro de Varatojo (Estremadura) e a igreja de Santiago, em 
Palmela. Esta simplicidade e austeridade não podiam durar muito e o regresso a 
formas altamente carregadas caracterizou as épocas de D. João Il e de D. Manuel 
l. 


A estrutura gótica acrescentou-se assim uma superabun- Afanueliffo dância de 
novos elementos decorativos - em sua maioria de origem tradicional mas alguns 
denotando a influência da expansão ultramarina - com certas inovações 
arquitectónicas que, por vezes, fazem lembrar o Barroco: colunas em espiral, 
arcos policêntricos, torres octogonais, uma rede de complicadas ogivas nas 
abóbadas, pináculos cónicos simples e espiralados, etc. Várias plantas de igrejas 
seguiram o sistema alemão das Hallenkirchen (igrejas-salão), embora com grande 
originalidade, quer nas proporções quer na iluminação. Comparações com os 
estilos Isabelino e Plateresco do país vizinho permitem observar semelhanças 
notáveis mas não explicam, de maneira alguma, a origem de um pelo outro. Esta 
originalidade do Gótico final português levou alguns historiadores da arte do 
século passado a chamar-lhe estilo Manuelino, embora o seu período de 
florescimento se estenda muito para além dos limites cronológicos do reinado de 
D. Manuel. O melhor exemplo de Manuelino foi o mosteiro dos Jerónimos, em 
Belém, começado em I(DO2 e, na realidade, 


282 

O estado do Renascimento 

uma obra-prima esplendorosa e extremamente elegante de arquitectura e 
decoração. O rei ordenou a sua construção na praia de onde Vasco da Gama 


partira para descobrir o caminho marítimo para a índia e em sua comemoração. 
Outros exemplos de Manuelino foram a torre de Belém construída em 1515, a 


igreja de Jesus, em Setúbal (terminada em 1492), parte do mosteiro da Batalha e 
parte da igreja e do mosteiro de Cristo, em Tomar. 

O arquitecto francês (7) Boytac e o português João de Arruda assinaram muitos 
edifícios manuelinos e terão, porventura, preparado uma boa escola de artistas 
futuros. 


Fig. 38-Distribuição geográfica do chamado 
estilo Manuelino 


Mudéjar O estilo Mudéjar não se mostrou tão original como o Manuelino, porque 
teve a sua perfeita contrapartida em Espanha, de onde provavelmente proveio, no 
decorrer do século, xv. Apesar das suas nítidas características islâmicas, torna-se 
impossível 


Humanismo, Renascimento e Reforma 
283 


relacioná-lo com a persistência de formas mouras indígenas (que teriam 
permanecido completamente escondidas durante mais de duzentos anos), ou com 
um renascimento devido a artistas muçulmanos, numa época em que a sua 
presença se mostrava já tão pouco importante. Elementos tipicamente mudéjares 
surgiram nos materiais usados (insistência no tijolo e no estuque), nas formas 
decorativas (motivos geométricos, revestimentos de azulejo), nos tectos 
chamados de alfarje, de madeira trabalhada, e nalguns outros mais, todos 
enquadrados numa estrutura gótica ou gótico-islâmica. O Mudéjar teve enorme 
importância na arquitectura civil, mais do que em edifícios religiosos. Residências 
reais e senhoriais dos fins do século xv e do século xvi receberam abundante 
decoração que seguia as suas regras. O palácio real de Sintra é talvez o melhor 
exemplo que dele nos ficou. 


O puro estilo Renascentista entrou tarde em Portugal e difi- Re-nasee?iço 
cilmente conseguiu obliterar a tradição gótica. Pela segunda metade da centúria 
de Quinhentos evoluíra já para o chamado Maneirismo. Introduzido ou 
desenvolvido por artistas franceses (Nicolau Chantereine, Jean de Rouen, 
Loguin), nunca foi, em boa verdade, compreendido em Portugal, embora diversas 
casas senhoriais e algumas sés (Leiria, Portalegre, Miranda) tentassem copiar 
modelos franceses e italianos famosos. Muitos dos seus elementos, todavia, 
tinham sido introduzidos anteriormente e sobreviveram durante o século xvii. 


A pintura surgiu bastante tarde em Portugal, talvez como Pintura consequência 
das interdições islâmicas, expressas pela falta de artistas e de tradição no Sul. O 
século xv, tão rico em toda a Europa, teve aqui poucas manifestações pictóricas. 
No entanto, uma grande escola de artistas, ou um grande artista com vários 
discípulos, pôde florescer desde a década de 1460 ou 1470 até finais da centúria. 
Qual a sua origem e quais as influências que sofreram continua a ser mistério para 


os historiadores da arte. Entre esses pintores sobressaiu Nuno Gonçalves como 
um dos mais qualificados e mais prezados, louvado até por adeptos do 
Renascimento italiano que, em geral, desdenhavam de tudo aquilo que era 
«gótico». Nele, como nos demais, parecem estar 


284 O estado do Renascimento 


simultaneamente presentes escolas flamengas, italianas, catalãs, francesas locais, 
etc. 


A influência flamenga nos pintores portugueses, bem explicada pela intensidade 
dos contactos políticos entre Portugal e a Flandres, assim como pela importação 
maciça de obras de arte dos Países Baixos, persistiu por muito tempo e ofereceu 
resistência encarniçada ao impacto do Renascimento. No começo do século xvi, 
as escolas de Lisboa (representada por Jorge Afonso) e de Viseu (dirigida por 
Vasco Fernandes, cognominado Grão Vasco) polarizaram a pintura nacional, com 
larga e variada produção de obras-primas. Gradualmente, ambas absorveram as 
influências italianas, que só a partir da década de 1540 triunfariam por completo. 


Cíénc;a A contribuição de Portugal para o Renascimento, todavia, 


não se deu tanto no capítulo das Artes ou das Humanidades como no da Ciência. 
Foi no campo da Navegação, Astronomia, Ciências Naturais, Matemática e, claro 
está, Geografia, que o contributo português velo por completo modificar o curso da 
ciência e do conhecimento geral. Além disso, a uma nova percepção dos factos os 
Portugueses ligaram novos métodos e novas formas, com base na experiência. 


Esta «revolução da experiência» será estudada com mais pormenor nos capítulos 
V e VI, visto ter dependido da expansão ultramarina e se ter particularmente 
sentido depois de 1550. Por ora, limitemo-nos a considerar alguns aspectos da 
sua evolução. 


Os Portugueses iniciaram as navegações e começaram a contactar com povos e 
civilizações estranhas dispondo de um apetrechamento medieval e de um modo 
de conhecer que se baseava na autoridade. O que os autores clássicos e seus 
comentadores ao longo dos séculos haviam escrito representava a verdade, que 
não podia ser posta em dúvida. Se, porventura, a observação directa parecesse 
provar o contrário, então era essa observação que estava errada devido a 
enganos do demónio ou a doença do corpo. Uma atitude deste tipo iria prevalecer 
durante muito tempo. Mesmo em Portugal, as universidades, os livros 


Humanismo, Renascimento e Reforma 285 


impressos, a cultura escolástica continuaram a ensinar e a aceitar os antigos 
mestres com os antigos erros, muito depois de todos, desde o mais humilde 
marinheiro até ao mais nobre vice-rei, terem de facto observado e tocado uma 
realidade diferente. Durante muito tempo, o ensino “oficial e a experiência prática 


coexistiram sem se ferir mutuamente, conquanto frequentes vezes contraditórios. 
Não era fácil abalar até aos alicerces e extirpar por completo toda uma tradição de 
séculos que criara um método e que, em si mesma, fora fortalecida por ele. A 
«revolução da experiência» foi, com todas as letras, =a Revolução, e de tipo 
subversivo. Vinha sapar as próprias bases do pensamento e da acção que dele 
decorria. Por isso, combateram-na com energia os defensores da ordem existente. 
Foi tida por herética, absurda e imoral. E teve naturalmente as suas vítimas e os 
seus holocaustos. 


Os Portugueses dos séculos xv e xvi provaram pela experiência e pela dedução 
científica: que o oceano Atlântico era navegável e estava livre de monstros; que o 
mundo equatorial era habitável e habitado; que era possível navegar 
sistematicamente longe da costa e conseguir perfeita orientação pelo Sol e pelas 
estrelas; que a África tinha uma ponta meridional e que existia um caminho 
marítimo para a índia; que as pseudo-índias, descobertas por Colombo, eram, na 
realidade, um novo continente separando a Europa da Ásia oriental e que as três 
Américas formavam um bloco territorial continuo; que a América do Sul tinha uma 
ponta meridional como a África e que existia um outro caminho marítimo para a 
índia por ocidente; que os três oceanos comunicavam entre si; que a Terra era 
redonda e circunavegável. Traçaram os contornos dos continentes e dos oceanos, 
esboçando, pela primeira vez, uma geografia ecuménica da Terra. Desenharam o 
primeiro mapa dos céus do hemisfério austral. Trouxeram a conhecimento do 
mundo ocidental grande número de civilizações e culturas desconhecidas, pondo 
muitas outras em contacto permanente. Encararam e puseram o problema de 
fundir, adoptar soluções de compromisso ou separar radicalmente culturas por 
vezes altamente complexas (a Indiana, a Chinesa, as Africanas, a Brasileira) e 
religiões (Budismo, Bramanismo). 


286 O estado do Renascimento 


Tiveram de achar maneira de comunicar com línguas diferentes, de estrutura 
inteiramente diversa da sua, e com sinais de escrita variados. Experimentaram 
numerosas plantas novas ou insuficientemente conhecidas, frutas e alimentos, 
trazendo-os para a Europa. Acharam e descreveram novos animais. 


Os passos decisivos neste imenso mundo novo da experiência ocorreram antes 
de 1550, mas a sua descrição científica e o seu impacto significativo sobre a 
humanidade iriam durar séculos. E se os Portugueses foram ajudados por inúmera 
gente de muitos países e tradições, não resta dúvida de que o esforço de 
aquisição foi seu, como sua foi a consciência primeira do novo mundo e o desafio 
aquele que existia. 


A Reforma Por estranho que pareça, tem de dizer-se que em Portugal 
nunca houve Reforma. O moderno Dicionário, de História de Portugal, sempre tão 


atento a movimentos históricos gerais, nem sequer inclui a rubrica Reforma. E 
com razão. Não houve casos de Luteranismo individual, de Calvinismo ou de outra 


ideologia religiosa relacionada com a Reforma adentro das fronteiras 
portuguesas.- Quando muito, foram detectados e perseguidos alguns suspeitos de 
se inclinarem para a «heresia», mas sem que prova convincente da sua culpa 
jamais fosse encontrada. Isto é tanto mais estranho quanto se julga que a 
Inquisição foi introduzida em Portugal devido ao perigo de desvios do Catolicismo. 


Várias razões o podem explicar. Em primeiro lugar, a situa. ção geográfica de 
Portugal ajudou a travar uma importação fácil de ideologias germânicas, filtradas 
como o eram por dois grandes, fortes e alertados países católicos, a França e a 
Espanha. 

O Luteranismo, todavia, poderia ter entrado pelo mar, sobretudo se nos 
lembrarmos dos contactos frequentes que ligavam Portugal com o mundo 
hanseático. Parece, assim, de muito maior importância, tentar compreender 
correctamente a situação religiosa do País e a sua posição cultural na Europa do 
século xvi. Não existiam aqui queixas profundas contra a situação moral do clero, 
que não se mostrava mais corrupto nem menos respeitado do que outrora. 
Verificavam-se, é certo, abusos e acumulações de benefícios eclesiásticos, mas 
sem terem aquele papel 


Humanismo, Renascimento e Reforma 287 


catalizador de chamamento às armas contra a Igreja, como sucedeu noutros 
países. Além disso, Portugal, como a Espanha, sentia demasiadas afinidades de 
língua, raça e cultura com a Itália para poder compreender certo número de 
reacções contra o Renascimento, a tradição latina e o Papado, comuns no norte 
da Europa. Geralmente sentimentais e avessos a toda a espécie de movimentos 
puritanos, os Portugueses, como todos os povos mediterrâneos, haviam 
naturalmente de rejeitar os princípios básicos da Reforma, simbolizados pela 
destruição das imagens e pela simplificação dos rituais eclesiásticos. 


Os poucos «Reformistas» portugueses, ou influenciados pela Reforma, só podiam, 
portanto, ser alguns intelectuais, e menos por meditação directa do que por 
contacto com estrangeiros. JÉ provável que tenham existido, mas foram sempre 
cuidadosos bastante para se esconder sob uma capa de conduta ortodoxa 
irrepreensível. Além do mais, o estabelecimento da Inquisição prontamente 
desencorajou tais devaneios, ao mesmo tempo que fechava o Pais a contactos 
livres com o mundo da estranja. 


Em boa verdade, a Inquisição teve muito pouco a ver com Inquisição a Reforma, 
ao menos como motivo real da sua fundação. D. Manuel pedira já ao Papa o seu 


estabelecimento em 1515, dois anos antes da rebelião de Lutero. O seu objectivo 
real estava em conseguir mais uma ar “fito 1 ,mp, palra. a, c ralização do poder, * 


8) 


e 


para o controle por parte da Coroa. Os monarcas portugueses pretendiam t bem 
para si o '-que os Reis Católicos haviam obtido do Papa Sixto IV a partir de 1478, 
embora as circunstâncias nos dois países se revelassem inteiramente diferentes. 
Nem Judeus nem Mouros ameaçavam em Portugal, que se visse, a unidade da fé, 
como pudera ser invocado em Castela. Além disso, os perigos, políticos. da . 
Inquisição tinham-se tornado óbvios ao Papado como mais um poderoso 
instrumento nas mãos da Coroa. De facto, juízes e outros funcionários da 
Inquisição, conquanto clérigos, eram nomeados pelo rei, e a sua autoridade e 
poderes, por delegação papal, ficavam em regra independentes da habitual 
jurisdição eclesiástica. 


D. João Ill e seus conselheiros lutaram demoradamente para obter a criação da 
Inquisição. As arrastadas manobras diplomá- 


288 O estado do Renascimento, 


ticas e as intrigas complexas duraram muitos anos, com o Papado resistindo 
tenazmente e com os Judeus, nos bastidores, subornando ambas as partes para 
fazer tempo ou até impedir de todo o feito que os prejudicava. Carlos V teve de 
intervir a favor do seu cunhado, o rei de Portugal. A Inquisição veio a ser 
finalmente « comprada» a Roma por D. João 111 (1536), mas com grandes 
restrições a uma plena liberdade de acção. Só em 1547 foram essas restrições 
levantadas pelo Papa Paulo Ill, passando a Inquisição portuguesa a dispor de 
plenos poderes. No entretanto, as primeiras vítimas haviam já sido queimadas em 
Évora (1543). Começava nova época para a história de Portugal. 


Bibliografia -Têm sido publicadas algumas monografias de confiança sobre 
Humanismo e relações culturais com a França, Espanha e Itália: Marcel Bataillon, 
Études sur le Portugal au temps de VHumanisme, Acta Universitatis 
Conimbrigensis, Coimbra, 1952 (a ser acompanhada pela sua obra-prima, Erasme 
et VEspagne. Recherches sur Vhistoire spirituelle du XVIO siécle, Paris, 1937, 
também com tradução espanhola, 2 volumes, México-Buenos, Aires, 1950); 
Manuel Gonçalves Cerejeira, Clenardo e a Sociedade Portuguesa do Seu Tempo, 
3.a edição, Coimbra, Coimbra Editora, 1949; Luís de Matos, Les Portugais à 
HUniversité de Paris entre 1500 et 1550, Coimbra, 1950, bem como A Corte 
Literária dos Duques de Bragança no Renascimento, Lisboa, 1956; Joaquim 
Verissimo Serrão, Portugueses no Estudo de Toulouse, Coimbra, 1954, bem como 
Portugueses no Estudo de Salamanca, vol. 1, 1250-1550, Lisboa, 1962; Relazione 
Stóriche fra Vltalia, e il Portogallo. Memorie e Documenti, Roma, Reale Accadernia 
d'Italia, 1940; Pietro Verrua, Umanisti ed altri «Studiosi viri» italianf e stranieri di 
qua e di 

1à dalle Alpe e dal Mare, Genebra, 1924 (Cap. XVIII); Joaquim de Carvalho, 
Estudos sobre a Cultura- Portuguesa do Século XV, Acta Universitatis 
Conimbrigensis, Coimbra, 1949; assim como Estudos sobre a Cultura Portuguesa 
do Século XVI, 2 volumes, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1947-48; 
Mário Brandão, O Colégio das Artes, Coimbra, 1933. 


A obra clássica de Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coi-mbra, vol. 1 
(1289-1555), Lisboa, 1892, continua a mostrar-se peça fundamental de 
investigação e síntese. Consegue-se actualização e algumas reinterpretações 
lendo Mário Brandão e Manuel Lopes de Almeida, A Universidade de Coimbra. 
Esboço da Sua História, Coimbra, 1937. 


O trabalho renovador de toda a problemática da história da cultura portuguesa 
deve-se a Antônio José Saraiva, História da Cultura em Portugal, vol. II, Lisboa, 
Jornal do Foro, 1952. Para pormenores de natureza mais literária, veja-se a 
História da Literatura Portuguesa, do mesmo autor e de ôscar Lopes, 5.1 edição, 
Porto, Porto Editora, 1967. Consulte-se igualmente José Sebastião da Silva Dias, 
A Política Cultural da Época de D. João 111, 2 volumes, Coimbra, 1969. 


Humanismo, Renascimento e Reforma 289 


Sobre a imprensa, além das obras anteriores, ver Francisco Marques de Sousa 
Viterbo, O Movimento Tipográfico em Portugal no Século XVI (Apontamentos para 
a Sua História), Coimbra, Imprensa da Universidade, 

1924; e especialmente a Bibliografia Geral Portuguesa. Século XV, 2 volumes, 
Lisboa, Academia das Ciências, 1941-42, e Antônio Joaquim Anselmo, Bibliografia 
das Obras Impressas em Portugal no Século XVI, Lisboa, 1926. A notícia de uma 
obra impressa em Portugal em 1489 foi dada por J. V. de Pina Martins, no Diário 
de Notícias de 25 de Maio e 20 de Junho de 1965. 


Sobre arte, além da obra de conjunto, História da Arte em Portugal, vol. II, Porto, 
Portucalense, 1953, veja-se também Virgílio Correia, Obras, vol. Ill, Acta 
Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1953, e sempre Albrecht Haupt, Die 
Baukunst der Renaissance in Portugal, 2 vols., Frankfurt, 

1890-95. 


A melhor exposição sobre «experimentalismo» e a contribuição científica dos 
Portugueses acha-se na já citada obra de A. J. Saraiva, História da Cultura. 


Finalmente, sobre religião e a Inquisição, além da* visão geral dada por Fortunato 
de Almeida, História da Igreja em Portugal, nova edição, vols. | e Il, Porto, 
Portucalense, 1967-68, consulte-se José Sebastião da Silva Dias, Correntes do 
Sentimento Religioso em Portugal, 2 volumes, Universidade de Coimbra, Instituto 
de Estudos Filosóficos, Coimbra, 1960, o clássico Alexandre Herculano, História 
da Origem e do Estabelecimento da Inquisição em Portugal, 3 volumes, 12.1 ed., 
Lisboa, Bertrand, s/d., e novamente (e acima de todos), A. J. Saraiva, História da 
Cultura e Inquisição e Cristãos-Novos, Porto, Inova, 1969. 


Os numerosos e importantes artigos incluídos no Dicionário de História de 
Portugal, dirigido por Joel Serrão, 4 volumes, Lisboa, 1960-69, não devem nunca 
ser esquecidos. Vejam-se, por exemplo, os artigos «Humanismo», «Luteranismo», 
«Renascimento», «Santo Ofício» e as biografias das mais importantes 
individualidades do tempo. 


19 
3 -A evolução política 


Afonso V Com o fim da regência do infante D. Pedro adveio a última grande época 
da aristocracia feudal. O jovem rei Afonso V preferiu-lhe os outros tios, Afonso, o 
duque de Bragança, e Henrique, o duque de Viseu, chefe de fila da aristocracia 
terratenente o primeiro, principal propugnador da política expansionista no Norte 
de África o segundo. Até ao fim do seu longo reinado (faleceu em 1481), o 
monarca nunca abandonou esses dois ideais que D. Afonso e D. Henrique tão 
perfeitamente representavam: o constante fortalecimento das casas nobres em 
detrimento da Coroa (ponto de vista feudal típico, que fazia o rei louvado, 
respeitado e amado pelos seus pares, os senhores feudais), acompanhado de 
uma política sistemática de conquistas em Marrocos (que a nobreza também 
aplaudia como meio de exibir bravura, alcançar fama e obter proveitos). A isto se 
subordinaram quaisquer outros fins, pelo menos até à década de 1470 - as 
descobertas, por exemplo, afrouxaram consideravelmente depois da morte do 
infante D. Henrique, em 1460. 


As campanhas do monarca no Norte de África não podem dissociar-se de um 
contexto mais amplo de política externa. Afonso V e o Papado fizeram o que 
puderam para organizar uma cruzada europeia contra o Islam, sobretudo contra 
os Turcos que haviam conquistado Constantinopla em 1453. O rei de Portugal deu 
sempre o seu melhor apoio aos sonhos militares do Papa e não se poupou a 
esforços para os efectivar. Os projectos papais falharam, claro, porque o tempo 
das cruzadas passara já. 


A evolução política 291 


Afonso V, porém, atacou em África e conseguiu vitórias importantes, tanto para O 
seu orgulho como para o seu prestígio internacional, embora pudesse pôr-se em 
dúvida o real significado das conquistas do ponto de vista económico e político. 
Em 1458, o exército português, comandado pelo próprio rei e com a participação 
da maior parte dos representantes das classes superiores, conquistava Al-Qasr al- 
Sagir (Alcácer Ceguer). Ao título de «rei de Portugal e do Algarve», Afonso 
acrescentou com orgulho «daquém e dalém-mar em África», convertendo o 
singular «Algarve» no plural «Algarves»: queria assim dizer, com certo exagero, 
que era soberano de ambas as partes do tradicional al-Garb, «o Ocidente» na 
terminologia geográfica árabe. 


Outras expedições foram preparadas (1460, 1463-64) mas falharam, a segunda 
quase desastrosamente. Os Portugueses pretendiam conquistar Tânger, vingando 
assim a derrota de 1437 e o martírio do infante D. Fernando. Só o conseguiram 
em 1471, quando Asila (Arzila) lhes caiu nas mãos e Tânger foi evacuada pela 
população. Projectavam-se acaso outras expedições, que a 


guerra com Castela obrigou a adiar por longos anos. 


Intervir nos assuntos castelhanos não constituía nada de novo na história de 
Portugal, com sua contrapartida na intervenção castelhana em negócios 
portugueses. Logo que querelas civis perturbavam qualquer dos países, 
imediatamente o outro se candidatava a tirar dai seu proveito. Isso acontecera 
durante a regência de D. Pedro e iria repetir-se outras vezes mais. Ambos os 
monarcas alimentavam o sonho vago de unir os dois países, com vistas ao ideal 
ainda mais vago de «reunificar» toda a Península. 


O rei de Castela, Henrique IV, governou de 1454 a 1474, parte do tempo em clima 
turbulento de guerra civil. Pouco lhe respeitavam a autoridade, correndo, com 
verdade ou sem ela, que sua filha única e herdeira, Joana, era filha de um nobre 
da corte, D. Beltrân de la Cueva, pelo que a apodavam de «Beltraneja». Henrique 
IV pensara em vários casamentos possíveis, tanto para a filha como para sua 
voluntariosa irmã, D. Isabel, em que o viúvo rei de Portugal (tio de Joana) e seu 
filho João (futuro D. João Il) surgiam sempre como candidatos favoritos. A sua 


292 O estado do Renascimento 


morte, o partido feudal, hostil a Isabel (que, no entretanto, se unira a Fernando de 
Aragão e se fizera proclamar rainha de Castela) ofereceu a coroa do reino ao 
monarca português, desde que ele casasse com Joana. 


Aceitar a coroa queria dizer guerra. Vitória na guerra, todavia, significaria a união 
de Castela e de Portugal sob um varão português. Ao contrário do que muitos 
historiadores espanhóis dizem, os resultados não teriam sido diferentes dos 
conseguidos pelo casamento entre Isabel e Fernando. Em vez de Castela+Aragão 
ter-se-ia Portugal +Castela, porventura em união mais harmoniosa e menos 
antagonística. 


O partido da Beltraneja era pequeno, hesitando muitos nobres entre o prestigioso 
Afonso V e o jovem mas activo casal Isabel-Fernando, que se prodigalizavam em 
promessas, subornos e argumentos de carácter moral. Afonso invadiu Castela 
(1475), ocupou a maior parte de León mas não conseguiu uma vitória decisiva na 
batalha de Toro (1476). Com isto se afundou o prestígio que tinha entre a nobreza 
castelhana. Voltando a Portugal, tentou então provocar uma intervenção e invasão 
francesas pelo Norte. Cavalheiresco e totalmente incapaz de compreender política 
«moderna», Afonso WV resolveu dirigir-se a França e tentar convencer 
pessoalmente Luís XI da justiça da sua causa. Contra o parecer da maioria dos 
conselheiros foi, de facto, a França (1476-77) onde se viu metido no torvelinho 
final do acerbo conflito entre Luís XI e Carlos o Temerário, duque de Borgonha. 
Péssimo diplomata, deixou-se sucessivamente convencer por ambos os 
contendores que, ao fim, o mandaram embora. Desesperado, renunciou ao trono 
de Portugal e decidiu-se a partir para a Terra Santa em peregrinação (1477). 
Impedido de tal aventura por Luís XI, foi então praticamente preso e «deportado» 
para Portugal aonde chegou, completamente desiludido, em Novembro de 1477. 


seu filho D. João, que se fizera aclamar rei dias antes, renunciou ao título e 
devolveu-lhe a coroa. 


De 1477 a 1481, Afonso V e João governaram para todos os efeitos em conjunto. 
Mais precisamente, D. João ficou com o encargo de superintender nos negócios 
ultramarinos (cf. Cap. V). Nos dois anos imediatos, as negociações com Castela 
ocuparam 


A evolução política 293 


todos os esforços. Pelo tratado das Alcáçovas (1479) estabeleceu-se a paz, 
renunciando o rei de Portugal a quaisquer direitos à coroa castelhana e obtendo, 
em compensação, concessões importantes em Africa. 


O novo rei, D. João 11 (1481-95), foi um típico soberano do Renascimento. Ao 
contrário do pai, João pertencia bem à época em que vivia e mostrava-se um 
homem completamente «moderno», el hombre, como sua prima Isabel de Castela 
lhe gostava de chamar. 


Influenciado porventura pelas políticas francesa e castelhana, on de estava a 
processar-se a centralização real do poder, D. João 11 empreendeu uma luta 
perigosa contra os grandes senho res feudais que, com presteza e sem 
escrúpulos, levou até à vitória finELI,-Depois de constranger os nobres âquilo que 
eles julgaram uma forma humilhante de juramento de fidelidade, tomou em cortes 
(1481), a pedido dos povos, várias medidas que directamente ameaçavam a 
nobreza nos seus privilégios feudais. Tais medidas incluíam, especificamente, a 
violação da jurisdição senhorial e a redução das contias, duas questões 
fundamentais para a nobreza feudal. A alta aristocracia respondeu com uma 
conspiração generalizada, em que não estava ausente participação castelhana. 
Conhecedor dos principais fios, porém, D. João Il deu o golpe: o duque de 
Bragança, principal cabeça do complot, foi sumariamente julgado e decapitado, 
enquanto os demais chefes conhecidos ou suspeitos se viam obrigados a fugir do 
País para não sofrerem a mesma sorte (1483-84). Como resultado, o rei viu-se 
livre da mais-poderosa família feudal, cujos títulos foram abolidos e cujos extensos 
domínios vieram subitamente engrossar o património da Coroa, 


Depois dos Braganças, o alvo passou a ser o segundo senhor feudal do reino, o 
duque de Viseu, primo e cunhado do monarca. Imprudente bastante para chefiar 
nova conspiração, o duque foi apunhalado pelo próprio rei (1484), enquanto os 
seus seguidores eram mortos no cadafalso ou fugiam para Castela. Assim, três 
anos após ter subido ao trono, D. João Il conseguira ver mortos ou forçados ao 
exílio a maior parte dos nobres da alta aristocra. 


294 O estado do Renascimento 


cia feudal e acrescentar ao seu património parte considerável de território 
nacional. 


Embora nos faltem ainda monografias pormenorizadas sobre o assunto, parece 
que a política de D. João Il consistiu em buscar o apoio, não da classe popular, 
mas antes das fileiras inferiores da nobreza. Ao mesmo tempo, promoveu muitos 
legistas e funcionários públicos a cargos de relevo até aí reservados às camadas 
altas da aristocracia. 


Apesar dos seus extraordinários triunfos, a vitória do monarca não foi completa. 
Sua mulher, D. Leonor, pertencia à família do assassinado duque de Viseu e 
nunca deixou de intrigar ou de polarizar forças oposicionistas. Depois da morte do 
único filho legítimo dos soberanos, D. Afonso, num acidente de cavalo (1491), o 
rei teve de indicar herdeiro do trono o irmão mais novo da rainha, D. Manuel, 
decisão que pressupunha uma futura restauração das casas nobres banidas. O 
que nunca se perdeu foi o prestígio e a autoridade obtidas para a Coroa. 


A expulsão dos Judeus de Castela e Aragão (1492) pôs para Portugal um sério 
problema. Muitos judeus espanhóis, talvez a maioria, olharam o país vizinho como 
um estado pacífico e progressivo, onde de há muito se não registavam 
perseguições contra a sua raça. Ofereceram a D. João Il uma soma considerável 
de dinheiro se este os deixasse entrar. Para Portugal, a situação era difícil: por um 
lado, uma súbita «invasão» de vários milhares de gente dextra e experimentada, 
fortalecendo a colónia judaica portuguesa, viria criar ttemendos problemas de 
natureza económica, social, religiosa e étnica; pelo outro, parecia lamentável 
recusar uma oferta monetária tão avultada. D. João Il buscou uma solução de 
compromisso: ao preço de oito cruzados por cabeça autorizaria a entrada dos 
Judeus mas não os deixaria permanecer no Pais mais de oito meses. Nestes 
termos, mais de cinquenta mil pessoas entraram em Portugal, embora a maior 
parte voltasse a sair no prazo devido. Expirado este, grande número foi reduzido 
ao cativeiro; só umas 600 famílias conseguiram comprar licença de residência 
permanente. Como eram as mais abastadas e as mais poderosas, só a sua 
presença chegava para desequilibrar a balança precária de coexistência pací- 


A evolução política 295 
fica com os Cristãos, levando às medidas de violência do reinado seguinte. 


A política externa de D. João Il visou grande número de pontos, na sua maior 
parte relacionados com a expansão ultramarina (ver Capítulo V). Depois de um 
primeiro sucesso conseguido com o tratado de 1479, ainda em vida de Afonso V 
mas provavelmente negociado por ele, D. João Il foi mais além, obtendo do Papa 
a divisão do mundo não-cristão em dois hemisférios, um para Portugal, outro para 
Castela (bula papal de 1493, seguida pelo tratado de Tordesilhas de 1494). Os 
seus ousados navegadores estavam em vésperas de alcançar a índia por mar 
quando o soberano faleceu (1495). Anos atrás, acrescentara aos títulos reais o de 
«senhor de Guiné», expressão significativa da importância económica e política da 
expansão ultramarina. 


D. Manuel 1 (1495-1521) herdou uma situação difícil. O País fora verdadeiramente 
dilacerado pela política rude e falha de escrúpulos do Príncipe Perfeito. Paz, 
centralização, alargamento do património da Coroa tinham sido conseguidos a 
preço de um quase total aniquilamento do partido feudal e do confisco da sua 
propriedade. A tarefa de D. Manuel, espécie de síntese entre a complacência de 
Afonso V e a ferocidade de João Il, iria ser um meio termo razoável visando a 
conciliar as facções rivais. Nessa missão tão árdua, o monarca triunfou 
notavelmente. Os frutos da expansão ultramarina traziam- riqueza, cargos ou, pelo 
menos, esperança para as classes superiores. Comandos militares e combates na 
Ásia e na África davam à nobreza oportunidade de se afirmar sem perturbação da 
paz metropolitana e 


de enriquecer sem defraudar o património real. Além disso, os 


nobres sentiam-se novamente úteis e eram-no, de facto, como sedimento de 
burocracia qualificada para os cargos superiores da administração colonial. 


O reinado de D. Manuel parece igualmente ter sido caracterizado por uma 
excelente administração. A preocupação de reformar e o número de reformas 
efectuadas em todos os campos documentam a existência de um pequeno grupo 
de ministros ou secretários de gabinete, todos eles experimentados e devota- 


296 O estado do Renascimento 


dos à tarefa governativa. O próprio rei parecia saber como escolhê-los e utilizá-los. 
.D. Manuel restaurou os Braganças e as outras famílias banidas ao pleno gozo 
das suas antigas dignidades, privilégios e património. Sendo governador da 
Ordem de Cristo e beneficiando dos primeiros frutos da índia, podia permitir-se o 
luxo de ser generoso e misericordioso, embora jamais houvesse condenado os 
actos do seu antecessor e tributasse sempre louvor e respeito à sua memória e 
feitos. Durante mais de um século, e apesar de toda a opulência e prestígio que 
tinham, os Braganças (como todos os outros nobres) deixaram de constituir 
problema especial para a política régia de autoridade e de centralização. 

O mesmo se diria da Igreja. 


Adiando a convocação de cortes e unificando o sistema municipal, D. Manuel | 
obteve a subjugação do povo, que uma administração mais cuidada e a atracção 
ultramarina ajudaram a refrear e a governar sem dificuldade. 


Tarefa mais complicada se apresentou com a questão judaica. Faltam-nos as 
fontes a darem conta do impacto da súbita imigração de 1492 na situação 
económica, social e religiosa do País. É bem possível que monografias sobre o 
período de 1492 a 1497 revelassem as rivalidades entre mercadores e capitalistas 
judeus-espanhóis e os seus congéneres portugueses, a que se teriam de somar 
os comerciantes estrangeiros e os burgueses nacionais cristãos. D. Manuel 
começou o reinado libertando os Judeus cativos, medida simbólica de clemência 
que não deve ser tomada muito a sério. Contudo, um ano mais tarde, decidia-se 


pela expulsão. Como pretexto, serviu o casamento com a piedosa D. Isabel, filha e 
quase-herdeira dos monarcas castelhanos. A noiva e seus pais requereram, como 
condição para o enlace, a imediata expulsão dos Judeus, à maneira castelhana e 
de acordo com os planos iniciais do próprio D. João Il. Diga-se de passagem que 
outras nações europeias tinham procedido da mesma forma alguns anos antes. 
Casando com D. Isabel, o rei português ficava muito próximo dos tronos 
castelhano e aragonês, o que eventualmente implicaria a união futura de toda a 
Península Ibérica. Não havia margem para hesitações. Todos 


A evolução política 297 


os judeus foram teoricamente expulsos desde Dezembro de 1496 a Outubro de 
1497, no meio de incrível violência, roubo e confusão. Em Abril de 1497 o 
monarca foi a ponto de determinar que todas as crianças abaixo de catorze anos 
fossem impedidas de deixar o País, sendo distribuídas por famílias portuguesas e 
educadas na fé cristã. Era claramente um convite à conversão generalizada, um 
passo atrás na política de expulsão, talvez porque grande número de judeus 
houvesse já deixado Portugal e parecesse conveniente que ficassem os restantes. 
Foi isso o que efectivamente aconteceu, preferindo vários milhares de judeus 
aceitar o baptismo a perder filhos e propriedade. Conhecidos como cristãos-novos, 
não iriam ser incomodados durante mais de trinta anos, por decisão legal 
sucessivamente prorrogada e com 


termo final em 1534; ninguém poderia inquirir da sua fé nem eram obrigados a 
usar sinais distintivos. 


A ordem de expulsão abrangia também os Muçulmanos livres. Tratava-se de uma 
medida pouco mais do que teórica, uma vez que, em sua maioria, tinham já sido 
absorvidos pela comunidade cristã. Saíram de Portugal sem violência e não 
suscitaram problemas de maior. 


Buscando soluções intermédias e tergiversando onde não havia compromisso 
possível, tanto D. João Il como D. Manuel | criaram um tremendo problema social 
e religioso, cujas consequências se iriam arrastar por séculos. Começou 
imediatamente o descontentamento contra os Cristãos-novos entre as classes 
inferiores e o baixo clero. Um primeiro tumulto ocorreu em 

1504. Dois anos mais tarde, um pogrom em Lisboa causava a morte de uns dois 
mil ex-judeus. Outros Indultos e medidas discriminatórias ilegais -pois já as havia, 
legais, em número suficiente, não sendo permitido aos Cristãos-novos deter 
honras, cargos públicos, casar dentro da nobreza, etc. - ocorreriam aqui e ali 
durante várias décadas. 

Outra (breve) preocupação de D. Manuel respeitou à sua política para com. 
Castela. O sonho da unificação obcecava os monarcas da Ibéria. Depois das 
tentativas medievais e das camcanhas de Afonso V tecer-se-ia uma rede pacífica 
mas sistemática de casamentos reais. Seus primeiros frutos tiveram lugar 


298 O estado do Renascimento 


no reinado de D. Manuel. A morte do príncipe D. João, herdeiro do trono 
castelhano-aragonês (1497), pôs a rainha D. Isabel, mulher do soberano dem 
Portugal, na ordem imediata da sucessão. Os dois cônjuges foram, assim, jurados 
como herdeiros dos tronos de Castela e Aragão (1498). Dois meses mais tarde, 
porém, Isabel morreu de parto e o príncipe recém-nascido, D. Miguel, passou a 
herdeiro das três coroas, o que unificaria a Península. Mas a sua morte, em 1500, 
pôs ponto final no sonho. D. Manuel ainda casou com a irmã mais nova de sua 
defunta mulher, D. Maria (entre ambas existia ainda D. Joana, a herdeira) e, 
muitos anos depois, com sua sobrinha D. Leonor, mas já com menos 
probabilidades de vir a herdar a sucessão de Espanha. 


No entretanto, Vasco da Gama chegara à Índia por mar (1498), regressando um 
ano mais tarde, em triunfo, os navios carregados de especiaria, com enorme fama 
e prestígio para o seu rei. Aclamado como o mais rico monarca da Cristandade, D. 
Manuel acrescentou aos seus títulos um rosário de novas e orgulhosas 
invocações: «senhor da conquista, navegação e comércio de Etiópia, Arábia, 
Pérsia e Índia» (1499). A partir de 1500, e até ao fim do reinado, os Portugueses 
só obtiveram vitórias por toda a parte, da Arábia à Malásia, controlando 
inteiramente o oceano indico. Os títulos de D. Manuel tinham plena justificação e 
correspondiam a uma situação de facto. 


No Norte de África, os Portugueses esforçaram-se, e de certa maneira com bons 
resultados, por conseguir fortalecer as suas testas de ponte, conquistando 
sucessivamente Santa Cruz do Cabo de Gué (perto de Agadir) em 1505, Mogador 
(perto da actual Essauira) em 1506; Safim (Safi) em 1508, Azamor (hoje Mulai Bu 
Saib) em 1513, e Mazagão (El-Jadida) em 1514. A cost (O marroquina passava 
para todos os efeitos o ser controlada por Portugal, desaparecendo o perigo da 
pirataria muçulmana ao navegar-se para sul. Ao mesmo tempo, era 
consideravelmente aliviada a pressão marroquina sobre as importantes bases 
portuguesas do extremo norte (Ceuta, Tânger, Arzila). Motivações económicas 
também desempenharam o seu papel. Contudo, os constantes ataques mouros 
tornavam a expansão no Norte de África extremamente difícil e economicamente 
proibitiva. Ainda em 


A evolução política 299 


Tânger C uta(Sebta) 
141-,' Alcácer Cequer(Al- sr al-SaDir) Arzila (AsRa;OD 


Azamor (Mulai Bu Saib) Mazagão (E]-Jadida) OS41 
Saf ím (Saf i) /J.11- (OD.44f 


Mogador (Essauira) 


f.4 /41. 
Santa Cruz do Cabo de Gu4i (Agadir) /1.fos. 1/4), 


o 200 km 
111 


Fig. 39 - Conquistas e perdas em Marrocos, 1415-1769 


tempo de D. Manuel, os Portugueses foram obrigados a abandonar Mogador 
(1510). Seu filho D. João Ill, depois de algumas décadas de precária manutenção, 
decidiu abandonar os sonhos de controlar Marrocos: quando Santa Cruz do Cabo 
Gué caiu em poder dos Muçulmanos depois de longo cerco (1540-41), Safim e 
Azamor foram abandonadas (1541); alguns anos mais tarde o mesmo acontecia a 
Arzila e a Alcácer Ceguer (1550). Apenas se conservaram Ceuta, Tânger e 
Mazagão. 


300 O estado do Renascimento 


João Ill O longo reinado de D. João 111 (1521-57) pode ser dividido em dois 
grandes períodos, diferenciados pela situação económica, a atitude religiosa, a 
política cultural e até o modo psicológico do soberano. O príncipe tolerante, aberto 
às correntes internacionais do pensamento, louvado por humanistas e sempre 
disposto a acolhê-los, o verdadeiro Mecenas, deu lugar a um governante fanático 
e curto de vistas, inteiramente nas mãos da Companhia de Jesus e dos 
defensores de uma estrita política de Contra-Reforma, mandando prender e 
condenar aqueles mesmos que antes convidara, mesquinhamente reduzindo 
despesas e subsídios, fechando escolas e geralmente isolando-se, e ao País, de 
influências externas. 


Se o panorama difícil de tipo económico e militar (ver Cap. Vl e VII) pode, em certa 
medida, explicar as grandes mudanças que ocorreram em Portugal a partir da 
década de 1540, é bem possível que razões de carácter pessoal tenham 
igualmente influenciado o monarca. Todos os seus nove filhos morreram antes de 
atingir os dezanove anos de idade, juntamente com cinco irmãos e irmãs, e a 
maioria de todos eles nos finais da década de 1530 e nos começos da de 1540. A 
religião, até aos extremos de fanatismo, oferecia ao rei e à rainha o único consolo 
e absolvição da culpa de tolerância para com os hereges, os Judeus e outros 
católicos tíbios. 


O estabelecimento da Inquisição, aliás um projecto de D. Manuel com objectivos 
mais políticos do que religiosos, foi aceite pelo Papa em 1536, mas só onze anos 
mais tarde se levantaram as restrições à sua liberdade completa de acção. Pela 
mesma altura (1540) entravam no País os primeiros jesuítas. 


A política externa de Portugal decorreu com relativa calma, apesar dos crescentes 
ataques franceses às possessões atlânticas (v. Cap. V). O rei ia-se gradualmente 


desinteressando dos assuntos europeus genéricos, absorvido como estava pela 
grande expansão ultramarina. Com seu cunhado Carlos V chegou a acordo sobre 
a posse das Molucas em 1529. D. João Ill casara com uma das irmãs de Carlos V, 
Catarina (1525), enquanto Carlos se consorciara com uma das irmãs de João, 
Isabel (1526), melhorando 


A evolução política 301 
assim as possibilidades de uma futura união das coroas espanhola e portuguesa. 


A expansão e a aparente riqueza de Portugal tornavam o seu soberano respeitado 
por todos os monarcas da Europa. D. João Il, D. Manuel | e D. João Ill adquiriram 
certa fama como bons administradores e modelos de príncipes do Renascimento. 
Não admira que os contactos internacionais fossem numerosos e que as 
interinfluências de tipo cultural e económico servissem os interesses de ambas as 
partes. 


Bibliografia-As obras fundamentais são as histórias gerais já tantas vezes 
mencionadas (Fortunato de Almeida, Damião Peres), bem como o Dicionário de 
História de Portugal. As biografias que existem sobre os vários monarcas são 
todas de valor mediocre ou nulo. As melhores devem-se a F. A. da Costa Cabral, 
D. João Ile a Renascença Portuguesa, Lisboa, 1914, e a Alfredo Pimenta, D. João 
Ill, Porto, Tavares Martins, 1936, esta última muito deficiente em interpretação 
mas assaz útil por causa das suas muitas notas, referências e citações. 


1 -Descobrimento e conquista 


Nos começos da década de 1460, os Portugueses tinham alcançado o golfo da 
Guiné. Durante algum tempo, acreditaram haver chegado ao fim da África, com a 
perspectiva de uma índia bem próxima. Contudo, tal possibilidade não fez acelerar 
o ritmo da descoberta. Pelo contrário. Os decénios de 1460-70 e 1470-80 foram 
períodos de afrouxamento. A expansão ultramarina vinha em segundo ou terceiro 
lugar na ordem de prioridades do rei e na política oficial da Coroa. Conquistar no 
Norte de África ou aspirar ao trono de Castela ocupavam, indubitavelmente, o 
primeiro plano. 


Com a morte do infante D. Henrique (1460), o seu sobrinho Infante e herdeiro 
Fernando, irmão do rei, tomou conta da empresa. D, Fernando Fora-lhe dado o 
senhorio de todas as ilhas e terras descobertas. Era o governador da Ordem de 
Cristo, à qual juntava o mestrado da de Santiago, ainda mais opulenta. Tido como 
o homem mais abastado de Portugal, D. Fernando estava na posse de todas as 


condições para continuar com o descobrimento do mundo, se porventura isso o 
interessasse. 


Obviamente não o interessava. Como seu irmão, era Marrocos que lhe dizia 


alguma coisa. Até à sua morte em 1470, só o Norte de África lhe mereceu 


esforços e fortuna. 


A tarefa de descobrir novas terras foi mesmo entregue a fernão Gold um 
mercador de Lisboa, como se de mera operação económica 


306 Surto do Império 


se tratasse. Em Novembro de 1468, a Coroa arrendava a Fernão Gomes, por 
cinco anos, o monopólio do comércio com a costa africana (com algumas 
excepções), com a condição de ele mandar descobrir, anualmente, cem léguas de 
costa. Em 1473 este contrato foi prorrogado por mais um ano. Na verdade, de 
1469 a 1474 ficou explorada toda a costa setentrional do golfo da Guiné e o 
começo da sua costa oriental. De distinguir foram as expedições de João de 
Santarém e Pero Escolar, que alcançaram o actual Ghana (1471); a viagem de 
Fernão do Pó, que chegou à bala de Biafra, nos presentes estados da Nigéria e 
dos Camarões (14727), descobrindo também a ilha que hoje tem o seu nome mas 
que ele denominou Formosa; e a de Lopo Gonçalves e Rui de Sequeira, que 
atingiram a costa oriental, até ao actual Gabão, cerca de 2<* de latitude sul (1474- 
75). Estava, assim, passado o equador. Pela mesma época, achavam-se 
igualmente as outras ilhas do Golfo: São Tomé, o Príncipe e Ano Bom. Os 
navegadores deixaram traço da sua passagem em toda. a linha de costa, dando 
nome a cabos, rios, balas e serras. Alguns persistiram até à actualidade. Visando 
acima de tudo o comércio e dependendo de um mercador, não admira que 
tivessem crismado com alusões à principal mercadoria que lá achavam vastas 
extensões costeiras: Costa da Malagueta (hoje Libéria), Costa do Marfim, Costa 
do Ouro (hoje Ghana), Costa dos Escravos (hoje Togo e Dahomey). 


Infante D. João Em 1474, o moço infante D. João - futuro D. João Il - foi 


posto à testa da expansão ultramarina. A ele, mais do que ao infante D. Henrique 
ou a outro qualquer, se deve a criação de um plano coerente de descobertas, com 
seus meios e fins bem estabelecidos. O infante D. João, ou seus conselheiros, 
conceberam o projecto de chegar à Ásia (à Índia de hoje) por via marítima e 
subordinaram-lhe todos os esforços. 


A situação na metrópole (cf. capítulo IV) impediu que se recomeçassem os 
descobrimentos antes do começo da década de 1480. Até essa altura, D. João 
limitou os seus esforços à consolidação do domínio português na África Ocidental, 
tanto militar como economicamente. 


O principal perigo provinha de Castela. A guerra entre os dois países (1474-79) 
deu à rainha Isabel de Castela o pretexto 


Descobrimento e conquista 307 


de renovar as pretensões à suserania sobre os mares africanos e de desafiar o 
monopólio português. Várias esquadras castelhanas lutaram contra os navios 


portugueses no golfo da Guiné e meteram-se a traficar com os indígenas. Para 
manter os seus direitos de exclusivo, a Coroa portuguesa teve assim de renunciar 
às pretensões tradicionais sobre as Canárias. Pelo tratado de Alcáçovas (1479), 
ratificado em Toledo no ano imediato e confirmado pelo Papa em 1481, Castela 
reconhecia o monopólio português a sul daquelas ilhas. Para norte delas, Portugal 
era também reconhecido como senhor dos arquipélagos da Madeira e dos Açores. 


Em 1482, D. João Il mandou a sua primeira expedição à Diogo Cúe descoberta da 
África sob o comando de Diogo Cão, escudeiro de sua casa. Iria ser uma das mais 
importantes de todas. Durante o ano e meio em que esteve ausente, Diogo Cão 
descobriu 130 de costa a sul do equador, abrangendo os actuais Gabão, Congo e 
a maior parte de Angola (até cerca de 15” Sul). Numa segunda viagem, alcançou 
220 WS, no Sudoeste Africano dos nossos dias, quase atingindo o trópico de 
Capricórnio (1485-86). 


Devidamente instruídos pelos seus senhores e escrupulosamente seguindo os 
regulamentos escritos que muitas vezes levavam consigo, os navegadores tinham 
por missão procurar passagens para oriente, marítimas e fluviais. Os grandes rios 
eram em geral, subidos durante algum tempo, na esperança de possíveis 
contactos com civilizações que soubessem como alcançar o Preste João, se não o 
próprio reino do Preste João. Foi o que aconteceu com o rio Zaire também. Na sua 
primeira viagem, Diogo Cão enviou emissários portugueses rio acima, com 
presentes a um soberano poderoso de que lhe haviam falado alguns indígenas. 
Como não tivessem regressado dentro de certo prazo, Diogo Cão decidiu voltar ao 
reino, levando consigo alguns reféns mas prometendo voltar em breve. Na sua 
segunda viagem, explorou o estuário do Zaire, trocou os reféns pelos emissários 
portugueses e subiu o curso do rio durante cerca de 100 milhas, até às cataratas 
de lelala, deixando a sua passagem assinalada em algumas inscrições. Foi bem 
recebido por um potentado 


308 

Surto do Império 

Fig. 40 “Descobrimentos e estabelecimentos em África desde 1460 

negro, o chamado rei do Congo, lançando os fundamentos para futuras relações. 
Uma inovação, que começou com a primeira viagem de Diogo Cão, consistiu em 
trazer de Portugal uns quantos pilares de pedra com uma cruz, para os deixar, 
gravados com as armas reais e uma legenda cronológica, em cabos e rios 
importantes como padrões da presença portuguesa. E espantoso como puderam 
sobreviver alguns desses padrões, descobertos no século passado e hoje 


venerados em museus. Um deles, referindo-se à 


Descobrimento e conquista 309 


primeira viagem de Diogo Cão, diz o seguinte. «Era da Creacã do Múdo de Seis 
Mil Bjc Lxxxj Anos do Nacimento de Noso Senhor Jesliu de Mil CCCCLxxxjj Anos 
o Muj Alto Muj Eicelete Poderoso Principe ElRey Dó Joam Segundo de Portugal 
Mãdou Descobrir Esta Terra e Poer Estes Padrões por Diogo Cão Escudeiro de 
sua Casa». 


Em 1487, o rei mandou Bartolomeu Dias, outro dos seus escudeiros, tentar o 
descobrimento do caminho marítimo para a índia que agora se julgava estar 
próximo. Procurar o Preste João deixara de constituir o fito principal, e a índia - a 
autêntica índia asiática, fonte da especiaria - mostrava-se agora o objectivo 
desejado. Com três caravelas, Bartolomeu Dias navegou para sul, ultrapassou o 
limite atingido por Diogo Cão e explorou a costa do presente Sudoeste Africano e 
da África do Sul até à latitude de Table Bay (33-34*> S). Uma tempestade forçou-o 
a abandonar a costa. Continuou para sul durante alguns dias, depois fez proa a 
oriente, tentando alcançar a costa outra vez. Não a encontrou. Rumou então para 
norte e, depois de algum tempo, estava à vista de terra (Mossel Bay). Concluiu 
correctamente que atingira por fim o extremo da África e que o caminho marítimo 
para a índia estava aberto (1488). Desejando ser o 


primeiro a pôr pé na índia, tentou convencer os outros navios, bem como a 
tripulação do seu próprio, a prosseguir a viagem. Mas como toda a gente, à 
excepção do comandante, estava cansada e desejosa de regresso, só conseguiu 
continuar até um ponto próximo da actual East London, na África do Sul. No 
retorno a Portugal, explorou então toda a costa, descobrindo os dois cabos que 
marcam o fim da África (cabo das Agulhas e cabo da Boa Esperança), e 
chamando assim ao último -o mais impressionante, o que parecia estar mais a sul- 
na esperança simbólica de que fora aberto o caminho para a índia. Em Dezembro 
de 1488 estava de volta a Lisboa com boas notícias para o 


seu rei. 


Por esse mesmo tempo, D. João Il enviava dois emissários Viagens à Etiópia por 
terra (o reino do Preste João), a fim de obterem i Eti, pi informes sobre o 
comércio com o Oriente e sobre outros assun- 


310 Surto do Império 


tos. Não era a primeira tentativa deste género nem seria a última. Contudo, a sua 
importância ultrapassou a de todas as outras, devido aos objectivos atingidos e ao 
volume de informação recebida. Disfarçados de mercadores, Pero da Covilhã e 
Afonso de Paiva saíram de Lisboa em Maio de 1487, viajando juntos até Aden, via 
Valência, Barcelona, Nápoles, Rodes, Alexandria, Cairo e Suez. O destino de 
Afonso de Paiva ignora-se. Pero da Covilhã, contudo, continuou até à índia, onde 
visitou Cananor, Calicut e Goa, prosseguindo depois para a Pérsia e a África 
Oriental. De regresso ao Cairo, enviou a D. João Il um relatório pormenorizado 
sobre o que vira e ouvira. Chegou finalmente à Etiópia, onde se fixou, casou e veio 
a morrer depois de 1526. Apesar de jamais ter voltado a Portugal, Pero da Covilhã 


teve provavelmente importância decisiva na transmissão de conhecimentos 
necessários sobre as rotas comerciais, pontos de origem de muitas mercadorias e 
porventura bons locais de acesso e colonização. Esses conhecimentos devem ter 
ajudado a preparar a expedição de Vasco da Gama e os primeiros passos da 
política portuguesa no oceano índico. 


Viagens Ao mesmo tempo que prosseguiam na descoberta da África, Para 
Ocidente os Portugueses iam também navegando para ocidente, em busca 


de novas ilhas e, mais tarde, da ponta oriental da Ásia. Muito se tem escrito sobre 
estas viagens com boa dose de imaginação à falta de argumentos mais 
convincentes. Como o oceano Atlântico se mostra relativamente pobre em ilhas, e 
como o registo das viagens se relacionava, em geral, com descobrimentos de 
terra, é provável que grande número de expedições tenha ficado por anotar e se 
haja assim perdido para a História. Contudo, sempre existem algumas provas e 
suficientes relatos para suposições e hipóteses. 


Nas décadas de 1460, 1470 e 1480, diversas cartas régias concederam direitos de 
senhorio a navegadores, ou confirmaram-nos a seus herdeiros, sobre ilhas ou 
terras que se dizia terem sido vistas à distância. Em alguns casos, organizavam- 
se expedições para as procurar mais tarde. Todas elas fracassaram. Contudo, 
antes de 1474, dois nobres, João Vaz Corte Real e Álvaro Martins Homem, parece 
terem alcançado a Gronelândia ou a Terra Nova, 


Descobrimento e conquista 311 


a que chamaram Terra dos Bacalhaus. Outros se lhes seguiram na década de 
1480. Um deles, Fernão Dulmo, levando consigo duas caravelas, tentou em vão 
achar a «ilha das Sete Cidades» por volta de 1486 ou 1487. 


Seja como for, do que não há dúvida é de que, no começo da década de 1490, se 
difundira amplamente entre os Portugueses, em especial os que viviam nos 
Açores e Madeira, a crença na existência de terras a ocidente. Circulavam toda a 
espécie de histórias, não já baseadas unicamente nas lendas tradicionais mas 
antes com fundamento na experiência de duas ou três gerações de marinheiros. O 
Mar dos Sargaços, aves que voavam não se sabia donde, pedaços de madeira 
dados à praia ou apanhados pelos mareantes, a convicção de muitos gajeiros, de 
terem avistado terra, tudo estava na base para a crença e a crescente curiosidade. 


Tanto o rei como os seus conselheiros conheciam, evidentemente, o problema e 
haviam-no estudado. Aceitavam a teoria da esfericidade da Terra, admitindo, 
portanto, que a Ásia podia ser alcançada por ocidente, tanto como por oriente. 
Mas apesar do seu imperfeito conhecimento da extensão real do continente 
asiático, que situava a China e ilhas suas adjacentes. muito mais próximas da 
Europa do que o são na realidade, sabiam que a via do oriente era 
consideravelmente mais curta do que a do ocidente. 


Cristóvão Colombo vivera alguns anos em Lisboa e na Ma- colombo deira, onde 
aprendera ou se aperfeiçoara na arte de navegar, familiarizando-se com a ciência 
geográfica. Fora mesmo à Guiné uma ou duas vezes. Ousado e ambicioso, com 
precedentes em muitos outros estrangeiros que haviam servido sob a bandeira 
portuguesa, Colombo foi oferecer os seus serviços a D. João Il (1483 ou 1484). 
Pretendia chegar à índia navegando para ocidente. O seu projecto, porventura o 
resultado de uma muito imprecisa ideia geográfica concebida pelo cosmógrafo 
florentino Paolo del Pozzo Toscanelli, supunha uma distância de 1350 entre 
Portugal e o Extremo Oriente pela via ocidental. Essa distância é, na realidade, de 
2170 e os cosmógrafos portugueses do tempo avaliavam-na já num mínimo de 
1831. Suspeitavam por isso, e 


312 
Tratado de Tordesilhas 
Surto do Império 


com razão, que Diogo Cão estivera mais próximo da índia do que outro qualquer, 
e insistiam em prosseguir com o plano do caminho marítimo oriental. O projecto de 
Colombo foi rejeitado por absurdo e o Genovês saiu de Portugal desesperado 
(1.4857). 


Quando o próprio Colombo, ao regressar da América depois da sua primeira 
viagem (Março de 1493), fez escala em Lisboa e foi apresentar os seus respeitos 
ao rei, D. João Il fez-lhe notar que as terras recém-descobertas pertenciam à 
Coroa portuguesa, visto situarem-se a sul das ilhas Canárias (tratado de 1479-80). 
O Príncipe Perfeito imediatamente enviou uma embaixada aos 


reis católicos, mandou preparar uma esquadra sob o comando de D. Francisco de 
Almeida para ir tomar posse das novas ilhas e manifestou outros propósitos 
belicosos. 


Entabularam-se desde logo negociações. Desejosos de evitar a guerra, Isabel e 
Fernando pediram apoio papal para as suas pretensões. O Papa Alexandre VI, um 
espanhol, gizou apressadamente uma bula com erros geográficos e totalmente 
inaplicável, dividindo o mundo desconhecido em duas partes, a oriental para 
Portugal e a ocidental para Castela, segundo um meridiano passando a 100 
léguas (320 milhas) a oeste dos Açores ou das ilhas de Cabo Verde (entre os dois 
arquipélagos há uma diferença de longitude de 5 graus, mais ou menos ... ). 
Negociações directas entre os dois países conduziram a um acordo melhor: pelo 
tratado de Tordesilhas (1494), a Terra era dividda em duas áreas de 
descobrimento e conquista, segundo uma linha meridiana passando a 370 léguas 
(1184 milhas) a oeste das ilhas de Cabo Verde. A parte ocidental caberia a 
Castela, a oriental a Portugal. 


O tratado de Tordesilhas impediu uma guerra entre as duas nações e entregou a 


cada uma delas a sua área livre de descoberta e expansão. Contudo, e embora 
tivesse durado oficialmente até 1750, as suas cláusulas nunca foram cumpridas 
no pormenor. A ocidente, não travou a expansão portuguesa no Brasil, muito para 
além da linha de demarcação. A oriente, não impediu os 


Espanhóis de clamarem direitos às ilhas Molucas, claramente situadas no 
hemisfério português, e de só renunciarem a elas a troco de-dinheiro. 


314 Surto do Império 


Preciso como se mostrava, o pormenor das 370 léguas constituía prova bastante 
de que o monarca português sabia da existência de terras, algures no Atlântico, 
situadas a ocidente do limite inicial das 100 léguas proposto pelo Papa. De facto, 
fontes mais tardias parecem revelar que houve uma viagem de descobrimento no 
começo da década de 1490, atingindo, ou pelo menos avistando, o continente sul- 
americano. Mapas existentes no paço real de Lisboa e desenhados antes de 1500 
mostravam terra por 


essa zona. 
sco da Gama Por alguma razão, D. João Il não pôde imediatamente enviar 


outra expedição a explorar o caminho anunciado por Bartolomeu Dias depois da 
viagem de 1488. Os resultados da viagem de Colombo e as negociações com 
Castela estiveram porventura na base de novos adiamentos até 1494. Em 1495 
falecia D. João Il, depois de ter iniciado os preparativos para a expedição decisiva 
que havia de chegar à índia e de mesmo ter nomeado o seu comandante 
supremo, o nobre Vasco da Gama. Prudentemente, o novo rei não introduziu 
alterações nos planos estabelecidos, que tratou de levar a efeito logo que a sua 
autoridade no reino se achou firmemente estabelecida. 


Vasco da Gama partiu de Lisboa com três navios e um barco de mantimentos em 
Julho de 1497. Fez escala na ilha de Santiago, em Cabo Verde, e daí navegou 
directamente para sul, no que viria a ser a mais longa viagem distante de terra até 
então empreendida. Virou a sudoeste para evitar as calmarias do golfo da Guiné, 
depois a sueste para alcançar novamente a costa africana. Passados noventa dias 
sem avistar terra, aportou à bala de Santa Helena, na África do Sul de hoje 
(Novembro de 1497). Passou o cabo da Boa Esperança com certa dificuldade, 
causada pelo tempo. Depois de ultrapassar o limite das navegações de 
Bartolomeu Dias, a expedição iniciou as suas descobertas próprias: Natal, no dia 
25 de Dezembro, o rio Zambeze um mês mais tarde, a ilha de Moçambique (151 
S) em começos de Março. Estava-se já em terra muçulmana e havia pilotos 
disponíveis. A -frota atingiu Mombaça, na actual Quénia, depois Melinde, um 
pouco a norte (Abril de 1498), onde se puderam entabular relações amigáveis e 
obter um piloto árabe famoso (Ahmad Ibri Majid) 


Descobrimento e conquista 315 


que levou os barcos até à índia. Empurrada pela monção de sudoeste, a frota 
estava à vista da índia em 18 de Maio. O desembarque realizou-se quatro dias 
mais tarde. Chegara a bom termo 


o grande feito. 


Depois de três meses de negociações, com alternativas de amizade e de 
hostilidade aberta, Vasco da Gama iniciou o caminho do regresso, trazendo os 
navios carregados de especiarias e de outras mercadorias de preço. Largando aos 
29 de Agosto de 1498, chegou a Lisboa, depois de grandes dificuldades e de ter 
perdido um navio, nos finais do Verão de 1499. A viagem durara ao todo mais de 
dois anos, mas os resultados eram espectaculares e promissores. 


Imediatamente foi preparada expedição mais poderosa. Com- Cabral posta de 
treze navios e comandada por Pedro Alvares Cabral, outro nobre, saiu de Lisboa 
em Março de 1500. Os navios seguiram a mesma rota que anteriormente, mas, 
sem qualquer razão aparente, navegaram para sudoeste mais do que Vasco da 
Gama fizera. Isto levou-os ao descobrimento do Brasil em 22 de Abril de 1500, 
terra a que primeiro chamaram de Vera Cruz. Desembarcando a norte do actual 
Porto Seguro (160 S), comunicaram com os indígenas e exploraram a costa por 
algum tempo. Cabral despachou um dos navios para Portugal com as grandes 
novas e prosseguiu para a índia, aonde chegou em Agosto de 1500. Regressou 
em Junho-julho de 1501. Em vez dos iniciais dois anos, esta segunda viagem 
durara uns quinze meses apenas e trouxera lucros muito maiores e um novo 
território à Coroa portuguesa. 


Descrições contemporâneas mostram que a descoberta do Brasil não suscitou 
admiração de maior. É óbvio que se sabia da existência de terras algures nessa 
área, o que explica o pormenor das 370 léguas no tratado de Tordesilhas. Se o 
Brasil fora já visitado antes, avistado à distância ou simplesmente conjecturado 
por alguns sinais de terra, continua a ser matéria para discussão entre partidos de 
historiadores. Até hoje, nenhum deles conseguiu trazer provas convincentes da 
sua argumentação. 

O que parece lícito afirmar é que as expedições castelhanas que exploraram parte 
da costa setentrional da América do Sul em 


316 Surto do Império 
1499-1500 não foram além da Guiana Francesa, se é que lá chegaram. 


Viagens O desafio posto por Cristóvão Colombo incitou os Portu à América 
gueses a navegarem para ocidente, sobretudo na direcção de do N,ri, 


noroeste. Por 1495, Pero de Barcelos e João Fernandes Lavrador (cujo 


sobrenome seria ulteriormente aplicado à costa canadiana) descobriram ou 
redescobriram a Gronelândia. Em 1500, Gaspar Corte Real chegou à Terra Nova 


(já antes descoberta por Caboto), que explorou em pormenor. Numa segunda 
viagem ficou no. mar, sendo possível que tivesse alcançado a costa da América 
do Norte. Seu irmão Miguel, que partiu em sua busca, desapareceu também 
(1502). 


Nomes portugueses em mapas dos começos do século xvi sugerem igualmente a 
existência de outras expedições que podem ter alcançado a Flórida antes de 
1500. Viagens posteriores descobriram ou exploraram algumas ilhas ou até 
fragmentos de continente ao longo da costa norte-americana. Mas vago foi o seu 
registo e claramente não se prestou atenção oficial à América do Norte, 
considerada dentro do hemisfério espanhol. Só pescadores passaram a vir com 
regularidade às águas do Canadá e da Gronelândia em busca de bacalhau e de 


baleias. 
América Na América do Sul, continuou o processo do descobrimento. 
do Sul A partir de 1501, várias expedições portuguesas (numa delas 


participou como piloto, mas não como comandante, Américo Vespucci) exploraram 
a costa brasileira de norte a sul e de leste a oeste. Já em 1502 se tinha atingido o 
que é hoje o Uruguai e a Argentina, até à região do rio da Prata. Contudo, seria só 
mais tarde que um navegador português servindo sob bandeira espanhola, João 
Dias de Solis, havia de explorar cuidadosamente o estuário do grande rio, onde 
morreu, morto pelos indígenas (1515). 


Nas águas do Atlântico Sul, as poucas milhas existentes foram todas descobertas 
nos começos do século xvi. Em 1501 ou 1502, a armada de Joã o da Nova, a 
terceira que o rei de Portugal enviou à índia, encontrou tanto Ascensão como 
Santa 


Descobrimento e conquista 

318 Surto do Império 

Helena. A quarta armada da índia descobriu a Trindade (1502) e a oitava, em 
1506, Tristão da Cunha, do nome do seu comandante. Gough Island, 
originariamente chamada Gonçalo Alvares, a partir do nome do seu descobridor, 
foi achada em 1505. Ao largo da costa brasileira, Fernão de Noronha ou Loronha 
topou com a ilha a que chamou S. João (1502), mas que hoje leva o 


seu nome. 


Fernão de A sul do Rio da Prata, o continente americano caía indisMagalhies 
cutivelmente dentro do hemisfério espanhol, mesmo para os cál- 


culOS imprecisos do século xvi. Esse facto afastou os descobridores portugueses, 
que tinham já bastante que fazer com o quinhão que lhes cabia. Contudo, foi ainda 


um português, Fernão de Magalhães, quem, pela primeira vez, chegou à maior 
parte da actual Argentina, ao Chile e, depois, ao Oceano Pacífico. 

O intuito de Fernão de Magalhães não consistia tanto em circunmavegar o Mundo, 
como em achar um caminho marítimo para as ilhas Molucas. Tanto Portugal como 
a Espanha clamavam o direito à posse do arquipélago, fonte importante de cravo 
e de outras especiarias. Servindo o rei de Espanha como muitos outros 
portugueses (e como muitos castelhanos, juntamente com outros estrangeiros, 
serviam o rei de Portugal), Fernão de Magalhães desejava encontrar uma solução 
adequada para o seu rei, a maneira de atingir as ilhas sem ter de passar, senão 
num mínimo, por «águas portuguesas». 


Planeado por ele próprio e por outro português, o grande cosmógrafo Rui Faleiro, 
o projecto foi aceite pelo moço rei Carlos | (futuro imperador Carlos V) e posto em 
prática em 

1519. Fernão de Magalhães largou de Espanha, navegou com rumo a sudoeste, 
alcançou a costa da actual Argentina e prosseguiu para sul até descobrir o famoso 
estreito que hoje tem o seu nome, a almejada «passagem de sudoeste». 
Atravessou o oceano com espantosa sorte e, achando-o tão calmo e falho de 
tempestades, chamou-lhe «Pacífico». Foi parar às Filipinas, onde alguns 
indígenas o mataram, O imediato da expedição, o basco Sebastián de Eleano, 
continuou a viagem para ocidente, regressando a Espanha em 1522. 


Descobrimento e conquista 
319 


Outro piloto português, Estêvão Gomes, que tomara parte na expedição de 
Magalhães, foi encarregado pelo imperador Carlos V da descoberta de uma 
«passagem de noroeste». Partindo de Espanha em 1525, falhou no seu propósito 
mas explorou a costa americana entre a Terra Nova e a baía de Chesapeake: um 
mapa espanhol desenhado em 1529 chama a essa área «Tiera de Estevã 
Gomez», incluindo uma breve descrição dos feitos do navegador. Para nordeste, o 
mesmo mapa menciona a «Tiera, Nova de Corte Real» e a «Tiera del Labrador», 
tudo referindo-se a viagens e exploradores portugueses. Muito mais tarde, em 
1542-43, um outro piloto português, de novo sob bandeira espanhola, alcançou 
pela primeira vez a Califórnia, que cuidadosamente explorou até à baía de S. 
Francisco. Chamava-se João Rodrigues Cabrilho. 


O número considerável de portugueses participando nestas e noutras expedições 
espanholas (bem como francesas e inglesas), com importantes posições de 
comando, só prova a sua destreza em feitos de navegação ao tempo, que levava 
os estrangeiros a contratá-los como peritos sem rival em coisas do mar. Muito 
menor foi a contribuição estrangeira nas aventuras marítimas dos Portugueses, 
particularmente depois da segunda metade do século xv. Alguns, porém, houve, 
sobretudo espanhóis e italianos, que ajudaram com seus conhecimentos teóricos 
e práticos. Uma vez no oceano índico, os pilotos e a ciência náutica muçulmanos 
e hindús foram de inestimável concurso em guiar os Portugueses aonde quer que 


eles quisessem ir. 


A fama e a originalidade das descobertas na África e na América levam muitas 
vezes ao esquecimento de que o oceano índico e o continente asiático estavam 
sendo, pela mesma altura, completamente «descobertos» e «explorados» do 
ponto de vista ocidental. Antes da chegada dos Portugueses, não existiam na 
Europa quaisquer mapas pormenorizados da Ásia. Mercadores e missionários 
italianos e outros do Ocidente podiam bem conhecer unia parte da Ásia e havê-la 
explorado por terra muito melhor do que os Portugueses alguma vez o 
conseguiram fazer; todavia, não tinham em geral grande conhecimento da costa, 
nunca haviam navegado no oceano Índico por seus próprios meios e eram, por 
isso, de pouco auxílio quando se tratava de delinear 


Estêvão Gomes; Cabrilho 
ExPloração Indico e d< Pacífico 
320 Surto do Império 


um mapa da Ásia para fins de navegação. Foi isto que os Portugueses, ajudados 
pelos portulanos árabes parciais, fizeram pela primeira vez, publicando itinerários 
detalhados e cartas marítimas de todo o oceano indico. 


Ao largo da costa africana, a maioria das ilhas existentes foi visitada por Vasco da 
Gama, em 1498-99, durante a sua primeira viagem para a índia. A expedição de 
Cabral completou a exploração costeira, descobriu outras ilhas menores e achou 
Madagascar, originariamente crismada ilha de S. Lourenço. Seguiram-se as 
Seychelles, primeiro chamadas ilhas do Almirante (1503), depois Socotorã (1503), 
a costa da Arábia (de 1503 em diante), as ilhas Maldivas e o Ceilão (1505), a baía 
de Bengala (1505 em diante), o golfo Pérsico (1507 em diante), as ilhas Nicobar, 
Samatra e a península Malaia (1509), e o mar Vermelho (1513 em diante). 


No Pacífico, as primeiras expedições portuguesas começaram por 1511, após ter 
sido explorada a maior parte da Indonésia, até Timor. Pouco tempo depois, é 
possível que se tenha alcançado, ou avistado, a costa setentrional da Austrália, 
embora os Portugueses nunca se ocupassem da circurnnavegação da grande ilha. 
Jorge Álvares foi o primeiro ocidental a navegar até à China (1513), enquanto o 
Japão só muito mais tarde, no começo da década de 1540, viria a ser visitado por 
Fernão Mendes Pinto. 


Portanto, e com excepção da maior parte da China e do Japão, toda a costa 
asiática for navegada e descrita pelos Portugueses num período de cerca de 
quinze anos (1498-1513). 


Viagens Os objectivos económicos, políticos e religiosos que levaram interior 
Portugal a expandir-se para fora da Europa exigiam também 


viagens de exploração no interior dos continentes, onde quer que fosse possível 
obter um conhecimento melhorado de coisas e de povos. Tanto em África como 
na Ásia -e, mais tarde, igualmente na América-, o ouro, as especiarias, o Preste 
João ou alguém que soubesse dele (comunidades cristãs, por exemplo) seriam 
outras tantas justificações para as primeiras viagens longe da costa. 


A partir da década de 1440, começam a aparecer tímidas referências a 
expedições na Africa Ocidental (Senegal, Sudão), 


no 
Descobrimento e conquista 
321 


muitas vezes seguindo o curso navegável dos principais rios: Senegal, Gâmbia, 
Cachéu. No tempo de D. Joã o Il, o estabelecimento de uma feitoria em Waddan, 
tão longe no interior, mostra que os Portugueses empreendiam a sério a pesquisa 
das fontes directas do ouro, mesmo a custo de viagens difíceis em países 
desconhecidos. Foi assim que chegaram a Tumbuktu, bem como ao Mali. Na área 
do Congo, a maior parte deste reino e do norte de Angola, que lhe ficava a sul, 
haviam sido explorados antes dos meados do século xvi (distinguiram-se, entre as 
mais relevantes, as expedições de Baltasar de Castro e de Manuel Pacheco em 
1520-26). Na África Oriental, António Fernandes (1514-15) chegou ao que é hoje a 
Rhodésia, circundando o importante reino do Monomotapa (no Moçambique 
actual). 


As missões oficiais à Etiópia, contaram-se entre as grandes preocupações dos 
Portugueses, até estes se darem conta da escassa relevância do Preste João na 
sua política económica de domínio das rotas da especiaria e do ouro. Em resposta 
a uma embaixada etíope a Portugal (1513 ou 1514), o rei D. Manuel | enviou 
Duarte Galvão (que morreu) e, depois, Rodrigo de Lima à corte do Negus (1520). 
Este último alcançou Massaua, na costa do mar Vermelho, para daí se internar em 
África e alcançar por fim o desejado objectivo, onde viajou e se fixou durante seis 
anos da sua vida. Um dos seus companheiros, o padre Francisco Álvares, 
escreveu um relato cheio de interesse, tanto das expedições como do pais, que é 
hoje uma das melhores fontes para 

O conhecimento da Etiópia desses dias (Verdadera informaçam das terras do 
Preste Joam, impressa em 1540 e rapidamente tradUzida para castelhano, 
alemão, francês e italiano). Seguiram-se outras embaixadas: a mais famosa foi a 
de 1541, chefiada por Cristóvão da Gama (filho de Vasco da Gama), que alcançou 
destino trágico, visto ter acabado às mãos dos invasores Somalis Muçulmanos, 
que massacraram a maior parte dos seus quatrocentos homens. 


Na Ásia, não tiveram conto as viagens empreendidas, na sua maioria por 
mercadores ambulantes à caça de lucro. Algumas tornaram-se mais conhecidas 
do que outras, graças a descrições 


322 Surto do Império 


escritas que acrescentam imenso ao nosso conhecimento da geografia asiática do 
século xvi. Tomé Pires, boticário competente e feitor em Malaca, versado em 
assuntos asiáticos, foi escolhido pelo governador da índia para chefiar uma 
embaixada portuguesa à China, em 1516. Visitou Cantão e Pequim mas não 
conseguiu ser recebido pelo imperador. De volta a Cantão, foi preso, jazendo 
muitos anos em cativeiro. Nunca mais saiu da China, onde faleceu por volta de 
1540. Antes de partir para a sua missão, escrevera um livro sobre os 
conhecimentos que tinha da Malásia, Java e Samatra, com informes sobre outras 


regiões: a Suma Oriental, publicada primeiramente em italiano, por volta de 1550. 


outro explorador foi Duarte Barbosa, funcionário público na feitoria de Cananor, 
que viajou pelo interior da índia de 1501 a 1516-17. O seu Livro, publicado em 
1554, descrevia não só aquele subcontinente mas também a Indochina e a China. 
Domingos Pais e Fernão Nunes, ambos negociantes de cavalos, visitaram o reino 
de Vijayanagar antes de 1525, sobre o qual vieram a escrever. António Tenreiro 
acompanhou uma embaixada portuguesa à Pérsia (1519), peregrinando depois 
pela Arménia, Síria, Palestina e Egipto. Numa segunda viagem (1528), foi 
oficialmente enviado a Portugal por terra, atravessando todo o Médio Oriente e 
relatando o que viu e ouviu no seu Itinerário, dado à estampa em 1560. Todavia, o 
maior de todos os viajantes portugueses da primeira metade do século xvi foi sem 
dúvida Fernão Mendes Pinto, aventureiro em busca de fortuna, que visitou o 
Sudoeste asiático, a China e o Japão, em longos percursos que lhe ocuparam 
dezassete anos de vida (1537-54). A sua Peregrinaçam, só publicada em 1614, 
combina uma boa dose de imaginação e de fantasia com grande parte de informes 
verídicos e palpitantes de vida. Com justiça tem sido apodado de Marco Polo 
português. 


Ewradas No Brasil, os contactos com o interior começaram pouco no Brasil após a 
descoberta. O estabelecimento das capitanias favoreceu 


as explorações terra adentro, geralmente em busca de ouro, pedras preciosas e 
especiarias. O capitão-governador Martim Afonso de Sousa organizou duas 
expedições ao interior em 

1531-32, uma partindo do Rio de Janeiro (115 léguas de cami- 


Descobrimento e conquista 
323 


nho), a outra de S. Vicente. Comandada por Pero Lobo e composta de oitenta 
pessoas, esta segunda expedição alcançou o planalto onde hoje se localiza S. 
Paulo, continuando até ao rio Pararia. Aí, toda a companhia veio a perecer às 
mãos dos índios. Várias outras expedições menores tiveram lugar até meados da 
centúria. 


Os Portugueses tinham chegado à índia com o principal objectivo de conseguir 
especiarias e outra mercadoria lucrativa. Apresentavam-se também como 
cruzados em luta permanente contra o Islam. Depressa se deram conta de que, 
para obter o controle das fontes da especiaria e do comércio no oceano índico, 
precisavam de destruir a rede antiquíssima dos mercadores e das feitorias 
muçulmanas. Para mais, vinham achar o islamismo como uma das principais 
religiões de toda a costa asiática. Nestes termos, especiaria e guerra teriam de 
estar sempre juntas, e quaisquer finalidades pacificas que a princípio tivessem 
cedo haveriam de se converter em política de agressão estratégica, destruição 
radical e conquista final. 


De 1498 a 1505, os Portugueses limitaram-se ao cômputo do que tinham a fazer. 
Conseguiram obter licença de alguns rajás locais para estabelecer feitorias em 
Cochim, Cananor e Cotilão, na costa ocidental da índia, e em S. Tomé de 
Meliapor, na costa oriental. Contudo, a política de violência começara desde logo. 
Intrigas locais, onde os Muçulmanos desempenhavam sempre papel de relevo, 
somadas à inevitável desconfiança e falta de tacto dos Portugueses, levaram 
Vasco da Gama a bombardear Calicut (1498) e a regressar à Europa já como 
inimigo. Por razões idênticas (apesar de um auspicioso começo), a frota de Pedro 
Álvares Cabral repetiu a façanha em 1500. A cidade seria bombardeada de novo 
em 1503 e 1504, até que um tratado lhe foi imposto pela superioridade das armas 
ocidentais. 


Enviado por D. Manuel com a categoria de vice-rei, D. Francisco de Almeida 
chegou à índia em 1505 com um programa definido de acção política. As 
instruções que levava incluíam a construção de diversas fortalezas em pontos 


estratégicos chave 
324 Surto c(Ddo Império 


(de preferência em ilhas próximas da costa), acrescidas da competente guarnição, 
e o estacionamento continuado de uma esquadra no oceano indico. Devia ainda 
impor o monopólio português no comércio a distância e estabelecer um regime de 
licenças pagas (cartazes) sobre todos os navios mercantes que não fossem 
portugueses. Através da violência e de atitudes belicosas, o vice-rei teria de 
lembrar a todos e por toda a parte a presença e o poderio dos Portugueses. 
Contudo, D. Francisco de Almeida recebera também instruções para 
sistematicamente procurar e efectivar alianças políticas e militares com os 
príncipes indígenas, mesmo que muçulmanos. Bem cônscios da sua 
impossibilidade física de conquistar território, e em boa verdade pouco 
interessados em construir impérios políticos tão longe da Europa, os Portugueses 
pretendiam apenas um domínio dos mares eficaz, aliado a uma hegemonia 
política na forma de áreas de influência. 


Tais objectivos foram geralmente alcançados, embora à custa de tremendas 
dificuldades e de um quase permanente estado de guerra. Até começos do século 


xvii, O oceano indico tornou-se na prática um mar português. Ás inevitáveis falhas 
e pontos fracos que a sua extensão implicava, corresponderam todavia, e 
regularmente, vitórias estrondosas e poucas derrotas de somenos importância. 


Albuquerque D. Francisco de Almeida (1505-09) fez construir fortalezas 


em Quíloa, Sofala e Moçambique, todas na costa africana; em Angediva, Cananor 
e Cochim, na parte ocidental da Índia; e em Socotorá, ao largo da península 
arábica, à entrada do mar Vermelho. Além disso, atacou e deixou em ruínas bom 
número de cidades hostis, matando e capturando centenas de pessoas. Cedeu o 
cargo ao governador-geral Afonso de Albuquerque (1509-15), que lhe continuou a 
política. Todavia, conhecendo já melhor as terras e as gentes (estava na índia 
desde 1506 e fora aí, uma primeira vez, em 1503: chefiara uma expedição à 
Arábia e superintendera na construção da fortaleza de Socotorã), sabendo utilizar 
com maior ousadia as forças militares de que dispunha, e possuindo um génio 
estratégico muito superior, Afonso de Albuquerque foi, não só o verdadeiro 
fundador do «império» português na Ásia mas também a melhor garantia da sua 
per- 


ndados 
1)escobrimento e conquista 325 


manéncia. Em pouco mais de seis anos, ancorara os Portugueses no oceano 
índico oriental pela conquista de Malaca (1511), controlando assim todo o tráfico 
marítimo com o Pacifico; impusera * autoridade e suserania portuguesas sobre 
Ormuz, dominando * golfo Pérsico (1507 e 1515); e estabelecera uma base 
territorial para a sede da administração portuguesa pela conquista de Goa (1510). 
Diversos chefes locais prestaram-lhe vassalagem e pagaram-lhe tributo. 
Construíram-se mais fortalezas e estabeleceram-se novas feitorias. Guerra e 
destruição devastaram bom número de cidades marítimas, impondo por toda a 
parte a autoridade de Portugal. Aclamado por alguns como um novo Alexandre, 
Albuquerque conseguiu sobretudo fazer dos Portugueses os sucessores viáveis 
dos Muçulmanos e lembrar aos povos da Ásia costeira a presença portuguesa 
como de poderosos senhores. Falhou apenas na Arábia onde, apesar de 
bombardeamentos e destruições, não conseguiu conquistar Aden, resolvendo até 
abandonar e desmantelar a fortaleza de Socotorá (1511). 


Os sucessores de Albuquerque foram em regra menos famo- Ex-pansão sos e 
têm sido mais criticados pelos seus fracassos, crueldades “*é 1557 


e sinais de corrupção. Contudo, a fortuna dos Portugueses estava longe de 
declinar, antes se expandia e aumentava até meados do século xvi. Colombo, em 
Ceilão, foi conquistada (1518), tornando-se a ilha uma das pedras angulares do 
sistema português. Edificaram-se outras fortalezas em Chaul, nas ilhas Maldivas, 
em Pacém (Samatra), em Ternate (nas Molucas), em Chale, etc. Diu, Damão e 
Baçaim, todas na índia, converteram-se em autênticas cidades portuguesas, tal 


como Goa, que nunca cessou de crescer até aos começos do século xvii. Na 
China, finalmente, os Portugueses obtiveram Macau (1557) numa espécie de 
arrendamento perpétuo, ao mesmo tempo que se fixavam em colónias de 
mercadores por várias outras cidades chinesas. 


O mapa que acompanha este capítulo, melhor do que uma fastidiosa descrição de 
guerras e escaramuças, pode dar a ideia clara da expansão do poderio português 
na Ásia até aos finais do século xvi. 


326 Surto do Império 


Quadro Embora o comércio a distância e a omnipresença dos merpolítico, da Ási4 
cadores islâmicos servissem de factores de unificação na Asia 


de 1500, politicamente o vasto continente achava-se dividido em grande número 
de unidades maiores ou menores, cada qual tenazmente pugnando pela 
independência e rivalizando com as demais. Na índia, o parcelamento atingia o 
máximo, com estados muçulmanos e hindus disputando-se a hegemonia sobre 
áreas geográficas e económicas. O Norte e o Centro eram zona islâmica, estando 
a costa ocidental partilhada pelos reinos de Guzarat (também chamado Cambaia), 
Ahmadnagar e Bijapur. Uma dúzia de outros estendia-se por todo o interior e a 
costa oriental. Aqui, porém, com o Império Mughal desempenhando papel de 
relevo, o impacto português só muito tenuemente foi sentido, aparecendo 
pouquissimas referências (quando aparecem) a seu respeito em crónicas e outras 
fontes locais. Todo o Sul da índia encontrava-se relativamente unificado sob o 
Império Hindu de Vijayanagar, com alguns pequenos estados tributários, tais como 
Calicut, Cochim, Cananor, Cranganor, etc. Apresentando-se como amigos contra 
o inimigo muçulmano, os Portugueses alcançaram a maioria dos privilégios, 
concessões e alianças em Vijayanagar, que também nunca atacaram com tanta 
ferocidade como os estados islâmicos. 


A ocidente da índia, as principais potências políticas eram a Pérsia (à qual Ormuz 
pagava tributo) e o Egipto, que caiu nas mãos dos “Turcos em 1517. Além destes, 
as costas da Arábia e da África Oriental englobavam grande número de sultanatos 
e sheikatos, todos muçulmanos, claro está, rudemente atacados pelos 
Portugueses em sucessivos raids. 


A oriente da índia, e passando pelos grandes reinos do Pegu e do Sião, onde 
Portugal jamais desempenhou qualquer papel de importância, o fraccionamento 
político voltava a ser um facto na Malásia e na Indonésia. O estado muçulmano de 
Malaca ocupava a maior parte da península indochinesa meridional, com 
hegemonia sobre parte da adjacente ilha de Samatra. Caiu em poder dos 
Portugueses em 1511. Nos demais sultanatos, Portugal interferiu constantemente 
nos problemas locais, intrigando e ten- 


Descobrimento e conquista 327 


tando impor a sua suserania. O único estado efectivamente forte na Ásia de leste 
era, claro está, a China. 


Desafiando abertamente a hegemonia islâmica e combatendo Lutas traV4 a fé 
muçulmana, os Portugueses haviam de topar, como principais inimigos na Ásia, 
com os Egípcios e os Turcos, aliados aos muitos reinos muçulmanos menores. A 
maior parte dos combates navais e terrestres tiveram lugar no índico ocidental, 
entre a Arábia e a índia. Em ajuda considerável dos Portugueses veio o facto de 
nenhum dos grandes estados muçulmanos se achar abertamente virado para o 
mar ou basear a sua força no mar. Reinos como a Pérsia e o Império Mughal eram 
continentais mais do que marítimos. Só os Egípcios e os Turcos estavam em 
situação de se opor ao desafio português. Contudo, tanto a sua principal força 
como até os seus interesses primordiais jaziam noutras partes, fosse no 
Mediterrâneo, fosse no mar Vermelho ou na Europa. 


As guerras mais importantes travadas pelos Portugueses na primeira metade do 
século xvi tiveram lugar em 1508-09 (batalhas de Chaul e Diu), 1531-33 (conquista 
de Diu), 1538 (primeiro cerco de Diu, galhardamente defendido por António da 
Silveira) e 1546-57 (segundo cerco de Diu, defendido por D. João de 
Mascarenhas, auxiliado pelo vice-rei D. João de Castro). Todas elas opuseram os 
Portugueses aos inimigos de sempre: uma coligação de Cambaianos, Egípcios e 
Turcos. Outras guerras activamente combatidas (1510, 1547-48) puseram frente a 
frente Portugal e Bijapux, o estado muçulmano onde estava localizada Goa. 
Calicut permaneceu sempre um inimigo de temer e de sujeição difícil (conflitos em 
1505, 1509, 1510, 1525-26, etc.). Algures, os Portugueses tiveram de lutar em 
Ormuz (Pérsia), em Malaca e no mar Vermelho, onde por três vezes tentaram 
raids devastadores e conquistas definitivas, embora com escassos resultados 
(Albuquerque em 1513, Lopo Soares de Albergaria em 1516 e 


Estêvão da Gama em 1541, este último chegando a atingir o Suez). 
328 Surto do Império 


Bibliografia -Sobre as viagens de descobrimento, o melhor relato deve-se a 
Damião Peres, História dos Descobrimentos Portugueses, Porto, Portucalense 
Editora, 1943. Para as conquistas e expansão geral no oceano índico, veja-se, 
corno estudo de conjunto ainda insuperado, Jaime Cortesão, «O Império 
Português no Oriente até 1557», na História de Portugal, dirigida por Damião 
Peres, vol. IV, Barcelos, Portucalense, 1932, pp. 9-77. 


Para contrabalançar o ponto de vista português com uma visão de um estrangeiro, 
veja-se também o livro recente de Charles R. Boxer, que aliás procura trazer muito 
de novo com base nas investigações pessoais do autor: The Portuguese 
Seaborne Empire, 1415-1825, Londres, Hutchinson, 1969. 


2 -Organização do Império 


O laboratório experimental do império português na Ásia e na América funcionou 
nas ilhas atlânticas dos Açores e da Madeira, mais tarde acrescidas também dos 
arquipélagos de Cabo Verde e S. Tomé. Apesar do seu diminuto tamanho e sua 
escassa população, o estudo dos métodos e das formas de povoamento que os 
Portugueses seguiram nessas ilhas tem de merecer o nosso maior cuidado. 
Foram, em boa verdade, uma espécie de microorganismos em relação às grandes 
áreas continentais da Índia e do Brasil. 


Pela segunda metade do século xv, tanto a Madeira como os Açores se haviam 
tornado colónias de povoamento amadurecidas. Espécie de réplicas do Portugal 
metropolitano, apresentavam, não obstante, características definidas bem 
próprias, juntamente com inovações e fracassos. 


Na Madeira, o aumento da população implicou o desenvol- Madeira vimento do 
sistema; municipal: pelos começos do século xvi, foram surgindo novos concelhos 
em cada uma das duas capitanias da ilha. Em 1508, o Funchal foi elevado à 
categoria de cidade e administrativamente organizado à maneira de Lisboa - 
modelo que se iria repetir vezes sucessivas através de todo o Império. 

O número de habitantes da capital da Madeira andava pelos cinco mil, o que 
colocava o Funchal acima de muitas cidades importantes da metrópole, tais como 
Leiria, Tomar ou Faro, e o nivelava com Braga, sede de arcebispado. Nas duas 
ilhas da Madeira 


330 Surto do Império 


e do Porto Santo viviam umas vinte mil pessoas, com talvez um décimo de 
escravos. Justificando um requerimento ao Papa para que fosse criado um 
bispado na Madeira, o rei D. Manuel mencionava a existência de oito vilas no 
arquipélago, cada qual com sua organização municipal. Leão X respondeu 
favoravelmente em 1514, criando o bispado do Funchal com jurisdição sobre 
todos os territórios ultramarinos. 


Economicamente, as duas ilhas produziam e exportavam açúcar, sua principal 
fonte de riqueza até meados do século xvi. A costa meridional da Madeira achava- 
se coberta de canaviais, levando-se a efeito um tráfico directo com a Flandres e 
com outros países estrangeiros. Além do açúcar, a segunda actividade económica 
era a produção de vinho, que ganharia o primeiro lugar pela segunda metade da 
centúria. 


A preocupação legisladora e reformista do reinado de D. Manuel sentiu-se 
igualmente na Madeira, onde se decretaram um pormenorizado regulamento das 
alfândegas e diversas medidas administrativas e judiciais. Pelos começos do 
século de Quinhentos, a ilha tornara-se sem sombra de dúvida uma pequena 
réplica do próprio Portugal, lembrando o Minho ou o Algarve. O surto demográfico 
na metrópole trouxera como consequência uma crescente imigração, a 
abundância de trabalho livre e o resultante declínio da escravatura. 


Açores Mas se o crescimento e desenvolvimento da Madeira durante 


o século xvi se manteve constante, perdeu todavia esse carácter espectacular de 
cinquenta anos antes. O «país novo» para povoamento e rápida expansão 
económica passara a ser os Açores, durante muito tempo tão desprezados. 


Todas as nove ilhas do arquipélago, mesmo as distantes e pequenas Flores e 
Corvo, estavam povoadas já. A concorrência entre os vários capitães a quem as 
ilhas haviam sido doadas resultou em prosperidade crescente. O surto geral de 
população facilitou o recrutamento de colonos na mãe-pátria e a orientação dos 
seus interesses para as tarefas agrícolas, servidas por um solo virgem e 
extremamente fértil. 


Nos meados do século xv, não havia em todo o arquipélago uma só vila com o seu 
foral. Por volta de 1500 eram já cinco, pelo 


Organização do Império 331 


menos, os concelhos, nas ilhas Terceira (dois), S. Miguel (dois) e S. Jorge (um). 
Cinquenta anos mais tarde, os Açores contavam duas cidades (Angra, na 
Terceira, e Ponta Delgada, em S. Miguel), e doze vilas, distribuídas por S. Miguel 
(cinco), Terceira (três), S. Jorge (três) e Graciosa (uma). Na ilha maior, S. Miguel, 
Vila Franca do Campo, um dos primeiros povoados e sede da administração por 
algum tempo, decaiu a favor de Ponta Delgada, melhor localizada geográfica e 
economicamente. Um terramoto destruidor (1522) causou a ruína última de Vila 
Franca em proveito da sua rival. 


Fundadas em superfícies mais planas do que o Funchal e beneficiando já de 
preocupações maiores com planeamento urbano e construção de cidades, as 
duas «capitais» açorianas de Angra e Ponta Delgada obedeceram a um típico 
padrão urbano renascentista, com sua elegante disposição em xadrez e sua 
distribuição racional dos centros vitais. Herdaram também o modelo de Lisboa 
para a sua organização concelhia. 


Em 1534, os Açores tinham já importância bastante para o Papado instituir a nova 
diocese de Angra, desmembrada da do Funchal, e com jurisdição sobre as nove 
ilhas do arquipélago. 


Três vezes maiores do que a Madeira, melhor favorecidos em portos e locais de 
povoamento, menos prejudicados pelo relevo do solo e não carecendo tanto de 
obras de irrigação, os Açores depressa prosperaram e se tornaram 
economicamente úteis à metrópole, Nos fins do século xv, d trigo ascendera ao 
primeiro lugar como fonte de rendimento, sendo exportado para Portugal em 
largas quantidades e ajudando a minorar o permanente deficit cerealífero. O pastel 
e a urzela, materiais corantes de primeira qualidade para as regiões industriais da 
Europa, também se exportavam largamente e com bons lucros. Introduziu-se 
ainda o açúcar, mas com menores resultados do que na Madeira. 


Nas ilhas de Cabo Verde, descobertas no começo da década Cabo Verde de 1460 
ou fim da de 1450, a colonização efectiva provou ser mais difícil. O arquipélago 
tem um clima suave mas sofre de pouca chuva, com longos períodos de seca. A 
maior parte das ilhas não oferece, quando observadas de fora, atractivo algum, 
mostran- 


332 Surto do Império 


do-se áridas e escalavradas. Além disso, culturas tidas por essenciais nesse 
tempo falharam em Cabo Verde: o trigo, por exemplo. Enquanto na Madeira e nos 
Açores, os esforços dos colonos se traduziam por produtividades fabulosas, os 
solos cabo-verdeanos não se mostravam, regra geral, compensadores. O 
arquipélago estava longe demais de Portugal e não mostrava traços de ouro ou de 
especiarias, como a Guiné ou a Índia. Em suma, para que se efectivasse um 
povoamento permanente, requeriam-se maiores esforços e modos diferentes de 
adaptação do que aqueles que os Portugueses estavam, então, preparados para 
oferecer. 


Todavia, a colonização principiou logo após o descobrimento. As ilhas pertenciam 
ao infante D. Fernando, irmão do rei. António da Noli, um italiano ao serviço de 
Portugal que provavelmente descobrira ou visitara parte do arquipélago, chegou a 
Santiago com os primeiros colonos (ao que parece vindos do Algarve). O 
estabelecimento de uma feitoria em Ribeira Grande, no lado sul da ilha, favoreceu 
a escolha de Cabo Verde como ponto de escala seguro para os numerosos barcos 
portugueses que navegavam ao longo da costa africana. Escravos importados da 
vizinha Guiné mostraram-se mais resistentes ao clima e mais abundantes para as 
tarefas do que os Portugueses da metrópole. Vieram para as ilhas poucas 
mulheres brancas, desenvolvendo-se imediatamente o processo de 
miscegenação. Em 1466, os colonos receberam o privilégio de traficar livremente 
em escravos africanos e em outra mercadoria. Desenvolveram-se a criação de 
gado e a urzela, que trouxeram certa prosperidade para os povoadores. Santiago 
tornou-se, de facto, importante como ponto de escala marítima, com a Ribeira 
Grande adquirindo certo número de características urbanas (população flutuante, 
hospital, algumas actividades industriais, etc.), mas o surto de uma estrutura 
colonizadora agrícola foi provavelmente travado. Estabeleceu-se também o 
sistema das capitanias, sendo Santiago dividida em duas, e criando-se depois 
outras em cada uma das ilhas . As condições eram semelhantes às da Madeira e 
dos Açores. 


Além de Santiago, também o Fogo e Maio receberam colonos, mas com grande 
dificuldade. No Fogo os primeiros povoadores, pertencendo à casa do infante D. 
Fernando, haviam che- 


organização do Império 333 


gado na década de 1460 mas, na sua maioria, desistiram da em- 


presa pouco tempo depois, abandonando a ilha. Foi só por volta de 1510 que a 
criação da capitania local condicionou o surto de um povoamento duradouro. Maio 
conheceu problemas do mesmo tipo: a capitania da ilha foi vendida, tornando-se 
necessária a 


intervenção régia, que a dividiu em duas metades com o fim de suscitar povoação 
mais intensa. Boavista ficou despovoada até ao século xvi, embora com gado que 
aí proliferou e constituiu rendimento útil para capitães hereditários. 


As restantes seis ilhas (Santo Antão, S. Vicente, Santa Luzia, S. Nicolau, Sal e 
Brava) não tiveram habitantes até aos fins do século xvii e o século xviii. Contudo, 
não permaneceram inteiramente improdutivas, rendendo em gado (couros, sebo e 
carne) e em sal (na ilha do mesmo nome) e justificando a existência de capitães 
em todas elas. É interessante verificar que os capitães das ilhas cabo-verdianas, 
geralmente nomeados por D.'João Il e D. Manuel 1, foram muitas vezes ricos 
burocratas, alguns elevados mais tarde à condição de nobres. Davam-se conta do 
valor económico das novas terras colonizadas (vendo o exemplo da Madeira e dos 
Açores) e tentavam promovê-lo em benefício próprio. Porém, incapazes de 
abandonar Portugal e de dirigir, com a sua presença e iniciativa, o esforço 
colonizador, só prejudicaram o que se mostravam tão cobiçosos em adquirir. 


Na primeira metade do século xvi, apenas Santiago e, dentro dela, a Ribeira 
Grande podiam, de certa maneira, comparar-se com os resultados obtidos nos 
Açores e na Madeira. Ribeira Grande foi elevada a vila e depois, bastante 
prematuramente, a cidade (1533) quando se criou um bispado para Cabo Verde e 
nomeou um prelado com jurisdição sobre os territórios ultramarinos de Marrocos à 
Guiné. A ilha (como todo o arquipélago) era rica em gado, particularmente caprino, 
cavalar e muar, e em criação. Havia milho em quantidade para dar de comer às 
gentes, abastecer os navios que passavam e ainda ser exportado para a 
metrópole. Exportava-se, também, sal. Tinham sido introduzidas a cana de açúcar 
e o algodão. Completavam o quadro económico o peixe, a fruta e os vegetais. Se 
Cabo Verde não suscitava grande entusiasmo entre futuros colonos e se os seus 
proventos se reve- 


334 Surto do Império 


lavam magros em comparação com os dos outros arquipélagos, pelo menos podia 
subsistir e ser útil como ponto de escala da navegação. 


S. Tomé e No golfo da Guiné, as condições mostravam-se uma vez mais 


Pi,,iPe diferentes. Localizadas sobre o equador, S. Tomé, o Príncipe (ao tempo 
chamada Santo Antão), Ano Bom e Fernão do Pó beneficiavam de pluviosidade 
abundante e regular, a que se somava um solo altamente fértil. Por outro lado, o 
clima quente e a excessiva humidade, com suas numerosas doenças tropicais, 
traduziam-se em condições de vida pouco saudáveis e difíceis de suportar, 


desencorajando um povoamento europeu de tipo permanente. 


Contudo, tal como em Cabo Verde, a chegada dos primeiros colonos deu-se 
poucos anos após a descoberta. Nos meados da década de 1480, começaram em 
Portugal os esforços para conseguir um grupo de colonos. Fracassaram. Nos 
últimos anos da centúria, Álvaro de Caminha e António Carneiro, ambos vassalos 
do rei e membros da pequena nobreza, organizaram com sucesso a colonização 
de S. Tomé e do Príncipe. Antes de 1510, também o Ano Bom recebeu um 
pequeno núcleo de povoadores, chefiado por Jorge de Melo, outro nobre. Estes 
três capitães -porque o sistema das capitanias também aqui foi introduzido - 
levaram consigo um grupo heterogéneo de colonos, onde se contavam 
degredados, artífices e pobres de Portugal, e um número de jovens judeus 
arrancados à força aos pais e à força convertidos à fé cristã. Para trabalhos mais 
pesados, que os Europeus tinham dificuldades em suportar no clima equatorial, 
tiveram de se importar escravos negros do continente africano e de Fernão do Pó. 
Tal como em Cabo Verde, escassas foram as mulheres vindas para as ilhas do 
golfo da Guiné, surgindo portanto em poucas gerações uma interessante 
aristocracia local de mestiços, que passou a controlar as ilhas. Na realidade, 
questões sociais foram característica da história de S. Tomé desde os seus 
começos: já em 1517 se registou urna rebelião opondo os grandes proprietários 
aos mulatos e aos escravos. 


Administrativamente, S. Tomé conheceu um desenvolvimento rápido. Em 1504 
existia uma primeira paróquia. Vinte 


Organização do Império 335 


anos depois, fora elevada a vila e, em 1534, a criação de um bispado com sede 
em S. Tomé e jurisdição sobre a costa africana da Guiné ao cabo da Boa 
Esperança significou a sua promoção a cidade. Fora abolida em 1522 a capitania 
da ilha e esta incorporada no património real. O arquipélago vivia da criação de 
gado e do açúcar. Outra fonte de prosperidade derivava da situação geográfica 
das ilhas, que as tornava óptimos pontos de escala na rota marítima para a Índia e 
(mais tarde) na rota do tráfico de escravos entre a África e o Brasil. 


Habitada por indígenas, Fernão do Pó resistiu às tentativas de colonização, 
atraindo poucos colonos. Só alguns séculos depois seria tentada a sua conquista 
eficaz. As demais ilhas do Atlântico, porque se situavam muito longe da costa e 
eram de escasso interesse para a navegação, foram deixadas desertas. 


Na África continental não se tentou qualquer povoamento, África excepto como 
meio de dar certa base a uma feitoria ou conceder Continental apoio a uma 
fortaleza tida por vital. Ao tempo, a política portuguesa rejeitava ideias práticas de 
conquista e de império, que nem os recursos do país nem os os objectivos 
preconizados pareciam justificar. Manter um monopólio de comércio, prosseguir 
na luta contra o Islam, atingir o reino do Preste João, eis os grandes fins que 
norteavam os Portugueses. A evangelização cristã vinha a seguir, mas 


obviamente em segundo plano. A conquista, com todos os seus perigos e 
exigências, podia encarar-se de um ponto de vista teórico mas esbarrava com os 
meios práticos da efectivação. Assim se explica por que motivo os Portugueses se 
empenharam tanto em converter ilhas desertas em colónias de povoamento, mas 
prestaram pouca ou nenhuma atenção a ilhas habitadas, tais como Fernão do Pó. 


Feitorias e fortalezas, porém, vinham ao encontro das necessidades de um 
comércio em expansão e tinham de ser estabelecidas e espalhadas por todo o 
continente africano. No hemisfério norte, além de Arguim (cf. Cap. III), surgiu um 
renque de castelos fortificados, que protegiam pequenas aldeias comerciais e 
cidades ao longo do golfo da Guiné. Aqui, como em geral na África e na Ásia, os 
Portugueses só excepcionalmente se apode- 


336 Surto do Império 


ravam das terras por violência. O processo habitual consistia em negociar com os 
chefes locais uma licença de estabelecimento. Uma vez firmado este autêntico 
contrato, vinham então de Portugal homens e materiais que, num curto espaço de 
tempo, criavam no local uma réplica do modo de viver português. Nos primeiros 
tempos, os indígenas não tinham que se queixar da presença portuguesa. 
Desenvolvia-se um tráfico rendoso de parte a parte, acrescido de certa 
aprendizagem de técnicas mais avançadas. Foi só o tráfico de escravos e a 
política de cristianização que, mais tarde, prejudicaram todo o sistema. Contudo, 
raras se mostraram as guerras ou mesmo as escaramuças até meados do século 
xvi. 


S. Jorge A «capital» de todos os estabelecimentos do golfo da Guiné da Mina 
(chamados em conjunto «a Mina» e representando a principal 


fonte de comércio do ouro) era S. Jorge da Mina, perto da actual Cape Coast, em 
Ghana, que os Portugueses começaram a edificar em 1482 com uma força de 
quinhentos homens de armas e cem artífices. Quatro anos mais tarde, a pequena 
colónia recebera a sua carta de foral, criando-se uma capitania dependendo 
directamente da coroa. Os capitães eram nomeados por um triénio. A sua 
autoridade cobria todos os outros estabelecimentos portugueses na costa e no 
golfo da Guiné, fundados entre 1487 e os começos do século xvi: Waddan, 
Cantor, Axim, Samma, Gwato, (em Benim) e diversos outros, situados nas actuais 
repúblicas do Mali, Senegal, Ghana e Nigéria. Alguns vieram a ser abandonados 
poucos anos mais tarde. 


O Congo A sul da Guiné, a outra área africana de expansão portuguesa foi o 
Congo. Aí, a sua experiência caracterizou-se por traços diferentes e revestidos do 
maior interesse. 


Depois das duas expedições de descoberta, levadas a efeito por Diogo Cão, 
Portugal enviou uma autêntica missão ao Congo, em 1490, em resposta ostensiva 
a um pedido dos indígenas, de assistência técnica e espiritual. Em três navios 


seguiram artífices, sacerdotes, frades e ferramentas. Os propósitos confessados 
eram buscar uma aliança política com o reino do Congo, servida 


Organização do Império 337 


por uma eficaz evangelização cristã. Os Portugueses julgavam tratar com uma 
cultura mais avançada e com dirigentes mais civilizados e poderosos do que na 
realidade era o caso. O «reino» do Congo ou Manicongo consistia apenas numa 
confederação pouco firme de tribos distribuídas por seis províncias, com limites no 
rio Congo a norte, no Dande a sul, no Cuango a oriente e no oceano Atlântico a 
ocidente. Por sua vez os Congoleses, embora alguns entre eles (e especialmente 
o rei) estivessem genuinamente interessados nas realizações dos Europeus e 
desejassem elevar o seu próprio nível cultural, buscavam tão-somente auxílio 
militar e tráfico proveitoso. O Cristianismo podia atraí-los, sim, mas apenas como 
meio de reforçar as suas crenças mágicas e portanto trazer-lhes algo de positivo 
na realização de milagres. 


O curioso é que esta aliança errada e enganadora persistiu. Por mais de um 
século, o Congo tornou-se um protectorado português na África, embora com os 
inevitáveis altos e baixos em influência e domínio efectivos. O rei, a família reale a 
pequena elite governante aceitaram o Cristianismo ou uma espécie de suserania 
cristã. Nzinga a Nkuwu, o primeiro monarca cristão, foi baptizado em 1491: mudou 
o nome para João |, à maneira do soberano português. Seu filho e herdeiro, 
Nzinga Mvemba, tomou para si o nome do herdeiro da coroa portuguesa, Afonso. 
Governou como Afonso |, de 1506 a 1543, tendo sido o maior amigo dos 
Portugueses, figura dramática de chefe africano, meio destribalizado, meio 
europeu e de mentalidade portuguesa, genuinamente católico, completamente 
frustrado nas suas acções e realizações. Depois dele, uma série de Pedros, 
Franciscos, Diogos, Afonsos, Bernardos, Henriques e Alvaros prolongaram a 
tradição portuguesa até pleno século xvii. 


Uma das razões da mudança de atitude portuguesa no Congo esteve ligada ao 
escasso interesse económico que o reino negro apresentava. Além de panos de 
palma e de marfim, os indígenas tinham pouco que dar, excepto, claro está, a si 
próprios como mão-de-obra escrava. Num império comercial baseado nos mais 
ricos e mais prezados artigos que o mundo continha, o Congo havia de, a pouco e 
pouco, desencantar os seus descobridores. 


338 Surto do Império 


Por outro lado, achara-se o caminho para a Etiópia e, igualmente, avaliaram-se as 
possibilidades reais do Congo na ordem política e militar. Todavia, D. Manuel 
ainda persistiu em enviar missões, com certa regularidade, e em reforçar a aliança 
com o estado africano. Em 1512, uma expedição completíssima deixou a Europa, 
carregada de toda a espécie de material técnico e espiritual, e acompanhada de 
instruções cuidadosas e pormenorizadas. Tratava-se de uma autêntica missão 
civilizadora, essa de 1512, que falhou na maior parte dos seus objectivos, 


A 


sobretudo devido à morte do seu chefe, Simão da Silva. Mas os Portugueses 
conseguiram inundar o Congo de padres, mercadores e conselheiros. Introduziu- 
se como que uma caricatura do estado português, que ia ao ponto de aceitar as 
ordenações do reino como lei do Congo. «João» |, «Afonso» | e suas cortes 
copiaram avidamente as maneiras, o vestuário, as práticas administrativas e assim 
por diante. Um grupo de jovens indígenas seguiu para Portugal, a fim de ser 
educado, muitos regressando mais tarde ao seu país, só para se reconhecerem 
inúteis e frustrados. O mais famoso dentre eles, Henrique, filho do monarca 
Afonso, passou treze anos na Europa, sendo ordenado sacerdote e consagrado 
bispo (de Utica, in partibus infidelium) e vigário apostólico do Congo. O seu papel 
foi insignificante, vindo o primeiro bispo negro a falecer na década de 1530, quase 
esquecido e desprezado, tanto por brancos como por pretos. 


O tráfico de escravos mudou por completo este tipo ideal de aliança. As ilhas de S. 
Tomé e Príncipe tornaram-se gradualmente a base de um lucrativo comércio 
humano dirigido para a Europa, a América e as próprias ilhas. Cedo emergiu uma 
classe poderosa de mercadores brancos e mulatos, formando um autêntico partido 
que finalmente controlou os negócios portugueses no Congo a favor dos seus 
interesses. Recrutavam-se escravos por toda a parte, a maioria fora das fronteiras 
congolesas, é certo, mas muitos dentro delas também. Como a sua venda trazia 
proveito para todos, era tolerada pela minoria indígena governante, muitas vezes 
incapacitada de interferir e de pôr cobro à actividade sem freio de portugueses de 
Portugal, portugueses de S. Tomé e da casta local de mulatos e congoleses 
educados 


Organização do Império 339 


à portuguesa. A medida que a procura de escravos ia subindo, os recursos 
humanos do Congo foram-se esgotando e os mercadores tiveram de deitar as 
vistas mais para sul, no que é hoje Angola, com importantes resultados para o 
conhecimento geográfico dessa região. Nas décadas de 1520 e 1530, a região de 
Andongo, onde governava o Ngola, convertera-se em área de expansão 
portuguesa. A população aí era mais densa, o que rendia evidentemente mais 
para os traficantes de carne humana: todos os anos se exportavam de Mpinda, na 
foz do Zaire, uns 4 a 5000 escravos oriundos de todo o interior dos actuais Congo 
e Angola setentrional. 


É difícil averiguar quantos portugueses alguma vez se fixaram no Congo, mas o 
seu número nunca deve ter ultrapassado as cem pessoas em qualquer época. 
Todavia, deixaram atrás de si importantes contributos, como fossem formas de 
fortificação, construção de casas e planeamento urbano que iriam persistir até 
hoje, particularmente na capital congolesa, denominada S. Salvador. 


Na costa oriental africana, a colonização foi entendida em Costa orieft termos de 
relações de comércio com o oceano indico. Os Portu- africatia gueses obtiveram 
licença para edificar fortalezas em Sofala e Quíloa, ambas em 1505. A última, 
porém, deu lugar a violências, tendo o vice-rei D. Francisco de Almeida destruido 


a cidade e imposto um protectorado português ao reino indígena muçulmano. Uma 
terceira fortaleza foi construída na ilha de Moçambique, por volta de IDO. 
Algures, existiam feitorias e suserania política em Zanzibar, Melinde e Lamu. 
Quíloa, considerada sem utilidade, depressa foi abandonada (1512). Sofala e 
Moçambique, porém, tornaram-se importantes baluartes militares e feitorias, 
demandados pela navegação portuguesa da Índia, em especial nas viagens de 
retorno. Ambas receberam o estatuto de capitanias e dependiam directamente do 
governador da índia. Moçambique correspondia, na costa oriental, a S. Jorge da 
Mina: tornou-se a breve trecho numa cidade europeia, com suas casas, igrejas e 
ruas seguindo o modelo português, seu sistema administrativo copiando os 
concelhos da metrópole, suas confrarias religiosas e caritativas semelhantes. às 
de Portugal. 


340 Surto do Império 


A perspectiva de encontrar ouro estimulou o desenvolvimento de Sofala e levou os 
portugueses Zambeze acima e por outros rios. Novas feitorias se estabeleceram 
em Sena (1531) e, depois, em Tete, Quelimane e Inhambane até meados da 
década de 1540, com postos de comércio ocasionais nos rios Pungué e Buzi. Mas 
para sul, o explorador Lourenço Marques estabeleceu contactos com chefes locais 
na área da actual baía que leva o seu nome, conseguindo criar bases de comércio 
e os fundamentos para uma colónia permanente de portugueses. 


Apesar de todos estes estabelecimentos e fortalezas, o número de portugueses 
vivendo em África mostrava-se muito pequeno pelos meados do século xvi. 
Excluindo as ilhas, é pouco provável que mais de duzentos a trezentos brancos 
estivessem espalhados ao longo da costa africana. 


Índia Na índia, colonização significou pouco mais do que fortalecer e perpetuar os 
pontos-chave do monopólio comercial. A ideia de conquistar a Índia ou qualquer 
outra grande região da ÁsiaQDfoi completamente estranha aos dirigentes 
portugueses. Assim, a política do governador Afonso de Albuquerque de converter 
Goa numa cidade europeia e de promover casamentos mistos de portugueses e 
hindus (de acordo com- planos da Coroa) visava apenas fortalecer a posição da 
cidade como capital de um empório de comércio. Algures, Albuquerque limitou-se 
a continuar a política do seu predecessor - ou seja, as instruções régias que 
ambos eram obrigados a seguir - de espalhar baluartes por pontos estratégicos 
em todo, o oceano indico, escudando-os com esquadras permanentes, como meio 
de controlar o 


tráfico e proteger as feitorias. 
Goa Os casamentos mistos em Goa começaram por 1509. Cada 
casal recebia um importante subsídio ou dote em dinheiro, o que rapidamente fez 


aumentar o número de consórcios. Em três ou quatro anos, mais de quinhentos 
casamentos se haviam efectuado, a sua maioria em Goa, mas uns quantos 


também em Cananor e Cochim. Os noivos eram em geral artífices e soldados 
jovens, com meia dúzia de nobres também, enquanto as mulheres pertenciam às 
castas mais altas hindus. Este facto irritou, 


Organização do Império 341 


naturalmente, os Goeses, que encaravam as uniões com desprezo e só 
relutantemente ou à força davam o seu consentimento. Mais tarde aboliram-se os 
subsídios e a política casamenteira afrouxou, mas já quando estava a surgir uma 
casta de mestiços devotados a Portugal e contribuindo para fazer a sua presença 
em Goa vá rias vezes centenária. 


A administração de Goa seguiu o exemplo de Lisboa. Criou-se um município com 
sua câmara, vereadores, juízes e procuradores, dez pessoas ao todo, 
provavelmente eleitos entre os colonos residentes. O capitão de Goa - 
correspondente ao alcaide das cidades de Portugal - tinha o direito e o dever de 
assistir às reuniões da câmara. O foral concedido por Albuquerque foi confirmado 
pelo rei em 1516 e objecto, depois, de sucessivas renovações e confirmações. 


A cidade cresceu em área e população. O plano indígena primitivo sofreu grandes 
mudanças, aproximando-se pouco a 


pouco do modelo ideal das cidades renascentistas. Edificaram-se novos e 
opulentos edifícios, onde viviam o governador, a alta burocracia e os ricos 
mercadores. Erigiram-se também algumas igrejas monumentais. Goa passou a 
sede de bispado em 1534, com jurisdição sobre a Ásia e a costa oriental africana. 
Em 1524, podiam contar-se na cidade um mínimo de 450 fogos de portugueses 
(umas 2500 pessoas). Em 1540, havia já cerca de 1800 fogos de europeus ou de 
descendentes de europeus, ou seja, umas 

10 000 pessoas, sem contar os Hindus, os Muçulmanos e os escravos, o que 
elevava aquele número a três ou quatro vezes mais. A alta taxa de mortalidade 
entre os Europeus era constantemente compensada por novas e crescente 
chegadas de Portugal. Goa tornou-se bem depressa uma das principais 
metrópoles portuguesas, rivalizando com a própria Lisboa. 


Algures, os padrões tendiam a ser semelhantes. Onde quer que os Portugueses 
efectivamente conquistassem uma cidade e 


dela desapossassem os senhores locais, tentavam europeizá-la e convertê-la em 
réplica dos lugares que conheciam na pátria. Estimulavam igualmente uma política 
de miscegenação, tendente a um surto rápido de habitantes e a, uma presença 
portuguesa permanente e forte. A maneira dos Fenícios e dos Gregos da 


342 Surto do Império 


Antiguidade, interessava-lhes mais tecer uma vasta rede de colónias urbanas, 
espalhadas ao longo da costa, do que conquistar impérios territoriais. 


Malaca Comparável a Goa só se mostrava Malaca, a cidade que os 


Portugueses converteram em sua capital de oriente. Malaca, da mesma forma, 
possuía algum hinterland, necessário para abastecimento e para um sistema 
defensivo em condições. Aí, também, foi fomentada a política dos casamentos 
mistos, surgindo gradualmente uma casta de mestiços. As instituições copiavam o 
modelo de Lisboa-Goa. 


Oulras cídades Em algumas outras cidades (Cochim, por exemplo, e depois 


também Baçaim), onde a presença de Portugal se julgava mais importante, os 
padrões europeus foram igualmente impostos. Tratava-se, não obstante, da 
excepção, mais do que da regra. Na maior parte dos casos, os Portugueses não 
alteravam nem tentavam alterar os modos de vida existentes, confinando-se às 
suas feitorias ou às suas fortalezas, em rotação contínua de contingentes, 
segregados e isolados tanto quanto uma guarnição militar o pode estar, aceitando 
as autoridades locais indígenas e as tradições da terra, até quando a sua 
presença exercia influência sobre ambas. 


Administração O representante da Coroa nos estabelecimentos portugueses 
central de Sofala a Macau era o governador-geral, nomeado pelo rei por 


um período de três anos e raras vezes reconduzido. Cada governador novo trazia 
consigo três cartas seladas (numeradas 1, 2, 3) onde estavam indicados os nomes 
dos seus sucessores em caso de emergência. Este sistema serviu bastante bem, 
compensando a distância de ano e meio até Portugal e novas nomeações. Em 
casos de linhagem mais distinta ou de favoritismos régios, ou ainda quando as 
circunstâncias requeriam alguém com maior prestígio e autoridade, o governador- 
geral passava a vice-rei com prerrogativas quase reais. De 1505 a 1550, onze 
governadores mas quatro vice-reis apenas (D. Francisco de Almeida, D. Vasco da 
Gama, D. Garcia de Noronha e D. João de Castro) governaram o império 
português oriental. Governadores e vice-reis nomea- 


Organização do Império 343 


vam as autoridades locais, dirigiam as campanhas agressivas e defensivas, 
superintendiam na política económica e ficavam responsáveis pela manutenção e 
cumprimento da lei. 


O Brasil era habitado por indígenas, o que se mostrou UM Brasil obstáculo à 
colonização permanente. Contudo, os índios viviam de forma muito atrasada, com 
uma organização tribal, em parte entregues ao canibalismo. Não se tornava 
possível encarar alianças com chefes locais, nem havia respeito por costumes ou 
tradições indígenas que pudesse travar uma conquista europeia. Para mais, os 
índios do Brasil não apontavam caminho para o Preste João nem para consabidas 


ou suspeitadas minas de ouro. Pouco comércio se podia efectuar com eles. Para 
os Portugueses, o Brasil oferecia uma situação semelhante e punha os mesmos 
problemas que as ilhas Canárias nos primeiros tempos da descoberta. Era um 
país para ser colonizado, mas que implicava questões difíceis quanto à defesa e 
ao modus vivendi com os indígenas. Felizmente para os Portugueses, os índios 
eram relativamente poucos e estavam esparsamente distribuídos. Vastas áreas de 
convidativa terra pareciam desertas. Alheios à agricultura e à vida sedentária, os 
nativos do Brasil preferiam a floresta aos espaços abertos. E sendo naturalmente 
dotados de bom feitio e ingenuidade, muitos acolheram bem os brancos e deram- 
se com eles. 


A colonização do Brasil iria arrastar-se tanto como a dos Açores ou a das ilhas de 
Cabo Verde. Poucos europeus pareciam interessados em se fixar lá. Contudo, o 
clima afigurava-se bastante mais saudável do que em África e o solo mais fértil. A 
natureza oferecia ainda belezas insuspeitadas, factor que atraiu os Portugueses 
desde o começo. 


Nos primeiros anos após a descoberta, o Brasil pouco mais Período dos dava do 
que pau-brasil, cana de açúcar e animais exóticos contratos -macacos e 
papagaios - que os Portugueses tinham de ir apanhar eles próprios à selva, visto 
que os indígenas desconheciam o comércio e seus processos. Com uma tal base 
e err) tal contraste com os fulgores deslumbrantes do tráfico asiático, é óbvio que 
o Brasil havia de atrair pouca gente. A Coroa, repetindo 


344 Surto do Império 


um processo dos meados do século xv, arrendou o monopólio do tráfico a uma 
companhia particular de ricos cristãos-novos, tendo à cabeça Fernão de Loronha. 
As cláusulas do contrato obrigavam Loronha e seus sócios à sistemática e gradual 
descoberta da costa. 


O contrato de Loronha com a Coroa durou provavelmente até 1512. Sucedeu-lhe 
outro mercador, Jorge Lopes Bixorda, cujas actividades cessaram aí por 1515 ou 
1516. Em quinze anos, haviam-se modificado radicalmente as perspectivas 
oferecidas pelo comércio brasileiro. O monopólio trouxera abastança para os seus 
detentores e 'chamara a atenção para as novas terras. Começaram a chegar 
colonos, e muita gente em Portugal se principiou a mostrar interessada na partilha 
dos lucros. 


A base para esta prosperidade fora o pau-brasil. Por 1506-07, importava-se das 
Terras de Santa Cruz uma média de 20 000 quintais ao ano, que se vendiam com 
bons lucros por toda a Europa. A região oficialmente crismada «Terra da Vera 
Cruz» identificou-se com a «terra, do pau-brasil». Este nome, aliás tão pleno de 
significado para aqueles que viam no novo país a localização real do lendário 
«Brasil» dos mapas antigos, depressa se substituiu à terminologia oficial e impôs o 
seu peso em adopção permanente. 


Ao que parece, fundaram-se feitorias em Pernambuco (15027) e Porto Seguro 
(1503), protegidas por pequenas fortalezas. Outros núcleos isolados surgiram 
porventura em S. Vicente (15087) e na Baía de Todos os Santos (15097) A fama 
do interesse económico do Brasil atraiu grande número de concorrentes. Navios 
clandestinos espanhóis e franceses começaram a tomar parte no proveitoso 
tráfico. Como acontecera cem anos atrás na Madeira, a Coroa portuguesa decidiu 
intervir, fomentando a colonização e ajudando a defender a nova colónia. 


Capitanias Foi assim que D. Manuel se resolveu a enviar, todos os anos, de mar e 
uma armada de alguns navios, sob a chefia de um capitão ou 


terra 


governador nomeado para o efeito, com o fim de cruzar as costas do Brasil. De 
1516 a 1530, este sistema contribuiu eficazmente para uma melhor defesa da 
costa. Vários navios estrangeiros 


Organização do Império 345 


foram capturados e outros afugentados do tráfico. Ao mesmo tempo, as poucas 
feitorias existentes tornaram-se fulcros autênticos de colonização. Organizadas 
segundo o sistema português, melhor protegidas para defesa, essas feitorias 
foram elevadas à condição de capitanias, com capitães nomeados pela Coroa por 
certo período de tempo. A fim de promover o seu desenvolvimento, a Coroa 
forneceu aos colonos ferramentas, materiais de construção e abastecimentos 
regulares. Tomou também a seu cargo o estabelecimento de engenhos de açúcar. 
Considerava-se, de feito, que o açúcar podia representar a melhor maneira de um 
rápido e proveitoso povoamento. Estavam à vista os exemplos da Madeira e de S. 
Tomé. 


Embora a documentação escasseie, parece que as primeiras capitanias surgiram 
em Pernambuco, Porto Seguro, Rio de Janeiro e S. Vicente. Pernambuco era 
provavelmente a mais importante das quatro, aquela onde D. Manuel ordenou que 
se estabelecesse o primeiro engenho. As outras não passavam de pequenas 
aldeias, como uma descrição de S. Vicente elaborada em 1527 claramente 
mostra: uma dúzia de casas, das quais só uma feita de pedra, uma torre para 
observação e defesa, alguma criação e porcos e umas quantas hortas. Os 
missionários, que haviam chegado ao Brasil desde os começos, vieram em grande 
número a partir de 1516. Pertenciam à ordem franciscana. A tarefa de converter 
revelava-se assaz fácil, visto que os índios tinham poucas convicções religiosas. 
Mais difícil era tratar com eles conquistar-lhes a confiança e evitar ser devorado. 


Pelos finais da década de 1520, os Franceses começaram activamente a 
percorrer as costas brasileiras, capturando quantos navios podiam. As armadas 
portuguesas de defesa já não bastavam para protecção eficaz. Para mais, as 
pequenas e espalhadas capitanias só possufam meios de defesa local e não 
podiam sonhar em impedir qualquer desembarque estrangeiro em larga escala, 


seguido por ocupação permanente. Em Lisboa, o governo de D. João Ill gizou um 
plano para a ocupação sistemática do Brasil. Depois, enviou o nobre Martim 
Afonso de Sousa, como capitão e governador, com cinco navios e um total de 
quinhentos homens, incluindo tripulação e colonos. Partindo de Portugal 


346 Surto do Império 


em Dezembro de 1530, Martim Afonso de Sousa chegou ao Brasil dois meses 
mais tarde, com plenos poderes para cumprir uma tríplice missão: defesa costeira 
contra os Franceses, determinação dos limites exactos do Brasil e 
superintendência de uma colonização permanente de norte a sul, ao longo da 
costa. 


Divisão Para este fim, a Coroa dividira o Brasil em quinze capitanias, sistemática 
desde a bacia do Maranhão até Santa Catarina, a 28 1130 Sul. Cada capitanias 


capitania deveria compreender cinquenta léguas de costa, sendo separada das 
capitanias adjacentes por uma linha recta no sentido dos paralelos e estendendo- 
se, teoricamente, para oeste, até ao meridiano de Tordesilhas. De norte a sul, 
essas capitanias eram Pará, Maranhão, Piaul (nome posterior), Ceará, Itamaracá, 
Pernambuco, Baía, Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo, S. Tomé (também 
chamada Campo dos Goitacazes), Rio de Janeiro, Santo Amaro, S. Vicente e 
Santana. Para fins práticos, todavia, este número reduzia-se a onze, visto que o 
Pará e o Ceará pertenciam a um só capitão, o mesmo acontecendo com 
Itamaracá, unida a Santo Amaro e a Santana, e com o Rio de Janeiro, unido a S. 
Vicente. Com algumas alterações posteriores, resultantes mais da reunião de 
capitanias ou da sua subdivisão, do que propriamente da mudança de limites 
originais, esta divisão conservar-se-ia até hoje e serviria de base para os 
modernos estados costeiros do Brasil. 


Embora a partilha original atribuísse a cada lote o mesmo tamanho, a inevitável 
irregularidade da costa resultou em áreas diferentes para cada capitania. Além 
disso, havia quinhões que, desde o princípio, tinham menos de cinquenta léguas 
de costa. 


Cada lote (capitania ou governo) era concedido a um capitão-donatário (também 
chamado governador), cujos poderes se mostravam semelhantes aos capitães da 
Madeira, Açores e Cabo Verde. Agiam como senhores feudais, gozando de plena 
jurisdição civil e crime, nomeando funcionários e exigindo-lhes homenagem. 
Podiam transmitir a capitania aos herdeiros, sem as restrições impostas pela Lei 
Mental (cf. Cap. ID. Deviam distribuir a terra a colonos católicos que ficavam 
obrigados a cultivá-la durante certo espaço de tempo (cinco anos, em regra), livres 


Organização do Império 347 


A 


de impostos exceptuada a dizima à ordem de Cristo. Os meios de produção 
(engenhos de açúcar, moinhos e azenhas, fornos, lagares, etc.) pertenciam ao 


capitão que os arrendava ou concedia a troco de tributo. O capitão tinha 
igualmente o direito de guardar para si dez a dezasseis léguas de terra, 
subdivididas em quatro ou cinco lotes e arrendadas por sua conta a outros 
colonos. Os proprietários de vastas áreas de terra não cultivada podiam também 
subarrendá-la a outros camponeses. Tudo isto automaticamente criava uma 
sociedade hierarquizada em quatro categorias, muito à maneira feudal. O 
comércio pertencia tanto aos colonos em sistema livre quanto à Coroa que 
possuía os mono- 


pólios do pau-brasil, dos escravos, das especiarias e das drogas, bem como o 
quinto de todos os minérios e pedras preciosas. Privando os colonos das 
principais e mais fáceis fontes de rendimento, a Coroa empurrava-os praticamente 
para as tarefas agrícolas e para a criação de novas fontes lucrativas. O resultado 
iria ser o desenvolvimento da indústria açucareira. 


Quanto à condição social dos donatários, todos eles pertenciam à aristocracia, 
embora nenhum se pudesse considerar nobre de primeira classe. Três dos 
capitães eram funcionários públicos em Lisboa, um deles de considerável 
opulência. Alguns nunca foram ao Brasil, preferindo emprestar os capitais, mandar 
alguém em seu lugar e receber depois os esperados lucros. No todo, o quadro 
social do Brasil copiou o das Ilhas Atlânticas, nomeadamente Cabo Verde e S. 
Tomé. 


Cada capitania teve um destino diferente. S. Vicente e Pernambuco triunfaram das 
dificuldades. O capitão da primeira, Martim Afonso de Sousa, deixou o Brasil em 
1533 para não voltar. Foi mais tarde governador da índia e prestou pouca atenção 
aos seus extensos domínios na América do Sul. Mas teve o mérito de nomear 
lugares-tenentes competentes, como António de Oliveira (1538-44) e Brás Cubas 
(1544-49), cujos esforços foram certamente decisivos para o progresso de S. 
Vicente. Apesar dos ataques de espanhóis e índios, a população aumentou (mais 
de 

600 europeus e 3000 escravos em 1548) e a prosperidade económica de capitania 
atraiu novos colonos. A vizinha capitania de Santo Amaro tornou-se, para todos os 
efeitos, dependência sua. 


348 Surto do Império 
Além da capital, também chamada S. Vicente, rica em gado e em 


engenhos de açúcar, havia outra vila perto, Santos, e um terceiro núcleo em 
desenvolvimento em Piratininga, a futura S. Paulo. Todos estes lugares estavam 
bem fortificados e organizados. Na capital, funcionava uma câmara municipal 
desde 1532. Dez anos mais tarde, existiam já um edifício para os Paços do 
Concelho e três igrejas. 


Pernambuco (então chamada Nova Lusitânia) fora doada a Duarte Coelho, 
porventura o mais capaz dos colonizadores do Brasil durante o século xvi. 


Soldado, diplomata e administrador qualificado, com uma boa folha de serviços na 
índia, Duarte Coelho fundou Iguaraçú e depois Olinda, onde estabeleceu a capital. 
Apesar da luta contra os indígenas, Pernambuco prosperou e cresceu ano após 
ano. Nos meados da década de 1540, Olinda contava 400 europeus e 500 
escravos, enquanto Iguaraçú tinha apenas 150 pessoas. Havia cinco engenhos de 
açúcar, campos de algodão, gado bovino e muitos porcos. 


As demais capitanias tiveram pouco sucesso. Piauí, Itamaracá, Rio de Janeiro e 
Santana não foram praticamente colonizadas. Para a exploração do Pará, 
Maranhão e Ceará, organizou-se uma grande expedição com dez navios, e mais 
de mil pessoas, incluindo cem cavaleiros. Os seus intuitos estavam mais na 
procura de ouro (que os Espanhóis acabavam de encontrar na América) do que 
em promover a colonização. Mas tendo em vão explorado o rio Maranhão durante 
três anos e perdido dois terços -da gente que levava, a expedição desfez-se e os 
seus poucos sobreviventes fixaram-se na aldeia da Nazaré, que haviam fundado 
na ilha de Maranhão. 


Nos Ilhéus, em Porto Seguro e no Espírito Santo, o povoamento arrastou-se por 
anos e anos. Na Baía e em S. Tomé, os índios atacaram e destruíram casas e 
culturas, matando dezenas de portugueses e seus escravos, incluindo um dos 
capitães. 


O Brasil mostrava-se, de facto, difícil de colonizar. Toda a casta de obstáculos 
impedia um modo de vida despreocupado. Além dos índios havia o clima, 
responsável pela morte de centenas de pessoas. Vinham depois os inúmeros 
insectos e animais selvagens, enquanto a selva equatorial ou tropical, cheia de 
peri- 


Organização do Império 
349 


gos e quantas vezes impenetrável, impedia que se entrasse no interior, em busca 
de melhores locais para viver. Até à actualidade, a conquista do Brasil tem-se 
revelado eriçada de espinhos. 


Mas apesar de todos os seus fracassos, a colonização brasileira estava longe de 
ter sido um desastre. Uns dois mil portugueses, ajudados por três ou quatro mil 
escravos, achavam-se permanentemente estabelecidos na terra, de Pernambuco 
a San- 


tos, pelos fins da década de 1540, número importante se nos lembrarmos de que 
na Ásia, com todos os seus atractivos, várias vezes maior do que o Brasil, não se 
contavam mais de* dez mil portugueses ao tempo. O tráfico de pau-brasil e de 
açúcar atin- 


Fig. 44-0 Brasil até meados do século xvl 


350 Surto do Império 

gira níveis insuspeitados, competindo com os da Madeira e 

S. Tomé. 

Administração Não conhecemos todos os pormenores do sistema econó- 


económs$ ca do Ultramar mico adoptado pela Coroa no Ultramar logo após a morte 
do 


infante D. Henrique. Dependeu provavelmente de iniciativas privadas durante 
alguns anos, desde que à Coroa se pagasse um direito de 10 a 20 % sobre toda a 
mercadoria importada. Vários particulares e diversas companhias temporárias, 
onde geralmente predominavam capitais e mercadores portugueses, tomaram em 
mãos a exploração do rendoso trato da Guiné. O comércio africano, todavia, não 
consistia num bloco único, permanentemente nas mãos de um grupo de pessoas 
apenas. Dividia-se antes por áreas geográficas, ou ramos, cada qual abrangendo 
certo número de artigos. A região x ou o artigo y é que eram arrendados pela 
Coroa a alguém por determinado número de anos. 


No que respeita ao ouro, por exemplo, havia o tráfico de Arguim, na África 
Ocidental, o tráfico de Cantor e Gâmbia, o tráfico da Serra Leoa e o tráfico da 
Mina. O comércio das especiarias e das drogas era distinto das pescarias ou do 
comércio de marfim. E o trato dos escravos, claro está, não se confundia com 
qualquer dos outros. A Coroa conservava certos monopólios, como o do tráfico 
das especiarias, dos escravos e do ouro da Mina. Contudo, o monopólio do 
Estado podia expressar-se de duas maneiras: ou exploração directa por 
funcionários nomeados pela Coroa e fixados nas feitorias, ou licenças especiais 
concedidas a particulares. E ainda, se o ouro da Mina, por exemplo, pertencia à 
Coroa, grande número de indivíduos tinha o direito de traficar em ouro: os capitães 
e soldados das fortalezas, os funcionários públicos e alguns outros tinham o direito 
de comprar ouro até ao limite dos seus salários ou tenças, desde que o 
submetessem a fiscalização da alfândega e o convertessem em moeda na Casa 
da Moeda de Lisboa. A coexistência de todas estas formas, particulares e estatais, 
e a sua constante mudança com o decorrer dos tempos, é que torna 
particularmente complexa a análise do comércio português em África (como, mais 
tarde, na Ásia e na América). Para mais, o contrabando e a concorrência 
estrangeira perturbavam com frequência a rigidez da lei. 


Organização do Império 351 


A grande época dos monopólios arrendados começou em 

1468, quando a Coroa (ou melhor, o príncipe D. João a quem Afonso V doara o 
tráfico africano) concedeu a um mercador lisboeta, Fernão Gomes, o monopólio 
de todos os lucros africanos que não pertencessem ao Estado. Outros se lhe 


seguiram, como o mercador florentino Bartolomeu Marchione, que controlou o 
comércio com a Africa na década de 1480 e começos da de 1490. Mercadores 
espanhóis, alemães e franceses tiveram também a sua parte durante o reinado de 
D. Manuel |. 


O alargar das iniciativas portuguesas até ao oceano indico não implicou uma 
modificação repentina neste estado de coisas. As expedições de Bartolomeu Dias 
e Vasco da Gama foram parcialmente financiadas por capitais particulares. 
Florentinos (os Giraldi e os Bardi, por exemplo), genoveses (os Lomellini, entre 
outros) e outros italianos (os Affaitati de Cremona, como um bom exemplo), 
alemães de Augsburg e Núrnberg (os Fugger, os Welser, os Irnhoff), mais tarde 
castelhanos de Sevilha e de Burgos, até franceses, todos rivalizaram nas 
tentativas de controlar o comércio português com a índia. Entre os homens de 
negócio portugueses, mostravam-se particularmente activos os ex-judeus 
(cristãos-novos), devido aos seus capitais e suas ligações no estrangeiro. 


Nos primeiros anos após 1498, o tráfico foi livre, contra um direito de 5 % de 
alfândega apenas. Contudo, os lucros iam-se avolumando de tal maneira e a 
competição mostrava-se tão desenfreada (com seu impacto alarmante nos preços) 
que a Coroa se decidiu a interferir. Em 1504 foi imposto o controle do Estado 
sobre o comércio com o Oriente. Toda a mercadoria devia ser comunicada à Casa 
da índia que a venderia a certo preço, dando depois a cada proprietário a soma 
correspondente. Os direitos de alfândega subiram para 30 %. 


Não foi isto julgado bastante. Em 1506, o rei decidiu criar um monopólio oficial 
sobre todas as importações e vendas de especiaria, seda e goma laca, sobre as 
exportações de ouro, prata, cobre e coral, e sobre o tráfico entre Goa e as 
principais feitorias. Só a Coroa poderia também armar e mandar navios para o 
oceano indico. Este sistema duraria até 1570. 


352 Surto do Império 


De novo, não queria isto dizer que fosse a Coroa a tratar de todos esses assuntos 
económicos directamente. Faziam-se contratos com grupos de capitalistas para a 
venda e colocação em mercado da especiaria e dos demais produtos. As 
tripulações e o funcionalismo público ultramarino recebiam parte dos salários em 


licenças de importação de fardos de especiaria, comprada à sua 


custa mas transportada a expensas do Estado. Eram as chamadas quintaladas. O 
alto funcionalismo podia igualmente importar mercadoria que depois partilhava 
com a Coroa. Toda a gente podia vender os seus direitos à quintalada ou 
simplesmente alugar a outrem o espaço que tinha a bordo de um navio, prática 
que, em boa verdade, convertia em mercador todo o tripulante e todo o funcionário 
público. 


Desde os começos da expansão ultramarina que os escravos, seguidos pelo ouro 


e pela especiaria, constituíam os artigos mais rendosos. Esta trilogia continuou a 
desempenhar o papel decisivo na história económica do Império Português 
durante todo o século xvi, embora o primeiro lugar passasse para as especiarias, 
seguidas pelo ouro e pelos escravos. 


As especiarias As especiarias - nome geral para grande número de produtos, 
incluindo o açúcar, com usos variados - tinham sempre sido raras e caras, mas o 
seu emprego na Europa pre-renascentista estava largamente difundido. Essa 
raridade fazia-as ainda mais apreciadas e desejadas pelos mercadores, devido à 
alta Margem de lucro possível. A busca de especiarias, como a busca do ouro e 
dos escravos, podia mover indivíduos, sociedades e nações. 


As especiarias africanas incluíam a pimenta vermelha ou malagueta, que se 
achava nas regiões da Gâmbia e do golfo da Guiné, e a pimenta de rabo, 
variedade da pimenta preta indiana, também existente no golfo da Guiné. As 
especiarias asiáticas 

- as seis mais importantes sendo a pimenta, o gengibre, a canela, o cravo, as 
maças e a noz moscada - vinham sobretudo da costa de Malabar, na índia, com 
Calicut como entreposto principal, de Ceilão, do noroeste de Samatra, das ilhas 
Comores, das ilhas de Banda e do arquipélago das Molucas, tudo lugares onde os 
Portugueses chegaram e que controlaram. 


Organização do Império 
353 


Desde a década de 1450, quando a primeira malagueta africana foi trazida para 
Lisboa, até ao fim do domínio português na Ásia, o comércio das especiarias 
nunca cessou de crescer. Nos primeiros decénios do século xvi, um mínimo de 
2000 quintais de pimenta, em média, entrava anualmente em Portugal, vindo do 
golfo da Guiné. Pela mesma altura, porém, a Ásia já abastecia os Portugueses 
com 40 a 50 000 quintais de especiarias anualmente (das quais pelo menos 10 
000 eram de pimenta), número que subiu a 60 a 75 000 (um terço em pimenta) 
pela década de 1530. O monopólio das especiarias dava à Coroa um lucro líquido 
de cerca de 89 %, percentagem que bem explica a atracção da Índia e os esforços 
quase inacreditáveis empreendidos pelos Portugueses para dominar o comércio 
marítimo asiático. 


O tráfico do ouro esteve sempre ligado à África, embora O ouro 


algum dele proviesse também de Samatra. Além da Mina, os Portugueses 
tentaram senhoriar as famosas jazidas de ouro do Monomotapa (em Moçambique 
e na Rhodésia de hoje). O seu rendimento, todavia, mal pagava a mão-de-obra 
necessária para o conseguir. Ao todo, uma quantidade média anual de 700 a 840 
kg de ouro entrou em Portugal nos primeiros vinte anos da centúria de 
Quinhentos, avaliada em 200 000 a 240 000 cruzados por ano. Deste total, mais 
de metade consistia em ouro da Mina. 


A terceira grande mercadoria, os escravos, encontrava-se por Os os cravos 


toda a costa de África, onde quer que os Portugueses tivessem feitorias ou 
fortalezas. Escravos da Guiné (no sentido lato da palavra) e escravos do Congo 
(incluindo o Norte de Angola) supriam as necessidades de mão-de-obra na 
Europa, nas ilhas da Madeira, Cabo Verde e S. Tomé. Mais tarde, o Brasil 
converter-se-ia no primeiro importador de escravos, mas só desde meados do 
século xvi (cf. Cap. VIl). Mouros cativos no Norte de África, capturados em 
batalhas, escaramuças ou razias, somavam-se também à população escrava. Era 
pequeno, todavia, o seu número, visto que a maior parte se remia a dinheiro ou 
trocava por prisioneiros portugueses nos países muçulmanos. A Ásia abastecia 
ainda Portugal com escravos de todas as raças e de 


23 
354 Surto do Império 


todos os credos, mas parece que o seu uso era sobretudo local. As autoridades 
desencorajavam até a exportação para a Europa. Muitos eram vendidos de novo 
pelos Portugueses a outros traficantes de escravos asiáticos. 


Faltam-nos, uma vez mais, estatísticas precisas sobre o número de escravos 
comprados ou capturados até meados da centúria. Para o período de 1450-1505, 
calculou-se a cifra máxima de 750 como média anual, o que perfaz 41250 em todo 
o meio século. De qualquer maneira, não devem ter entrado menos de 

25 000 escravos na Europa e nas colónias portuguesas nesse período. 


ouiros Além das especiarias, do ouro e dos escravos, o tráfico ultraprodutos 
marino incluía marfim, couros e peles, aliníscar, gado, goma, 


etc., da África, e uma enorme variedade de produtos belos, raros ou exóticos 
daQÁsia, em procura crescente pelas cortes e pelos burgueses da Europa. 
Incluífam toda a casta de têxteis preciosos, tais como seda, mobiliário feito de 
madeiras caras, múltiplas variedades de porcelana e de olaria, obras de arte, etc. 
O açúcar, claro está, vinha a meio caminho entre todos estes artigos e a trilogia 
primeiro indicada, assumindo por vezes, até, posição mais importante do que os 
escravos. 


Os produtos demandados pelos Africanos variavam muito de região para região, 
consoante o avanço cultural respectivo. Em regra, os têxteis ocupavam o primeiro 
lugar na lista, tanto na forma de panos coloridos como de peças de vestuário de 
toda a espécie. Muito apreciados eram também o vidro e as contas de coral. Mas 
grande número de outros produtos manufacturados atraam os Negros e os 
mercadores muçulmanos que por vezes lhes serviam de intermediários. Os 
Africanos tinham grande apreço por prata e cobre, na forma de pulseiras e de 
anéis, ou ainda de moedas e de artigos industriais. 


Para a índia, os Portugueses exportavam, acima de tudo, metais: moedas de ouro 
e prata, prata e cobre em barra e em objectos, cnumbo, mercúrio e também coral. 
Cada navio que chegava à costa de Malabar nos anos de 1510-1518 levava um 
carregamento médio de uns 50 000 cruzados de tal mercadoria, que era vendida 
nas feitorias. 


Organização do Império 355 
A supervisão estatal fez de Lisboa o entreposto obrigatório Rede comei 


de todo o comércio ultramarino. Mas Lisboa, como Portugal, estava longe de ser o 
destino último da mercadoria comerciada bem como a origem de todas as 
exportações para a África e para a índia. Estradas comerciais ligavam Lisboa com 
vários mercados europeus, dos quais Antuérpia (precedida por Bruges) levava a 
dianteira. Outros destinos eram a Espanha (as feiras de Medina del Campo), a 
Itália, a Alemanha (Augsburg, Núrnberg), e praticamente toda a Europa. Não se 
deve esquecer ainda o tráfico asiático local, visto que os Portugueses substituíram 
os Muçulmanos em muitas das suas formas, continuando as iniciativas e trilhando 
as estradas já de há muito estabelecidas. De Marrocos à África Oriental, de Ormuz 
à China, um comércio múltiplo, parte dirigido pela Coroa, parte nas mãos de 
particulares, punha os Portugueses em contacto permanente com povos e 
economias de todos os tipos e estádios de adiantamento. Um tal comércio tinha, 
muitas vezes, pouco que ver com a Europa e seus interesses mas servia para 
enriquecer ou arruinar os ousados particulares que o tomavam em mãos. 


Por volta de 1515, o comércio de especiarias com Portugal Volume atingia 1 
milhão de cruzados, tanto como os rendimentos ecle- do comérci< siásticos. Era 
seguido pelo comércio de metais (ouro, prata, cobre), somando uns 475 000 
cruzados. Vinham depois o açúcar (250 000), o pau-brasil (50 000), os escravos 
(30 000), e os produtos de tinturaria (10 000). Os lucros com as especiarias e 


com o ouro da Mina constitufam 40 % de todos os rendimentos do Estado. Por 
1518-19, o comércio ultramarino representava 

68 % de todas as receitas estatais, o que queria dizer que realeza e instituições 
dependiam principalmente da expansão marítima. 


Eram também enormes as despesas. Embora nos faltem os orçamentos para este 
período, conhecemos alguns gastos da Coroa entre 1522 e 1543: 800 000 
cruzados para reforços às armadas regulares enviadas para a índia; 400 000 
cruzados para manutenção das fortalezas de Marrocos; 350 000 pagos à Espanha 
pelos direitos sobre as Molucas; 160 000 para as frotas de protecção ao Brasile à 
Guiné. De 1522 a 1551, a Coroa perdeu ainda 


356 Surto do Império 


uma média anual de mais de 100 000 cruzados só em navios naufragados ou 


capturados durante a viagem entre Lisboa e a Índia ou entre Lisboa e a Flandres. 


A Casa A primeira repartição a cargo dos negócios africanos fora a da Índia Casa 
de Ceuta, criada em Lisboa antes de 1434. Sabemos pouco 


da sua composição e funcionamento, mas o abastecimento militar e económico 
dos baluartes portugueses em Marrocos contava-se por certo entre as suas 
maiores obrigações. Por 1445 foi estabelecida em Lagos, no Algarve, uma 
repartição económica para o comércio com Arguim; outra se lhe seguiu, também 
em Lagos, para o trato da Guiné. Na década de 1460 ambas foram transferidas 
para Lisboa e fundidas numa secretaria governamental mais ampla, a Casa da 
Guiné e da Mina. Quando os Portugueses entraram no indico, uma nova 
repartição foi criada para os negócios de Sofala e da índia. Por 1501 ambas se 
haviam fundido numa única secretaria de estado, a Casa da Guiné e índia (com 
variantes na denominação), ou simplesmente Casa da Índia. 


A Casa da Índia era o centro de todo o comércio e de toda a administração do 
Ultramar. Superintendia nas exportações para a índia, no desembarque da 
mercadoria oriental, na distribuição dos produtos entre os interessados. Verificava 
todas as vendas em nome da Coroa. Nomeações de funcionários ultramarinos, 
promulgação de regulamentos gerais e lavra de diplomas particulares tinham 
também de passar pela Casa da índia. Inclufa arquivo, um departamento de 
contabilidade e de preços, recebia e registava todas as cartas vindas do Ultramar, 
superintendia na armação, defesa militar e abastecimento dos navios, etc. A partir 
de 1520, foi criado na Casa da Índia um guarda-livros especial. Portanto, esta 
repartição combinava aquilo a que hoje se chama um ministério com uma feitoria 
de comércio. 


Até 1509, o funcionalismo superior da Casa da Índia consistia num feitor, num 
tesoureiro e em três escrivães. A medida que o volume dos negócios ia crescendo 
e se tornava mais complexo, assim também a estrutura da repartição se teve de 
modificar. Um regulamento promulgado naquele ano alargou consi- 


Organização do Império 357 


deravelmente o pessoal obreiro: além do feitor, que respondia só perante o rei e 
dispunha de plenos poderes sobre o pessoal menor, foram criados três tesoureiros 
(um para as especiarias, outro para os dinheiros e o terceiro para os negócios da 
Guiné e da Mina) e cinco escrivães. Todas as querelas passaram a ser tratadas 
por um tribunal especial, consistindo num juiz, num escrivão, num meirinho, em 
vários guardas, etc. Este mesmo regimento de 1509 mostrava-se assaz rigoroso 
na organização da Casa da índia em departamentos separados que, mais tarde 
(1530), se definiriam melhor e se fariam mais complexos. 


Além da Casa da índia, diversas outras repartições menores tinham a seu cargo 
os assuntos ultramarinos. Assim acontecia com a Casa dos Escravos, fundada em 
1486 e dispondo do seu próprio almoxarife e escrivão. 


Apesar de toda a sua autonomia, os negócios do Ultramar nunca estiveram 
completamente separados dos da metrópole. Jamais houve um ministro, ou 
secretário, que neles superintendesse. Eram os antigos vedores da fazenda que 
continuavam a exercer a supervisão geral, embora um deles tivesse contacto mais 
directo com tudo o que dizia respeito à África e à índia. 


Bibliografia -Além das histórias gerais e das obras mencionadas anteriormente, o 
leitor interessado deve especialmente contactar com alguns artigos importantes 
publicados no Dicionário de História de Portugal, que resumem os modernos 
pontos de vista sobre colonização, comércio ou administração: «Madeira», 
«Oriente», «Complexo Histórico-Geográfico», «Especiarias», «Finanças Públicas 
e Estrutura do Estado», «índia (Casa da)» etc. De Fernando Jasmins Pereira 
consulte-se O Açúcar Madeirense de 

1500 a 1537. Produção e Preços, Instituto Superior de Ciências Sociais e Política 
Ultramarina, Lisboa, 1969. 


Sobre a expansão portuguesa no Congo e em Angola, veja-se David Birmingham, 
Trade and Confliet in Angola. The Mbundu and their neighbours under the 
influence 01 the Portuguese 1483-1790, Oxford, Clarendon Press, 1966 (um 
resumo em português intítula-se A Conquista Portuguesa de Angola, Porto, A 
Regra do Jogo, 1974). 


Charles Boxer escreveu três obras fundamentais para este período: Portuguese 
Society in the Tropics. The Municipal Councils o/ Goa, Macao, Bahia and Luanda, 
1510-1800, Madison-Milwaukee, University of Wisconsin Press, 1965, fundamental 
para o estudo da administração local; Race Relations in the Portuguese Colonial 
Empire, 1415-1825, Oxford, Clarendon Press, 1963, importante para o estudo dos 
métodos de colonização e seus 


358 Surto do Império 


problemas; e The Portuguese Seaborne Empire 1415-1825, Londres, Hutchinson, 
1969, a obra mais completa até hoje publicada sobre o Império Português. 


Sobre os primeiros tempos da colonização do Brasil, o melhor estudo de conjunto 
foi provavelmente o escrito por Jaime Cortesão, no Livro | de Brasil (onde Pedro 
Calmon colaborou também), vol. XXVI da História de América y de los Pueblos 
Americanos, dirigida por Antonio Ballesteros y Bereitta, Barcelona, Salvat, 1956 
(2.a edição nas Obras Completas daquele autor). 


A organização económica do Império acha-se pormenorizadamente estudada por 
Vitorino Magalhães Godinho, em Os Descobrimentos e a Economia Mundial, 2 
volumes, Lisboa, Arcádia, 1963-71. 


3 -Os grandes problemas a resolver 


Para um país pequeno, habitado por menos de dois milhões o «70 ,jpéQ .ío> de 
pessoas, a imensa tarefa de construir um Império não era certamente fácil. 
Contudo, para um conhecimento mais exacto de um esforço que hoje nos parece 
tão espantoso, dois aspectos principais têm de ser analisados. 


Em primeiro lugar, a relação entre grandes feitos e as dimensões físicas de uma 
nação não se mostrava necessariamente directa. As repúblicas de Veneza e 
Génova haviam construído impérios económicos consideráveis a partir de áreas 
menores do que Portugal, habitadas por menos gente do que os Portugueses. Os 
seus mercadores podiam ser encontrados da Península Ibérica à China e as suas 
alianças políticas procuravam-se com avidez. Mais tarde, no século xvii, a Holanda 
iria dominar boa parte do Mundo, embora os Países Baixos tivessem metade do 
tamanho dê Portugal e o seu número de habitantes andasse à roda de dois 
milhões. Dentro da Europa, tanto Aragão como a Dinamarca chegaram a parecer 
grandes potências, estendendo a sua hegemonia sobre regiões assaz vastas e 
densamente povoadas. Muito mais importante do que o tamanho da terra ou o 
número dos seus filhos, era a efectivação de uma autoridade real forte (que 
permitisse direcção competente e organização eficaz), o consequente 
desenvencilhar de problemas políticos internos, a coesão nacional resultando na 
possibilidade de esforços comuns, as pressões de tipo económico, social e outras 
visando a expansão, grande número de circunstâncias locais e conjunturais 
variando com o tempo e com o espaço, etc. 


360 Surto do Império 


Em segundo lugar, Portugal nunca edificou, até meados do século xvi, um 
verdadeiro império, que exigisse número grande de homens armados e um 
poderio militar desenvolvido. Nestes termos, não se punham problemas especiais 
quanto à falta de mão-de-obra. Do Brasil às Molucas, menos de quarenta mil 
portugueses chegavam para manter o bloqueio económico, proteger as feitorias e 
guarnecer as fortalezas, inspirar terror e infligir castigos aos rebeldes contra a sua 
supremacia, colonizar quatro arquipélagos e uma longa tira de costa num 
continente novo. A emigração pode ter desfalcado o País em alguns jovens aptos 
para o trabalho, mas o seu número foi proporcionalmente pequeno em 
comparação com as extensas sangrias dos fins do século xix e do nosso século 
XX. 


Mão-de-obra Contudo, se a manutenção do Império custava pouco em 

recursos demográficos e não punha ameaça séria à vitalidade da nação, um 
problema bem mais grave resultava da falta de mão-de-obra qualificada. Havia, é 
verdade, suficientes marinheiros, soldados e mercadores ambulantes. Mas onde 
encontrar bastantes pilotos hábeis, capitães, peritos em navegação, generais, 
administradores, missionários de vocação, conselheiros económicos, etc.? Esta 
falta de mão-de-obra qualificada começou a apresentar um perigo real pela 
segunda metade do século xvi, quando os encargos de Portugal por todo o mundo 
desafiavam a capacidade da nação em se ocupar deles; embora, desde os 


começos da expansão, fosse sentida a necessidade de importar pessoal 
estrangeiro. Italianos, castelhanos, catalães, alemães, flamengos, muçulmanos, 
judeus, todos participaram activamente na preparação, organização e direcção 
dos empreendimentos portugueses. Ao mesmo tempo - contradição muito típica 
da história nacional até à actualidade - numerosos portugueses adextrados 
tiveram de emigrar, por motivos económicos, religiosos, políticos e pessoais. A 
presença de conselheiros, técnicos e comerciantes estrangeiros em solo 
português nunca excluiu a presença de conselheiros, técnicos e comerciantes 
portugueses em terra estrangeira. Os exemplos de Fernão de Magalhães e de 
João Dias de Solis servindo o rei de Espanha, ou dos capitalistas judeus 


Os grandes problemas a resolver 361 


portugueses estabelecidos na Flandres e na Alemanha, são característicos desta 
contradição que Portugal se mostrou sempre incapaz de resolver. 


Outro problema nasceu do fundo económico e social da Coroa e nação. A espinha 
dorsal de impérios comerciais como os de burguesia Veneza, Génova e, mais 
tarde, da Holanda, fora sempre a existência de uma forte classe média de 
empreendedores burgueses, espicaçados pela perspectiva do lucro e decididos a 
investir esse lucro em novas operações rendosas. Essa classe média não existia 
em Portugal em número ou força bastante para poder dominar e continuar a 
expansão. Em vez de depender de iniciativas privadas apoiadas ou fortalEcidas 
pelo Estado, a expansão portuguesa foi essencialmente uma empresa estatal, a 
que não se mostraram indiferentes interesses e iniciativas particulares. Nada havia 
de errado nisto, se a Coroa conseguisse actuar como um autêntico mercador ou 
uma companhia de comércio. Uma empresa do Estado permitiria até a busca mais 
rápida de objectivos a alcançar e uma organização muito superior dos meios 
necessários para tal. Porém, os problemas haviam de surgir quando a Coroa fosse 
tentada a substituir uma pura política mercantil por outra de imperialismo e de 
domínio político radical, que exigisse gastos desproporcionados aos lucros 
possíveis. Para mais, a Coroa assentava directamente numa estrutura feudal 
baseada no privilégio e na renda, que permitia à nobreza e ao 


clero sugar a melhor parte dos lucros em proveito próprio. Faltando-lhe a 
mentalidade burguesa, nobres e clérigos preferiam investir os seus novos capitais 
em terra, em actividades de construção (igrejas, mosteiros, palácios) e em luxo. 
Como consequência, a estrutura feudal do País, repousando sobre a posse da 
terra e dependendo da agricultura, não foi essencialmente abalada pela expansão, 
conseguindo sobreviver século após século. Como consequência, também, o 
Estado viu-se perante uma escassez permanente de capitais para a manutenção 
do Império, sendo forçado a apelar para dinheiro e iniciativas estrangeiras, o que 
veio ainda atrasar mais o crescimento de uma classe média indígena. 


362 


Surto do Império 


Com grande parte da produção ultramarina na mão de estrangeiros (fosse por 
venda directa, fosse por arrendamento, fosse por empréstimos), é fácil de 
compreender que os Portugueses se tornariam em transportadores por conta de 
outrem em vez de por conta própria. Diga-se de passagem que este facto não 
deve ser exagerado, como muitos historiadores tenderam e tendem a fazer. Parte 
considerável dos lucros ultramarinos jamais passou para mãos estrangeiras. Mas 
não resta dúvida de que ficou para sempre inutilizado um possível enriquecimento 
de Portugal através do desenvolvimento do comércio e da indústria. 


Aos olhos tanto de contemporâneos como de vindouros, a corrupção e a confusão 
administrativas tiveram papel decisivo em preparar ou até determinar o colapso do 
Império. Assunto caro a todos os historiadores-moralistas ou políticos-moralistas, 
a corrupção, aliada às dissensões intestinas, anunciaria já o fim último do Império 
Português na índia desde os tempos de Albuquerque. Os dados históricos, 
todavia, é que não parecem corroborar um tal ponto de vista. Não houve maior 
corrupção na administração ultramarina portuguesa de então do que na metrópole 
ou em qualquer outro império colonial da mesma época. Questões morais deste 
tipo, aliás, têm constituído sempre tema predilecto alegado por contemporâneos 
para explicar fracassos, erros ou simplesmente realizações parciais. Baseiam-se 
muitas vezes em pouco mais do que numa impossível perfeição humana, 
constantemente exigida pelos críticos de todos os tempos. Mas, fosse como fosse, 
nem a dita corrupção nem as querelas inevitáveis entre os Portugueses alguma 
vez impediram que estes fossem respeitados e temidos por Africanos e Asiáticos 
se outras razões não existissem. 


Raça, civilização e religião puseram problemas infindos. De Marrocos à China, os 
Portugueses entraram em contacto com gentes de todas as etnias, estádios 
culturais e crenças. Ora, o seu único conhecimento e prática de tais problemas 
dizia respeito aos Muçulmanos do Norte de África que, mais ou menos, lhes 
estavam próximos em padrões de raça e de civilização. 


Os grandes problemas a resolver 363 


Diferença na fé constituíra sempre motivo para cativeiro* Muçulmanos e Cristãos 
escravizavam-se mutuamente, logo que a guerra (ou o corso) os presenteava com 
cativos irredentos. Contudo, cada parte estava igualmente acostumada a tolerar a 
outra em condição livre também. As mourarias das cidades portuguesas e a 
existência de tenentes muçulmanos livres ou pequenos proprietários rurais eram 
disso bom exemplo. A simples vista de um infiel não constituía em si mesma 
condição de escravização, embora a pudesse justificar se circunstâncias o 
favorecessem. Por outro lado, se a conversão ao Cristianismo podia apressar a 
concessão de alforria, não a garantia automaticamente. Sempre houvera escravos 
cristãos na Cristandade, como sempre houvera escravos muçulmanos no Islam. 


A medida que o tempo foi passando, e Judeus e Mouros tiveram de abandonar a 
Península Ibérica, a intolerância aumentou. Acabara a era de coexistência 


pacífica, e um conflito bem mais acerbo opunha os partidários de Cristo aos 
partidários de Mafoma. Estes últimos, para mais, revelavam-se os guardiões do 
comércio internacional asiático, sendo portanto os inimigos naturais dos 
Portugueses. Diga-se de passagem que tal facto nunca impediu a existência 
contínua de comércio pacífico entre mercadores islâmicos e mercadores 
portugueses, particularmente na África, onde ninguém punha em causa a 
supremacia marítima de Portugal. 


Na índia, como por toda a parte no Oriente, a religião levou de início. a grandes 
confusões. Totalmente ignorantes da existência de outras fés organizadas, os 
Portugueses começaram por julgar que os Hindus eram Cristãos. Em cada não- 
muçulmano viam um cristão, convencidos como estavam da existência de grandes 
comunidades adoradoras de Cristo na Ásia. Ao darem-se conta do erro - o que 
não tardou - começaram a trazer consigo mais sacerdotes e mais missionários do 
que a assistência religiosa habitualmente requeria. Esses missionários dirigiram- 
se sobretudo aos não-muçulmanos, mais do que às comunidades islâmicas, que 
os Portugueses bem sabiam (por experiência em Marrocos e na Península) serem 
inconvertíveis. Tanto Brahmanistas como Budistas sentiram o atractivo da nova 
religião, não 


364 Surto do Império 


porque ela se distinguisse da sua por qualquer superioridade espiritual, mas 
apenas porque era nova e activa, pregada com veemência e propensa a 
convencer as camadas sociais inferiores. Os Cristãos ensinavam a igualdade e a 
fraternidade, em contraste com as diferenciações sociais e económicas existentes. 
Tudo isto explica o grande número de convertidos nos primeiros tempos da 
evangelização cristã. Contudo, não levou muito tempo para os Asiáticos se darem 
conta de que o Cristianismo significava tanta opressão e discriminação como as 
suas anteriores crenças. Assim, para assegurar conversões, os Portugueses 
tiveram de pÔr em pQática legislação discriminatória contra os não-cristãos, 
prática que geralmente passaram a seguir a partir de meados do século xvi. 


Para conseguirem os fins em vista, os missionários também verificaram que 
precisavam de estudar a fundo a língua e os costumes dos nativos. Devido a isto, 
as melhores descrições das culturas asiáticas feitas no século xvi deveram-se a 
clérigos. Procuraram ainda compreender os sentimentos e as mentalidades dos 
povos que queriam trazer para a fé cristã. Em regra, serviam-se da persuasão, 
muito mais do que da força. Em regra, também, eram os missionários quem 
melhor entendia a complexidade das culturas asiáticas e se dava conta das 
profundas contradições entre elas e a sua própria. Bem melhor do que os 
conquistadores e os administradores, que muitas vezes mais não viam do que 
simples superioridade militar e se acostumavam a desprezar as culturas de povos 
mais fracos, os missionários avaliavam dos valores reais, das realizações 
civilizacionais e dos traços genéricos e específicos dos países asiáticos, 
mostravam o que o Ocidente podia aprender e revelavam que, em muitos 
aspectos, esses países estavam mais avançados do que os europeus. 


Raça Mas embora fossem a religião e a civilização, mais do que 


a raça, que se traduziam em complexos de superioridade, seria errado acreditar 
que os Portugueses estavam isentos do conceito de superioridade rácica. Como o 
historiador Charles Boxer afirma com acerto, «o mais que em boa verdade se 
pode dizer 


Os grandes problemas a resolver 365 


é que eles, a este respeito, se mostravam geralmente mais liberais na prática do 
que os seus sucessores holandeses, ingleses e franceses». Poderíamos 
acrescentar que em teoria, também, a atitude geral dos portugueses não seguia 
uma orientação racista. A Coroa manteve sempre o principio de que a religião, não 
a 


cor da pele, é que seria a base para uma igualdade com os portugueses da 
Europa. Na prática, quem decidia das atitudes a 


tomar eram as circunstâncias locais. A falta costumada de mulheres europeias 
dava ensejo a um espantoso grau de fornicação com fêmeas de qualquer raça, a 
que todos se entregavam, desde o governador ao mais humilde marinheiro, 
incluindo os clérigos. Os filhos resultantes tinham os mesmos direitos do que a 
descendência ilegítima na metrópole, embora frequentemente fossem 
desprezados, quer por europeus quer por indígenas. 


O grau de preconceito racial dependia muito da cor e da cultura. Existia toda uma 
gradação de aceitação étnica, começando com os muçulmanos brancos ou com 
os hindus brancos e terminando com os africanos negros retintos ou com os 
amerindios canibais. Da mesma forma, o tipo de relações, amigáveis ou não, 
desempenhava papel de relevo. O estabelecimento da Inquisição, com suas 
perseguições organizadas a Judeus e a Mouros, e o endurecimento geral da 
política interna portuguesa e ultramarina a partir dos meados do século xvi 
introduziram claramente uma barreira étnica muito mais estrita do que antes. 
Nisto, como na atitude geral para com a raça, os Portugueses não se mostraram 
essencialmente diferentes dos Espanhóis, dos Italianos e de quaisquer outros 
povos mediterrâneos. 


A descoberta do oceano Atlântico, sobretudo depois da pas- Questões sagem do 
equador, veio introduzir um certo número de proble- científicas mas, todos eles de 
difícil resolução. 


Para começar, havia a questão dos ventos (e das correntes também). No Atlântico 
Norte, a ausência de ventos favoráveis impedia um regresso fácil da costa 
africana, a menos que os 


navios velejassem para noroeste, a fim de apanhar os alisados soprando de 


ocidente. Como vimos (cf. Cap. III), foi este facto que provavelmente levou à 
descoberta dos Açores, nos fins da 


366 Surto do Império 
década de 1420, bem situados como pontos de escala no caminho de regresso. 


O sistema dos ventos a sul do equador obedecia a um padrão simétrico do do 
norte, facto de que os Portugueses se deram conta pela década de 1480, D;e não 
já antes. Uma tal descoberta permitiu-lhes preparar cuidadosamente a melhor rota 
para e da Ásia. Assim, Vasco da Gama, em vez de acompanhar a linha de costa 
africana, navegou para sudoeste até apanhar os ventos alíseos do sul que 
sopravam de ocidente. Estes levaram-no directamente à ponta meridional da 
África. No regresso, todavia, Vasco da Gania já navegou perto da costa. O 
percurso seguido por Cabral obedeceu ao mesmo princípio. Desde então, a rota 
costumada para a índia não conheceu grandes alterações, reduzindo-se a um 
mínimo indispensável os portos de escala. 


Uma vez no oceano Índico, o caminho para e da índia resultava do sistema das 
monções. Desde Maio até Outubro sopra a monção de sudoeste, enquanto de 
Outubro a Maio sopra a monção de nordeste. Isto permitiu aos Portugueses 
cronometrar a chegada e a partida das suas frotas segundo um horário muito 
regular. Todos os anos, uma armada de oito navios em média largava de Lisboa 
em Março ou Abril, pronta a beneficiar da monção de Verão, soprando de África e 
empurrando-a até à índia em Setembro. Da índia, a frota anual zarpava em fins de 
Janeiro, chegando a Lisboa nos meados do Verão. 


Outro problema derivava da necessidade de mais e mais viagens longe da costa, 
em que se mostravam pouco úteis os velhos métodos de rumo aproximado. Levou 
algum tempo aos Portugueses o servirem-se do céu como meio prático de 
determinar as latitudes. Mau grado uma referência a observações astronómicas a 
bordo de uma nave já em 1451, parece que não foi antes da década de 1460 e, 
sistematicamente, só muito mais tarde, que os Portugueses começaram a 
determinar regularmente a sua posição no mar pela observação do Sol ou das 
estrelas. Este método requeria o conhecimento exacto do desvio (em graus) da 
Estrela Polar do Pólo Norte, e o modo de o calcular a bordo de um navio em 
movimento. Para tal propósito, foram elaboradas regras de navegação, que 
dessem aos pilotos os dife- 


Os grandes- problemas a resolver 367 


rentes valores que deviam ser somados ou subtraídos à latitude calculada da 
Estrela Polar (Regimentos da Estrela dó Norte). Durante o dia, os navegadores 
determinavam simplesmente a latitude meridiana do Sol, sistema que se difundiu 
pela década de 1480. Usando o quadrante de madeira, a balestilha e, acima de 
tudo, o astrolábio, que desenvolveram e aperfeiçoaram, os 


pilotos portugueses eram capazes de determinar com relativo rigor a sua posição 
no mar, embora nunca tivessem conseguido descobrir uma maneira satisfatória de 
calcular as longitudes. Nos começos do século xvi, os melhores pilotos falhavam 
em menos de dois graus no cálculo de latitudes a bordo de um navio, mesmo com 
mares tempestuosos. 


Nos fins do século xv, os Portugueses desenvolveram também o método dos 
roteiros, onde estavam cuidadosamente descritas a linha de costa e as águas 
suas adjacentes. Os roteiros inclufam sinais particulares (como árvores, 
montanhas, golfos, rios, rochedos) que permitissem reconhecer a costa, assim 
como sondas, portos, bancos de areia, baixios, etc. Grande número de desenhos 
ajudava a descrição verbal. Acompanhavam os roteiros os chamados livros de 
marinharia, espécie de manuais com tudo aquilo que um piloto devia saber. 


Quando foi atravessado o equador, nos começos da década de 1470, novo 
problema surgiu, o de determinar qualquer nova estrela ou constelação que 
pudesse substituir a invisível Estrela Polar. Também a latitude do Sol no 
hemisfério sul exigia novos cálculos que não podiam ser achados nas tábuas de 
latitude existentes. “Mas os astrónomos portugueses e judeus depressa se 
mostraram capazes de dotar a navegação com novos meios adaptados às 
circunstâncias, já patentes nas grandes viagens de Vasco da Gama e Pedro 
Álvares Cabral. O Cruzeiro do Sul foi descrito primeiro (sumariamente) pelo 
navegador italiano Cadamosto, velejando sob bandeira portuguesa, no principio da 
década de 1460. A pouco e pouco, os Portugueses foram descobrindo as 
vantagens da nova constelação como sucedâneo da desaparecida Estrela Polar. 
Depressa se criou um corpus prático de observações e cálculos, reduzido a escrito 
sistemático no chamado Regimento do Cruzeiro do Sul (1506). 


368 Surto do Império 

Muitos outros problemas acompanharam ou derivaram do surto do Império 
Português. Em sua maioria, porém, só começaram a tornar-se cruciais e a receber 
respostas adequadas na segunda metade do século xvi, ou mesmo mais tarde (v. 
Cap. VID. 

Bibliografia - A mesma indicada anteriormente neste capítulo e no capítulo III. 
CAPITULO VI 

APOGEU E DECLINIO 

1 - As estruturas de um estado moderno 

O grande surto demográfico dos finais da Idade Média A população (cf. Cap. IV) 
continuou na maioria da Europa até começos da centúria de Seiscentos. Na 


Península Ibérica a tendência manteve-se, pelo menos até o final do século xvi. 
Os anos seguintes foram marcados por estagnação, se não declínio efectivo, 


independentemente das mudanças na distribuição regional - sobre- 
tudo emigração para as cidades - que poderiam sugerir uma situação diferente. 


Os dados extremamente escassos que possuímos para esta época permitem 
aventar um número genérico de quase dois milhões de pessoas na metrópole à 
roda de 1640 (comparado a um máximo de milhão e meio em 1527-32), com 
alterações porventura mínimas até finalizar o século.. Algumas epidemias de 
maior fôlego podem ter exercido a sua influência mas, essencialmente, a nova 
tendência demográfica mergulhava em raízes mais profundas e ainda 
imperfeitamente conhecidas, de tipo económico e social, as quais por sua vez 
iriam aparecer mais tarde como resultados dela. 


Lisboa, com um máximo de 65 000 habitantes por volta de 

1527, e de 100 000 por 1551, atingira 165 000 ao redor de 1620, menos do que 
Londres, Paris ou Nápoles, mas mais do que qualquer outra cidade da Península 
(Sevilha, a maior urbe da Espanha, nunca foi além dos 120 000 neste período). 
Podia comparar-se com Veneza ou com Amsterdam, enormes metrópoles para o 
tempo. Para Portugal, tratava-se de uma cidade mons- 


372 Apogeu e declínio 


truosa, cabeça demasiado grande para corpo tão diminuto. As demais cidades do 
País, como o Porto, Coimbra, Évora, Elvas, eram muito mais pequenas, com 
populações equivalentes, entre os 16 000 e os 20 000 por volta de 1620. Parece 
que a tendência demográfica favorecendo o Norte e o Centro em detrimento do 
Sul prosseguiu, com o eixo económico e cultural do País movendo-se 
gradualmente para setentrião. Certo número de portos, pequenos mas activos - 
boa parte situada a norte de Lisboa - iam começando a desafiar o monopólio da 
capital no que respeitava a comércio externo. 


Agricultura Na agricultura, continuou a verificar-se a tendência já assinalada no 
capítulo IV. Prosseguiu aparentemente o movimento das arroteias, embora a um 
ritmo que se ia a pouco e pouco tornando mais vagaroso. Faltam-nos, aliás, dados 
bastantes para o período, mas alguns elementos de importância permitem concluir 
nesse sentido. Assim, a pedido dos povos, muitas coutadas foram devassadas ao 
público (1594) e entregues à agricultura ou a outras actividades de benefício geral. 
Tomaram-se diversas medidas (1576, 1627, 1635, etc.) para promover o 
arroteamento e enxugo de lezírias, paúis e baldios. Por outro lado, os governos do 
cardeal D. Henrique e de Filipe Il esforçaram-se por arborizar grande número de 
zonas desnudadas por ocupação intermitente e pouco controlada. Foi por este 
período que vastos pinhais se plantaram em diversas regiões de Portugal. 


O milho continuou a sua carreira vitoriosa. No Centro e Norte, era já bem 
conhecido e divulgado por 1625, embora o seu impacto continuasse durante todo 
o século xvii e xviii. Como ali. mento, substituiu o trigo e o centeio, permitindo 
debelar as habituais crises frtumentárias. Foi o milho que provavelmente esteve 


por detrás, até limites inauditos, do surto demográfico de todo o Noroeste. Foi 
também ele que acarretou, juntamente com outros muitos factores (um dos quais 
a própria tendência demográfica), o declínio na criação de gado e na produção de 
lacticínios, reduzindo consideravelmente a área das pastagens. A cultura do milho, 
combinada com a de vários outros produtos, tais o feijão e as hortaliças, permitiu, 
aos poucos, que se reduzisse 


As estruturas de um estado moderno 373 
o predomínio até então concedido ao trigo, ao centeio e à cevada. 


Se a área cultivada de milho aumentou substancialmente, a de trigo deve ter 
declinado ou estagnado. Como consequência, desenvolveu-se o comércio 
frumentário com o estrangeiro e a dependência de Portugal quanto a importações 
de trigo tornou-se em constante. Nas cortes de 1581 foi pedido ao rei que abrisse 
a fronteira e autorizasse o livre tráfico de cereais com Castela. Filipe Il assim 
prometeu fazer, mas houve que esperar até 1604 para que seu filho e sucessor 
franqueasse todos os portos secos entre as duas nações. Depois da restauração 
da independência, em 1640, teve-se uma vez mais de recorrer ao trigo do Norte 
da Europa. 


Outras medidas para evitar a carestia e a fome consistiram na elaboração de 
mapas anuais com a quantidade de trigo produzida (1632), no estabelecimento de 
celeiros comuns para armazenagem frumentária, no planeamento da distribuição, 
no tabelamento dos preços e até numa política de crédito rural a partir de meados 
do século xvi. As Ordenações de 1603 cominavam severas penalidades para 
todos aqueles que monopolizassem os cereais. Contudo, e mau grado todas estas 
e outras providências, registaram-se ainda alguns períodos de carestia e mesmo 
de fome, conquanto a um ritmo mais lento do que dantes (1556-7, 

1561-2, 1582-3, 1596-7, 1621, 1627, 1632, 1655, 1659, etc.). 


Continuou a aumentar a produção de vinho e de azeite. Nos começos do século 
xvii, OS economistas mostraVam-se de grande optimismo acerca da importância 
económica do azeite como 


fonte de riqueza nacional. 


O vinho foi-se tornando cada vez mais conhecido além-fronteiras, escavando-se 
então os alicerces para o futuro comércio do «vinho do Porto». Desde tempos 
antigos que se mandava vinho para Inglaterra, mas na maior parte oriundo do 
Portugal meridional. No século xvi, começou a expedir-se para aquele país algum 
vinho do vale do Minho, saldo pelo porto de Caminha. Acompanhou-o depois o 
vinho de Lamego, proveniente do vale do Douro. A partir de 1650, fixaram-se no 
Porto algumas firmas inglesas que começaram a incrementar a produção e 
exportação vinícolas do Norte. 


374 Apogeu e declínio, 


Também a fruta parece ter-se expandido durante este período. Por volta de 1635 
difundiam-se em Portugal laranjas doces da China, que depressa conquistaram o 
gosto de todas as classes sociais. De Portugal, a laranja chinesa espalhou-se por 
toda a Europa e o mundo mediterrâneo, com o seu nome a trair a origem 
portuguesa em diversas línguas (Grego e Árabe, por exemplo). 


A produção de gado diminuiu, consequência óbvia do surto e da mais racional 
distribuição demográfica. Especialmente afectada se mostrou a criação de 
cavalos, peça fundamental na guerra e no sistema de transportes. Diversas leis 
tentaram frear um tal declínio e estimular a criação de gado cavalar em 
quantidade. Durante os governos do cardeal D. Henrique (quando regente) e de D. 
Sebastião, algumas medidas úteis e eficientes (sobretudo o Regimento de 1566) 
implicaram mudança temporária na escassez de montadas. Filipe Il, contudo, a 
pedido dos povos, fez encerrar as coudelarias (1581), com consequências 
desastrosas para a boa criação de cavalos portugueses. 


Comércio A estrutura comercial do País ao findar o século xvi não revelava 
diferenças essenciais em comparação com a dos começos da centúria. O começo 
externo dependia mais da mercadoria vinda do Ultramar do que da exportada 
directamente pela metrópole. Contudo, seria um erro supor que esta última não 
desempenhou papel de relevo no tráfico com a Europa. 


Portugal metropolitano continuou a exportar vinho, fruta, azeite e sal -além de 
muitos outros produtos - para todo o Norte da Europa, a Espanha e os países 
mediterrâneos. Importava de todos eles o mesmo que sempre, embora em 
quantidades cada vez maiores: cereais, têxteis, metais (cobre e prata), artigos 
industriais (tais como armas e munições) e produtos de luxo. O comércio com a 
Espanha foi-se avolumando a pouco e pouco durante todo o século xvi, 
principalmente no que respeitava à importação de prata. 


O tráfico ultramarino constituía um mundo em si próprio (cf. Cap. VIU. Para a Ásia, 
Africa e América, Portugal exportava praticamente o mesmo do que para o resto 
da Europa, visando 


As estruturas de um estado moderno 375 


sobretudo os colonos estabelecidos em regiões por civilizar. Reexportava, por 
outro lado, grande parte das importações da Europa, como por exemplo prata - 
talvez a mais relevante de todas as suas exportações - e também cobre, têxteis, 
artigos de luxo, etc. Tão diferentes eram as regiões com que traficava - por assim 
dizer todo o mundo - que as carregações haviam de ser extremamente 
diversificadas e complexas. 


Do Ultramar vinham as principais fontes de rendimento do País. As especiarias da 
India, ilhas Molucas e Ceilão, que atingiram um máximo nas importações 
portuguesas na década de 1550, foram a pouco e pouco baixando no conjunto, ao 


longo da segunda metade do século e no seguinte. Em vez delas, subiram a 
primeiro plano as lacas, as porcelanas e outra mercadoria do Extremo Oriente 
(China e Japão), acrescidas do açúcar, da madeira e, mais tarde, do tabaco do 
Brasil e das Ilhas Atlânticas. Esta evolução dependeu, claro está, não apenas da 
entrada gradual de Holandeses e Ingleses nos oceanos indico e Pacífico, mas 
também do surto do próprio Brasil como potência económica. 


Entre o Brasil e a África, outro tipo de comércio se começou a desenvolver nos 
meados do século xvi, vindo a avultar como um dos mais importantes de todos 
durante a centúria seguinte: o tráfico de escravos (cf. Cap. VII). 


Aspecto interessante da expansão comercial neste período respeitou às pescarias 
de bacalhau na Terra Nova. Os pescadores portugueses principiaram a visitar 
águas americanas pelos começos do século xvi, mas foi só nos meados da 
centúria que o bacalhau se tornou em proveitoso artigo de comércio. 
Organizaram-se frotas, estabeleceram-se direitos alfandegários e redigiram-se 
regulamentos para o tráfico bacalhoeiro. 


Uma tão larga e complexa rede de contactos comerciais havia necessariamente 
de incluir seus pontos fracos, que aliás também funcionavam como causa de 
grande maleabilidade e capacidade de sobrevivência. Era unia rede que dependia 
de toda a sorte de acasos políticos, militares e económicos ocorrentes pelo 
mundo. Podia até ser afectada por pequenos desastres, tais como um naufrágio 
ou uma calmaria. Mas não era facilmente des- 


376 Apogeu e declínio 


truída, nem por conjunturas nem por alterações de estrutura. De facto e só para 
falarmos dos aspectos políticos, resistiu ao desastre de 1578, à união de Portugal 
com a Espanha, à guerra da Independência e à própria perda do Império Asiático 
mercê de subtis e graduais transformações. 


Houve alguns abalos de importância, é certo, que afectaram o comércio externo 
português durante este período. A crise internacional de 1545-52 trouxe consigo 
uma nítida mudança de estrutura: Antuérpia deixou de figurar como entreposto 
final e decisivo do comércio português, para ser substituída por Sevilha e 
Amsterdam. O capitalismo de estado afrouxou após o encerraMento da feitoria 
régia de Antuérpia. E, em lugar do tradicional monopólio do comércio, surgiu e 
desenvolveu-se um sistema de contratos com companhias e com indivíduos. 


Vieram depois as crises de 1571-78 e 1595-1600.. A crise espanhola de 1607 teve 
igualmente um impacto tremendo em Portugal. Em Lisboa faliu grande número de 
firmas antigas e conceituadas, surgindo em seu lugar outras novas. Renovaram-se 
também os capitais estrangeiros, desvanecendo-se o predomínio das 
participações italiana, flamenga e alemã, obrigadas a aceitar a concorrência de 
espanhóis, ingleses e franceses. As crises tiveram a sua «geografia» e «itinerário» 
próprios, alcançando certas cidades primeiro e só a muitas outras chegando 


Z 


depois. Tudo dependia, é óbvio, da intensidade de tráfico entre dois lugares. 
Lisboa estava íntima e rapidamente ligada com Antuérpia, os Açores, mais tarde 
Sevilha ou Amsterdam. Medina del Campo (no centro de Castela) e Madrid faziam 
igualmente parte da rede. Em qualquer destes lugares, sinais de crise haviam de 
aparecer muito mais cedo do que em áreas do interior como Trás-os-Montes ou a 
Beira-Serra. 


A união dual com a Espanha tornou mais intimas e intensas as relações de 
comércio entre os mundos português e espanhol mas não trouxe, de outra 
maneira, alterações particulares ao tráfico mercantil. É provável que a estrutura 
um tanto mais requintada do comércio do país vizinho, juntamente com a 
tendência para a organização económica, tenham presidido às várias tentativas de 
criar em Portugal as primeiras grandes companhias 


As estruturas de um estado moderno 377 


ou sociedades de comércio. O capitalismo de estado entrava em crise, e ia sendo 
substituído ou, pelo menos, moderado por uma participação *muito maior de 
iniciativas e organizações privadas. 


O exemplo holandês esteve, com certeza, nos bastidores dos tentames da criação 
de companhias comerciais. Em 1587 surgiu uma Companhia Portuguesa das 
Índias Orientais que durou pouco e suscitou menos entusiasmo. Maior importância 
teve a Companhia da Navegação e Comércio com a Índia, estabelecida em 1619 
mas só oficializada em 1628. Mau grado a participação de mais de quinze 
comerciantes e da própria Câmara Municipal de Lisboa, esta Companhia faliu 
também, sobretudo devido à falta de capitais (problema habitual nas companhias 
hispânicas). Foi extinta em 1633. 


A Restauração de 1640 não beneficiou grandemente o comércio externo. Na 
metrópole, os Cristãos-Novos, em parceria com outros muitos homens de 
negócios, foram perseguidos pela Inquisição, que deixara de ser controlada pelo 
braço forte do governo de Madrid. A guerra com a Espanha e os ataques 
estrangeiros ao Império Português e aos navios portugueses prejudicaram o 
comércio a distância. Desapareceu por completo o 


proveitoso tráfico terrestre com o pais vizinho. O Mediterrâneo fechou-se aos 
comerciantes nacionais. 


O governo tentou e conseguiu fomentar relações de comércio com o Norte 
europeu, nomeadamente com o mundo báltico. Alemães, suecos e outros nórdicos 
vieram a Lisboa em número crescente. Contudo, o factor dominante do comércio 
externo português depois de 1640 foi a sua gradual rendição aos interesses 
ingleses. A situação desesperada de um país que lutava pela sua independência 
levou à assinatura de diversos acordos, claramente opressivos do comércio 
nacional. Os tratados de 1654 e 1661, com a Inglaterra, e de 1661, com a 


Holanda, deram a ambos aqueles países liberdade de tráfico com o Império 


Português, bem como privilégios especiais aos residentes ingleses e holandeses 
em Portugal, direitos alfandegários permanentes até certo limite, etc. Como os 
Ingleses se mostravam, em Portugal, muito mais numerosos do que os 
Holandeses, e como a Inglaterra caminhava para o domínio dos mares, foi-lhe fácil 
e natural servir-se dos privilé- 


378 Apogeu e declínio 
gios que obtivera aqui de maneira muito mais intensa do que a 


Holanda. A aliança política que ratificou o tratado de 1661 (casamento da princesa 
D. Catarina com Carlos Il de Inglaterra) ajudou a promover a Inglaterra a sócio 
número um nas relações comerciais com Portugal. 


O governo de D. João IV tentou novamente estabelecer companhias mercantis. 
Em 1649 foi dado alvará a uma Companhia para o Comércio com o Brasil por um 
período de vinte anos. Recebeu o monopólio das exportações de vinho, farinha, 
azeite e bacalhau para o Brasil e das importações de pau-brasil na Europa. 
Obteve ainda o exclusivo e a obrigação de comboiar todos os navios mercantes 
que navegavam de e para o Brasil. O governo procurou conseguir capitais dos 
Cristãos-Novos vivendo fora de Portugal mas não foi muito bem sucedido neste 
capítulo. A Companhia estagnou durante alguns anos, tornando-se somente útil na 
protecção aos navios mercantes contra os ataques de holandeses, ingleses e 
outros. Em 1662, e após diversas modificações, foi finalmente «nacionalizada» 
pela Coroa, convertendo-se em simples repartição pública com o nome de Junta 
do Comércio. Os seus objectivos limitavam-se então a pouco mais que ao 
comboiamento de navios mercantes. 


Moeda Do ponto de vista monetário, o período de 1539 a 1641 mostrou-se 
notavelmente. estável. A pedra angular do sistema financeiro português - o 
cruzado de ouro - sofreu poucas modificações, tanto em peso quanto em valor 
real. O marco de ouro amoedado, que custava cerca de 25 000 reais em 1539, 
subiu para 30 000 em 1555, mantendo-se depois sem alteração até 1641. O 
marco de prata amoedada variou ligeiramente entre 1555 e 1588, mas o seu valor 
em reais subiu apenas de 2500 (1539) para 2800 (1588). Em resumo, o ouro 
aumentou 20 % e a prata 12 % num período de mais de cem anos, prova evidente 
de que a economia do País (com seu Império) se mostrava sã e capaz ainda de 
resistir ao impacto de ameaças externas. 


Até meados do século xvi, a estrutura monetária de Portugal dependia, não 
apenas das províncias ultramarinas (ouro vindo da Africa e da Ásia) mas também 
da Europa (prata proveniente 


As estruturas de um estado moderno 379 


da Alemanha, via Antuérpia e Amsterdam). Depois da década de 
1530, a descoberta de minas de prata na América Espanhola (Peru e México) fez 


mudar radicalmente o quadro económico do mundo. A descoberta veio a um 
tempo em que a produção argêntea alemã começava a baixar e em que a 
expansão do comércio e da indústria exigia crescentes quantidades de numerário. 


Em Portugal, a prata espanhola foi a pouco e pouco substituindo-se à alemã e 
tornando-se essencial à vida do País. Reales espanhóis entravam em Portugal em 
grandes quantidades, equivalendo-se às moedas de prata nacionais. Pela 
segunda metade do século xvi, um tráfico intenso ligava Sevilha e Lisboa. Até fins 
da década de 1620 ou começos da de 1630, a prata era abundante em Portugal e 
regularmente amoedada pela Casa da Moeda de Lisboa. Havia menos ouro mas 
sem que, na verdade, se pudesse falar em escassez. 


A pouco e pouco, esta situação foi-se modificando. A partir de 1620, a produção 
americana de prata decresceu consideravelmente. Em consequência, a 
importância de Sevilha como mercado abastecedor decresceu também. Em 
Lisboa, pouca prata se cunhou até 1640. 


A restauração da independência plena de Portugal trouxe consigo tempos difíceis, 
tanto para a Coroa como para o País em geral. Para enfrentar as enormes 
despesas militares e o declínio dos rendimentos ultramarinos, não houve outra 
solução senão desvalorizar a moeda vez após vez: o marco de prata subiu para 
3400 reais (1641), 4000 reais (1643), 5000 (1663) e 6000 (1668), num total de 114 
% em menos de trinta anos. O marco de ouro também ascendeu a 37 400 reais 
(1641), 40 960 (1642); 

56 250 (1642), 75 000 (1662) e por fim 82 500 (1668): 175 % ao todo. Foi só após 
a assinatura do tratado de paz que se tornou possível estabilizar novamente a 
moeda. 


Durante o século xvi, a crescente participação do Estado nos F;nanços negócios 
ultramarinos tomou as finanças públicas cada vez mais dependentes da situação 
na Ásia, Africa, América e Europa, ou seja, fora de Portugal. Receitas e despesas 
podiam variar consideravelmente de acordo com qualquer cerco na índia, qualquer 
380 

Apogeu e declínio 

MARCO 

OURO PRATA 

80000 

70000 


60 000 - 6 00 O - 


so 000 - 5 00 0 - 

40000 - 4 00 O - 

30 000 - 3 000 - 

20000 - 2000 

OURO 

PRATA 

Fig. 45-Evolução monetária, 1539-1680 


variação de produção no Brasil ou qualquer crise económica em Antuérpia. Mas a 
importância relativa dos tráficos colonial e estrangeiro mudou com o advento de 
centúria seguinte. Em 1588 o Império significava cerca de 50 % nas receitas do 
Estado; com os rendimentos das alfândegas espalhadas por todo o Pais, essa 
percentagem subia a mais de 60 %. Em 1607, as receitas ultramarinas haviam 
diminuído para uns 45 % mas a soma com as alfândegas ainda ascendia a 59 %. 
Por 1619 esses mesmos números tinham passado a 48 e 62. A importância do 
Império na estrutura financeira de Portugal continuou a baixar, enquanto a do 
tráfego marítimo com os países estrangeiros continuou a subir. Nas décadas de 
1650 e 1660 a mudança estrutural consumara-se. Em 


As estruturas de um estado moderno 381 


1681, traduzindo quase 40 % das receitas totais, o comércio marítimo com a 
Europa tornara-se já vital para a nação. 


Em, números globais, a análise dos orçamentos do Estado 

- metrópole apenas - revela o tremendo surto, tanto de receitas como de despesas 
até à década de 1620, prova evidente de expansão económica e política. Depois 
desse período, as perturbações de tipo militar e económico trouxeram consigo um 
decréscimo nas receitas: 607 000 cruzados em 1557, 939 000 em 1588, 

1322 000 em 1607, 1484 000 em 1619. Incluindo o Ultramar, os números foram 
1760 000 (1588), 3 334 000 (1607), 3 488 000 (1619) mas só 2 518 000 em 1628. 


Faltam-nos, uma vez mais, estatísticas exactas para calcular as despesas. 
Empréstimos em série, subsídios (pedidos) e padrões de juro foram coisa normal 
no País durante todo este período, e o seu quantitativo permite ficar com uma 
ideia dos problemas com que se debatia o tesouro. De 1500 a 1554 tinham-se 
emitido padrões de juro oito vezes, à média de uma série todos os sete anos. A 
partir de então, o ritmo acelerou-se: nove emissões até 1580 (uma em cada 2,6 
anos), dezoito entre 1582 e 1631 (1/2,7), quinze de 1641 a 1664 (1/1,4). As cortes 
votaram pedidos quase todas as vezes em que foram convocadas. Havia ainda 
outros empréstimos que respeitavam aos concelhos (sobretudo Lisboa), aos 


comerciantes e até ao clero. Os impostos subiram, particularmente desde 1580. O 
orçamento pôde ainda apresentar-se equilibrado em 1557, 1607 (saldo positivo de 
102 000 cruzados) e 1619 (saldo de 578 000 cruzados) e porventura em alguns 
outros anos. Em 1620, contudo, já se registava um deficit de 

112 000 cruzados. 


Também as dívidas consolidada e flutuante progrediram: dão-nos as estatísticas 
os números para 1557 (respectivamente 

1881720 e 2 000 000 de cruzados), 1588 (178 000 cruzados para a dívida 
consolidada) e 1607 (312 000 para a mesma). A situação parece ter sido bastante 
pior com D. João Ill do que com Filipe III, mas a verdade é que não dispomos de 
cifras para o período intermédio. Tal como na Espanha, o Estado abriu falência 
pelo menos duas vezes, em 1560 e em 1605, quando cessou por completo o 
pagamento de juros pela Casa da índia e a dívida 


382 Apogeu e declínio 


flutuante foi convertida em consolidada. Várias vezes se decretaram abaixamentos 
forçados na taxa de juro, tanto antes como depois da Restauração: em 1563, 
1582, 1614, 1620, 1624, 1630, 

1650, 1656 e 1672. 


Crises ou reajustamentos de tipo financeiro não se devem confundir com declínio 
económico ou administração deficiente. 

O dinheiro parece ter abundado em Portugal - apesar de alguns anos de 
depressão - até à década de 1620. E, mau grado as bancarrotas e as diversas 
reduções de juro, o Estado conseguiu sempre obter os empréstimos de que 
carecia, e com relativa prontidão. 


Preços O movimento dos preços em Portugal reflectiu a situação geral da Europa, 
caracterizada pela «revolução dos preços» até começos da era de Seiscentos e 
pela estagnação (ou mesmo declínio) dos mesmos, com poucas excepções, a 
partir dessa data. 


Vejamos, para começar, alguns exemplos. Nos meados do século xvi, o preço 
médio do trigo por alqueire andava pelos 

60 reais. Subiu para o dobro antes de findar a centúria, flutuou em redor dos 200 
reais pelos começos do século xvii, alcançando o seu máximo no fim da década 
de 1620 e no princípio da de 1630 (350 a 400 reais). Dispomos de alguns números 
para a cidade de Beja, um dos centros da produção cerealífera do Reino, que 
permitem observar bem este fenómeno: médias de 30 reais em 

1530, máximo de 380 reais em 1636. É verdade que os preços do trigo variavam 
sempre muito, com constantes subidas e descidas de acordo com as colheitas, 
altamente irregulares. Em anos maus, como 1594, 1599, 1608, 1611 ou 1614, um 
alqueire de trigo em Lisboa podia subir, respectiva-mente, a 200, 480, 400, 500 e 
450 reais. Como a desvalorização do real nunca excedeu 12 % até 

1641, estes preços altos correspondiam a uma realidade e tinham sua 


consequência óbvia em todas as classes sociais. 


Os preços dos outros artigos denotam tendência semelhante: em Beja, a canada 
de vinho subiu de uma média de 28 reais (1589) para 50 reais (1605), 66 (1611), 
70 (1612) e de novo 50, por 1618. O arrátel de carneiro, que custava 7 reais em 
1559, alcançava 15 nos começos do século xvii. Baixou depois um pouco mas 
mantinha-se entre 13 e 15 nas décadas de 1620 e 1630. O azeite 


As estruturas de um estado moderno 383 


subiu na proporção e assim por diante. Faltam-nos elementos para os artigos 
industriais, bem como para os salários e as rendas. Contudo, o pouco de que 
dispomos parece indicar um aumento quanto aos primeiros e uma estagnação 
quanto aos dois últimos. Os custos com a armação de uma frota a seguir para a 
índia duplicaram entre 1505 e 1620- O preço de um carregamento médio vindo da 
índia para Lisboa subiu duas vezes e meia entre 1540 e 1590. Etc. Uma vez mais, 
é Beja que nos ajuda: os salários dos cirurgiões, farmacêuticos, mestres de 
gramática, médicos e advogados permaneceram inalteráveis entre 1581 e 1634. 


Depois da década de 1630 (ou até antes), os preços voltaram a diminuir, em 
Portugal como praticamente em toda a Europa, acarretando descontentamento e 
inquietação, tanto para produtores como para comerciantes. O alqueire de trigo 
baixou para 

150 reais (1638), depois para 120 a 130 (1639) e para 100 (1640). 

O vinho estabilizou-se em redor dos 40-45 reais a canada (1625 a 

1665), mas como, no entretanto, a moeda se desvalorizou em 

78,5 %, o aumento traduziu-se, de facto, em diminuição. 


Assim, parece clara a correlação entre demografia e preços. Ao surto populacional 
correspondeu uma subida de preços semelhante - a revolução dos preços. 
Seguiu-se-lhe uma estagnação e um possível declínio, ambos acompanhados por 
um afrouxar na taxa de crescimento dos preços e, depois, por um declínio destes 
mesmos. 


A revolução dos preços teve, evidentemente, os seus ciclos. Vitorino Magalhães 
Godinho pôde demonstrar que as interrupções na subida dos preços durante os 
séculos xvi e xvii significaram crises económicas, mais ou menos coincidentes, em 
Portugal e lá fora. No País elas ocorreram em 1533-35, 1544-51, 1576-82 e 
1594-1605. Na década de 1630 houve outra crise. 


Não existem para este período estudos sobre a propriedade. Propriedade Certos 
traços genéricos, todavia, permitem-nos um esboço das e nobreza 


principais tendências registadas, ao menos no que respeita à grande propriedade. 
Depois da morte do grão-mestre D. Jorge (1550), as ordens militares de Santiago 
e de Avis foram unidas à Coroa para todos os efeitos práticos. Isto fez de D. João 
Ill e de seus sucessores os maiores proprietários do Pais, facto i- 


As estruturas de um estado moderno 385 


portantíssimo para o fortalecimento do poder real. Mais tarde, tanto os monarcas 
espanhóis como os novos soberanos do Portugal restaurado iriam alienar parte do 
património da Coroa, concedendo títulos e comendas para assim obterem novos 
adeptos. Em 1640, porém, o duque de Bragança, que era indiscutivelmente o mais 
rico latifundiário do Pais, ascendeu ao trono, o que representou novo e substancial 
acréscimo no património da Coroa. Nestes termos, o rei continuou a ser o primeiro 
proprietário no seu reino e um travão eficaz às ambições de nobres e de clérigos. 


Este facto, também, resolveu o problema dos apanágios aos príncipes de sangue. 
Com os bens antes pertencentes aos duques de Bragança, D. João IV instituiu a 
Casa de Bragança como apanágio permanente do príncipe real. Com diversas 
outras terras e rendas -parte resultante de confiscos- um segundo apanágio foi 
estabelecido, a chamada Casa do Infantado, para sustento dos infantes 
secundogénitos. 


Da mesma forma os nobres foram aumentando os seus bens de raiz, visto que 
grande parte dos lucros da nobreza se investia na compra de terras. Contudo, 
jamais existiu em Portugal o enorme latifúndio, à maneira castelhana. Para 
começar, a propriedade de um grande senhor distribuía-se, em regra, de Norte a 
Sul, raras vezes formando uma peça contínua de senhorio único. Depois, mesmo 
quando vastas áreas pertenciam a um mesmo proprietário, a tendência geral era 
para manter o tradicional sistema dos prazos enfitêuticos, em vez de se tentar 
uma exploração em larga escala e directa por parte do proprietário. Rei, nobreza e 
clero seguiam esta prática, parcelando as suas terras em pequenos prazos, 
perpétua ou temporariamente aforados a agricultores locais e a pequenos 
burgueses das cidades. No Norte, sobretudo em Entre-Douro-e-Minho, a 
tendência era para dividir a terra em quinhões cada vez menores. A introdução do 
milho e o surto de um tipo de cultura baseada nesse cereal e nos produtos 
hortícolas fomentou o individualismo e favoreceu o parcelamento agrário. A 
população cresceu e a sua concentração no Noroeste obedeceu a um ritmo mais 
rápido do que em qualquer outra parte do País. A partir do século xvii, Entre- 


25 
386 Apogeu e declínio 


-Douro-e-Minho tomou-se uma das principais regiões de emigração para o 
Ultramar, em vez do tradicional Sul. 


Em Portugal, como em geral na Europa, o século xvi caracterizou-se pelo 
crescimento e robustecimento da nobreza, sobretudo da nobreza de corte. 
Aceitando o princípio da crescente centralização real e acalmada a sua antiga 
exuberância feudal, os nobres foram mantidos na maioria dos postos de comando, 
tanto na metrópole como no Ultramar, convertendo-se em instrumento da 


administração central. Como grupo social, baseado no privilégio, os nobres 
situavam-se entre o monarca e o povo para todos os efeitos práticos. Eram os 
intermediários, os representantes de ambos os lados a qualquer nível. O seu 
preconceito de sangue contra o comércio, o lucro e o trabalho (num sentido lato) 
foi-se diluindo, embora não totalmente. O aristocrata preferia, regra geral, confiar a 
profissionais a administra- 


ção dos seus bens. 


Pelos finais do século xvi, a aristocracia portuguesa abrangia umas três ou quatro 
categorias diferentes, que se mantiveram sem grandes alterações até ao século 
xviii. No topo situava-se a nobreza de espada ou nobreza de corte, composta pela 
maioria dos titulares - também chamados grandes por influência espanhola -, 
pelos altos funcionários da administração e pelos comandantes militares e navais. 
Abaixo deles vinha a nobreza de toga, incluindo os membros dos tribunais de 
justiça, advogados, professores universitários e a maior parte dos detentores de 
cargos administrativos. Finalmente existia a nobreza rural, os fidalgos, vivendo das 
suas rendas, só muito ao de leve afectados pelas grandes mudanças estruturais 
do século mas empobrecendo gradualmente devido à inflação dos preços. 


A nobreza de espada cresceu muito durante os fins do século xvi e os começos do 
xvii. Como contrapartida da revolução dos preços, a Coroa aumentou-lhe as 
tenças anuais, enquanto, por outro lado, a multiplicação de cargos e de 
comandos, tanto na metrópole como no Ultramar, exigia um número cada vez 
maior de pessoal qualificado. Uma lei de 1572 (Regimento dos Filhamentos) 
fortaleceu a influência económica e social e a participação dos nobres. O número 
de títulos aumentou: uns 25 em 


As estruturas de um estado moderno 387 


1550-80, 34 em 1590, 46 em 1620, 54 em 1630, 69 em 1640, um acréscimo de 
165 % em menos de cem anos. Este fenómeno correspondia, em parte, a uma 
política deliberada dos soberanos espanhóis depois do estabelecimento da 
monarquia dual (1580): pela concessão de títulos e privilégios, o governo 
esperava conseguir novos partidários e enfraquecer as possibilidades de 
secessão portuguesa. Mas significava também o poder crescente da aristocracia 
em todos os seus níveis e o seu alargamento em número como grupo social: em 
Espanha, como em Portugal, a inflação no número dos títulos seguiu uma linha 
muito semelhante. 


Os grandes portugueses não eram, em boa verdade, nem tão abastados nem tão 
numerosos quanto os seus vizinhos castelhanos. A situação portuguesa podia 
antes comparar-se com a de Aragão, o terceiro grande reino dentro da monarquia 
espanhola. Em opulência, o primeiro duque português (o de Bragança, com 120 
000 ducados de rendimento anual) vinha em quinto lugar, precedido pelos duques 
castelhanos de Medina Sidónia (160 000 ducados), Medina Rioseco, Lerma e 
Ossuna. 


O mais rico marquês de Portugal (o de Vila Real com 34 000 ducados ao ano) 
tinha dez pares castelhanos e aragoneses antes dele. E ao nível condal, havia 
dezoito condes castelhanos e aragoneses mais ricos do que o mais rico conde 
português. Como factor importante, é de notar que, em Portugal, existiam menores 
diferenças de fortuna entre os titulares do que em Espanha. 


A situação especial do Pais após 1580« levou a certas alterações de interesse. 
Pela ausência de uma corte régia em Portugal, a nobreza de espada declinou a 
favor da nobreza provincial * da nobreza de toga. Grande número de nobres 
recusaram-se * ir viver para Madrid ou retiraram-se para as suas terras, quando se 
tornou gradualmente claro que se fazia discriminação contra eles a favor dos 
Castelhanos. Por outra parte, a administração central, dirigida ou influenciada pelo 
governo de Madrid, impunha-se à aristocracia, cuja participação nos negócios do 
Estado declinou. Desdém patriótico ou menos atenção pelo governo central 
opunha muitas vezes a província, onde dominavam os nobres, a Lisboa, -onde se 
localizavam os grupos partidários de Espanha. Como consequência, surgiram e 
desenvolveram-se loca- 


388 Apogeu e declínio 


lismos provinciais. Quando a independência foi restaurada, em 

1640, a necessidade de fortalecer novamente a autoridade central tornou-se uma 
das preocupações maiores do novo governo. Para mais, D. João IV era apenas o 
duque de Bragança, «eleito» rei pelos seus pares. 


Entre 1640 e 1670 teve lugar unia reestruturação geral da nobreza, com o 
objectivo claro de reconstruir uma nobreza de espada dócil. Foi promulgado um 
Regimento dos Ofícios da Casa Real. Metade dos grandes existentes 
desapareceram, sendo extintos 34 títulos, na maioria por motivo de traição a favor 
da Espanha, e criados 34 novos, por promoção de nobres de toga ou de fidalgos. 
O resultado final foi não haver alteração quanto ao número de títulos: 69 em 1640, 
69 em 1670. 


Contudo, e apesar destas medidas drásticas, os Braganças não conseguiram 
debelar, como pretendiam, a influência da nobreza, nem reduzi-la à dócil 
obediência dos velhos tempos. Vivia-se numa época diferente. Em 1670, quando a 
Portugal voltaram a paz e a prosperidade, o poder partilhava-se em partes iguais 
entre rei e aristocracia. 


O clero Os grandes esforços dispendidos pela Igreja Católica durante 


toda a centúria de Quinhentos visaram a dignificar o clero e a restaurar a sua 
condição de pureza e eficiência. Ao movimento Protestante seguiu-se a 
«Reforma» Católica que abrangeu os meados e os fins do século, sem falar das 
tentativas anteriores de mudanças parciais. Como consequência, foi gradualmente 
emergindo uma nova ordem eclesiástica, mais independente e cônscia de si 
mesma do que alguma vez no passado, menos participante dos elementos 


económicos e sociais das outras classes. 


Não queremos com isto dizer que tivesse desaparecido de todo a antiga 
identificação ou paralelo entre nobreza e alto clero ou entre classes inferiores e 
baixo clero. Em especial no primeiro caso, a situação manteve-se quase como 
dantes. A grande maioria dos bispos e abades importantes continuou a provir de 
um pequeno número de famílias, onde os Meneses, os Noronhas, os Melos e os 
Pereiras desempenhavam papel de relevo. Todos os inquisidores-gerais 
pertenceram à nobreza. Contudo, o recrutamento dos bispos parece haver-se 
tornado um pouco mais demo- 


As estruturas de um estado moderno 389 


crático, com a participação de maior número de monges e frades, onde as 
distinções sociais se mostravam menos rígidas. De 1550 a cerca de 1670 houve, 
pelo menos, 115 aristocratas num total de 135 bispos (isto é, 85 %), com 27 
membros de ordens religiosas (20 %). Esta última proporção fora só de 3 % entre 
1430 e 1550. Nas fileiras inferiores, a mudança dirigiu-se, ao que parece, em 
sentido oposto: um dos cânones do concílio de Trento, decretado em 1564, 
limitava a ordenação àqueles que possuíssem algum património seu ou 
recebessem benefícios eclesiásticos. Esta medida tendia a reduzir o chamado 
proletariado da Igreja, promovendo o estatuto económico e social dos clérigos. 


Outras decisões do concílio, todas promulgadas em 1564, proibiam a acumulação 
de dignidades e benefícios eclesiásticos, obrigavam os prelados a viver nas suas 
dioceses e paróquias, estabeleciam limites de idade para sacerdotes e bispos e 
esforçavam-se por pôr freio a toda a casta de abusos. Criaram-se seminários para 
a preparação espiritual e cultural dos futuros eclesiásticos. Até finais da centúria, 
haviam-se estabelecido sete em Portugal e nos Açores, além dos já existentes 
colégios de Coimbra e Lisboa. Nos finais do século xvii, apenas não tinham sido 
contempladas as dioceses do Porto, Lamego, Elvas, Algarve e Angra, onde 
bastavam os colégios de Jesuítas aí localizados. 


A importância relativa dos bispados só muito levemente se alterou durante este 
período. Évora cresceu em rendimentos, se não em deleite residencial, tornando- 
se a diocese mais rica de todas. Fora convertida em arcebispado em 1540. 
Lisboa, Braga e Coimbra equivaliam-se, embora Braga se mostrasse um tanto 
mais pobre. Entre as restantes dioceses, Guarda passara de uni dos últimos 
lugares na lista para o número cinco por volta de 

1632, enquanto Lamego caiu do quinto para o nono lugar. Igualmente cresceu a 
importância das sés de Miranda e do Algarve, com o declínio correspondente de 
Viseu, Porto e Portalegre. As menos prezadas, claro, continuavam a ser as do 
Funchal e de Angra, nas Ilhas Adjacentes. Tal como sucedia com a nobreza, a 
maioria dos bispos e arcebispos portugueses não se podia comparar em 
abastança com os seus colegas castelhanos: o arcebispo de Toledo recebia cinco 
vezes mais do que o de Évora, 


390 
Apogeu e declínio, 


tendo o bispo castelhano, em média, um rendimento quatro vezes superior ao do 
seu colega português. 


C4ro A Reforma Católica abrangeu também as ordens monásticas. regular O 
movimento reformista começara muito antes de 1550 (em Portugal, afectando 
Dominicanos, Carmelitas, Agostinhos e outros) mas não foi sistematizado nem 
completado senão após o concílio de Trento. Respeitou por assim dizer a todas as 
ordens. As reformas incluífam a supressão das comendas, a proibição de 
propriedade privada a frades e monges, a forma de recrutamento de novos 
membros, o modo de eleição do abade, um acentuar na disciplina e na 
obediência, etc. Para conseguir um rendimento mínimo e uma organização viável, 
muitos mosteiros foram unidos num só ou simplesmente extintos. 


Todavia, longe de diminuífrem, o número de ordens, mosteiros e irmãos continuou 
a aumentar. Cada década trouxe consigo a fundação de novas casas religiosas, 
resultado tanto do surto demográfico como da verdadeira moda de instituir 
mosteiros. Cada novo rei ou rainha, cada aristocrata opulento ou mesmo burguês 
rico desejava ter o nome associado a uma dessas marcas de piedade. O número 
de fundações mostrou-se particularmente elevado até 1600, quando surgiram 
mais de um cento de novos mosteiros, e depois de 1640. Ao todo, 166 casas 
religiosas foram instituídas entre 1550 e 1668, predominando os Franciscanos, os 
Jesuítas, os Carmelitas e os Arrábidos. Em 1628-30, um autor calculava em 450 o 
número total de conventos, com umas 7400 pessoas (4200 do sexo masculino e 
3200 do feminino). Aos Franciscanos pertencia mais de um terço do total, 
seguidos (mas a grande distância) pelos Cistercienses, os Dominicanos, os 
Jesuítas, os Beneditinos e os Agostinhos. Em 1652 aquele número mantinha-se 
sensivelmente, mau grado as novas fundações. 


Diversas ordens se haviam criado no entretanto. As reformas empreendidas em 
Espanha por Santa Teresa de Ávila e S. João da Cruz levaram ao nascimento de 
um novo ramo dos Carmelitas, os Carmelitas Descalços, que entraram em 
Portugal em 1581. Os Cartuxos, de fundação muito antiga, só vieram para o Pais 
em 1587 mas jamais adquiriram grande popularidade. Os Irmãos Hospitaleiros de 
S. João de Deus, santo português 


As estruturas de um estado moderno 391 


que viveu a maior parte da vida em Espanha, criaram diversos hospitais a seu 
cargo. As chamadas Freiras da Conceição, os Teatinos, os Capuchinhos 
Franceses (Barbadinhos e Francesinhas), as freiras inglesas de S. Salvador 
(Inglesinhas), os Oratorianos e os Agostinhos Descalços, todos vieram para 
Portugal antes de 1668 mas poucos chegaram a desempenhar qualquer papel de 
relevo na vida da nação. O seu número era, aliás, escasso. 


A grande ordem dos fins do século xvi e de todo o século xvii foi indubitavelmente 
a dos Jesuítas. Entraram em Portugal em 

1540, em número de três apenas. Em 1600 havia já umas vinte casas de Jesuítas 
por todo o País com cerca de 600 membros, incluindo noviciados, hospitais, 
asilos, escolas e seminários. Eram 

650 pelos meados da centúria. Tinham uma universidade e vários colégios 
importantes. Os seus sacerdotes podiam encontrar-se em todo o Portugal e 
Ultramar, contando-se entre os mais populares. A sua influência crescia entre as 
classe superiores, através dos confessores, capelães, conselheiros, etc. fazendo- 
os objecto de inveja e ataque por parte das demais ordens religiosas. 


.Os Jesuítas criaram e aperfeiçoaram um método especial de educação espiritual 
e cultural. O seu principal objectivo era a juventude e, em Portugal, quase 
conseguiram 'monopolizar o ensino normal. Dedicavam-se também com 
proficiência ao ataque das heresias e dos Judeus. Durante quase um século, 
estiveram aliados à Inquisição e ao clero secular, numa espécie de «frente unida» 
a que presidia o rei ou o vice-rei. A pouco e pouco esta situação foi-se 
modificando, à medida que se lhes multiplicava o poderio e a riqueza, em paralelo 
com os da Inquisição. A partir da década de 1620, um conflito surdo gerou-se 
entre Jesuítas e o Santo Ofício. Por razões várias os Jesuítas esposaram a causa 
da independência, convertendo-se nos melhores partidários do duque de 
Bragança, proclamado rei com o título de D. João IV em 1640. 


A Inquisição fora estabelecida em Portugal sem razões que A Inquisiç lhe 
justificassem a existência. D. Manuel e D. João Ill pretendiam esse novo tribunal, 
tão na moda, a fim de copiarem o 


392 Apogeu e declínio 


modelo de Espanha e conseguirem uma nova arma de centralização régia. 
Contudo, nem Protestantes nem Judeus constituíam perigo sério para a unidade 
religiosa do País. Os Protestantes eram praticamente inexistentes. Os Judeus 
haviam sido expulsos ou forçados à conversão, diminuindo constantemente o 
número de Cristãos-Novos devido à rápida integração ou assimilação com os 
Cristãos-Velhos. Em 1542 não existiam mais de uns 60 000 cristãos-novos, e em 


1604 talvez metade desse número. 


Por consequência, a Inquisição portuguesa precisava de conseguir um objectivo 
permanente a fim de justificar a sua própria existência. Era, claro está, uma 
instituição religiosa acima de tudo, geralmente considerada «santa» nos seus fins 
e nos seus meios. Mantinha a fé católica na sua maior pureza, actuando, não só 
contra apostasias declaradas, heresias e cismas, mas também contra quaisquer 
presunções de desvio da verdadeira fé. Consequentemente, interessavam-lhe 
todas as formas de teologia, filosofia ou até literatura que fossem tidas por 
suspeitas. Lutava igualmente contra o que era considerado superstição, feitiçaria, 
idolatria e todas as formas de práticas pagãs. Como tribunal moral, interferia em 


anormalidades do género da sodomia e da fornicação com animais. E assim por 
diante. Todavia, todos esses «crimes» não eram bastantes, particularmente num 
país pequeno como Portugal, para justificar os poderes, a independência e a 
própria existência da Inquisição. Já os «Cristãos-Novos», contudo, se mostravam 
em número suficientemente grande para constituir um bom objectivo. Para mais, 
podiam ser preservados e o seu número até alargado. Estabelecendo listas de 
reais ou pretensos cristãos-novos, discriminando contra eles e acusando-os de 
Judaísmo, a Inquisição criou assim um verdadeiro ghetto e manteve-o bem vivo 
em vez de procurar extingui-lo. A integração dos Cristãos-Novos foi artificialmente 
parada e a sua casta preservada durante duzentos anos. Claro que seria errado 
ver em todos os Cristãos-Novos, acusados e condenados pela Inquisição, 
descendentes autênticos de Judeus. Se alguns o eram, e se uma pequena minoria 
entre eles continuava a entregar-se a práticas judaicas (o que não significava 
necessariamente Judaísmo), muitos outros não passavam de bons católicos 
portugueses, tal- 


As estruturas de um estado moderno 393 


vez com algumas gotas de sangue judaico, resultado da crescente miscegenação. 
Aqui, um elemento económico e social intervinha também. Os «Cristãos-Novos» 
formavam, na sua maioria, uma classe média de mercadores e capitalistas, com 
papel relevante nas economias portuguesa e europeia. Como tais, não eram bem 
aceites pela pequena burguesia cristã-velha, invejosa do seu predomínio, nem 
pela nobreza feudal, igualmente interessada em actividades comerciais. Por sua 
vez, as massas mais pobres viam neles os herdeiros dos odiados usurários 
judeus. Em resumo, uma maioria da nação opunha-se aos Cristãos-Novos e 
acolheria com agrado toda e qualquer contribuição que os enfraquecesse. Neste 
sentido, é possível afirmar que a Inquisição teve por trás de si a grande massa da 
população, que aplaudia as perseguições e de boa vontade contribuía para elas. 
Só a Coroa, por causa das habituais necessidades financeiras, uma escassa 
intelligentzia de pessoas esclarecidas, e a própria força dos Cristãos-Novos - o 


poder do dinheiro - seriam capazes de defender esta classe média dos rigores do 
tribunal do Santo Ofício. 


Nestes termos, a Inquisição surge como uma instituição muito complexa, com 
objectivos ideológicos, económicos e sociais, consciente e inconscientemente 
expressos. A sua actividade, rigor e coerência variaram consoante as épocas. 


Criada pelo rei, manteve-se durante muito tempo sob o controle directo do poder 
real, cujos interesses servia. O cardeal D. Henrique, irmão do monarca, deteve o 
cargo de inquisidor-mor durante quarenta anos (1539-80): neste mesmo período, 
foi igualmente regente do reino (1562-68) e por fim rei (1578-80). Veio depois o 
cardeal Alberto, governador de Portugal em nome de Filipe 11 (1583-93) e 
inquisidor-mor também (1586-96). Seguiu-se o vice-rei D. Pedro de Castilho, bispo 
de Leiria, que por duas vezes governou Portugal (1605-08; 1612-14), sendo da 
mesma forma nomeado inquisidor-mor, cargo que desempenhou de 1605 a 1615. 


Só a partir de então é que Inquisição e Estado foram definitivamente mantidos 
separados. 


No entretanto a Inquisição crescera, transformando-se num estado dentro do 
Estado. Tinha a sua burocracia que era a maior do País: além do Inquisidor-mor, 
funcionava um Conse- 


394 Apogeu e declínio 


lho Geral de quatro deputados e existiam os quatro tribunais do Santo Ofício de 
Lisboa, Évora, Coimbra e Goa. Cada qual possuía organização própria, 
abrangendo uma secretaria central (Mesa), com três inquisidores assistidos por 
diversos deputados, notários, funcionários menores, -procuradores, advogados, 
meirinhos, guardas, barbeiros, médicos, capelães, solicitadores e 


«contínuos». Nos portos de mar actuavam ainda os chamados visitadores das 
naus, ajudados por um escriba, um guarda e um intérprete, com o encargo de 
inspeccionar todos os navios entrados e de confiscar materiais havidos por 
heréticos. Toda a cidade importante tinha os seus comissários com autoridade 
para prender, ouvir acusações, interrogar, etc. Ao todo, centenas de pessoas 
trabalhavam para a Inquisição e eram pagas por ela. 


Além delas, havia uma outra categoria de clientes, os chamados Familiares. 
Pertencendo a todos os grupos sociais, mas especialmente à nobreza e à 
burguesia -um Familiar devia ter algum património de seu-, ajudavam a Inquisição 
por toda a parte, espiando, prendendo, denunciando e informando. Tornar-se 
Familiar era, para as classes baixas, uma promoção social visto que se adquiriam 
privilégios importantes, como por exemplo não pagar impostos ou estar apenas 
sujeito à autoridade da Inquisição. Para os nobres, representava uma honra de 
tipo religioso, espécie de condecoração. O número total de Familiares variou 
bastante com as épocas mas ia, em regra, além do milhar. Espalhados por todo o 
País, os Familiares formavam um autêntico grupo político, apoiando a Inquisição 
na sua luta pelo poder e penetrando em todos os órgãos políticos, administrativos 
ou económicos, fosse a que nível fosse. Assim por exemplo, estavam presentes 
em cortes e influenciavam as decisões nelas tomadas. Estavam igualmente 
presentes na maioria das câmaras concelhias. 


Os poderes conferidos à Inquisição eram enormes e anormais. Em teoria, o 
Inquisidor-mor dependia do soberano, que o nomeava. Contudo, a interferência do 
monarca parava aí, por que só o Papa podia depor um inquisidor-mor. Dentro do 
País, o Inquisidor-mor tinha a qualidade e os poderes de delegado papal, incluindo 
o direito de excomunhão. Era ele quem nomeava 


As estruturas de um estado moderno 395 


todos os outros inquisidores e funcionários, que só perante ele ficavam 
responsáveis. 


Regulamentos e processo mantinham-se secretos para a grande maioria. O 
primeiro Regimento, datado de 1552, teve ainda a aprovação do rei. O segundo 
(1613) e o terceiro (1640) dependeram exclusivamente do Inquisidor-mor. Se 
grande parte das regras adoptadas não se afastava da legislação geral, existiam 
contudo alterações bastantes para tornar a Inquisição mais temida e dramática do 
que os tribunais e as cadeias comuns. Para começar, toda a denúncia era aceite, 
sem respeito à qualidade do denunciante. Até cartas anónimas podiam servir. 
Assim, escravos, excomungados, assassinos e ladrões, todos podiam denunciar. 
Além disso, não se comunicavam aos prisioneiros os motivos da prisão, os nomes 
dos denunciantes nem o lugar e o-momento do crime de que eram acusados. 
Haviam, pois, de «confessar» o crime, muitas vezes inexistente. Não apenas se 
aceitavam factos como matéria criminal mas também conjecturas e boatos. O 
prisioneiro não podia escolher defensor nem advogado, que pertenciam ao 
pessoal da Inquisição. Este advogado, ainda por cima, não tinha acesso ao 
processo do acusado. Não havia possibilidade de apelo, a não ser dentro da 
própria Inquisição. O processo inquisitorial continha ainda outras especialidades 
deste género que, juntamente com as acima mencionadas, podiam fazer de uma 
prisão e de um julgamento um trágico absurdo. 


Os castigos inclufam multas, penalidades espirituais, encarceramento temporário 
ou vitalício, confisco de bens, desterro, etc. As sentenças eram lidas e executadas 
em cerimónias mais ou menos públicas conhecidas como autos-de-fé. Alguns 
destes autos-de-fé tinham lugar no palácio inquisitorial ou num mosteiro. Os mais 
famosos ocorriam na praça pública, com toda a publicidade e na presença das 
autoridades, incluindo o rei e a família real. Entravam na categoria de 
espectáculos cuidadosamente encenados, visando atrair, excitar e comover as 
massas. A pena de morte não podia ser decretada nem executada pelo Santo 
Ofício; mas, como a lei do reino punia os crimes de heresia (e outros) com a morte 
pelo fogo, os prisioneiros culpados dele eram 


396 Apogeu e declínio 


simplesmente «relaxados» pela Inquisição ao braço secular. Depois de um 
julgamento simulado, procedia-se à imediata execução. 


De 1543 a 1684, pelo menos 1379 pessoas foram queimadas nos autos-de-fé, 
numa média de quase dez por ano. O número total de condenações elevou-se a 
um mínimo de 19 247 no mesmo período, uma média de mais de 136 ao ano. 
Centenas ou milhares de pessoas, claro está, morriam na prisão, onde 
frequentemente eram deixadas ficar sem julgamento durante anos a fio. 


A burguesia A expansão do comércio a distância favoreceu o crescimento 
de uma classe mercantil portuguesa em luta permanente com os seus rivais, Os 


mercadores estrangeiros, os nobres e o próprio rei. Nos meados do século xvi, O 
número de burgueses ricos em Lisboa atingira porventura o apogeu. Havia mais 


de oitocentos comerciantes por grosso numa cidade de 100 000 habitantes. Esses 
indivíduos controlavam um quinhão importante do volumoso comércio externo 
nacional, sendo fortes bastante para representar o ponto de partida de uma futura 
nação comercial. Durou cerca de um século, ou pouco mais, a luta que travaram 
com tal objectivo em vista. Mas os seus inimigos eram poderosos em excesso e 
estavam constantemente presentes. Os comerciantes estrangeiros, para começar, 
chegavam a Portugal em número sempre maior, atraídos pelos pingues lucros e 
pelos privilégios reais. Dispunham de mais dinheiro, de mais recursos e de 
melhores técnicas do que os Portugueses. 


Seguia-se o problema da falta de capitais. As operações mais rendosas haviam 
sempre pertencido à Coroa, aos nobres ou aos estrangeiros. Os portugueses 
investiam timidamente e não estavam acostumados a reinvestir de novo, num 
ritmo acelerado. Eram vagarosos em marcha, acanhados em empreendimentos, 
incompletos em resultados. Do Estado não recebiam qualquer ajuda mas antes, 
pelo contrário, um aumento constante nos impostos sobre os lucros que 
conseguiam. 


Os inúmeros pequenos-burgueses eram outro obstáculo ao surto de um Portugal 
mercantil. Tinham nas suas mãos a maior parte do tráfico interno e receavam tudo 
o que se parecesse com 


As estruturas de um estado moderno 397 
poderosos cartéis ou grandes companhias capazes de os absorver ou esmagar. 


Finalmente, a. Inquisição não pode ser esquecida como uma ameaça permanente 
a operações de envergadura e a contactos desenvolvidos com países estrangeiros 
independentes de religião ou de política. Extremamente cobiçosa, a Inquisição 
tinha o olho no mundo do negócio e servia-se de todos os pretextos para perseguir 
e confiscar. Deve lembrar-se que grande parte dos burgueses abastados eram 
cristãos-novos ou relacionados com eles de alguma maneira. 


A partir dos meados do século xvi, acentuou-se a tendência 

- quer em Portugal quer noutras partes - para a redução do número de 
comerciantes a favor de uma maior concentração de firmas e de capitais. As 
«estatísticas» lisboetas para 1565 e 


1619-20 dão-nos a prova clara deste facto. Os «empréstimos» forçados de 1626 e 
1631 revelam igualmente quão reduzido se tornara o grupo dos comerciantes em 
confronto com o número de 1552. Por outro lado, o seu poderio económico 
aumentara consideravelmente. 


A união dual com a Espanha foi favorável à burguesia portuguesa. O governo de 
Madrid tinha consciência muito clara da importância de uma classe média na 
estrutura do reino. Necessitando de dinheiro em quantidades crescentes, sabia 
bem que só os homens de negócio lho poderiam emprestar. Consequentemente, 


os Cristãos-Novos puderam gozar de alguns períodos de paz e prosperidade, de 
que muitos se aproveitaram para deixar o Pais para sempre. 


A revolução de 1640 acarretou o declínio da burguesia portuguesa. Grande 
número de estrangeiros - ingleses, holandeses, alemães, franceses - 
estabeleceram-se em Lisboa, protegidos pelos onerosos tratados de 1641-2, 1654 
e 1661. Infligiram golpe mortal nos comerciantes nacionais. A Inquisição pôde 
actuar sem peias, conseguindo arruinar bom número de firmas e de homens de 
negócio, ao mesmo tempo que impedia ou dificultava iniciativas conjuntas de 
portugueses vivendo em Portugal e de portugueses exilados no estrangeiro. 
Apesar de alguns protestos que esta e outras atitudes menos inteligentes 
suscitaram (o 


399 Apogeu e declínio 


Padre António Vieira foi um dos que defendeu com calor a politica de tolerância 
por razões económicas), a burguesia nacional declinou irremediavelmente. 


Os artífices Os artífices da maioria dos mesteres continuavam agrupados 


em corporações. Em Portugal, como em Espanha, os laços corporativos 
desenvolveram-se e fortaleceram-se durante o século xvii, generalizando-se por 
todo o País as corporações e aparecendo aqui e além novas «Casas dos Vinte e 
Quatro». Eram elas quem controlava a maior parte da actividade industrial 
portuguesa. Tem interesse notar que a permanência e o robustecimento das 
corporações numa época em que, noutros países mais progressivos, elas 
começavam a dar claros sinais de enfraquecimento, constituíam prova evidente da 
tendência para manter formas arcaicas e obsoletas, da reacção contra a inovação, 
do medo em face do progresso. Nos seus ferozes ataques e perseguições contra 
todos aqueles que pretendiam eximir-se aos regulamentos e introduzir novos 
métodos de produção, as corporações podiam bem comparar-se às universidades, 
à Inquisição e à Companhia de Jesus. 


Os artífices foram mantidos «no seu lugar» com firmeza, e mesmo a sua 
representatividade através das corporações foi muitas vezes sofismada. Em 
cortes, muitos dos procuradores do povo pertenciam à nobreza. Na Câmara de 
Lisboa, a maioria dos cargos administrativos importantes reservavam-se a 
aristocratas. E assim por diante. 


Os escravos O número de escravos importados em Portugal diminuiu 


durante o século xvii. Ao mesmo tempo acelerou-se, sobretudo devido a 
miscegenação, o seu processo integracionista na sociedade branca. Os escravos 
tornaram-se caros demais para simples tarefas domésticas e revelaram-se pouco 
necessários na província. Moda e novidade, factores que em parte haviam 
determinado a sua importação nos séculos xv e xvi, transformaram-se e 
passaram. Por outro lado, o tráfico escravo para a América e as ilhas portuguesas 


de África tornou-se bem organizado e um dos mais rendosos de todos os tempos. 
Faria pouco sentido desviar escravos para a metrópole. 


As estruturas de um estado moderno 399 


Diversos decretos proibiram ou dificultaram a vinda de escravos para Portugal, 
sobretudo da índia. Os escravos mouros eram teoricamente interditos. Mas, 
apesar de tudo isto, ainda alguns milhares de negros, mouros e de outras raças, 
viviam em Portugal nos meados da centúria de Seiscentos. Em Lisboa, havia 
talvez uns 10 000 por 1620. 


Na divisão administrativa geral do Pais, só ligeiras mudanças Admín;strai< houve 
a registar no fim do século xvi e no século xvii. As seis e iastíça divisões básicas 
(cf. Cap. IV) chamava-se agora preferentemente províncias, reservando-se o 
termo comareas mais para as unidades menores em que aquelas se subdividiam, 
quer para fins judiciários quer para fins financeiros (quase coincidindo assim com 
os almoxarifados, em número de 28 ou 29). Em 1641 Portugal tinha, nessas seis 
províncias, 27 comarcas, 18 cidades, 408 vilas e 200 concelhos. Não sofreu 
alterações o número de dioceses eclesiásticas, embora se tivesse criado um novo 
arcebispado, o de Évora, que se veio somar aos de Braga e Lisboa em 1540. 


Depois das grandes reformas administrativas dos começos de Quinhentos, 
seguiu-se um período de relativa acalmia, abrangendo a segunda parte do reinado 
de D. João Ill e os reinados de D. Sebastião e D. Henrique. A única realização 
importante antes da união com a Espanha foi uma lei de 1570 estabelecendo dois 
tribunais de justiça itinerantes, um para o Sul (províncias do Alentejo e Algarve), e 
o outro para o Norte, cada qual com seu corpo permanente de funcionários e 
magistrados. O propósito estava em conceder à população um sistema judicial 
melhorado. 


Com a administração dos monarcas Habsburgos introduziram-se profundas e 
numerosas reformas que, na sua maior parte, iriam durar séculos. Portugal pôde 
beneficiar do muito mais desenvolvido modelo burocrático espanhol, sendo por 
assim dizer modernizados os seus métodos de governação. 


A justiça sofreu vários melhoramentos. Em 1582 aperfeiçoou-se decisivamente o 
sistema criado em 1570: um dos principais tribunais, a Casa do Cível, foi 
transferido para o Porto, crismado em Relação da Casa do Porto e reorganizado 
por completo. Ao mesmo tempo, fixava-se em Lisboa o outro tribunal (Casa da 


400 Apogeu e declínio 


Suplicação), em vez de acompanhar a corte nas suas deambulações. Novo 
regulamento fez da Casa da Suplicação o supremo tribunal do reino, dando-lhe 
jurisdição directa sobre o Sul de Portugal e sobre os arquipélagos da Madeira e 
dos Açores. Outras leis ainda modificaram o estatuto, quer de desembargadores, 
quer de corregedores, precisando as respectivas atribuições e áreas de acção 


(1582 e 1592). 


O sistema das finanças públicas foi mudado por completo (Regimento da 
Fazenda, 1591), extintos os secretários conhecidos por vedores da fazenda e 
criado em vez deles um conselho. 

O chanceler recebeu igualmente novo estatuto (1589-95). 


Para a Alfândega de Lisboa foi decretado um moderno foral (1587), surgindo para 
os assuntos económicos um tribunal próprio (1592). Este Tribunal do Consulado,, 
em que tomavam parte mercadores e legistas, ocupar-se-ia das disputas entre 
comerciantes, de problemas de câmbios e de outros assuntos de interesse 
económico. Dispunha de um corpo vasto de funcionalismo, sendo até criado um 
imposto especial para subsidiar o seu funcionamento. Mais tarde (1602), Filipe II 
iria extinguir este tribunal pretestando a sua inutilidade, embora conservasse o 
lucrativo imposto. 


Sob Filipe Ill e Filipe IV, o número de reformas afrouxou um tanto, muito embora 
se mantivesse o propósito deliberado de melhorar a administração e a justiça. O 
tribunal conhecido como Mesa da Consciência e Ordens (cf. Cap. IV) recebeu 
estatuto aperfeiçoado (1607). A Casa dos Contos sofreu alterações importantes, 
sobretudo em 1633. Outras leis trataram da reeleição dos juízes, da reforma da 
Secretaria de Estado, etc. 


A cidade de Lisboa, que ascendera à condição de grande metrópole por padrões 
europeus, foi objecto de vasto esforço legislativo, tendente a uma melhoria de 
organização. As reformas haviam já começado no reinado de D. Sebastião, com 
um novo regulamento para a Câmara Municipal. Prosseguiram com Filipe Il e 
Filipe III. Trataram-se especialmente questões de abastecimento de água, saúde e 
policiamento. As leis de 1605 e 1608 dividam a cidade em dez bairros 
administrativos, com um corpo policial completamente modificado e aumentado. 
Outras medi- 


E o 50 km Sílves La os o A -sede de comarca 

1 sublinhado - cidades 

Fig. 47 -Portugal administrativo em começos e meados do séc. xvii 

26 

402 Apogeu e declínio 

das trataram da pavimentação de ruas, do sistema de esgotos, e assim por diante. 
Mas o maior legado dos monarcas espanhóis foi sem dúvida o novo código 


legislativo conhecido por Ordenações Filipinas. Muitas leis importantes haviam 
sido promulgadas desde 1512-21, data da publicação das Ordenações Manuelinas 


(cf. Cap. IV). 

O cardeal regente D. Henrique ordenou que todas elas fossem coligidas e dadas à 
estampa por Duarte Nunes do Leão num volumoso códice publicado em 1569 
(Colecção, de Leis Extravagantes). De 1569 até à década de 1580, todavia, 
muitas outras leis se promulgaram. Nestes termos, não admira que o espírito 
sistemático da administração filipina tivesse levado a um novo código onde se 
continha quase toda a obra legislativa, disposta com certas modificações em 
matérias de ordem e processo. Prontas já em 1595, as novas Ordenações só 
viriam a ser publicadas em 1603, depois da morte de Filipe II. 


Restaurada a independência, outro período de acalmia legislativa se introduziu. 
Os governos nacionais mostraram pouco espírito inovador. Só os vedores da 
fazenda é que foram criados de novo, mantendo-se no demais todas as reformas 
existentes do sistema financeiro. 


Governação No que respeita à governação, um novo principio surgiu e 


desenvolveu-se nos finais do século xvi e no século xvii: O governo por conselhos. 
Queria isto significar a interferência de pequenos corpos de pessoas, mais ou 
menos competentes, recrutadas nas fileiras da nobreza, do clero e da burocracia. 
Serviam para aconselhar o rei e seus ministros em negócios de importância. Mais 
tarde, restaurada a independência, passaram os conselhos a limitar e a controlar o 
poder real, convertendo-se muitas vezes no próprio poder. 


Houvera sempre conselheiros, a quem o monarca ouvia quando necessário. Em 
1563, o cardeal-regente D. Henrique criou o Conselho de Estado, com funções 
bem definidas e estatutos promulgados seis anos depois. Ao Conselho de Estado 
seguiu-se o Conselho da Fazenda, estabelecido por Filipe Il em 1591 para 
assuntos de carácter financeiro, económico e mercantil. O mesmo soberano 
fundara, ao partir de Lisboa para Madrid (1583), o 


As estruturas de um estado moderno 403 


Conselho de Portugal, que o devia assistir em todos os negócios que importassem 
ao seu novo reino. Este conselho incluía um 


secretariado, mais tarde (1602) dividido em quatro, depois (1607) contraído em 
dois, e por fim (1631) fixado em três. Veio a desaparecer, claro, com a restauração 
da plena soberania nacional, em 1640. Houve ainda um Conselho da Índia para os 
negócios ultramarinos. Durou pouco, tendo sido criado em 1604 e extinto dez anos 
mais tarde por conflitos de jurisdição com outros 


órgãos administrativos. 
D. João IV estabeleceu três outros conselhos, um para a guerra, o exército e a 


marinha (Conselho de Guerra, 1640), outro para os assuntos do Ultramar que 
assim vinha restaurar o Conselho da índia (Conselho Ultramarino, 1642) e a 


chamada Junta dos Três Estados (1641), imposta pelas Cortes para superintender 
na administração financeira da guerra. 


Quanto ao poder executivo propriamente dito, também algumas modificações de 
importância houve a registar. O escrivão da puridade desapareceu no tempo de D. 
Sebastião quando, pela primeira vez, se agruparam os assuntos governamentais 
em três secretarias. A administração filipina reduziu-as a duas, a Secretaria de 
Estado e a Secretaria das Mercês, além das secretarias estabelecidas em Madrid 
dentro do Conselho de Portugal. 


Com D. João IV começou-se por unia única secretaria que, dentro de poucos 
anos, deu novamente lugar às duas do período espanhol e, logo depois, a três, a 
Secretaria de Estado para as linhas gerais de política interna, colonial e 
estrangeira, a Secretaria das Mercês e Expediente para a nomeação da maioria 
dos funcionários e magistrados, e a Secretaria da Assinatura, para assinatura de 
documentos provenientes de qualquer dos conselhos. De 1662 a 1667 restaurou- 
se o velho título de escrivão da puridade no conde de Castelo Melhor, como 
autêntico primeiro-ministro ou intermediário entre o rei e os outros secretários, 
dispondo de poderes superiores aos do próprio Secretário de Estado. 


O papel das cortes declinou consideravelmente durante o As cortes 


período de que estamos tratando. Era nada mais do que a continuação de uma 
tendência muito anterior, favorecendo a centra- 


404 Apogeu e declínio 


lização do poder real. Houve cortes em 1562-63, 1579 e 1580, mas só as 
primeiras tiveram algum significado como assembleias de tipo tradicional. As 
cortes de 1579 e 1580 foram convocadas para discutir o problema da sucessão ao 
trono. Filipe Il julgou necessário dar às cortes certa aparência de força, a fim de 
conseguir o apoio dos Portugueses: convocou-as duas vezes, em 1581 e em 
1583. Quando seu filho Filipe III visitou Lisboa em 1619, de novo se reuniram 
cortes, mais como assembleia de boas-vindas e congratulação pela régia visita do 
que afirmação de vontade colectiva. Depois da Restauração, o papel das cortes 
valorizou-se por algum tempo. Entre 1641 e 1668 houve cinco reuniões, sempre 
em Lisboa, com decisões importantes para a reorganização do País. Mas não foi 
mais do que um parêntesis no seu declinar, que se acentuou, depressa e 
definitivamente, nos anos após. 


Culturd Não registou a Universidade mudanças fundamentais. A principal 
modificação consistiu em ser colocada sob a jurisdição do tribunal régio conhecido 
por Mesa da Consciência e Ordens (1576). A Universidade passou, assim, a 
instituição do Estado. Apesar de meia dúzia de alterações estatutárias entre 1559 
e 1612, o seu quadro geral manteve-se na essência até ao século xviii. Os 
Estatutos de 1612, confirmados por D. João IV em 16583, iriam mesmo subsistir 
sem alterações durante mais de cem anos. De acordo com as suas principais 


cláusulas, a universidade de Coimbra abrangia quatro colégios maiores 
(Faculdades) de Teologia, Cânones, Leis e Medicina, e sete colégios menores 
(Escolas menores) para o ensino das Matemáticas, Música, Artes, Hebreu, Grego, 
Latim, e assuntos elementares (ler, escrever e contar). Nestes termos, a 
Universidade englobava, tanto os níveis superiores do ensino como os 
secundários e até os primários. Permitia, pois, ao estudante um curriculum 
completo, começando com a infância e terminando na idade adulta. 


O monopólio coimbrão no que respeita a cursos universitários foi ameaçado pelos 
Jesuítas, que pretendiam controlar a educação tanto quanto possível e a quem a 
Universidade de Coimbra sempre ofereceu resistência tenaz. Em 1559, os 
Jesuítas conseguiram que o cardeal D. Henrique, inquisidor-mor e futuro 


As estruturas de um estado moderno 405 


regente do reino, fundasse em Évora uma nova universidade, que lhes foi 
confiada. Nove anos mais tarde, o Papa concedeu-lhes oficialmente supervisão 
plena sobre a nova escola, que ficava apenas sujeita à jurisdição do seu Geral. 
Todavia, a universidade de Évora era muito mais pequena do que a de Coimbra e 
o seu programa permitia uma escolha muito menor de assuntos: Teologia, Artes, 
Gramática, Estudos Bíblicos, Casuística, Latim e 


cursos elementares somente. Para aumentar a sua interferância nas escolas 
superiores, os Jesuítas conseguiram (1561) que a 


admissão às Faculdades de Cânones e Leis dependesse de grau obtido no 
Colégio das Artes, que eles dirigiam. 


A história deste Colégio das Artes foi triste. Começara (cf. Cap. IV) como uma 
escola humanista, com um núcleo muito completo de cursos e um grupo excelente 
de professores, muitos deles estrangeiros. Mas depressa se tornou claro que uma 
escola deste tipo podia converter-se em centro de «livre-pensamento», 
ameaçando a unidade da fé e a nova política religiosa e cultural seguida por D. 
João Ill. No Colégio das Artes, a recém-criada Inquisição farejou boa presa para o 
seu fervor ortodoxo. Vários professores foram detidos ou perseguidos, incluindo 
Buchanan e Diogo de Teive. Como pretextos, serviram as costumadas acusações 
de homossexualidade e da prática de outros actos «imorais». Depois de cinco 
anos de ataque, o Colégio das Artes ficou «limpo» dos seus melhores e mais 
perigosos elementos, tornando-se elemento dócil da Contra-Reforma. D. João III 
levou mais avante a sua política reaccionária, confiando o Colégio à direcção dos 
Jesuítas (155.5) e unindo-o ao Colégio de Jesus que haviam fundado. 


Esta tentativa da Companhia de Jesus de dirigir a educação a todos os níveis não 
se processou, evidentemente, sem resistências yffin'as. A universidade de 
Coimbra contou-se entre os opositores. Ás demais ordens religiosas, 
nomeadamente os 


Agostinhos e os Dominicanos, muito dados ao ensino e dispondo também de larga 
influência, reagiram com vigor mas em vão. Em 1560, o duque de Bragança, D. 
Teodósio, tentou estabelecer uma terceira universidade em Vila Viçosa (onde era 
a sua corte) que entregaria aos frades agostinhos. Mas a morte, ocorrida 


406 Apogeu e declínio 


pouco depois, inutilizou-lhe os planos, As cortes de 1562 também protestaram 
contra o número e influência crescente dos Jesuítas, elevando a voz contra a 
entrega do Colégio das Artes à sua direcção. 


Nada, porém, resultou. Jesuítas, Inquisição e Coroa estavam, ao tempo, 
fortemente unidos contra a heresia, o fermento cultural e todo e qualquer desvio 
da política do concílio de Trento. Através do Pais, grande número de professores 
sofreram perseguições de toda a ordem, muitos sendo encarcerados, condenados 
ou forçados a largar as suas cátedras. Poucas inovações no ensino (quer na 
forma quer no conteúdo) foram toleradas. Universidades e colégios entraram em 
fase de quase estagnação, insistindo numa metodologia escolástica e 
cristalizando nas suas glosas aos velhos mestres. O ensino oficial mostrou-se 
impermeável a qualquer progresso científico, rejeitando o avanço cultural que se ia 
verificando lã por fora e oferecendo um exemplo centenário de dogmatismo e 
inutilidade. Ciência frutuosa e progressiva iria surgir apenas das realizações 
humildes e pragmáticas de navegadores, colonos ultramarinos, viajantes e outros 
do mesmo estofo. 


Alguns físicos (Amato Lusitano, 1511-68, por exemplo) contribuíram para o avanço 
da medicina, ao mesmo tempo que se ia levantando um corpus importante de 
botânica e zoologia na Ásia, na África e na América. Trabalhando na índia, Garcia 
da Horta (1501-68) relacionou a botânica com a medicina e a farmacologia, 
estabelecendo os fundamentos da medicina tropical. Pedro Nunes (1502-78) 
galhardamente continuou e aperfeiçoou a tradição da navegação científica* da 
astronomia e da matemática. Cientistas como estes, contudo, eram poucos e o 
seu experimentalismo nunca ultrapassou a fase empírica para se transformar em 
atitude cientifica sistemática. Para mais, todos eles pertenciam a uma geração que 
ia envelhecendo pelos meados do século xvi e que tinha poucos e medíocres 
continuadores. A única excepção foi Francisco Sanches (1551-1623), predecessor 
de Descartes no método famoso da dúvida sistemática (Tractatus de multum nobili 
et prima universali seientia quod nihil scitur, isto é, «Tratado da muito nobre e alta 
ciência universal de que 


As estruturas de um estado moderno 407 


nada se sabe», 1581). Mas Sanches, que leccionou em diversas universidades, 
viveu em França a maior parte da vida. 


Dentro do quadro universitário, os únicos exemplos de interesse acharam-se no 
campo da Filosofia. Em Coimbra, nasceu e desenvolveu-se uma escola de 


comentadores de Aristóteles que iria durar bem um século: o grupo famoso dos 
Conimbricenses, que continuaram o Aristotelismo medieval sem alterações no 
método e sem deturpações no pensamento do Mestre, mas com uma maneira 
perfeita e afinada de classificar, descrever e sumariar todos os comentários e 
soluções propostas. Tratava-se de escolásticos puros nos séculos xvi e xvii, 
querendo conhecer Aristóteles dentro do mundo global dos seus comentadores. 
Devido a esta perfeição metodológica, as obras dos Conimbricenses foram 
largamente lidas por toda a Europa, em especial nos meios universitários. 


Como grupo, o Colégio das Artes publicou oito volumes de Comentários a 
Aristóteles (Commentarii Collegii Conimbricensis Societatis lesu) sob a direcção 
de Pedro da Fonseca (1528-99), entre 1592 e 1606. O próprio Pedro da Fonseca 
(que também ensinou em Évora) escreveu diversas obras sobre assuntos 
similares, um dos quais (Institutionum Dialecticarum Libri Octo), espécie de 
manual escolar, conheceu 34 edições por toda a Europa entre 1564 e 1625. Todas 
estas obras tiveram tremenda repercussão em Portugal e no estrangeiro, com 
muitas edições em França, Alemanha e Itália, sendo louvadas por homens como 
Descartes e Leibniz. 


Em Évora, o grande nome a mencionar foi o do filósofo Luis de Molina (1535- 
1600), nascido em Espanha, mas que viveu, trabalhou e escreveu em Portugal a 
maior parte da sua vida. O livro de Molina, De concordantia liberi arbitrii cum 
gratiae donis, divina prescientia et providentia (1588) deu lugar a uma polémica 
viva de carácter internacional sobre a possibilidade de reconciliar o livre arbítrio 
com a presciência divina. O Molinismo, doutrina filosófica derivada dos escritos de 
Molina, teve grande influência no mundo filosófico e teológico dos séculos xvii 

e xvili. 


408 Apogeu e declinio 


A censura A direcção da cultura pela Igreja e peloEstado não era apenas imposta 
pelas universidades e pelos colégios. A introdução da censura organizada veio a 
ser outro instrumento para tal, e 


mais eficiente ainda. 


Houvera supervisão régia sobre a imprensa desde a década de 1520, mas de 
forma vaga e imprecisa. Os privilégios concedidos aos impressores serviam como 
meio de superintender na produção livreira. Censura autêntica só veio a ser 
estabelecida com a Inquisição. A partir de 1540, certo número de regras foram 
impostas, segundo as quais todas as livrarias e todos os navios vindos do 
estrangeiro seriam inspeccionados por eclesiásticos. Estas regras robusteceram 
com o tempo, à medida que a Inquisição se tornava mais forte e invadia todos os 
aspectos da vida quotidiana. Não apenas as livrarias mas também as casas 
particulares passaram a ser visitadas por pessoal do Santo Oficio sempre que 
morria alguém conhecido por possuir livros ou manuscritos. 


Em 1543 apareceu na Itália o primeiro Index de livros proibidos. Foi depressa 
seguido por um espanhol (1546), que estabeleceu o modelo da primeira lista 
portuguesa de livros defesos, publicada em 1547: continha somente obras 
estrangeiras, em número de 160. Quatro anos mais tarde, organizou-se em 
Portugal novo Index. Desta vez aparecia impresso, abrangendo 495 títulos, sendo 
13 de obras portuguesas e castelhanas. Desde então, e até meados do século 
xvii, sucessivas listas de livros defesos surgiram em Portugal, Espanha (a qual, 
por via de regra, fixava o modelo e o conteúdo principal dos róis portugueses) e 
Roma -as desta cidade válidas para todo o mundo cristão consoante as decisões 
do concílio de Trento. 


Os índices portugueses de 1561, 1581 e 1624 mostram claramente, não só o 
progresso da imprensa, mas em especial a ferocidade crescente da censura à 
imprensa: mais de 50 títulos em português e em castelhano no primeiro caso, 94 
títulos no segundo e 330 títulos no terceiro -um aumento de 88 % entre 

1561 e 1581, e de 251 % entre 1581 e 1624, ou seja, um total de 

339 % para todo o período. 


As estrutura de um estado moderno 409 


As obras defesas incluíam livros tidos por heréticos (ou, como norma geral, 
escritos, traduzidos ou editados por heréticos), livros sobre «coisas lascivas e 
desonestas», livros sobre feitiçaria, astrologia e outros do mesmo tipo. A fórmula 
depois adoptada pelos censores proibia todos os livros ou partes deles que 
contivessem fosse o que fosse contra «a nossa santa Fé e bons costumes». 


Ora contra «Fé e costumes» haviam escrito um grande número de autores 
portugueses, praticamente todos os clássicos da literatura nacional. Escritores 
como Camões, Gil Vicente, Sã de Miranda, António Ferreira, Bernardim Ribeiro, 
João de Barros e outros muitos, todos tiveram obras proscritas ou mutiladas pela 
censura. Livros que não eram totalmente proibidos deviam ser levados pelos seus 
proprietários (coisa que poucos, em boa verdade, fizeram) ou pelos livreiros à 
Inquisição, onde as partes interditas eram riscadas ou rasgadas. Na edição 
seguinte, o texto devia aparecer com as mudanças determinadas pelos censores. 
Livros totalmente proibidos eram queimados nos autos-de-fé. 


A Inquisição não tinha o monopólio da censura. Tanto os bispos como o rei não 
renunciaram ao direito de controlar a produção literária. Os prelados impuseram a 
sua autoridade tradicional especialmente a partir do século xvii, enquanto o rei - 
interessado acima de tudo nos aspectos políticos- a estabeleceu de direito e de 
facto em 1576, mas tornando-a somente efectiva na década de 1590. Assim, todo 
o livro em vias de publicação tinha de sofrer um processo altamente complicado. 
Era primeiro apresentado à Inquisição, depois ao «Ordinário» (ou seja, o bispo da 
diocese) e por fim ao rei através do Desembargo do Paço. Em cada caso o livro 
andava para trás e para diante, do autor para os censores e destes para o autor, 
se havia alterações a serem feitas. A edição final exibia a autorização das três 
entidades, podendo distar meses e até anos da primitiva data de apresentação. 


A censura variou consoante a época, a personalidade dos censores e as 
influências por detrás dos autores. Mas em qualquer caso revelava-se sempre um 
elemento desencorajador para escritores e para editores. Somada à Inquisição e à 
influência 


410 Apogeu e declínio 


jesuítica, fez afrouxar sem sombra de dúvida a produção literária, impedindo 
Portugal de acompanhar o progresso científico e cultural europeu a um ritmo 
normal, e dando origem a um género assaz interessante (mas triste pelo simples 
facto da sua 


existência) de literatura clandestina que aguarda ainda o seu historiador. 


É evidente que os livros impressos nos fins do século xvi e no século xvii haviam 
de reflectir as realidades da nação. A literatura religiosa abrangeu a maior parte 
dos títulos. Outros géneros cultivados respeitaram ao direito, à poesia, à história, 
às viagens, etc, com uma minoria muito pequena dedicada à ciência. De 1551 a 
1599 pouco mais de mil obras (isto é, títulos diferentes) foram impressas em 
Portugal, numa média de vinte livros ao ano. É interessante notar que esta média 
se manteve aproximadamente a mesma depois do grande salto de 1548-51, não 
se registando qualquer aumento de monta no número das publicações. Pelo 
contrário, notou-se até um ligeiro recuo depois da década de 1560. 


Apesar de todos estes freios a um desenvolvimento cultural pleno, o mundo 
português na segunda metade do século xvi e na primeira metade do xvii tinha 
ainda vigor bastante para produzir um bom número de obras-primas e rivalizar 
(excepto no campo científico) com a Europa culta. O surto humanista produziu 
alguns dos seus melhores frutos depois de 1550, especialmente entre os homens 
que pertenciam às gerações formadas antes ou por volta dos meados da centúria. 
Luís de Camões (15257-1580) foi o maior de todos, com Os Lusíadas publicados 
em 1572 e rapidamente difundidos pela Europa ilustrada. A sua geração 
pertenceram poetas e prosadores como António Ferreira (1528-1583?) e o esteta 
e artista Francisco de Holanda (15177-89), comparáveis ao melhor que a Europa 
do tempo podia oferecer. As gerações ulteriores produziram alguns autores de 
nomeada, tais como os historiadores Diogo do Couto (1542-1616) e Fr. Luís de 
Sousa (1555-1632), e os prosadores de outros géneros Francisco Rodrigues Lobo 
(15799-1621), D. Francisco Manuel de Melo (1608-66), Fr. António das Chagas 
(1631-82) e o Padre António Vieira (1608-97). Não há dúvida, porém, de que tanto 
o número 


As estruturas de um estado moderno 411 


como a qualidade (à excepção de Vieira) declinaram um tanto no século xvii e que 
o renovo artificial causado pela Restauração se esgotou depressa também. 


No campo das artes pôde verificar-se uma situação diferente, Arfes já que nem a 
Inquisição nem as outras formas de censura afectavam o progresso da 
arquitectura, da escultura ou mesmo da pintura. 


O estilo renascentista, que chegara a Portugal tão tardiamente, evoluiu para essa 
nova maneira de interpretar os modelos clássicos conhecida por Maneirismo. São 
poucos os exemplos de persistência do estilo renascentista, puro depois dos 
meados do século. As novas sés de Leiria, Miranda e Portalegre, todas 
começadas na década de ISSO, mostram já o compromisso entre Renascença e 
Maneirismo. O mercado construído em Beja segundo a boa tradição italiana das 
loggie, é um dos poucos exemplos de um estilo em vias de extinção. 


Quanto ao Maneirismo português, os seus principais centros localizaram-se em 
Lisboa, Évora, Coimbra e Porto. Os mestres italianos e espanhóis davam o tom, 
assim como os monumentos da Itália e da Espanha se copiavam por toda a parte. 
A influência do arquitecto italiano Serlio dominou Portugal durante os séculos xvi e 
xvii. Outro italiano, Filippo Terzi (152V-97), fundou em Lisboa uma conhecida 
escola de arquitectura, dirigindo a construção de diversos monumentos 
importantes (S. Vicente de Fora, por exemplo). Entre as mais belas jóias desta 
arquitectura, devem mencionar-se a Sé Nova* de Coimbra, a igreja de S. Bento no 
Porto e a igreja da Graça em Évora. 


A concepção tridentina de religião e o seu método de ganhar almas para Deus 
mediante um chamamento da atenção e da imaginação populares - de que os 
maiores expoentes foram os Jesuítas - tiveram seu impacto sobre as artes, 
nomeadamente no campo da arquitectura. A maior parte das igrejas jesuíticas (S. 
Roque, em Lisboa; Espírito Santo, em Évora; etc.) não tinham praticamente alas 
laterais, reduzindo-se a maioria das capelas a nichos na parede. Desta maneira, 
toda a igreja surgia como um vasto salão, obrigando os olhos e os espíritos dos 
fiéis a voltarem-se apenas para o púlpito e o altar-mor. Este 


412 Apogeu e declínio 


género de templos teve também o seu modelo na Itália, na importante igreja de 
Gesú, em Roma, que conheceu enorme popularidade, sendo copiada por 
seculares e regulares de todo o mundo católico. 


No interior das igrejas, surgiu e desenvolveu-se a partir dos fins do século xvi um 
tipo de decoração extremamente rico. Incluífa azulejos de cores variegadas e a 
famosa talha dourada, cobrindo por completo altares, retábulos, molduras, 
cornijas, coberturas, púlpitos, cadeirais, órgãos, ete. Houve inúmeros casos em 
que todas as superfícies internas da igreja foram recobertas, quer de azulejos, 
quer de talha dourada. Daqui resultaram consequências várias, por exemplo o 
declínio da pintura religiosa, preterida pelas novas formas decorativas. Em 
compensação, pôde desenvolver-se a escultura de imagens, tanto de madeira, 
como de pedra, a arte tumular, os cadeirais de coro, os altares decorados, e assim 
por diante. 


Além da arquitectura religiosa, registou-se um número cada vez maior de edifícios 
civis, com expressão artística relevante. Construfram-se fortalezas militares por 
toda a metrópole e terras ultramarinas, reflectindo concepções novas na arte da 
guerra. Também surgiram, aqui e ali, aquedutos (Coimbra, Vila do Conde), 
revelando a preocupação crescente com o abastecimento de água aos centros 
urbanos. O número sempre maior de nobres residindo em cidades (sobretudo em 
Lisboa) trouxe como consequência a edificação de numerosos palácios e 
mansões. Em Lisboa, Filipe Il ordenou a construção de um novo paço real. Nas 
quintas dos arredores das cidades e no campo, grande número de casas de 
veraneio testemunharam da opulência do seu proprietário. Construfram-se 
igualmente chafarizes, escolas (universidade de Évora), hospitais (as 
Misericórdias), etc. 


A pintura da segunda metade do século xvi continuou a tradição renascentista, 
quer em qualidade quer em número. Contudo, em lugar da influência flamenga 
dominante, a pintura italiana começou a afirmar-se com força cada vez maior, o 
que não excluiu o papel dos novos mestres franceses e flamengos. 

O grande nome foi o de Gregório Lopes (1516-94), mas floresceram escolas de 
pintura em muitas cidades pequenas (além 


As estruturas de um estado moderno 413 


da de Lisboa), em redor das cortes episcopais e senhoriais. No século xvii, a 
pintura religiosa declinou, tanto em qualidade como em quantidade, mas a arte do 
retrato (que começara a desenvolver-se antes) elevou-se a altos níveis. 
Infelizmente, a maioria desses quadros encontra-se hoje em colecções 
particulares, não existindo sequer um inventário completo deles, o que produz a 
falsa impressão de que a pintura desapareceu quase de todo durante este 
período. 


Bibliografia - O melhor estudo de conjunto sobre as estruturas de Portugal em 
1550-1668 deve-se a Vitorino Magalhães Godinho no capítulo escrito para The 
New Cambridge Modern History, vol. V, The Ascendaney of France, 1648-88, 
Cambridge University Press, 1961 (Cap. XVI, « Portugal and her Empire», pp. 348- 
397), embora respeite sobretudo aos meados do século xvii. Vejam-se também 
diversos artigos do mesmo autor reimpressos nos seus Ensaios, vol. Il, Sobre 
História de Portugal, Lisboa, Sã da Costa 1968. A História de Portugal nos 
Seculos XVIl e XVIII de Luís Augusto Rebelo da Silva, vols. IV e V, Lisboa, 
Imprensa Nacional, 1869-71, continua a prestar serviços na falta de monografias 
actualizadas. O mesmo se diga da sua Memória sobre a População e a Agricultura 
de Portugal desde a Fundação da Monarquia até 1865, Lisboa, Imprensa 
Nacional, 1868. 


Sobre comércio, publicou José Gentil da Silva duas obras importantes: Stratégie 
des affaires à Lisbonne entre 1595 et 1607, Paris, SEVPEN, 
1956, e Marchandises et Finances, Lettres de Lisbonne, vols. Il e III, Paris, 


1959-61. Frédéric: Mauro estudou o comércio geral atlântico numa obra-prima de 
investigação e síntese, Le Portugal et I'Atlantique au XVlje sie cle, 

1570-1670, Paris, Ecole Pratique des Hautes Etudes, 1960. Vejam-se também os 
dois livros de Hermann Kellenbenz, Unfernehmerkrãfte im Hamburger Portugal- 
und Spanienhandel 1590-1625, Hamburg, Verlag der Hamburgischen Búcherei, 
1954, e Sephardim an der Unteren Elbe, Wiesbaden, Franz Steiner Verlag, 1958. 
Igualmente sobre comércio e problemas monetários, veja-se de novo Vitorino 
Magalhães Godinho, Os Descobrimentos e a Economia Mundial, vols. | e II, 
Lisboa, Arcádia, 1963-71. 


Uma estudante nossa (Maria Amélia Lança Coelho) recolheu e publicou, como 
dissertação, alguns preços para a região de Beja: «Esboço de um Estudo 
Económico-Administrativo de Beja e seu Termo durante o período Filipino», diss. 
depositada na Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 1961-62. Mas o 
grande estudo de conjunto sobre preços para este (e outros períodos) deve-se 
uma vez mais a Vitorino Magalhães Godinho, Introdução à História Económica, 
Lisboa, Livros Horizonte, s/d. (1970). 

Sobre a Igreja e o clero, a fonte continua a ser a História da Igreja em Portugal, 
vol. II 2.a edição, Porto-Lisboa, Livraria Civilização, 1968, de 


414 Apogeu e declínio 


Fortunato de Almeida. Antônio José Saraiva estudou a Inquisição em vários 
trabalhos seus, nomeadamente no último publicado, Inquisição e Cristãos-Novos, 
2.a ed., Porto, Inova, 1969. Para os aspectos da cultura veja-se igualmente, deste 
mesmo autor, A História da Cultura em Portugal, vols. Il e Ill, e bem assim a 
História da Literatura Portuguesa que Saraiva escreveu com ôscar Lopes, 3.11 ed, 
Porto Editora, s/d. Quanto à Universidade de Coimbra, a melhor fonte mantém-se 
Teófilo Braga, História da Universidade de Coimbra, vol. II, Lisboa, Academia Real 
das Ciências, 1895. Existe uma aceitável visão de conjunto sobre as artes, devida 
a Reinaldo dos Santos, História da Arte em Portugal, vol. Il, Porto, Portucalense 
Ed., 

1953, que deve combinar-se com o moderno trabalho de Robert C. Smith, The Art 
of Portugal, 1500-1800, New York, Meredith Press, 1968. 


Por fim, o tantas vezes mencionado Dicionário de História de Portugal, tal como a 
História de Portugal de Fortunato de Almeida (vols. Ill, IV e V) e a História de 
Portugal dirigida por Damião Peres (vols. V e VI) continuam a revelar-se 
imprescindíveis auxiliares de trabalho. 


2 - União Ibérica 


As tentativas de unificar a Península Ibérica podem encontrar-se num passado 
bem remoto. Até ao século xv, Castela, como força centrípeta, fora sempre o actor 
principal no combate por uma Ibéria unida sob a sua suserania directa. Mais tarde, 
porém, tanto Portugal como Aragão vieram desempenhar o seu papel também. É 
que o ideal se mostrava, na verdade, comum a todas as monarquias peninsulares. 


Apesar de uma existência separada de centenas de anos, todas elas se 
consideravam ainda partes integrantes da Hispania, a Hispania pagã dos 
Romanos, a Hispania cristã do Baixo Império ou do Reino Visigodo, unificada pela 
derradeira vez sob o Islam. 


Nos finais da Idade Média, os localismos de outrora, elevados à categoria de 
nacionalismos, começaram a representar a sua parte, dificultando e frustrando os 
tentames de unificação. Os dialectos locais, tornando-se línguas, fizeram as 
comunicações mais difíceis, as tradições políticas rejeitaram a aceitação simples 
de chefia comum, os padrões culturais semi-isolados revelaram-se, quantas 
vezes, preferentemente permeáveis a influências estrangeiras, os interesses 
económicos fraccionaram a Península em áreas bem definidas. e assim por 
diante. 


Contudo, o sonho não morreu. Pelo contrário, converteu-se numa espécie de 
desporto favorito dentro das famílias reais de cada país, em busca de poderio e 
glória. O surto da administração central foi, sem dúvida, o factor dominante nesta 
continuidade de política seguida pelos monarcas ibéricos. Cada sobe- 


416 Apogeu e declínio 


rano desejava para si um nome maior, Uma longa fieira de títulos que traduzissem 
numerosos senhorios, Ao constante fortalecimento da autoridade e aumento de 
força exibidos por monarcas poderosos como o rei de França, o rei de Inglaterra 
ou o imperador da Alemanha, os senhores de Castela, de Aragão e de Portugal 
tinham pouco que comparar. E se esses soberanos poderosos conseguiam 
alargar os seus estados através da conquista ou de meios pacíficos, talhando em 
seu proveito novas unidades políticas, mais ou menos baseadas em limites 
antigos e em tradições remotas, por que razão não saberiam os monarcas ibéricos 
competir com eles e fazer outro tanto? Por detrás de todas as tentativas de 
unificação peninsular existiram sempre a emulação internacional e o 
engrandecimento senhorial, mais ainda do que o ideal de uma pátria comum. 


A expansão política e económica, tanto de Aragão como de Portugal, deram-lhes 
um lugar no jogo da unificação, ao lado de Castela. Isto explica os casamentos 
mistos que resultaram nas tentativas fracassadas de 1474-79 e 1496-1500. Em 
ambos os casos, Portugal teria sido a parte dirigente e o seu candidato masculino 
o soberano das Espanhas. 


Ligações Durante o século xvi, continuaram os laços dinásticos entre dinásticas as 
famílias reais portuguesa e castelhana, com tal insistência 


e proximidade que haveriam de resultar em união final. Carlos V (Carlos 1 de 
Espanha) casou com Isabel, filha primogénita de D. Manuel |. Pela mesma época, 
D. João Ill consorciava-se com a irmã mais nova de Carlos, Catarina. Anos atrás, 
D. Manuel casara-se sucessivamente com três princesas espanholas, a saber: D. 
Isabel, sua irmã mais nova D. Maria, e por fim D. Leonor, irmã mais velha de 


Catarina. Velo então Filipe Il a casar (1543) com D. Maria, filha primeira 
sobrevivente de D. João Ill, enquanto a irmã de Filipe Il, Joana, esposava o 
príncipe D. João, herdeiro do trono português (1552). Deste último matrimónio 
resultou unicamente um filho, D. Sebastião, cujo nascimento (1554) se seguiu de 
perto à morte do pai, tornando-o em único sobrevivente dos onze descendentes 
legítimos do rei D. João III. 


Falecendo em 1557, este monarca deixou, pois, corno sucessor, uma criança débil 
de três anos de idade, cujas esperanças 


União Ibérica 417 


de vida não eram grandes. De facto, durante toda a sua existência, D. Sebastião 
revelou-se um doente, tanto física como mentalmente. Abominava a ideia de 
casar. Nestes termos, o seu reinado de vinte anos foi apenas uma longa 
preparação para a mudança de dinastia. 


Contudo, seria um erro supor que a União Ibérica consti- Razões tula apenas 
desejo e capricho de um pequeno grupo de cabeças económicas coroadas: 
tomara-se também económica, social e culturalmente viável. Parafraseando 
Vitorino Magalhães Godinho, a data de 

1580 - conquista de Portugal pela Espanha - «é muito mais um ponto de chegada 
do que, um ponto de partida... consagra dinasticamente a viragem de estrutura de 
meados do século» *. 


Na verdade, desde meados da centúria de Quinhentos que o Império Português e 
a sua organização económica geral - com todo o seu peso no destino último do 
Pais - formavam uma espécie de complemento do Império Espanhol (cf. Cap. VID. 
O tráfico com a índia e com o Extremo Oriente (onde fora descoberto e se achava 
em pleno surto o mercado fabuloso da China) absorvia grandes quantidades de 
prata, que a Europa já não estava em condições de fornecer. Assim, os 
Portugueses tornaram-se cada vez mais dependentes da produção argentífera 
espanhola, em face próspera após a descoberta das minas e dos tesouros 
mexicanos e peruanos. Sevilha, mais do que Antuérpia, tornou-se a ligação 
principal dos Portugueses para as necessidades vitais do seu comércio. A linha 
mercantil regular entre o México e a China (via Manfia, nas Filipinas) punha em 
xeque o monopólio português no Extremo Oriente, a menos que Portugal 
conseguisse liberdade de acesso e de tráfico dentro das possessões coloniais 
espanholas. Pela segunda metade da centúria, o Império Espanhol atingira o seu 
zénite, constituindo poderoso factor de atracção para as iniciativas dos 
Portugueses. Era natural que assim fosse, acostumados como estavam a culturas 
exóticas e a modos de traficar diferentes, sempre prontos a expandir os seus mer- 


* «1580 e a Restauração», in Ensaios, vol. Il, Lisboa, Sã da Costa, 
1968, p. 267. 


21 


418 Apogeu e declínio 


cados para qualquer direcção, bem cônscios das imensas possibilidades que 
aquele Império lhes oferecia. 


Ao mesmo tempo, as relações económicas directas entre Portugal e a Espanha 
iam-se tornando interdependentes. Comerciantes e navios portugueses serviam 
de intermediários entre a Espanha e outras partes da Europa. Mercadores e 
capitalistas espanhóis controlavam parte do tráfico português e desempenhavam 
papel de relevo nos negócios empreendidos pela Coroa. Abolir todos ou parte dos 
direitos alfandegários ao longo da fronteira fora sempre um sonho dourado, 
sobretudo para os Portugueses que necessitavam do trigo de Castela quase todos 
os anos. 


Espanhóis e Portugueses iam tendo inimigos comuns, em crescente número e 
actividade: os Franceses, os Ingleses, mais tarde os Holandeses também. A 
pirataria prejudicava a navegação das duas partes, atacando-a frequentemente na 
mesma rota marítima e exigindo a acção combinada das frotas dos dois países. 
Contra mouros e turcos, também Portugal e a Espanha exerciam acção conjunta. 
Por outro lado, e visto que cada nação possuía de seu um quinhão fabuloso para 
digerir, mostravam-se pouco prováveis e raras as agressões mútuas. A Espanha e 
Portugal eram aliados naturais. 


Razões Culturalmente, também, uma União Ibérica viria simples culturais mente 
completar o crescente processo de castelhanização de que 


Portugal sofria havia já muito. Sempre se haviam sentido no País influências 
culturais castelhanas, da mesma forma que influências portuguesas se 
detectavam em Castela. Todavia, o impacto de outras culturas - francesas, 
aragonesas, italianas, borgonhesas, mesmo inglesas - servira até aí de elemento 
moderador. Outro tanto se diria do vigor da própria cultura portuguesa. 


Ora, se este vigor só aumentara durante o século xvi, e a um cume de realizações 
gloriosas em todos os campos da literatura, da educação e da ciência, tinha, não 
obstante, de competir com o embate ainda mais vigoroso do «Século de Ouro» 
espanhol. Pois so um país como a França se mostrava culturalmente influenciado 
pela Espanha, como poderia Portugal, com uma contextura cultural muito mais 
ténue, resistir ao impacto do seu vizinho?! 


União lb-a 419 


A corte régia fora sempre o centro principal das produções culturais portuguesas. 
Mas a partir de 1496, a corte passou a gravitar, quase permanentemente, em 
torno de um pólo castelhano, representado pela rainha. E se as quatro rainhas que 
se sucederam, até 1578, aprenderam porventura algum português, não restam 
dúvidas de que a língua falada geralmente com elas era a sua própria. 


Já nos fins do século xv e durante todo o século xvi que a maioria dos autores, 
cortesãos e homens educados portugueses se mostravam bilingues ou falavam 
um pouco de castelhano. Escreviam em castelhano assim como em português, 
alguns sendo hoje considerados autores clássicos da literatura espanhola. Gil 
Vicente., o criador do teatro nacional, redigiu em castelhano cerca de um quarto 
das suas peças, e serviu-se de ambos os idiomas para um terço mais. Se 
fizéssemos um inventário semelhante para todos os outro grandes autores do 
tempo, incluindo Camões, concluiríamos que fracção significativa das suas obras 
preferiu o castelhano ao português. Como mais tarde o francês, o castelhano 
tornara-se idioma em moda (assim como língua internacional), parte obrigatória do 
curriculum de todos. Já atrás se viu (cf. Cap. IV) a importância da Espanha na 
evolução do sistema educacional português e o número de estudantes 
portugueses em universidades espanholas e de professores espanhóis em 
Portugal. 


As classes inferiores, claro está, mostravam-se muito menos afectadas por esta 
castelhanização, mas também entre elas se notava o impacto dos romances 
populares do país vizinho. Por todo o lado se recitavam baladas e epopeias, que 
faziam parte da vida quotidiana. Todavia, e como já veremos, um tal 
desfasamento no grau de castelhanização significou muito, quer na perda da 
independência, em 1580, quer na sua restauração, em 1640. 


Com tudo isto não queremos dizer que a Espanha se sentisse imune da influência 
portuguesa. Diversos autores espanhóis eram igualmente bilingues e escreviam 
em português. Numerosas traduções feitas durante todo o século xvi tomavam os 
escritores portugueses conhecidos do público espanhol - embora não na 


420 Apogeu e declínio 


sua língua de origem. E houve também rainhas portuguesas em Espanha, 
conquanto por pouco tempo, uma vez que, tanto a mulher de Carlos | como a de 
Filipe Il morreram novas. A sua presença nunca seria tão sentida como a das 
princesas castelhanas em Portugal. Contudo, a esposa do imperador, D. Isabel, 
terá ensinado português ao filho e falado com ele nessa língua durante a infância 
e começos da adolescência - facto de certo significado no conhecimento e 
interesse que Filipe Il mostrou em relação a Portugal. 


D. Sebastião A tenra idade de D. Sebastião tornou necessárias regências: 


sua avó D. Catarina governou de 1557 a 1562, seguindo-se-lhe seu tio-avô D. 
Henrique, cardeal-arcebispo de Lisboa e inquisidor-mor, de 1562 a 1568. Era a 
primeira vez que um padre governava directamente o País, facto que se repetiria 
depois até 1640; em setenta e oito anos, quarenta e um (52,6 %) corresponderam 
a governo de eclesiásticos. 


Tanto a regência como a maior parte do governo pessoal de D. Sebastião (1568- 


78), e como já os últimos anos do reinado de D. João Ill, foram épocas de 
estabilidade. Não houve alterações de estrutura, não se empreenderam reformas 
essenciais. A era de mudança e de expansão, tão característica da primeira 
metade do século, terminara. O que importava agora era conservar e fortalecer a 
ordem existente, defendê-la contra todos os perigos internos e externos. Isto 
explica por que motivo tão poucas inovações se registaram no período de 1550- 
1580. 


Grande parte da actividade legislativa de D. Catarina e do cardeal D. Henrique, 
que D. Sebastião continuou depois, vinha impregnada de espírito religioso e 
referia-se a assuntos eclesiásticos: criação de novos bispados, tanto na metrópole 
como no Ultramar; fortalecimento da Inquisição e sua expansão até à índia; 
ratificação e efectivação das decisões do concílio de Trento (Portugal foi o único 
país católico a não apresentar dúvidas sobre a sua aplicabilidade); novos 
estatutos conferidos às ordens religiosas-militares; e assim por diante. A única 
realização cultural importante, o estabelecimento da nova universidade de Évora 
(1559), teve um cheiro religioso similar: na verdade, a (O5<'Ola foi inteiramente 
colocada nas mãos dos Jesuítas, sendo 


União Ibérica 421 


clérigos os seus professores e a maioria dos estudantes futuros sacerdotes ou 
clérigos também. 


A defesa militar contou-se entre as grandes preocupações dos governantes 
nacionais. A pirataria francesa e inglesa infestava as águas portuguesas ou 
impedia a livre rota para a índia e para o Brasil. Ataques muçulmanos ameaçavam 
os baluartes de Marrocos. Fizeram-se tentativas, não somente de comboiar a 
marinha mercante com maior eficiência, mas também de fortificar a costa. 
Construiu-se grande número de fortalezas e repararam-se outras, tanto em 
Portugal como no Norte de África. Os regentes impetraram do Papa bulas que 
forçavam o clero a contribuir para a defesa. Era uma das vantagens em conceder 
à Igreja o poder supremo. 


Aos catorze anos de idade, D. Sebastião tomou conta do governo. Se não fora rei, 
teria porventura sido um zeloso e violento missionário. Enfermo no corpo e no 
espirito, importava-se pouco com o oficio da governação, perdido antes em 
sonhos de conquista e de expansão da Fé. Conquistar Marrocos era a sua 
ambição número um, mas outros projectos de imperialismo em terras pagãs 
preenchiam-lhe a imaginação. Ousado-até ao limites da loucura, o rei não 
concedia lugar ao planeamento cuidadoso, à estratégia ou à retirada, igualando 
tudo isso a medo ou cobardia. Desprezava os velhos e os prudentes, rodeando-se 
de um grupo de jovens aristocratas, quase tão loucos e pouco maduros como ele 
próprio. Não aceitava palavras de aviso nem encarava a realidade e a verdade 
como o eram. Só a adulação abria caminho para a sua intimidade. 


Nos primeiros anos de governo, Sebastião ainda permitiu que D. Catarina 


interviesse nos problemas da administração e da governação geral. Mas depressa 
passou por cima do seu conselho, caindo nas mãos dos favoritos ineptos e 
dedicando todas as energias à tarefa de construir um Império. A falta de dinheiro 
refreou-lhe as ambições por algum tempo. A Igreja foi buscar * maior parte dos 
fundos pretendidos, mas ainda assim tributou * povo com uns quantos impostos 
mais. Junto dos comerciantes estrangeiros contraiu um empréstimo de peso: só 
Konrad Rott de Augsburg lhe deu cerca de 400 000 cruzados ao juro de 8 %, 


422 Apogeu e declínio 


obtendo em troca o exclusivo da venda 6 pimenta durante três anos. 
Aproveitando-se das necessidades régias, os Cristãos-Novos «compraram» por 
240 000 cruzados uma bula papal que suspendia o confisco da propriedade 
aqueles que fossem presos pela Inquisição. 


Em 1574, D. Sebastião visitou Marrocos pela primeira vez: mas embora lá se 
demorasse uns três meses, não conseguiu dar combate à Mourama, como tanto 
desejava. De regresso a Portugal, preparou activamente nova expedição, tentando 
sem sucesso obter o auxílio de seu tio Filipe Il, a quem foi visitar em Guadalupe 
(1576). Depois, e como pretexto para intervir, prometeu ajuda ao ex-sultão da 
Berbéria, Mulay Mul(Dâmmad Al-Mutawakkil, que fora destronado (1575) por seu 
irmão Mulay “Abd al-Malik. O governador de Arzila - que os Portugueses tinham 
abandonado em 1550 -, partidário de Mulay Mui(Dâmmad, abriu as portas da 
cidade ao monarca português, de preferência a entregá-la ao novo 'sultão (1577). 
Isto foi julgado um sinal altamente favorável. 


Apesar de todas as pressas do rei, só no Verão de 1578 é que foi possível 
aprontar um exército invasor, e mesmo assim consideravelmente fraco e num 
estado desgraçado de indisciplina e desorganização. Além das forças 
portuguesas, havia corpos de mercenários alemães, espanhóis e italianos. 
Desembarcando em Arzila, o exército marchou para sul, sob o comando pessoal 
do rei, o que, em boa verdade, queria dizer sem comando algum. Perto de ElI- 
Ksar-el-Kebir (Alcácer Quibir), as forças portuguesas (15 500 infantes e 1500 
cavaleiros, além de algumas centenas mais de encarregados dos abastecimentos, 
criados, mulheres, escravos, etc.) com uns quantos partidários de Mulay 
Muhammad, foram completamente derrotados pelo exército do sultão Mulay 'Abd 
al-Malik (8000 infantes e 41000 cavaleiros, além das tropas irregulares) na batalha 
mais desastrosa da história portuguesa. D. Sebastião foi morto e com ele a nata 
da aristocracia e do exército do País (uns 7000). Os restantes foram feitos 
prisioneiros. Menos de cem pessoas conseguiram escapar. Calcula-se que a 
aventura custou ao todo mais de um milhão de cruzados, cerca de metade das 
receitas anuais do Estado. 


União Ibérica 423 


A morte de D. Sebastião abriu caminho à União Ibérica. D. Henrigs o cardeal D. 
Henrique subiu ao trono, com os seus sessenta e seis anos alquebrados em 


saúde e energia. Tornou-se patente que não iria muito longe. Vários candidatos se 
propuseram, assim, à herança da Coroa portuguesa. 


Todos eles faziam remontar as suas pretensões a D. Manuel |, visto não restarem 
herdeiros de D. João Ill. A descendência mas- culina de D. Manuel com sucessão 
reduzia-se a duas pessoas: o infante D. Luís, que nunca casara, mas que tivera 
um filho ilegítimo de nome António; e o infante D. Duarte, de cujo casamento 
nasceram duas filhas, Maria, casada com o futuro duque de Parma e governador 
dos Países Baixos, Alexandre Farnese, e Catarina, casada com o duque de 
Bragança, D. João. Maria falecera em 1577 mas deixara um filho menor, 
Ranuccio, futuro duque de Parma, herdeiro de Alexandre. As filhas de D. Manuel | 
produziram dois outros candidatos, Filipe II, rei de Espanha, e Manuel Filisberto, 
duque de Saboia. 


De um ponto de vista estritamente baseado no sangue, o herdeiro legitimo seria 
Ranuccio. Todavia, tratava-se de uma criança de nove anos, estando o seu pai, 
governador dos Países Baixos, na dependência directa de Filipe Il e sob suas 
ordens. Seguia-se D. Catarina de Bragança, a ameaça mais sérias às pretensões 
do rei de Espanha, pelo menos do ponto de vista teórico, visto estar casada com 
um português e poder assim preterir as demais. D. António, o prior do Crato, tinha 
a vantagem de ser o único filho varão dos filhos de D. Manuel. Quis provar quanto 
pôde que seu pai o legitimara, conseguindo convencer muitos portugueses. 
Gozava de certa popularidade entre o povo. Mas o candidato mais viável era 
evidentemente Filipe Il. Se lhe faltavam argumentos legais, possuía, no entanto, 
força e determinação bastantes para os suprir. Os seus embaixadores, enviados e 
espias, juntamente com subornos e ameaças militares, fizeram um excelente 
trabalho em convencer, ameaçar e comprar os elementos dirigentes da sociedade 
portuguesa. 


As duas grandes preocupações do cardeal D. Henrique foram remir os milhares de 
cativos aprisionados em Africa e nomear um sucessor legal que pudesse evitar ao 
Pais uma guerra civil. 


424 Apogeu e declínio, 


Se obteve bastante sucesso no primeiro objectivo, falhou por completo no 
segundo. Pressionado de três lados, odiando D. António, inclinando-se para D. 
Catarina mas receoso da força de Filipe Il, resolveu-se por fim a convocar cortes 
(1579-80), cooperando afinal bem pouco com elas na busca de uma solução, 
sempre hesitante e dando-se conta de que a nação se encontrava dividida sem 
remédio. Acabou por nomear cinco governadores para constituírem uma regência 
interina -o arcebispo de Lisboa e quatro nobres, dois deles com cargos 
governativos- e morreu tuberculoso em 31 de Janeiro de 1580, legando um 
problema de difícil solução. 


O Interregno. A maioria do povo estava com D. António, porque rejeitava 


D. AntóniO a ideia de um soberano espanhol e via no Prior do Crato o único 


candidato capaz de desafiar o poderio de Filipe Il. D. António gozava igualmente 
de certa popularidade. O duque de Bragança, embora fosse apoiado por muitos 
nobres e clérigos, actuou com enorme prudência, pouco desejoso de sacrificar 
uma casa opulenta aos acasos de um jogo político mais que duvidoso. Recordava 
porventura as desgraças de 1483 (v. Cap. IV) e não quis cometer o mesmo erro. 


Filipe Il beneficiava de grande número de factores: a sua força, antes de mais, 
difícil de combater por um país cujo exército fora tão completamente esmagado e 
cujo tesouro se achava inteiramente vazio; a sua fama de boa administração e de 
manutenção da paz interna, duas condições de que Portugal carecia em absoluto; 
as suas promessas de conservar a soberania plena da nação na forma de uma 
monarquia dual; e finalmente, last but not least, a sua hábil diplomacia e os seus 
argumentos monetários dentro de todos os círculos influentes portugueses, 
inteligentemente sugerindo, convencendo, ameaçando, prometendo e 
subornando. Nobreza e clero venderam-se porque se achavam geralmente 
desprovidos de fundos. Ao mesmo tempo, receavam motins populares chefiados 
por D. António, oportunista pouco recomendável e de moral e carácter dúbios, que 
tivera outrora questões com os dois monarcas, D. Sebastião e D. Henrique, 
chegando até a refugiar-se em Espanha, anos atrás. Por 


união Ibérica 425 


toda a Europa se iam registando reacções senhoriais e turbulências populares, 
relacionadas com a revolução dos preços e a pobreza crescente. Para a grande 
burguesia, também, a União Ibérica só traria um fortalecimento do sistema 
financeiro do Estado, e portanto uma protecção melhor e uma defesa mais 
eficiente fosse onde fosse. Significaria igualmente a abertura de novos mercados 
e a supressão das barreiras alfandegárias. 


Nestes termos, não levou muito tempo a Filipe Il obter o apoio do alto clero, da 
maior parte da nobreza, dos intelectuais e dos burocratas, e dos comerciantes. Até 
os duques de Bragança tiveram de se submeter e de aceitar a candidatura filipina. 
Paradoxalmente, foram as classes dirigentes espanholas quem parece ter 
demonstrado mais preocupações sobre uma união com Portugal. Receavam, para 
começar, um fortalecimento ainda maior do poder do rei em seu detrimento. 
Também os homens de negócios do pais vizinho meditaram sobre as 
consequências de uma concorrência súbita e ilimitada de portugueses em todo o 
Império Espanhol. 


Nos finais de Junho de 1580, o duque de Alba, o melhor e mais experimentado 
general espanhol do tempo, invadiu Portugal com um forte exército, enquanto a 
esquadra espanhola prosseguia ao longo da costa portuguesa. D. António fizera- 
se, no entretanto, aclamar rei em Lisboa, Santarém, Setúbal e outros lugares. Um 
passeio militar pôs os Espanhóis no Tejo em poucas semanas. O duque de Alba 
desembarcou em Cascais, derrotou em Alcântara, sem problemas, o improvisado 


exército de sete a oito mil homens que D. António conseguira juntar (25 de 
Agosto) e entrou na cidade no mesmo dia. O resto do País ficou pacificado em 
dois meses. O Prior do Crato, fugindo aos perseguidores, conseguiu escapar e 
internar-se em França, onde foi bem recebido e reconhecido como de iure rei de 
Portugal. Filipe entrou no País nos começos de Dezembro, estabeleceu residência 
em Lisboa por algum tempo (1581-83) e convocou cortes para Tomar (Abril de 
1581), onde foi solenemente jurado e aclamado rei de Portugal com o título de 
Filipe 1. 


D. António tentou continuar a luta com o auxílio da França e da Inglaterra. Foi nos 
Açores, destacados do vasto Império 


426 Apogeu e declínio 


Português (a ilha do Fogo, em Cabo Verde, também se revoltou contra o rei 
espanhol mas por pouco tempo e sem consequências), que a causa da 
independência se manteve. Desbaratada uma primeira tentativa de conquista 
espanhola (Abril de 1581), só dois anos mais tarde, em Agosto de 1583, é que a 
ilha Terceira, último baluarte de D. António, aceitou render-se a Filipe II. 

O Prior, fugindo uma vez mais para França, conseguiu ainda incitar ataques 
franceses e ingleses contra navios nacionais, o território continental português e 
as possessões ultramarinas. Em 1587, o famoso almirante Drake exibiu-se em 
frente de Lisboa. Em 1589, depois da derrota da «Invencível Armada», Dralce 
atacou de novo as costas da Península, saqueando a Corunha e Peniche e 
atacando Lisboa sem consequências. Todavia, Filipe Il senhoreava Portugal de tal 
maneira que não se registou qualquer levantamento popular a favor de D. António, 
como alguns esperavam. Quando este morreu, em 1595, deixou os Espanhóis 
soberanos indiscutíveis do País. 


filiPe H União Ibérica não quis dizer perda de identidade. É interessante verificar 
que Filipe Il repetiu, em relação a Portugal, o que seu avô D. Manuel fizera em 
relação a Espanha em 1499 (v. Cap, IV). Vinte e cinco capítulos assinados pelo rei 
nas cortes de Tomar garantiam ao País uma boa dose de autonomia, mau grado o 
facto de que a política externa passava a ser comum a Portugal e Espanha. A 
administração ficou inteiramente nas mãos dos Portugueses. Nenhum Espanhol 
podia ser nomeado para cargos de administração civil ou eclesiástica, justiça ou 
defesa. Vice-reis e governadores só poderiam ser espanhóis quando 
pertencessem à família real (filhos, irmãos ou sobrinhos). Inovações em matéria 
legal tinham de resultar de decisões tomadas em cortes, reunidas em Portugal e 
em que só Portugueses participassem. O Império Ultramarino continuava a ser 
governado exclusivamente por Portugueses de acordo com as leis e regulamentos 
existentes. A língua oficial permanecia o Português. A moeda continuava 
separada, bem como as receitas e as despesas públicas. O rei não poderia 
conceder terras nem rendas em Portugal a não ser a súbditos portugueses. Na 
casa real, não 


União Ibérica 427 


haveria discriminação contra os Portugueses. Como inovações vantajosas para o 
Pais, registavam-se a supressão de barreiras alfandegárias na fronteira, uma 
situação favorável em relação às exportações de trigo de Castela e a concessão 
imediata de um empréstimo de 300 000 cruzados para despesas urgentes do 
reino, parte deles pEtra a redenção de cativos em Marrocos. Os Portugueses 
ficavam também autorizados a viajar para e dentro do Império Espanhol. 


Para fins práticos de orientação e política geral administrativa, criava-se um 
Conselho de Portugal que trabalhasse com o rei e o acompanhasse por toda a 
parte. Compunham-no seis membros, sendo um eclesiástico e cinco burocratas, 
todos portugueses. 


Deixando Portugal para não voltar, em 1583, Filipe Il nomeou um governador para 
dirigir o País em seu nome. A escolha recaiu no arquiduque Alberto de Áustria, 
seu sobrinho favorito, um jovem atilado e respeitado de vinte e três anos, que vivia 
em Espanha desde 1570. Cardeal aos dezoito anos, foi feito depois legado do 
Papa (1583) e por fim inquisidor-mor de Portugal (1586). As normas específicas 
de governo do Pais, entregues pelo monarca ao novo governador, confirmavam e 
precisavam os artigos jurados em Tomar. O governador devia reunir-se com o 
Conselho de Estado todas as semanas e com três dos seus membros - espécie de 
ministério - cada dia. Regulavam-se cuidadosamente a administração da justiça, 
os assuntos de defesa, os negócios ultramarinos e as audiências a conceder ao 
povo. Tratou-se de assegurar um sistema de comunicações rápidas com Madrid, 
definindo-se os assuntos que requereriam atenção régia. 


Depois de mais de dez anos de descalabro governativo, de actos irresponsáveis e 
de impostos crescentes, estes padrões modelares de administração, que parecem 
ter sido suficientemente postos em prática, juntos à sábia decisão de manter a 
identidade do País, explicam grande número de coisas. Durante várias décadas, a 
nação aceitou menos mal a perda da independência. As várias tentativas do Prior 
do Crato de ganhar o trono depararam com uma indiferença geral ou com escasso 
apoio das populações. 


428 Apogeu e declínio 


Voltara a prosperidade, o tesouro mostrava-se de novo relativamente* equilibrado, 
o Império ia-se conservando sem perturbações. Se persistiam os agravos contra o 
Espanha e se se mantinha vivo o desejo de possuir um rei português, não há 
dúvida de que a excelente administração de Filipe Il (com poucas perseguições 
políticas) soube minorar o problema e resolvê-lo até por muito tempo. 

De 1582 à década de 1590 realizaram-se grande número de reformas 
administrativas, judiciais e financeiras, levadas a efeito pela burocracia portuguesa 
mas claramente inspiradas nos modelos espanhóis. Serviram para melhorar a 
burocracia e a governação, sendo recebidas com aplauso geral. Já menos 
popular, particularmente nas suas desastrosas consequências, foi a participação 


portuguesa na «Invencível Armada» contra a Inglaterra, a qual -partiu de Lisboa 
em 1588 (lembre-se, porém, que os Ingleses, chefiados por Drake, haviam 
ameaçado a segurança do País um ano antes): 31 dos 146 navios principais, 
incluindo vários dos galeões maiores, eram portugueses. A maior parte não 
regressou, o que infligiu sério golpe na marinha nacional. 


Em 1593, o cardeal- arquiduque Alberto foi chamado de volta a Madrid por Filipe 
Il. Não confiando suficientemente em ninguém para nomear governador de 
Portugal, o monarca preferiu recorrer a uma fórmula colectiva, escolhendo cinco 
governadores para constituir um conselho de regência, presidido pelo arcebispo 
de Lisboa, D. Miguel de Castro. Os outros quatro membros eram altos funcionários 
militares e administrativos. Até 1640, o governo de Portugal oscilaria entre a 
fórmula colectiva e a individual, consoante as circunstâncias, o grau de confiança 
dos nomeados e a necessidade de enfraquecer ou fortalecer a autoridade 
representativa. 


Filipe 111 O primeiro conselho de regentes durou até 1600. No entre- 


tanto, Filipe Il morrera (1598) e seu filho Filipe III (aclamado em Portugal como 
Filipe Il) ascendera ao trono. Fraco de espirito, totalmente desinteressado dos 
negócios do Estado, verdadeira antítese do pai, Filipe IIl nunca governou por si 
próprio, entregando o poder real nas mãos de favoritos. Em boa verdade, a 
delegação do poder na pessoa de um primeiro-ministro carac- 


União Ibérica 429 


terizou por toda a Europa os governos seiscentistas. A tarefa de governar ia-se 
tornando complexa demais e especializada de mais para a costumada preparação 
deficiente e fraca capacidade intelectual da maioria dos príncipes. Além disso, a 
pompa da corte e a etiqueta, acrescidas da ideologia absolutista, emprestavam ao 
rei um papel muito mais simbólico, confinando-o ao palácio, segregando-o do povo 
e dos seus problemas. Tudo isto não destrói o facto de que, tanto Filipe Ill como 
Filipe IV, que lhe sucedeu, se interessaram pouco ou nada pelos negócios do 
Estado. 


Em Madrid, o duque de Lerma, Francisco de Sandoval, inaugurou o seu reinado 
de vinte anos (1598-1618), seguido por seu filho, o duque de Uceda (1618-21). 
Interessado em substituir todos os conselheiros e influentes do reinado anterior, 
Lerma nomeou novo governador e vice-rei de Portugal um dos confidentes mais 
próximos e estadistas mais competentes de Filipe Il, Cristóvão de Moura, conde, 
depois marquês de Castelo Rodrigo, personalidade marcante na conquista de 
Portugal para a causa espanhola. D. Cristóvão de Moura governou por dois 
períodos (1600-03; 1608-12) e foi a melhor garantia da autonomia portuguesa, 
lutando pela manutenção dos privilégios concedidos por Filipe Il e duas vezes 
resignando devido aos poucos escrúpulos do primeiro-ministro em passar por 
cima deles. 


Na verdade, a política de Madrid tendia a centralizar a administração, reduzindo a 
pouco e pouco a autonomia das várias unidades políticas que formavam a 
monarquia espanhola: Portugal, assim como a Catalunha, Aragão, Navarra, etc. 
Era o resultado inevitável dos tempos difíceis que se começavam a anunciar para 
o grande estado ibérico. Despesas sempre crescentes exigiam um controle mais 
apertado do tesouro e uma administração mais rigorosa de toda a estrutura 
financeira. Em 1600, o rei enviava a Portugal unia comissão de três membros 
(todos castelhanos) com o fim de fiscalizar a Casa da Índia e as finanças em geral. 
Depois (1602), nomearam-se ministros castelhanos para o Conselho de Portugal e 
para o Conselho da Fazenda, em -festa violação dos capítulos de 1581. 


Estas medidas foram extremamente impopulares. A partir de 1611, aumentaram 
os impostos na forma de «empréstimos» 


430 Apogeu e declínio 


forçados, pagos pelos comerciantes e pela classe média em geral. 

O governo de Madrid ainda se tomou mais detestado ao aceitar dinheiro dos 
Cristãos-Novos e autorizá-los a sair livremente do País (1604-10). A fim de obter o 
apoio da aristocracia, Filipe Ill concedeu algum património da Coroa aos nobres 
poderosos, nomeadamente ao duque de Bragança. Também a assinatura de uma 
trégua de doze anos com a Holanda deu paz à nação e aos seus ameaçados 
territórios ultramarinos (v. Cap. VID, abrindo novas possibilidades de prosperidade 
económica com o franqueio dos portos ao comércio holandês (1609). Finalmente, 
para apaziguar os descontentes, o rei decidiu-se a visitar Portugal, onde passou 
alguns meses de 1619. 


A regência foi geralmente confiada ao clero, medida sábia para garantir o seu 
apoio: o bispo de Coimbra (1603-04), o bispo de Leiria (1605-08; 1612-14), o 
arcebispo de Braga (1614-15) e o arcebispo de Lisboa (1615-17) governaram o 
País na qualidade de vice-reis, contribuindo para uma união mais Intima entre a 
Igreja e o Estado. De 1617 a 1621 teve a regência um meio-castelhano, o duque 
de Francavila, Diego de Silva y Mendoza, apesar dos clamorosos protestos dos 
Portugueses. 


Em resumo, se Filipe Ill conseguiu ainda manter a situação equilibrada, é facto 
que a administração espanhola se foi tornando cada vez mais impopular em 
Portugal, difundindo-se por todas as classes um novo elemento de resistência: o 
chamado Sebastianismo. 


o Na sua forma dos fins do século xvi e dos começos do xvii, SebastianismO o 
Sebastianismo não passava da crença de que D. Sebastião 


não morrera em Alcácer Quibir e voltaria em breve para reclamar o trono que lhe 
pertencia. Pouca gente tinha contemplado o cadáver real e menos ainda havia 
sido capaz de o identificar com certeza. Parecia a todos tão monstruosa a derrota 
e morte do jovem monarca, sobretudo em relação com a perda da independência, 


que o boato generalizado de que D. Sebastião estava vivo encontrou crentes em 
inúmeras pessoas, principalmente entre as classes inferiores. Quanto às razões 
explicativas da sua demora em aparecer, as opiniões dividiam-se, circulando 


União Ibérica 431 


versões diversas: o rei estava preso, em Marrocos segundo uns, em Espanha 
segundo outros; o rei tinha vergonha da derrota e buscara refúgio num local 
obscuro; etc. Aproveitando-se desta crença, vários impostores, quer por seu livre 
alvedrio, quer no contexto de uma conspiração mais vasta, surgiram aqui e além, 
pretendendo ser D. Sebastião e vir salvar Portugal. Foi fácil às justiças 
desmascararem-nos (apesar de alguns tumultos e escaramuças) e executarem- 
nos sem demora no cadafalso. 


Longe de morrer, porém, o boato ganhou mais e mais verosimilhança, tornando-se 
singularmente complexo na sua formulação. Interpretavam-se agora como 
referindo-se a D. Sebastião e ao seu destino as profecias de um tal Bandarra, 
sapateiro que vivera no tempo de D. João Ill e que anunciara a vinda de um rei 
«encoberto», redentor da humanidade. É bom recordar que a época se mostrava 
fértil em profecias e na sua crença, com exemplos de tipo semelhante ocorridos na 
vizinha Espanha, na França, na Alemanha e noutros países. Em Portugal, 
contudo, o profetismo ganhou nova dimensão devido às circunstâncias 
particulares em que o País se achava. Judeus e Cristãos-Novos, por seu turno, 
valorizavam o Sebastianismo com o seu profundo conhecimento da Bíblia e o seu 
típico Messianismo hebraico, exacerbados pelas perseguições de que eram alvo. 
Passaram a associar-se Sebastianismo e crença no próximo «Quinto Império» 
bíblico. Nas décadas de 1620 e 1630, muita gente começou a identificar o 
escondido D. Sebastião com algum corpo mais visível, que não era outro senão o 
duque de Bragança, seu herdeiro legítimo. E a transferência do sonho para a 
realidade política acompanhou o advento de tempos difíceis e a necessidade de 
mudança radical. 

O Sebastianismo evoluiu assim para simples Patriotismo e os Sebastianistas 
identificaram, se com os opositores da União Ibérica. 


Filipe Ill morreu em 1621. Seu filho e sucessor Filipe IV, Filipe iv um adolescente 
de dezasseis anos, confiou o governo a Gaspar Felipe de Guzmán, conde (depois 
duque) de Olivares. Dando-se conta do declínio do poderio espanhol, o novo 
primeiro-ministro tentou um vasto plano de reformas, todas visando o fortaleci- 


432 Apog; Ou e declínio 


mento da posição do País no estrangeiro e uma maior centralização interna. 
Chegara ao fim a trégua de doze anos com a Holanda e nenhuma das partes 
tentou prolongá-la, os Holandeses porque esperavam prosseguir na sua expansão 
ultramarina à custa de Portugal e da Espanha, os Espanhóis porque 
ingenuamente acreditavam poder recuperar o perdido. De 1621 a 1630, os 


exércitos espanhóis combateram nos Países Baixos com algum sucesso; no mar, 


porém, os Holandeses eram senhores. A partir de 1630, o conflito generalizou-se 
a toda a Europa, no quadro da chamada Guerra dos Trinta Anos. A França alinhou 
forças contra a Espanha; e uma sucessão de desastres esmaltou o reinado de 
Filipe IV. 


No governo de Portugal, Olivares começou por modificar outra vez a delegação de 
poderes, substituindo o vice-rei por uma regência colectiva. O odiado duque de 
Francavila cedeu o lugar a três regentes, todos portugueses, presididos pelo bispo 
de Coimbra. Mais tarde, a morte reduziu esse número a dois e finalmente a um, 
mas o principio em si não sofreu alterações até 1633. 


Outras medidas tomadas por Olivares nos primeiros tempos de governo visavam 
corrigir abusos e evitá-los no futuro: todos os detentores de património da Coroa 
tiveram de submeter os seus títulos a confirmação régia; nomeou-se uma 
comissão para obter o pagamento das dívidas ao Estado; relacionaram-se as 
receitas segundo as fontes de que provinham; introduziu-se um novo sistema de 
subsídios parciais, pagos pelas comunidades mais ricas com vista a objectivos 
bem determinados; etc. Tais medidas, se não foram populares (como nunca o são 
as correcções de abusos) mostraram pelo menos um interesse genuíno por uma 
administração sã e honesta. Sob este prisma, Olivares foi muito menos de 
condenar do que Lerma; a diferença estava em que os compromissos da Espanha 
em todo o mundo se mostravam de tal forma desmesurados que a única maneira 
de os manter parecia ser um governo despótico, o que em última análise conduziu 
ao desastre total. 


No Ultramar, os Holandeses (e com eles os Ingleses também) começaram um 
ataque sistemático aos centros vitais do Império: Ormuz caiu em 1622; a Baía em 
1624; diversos baluar- 


União Ibérica 433 


tes em Ceilão em 1630; Olinda, o Recife e Mombaça neste mesmo ano; S. Jorge 
da Mina em 1637; Arguim em 1638. Outros ataques, que os Portugueses 
conseguiram repelir, visaram Macau, o arquipélago de Cabo Verde, Malaca e Goa. 
Não havia parte do Império que estivesse segura, e a necessidade de defesa 
obrigava a des pesas anormais com fortificações, frotas e armamento. Mas 
Portugal, mau grado as derrotas sofridas aqui e além, estava ainda muito longe de 
um colapso total. Também se registavam vitórias: a Baía, por exemplo, foi 
reconquistada em 1625; o cerco holandês a Malaca, desfeito em 1629; Olinda 
tornou-se novamente portuguesa em 1631; o mesmo sucedendo a Mombaça, em 
1634. 

O tratado de paz com a Inglaterra (1635) reduziu o inimigo a um só. 


Se estes desastres houvessem ocorrido sob um monarca português, as reacções 
teriam porventura sido diferentes, como o foram depois de restaurada a 
independência. Mas sendo a situação como era, os Portugueses deitavam todas 
as culpas para cima do governo espanhol, de quem esperavam obter defesa, 


protestando ao mesmo tempo contra o inevitável aumento de impostos e as 
necessárias reformas do exército que essa defesa exigia. Olivares repetidas vezes 
obrigou a Câmara de Lisboa a emprestar somas avultadas para fins defensivos. 
Todo o reino teve de contribuir em 1628, o que deu lugar a motins em diversas 
cidades. Os negociantes mais opulentos pagaram novo subsidio em 1631. Neste 
mesmo ano, Olivares decretou que todo o funcionário público tivesse de pagar ao 
tesouro, no momento da nomeação para o cargo, metade do seu salário anual, a 
chamada --anata. Pela mesma época, estabeleceu-se o monopólio do Estado 
sobre o sal. Três anos mais tarde, espalhava-se a todo o País um novo imposto (o 
real de cigua), já antes existente em Lisboa, enquanto a sisa era elevada de 25 %. 


As reformas militares procuravam unificar os exércitos locais das várias parcelas 
políticas da monarquia hispânica. Promulgado em 1626, este plano não foi então 
levado a cabo, devido à enorme resistência que por toda a parte encontrou. 
Olivares, porém. servindo-se de métodos subreptícios, tentou por diversas vezes 


efectivá-lo. Em 1638 e em 1639 fez-se o recrutamento de 
28 
434 Apogeu e declínio 


forças de cavalaria e infantaria até limites nunca antes atingidos. Pagas com 
dinheiro português, estas tropas destinavam-se a combater algures na Europa, 
onde os Portugueses pensavam não ter quaisquer interesses. Foram igualmente 
chamados a Madrid grande número de nobres e de clérigos, ostensivamente para 
discutir uma nova reforma administrativa. É de supor que o intuito de Olivares 
estivesse em privar Portugal de chefes qualificados que pudessem tomar parte em 
uma eventual rebelião. 


Por fim, e para aumentar o descontentamento, os Cristãos-Novos receberam nova 
oportunidade de dispor livremente dos seus bens e de deixar o Pais, desde que 
pagassem ao tesouro a enorme soma de 1500 000 cruzados. 


As modificações introduzidas na regência reflectiram bem os problemas com que 
se debatia Olivares e a sua maneira autoritária de lidar com eles. Uma vez mais 
vieram vice-reis para Portugal: o arcebispo de Lisboa (1633), o conde de Basto 
(1633- 

34), ambos portugueses e pouco dispostos a apoiar o primeiro-ministro em todos 
os seus actos, e por fim a duquesa viúva de Mântua, Margarida de Saboia, neta 
de Filipe Il e prima de Filipe IV. Em contacto directo com os Portugueses, todos se 
deram conta dos perigos em que Olivares incorria ao forçar a 


centralização, e quão depressa unia insurreição poderia acontecer. 
Bibliografia-Do ponto de vista biográfico e puramente político, os melhores 


trabalhos sobre o período de 1557-80 foram escritos por J. M. Queirós Veloso: D. 
Sebastião, la edição, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1945; O Reinado 


do Cardeal D. Henrique, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1946; e O 
Interregno dos Governadores e o breve reinado de D. António, Lisboa, Academia 
Portuguesa da História, 1954. Sobre D. António, veja-se também Joaquim 
Veríssimo Serrão, O Reinado de D. António, Prior do Crato, vol. |, Coimbra, 1956. 


A partir de 1580, cessam as boas monografias, a não ser para o período de 1583- 
93: Francisco Caeiro, O Arquiduque Alberto de Áustria, Lisboa,'1961. O resumo 
intitulado «A Dominação Filipina», da autoria de J.M. Queirós Veloso e Damião 
Peres, inserto na História de Portugal dirigida pelo último, vol. V, Porto, 
Portucalense Editora, 1933, mostra-se hoje ultrapassado e incompleto. Devem 
consultar-se os trabalhos espanhóis (embora dêem pouco relevo aos assuntos 
portugueses), sobretudo acerca das políticas de Lerma e de Olivares (por 
exemplo, Gregorio Marafi(5n, El 


União Ibérica 435 


Conde-Duque de Olivares. La pasión de mandar, Madrid, 1945). A Historia de 
Espafw, dirigida por Ramón, Menénde 'z Pídal, vol. XIX, tomos 1 e 2, Madrid, 
Espasa, 1958, revela-se particularmente útil. 


Sobre os fundos económico e social, veja-se em especial Vitorino Magalhães 
Godinho, numa série de artigos reimpressos nos seus Ensaios, vol. Il, Lisboa, Sã 
da Costa, 1968. Os aspectos culturais podem estudar-se utilizando a obra de 
Antônio José Saraiva, já tantas vezes mencionada (História da Cultura em 
Portugal, vols. Il e III), ou as várias histórias gerais das literaturas portuguesa e 
espanhola. 


3 -A Restauração e suas consequências 


Parece não haver dúvida de que a ideia de nacionalidade esteve por trás da 
restauração da independência plena de Portugal após sessenta anos de 
monarquia dualista. Cinco séculos de governo próprio haviam evidentemente 
forjado uma nação, fortalecendo-a até ao ponto de rejeitar qualquer espécie de 
união com o país vizinho. Para mais, a independência definira-se sempre como 
um desafio a Castela e uma vontade de não ser confundido com Castela. Entre os 
dois estados foram sucessivas e acerbas as guerras, as únicas que Portugal 
realmente travou na Europa. Além disso, e ao contrário do que sucedera na união 
com Aragão, Castela adquirira Portugal por meio de conquista. Para a maioria dos 
Portugueses, e sobretudo para as massas populares, os monarcas habsburgos 
não eram mais que usurpadores, os Espanhóis, inimigos, e os seus partidários, 
traidores puros e simples. Neste sentido seria possível dizer que, em 1580, as 
classes dirigentes, longe de interpretarem os desejos do povo, o haviam traído e 
abandonado. 


Contudo, nacionalidade não implica necessariamente independência. A história 
está cheia de exemplos de nações vigorosas, incapazes todavia de formarem 
unidades políticas. Dentro da Península Ibérica, o caso da Coroa de Aragão é 


certamente o mais impressionante. Em 1516, quando Castela e Aragão se 
acabaram por unir de vez, a individualidade aragonesa podia comparar-se à 
portuguesa. Também aí se sentiam e ressentiam os esforços graduais ou as 
tendências de castelhanização. É ver- 


culturais 
A Restauração e suas consequências 437 


dade que a Coroa de Aragão não constituía uma nação homogénea em si (como 
Portugal o era, e havia muito) mas antes uma monarquia dual e até tríplice, com 
Aragão propriamente dito, Catalunha e Valência, o que tornava mais difícil um 
agrupamento unânime de forças. É igualmente certo que a Coroa de Aragão não 
viveu separadamente esse período decisivo para o surto das nacionalidades e seu 
robustecimento cultural que foi a maior parte do século xvi. Não obstante, a 
restauração da independência portuguesa, se justificada pelo seu enquadramento 
nacional, carece de ser explicada por grande número de outros elementos. 


Avançara depressa, entre 1580 e 1640, a castelhanização cultural do País. 
Autores e artistas portugueses gravitavam nas órbitas -de Madrid ou Valladolid 
(onde quer que a corte estivesse), fixavam residência em Espanha, aceitavam 
padrões espanhóis e escreviam cada vez mais na língua de Cervantes. Pela élite 
culta de ambos os países, o Português era tido por rústico e reles, bom para o 
mercado mas não para as expressões elevadas da poesia ou da história. Alguns 
dos melhores valores que Portugal tinha para oferecer ao mundo das artes e das 
letras contribuíram para a riqueza do teatro espanhol, da música espanhola ou da 
arte pictórica espanhola, dando hoje a impressão errónea de uma decadência da 
sua cultura a partir de 0580. A maioria das obras literárias impressas em Portugal 
durante esses sessenta anos foram-no em castelhano; alguns autores espanhóis 
houve que tiveram em Portugal as primeiras edições dos seus trabalhos. E assim 
por diante. Os três Filipes e uns quantos dos governadores por eles nomeados 
levaram do País (sobretudo de Lisboa) numerosas obras de arte e de literatura, 
que transferiram para os seus palácios de Madrid ou algures em Espanha. A falta 
de uma corte régia prejudicou a expansão cultural dentro das fronteiras nacionais, 
desencorajou o florescimento de talentos, localizou e ruralizou a cultura, 
confinando-a a pequenos núcleos em redor de alguns bispos e nobres mais 
abastados. Apesar de todo o seu esplendor, a corte dos duques de Bragança, 
situada numa «aldeia» (Vila Viçosa), jamais pôde 


438 Apogeu e declínio 


competir com as cortes de um D. Manuel, um D. João Ill ou até um D. Sebastião, 
já sem falar das dos soberanos espanhóis. 


A perda de uma individualidade cultural era sentida por muitos portugueses, 
resultando em reacções diversas a favor da língua pátria e da sua expressão em 
termos de prosa e poesia. Francisco Rodrigues Lobo (1579-1622) e Frei Luís de 


Sousa (1555-1632), dois dos maiores autores do período, mostraram bem essa 
atitude. Contudo, os intelectuais que assim reagiam sabiam perfeitamente que os 
seus esforços seriam vãos sem a recuperação da independência política. 


Razões Do ponto de vista económico, a situação piorara desde a 


década de 1620 ou até antes. Muitas das razões que haviam justificado a união) 
das duas coroas ficaram ultrapassadas com a marcha da conjuntura económica. 
Todo o Império Português atravessava uma séria crise com a irrupção vitoriosa de 
Holandeses e Ingleses. A Rota do Cabo, eixo da estrutura económica, deixara de 
constituir a fonte principal da prosperidade e das receitas. O tráfico português 
entre Lisboa e a Índia reduzira-se a menos de um terço desde 1580: especiarias 
asiáticas, ouro africano e muitos outros produtos chegavam agora à Europa 
também a bordo dos navios holandeses e ingleses. Portugal perdera o monopólio 
comercial, resultando daí que todos - a Coroa, a nobreza, o clero e a burguesia - 
haviam sofrido no montante das receitas. Até o tráfico atlântico, isto é, o que se 
baseava nos escravos, no açúcar e no tabaco, declinara com os sucessivos 
ataques de estrangeiros ao Brasil, às índias Ocidentais, à costa ocidental africana 
e às rotas da navegação. 


O Império Espanhol atravessava uma crise económica semelhante, motivada pelo 
decréscimo na produção argêntea americana a partir de 1620. Dado que a 
Espanha ia chegando cada vez menos prata, o papel crucial de Sevilha nas 
transacções portuguesas declinou também. Além disso, os Espanhóis começavam 
a reagir fortemente contra a penetração portuguesa no seu Império. Milhares de 
portugueses idos directamente de Portugal ou do Brasil haviam-se estabelecido a 
pouco e pouco no México, no Peru e em La Plata. Mercadores e capitais de 
Portugal adquiriram relevância económica que não era para desprezar. Nas 


A Restauração e suas consequências 
439 


décadas de 1620 e 1630, tanto os colonos espanhóis como a Inquisição 
começaram a perseguir os Portugueses, a coberto de Judaísmo e de outros 
pretextos. Por volta de 1635, a comunidade portuguesa no Peru fora praticamente 
aniquilada. Esta reacção suscitou grande animosidade nacionalista tanto em 
Portugal como em Espanha, aprofundando o fosso já cavado entre os dois países. 


Mesmo em Portugal, a situação económica estava longe de brilhante. Os 
produtores sofriam com a queda dos preços do trigo, do azeite e do carvão, só 
para dar alguns exemplos. A crise afectava as classes baixas, cuja pobreza 
aumentou sem disfarces, como aliás em muitos outros países da Europa. O 
aumento de impostos tornava a situação ainda pior. Para explicar os tempos 
difíceis e apaziguar o descontentamento geral, a solução apresentava-se fácil e 
óbvia: a Espanha, causa de todos os males. 


Por toda a Europa eclodiam motins populares. Na Espanha revoltou-se a Biscaia 
contra o monopólio estatal do sal (1631); em Portugal, as massas levantaram-se 
em Évora e no Algarve (1637), com repercussões em outros lugares. Embora não 
fosse difícil às autoridades pôr cobro a distúrbios como estes, eles serviam para 
demonstrar às classes superiores que, todo o País as apoiaria se iniciassem um 
movimento mais amplo contra o governo espanhol. 


Em Junho de 1640, foi a vez de a Catalunha se revoltar. Tratava-se agora de um 
movimento nacionalista catalão em que participavam todos os grupos sociais e 
que custou ao governo de Madrid doze anos para esmagar. É de toda a justiça 
afirmar que, sem a rebelião da Catalunha, as probabilidades de Portugal recuperar 
a independência teriam sido mínimas. 


O outro aliado de Portugal fo! a França, mais do que interessada em enfraquecer 
a Espanha a todo o custo. Na década de 1630, vieram a Portugal agentes 
secretos franceses sondar a 


opinião pública e incitar a tendências revolucionárias, tanto entre as camadas 
superiores como entre as mais baixas. Em 1633, um antigo cônsul francês em 
Portugal, Saint-Pé, foi incumbido pelo seu governo de prometer ajuda material aos 
Portugueses 


Rebeliões Populares 
PreparativoO do Movimel 
440 Apogeu e declínio 


em caso de revolta contra o domínio espanhol. No fim desse mesmo ano, 
começou a ser organizada uma conspiração por parte da nobreza. O seu chefe 
natural devia ser, como é óbvio, o duque de Bragança, D. João. Mas as suas 
evasivas e atitudes de prudência desencorajaram os conspiradores, que 
chegaram mesmo a pensar num futuro sistema de governo «republicano», à 
maneira da Holanda. Tomando uma decisão ousada, o conde-duque de Olivares, 
bem cônscio do perigo potencial do duque de Bragança, nomeou-o governador 
militar de Portugal (1639), com o encargo de recrutar as forças que haviam de 
seguir para a guerra europeia. Desta maneira, contava Olivares destruir ou 
neutralizar o prestígio do duque, tornando-o impopular junto dos Portugueses. 
Mais tarde, planeou mandar tropas portuguesas contra os rebeldes catalães e 
obrigar D. João a acompanhar o rei numa visita à Catalunha. 


1 Revolução e Em Novembro de 1640, a conspiração dos aristocratas **conua 
imbtificaçãO seguira finalmente o apoio formal do duque de Bragança. Na 


jurídica manhã do primeiro de Dezembro, um grupo de nobres atacou 


o palácio real de Lisboa e prendeu a duquesa de Mântua. D. João foi aclamado 


como D. João IV, entrando em Lisboa alguns dias mais tarde. Por quase todo o 
Portugal metropolitano e ultramarino as notícias da mudança do regime e do novo 
juramento de fidelidade ao Bragança foram bem recebidas e obedecidas sem 
qualquer dúvida. Apenas Ceuta permaneceu fiel à causa de Filipe IV. 


Proclamar a separação fora assim coisa relativamente fácil, Mais difícil seria agora 
conseguir mantê-la, o que custou vinte e oito anos de luta e provou ser tarefa 
muito mais árdua. 


Do ponto de vista teórico, tornava-se necessário justificar a secessão, mostrar a 
todos que o novo monarca, longe de figurar como usurpador, reavera 
simplesmente aquilo que por direito legítimo lhe pertencia. Abundante bibliografia 
produzida em Portugal e fora dele a partir de 1640 procurou demonstrar os direitos 
reais do duque de Bragança. Um dos argumentos básicos assentava nas decisões 
das chamadas cortes de Lamego, havidas em 1143: segundo as suas actas 
(simples invenção, forjada no mosteiro de Alcobaça, provavelmente no segundo 
quartel do sé- 


A Restauração e suas consequências 441 


culo xvii com objectivos patrióticos e publicada em 1632) as mulheres não 
poderiam herdar a coroa nem transmitir direitos sucessórios a menos que 
tivessem casado com nobres portugueses. Esta cláusula automaticamente exclufa 
Filipe Il, assim como Manuel Filisberto e Ranuccio, deixando apenas D. Catarina 
(casada com o duque de Bragança) por herdeira única. Consequentemente, todos 
os reis espanhóis haviam sido usurpadores e o movimento de 1640 limitava-se a 
restituir Q. trono ao seu legítimo senhor. Consequentemente também, o trono 
jamais estivera vago de direito, tanto em 1580 como em 1640, não havendo 
portanto razões para qualquer tipo de «eleição» em cortes. A solução do problema 
desta maneira roubava ao povo a importância que ele porventura teria, fosse o 
trono declarado vacante. Nada se modificava assim nas instituições, ficando a 
aristocracia em controle firme da situação e inteiramente justificada na sua atitude 
revolucionária. 


As cortes foram, na realidade, convocadas em 1641 e depois, três vezes mais 
durante o reinado de D. João IV. Mas o seu papel mostrou-se bem mais simbólico 
do que real e a sua reunião não implicou mudanças claras no governo. É verdade 
que definiram uma doutrina oficial, a de que o poder derivava de Deus para o 
povo, que depois o transferia para o rei. Contudo, esta doutrina foi antes 
formulada para definir tirania (isto é, quando o rei governa sem atender à justiça, 
aos usos e costumes do reino, ao direito natural e à tradição) e para acusar os 
monarcas espanhóis de haverem violado o pacto com o povo, o que trazia novo 
argumento para legitimar a rebelião dos Portugueses. 


Outras decisões das cortes de 1641 confirmaram a política jurada por Filipe Il em 
Tomar sessenta anos atrás, sobretudo em que não haveria novos impostos sem 
consentimento de cortes. O rei comprometia-se igualmente a reunir o povo sempre 


que assuntos graves pudessem fazer perigar a existência da nação. 
Tal como em 1580, os Portugueses de 1640 estavam longe de Apoio ao 
unidos. Se as classes inferiores conservavam intacta a fé nacio- novo regir 


nalista e aderiram a D. João IV sem sombra de dúvida, já a nobreza, muitas vezes 
com laços familiares em Espanha, hesi- 


442 Apogeu e declínio 


tou e só parte dela (de onde havia provindo o núcleo revolucionário) alinhou 
firmemente com o duque de Bragança. Muitos nobres conservaram-se em posição 
dúbia, outros esperaram algum tempo até se decidirem, outros ainda continuaram 
a servir Filipe IV, sendo recompensados com títulos e dignidades (três nobres 
portugueses foram governadores dos Países Baixos e um foi vice-rei da Sicília 
depois de 1640). 


A maior parte dos burocratas apoiaram D. João IV, tornando-se seus secretários e 
propagandistas. Todavia, alguns escolheram a causa de Espanha e alinharam 
como conspiradores contra o novo regime. Quanto aos burgueses, a grande 
maioria não participou no movimento separatista e foi apanhada de surpresa. A 
sua atitude depois de 1640 mostrou-se, geralmente, de expectativa neutral. Muitos 
mercadores e capitalistas estavam metidos em negócios em Espanha, possuindo 
aí, ou no Império Espanhol, boa parte dos seus bens. Outro grupo, porém, com 
um núcleo importante de cristãos-novos e conexões de relevo fora da Península 
Ibérica -na Holanda e na Alemanha sobretudo- apoiou a revolução e ajudou a 
financiá-la. É que os negócios deste grupo dependiam muito mais do tráfico 
atlântico (Brasil) e do tráfico com a Europa Ocidental e Setentrional. 


Também o clero se achava dividido. Curas locais e monges humildes parece 
terem apoiado o duque de Bragança. Dentro das altas jerarquias já o panorama se 
apresentava muito diferente. Os bispos estavam irremediavelmente divididos 
quanto às suas tendências políticas. Os Jesuítas deram o seu apoio a D. João IV, 
factor de primária importância, tanto para a causa nacional como para os seus 
futuros prestígio e poder. As outras ordens mostravam-se menos seguras. E a 
Inquisição, essa manteve-se favorável a Espanha, posição compreensível se nos 
lembrarmos de que fora a Inquisição quem praticamente governara Portugal 
durante a União Ibérica. D. João IV adoptou uma política extremamente cautelosa 
com respeito ao Santo Oficio, bem consciente da sua importância política e 
religiosa mas bem ciente da sua pouca confiança. É verdade que a Inquisição, 
mais do que outra coisa, tinha os seus interesses próprios como estado dentro do 
Estado, interesses que se afastavam, tanto dos de 


A Restauração e suas consequências 443 


D. João IV como dos de Filipe IV. Tudo isto torna difícil avaliar correctamente o 


papel desempenhado pelo Santo Ofício a partir de 1640 e as suas dúbias relações 
com a Coroa portuguesa. 


Em resumo, o novo monarca português não gozava por certo Joio IV de uma 
posição invejável. Todo o seu reinado (1640-56) foi uma sucessão de desastres 
para o Império, uma série de desaires na diplomacia europeia e uma situação 
pouco próspera na economia interna, só compensados por meia dúzia de triunfos 
militares em Portugal que impediram uma invasão espanhola em larga escala. 


A política externa portuguesa visava fazer a paz com a Holanda tão depressa 
quanto possível e conseguir apoio militar e diplomático dos inimigos da Espanha. 
Mas paz imediata com a Holanda significaria para os Holandeses renunciar à sua 
política de conquista na Ásia e no Atlântico. Mau grado os hábeis esforços da 
diplomacia da Restauração e todas as suas promessas de compensação 
económica, as Províncias Unidas foram demorando a assinatura de qualquer 
tratado de paz até 1661. No entretanto, Portugal fora expulso da maioria das 
possessões que ainda lhe restavam no oceano Indico: Malaca caiu (1641), e a 
seguir o Ceilão (1644; 1656), Coulão (1658), Negapatão (1660), ete. Ao mesmo 
tempo os Árabes, ajudados pelos Ingleses e Holandeses, expeliam os 
Portugueses da Arábia e do golfo Pérsico (1650). 


No Atlântico, a situação começou por ser igualmente desastrosa para as armas 
portuguesas, com a perda de parte de Angola e de S. Tomé (1641). Contudo, foi 
possível aí uma contra-ofensiva, graças a conflitos de tipo económico e político na 
própria holanda, e sobretudo à atitude tomada pelos colonos portugueses do 
Brasil: a rebelião contra os Holandeses iniciara-se aqui por 1644, terminando em 
vitória completa para Portugal dez anos depois. Angola e S. Tomé puderam assim 
ser recobrados em 1648. 


Paradoxalmente, levava-se a efeito desde a Restauração um tráfico económico 
regular entre Portugueses e Holandeses em águas europeias, com poucas 
interrupções. 


A Inglaterra apresentava menos perigo devido às suas dissensões internas. A 
vitória de Cromwell, todavia, levou o go- 


444 Apogeu e declínio 


verno português a assumir unia defesa quixotesca dos realistas. Entre 1650 e 
1654 houve guerra aberta entre os dois países. Os navios britânicos não tiveram 
dificuldade em demonstrar a sua superioridade total, com o resultado de “que 
Portugal teve de assinar um tratado de paz que abria o Império ao tráfico inglês. A 
Restauração inglesa de 1660 limitou-se a confirmar este estado de coisas 
casando Carlos Il com a princesa D. Catarina (filha de D. João IV) e obtendo a 
cedência, em dote, de Bombaim e Tânger. 


O auxílio francês revelou-se sobretudo verbal e, apesar de todos os seus esforços, 


os diplomatas portugueses nem sequer conseguiram ser aceites nas negociações 
de 1648 que puseram fim à Guerra dos Trinta Anos. Ajuda militar, tanto na forma 
de contingentes mercenários como na de armas e abastecimentos, foi antes 
recebida da Europa Setentrional, por exemplo da Suécia. 


Outro fracasso respeitou a Roma. A Santa Sé recusou-se terminantemente a 
reconhecer a secessão de Portugal e negou todas as súplicas de confirmação de 
bispos para as dioceses que iam vagando. Em 1668, quando por fim se alcançou 
a paz, vinte das vinte e oito dioceses de Portugal e seu Império achavam-se. sem 
prelado legal. 


Dentro do País, a estabilidade do regime dependeu, antes de mais, do 
aniquilamento de toda a dissensão a favor da Espanha. Em Julho de 1641 foi 
descoberta uma conspiração contra o rei, onde participavam algumas das 
melhores famílias da aristocracia: entre outros, um duque, um marquês e três 
condes. Também intervieram na conspiração membros da burguesia, da alta 
burocracia e do alto clero, incluindo um arcebispo, dois bispos e o próprio 
inquisidor-mor. Registaram-se outras conspirações, me- 


nos ameaçadoras talvez, mas ainda assim reveladoras de certo descontentamento 
contra o novo regime. E não se esqueçam aqueles que fugiram para Espanha ou 
calmamente abandonaram o País, principalmente aristocratas de níveis elevados. 


A política económica de D. João IV visou obter dinheiro de qualquer maneira, 
principalmente para prover à defesa efectiva. As cortes votaram subsídios mas o 
governo, actuando com prudência, tentou o mais que pôde não aumentar os 
impostos. Obti- 


A Restauração e suas consequências 445 


veram-se somas avultadas dos mercadores a quem, em troca, se concediam 
privilégios. Os Cristãos-Novos beneficiaram da situação anormal do reino. Tanto 
em Portugal como fora dele (Holanda, Alemanha, etc.), capitais judaicos 
auxiliaram a causa da independência e auxiliaram-se a si mesmos em operações 
rendosas. Empréstimos conseguidos de companhias judaicas permitiram comprar 
navios, munições e soldados para a defesa. De 1649 a 1659 ficou imune a 
propriedade dos Cristãos-Novos sentenciados pela Inquisição. Além disso, foi 
transferida da Inquisição para o Estado a administração dos bens já confiscados. 
O desenvolvimento do comércio com a Europa Norte e com o Brasil, um dos 
principais objectivos do governo joanino como contrapartida do anterior pan- 
iberismo, económico, favoreceu numerosos mercadores, levando-os a apoiarem a 
causa da independência. 


A guerra da Restauração mobilizou todos os esforços que A Guerra Portugal podia 
dispender e absorveu enormes somas de dinheiro. Pior do que isso, impediu o 
governo de conceder ajuda às frequentemente atacadas possessões ultramarinas. 
Mas se o cerne do Império, pelo menos na Ásia, teve de ser sacrificado, salvou 


pelo menos a metrópole de uma ocupação pelas forças espanholas. 


Portugal não dispunha de um exército moderno, as suas fortificações eram 
escassas -sobretudo na fronteara terrestre-, as suas coudelarias haviam sido 
extintas, os seus melhores generais lutavam pela Espanha algures na Europa. Do 
lado português, tudo isto explica por que motivo a guerra se limitou em geral a 
operações fronteiriças de pouca envergadura, baseadas no ataque a aldeias 
desprotegidas, à captura de gado e vitualhas, à queima de searas ou ao corte de 
árvores. Do lado espanhol, é preciso lembrar que a Guerra dos Trinta Anos 
(prolongada em Espanha até 1659) e a questão da Catalunha (até 1652) 
demoraram quaisquer ofensivas de vulto. A rebelião do duque de Medina Sidónia 
que, em 1641, tentou separar a Andaluzia da Espanha, arredou ainda outras 
tropas da fronteira portuguesa. 

O duque era cunhado de D. João IV e agia em coordenação com os Portugueses. 


446 

Apogeu e declínio 
Formas do governo 
joanino 

Afonso VI. A Regência 


Algumas batalhas de campo deram a vitória aos exércitos nacionais (Montijo, 
1644; Linhas de Elvas, 1659), mas, regra geral, a guerra teve os seus altos e 
baixos para os dois contendores. Os Espanhóis actuavam normalmente como 
invasores e os Portugueses como defensores. 


D. João IV morreu em 1656. O seu governo fora marcado por prudência e por uma 
série de medidas acertadas na administração. O monarca absteve-se (ou foi 
impedido) de absolutismos extremes, preferindo partilhar a tarefa governativa com 
um certo número de conselhos e tribunais, cujos membros nomeava mas cujas 
decisões só muito em geral guiava e superintendia. O poder foi, assim, transferido 
directamente para as mãos da nobreza e da alta burocracia, onde se recrutavam 
os membros dos conselhos. O governo joanino, era mais ou menos dirigido pelo 
Secretário de Estado ou por algum favorito do rei. O monarca mostrou tento em 
conservar os seus ministros durante longos períodos, assegurando a estabilidade 
e a continuidade. 


Não ocorreram mudanças essenciais entre 1656 e 1662. 

O novo rei, Afonso VI, menor de idade, era física e mentalmente incapaz de 
governar. A regência que, personalizada na rainha-mãe D. Luísa de Gusmão, 
deveria ter acabado em 1657, foi-se prolongando indefinidamente. Esta situação 
favorecia os nobres 

- sobretudo um grupo conservador de nobres - que aumentaram o seu poder 


consideravelmente. 


Uma série de desastres e fracassos caracterizaram os anos da Regência. Em 
1657, os Holandeses atacaram Portugal metropolitano e bloquearam Lisboa 
durante três meses. Em 1659, Portugal não conseguiu, uma vez mais, ser aceite à 
mesa das negociações que conduziram ao tratado dos Pirinéus entre a Espanha, 
o Império e a França. O resultado deste fracasso foi a assinatura do tratado com a 
Holanda, em 1661, e o casamento da princesa D. Catarina com Carlos Il de 
Inglaterra, que ambos traduziram a subserviência dos interesses nacionais aos 
das outras duas potências a fim de se conseguir paz e alianças. 


Fig. 48 -Guerra da Restauração: principais combates 
448 Apogeu e declínio 


Castelo Começaram então as grandes ofensivas espanholas que iriam Melhor 
durar de 1661 a 1665. Toda esta situação trouxe consigo uma 

crescente oposição à rainha-regente e à sua clique governativa: em 1662, um 
golpe de estado palaciano transferiu o poder pessoal para o rei e instalou no 
governo um pequeno grupo de nobres mais jovens e ambiciosos. Aos conselhos e 
tribunais foi imposto um governo de ministério. Um dos principais conspiradores, o 
conde de Castelo Melhor (D. Luís de Vasconcelos e Sousa), tornou-se primeiro- 
Ministro com o título renascido de escrivão da puridade, enquanto D. António de 
Sousa de Macedo, um hábil diplomata, tomava conta da secretaria de estado. O 
tratado com a Holanda ficou praticamente suspenso por alguns anos. No País, 
renovado esforço militar, melhor chefia e governo mais eficiente implicaram uma 
série de vitórias para as armas portuguesas. Técnicos militares franceses e 
alemães desempenharam papel de relevo na reorganização das forças nacionais. 
Vieram também avultados contingentes de mercenários estrangeiros. Para mais, a 
Espanha mostrava-se fatigada de guerras e praticamente esgotada, enquanto 
Portugal lutava pela sua sobrevivência como nação. Cada uma das ofensivas 
espanholas foi sustida. A batalha decisiva de Montes Claros (1665) pôs termo à 
guerra para todos os efeitos práticos. 


A fim de assegurar a sucessão ao trono e, portanto, neutralizar os seus inimigos 
(que desejavam substituir o rei pelo irmão D. Pedro), Castelo Melhor fez casar 
Afonso VI com uma princesa francesa, Maria Francisca de Nemours, mais 
conhecida por mademoiselle d'Aumale (1666). Ao mesmo tempo, e para obter um 
bom aliado nas negociações a entabular com a Espanha -a Inglaterra, que servia 
de medianeira, desejava um acordo rápido a todo o custo -, Castelo Melhor 
assinou um tratado de aliança com a França (1667). Contudo, foi este conjunto de 
circunstâncias que acarretou a sua perda. Para começar, o pobre D. Afonso VI 
mostrou-se incapaz de se comportar como marido, originando-se um flirt amoroso 
entre a nova rainha e o príncipe D. Pedro. Depois, o partido que defendia a paz 
imediata - não 


esqueçamos que a guerra durava desde 1640 -, de acordo com a diplomacia 
britânica, intrigou o mais que pôde contra o conde 


A Restauração e suas consequências 449 


de Castelo Melhor. Paradoxalmente a França, que não contava muito com a 
aliança portuguesa, preferiu a saída de Sousa de Macedo, amigo dos Ingleses. 
Nos bastidores, manobravam os nobres, visando a restauração dos seus plenos 
poderes. D. Afonso VI não ajudava à situação, rodeando-se da escória da 
sociedade, em correrias nocturnas pelas ruas e comportando-se como um 


autêntico salteador e até assassino. 


Nestes termos, um golpe de estado dirigido pelo infante Queda de D. Pedro em 
Setembro de 1667 levou à demissão de Castelo Me- Castelo Melhor e dos seus 
partidários e, por fim, ao aprisionamento do próprio rei. D. Pedro assumiu o título 
de príncipe regente (que as cortes confirmaram meses mais tarde), restaurou os 
nobres como classe ao seu primitivo poder e casou com D. Maria Francisca (1668) 
depois de se ter provado a impotência do monarca mediante um escandaloso 
inquérito e obtido assim a dissolução do matrimónio. 


Preenchiam-se portanto todas as condições para ser firmada a paz. Na Espanha, 
Filipe IV falecera em 1665 e seu filho Carlos Il ascendera ao trono com quatro 
anos de idade. A mudança de governo em Portugal e a intervenção diplomática da 
Inglaterra visavam o estabelecimento da normalidade, que praticamente todos 
desejavam. O tratado de paz pôde assim ser assinado em 1668: reconhecia a 
independência plena de Portugal e mantinha inalteráveis as suas fronteiras e 
possessões. Apenas Ceuta permaneceu em poder da Espanha. 


Bibliografia-O estudo fundamental para este período escreveu-o Vitorino 
Magalhães Godinho em The New Cambridge Modern History, vol. V, The 
Aseendancy of France: 1648-89, Cambridge University Press, 1961, (capítulo XVI, 
«Portugal and her Empire», pp. 384-397). Com algumas alterações, uma parte 
introdutória ligando-o a 1580, e uma orientação de leituras, esse mesmo estudo foi 
igualmente publicado em português: «l580 e a Restauração», nos Ensaios 
daquele autor, vol. Il, Sobre História de Portugal, Lisboa, Sã da Costa, 1968, pp. 
257-291. 


Sobre os movimentos nacionalistas e os motins que precederam a revolução de 
1640, veja-se o trabalho de Joel Serrão, «As Alterações de Évora (1637) no seu 
contexto social», introdução a D. Francisco Manuel de Melo, Alterações de Évora 
(1637), editado por Joel Serrão, Lisboa, Portugália, 

1967. 


29 


450 Apogeu e declínio 


Há pouca coisa sobre a participação portuguesa no Império Espanhol. Vejam-se, 
no entanto, de Jaime Cortesão, diversos artigos republicados na Introdução à 
História das Bandeiras, vol. Il (Obras Completas, vol. Il), Lisboa, Portugália, 1964, 
e de Lewis Hanke, «The Portuguese in Spanish America, with special reference to 
the Villa Imperial de Potosi», in Revista de Historia de America, n.O 51 (Junho, 
1961), pp. 1-48, que inclui uma boa bibliografia. Veja-se também Alice P. 
Canabrava, O comércio português no Rio da Prata, 1580-1640, São Paulo, 1944. 


CAPITULO VII 

O IMPÉRIO TRIDIMENSIONAL 
Período de estabilizaçã, 

1 -O Oriente 


A história do Império Português na Ásia, dos meados do século xvi até à década 
de 1630, foi marcada por uma notável estabilidade. Houve poucas conquistas mas 
também poucas perdas. Damão, anexada em 1559, encerrou o período 
expansionista. No Ceilão, só em 1580-98 se conseguiu plena suserania sobre toda 
a ilha, mas sem implicar conquista de territórios e podendo melhor considerar-se 
unia simples operação policial. Quanto a perdas efectivas, é certo que Chale teve 
de ser abandonada na década de 1570, assim como a ilha de Ternate, mas nem 
uma nem outra se revestiam de grande significado político ou económico. A única 
derrota de vulto foi a perda de Ormuz (1622), capturada pelos Persas com ajuda 
britânica. Contudo, uma cadeia de onze fortalezas continuou a proteger os 
interesses portugueses nas 


águas do Golfo Pérsico, impedindo uma ameaça declarada ao monopólio 
comercial nessa zona. 


A única possessão adquirida por outros meios, que não os Macau militares, foi 
Macau, na China. Relata a tradição que as autoridades cantonesas locais 
autorizaram os Portugueses-a estabelecerem-se na pequena aldeia de 
pescadores chamada A-Ma-Kao, como recompensa pela ajuda prestada na caça a 
alguns piratas. Esta tradição não é confirmada nem rejeitada pela documentaÇão 
hoje existente, que se limita a não a mencionar, deixando em suspenso as origens 
de Macau. De qualquer maneira, os Portugueses haviam estabelecido, já por 
1555, uma pequena feitoria 


454 O Império tridimensional 


e um núcleo de povoadores na zona, que depressa se desenvolveu e prosperou. 
Macau servia de intermediária entre a China e o Japão e entre a China e o 
Ocidente. útil como se mostrava para os Chineses, não admira que estes a 
tivessem praticamente arrendado a Portugal, que lhes pagava tributo e aceitava a 
interferência de autoridades chins. Durante três séculos, sempre Macau foi 


considerada como parte integrante do Império Chinês, mau grado algumas 
pretensões portuguesas em contrário. 


Os Holandeses Contudo, se o «Império» territorial se manteve intacto em 


todos esses anos, já errado seria julgar que nada mudara no entretanto. Tanto 
Holandeses corno Ingleses haviam forçado a entrada no oceano índico via Cabo 
da Boa Esperança, o que impedia que Portugal pudesse considerar-se 
monopolizador do tráfico marítimo, como dantes. Os primeiros navios holandeses 
chegaram ao Oriente em 1597, conduzidos por um piloto holandês que servira sob 
a bandeira portuguesa e conhecia bem o caminho marítimo para a índia. Voltaram 
depois vezes sem conto, evitando sempre que possível a navegação portuguesa e 
estabelecendo feitorias em locais abandonados ou desprezados por Portugal. A 
actual Indonésia e as ilhas Molucas foram os seus pontos de destino preferidos. 
Em 1601, fundou-se a famosa Companhia das índias Orientais, e a presença da 
Holanda no Extremo Oriente passou a constituir uma ameaça permanente à 
doutrina portuguesa do «mar fechado». Portugal alegava razões de carácter 
político e religioso para defender o seu domínio exclusivo sobre a África e a Ásia. 
Fora o Papa quem lhe concedera o monopólio do comércio e da conquista do 
Ultramar, havia mais de cem anos. Pertencia-lhe igualmente o exclusivo espiritual 
de difundir a fé cristã entre os infiéis. Portugal chegara primeiro, destruíra o 
poderio muçulmano, impusera certo número de regras ao tráfico marítimo indígena 
e construíra um bom número de fortalezas para as manter. A presença holandesa 
não apenas violava o direito internacional mas igualmente transferia para as novas 
comunidades cristãs o perigo de desvio confessional. Os Holandeses eram 
«hereges» e, corno tais, condenados pela Igreja e por todos os bons católicos. 
Ainda por cima se mostravam em rebelião contra o seu legitimo monarca, o rei de 
Espanha e de Portugal. 


o Oriente 455 


Não admira, portanto, que os Portugueses começassem imediatamente a dar caça 
aos Holandeses como se de piratas se tratasse, proibindo-lhes o tráfico e 
querendo forçá-los a abandonar quaisquer sonhos de competição. Mais tarde, 
quando se verificou que tais métodos de pouco serviam, e que a Holanda 
protestante estava a ser aceite pela Europa católica em pé de igualdade, Portugal 
ainda tentou os argumentos de carácter legal (De justo Império Lusitanorum 
Asiatico, 1625, do Padre Serafim de Freitas) em réplica à doutrina holandesa da 
liberdade dos mares, defendida pelo filósofo e jurista Hugo de Groot (De iure 
praedae, 1604-05, reimpresso parcialmente em 1618 com o título de Mare 
Liberum). 


Os ataques à navegação holandesa começaram por 1603, durando os combates 
até cerca de 1609, quando a tré gua firmada na Europa permitiu aos Holandeses 
livre tráfico no oceano índico. Daí por diante, a Holanda teve o tempo e as 
possibilidades que quis para edificar o seu Império na Ásia, enquanto o monopólio 
português se perdia para sempre. 


Os Ingleses entraram no oceano fndico em 1602, mas em vez Os Ingleses de 
concentrarem a atenção no Extremo Oriente, ousaram desa- e outros 


fiar Portugal no coração mesmo do seu Império, a índia e a Pérsia. Tal como os 
Holandeses, os Ingleses tiraram o máximo partido do desejo indígena de sacudir o 
jugo português. Mediante um sistema inteligente de alianças -idêntico ao que os 
Portugueses haviam desenvolvido, cem anos atrás, contra os Muçulmanos - 
espicaçaram Persas, Indianos, Árabes e outros muitos contra Portugal, ajudando- 
os com armas, munições, técnicos, etc. Alianças deste tipo foram capazes de 
aniquilar os Portugueses em alguns locais, nomeadamente na Arábia e na Pérsia. 


Outros rivais do monopólio português seguiram o traço deixado por Holandeses e 
Ingleses. Vieram os Franceses (1602) 'nas esporadicamente e sem grande 
sucesso, vieram depois os Dinamarqueses (1614) que falharam também. 


Apesar de todos estes concorrentes, Portugal manteve-se, e de longe, a maior 
potência no oceano índico até à década de 

1640. Ataques holandeses a Malaca (1606, 1629), a Macau (1622, 

1626) e a Goa (diversas vezes) foram repelidos. Sucessivas guer- 


456 O Império tridimensional 


ras e escaramuças contra os indígenas levavam a invariáveis vitórias das armas 
portuguesas. Se a Holanda e a Inglaterra haviam conseguido firmar-se no mundo 
asiático nas décadas de 

1630 e 1640, isso deveu-se muito mais a que parecia haver espaço para todos do 
que a uma derrota e substituição de Portugal por esses dois países. 


o descalabro A multiplicação dos ataques e a escassez ou falta total de 


reforços vindos da Europa explicam os grandes desastres sofridos por Portugal a 
partir de 1630. A Espanha estava em guerra por toda a parte e precisava do 
dinheiro português. Não havia verbas bastantes para se construírem, equiparem e 
enviarem navios com exércitos e munições para onde quer que os Impérios 
Português e Espanhol sofressem ataques: no Brasil, na África, na Ásia. Pouca 
coisa se modificara, em boa verdade, desde 1500. Não temos provas de maior 
corrupção, maiores crueldades, menor organização ou menos bravura. 
Simplesmente, os inimigos eram agora demasiados e tão bem organizados e 
preparados como os Portugueses ou os Espanhóis. 


Na década de 1630, a maior parte do Ceilão perdeu-se a favor da Holanda. Em 
1639, foram os mesmos Holandeses a bloquear Goa por vários anos. Depois da 
Restauração, os desastres acentuaram-se e aceleraram-se visto que o governo 
era obrigado a organizar a resistência na metrópole e dificilmente se podia permitir 
o envio de quaisquer reforços. Malaca capitulou ante os Holandeses em 1641. Um 
armistício de dez anos (1641-51) interrompeu o processo de declínio, que 


continuou a partir de 1651: grande número de feitorias e fortalezas na índia 
renderam-se em 1653, Colombo perdeu-se em 1656, o resto de Ceilão dois anos 
mais tarde, depois Cranganor e Cochim (1662), finalmente Bombaim, cedida aos 
Ingleses em 1665. No entretanto os Árabes, auxiliados pelos Ingleses, forçavam 
Portugal a sair da Arábia e do golfo Pérsico (1650). Na Indonésia e no arquipélago 
das Molucas tudo se desvaneceu, exceptuada uma parte de Timor. No Japão, as 
autoridades centrais e locais expulsaram os mercadores portugueses e 
massacraram bom número de cristãos e missionários. Por volta de 1665, e depois 
de vinte e cinco anos de desastres sucessivos, o outrora poderoso Império da Ásia 
estava 


o Oriente 457 


reduzido a Goa, Damão, Diu, Baçaim. e meia dúzia de insignificantes fortalezas na 
índia, a Macau na China e a metade de Timor, na Indonésia. 


É preciso acentuar que o governo de Lisboa fora obrigado a uma escolha decisiva 
nas décadas de 1640 e 1650, a fim de salvar alguns quinhões fundamentais do 
Império. A escolha consistira em abandonar a Ásia a favor do Brasil e suas partes 
complementares africanas. Os Portugueses deram-se conta de que não tinham 
forças para resistir em todo o mundo. Acertadamente, escolheram a parte mais 
promissora, aquela onde a colonização branca se difundira com carácter definitivo 
e permanente, e onde os benefícios comerciais podiam rivalizar com os proventos 
em declínio do Oriente. 


Na África Oriental, Portugal conservou uma cadeia de fortalezas e feitorias, 
somada a algumas áreas de influência que, Oriental no seu conjunto, o impunha 
desde Lourenço Marques à Etiópia. 

O actual Moçambique continuou a ser regularmente escalado pela navegação da 
índia. Todavia, jamais cessaram as expedições ao interior, em busca de ouro. As 
feitorias de Sena e Tete sobreviveram e prosperaram, ajudando a manter a 
presença portuguesa Zambeze acima. Em 1571, falhara por completo nova 
tentativa de atingir as minas do Monomotapa. Sem se dar ao trabalho de ocupar 
militarmente quaisquer territórios (além daqueles já conquistados ou fundados até 
1550), Portugal foi aumentando a sua suserania e influência no hinterland 
moçambicano, interferindo nas disputas entre os indígenas e por vezes 
organizando expedições de « punição» ou de afirmação de presença. O comércio 
de cobre e marfim levou à criação de novas feitorias na área de Lourenço 
Marques, nos fins do século xv, e começos do xvii. Durante alguns anos, as 
possessões da África Oriental justificaram mesmo a criação de um governo per se, 
destacado do Oriente, com sede em Sofala. Não durou muito tempo, porquanto 
Moçambique continuava a depender da índia e assim se conservaria por dois 
séculos mais. 


A fim de estimular o povoamento e proteger o comércio, a Coroa organizou vastas 
concessões de terra, juridicamente semelhantes às que existiam nas ilhas 
atlânticas e no Brasil. 


458 O Império tridimensional 


Foram os chamados prazos, assim denominados porque a terra era emprazada 
pela Coroa a donatários, na típica maneira feudal que existia na metrópole. 
Contudo, os prazos de Moçambique jamais se puderam comparar com as 
prósperas plantações da Madeira, de S. Tomé ou do Brasil. A atracção do 
comércio exercia-se de modo muito mais convincente, e a índia, com todas as 
suas fabulosas riquezas, não se achava afinal tão longe. Para mais, os indígenas 
africanos eram ferozes, não se conformando facilmente com a presença do colono 
branco. 


Também os Holandeses atacaram Moçambique e outros estrangeiros puseram em 
xeque o monopólio português na 


região desde começos da centúria de Seiscentos. Nos meados do século, as 
diversas possessões que Portugal tinha a norte do cabo Delgado foram, uma a 
uma, caindo nas mãos dos Árabes de Oman auxiliados pelos Ingleses. Só 
Mombaça conseguiu resistir até 1698. 


Etiópia Na Etiópia, Portugal assegurou a sua influência mediante 


embaixadas, ajuda militar e missões religiosas. Foram estas últimas, porém, não 
obstante os conhecimentos geográficos que implicaram as principais causadoras 
do declínio da presença portuguesa na região. Tal como na China e no Japão, 
embora num grau menos virulento, os Etíopes possuíam uma longa tradição de 
cultura e uma religião profundamente enraizada. Jesuítas e demais missionários 
sentiam pouco respeito e menos tolerância para com «hereges» e «cismáticos», 
como consideravam os Etíopes. Nem mesmo a Contra-Reforma aceitaria 
compromissos. Dessa intolerância veio a gerar-se uma reacção indígena contra os 
missionários e contra todos os Portugueses em geral. Depois de muitos altos e 
baixos na história das relações entre os dois países, os Portugueses viriam 
finalmente a ser expulsos em 1634, encerrando-se, uma vez mais, a Etiópia num 
isolacionismo feroz. 


Potencial O número de portugueses vivendo na Ásia e na África Oriendemogrifico 
tal aumentou até às décadas de 1620 e 1630, para depois iniciar 


uma descida rápida. Em boa verdade, esse número conhecera altos e baixos 
consoante as áreas. Goa, a capital do «Estado da 


O Oriente 459 


Índia» (como os Portugueses chamavam a toda a rede de possessões, de 
Moçambique ao Japão), atingiu o seu auge demográfico algures no começo do 
século xvil, quando se podia comparar com Lisboa ou até superá-la em população. 
Tratava-se, pois, de uma grande cidade para padrões europeus, embora nada de 


excepcional para o populoso Oriente urbano. Goa possuía alguns edifícios de 
grande fábrica, nomeadamente a Sé, muitas igrejas e mosteiros, o palácio dos 
vice-reis e outros atributos de metrópole quinhentista. Havia até quem lhe 
chamasse «a Roma do Oriente». Mas o número dos seus habitantes foi a pouco e 
pouco declinado e, por volta de 1630-40, achava-se reduzido a metade ou até 
menos. 


Ormuz tinha uns 50 000 habitantes nos começos do século xvii, dos quais menos 
de 1000 eram portugueses. Diu baixou de 10 000 pessoas nos meados do século 
xvi para cerca de 3000 em 1621-33: só sessenta fogos eram então de 
portugueses. Meliapor seria maior, com mais de 1000 fogos europeus nos 
começos da centúria de Seiscentos. Malaca registava 600 fogos de portugueses 
na década de 1590, depois de um aumento contínuo. Macau, por 1578, exibia 
uma população total de cerca de 10 000 almas, metade das quais cristãs. Outros 
núcleos importantes podiam apontar-se em Cochim, Chaul, na Etiópia, etc. Na 
África Oriental, eram poucos os brancos, menos de 200 fogos na mesma época. 


Mas além destes residentes e soldados, estabelecidos pelo Império, havia ainda 
muitos outros, constituindo uma autêntica diáspora através de toda a Ásia. 
Encontravam-se nos locais mais distantes do mundo asiático, tais como Basra e 
Baghdad, Lar na Pérsia, Martabam na Birmânia de hoje, Bengala, actuando como 
comerciantes, «turistas», missionários, mercenários e assim por diante. A 
esquadra moghul em Bengala contou em certa data nada menos que 923 
marinheiros portugueses! 


As relações étnicas dependiam de numerosas circunstâncias, A questão estando 
longe de obedecer a um padrão bem determinado. O governo de Lisboa decretara 
oficialmente que a única barreira à obtenção da cidadania portuguesa fosse a 
religião (leis de 1569 e 1572). Esta política, porém, estava -longe de ser cumprida 


460 o império tridimensional 


através da Ásia portuguesa. Nem mesmo dentro da própria Igreja eram os 
asiáticos cristãos tratados como iguais. Todas as ordens religiosas se recusavam 
a admitir, quer indianos, quer mestiços. A Igreja secular aceitava-os como 
sacerdotes mas geralmente travava a sua ascensão na hierarquia. Uma excepção 
à regra foi Mateus de Castro, um Brahmane consagrado bispo de Chrysopolis, in 
partibus infidelium, em 1635. 


Apesar de tudo, o número de mestiços aumentava constantemente devido à falta 
de mulheres europeias. A maioria dos Portugueses, tanto colonos quanto 
funcionários públicos, tinham as suas concubinas indígenas, que frequentemente 
tratavam e mantinham como se de esposas legais se tratasse, com numerosos 
filhos. Eram vulgares os casamentos inter-rácicos, embora não existisse igualdade 
racial. Para efeitos práticos, a população da índia Portuguesa podia ser 
classificada numas cinco categorias: os portugueses nascidos na Europa ou 
Reinôis; os portugueses brancos nascidos na índia; os nascidos de pai europeu e 


mãe indiana branca, cnamados Castiços; os Mestiços, de cor mais amulatada; e 
finalmente os indianos puros. Entre todas estas castas existia diferenciação social 
e discriminação, conquanto nem sempre estrita ou coerente. Abundavam, claro 
está, os escravos, de origem negra, muçulmana ou indonésia. 


o Governo O governador-geral, com sede em Goa e assistido por um 


secretário (Secretário da Índia) governava o vasto Império Português e suas 
regiões de influência desde a África Oriental ao Japão. O título de vice-rei, não 
muitas vezes concedido antes dos meados do século xvi, tornou-se habitual e até 
normal. De 1550 a 1668 a Ásia portuguesa foi governada por vinte e sete vice-reis 
(nomeados por períodos de três anos) contra treze governadores, apenas. 
«Governador» restringia-se, em geral, a governantes interinos, encarregados do 
governo, que dele tomavam conta por morte ou deposição do vice-rei, ou por outro 
qualquer impedimento deste, e até que o monarca nomeasse um novo vice-rei. 
Seguindo a tendência que também se registava na metrópole, verificou-se no 
Ultramar a governação através de conselhos. Coincidindo com o criado em 
Portugal, foi estabelecido para a índia, em meados do século xvi, um Conselho de 
Estado, que 


O Oriente 461 


assistia o vice-rei ou o governador-geral. No século xvii, houve algumas vezes 
governos provisórios de dois e três membros, em vez de um governador interino: 
isso sucedeu em 1629, 1651-52, 

1656-61, 1661-62 e 1668-71. 


A alta nobreza mantinha-se firmemente em controle dos vice-reinados da índia. 
Cinco grandes famílias, os Meneses, os Mascarenhas, os Noronhas, os Castros e 
os Coutinhos ocuparam metade dos quarenta lugares de governador ou vice-rei, 
entre 

1550 e 1671. 


Na década de 1570, o monarca julgou necessário subdividir o governo da Ásia em 
três grandes áreas: uma, dá África Oriental ao Ceilão, directamente administrada 
pelo vice-rei da índia; a segunda, do Ceilão ao Pegú (actual Birmânia); e a 
terceira, do Pegú à China, cada qual governada por seu governador, sujeito à 
autoridade suprema do vice-rei. 


A administração local pertencia, quer às câmaras municipais eleitas pela 
população (tal como em Portugal), com a intervenção de representantes da Coroa, 
quer a delegados do governo central apenas. Tudo dependia do número de 
residentes brancos ou mestiços e da capacidade de converter o povoado em 
réplica de cidade portuguesa. A maioria das feitorias e fortalezas estavam 
somente sujeitas a uma espécie de governo militar, com seus funcionários 
nomeados pelo vice-rei. 


O funcionalismo consistia no capitão, no feitor com seu escrivão a cargo dos 
assuntos económicos, no alcaide-mor que tomava conta dos negócios militares, 
no alcaide do mar para assuntos navais, no ouvidor, encarregado da justiça, e 
assim por diante. Em lugares mais importantes, como Goa, Ormuz, Malaca, 
Cochim, Diu, etc., havia uma alfândega com seu juiz e pessoal competente. Em 
lugares pequenos, muitos (ou mesmo todos) destes cargos concentravam-se 
numa simples autoridade, confundindo-se frequentemente os de feitor e alcaide- 
mor. Goa, Baçaim ou Damão, que possuíam território anexo, conheciam nova 
organização em distritos administrativos e financeiros chamados tanadarias, cuja 
tradição remontava ao período pré-cristão. Goa, capital do Império asiático, tinha 
uma rede complexa de repartições públicas e pessoal empregado, comparável à 
de Lis- 


462 
O Império tridimensional 


boa: possuía, por exemplo, uma Casa da Pólvora, uma Ribeira para construção de 
navios, uma Casa dos Contos, uma Casa da Relação da índia, a Inquisição, e 
assim por diante. Por toda a parte se acatavam e respeitavam em geral as 
autoridades indígenas. Em Goa, Macau e Malaca havia câmaras municipais como 
em Lisboa, com mais ou menos autonomia. O Senado da Câmara funcionava 
como assembleia concelhia com poderes administrativos locais, a partir da qual 
eram escolhidos os funcionários dirigentes. Em regra, os forais acompanhavam as 
modificações que se verificavam em Lisboa, mas seria errado supor que não se 
registavam características e evolução locais. Era o que acontecia principalmente 
em cidades do tipo de Macau, longe da autoridade dos representantes supremos 
da Coroa. Todavia, não se julgava lícito proceder a quaisquer alterações no 
estatuto municipal sem a aprovação do governo da metrópole. Goa tinha em 
Lisboa um procurador permanente, que se ocupava dos seus assuntos municipais 
sempre que necessário. 


As carreiras Para lá da rede de cidades, fortalezas e feitorias, o Império 


Português na Ásia dependia ainda das armadas oficiais e das linhas de 
navegação entre os principais portos. Até 1570 houve cerca de vinte e sete destas 
carreiras de navegação; geralmente efectuadas em regime de monopólio. Todas 
elas implicavam comércio, bem como abastecimento, protecção militar e 
actividade de corso. Estritamente para defesa do monopólio português havia a 
armada de Ormuz, que patrulhava a entrada do golfo Pérsico, e a armada da 
costa de Melinde> que controlava a costa africana a norte de Moçambique até à 
embocadura do mar Vermelho. Existiam depois linhas regulares de navegação 
entre Goa e Moçambique, Goa e Ceilão, Goa e as Ilhas Molucas, Goa e a costa 
oriental indiana, Goa e Bengala, Goa e Malaca, Malaca e Sião, Malaca e Japão, 
Malaca e Macau, Malaca e a actual Birmânia (diversos destinos), Malaca e as 
Molucas, Malaca e Timor, Macau e Japão, Macau e Indonésia, Macau e Sião, 
Macau e Timor, etc. Nestas carreiras, cada navio tinha o seu capitão e 


o seu escrivão, nomeados pelo rei ou pelo vice-rei. A carreira de todas a mais 
importante era a anual que ligava Portugal com Goa (carreira da India). Possuía 
vários navios, cada qual 


O Oriente 
464 O Império tridimensional 


com seu capitão e tripulação, subordinados à autoridade suprema do capitão-nwr. 
Toctos estes capitães serviam por um número limitado de viagens, sendo muito 
bem pagos como funcionários públicos, para além dos fabulosos lucros que cada 
viagem lhes podia render. 


Anualmente o governo enviava para a Índia certo número de navios, geralmente 
constituindo uma armada. Este número variou grandemente entre 1550 e 1668, 
mas mantinha-se numa média geral de cinco navios por ano até à década de 
1630. De então em diante, a média baixou. É preciso, todavia, lembrar que a 
tonelagem aumentou bastante durante todo este período, o que permite concluir 
que o comércio com o Oriente não terá necessariamente declinado só porque o 
número de navios diminuiu. 


Naufrágios e ataques de inimigos e de piratas tornavam coisa bem difícil uma 
viagem até à índia. A percentagem de perdas nesta época variou geralmente entre 
10 e 20 %, mas em alguns períodos (fins do século xvi, por exemplo) pôde atingir 
40 % de toda a navegação. 


Comércio geral O monopólio do comércio com o Oriente foi mantido sem 


desfalecimentos pelo Estado durante mais de meio século. Porém, as constantes 
violações pelos particulares e o crescente contrabando tornavam-no muitas vezes 
um mito, e um mito cam. Em 1564, tentou-se unia primeira experiência de 
contratos com grupos particulares. Depois, por volta de 1570, a Coroa decretou 
liberdade de comércio com a índia, embora com algumas excepções: a pimenta 
permanecia monopólio do-Estado, e assim também a exportação de prata e cobre; 
as compras por particulares na índia eram restritas a Cananor, Chalé, Cochim e 
Coulão. Embora autorizasse os demais a partilhar dos lucros asiáticos, o Estado 
continuava a ser o principal comerciante e até o único comerciante em muitas 
regiões. 


Em 1576 o sistema foi 'modificado de novo. Em vez de liberdade para todos, a 
Coroa concedeu o monopólio do comércio com a índia a companhias particulares: 
no primeiro destes monopólios, garantido de 1576 a 1578, e renovado de 1579 a 
1581, os alemães Rott e Welser entraram com metade do capital, e 


O Oriente 


465 


alguns comerciantes portugueses com o resto. Filipe Il tentou uma vez mais o 
regime da liberdade de tráfico (1581-86), à excepção da canela e da seda chinesa, 
que pertenciam à Coroa, e da pimenta, cujo exclusivo arrendou aos Welser, 
Fugger e outros e, mais tarde, só a portugueses. A partir de 1586, voltaram os 
contratos entre o Estado e firmas de mercadores nacionais, com a duração de 
doze anos. Mas como os ataques sempre crescentes de holandeses e ingleses 
faziam altamente problemático para qualquer grupo particular o cumprimento das 
cláusulas do contrato com lucro suficiente, a Coroa resolveu-se a tomar conta do 
tráfico uma vez mais e a regressar ao velho sistema do monopólio estatal. Neste 
sistema se viveu de 1598 a 1642, data em que a liberdade de comércio foi 
definitivamente restabelecida, à excepção da canela, que continuou nas mãos da 
Coroa. No entretanto, os Holandeses e os Ingleses haviam sido autorizados a 
navegar para a índia dentro de certos períodos. 


O comércio da especiaria declinou consideravelmente a par- Especiaria. tir dos 
meados do século xvi. Em 1547 chegaram a Lisboa e owra 


36 000 quintais de pimenta, sendo a quantidade média anual de mercadori mais 
de 30 000. Até 1587 este número baixou para os 25 000. Declinou depois 
abruptamente, com variações espantosas de ano para ano, não tanto por ter 
havido uma baixa sensível nos carregamentos feitos na índia (que também 
diminuiram mas muito gradualmente), mas sobretudo devido aos perigos da 
viagem para a Europa. Em 1607, cálculos optimistas ainda avaliavam a média 
anual em 20 000 quintais. Todavia, os números autênticos mostravam-se muito 
inferiores: médias de 9000 ou 10 000 entre 

1611 e 1626, e menos ainda no período seguinte. Em 1628, por exemplo, só 
chegaram 1981 quintais de pimenta. 


É verdade que nem todo o comércio de especiarias declinou: se o cravo baixou 
igualmente, já a canela registou procura crescente, tornando-se a «especiaria» por 
excelência, em vez da pimenta, e substituindo esta em lucros, se não em 
quantidade: uns 4000 quintais em média chegavam anualmente a Lisboa por volta 
de 1619. 


Outras mercadorias completavam os carregamentos de especiaria e, a pouco e 
pouco, foram-na substituindo na manutenção 


30 

466 O império tridimensional 

do interesse comercial das viagens para a índia: pérolas e pedras preciosas, 
diamantes, sedas da índia e da Pérsia, tecidos de algodão de Cambaia e de 


Bengala, indigo da índia, porcelanas da China, mobiliário caro também da China. 
Quando o comércio da especiaria baixou sem remédio, foram o tráfico de 


diamantes e o tráfico com a China que se converteram nas duas razões principais 
para manter uma via marítima tão distante e tão perigosa, 


Comércio local Os historiadores da presença portuguesa na índia esquecem 


muitas vezes que a quantidade do tráfico empreendido pela Coroa, pelos 
funcionários públicos, pelos soldados e por grande número de particulares não 
respeitava apenas às relações com a Europa. Os Portugueses interferiam no 
tráfico local, às vezes dominando-o inteiramente. De Moçambique, ao Japão, 
tinham parte considerável em todas as formas de comércio. Levaram ouro e 
marfim da África Oriental para a índia e para a China, pérolas de Ormuz e do 
Ceilão para a índia e para Bengala, diamantes da índia meridional e do Bornéu 
para a índia setentrional, Malaca e Pegú, cavalos da Arábia e da Pérsia para a 
índia, escravos da África Oriental e de Madagascar para a índia também. A 
conquista de uma cidade, o estabelecimento de uma feitoria ou a construção de 
uma fortaleza relacionavam-se muitas vezes com formas locais de comércio. Os 
Portugueses tinham de tomar em mãos a maioria do tráfico de abastecimento das 
cidades costeiras, que viviam do arroz, do peixe ou das bananas importados de 
algures. Agiam assim, umas vezes, como senhores absolutos e proprietários, 
outras como intermediários e simples participantes. Em qualquer caso, foram eles 
que ensinaram a Holandeses e Ingleses o modo de controlar os pontos vitais da 
complexa rede de comércio asiática. 


As crises De uma maneira geral, é possível dizer que o tráfico de Portugal com a 
Ásia atravessou duas grandes crises, que reduziram a sua importância até à 
quase extinção final: uma, por 1591, quando a quantidade e o lucro se reduziram 
de um terço; a outra, por 

1650-60, que trouxe consigo o fim do Império Asiático. É interessante verificar 
que, mau grado toda a concorrência por parte 


O Oriente 467 


de outras nações, Portugal continuou a ser o principal entreposto de especiaria e 
diamantes para a maior parte da Europa até cerca de 1650. Os pagamentos 
faziam-se em ouro e em prata, abundantes em Lisboa e em todo o País. 


Muito de errado se tem escrito e dito sobre a estrutura Estrutura financeira do 
Império Português. Com base no exemplo de Goa financeira e de uns quantos 
pontos mais, ou nas habituais queixas de prosadores e moralistas, os 
historiadores portugueses e estrangeiros pontificam ex-cathedra que, desde muito 
cedo, a Ásia começou a produzir deficit para Portugal. 


Os factos não se apresentam com essa simplicidade. Se Goa, com a maioria das 
pequenas feitorias do Hindustão, se Ceilão e se as Molucas registaram deficits 
constantes nas contas públicas, já Ormuz, Diu, Damão, Baçaim, Chaul e Malaca 
revelaram uma situação exactamente oposta. 


As receitas derivavam da propriedade possuída pelo Estado, de impostos sobre as 
vendas e sobre outros bens, de contribuições sobre mercados, feiras e 
alfândegas, e assim por diante. As despesas incluíam, acima de tudo, a 
administração (salários ao funcionalismo civil e eclesiástico; tenças e dádivas aos 
indígenas), a manutenção das fortalezas e seu armamento, hospitais, igrejas, etc. 


O orçamento de 1574 mostra que o Império Asiático (incluindo as fortalezas da 
África Oriental), longe de acusar deficit, exibia um saldo positivo superior a 80 000 
cruzados (mais de 40 milhões de reais). Em 1607, esse saldo subira para 240 000 
cruzados. Na década de 1620, a situação começou a modificar-se, com as 
despesas incessantes requeridas pela defesa contra Holandeses, Ingleses e 
outros. 


O sistema das finanças públicas na Ásia nada tinha a ver com o sistema oficial do 
comércio, em boa parte possuído pelo Estado. Receitas e despesas com as 
viagens à índia dependiam de outras fontes e eram pagas ou recebidas em Lisboa 
ou algures na Europa. As receitas derivavam da venda directa de especiaria e de 
outras mercadorias, dos impostos sobre os comerciantes particulares ou dos 
fretes de proprietários privados. As despesas abrangiam a armação das 
esquadras, o custo e o frete 


o0o“fi 


pO o 
OQuo,o 


2 
O Oriente 469 


de seus carregamentos (quando pertencendo à Coroa), a perda constante de 
navios, e assim por diante. A chamada Rota do Cabo, ou seja a rota para a índia, 
mostrou-se quase sempre lucrativa até à conquista do Ceilão pelos Holandeses, 
na década de 1650. As receitas demonstram uma expansão do comércio até 
começos do século xvii, seguida por uma estagnação até ao período de 1620-30: 
383 000 cruzados em 1587-88, 468 000 em 1607, 

468 000 em 1619. 


A Ásia Portuguesa tinha o seu próprio sistema monetário, m,e4 que fundia os 
sistemas europeu e asiático. Depois de uma primeira tentativa pelo governador 
Afonso de Albuquerque (1509- 

15), foi só nos meados do século xvi que se cunharam as primeiras moedas de 
ouro em Goa e em Cochim: o chamado pardau-são tomé de ouro, equivalente ao 
pagode de ouro indiano, avaliado em 360 reais portugueses. Em prata, a Casa da 
Moeda de Malaca cunhou o cruzado, equivalente a cinco tangas da índia ou a 
cinco larins da Pérsia, igualmente avaliado em 360 reais de Portugal. Nos meados 
do século xvi, Goa criou o seu correspondente, o patacão, de prata. Em cobre, 


existiam os bazarucos com um valor de 1 V4 real. 


Se o ouro sofreu poucas modificações até ao decénio de 1630, já a prata, sempre 
escassa na índia, foi desvalorizada mais de uma vez. Os xerafins, que 
substituíram os patacões, apareceram em séries e valores variados. Os patacões 
renasceram em 1630 com novo valor. Cada moeda que aparecia significava- outra 
desvalorização: dos meados do século xvi a 1630, o valor do marco de prata em 
Goa subiu de uns 3000 reais para quase o dobro. 


Este sistema monetário português só foi aceite e pôde subsistir porque não ia 
além de adoptar os padrões locais sob uma capa cristã. Mas nunca se mostrou 
exclusivo para fins de comércio nem sequer predominou sobre as numerosas 
moedas e sistemas monetários da índia, Pérsia, China, etc. Outras moedas 
europeias, nomeadamente os reales de prata espanhóis, fizeram igualmente a sua 
aparição nas trocas com o Oriente. 


470 

O Império tridimensional 
A expansão 

cristã 


De um ponto de vista ocidental e cristão, não há dúvida de que a expansão do 
Cristianismo na Ásia, efectuada por Portugal nos séculos xvi e xvii, constituiu um 
feito notável. 


Até meados da centúria de Quinhentos, as tentativas de espalhar o Evangelho 
entre os povos asiáticos haviam-se limitado a umas quantas cidades-fortalezas ou 
cidades-feitorias e sem grande persistência. Foi apenas com a chegada dos 
Jesuítas que se iniciou um vasto movimento de expansão religiosa, uma autêntica 
cruzada com resultados tanto políticos quanto económicos e culturais. Neste 
sentido, é lícito dizer que a difusão do Cristianismo no Oriente compensou a 
estagnação das conquistas militares e representou uma segunda fase na história 
do Império Português. O Império comercial e militar foi assim duplicado e alargado 
com um Império religioso, mais duradouro e acaso mais interessante como 
revelador de contactos civilizacionais. 


Uma simples análise da rede eclesiástico-administrativa mostra bem esta segunda 
expansão portuguesa na Ásia. Até ao decénio de 1550, a diocese de Goa, 
fundada em 1534, fora o único enquadramento para a obra dos missionários e de 
outros clérigos. A partir de então, e até à década de 1660, estabeleceram-se nove 
outras províncias eclesiásticas: Etiópia (1555), Cochim (1558), para todo o 
território entre Cananor e Ceilão, Malaca (1558), do Pegú a Tonquim com a actual 
Indonésia, Macau (1575), abrangendo a maior parte da China, Funay ou Japão 
(1588), com as ilhas nipónicas, Cranganor ou Angamale (1600), com parte da 


Índia interior e uma antiquíssima tradição independente da irrupção europeia, 
Meliapor (1606), do Ceilão a Pegú, Moçambique (1612), com a costa oriental da 
África até à Etiópia, e Tonquim (1659), abrangendo a maior parte da Indochina e 
parte da China. Recorde-se que Portugal possuía o monopólio (padroado) da 
organização e expansão religiosas na África e na Ásia. Este exclusivo só começou 
a ser ameaçado com a fundação em Roma da Congregação da Propaganda 
(1622), que tinha o direito de superintender nos territórios onde não estivesse 
definitivamente organizada a hierarquia eclesiástica. Deste modo, Roma podia 
enviar directamente prelados e missionários para todas aquelas áreas que 
Portugal houvesse desprezado. A Indo- 


O Oriente 471 


china foi uma delas. Em boa verdade, Roma violava o monopólio português desde 
1608, data em que autorizara missionários pertencentes às ordens mendicantes a 
embarcar para o Oriente em outros portos que não Lisboa. Esta concessão 
estendeu-se depois a todas as ordens (1633) e, por fim, a quaisquer clérigos 


(1673), o que tirou ao governo e à Igreja de Portugal a possibilidade de 
controlarem a totalidade das pessoas que partiam para a índia. 


A expansão cristã na Ásia arrastou consigo um bom número de ordens religiosas: 
os Franciscanos tinham a sua principal força na índia e possuíam igualmente 
missões em Malaca, em Macau e no Japão. Os Dominicanos eram menos mas 
mesmo assim encontravam-se desde Moçambique até ao Japão. Os Agostinhos 
seguiram para a África Oriental, a Pérsia, a índia, Malaca e Japão. Os Carmelitas 
também deram um pequeno contributo. Mas a grande ordem para a propaganda 
católica na Ásia foi, sem dúvida alguma, a Companhia de Jesus. A sua chegada à 
índia, na década de 1540, mareou o autêntico começo da actividade missionária 
fora da Europa. Os Jesuítas penetraram profundamente em terras de todas as 
religiões, fundando sem demora missões, noviciados, hospitais e instituições 
similares. Utilzavam métodos inteligentes e eficazes, comunicavam o seu 
entusiasmo transbordante, arrostavam com os maiores perigos e dificuldades, que 
iam até ao martírio. Em meio século, criaram missões por toda a Ásia e África 
Oriental, de Moçambique ao 


Japão, avançando a índia central e setentrional e a maior parte da China até ao 
distante Tibet. Na China possuíam, no século xvii, umas quinhentas missões, no 
Japão mais de sessenta. Por 1623, a organização jesuítica fio Oriente 
compreendia quatro «províncias»: Goa, abrangendo a África Oriental e a Etiópia, a 
índia ao norte de Goa e o Tibet; Malabar, com a índia ao sul de Goa, Ceilão, 
Bengala, Malaca e a Indonésia; China, com a maior parte deste país; e finalmente 
Japão, incluindo as ilhas nipónicas, a China meridional, a Indochina e as Celebes. 


Obtinham-se conversões com grande rapidez, sendo baptizadas milhares de 
pessoas em poucos dias. Os mapas da expansão cristã na Ásia registavam uns 
150 000 cristãos na China (1635), 

300 000 no Japão (1613), mais de 200 000 na Etiópia na década 


472 O Império tridimensional 


de 1620, 50 000 no sueste indiano (1576), 500 000 no Tonquim em meados do 
século xvii. Em Moçambique, havia organizadas dezasseis paróquias em 1667. 


Tais números, propagandeados por toda a Europa, causavam enorme impressão, 
levando muita gente a acreditar que, em poucos anos, toda a Ásia estaria 
convertida ao Cristianismo. Contudo, para padrões asiáticos, não passavam de 
pequenas percentagens, que deixavam de aumentar logo que, aos primeiros 
entusiasmos, se seguiam as realidades mais tristes da vida eclesiástica 
organizada. Para mais, a grande maioria dessas conversões havia sido superficial, 
sem afectar profundamente as crenças tradicionais de hindús ou de budistas. 
Muitas vezes, aceitar o Cristianismo era simplesmente uma maneira de reagir 
contra uma ordem social ou política opressiva. Mas os missionários europeus, por 
muito puros e intelectualmente dotados que fossem, tinham na realidade pouco 
que oferecer. De um ponto de vista asiático e não-cristão, nada traziam, em boa 
verdade, aos povos que desejavam converter. A sua civilização era, em muitos 
aspectos, inferior aquela que encontravam na China, no Japão ou na Índia. A sua 
religião era por vezes intolerante, com atitudes de violência, interferindo nas 
crenças 'mais caras e nas tradições mais profundas dos povos asiáticos. Além do 
mais, era a 


religião de outra raça, uma raça de conquistadores e de cobiçosos negociantes. É 
verdade que os missionários tomavam frequentemente o partido dos povos 
indígenas contra os Portugueses, mas tais atitudes mostravam-se perigosas e não 
podiam ser toleradas pela hierarquia eclesiástica. 


Fracasso do Assim, de um ponto de vista estritamente religioso, os 
miscristianismo sionãri.os fracassaram. Os núcleos de cristãos espalhados por 


toda a parte e de que se mostravam tão orgulhosos foram desaparecendo 
gradualmente, só muito poucos conseguindo sobreviver até ao século xix. Bem 
depressa se inauguraram as perseguições por parte das autoridades indígenas 
pagãs, que Holandeses e Ingleses reiteraram e apoiaram mais tarde, protestantes 
como eram, odiando os Católicos e revelando poucas tendências de proselitismo. 
Na Etiópia, na China, no Japão, os três países maiores e mais bem organizados, a 
reacção contra os missionários católicos trouxe consigo perseguições sangrentas 
e numero- 


O Oriente 
473 
sos mártires. O Japão abriu o caminho, com um primeiro «reinado de terror» em 


1587-98, seguido por novo e decisivo banho de sangue a partir de 1614. Quase 
todos os missionários foram massacrados, morrendo 3000 cristãos mártires entre 


1597 e 1660. Os padres jesuítas foram os primeiros a ser banidos (1587), a que 
se seguiram os portugueses em geral (1637). Pior do que isso, o proveitoso tráfico 
com Macau foi inteiramente abolido em 1639. O Japão entrou em período de 
isolamento que iria durar mais de duzentos anos. 


Na Etiópia registaram-se violentas perseguições a partir de 1632 e na China 
desde 1664. Todas estas sociedades reagiam, não apenas contra uma religião 
estrangeira e contra a modificação nas suas práticas tradicionais, mas igualmente 
contra as ideias «subversivas» que os missionários cristãos inevitavelmente 
incutiam nas mentes dos convertidos. As perseguições resultavam, assim, de 
múltiplas causas, onde intervinham factores religiosos, culturais, económicos e 
políticos. 


Da parte dos Portugueses, a crescente intolerância começou a dificultar o 
estabelecimento de boas relações com os povos asiáticos, ajudando os fitos de 
Holandeses e Ingleses. Na índia e noutras regiões, o catolicismo dos fins do 
século xvi seguiu a corrente da Contra-Reforma, endurecendo nos seus métodos. 
A Inquisição foi fundada em Goa em 1560, começando a sua acção de violência 
pouco tempo depois (primeiro auto-de-fé em 1563). Ao que parece, perseguições 
e condenações revelaram ainda maior ferocidade do que em Portugal. Os 
métodos eram, claro está, os mesmos, mas em vez de judeus e de cristãos-novos 
(que aliás também existiam na índia), a maioria das vítimas provinha do 
Hinduísmo e do Budismo, nomeadamente dos convertidos à fé cristã sobre quem 
recaífam suspeitas de relapsos nas crenças anteriores. 


De muito maior interesse se revestiu o significado cultural das missões. 
Contribuíram para o conhecimento europeu da Ásia e para o desenvolvimento das 
comunicações entre a Europa e a maior parte daquele continente. Os Jesuítas e 
outros padres estabeleceram-se em pleno interior, enviando relatos periódicos aos 
seus superiores acerca das missões onde viviam, estudando 


Aspectos caisurais das missõe, 
474 O Império tridimensional 


as línguas, costumes, crenças e histórias indígenas, preparando dicionários e 
outros meios de comunicação, trocando conhecimentos, métodos e ideias. 
Meteram-se à tarefa de compreensão das complexas filosofias da índia e da 
China, a fim de poderem espalhar melhor o Cristianismo com resultados frutuosos. 
Estudaram a botânica e a zoologia locais, transmitiram itinerários e possibilidades 
de comércio, estabeleceram comunicações regulares com as feitorias e as 
fortalezas portuguesas. Desta maneira, abriram o caminho aos vindouros 
holandeses, ingleses e franceses, a quem deram - de boa vontade ou sem ela - 
um corpus utilíssimo de conhecimentos. 


Viagens As viagens dos Jesuítas nos séculos xvi e xvii franquearam pelo interior a 
Etiópia, a índia, a China e o Japão. O lago de Tana, na Etiópia, 


foi pela primeira vez alcançado por um ocidental em 1603 (Gaspar Pais). Outros 
missionários penetraram na maioria do pais, vindo um deles (Pero Pais) a 
conhecer as nascentes do Nilo Azul (1618). 


Na índia, diversos padres jesuítas entraram profundamente no interior, fixando-se 
no Império do Grão Moghul. Aos confins de Bengala chegaram pela primeira vez 
em 1576. Um sacerdote agostinho, 'Sebastião Manrique, viajou demoradamente 
na região (1628-35), deixando uma muito útil descrição dos seus itinerários. 


Da índia, os missionários entraram na China, via Tibet. Bento de Góis transpôs os 
Himalaias em 1602 e, depois de uma afadigada viagem, chegou à China onde 
morreu, exausto. O relato do seu percurso foi publicado anos mais tarde. O Padre 
António de Andrade celebrizou-se como primeiro europeu a atingir a capital do 
Tibet, em 1624. Os padres Cabral e Cacela visitaram o Nepal e o Butão. 


Na Indochina, os missionários portugueses viajaram também largamente pelo 
Cambodja e pela Cochinchina. Os primeiros dicionários de Anamita deveram-se a 
jesuítas portugueses. No Japão, a maioria das ilhas foram visitadas ou descritas 
pelos sacerdotes da Companhia de Jesus. 


Culfuro Por toda a parte as missões estabeleciam escolas e hospitais. 
Embora o principal objectivo e os principais temas do ensino 
O Oriente 475 


respeitassem à religião, a aprendizagem incluía ler, escrever e contar. As escolas 
eram gratuitas e as mais importantes dispunham de cursos sobre as línguas 
indígenas, para os futuros missionários. Nos hospitais fundados na índia e no 
Japão, teve lugar um intercâmbio científico de métodos entre europeus e asiáticos. 


Foi igualmente devido aos Jesuítas que a imprensa chegou à Ásia. A primeira 
tipografia surgiu em Goa em 1556; Macau teve a sua própria imprensa em 1588 e 
o Japão em 1591. Imprimiam-se livros, não apenas em português como também 
nas línguas locais. 

O exemplo do Japão mostra-se, a este respeito, altamente revelador dos 
objectivos dos missionários: de vinte e nove obras existentes, impressas até 1614, 
dezoito foram-no em japonês (dez utilizando letras latinas e oito, caracteres 
nipónicos), seis em latim, duas em japonês e português, unia em japonês e latim, 
e 


duas em japonês, português e latim. Os assuntos respeitavam, principalmente, a 
religião, mas também se produziram gramáticas, dicionários e até as Fábulas de 
Esopoi 


Para contactos internacionais, o Português tornou-se até ao século xviii a «língua 


franca» do comércio a distância. Não apenas os indígenas mas, mais tarde, 
Holandeses e Ingleses igualmente, tinham de aprender português para serem 
compreendidos dos intérpretes. Nos idiomas e dialectos locais foram introduzidas 
palavras portuguesas, muitas sobrevivendo até hoje. 

O Português, também, foi permeável a diversos termos de origem asiática. 


O surto de um tipo especial de literatura, conhecida como literatura de viagens, 
evidenciou-se pelo grande número de cartas descrevendo itinerários, relatórios, 
diários e, evidentemente, crónicas de tipo histórico. Os maiores autores deste 
género que viveram e trabalharam depois de 1550 foram Diogo do Couto (1542- 
1616) e Manuel de Faria e Sousa (1590-1649), mas a única maneira de apreciar 
devidamente a riquíssima literatura inspirada pela expansão ultramarina consiste 
em mergulhar nos inúmeros opúsculos, ensaios descritivos, cartas e outros textos, 
escritos por centenas de viajantes, alguns de real mérito literário. As Cartas do 
Japão suscitaram grande entusiasmo, como também as narrativas de naufrágios, 
parte das quais foram com- 


476 O império tridimensional 


piladas no século xviii sob o título de História Trágico-Marítima. Muitos destes 
ensaios e livros acharam tradutores por toda a Europa, publicando-se em latim, 
italiano, espanhol, holandês, inglês, alemão, francês, etc. 


Arse Devem igualmente salientar-se as realizações artísticas dos 


Portugueses na Ásia. Fundiram as tradições europeia e asiática em exemplos 
notáveis de arquitectura, escultura, pintura e decoração. Cidades importantes 
como Goa e Macau tornaram-se exibições de magnificência artística, por toda a 
parte revelada. É verdade que os Portugueses destruíram também alguns belos 
exemplos de arte local - sobretudo em Goa - que mostraram não compreender 
nem respeitar, relacionando-os com as «abomináveis» práticas pagãs (tal como os 
Espanhóis fizeram na América). Contudo, substituíram monumentos por 
monumentos e dotaram a índia e a China com alguns magníficos exemplos de 
arte renascentista, maneirista e barroca. 


A construção de cidades contou-se entre as suas principais realizações. Se, em 
certos casos, se aceitaram os padrões locais de urbanismo, em muitos outros 
houve que traçar novos planos e construir do nada. Para tal fim serviram os 
princípios renascentistas de construção urbana, adaptados às circunstâncias 
locais. Goa, a capital do Império, Baçaim, Macau e outras constituem bons 
exemplos disso, Sempre que os Portugueses decidiam fixar-se num dado ponto, 
imediatamente tentavam criar uma réplica das suas cidades ou aldeias natais. É o 
que claramente se observa na maioria das cidades portuguesas da índia, 
sobretudo naquelas (como Goa, Damão e Diu) onde a colonização se manteve 
durante séculos. 


A arquitectura militar foi porventura a mais abundante, desde Moçambique até 


Macau. Ainda existem fortalezas, torres e portas em lugares como Damão, Diu, 
Mombaça, Etiópia, etc. Edificaram&se também igrejas e conventos um pouco por 
toda a parte, sobretudo em Goa (a Sé, a igreja de S. Francisco, a igreja da Graça, 
o mosteiro de S. Paulo, etc.) em Macau (igreja de S. Paulo, igreja da 
Misericórdia), em Damão e em Diu. Outras formas artísticas abrangeram trabalhos 
em talha, escultura em pedra e em madeira, pintura, azulejaria e outra cerâmica, 
in- 


O Oriente 477 


cluindo porcelana, ourivesaria, trabalho em marfim, têxteis, mobiliário, tapeçaria, 
etc. A chamada arte indo-portuguesa, florescente nos séculos xvi, xvii e xvili, 
revelou enorme originalidade, resultando da fusão das concepções europeias com 
os modelos e influências locais. 


Bibliografia -A melhor visão de conjunto sobre o Império português na Ásia deve- 
se a Charles R. Boxer, The Portuguese Seaborne Empire, 1415-1825, Londres, 
Hutchinson & Co., 1969. Mostram-se envelhecidos os trabalhos escritos por Jaime 
Cortesão para a História de Portugal, vol. V («O Império Português no Oriente», 
pp. 319-89), Barcelos, 1933, e vol. VI («As colônias do Oriente», pp. 639-72), 
Barcelos, 1934 (2.a edição nas Obras Completas do autor). Depois de 1643, o 
melhor estudo de síntese (para qualquer aspecto) foi produzido por Vitorino 
Magalhães Godinho, para The New Cambridge Modem History, vol. V, The 
Ascendaney of France 1648-88, Cambridge University Press, 1961, pp. 348-97 
(«Portugal and her Empire»). A Históriw da Expansão Portuguesa no Mundo, 
dirigida por Antônio Baião, Hernâni Cidade e Manuel Mú rias, vols. Il e III, Lisboa, 
Ática, 1939-40, inclui alguns artigos de utilidade. O mesmo se diga do tantas 
vezes mencionado Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, 
vols. | a IV (ef., por ex., «Finanças», «Oriente», «Asla», «India», «Jesuítas», etc.) 
Alguns artigos de primeiro plano, feitos por Vitorino Magalhães Godinho, foram 
compilados no vol. Il dos seus Ensaios, Lisboa, Sá da Costa, 1968. 


Sobre relações étnicas, veja-se, de Charles Boxer, além do livro já antes Indicado, 
Race Relations in the Portuguese Colonial Empire 1415-1825, Oxford, Clarendon 
Press, 1963. Ao mesmo autor se deve unia excelente monografia sobre aspectos 
da administração local: Portuguese Society in the Tropics. The Municipal Councits 
of GOa, Macao, Bahia and Luanda 

1510-1800, Madison e Milwaukee, The University of Wisconsin press, 1965. 
Devido à escassez de monografias sobre assuntos administrativos, ainda prestam 
bons serviços algumas fontes do tipo do Livro das Cidades e Fortalezas que a 
Coroa de Portugal tem nas partes da India, editado por Fyan. cisco Paulo Mendes 
da Luz, Lisboa, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1960. Sobre comércio 
e moeda veja-se, além das obras mencic>. nadas, Vitorino Magalhães Godinho, 
Os Descobrimentos e a Economia Mundial, vols. | e Il, Lisboa, Ática, 1963-71. 
Acerca de finanças encontra-se algum material útil no Orçamento do Estado da 
India (1574) feito por mandado de Diogo Velho, Vedor da Fazenda da, India, 
editado por Âguedo, de Oliveira, Lisboa, 1960. 


A expansão cristã continua à espera do seu historiador, mas muito material foi já 
acarretado por Fortunato de Almeida na sua História da Igreja em Portugal, 20- 
ed., vol. II, Porto, 1968. Sobre a Imprensa no Japão VcJa-se Wichi Mat;suda, The 
Relations between Portugal and Japan, Lisbon, Junta de Investigações do 
Ultramar, 1965. A expansão da língua portuguesa 


478 O Império tridimensional 


no Oriente consagrou David Lopes um trabalho magistral, A Expansão da Língua 
Portuguesa no Oriente nos Séculos XVI, XVIl e XVlll, Barcelos, Portucalense, 
1936. 


Sobre literatura, consulte-se o manual de António José Saraiva e óscar Lopes, 
História da Literatura Portuguesa, 2.a ed., Porto, s/d. Existe uma edição moderna, 
devida a Antônio Sérgio, da História Trágico-Marítima, compilada por Bernardo 
Gomes de Brito, 3 volumes, Lisboa, Editorial Sul, 

1955-56. 


Macau e o Extremo Oriente foram exaustivamente estudados por Charles R. 
Boxer, Fidalgos in the Far East 1550-1770, 2.(O* edição, Oxford UniversiOy 
Press, |I-long-Kong, 1968; The Christian Century in Japan 1549-1650, Calífornia 
and Cambridge University Press, 1951; The Great Ship ffom Amacon. Annals of 
Macao and the old Japan trade, 1555-1640, Lisboa, Centro de Estudos Históricos 
Ultramarinos, 1959. Sobre a Etiópia, pode ver-se Gírma Beshah e Merid Wolde 
Aregay, The Question of the Union of the Churches in Luso-Ethiopian Relations 
(1500-1632), Lisbon, Junta de Investigações do Ultramar e Centro de Estudos 
Históricos Ultramarinos, 1964. 


2 - Brasil 
Durante mais de dois séculos, a história do Brasil foi, acima Explorações 


Para de tudo, a história de um esforço desesperado para encontrar o interior ouro. 
Os Espanhóis haviam-no encontrado, e também prata, no México e no Peru. Os 
Portugueses não podiam habituar-se à ideia de que o seu quinhão de mundo 
americano não incluísse metais preciosos. Para tal, efectuaram tentativa após 
tentativa, seguiram toda a casta de pistas, sofreram sacrifícios inacreditáveis para 
efectivar a penetração da selva, das montanhas e dos rios. Ao contrário da África, 
onde, até ao século xix, as viagens de exploração para o interior se mostraram 
sempre tímidas ou esporádicas, o Brasil foi extensivamente viajado pelos 
pioneiros portugueses durante as centúrias de Quinhentos e Seiscentos. Como 
consequência, as fronteiras do Brasil de hoje haviam praticamente sido atingidas e 
definidas já por 1638. Ligadas uma à outra, as bacias dos rios Amazonas e 
Paraná-Paragua! permitiam como que a circum-navegação de um imenso território 
e o estabelecimento de contactos com os vizinhos espanhóis. Os limites do Brasil 
estabeleceram-se, muito simplesmente, onde se encontravam Espanhóis fixados, 


os quais nunca avançaram para oriente tanto quanto os Portugueses o fizeram 
para ocidente. Pode assim dizer-se que foi o ouro quem criou as fronteiras do 
Brasil, embora a estrutura da sociedade e da economia brasileiras fossem nascer, 
antes, do açúcar e (mais tarde) do tabaco e do algodão. 


As explorações para o interior começaram, em geral, a partir de centros de 
povoamento existentes no planalto de Piratininga, 


31 
480 O Império tridimensional 


localizado assaz perto da costa. S. Paulo, fundada em 1554 pelo padre jesuíta 
Manuel da Nóbrega e, durante muito tempo, cidade de fronteira, tornou-se talvez o 
mais importante desses centros. Ilouve, porém, muitos outros, em S. Vicente, em 
Porto Seguro, na Bala e em Pernambuco. A partir de todos eles, os exploradores 
seguiam os cursos dos principais rios, sempre que os achavam navegáveis: o S. 
Francisco, o Jequitinhonha, o Rio Grande, o Iguaçú, o Uruguai, o Paraná, o 
Paraguai e a vasta bacia do Amazonas. Mas se os rios, eventualmente, não 
serviam de caminho para onde se desejava, então a via era por terra, pela; selva 
até, se necessário, seguindo as veredas dos índios ou criando-as novas. 


Esta segunda «descoberta» do Brasil foi unia autêntica epopeia, cheia de heróis e 
mártires desconhecidos, de exploradores anónimos, assinalada por massacres 
periódicos por parte dos indígenas (que faziam o que podiam para matar e, muitas 
vezes, comer os seus invasores), pelos inevitáveis ódios, rivalidades e intrigas 
entre os Portugueses, fracassos constantes e marchas-atrás, mas também por 
magníficos resultados. 


Na segunda metade do século xvi, os Portugueses atingiram as nascentes do S. 
Francisco e o Jequitinhonha, explorando a maior parte das respectivas bacias. 
Entre a senda traçada pelo Uruguai-Paraná e a linha da co 'sta, a maioria do Brasil 
de hoje tornou-se território conhecido. Um proprietário de S. Vicente, Brás Cubas, 
chefiou ou organizou uma famosa expedição em 1560-61 (seguida por outra, em 
1561-62), encontrando as primeiras amostras de ouro. No Norte, expedições 
importantes devassaram a maior parte do interior, até ao Amazonas. Paraffia foi 
fundada em 1585, seguida por Natal (1597), Ceará (1612) e Belém (1615). De 
todas estas fundações iria partir gente para novas jornadas ao interior. 


As bandeiras Para muitas das expedições, a organização estabelecida obedecia à 
tradição militar portuguesa dos finais da Idade Média e do século xvi: formava-se 
uma bandeira, ou companhia de 250 pessoas com sua insígnia própria, também 
chamada bandeira. No Brasil, este nome aplicou-se a grupos mais pequenos, 
pelos fins do século xvi, sobretudo no Sul (no Norte, cnamava-se antes 


BraM 481 


jorwdas às expedições para o interior). Bandeiras e jornadas podiam ser 
organizadas por magistrados locais, por oficiais do exército, e até por altos 
funcionários, incluindo o governador-geral (o governador Francisco de Sousa, 
1591-1602, por exemplo, desempenhou papel relevante neste movimento). O fito 
das expedições era buscar ouro, prata, pedras preciosas, escravos, etc. Em certos 
casos, o objectivo podia simplesmente consistir em actos de punição e represália 
contra os índios ou em empresas militares contra Franceses e Holandeses. Outras 
bandeiras, porventura as mais importantes de todas, visavam um propósito 
político, a definição das fronteiras. 


Os mapas portugueses dos séculos xvi e xvii, copiados pela cartografia holandesa 
e de outros países, tendiam a representar o Brasil com uma grande ilha, 
completamente rodeada por dois vastos rios, o Amazonas e o Paraná, ambos 
nascendo num enorme lago. Este mito geográfico da « ilha Brasil» tinha um 
significado político muito preciso: dava ao Império Português na América do Sul 
uma base geográfica e servia os propósitos do imperialismo português contra o 
seu vizinho espanhol. «Circum-navegar» o Brasil com objectivos políticos tornou- 
se assim um desejo bem definido de muitas expedições. 


Durante o século xvii, as bandeiras foram indo cada vez mais longe em seus 
propósitos. Em 1637-38, Pedro Teixeira explorou o Amazonas, alcançando o Peru. 
António Raposo Tavares, funcionário público de nome em S. Paulo, dirigiu várias 
expedições importantes a partir de 1627. Na última delas e maior de todas (1648- 
51), Raposo Tavares, saindo de S. Paulo com destino a ocidente, seguiu o curso 
do rio Tietê até ao Paraná, passando depois deste último para o Ivenheima, o 
Miranda e seguidamente por terra até ao Rio Grande ou Guapaí, na bacia 
amazónica. Descendo o Mamoré (na Bolívia actual) e o Madeira, alcançou o leito 
principal do Amazonas, que finalmente o levou até Belém. Estava assim «circum- 
navegada» a pseudo-ilha. Muitos outros bandeirantes, como Fernão Dias País 
(1638) e Luís Pedroso de Barros (1656) deixaram os seus nomes assinalados pela 
fama dos empreendimentos que dirigiram. 


482 O Império tridimensional 


Os estrangeiros Contudo, na constituição definitiva do Brasil levantaram-se 
igualmente obstáculos à expansão de Portugal. As incursões de Franceses e 
Holandeses, bem como a contra-expansão espanhola impediram que as fronteiras 
brasileiras se alargassem para noroeste e para sudoeste e, por algum tempo, 
ameaçaram a existência do próprio Brasil. 


Os Franceses foram os primeiros a atacar a América do Sul. Em 1555, o dirigente 
protestante francês Villegaignon fixou-se na bala de Guanabara e lançou os 
fundamentos daquilo a que, na Europa, se chamou França Antárctica. Durante o 
governo de Mem de Sã, os Portugueses contra-atacaram de 1560 a 1567, até 
conseguirem expulsar de todo os Franceses. Outros grupos, todavia, longe de 
desencorajados pelo primeiro insucesso dos seus compatriotas, estabeleceram-se 


no Norte (Paraíba e Maranhão) onde fundaram Saint Louis (hoje S. Luís) em 1594. 
Os Portugueses organizaram diversas expedições para os desalojar, mas houve 
que esperar até 1615 para conseguir a total rendição dos colonos franceses. 


Só na região do noroeste, onde nem Portugal nem a Espanha tinham quaisquer 
estabelecimentos, é que os esforços da França se mostraram bem sucedidos. 
Colonos franceses fixaram-se aí, já em 1626, fundando Cayenne (na actual 
Guiana Francesa). Deve salientar-se, porém, que os Franceses, ao contrário dos 
Holandeses, se mostravam interessados na colonização, preferindo regiões que 
Portugal houvesse deixado desertas. 


Aos Franceses sucederam-se os Ingleses e os Holandeses. Os primeiros 
dedicaram-se ao ataque de navios mercantes ou a razias contra povoados 
costeiros (Santos, 1582 e 1591; Bala, 1587; Recife, 1595). Os segundos 
revelaram-se mais perigosos para a soberania portuguesa no Brasil. Vinham para 
conquistar e para senhorear cidades e áreas já preparadas por décadas de 
colonização portuguesa-e, portanto, com boas perspectivas de lucro no comércio 
e na agricultura. Atacaram pela primeira vez em 

1598. Baía, ao tempo a capital do Brasil, esteve sob o seu fogo desde 1599. Mas 
foi só a partir da década de 1620 que aos seus esforços corresponderam sucesso 
e conquista. O governo português - ou, melhor dizendo, o governo de Madrid - 
tinha poucas 


Brasil 483 


possibilidades então de enviar reforços importantes. Nesses dias, Portugal olhava 
ainda para a Índia como a sua possessão mais valiosa e esforçava-se 
preferentemente por defender o Império Asiático. 


A Baía foi atacada por Jacob Willekens e Piet Heyn, rendendo-se em 1624. Mas 
Portugueses e Espanhóis tiveram ainda força bastante para a recobrar no ano 
imediato. Os Holandeses então, embora não esquecendo a Baía, concentraram 
esforços na área de Pernambuco: Olinda rendeu-se e, pouco depois, o Recife 
(1630). Alargando sucessivamente a sua área de ataque, cobraram o Rio Grande 
do Norte (1633), Paraffia, (1634), a maior parte de Pernambuco (1635), Ceará e 
Sergipe (1637-41) e finalmente o Maranhão (1641). Todo o Nordeste parecia 
perdido para a causa portuguesa. Uma frota de socorro, enviada pelo governo em 
1639 sob o comando do vice-rei Conde da Torre, sofreu derrota em 

1640. Dirigidos pelo governador Johan Maurits van Nassau-Siegen, os 
Holandeses tentaram organizar os seus novos domínios com certo sucesso de 
tipo económico-administrativo. 


A proclamação de D. João IV como soberano de Portugal (1640) veio encontrar 
um problema de difícil solução, tanto no Brasil quanto na Ásia. Depois de uma 
primeira década de hesitações, a Coroa deu-se conta de que, para salvar o Brasil, 
carecia de abandonar a índia. A conjuntura económica de 1642-44, com a queda 
no preço do açúcar no mercado de Amsterdam, ajudou a aumentar o 


descontentamento, já de si religioso e nacional, contra os invasores. Os próprios 
colonos decidiram tomar a situação em mãos e efectivar a guerra contra o* inimigo 
através dos meios de que dispunham. No Recife, os Portugueses revoltaram-se 
em 1645, derrotando os Holandeses em Tabocas. Embora a Bala tivesse sido unia 
vez mais atacada (1647), a maré virava agora a favor de Portugal. O esforço 
principal coube, indubitavelmente, aos colonos locais, conquanto Lisboa houvesse 
mandado o seu auxílio também. No entretanto Angola, a fonte mais importante de 
escravos, fora reconquistada por Portugal. Em 

1648-49, os Holandeses seriam duas vezes batidos na primeira e na segunda 
batalha dos Guararapes. Olinda capitulou (1648), 


484 
O Império tridimensional 
Fig. 52-0 Brasil nos séculos xvi-xvii 


1 - Ataques ingleses; 2 - Ataques franceses; 3 - Ataques holandeses; 
4 - Área efectivamente colonizada; 5 - Principais centros de penetração para O 
interior; 6 - Novas fundações; 7 - Datas dos principais eventos militares; 8 - Datas 
da fundação de novas cidades; 9 - Direcções da penetração; 10-0 «Brasil 
holandês»; 11-Percurso da grande bandeira de Raposo Tavares; 12- Limites da 
colonização portuguesa; 13-Batalhas campais contra os Holandeses. 


Brasil 
485 
e por fim o Recife (1654) com todo o território outrora perdido a favor da Holanda. 


O surto do Brasil no fim do século xvi e no século xvii de- População nota-se 
perfeitamente pelo acréscimo populacional: dois mil portugueses apenas na 
década de 1540, 25 000 ao findar a centúria, com exclusão de quase 20 000 
indígenas civilizados, 14 000 escravos negros e outros muitos mestiços. Tais 
cifras haviam provavelmente duplicado pelos meados do século xvii. Os 
emigrantes vinham sobretudo de Portugal, com o Noroeste e a Beira a produzirem 
os maiores contingentes. No Sul do Brasil* (particularmente em S. Paulo), havia 
muitos espanhóis, andaluzes acima de tudo - alguns vindos directamente da 
Europa, outros via América Espanhola - e, espalhados aqui e além, existiam 
grupos de flamengos, italianos, alemães e ingleses, todos católicos. Vieram 
também alguns cristãos-novos, ligados parcialmente ao comércio açucareiro. As 
capitanias da Bala e de Pernambuco distanciaram-se bem depressa das demais, 
quer em população, quer em relevo económico: 12 000 brancos na Baía em 1583 
contra 

8000 em Pernambuco e apenas 1500 na terceira capitania em importância, a de 
S. Vicente. 


Olhando para um mapa da colonização portuguesa no Brasil nessa época, o que 
imediatamente salta aos olhos é a estreitissinia franja de território costeiro que fora 
efectivamente conquistado. Até 1650, nem sequer a linha de costa estava 
plenamente colonizada. Só nas zonas de S. Paulo e do Rio de Janeiro é que a 
penetração portuguesa ia além dos 100 km. O Brasil revelava-se eriçado de 
dificuldades, falho de toda a estrutura civilizada pre-portuguesa (ao contrário do 
México e do Peru), necessitando de ser construído praticamente do nada. 


A escassez de mulheres brancas, as condições de vida tão Miscegenal próximas 
da natureza em que os colonos encontravam os índios, o surto da escravatura, 
tudo isso levou a uma miscegenação crescente, sem paralelo em outra qualquer 
parte do Império Português, exceptuada porventura Cabo Verde. Do cruzamento 
de brancos e pretos resultaram os mulatos que, breve, se tomavam em maioria 
dentro da população brasileira. Brancos e índios produ- 


486 O Império tridimensional 


ziam os niamelucos. Não quer isto dizer que não houvesse preconceitos rácicos 
na coloffização portuguesa do Brasil. A mestiçagem derivava das necessidades da 
natureza e não da igualdade de raças ou de. filosofias que a proclamassem. Os 
brancos consideraram-se sempre acima de todos os outros, preenchendo a 
maioria dos cargos de comando, embora a tolerância e o respeito para com 
mulatos e mamelucos alcançasse no Brasil níveis elevados como porventura em 
nenhuma outra parte. 


Evangelizafão A condição dos índios e dos pretos foi sempre baixa, mesmo 
e condição 
11,1 Ildio ante a expressa protecção da lei que, desde muito cedo, se ocupou 


dos primeiros. Os missionários cristãos acharam no Amerindio terreno ideal para 
os propósitos evangelizadores. Conseguiram arregimentar pequenos núcleos de 
indígenas e fixá-los em aldeias e reduções (grupos de aldeias) sob a sua chefia 
directa. Os Jesuítas mostraram-se particularmente bem sucedidos neste tipo de 
actividade, aumentando muito o número das suas aldeias desde os finais do 
século xvi. O sistema por eles adoptado consistia em tratar os conversos como 
adolescentes e só com enorme relutância deixavam que os seus «alunos» 
trabalhassem para os colonos brancos até porque estes não cumpriam geralmente 
os contratos que haviam estipulado. Procuravam, por estes e outros meios, 
defendê-los da «corrupção» e escravização. 


Dos pontos de vista religioso e humanitário, como até do etnológico, as aldeias 
revelaram-se experiências do maior interesse. Contudo, não tinham condições 
para sobreviverem numa sociedade de fronteira como era a do Brasil. Os colonos 
queixavam-se de que lhes roubavam a mão-de-obra indispensável para o 
desenvolvimento de uma economia de tipo colonial. Frequentes vezes atacavam 


as missões, destruífam-nas e reduziam à escravidão os índios. Muitas bandeiras 
houve que não tiveram outro objectivo. Os Jesuítas replicavam arregimentando os 
Ameríndios em grupos paramilitares e opondo-se à interferência de fosse quem 
fosse nas suas aldeias. Organizou-se assim uma autêntica resistência local ao 
avanço do colono. Gradualmente a Companhia de Jesus, apoiando-se nas 
massas indígenas, criou um Estado seu dentro do Brasil, que punha em xeque a 
própria autoridade da Coroa. 


Brasil 487 


Ao nível superior, tanto Jesuítas como outros missionários realizaram os seus 
propósitos, graças à enorme influência que tinham na corte. Sucessivas leis 
protegeram os Ameríndios durante quase duzentos anos. Quer na América 
portuguesa quer na espanhola, Igreja e Estado interditaram a escravização de 
indígenas desde épocas relativamente antigas. Em 1570 o governo de Lisboa 
proibiu-a, excepto em caso de guerra «justa» ou em relação a canibais. Esta lei foi 
confirmada numerosas vezes, particularmente em 1609, 1612, 1647 e 1649. A 
bula papal de 1639 excomungava todos os católicos que ousassem traficar em 
índios. Apesar de medidas como estas, as realidades mostravam-se bem 
diferentes. Leis e regulamentos locais alteravam ou sofismavam o valor absoluto 
de proibições teóricas decretadas na Europa. A política de protecção aos 
Amerindios teve os seus altos e baixos consoante a maior ou menor influência 
jesuítica quer em Portugal quer no próprio Brasil. Porque períodos houve, embora 
curtos, em que a Companhia chegou a ser expulsa, de S. Paulo (1640 a 1653), 
Santos (1640 a 1642) e Maranhão-Pará (1661 a 

1663). O Padre António Vieira, defensor máximo dos direitos dos Ameríndios 
durante todo o século xvii, caiu em desgraça por diversas vezes, sendo até preso. 
E, apesar de tudo, a escravização continuou. 


Colonos e missionários conseguiram, não obstante. atingir A eseravato uma 
espécie de compromisso que, em boa verdade, representava “ 191,4 contradição 
total relativamente à política de não-escravização. Esse compromisso assentou na 
importação de mão-de-obra negra da África. Ao contrário da anterior, a 
escravatura negra jamais foi condenada, embora homens como António Vieira 
tentassem proteger os pretos contra o despotismo ilimitado de seus senhores. Os 
colonos, por seu turno, depressa se deram conta de que os Africanos faziam 
escravos muito melhores do que os índios, sendo mais fortes, mais disciplinados e 
mais persistentes. 


A importação de escravos de África aumentou desde a década de 1570. Até finais 
da centúria, a maior parte dos escravos provinha da região da «Guiné» (ou seja, 
do Sudão). Tornaram-se mais tarde predominantes os escravos angolanos e 
congoleses, até cerca de 1660 (durante o período em que os Holandeses 

488 O Império tridimensional 


ocuparam Angola, Moçambique substituiu-a, como fonte de escravatura) vindo, 


por fim, indistintamente de uma e outra áreas. 

O desenvolvimento da produção açucareira foi a principal razão para importar 
escravos. Cada engenho de açúcar exigia um mínimo de oitenta escravos, além 
das centenas que tinham de trabalhar nos campos. Ora, o número de engenhos 
decuplicou dos meados do século xvi aos finais do século xvii. 


É difícil de calcular o número total de escravos importados pelo Brasil nesse 
tempo: pelo menos uns 50 000 devem ter chegado entre 1570 e 1600, seguidos 
por uns 200 000 mais entre 1600 e 1650, e uns 150 000 entre 1650 e 1670. 
Portanto, a média anual das importações terá aumentado de mais de 1600 no 
primeiro período para 4000 no segundo e para 7500 no terceiro. Em conjunto, as 
poucas estatísticas existentes sugerem que viviam no Brasil, por 1570, 2000 a 
3000 negros, cifra que subira para 13 000 a 15 000 por volta de 1600. As 
condições de transporte através do oceano mostravam-se simplesmente 
dramáticas, morrendo muitas vezes metade do carregamento humano durante o 
percurso ou pouco depois da chegada. Os escravos eram baptizados antes do 
embarque. 


O açúcar Escravatura e plantações de açúcar tinham-se por inseparáveis. Na 
verdade, a grande cultura do Brasil dos séculos xvi e xvii, aquela que promoveu a 
colonização e a ocupação do solo, atraindo colonos de variadas partes, foi a da 
cana-de-açúcar. Espalhou-se por toda a América portuguesa, com os seus centros 
principais em Pernambuco, na Baía e (nos meados do século xvii) no Rio de 
Janeiro. O número de engenhos de açúcar testemunha claramente o progresso da 
cultura: um em 1533, 60 em 1570 (23 em Pernambuco, 18 na Bala), 130 em 1585 
(65 em Pernambuco, 45 na Bala, 3 no Rio), 170 em 1612, 346 em 1629 (150 em 
Pernambuco, 80 na Baía, 60 no Rio), 300 em 1645 (com parte do Brasil em mãos 
holandesas), mais de 400 nos fins da centúria, sendo metade em Pernambuco e a 
outra metade quase igualmente dividida entre a Baía e o Rio. Diversas inovações 
técnicas, introduzidas do Peru em 1608-12, desenvolveram, tanto a produção 
quanto a qualidade do açúcar, o qual era expedido, via Lisboa, para quase toda a 
Europa. As cifras da exploração revelam 


Brasil 
489 


este acréscimo notável do produto brasileiro: 180 000 arrobas Q arroba= 15 kg 
aproximadamente) em 1560-70, o dobro em 1580, novamente o dobro em 1614 
(com anos ainda mais favoráveis no entremeio), mais de um milhão de arrobas no 
começo da década de 1630, dois milhões e meio e mais em 1650-70. O surto do 
Brasil como o maior produtor de açúcar nesses dias arruinou por completo a 
economia açucareira da ilha da Madeira, compensando, por outro lado, o declínio 
do comércio com o Oriente. Foi o açúcar que permitiu à Coroa portuguesa 
abandonar a índia sem perturbações de maior para a economia da metrópole e 
sem grandes preocupações quanto ao futuro. 


A 


Conquanto o açúcar estivesse, e de longe, à cabeça da economia do Brasil, 
muitas outras produções traziam receita importante para a colónia. Vinham em 
primeiro lugar os escravos, de que já foi feita menção, e logo o pau-brasil, cujo 
corte continuou a render bons lucros para a Coroa, os homens de negócio e os 
proprietários. A expansão do seu comércio não só acarretou unia descida continua 
de preço a partir de 1591 -como também ameaçou de extinção as próprias 
árvores. Para evitar tal facto, a Coroa resolveu conceder o monopólio do corte aos 
Jesuítas, que o conservaram durante mais de vinte anos (1625-49). Até aos 
começos do século xvii, o número médio da exportação anual ultrapassava os 10 
000 quintais. Nos meados da centúria, as exportações haviam baixado para 
metade daquela cifra. ou até para menos. 


Outras produções lucrativas; eram o algodão e o tabaco. Tem interesse verificar 
que o algodão, que mais tarde traria ao Brasil nova fonte de prosperidade, se 
encontrou em decadência durante o século xvii (devido à concorrência de 
Veneza), depois de uma expansão prematura na segunda metade da centúria de 
Quinhentos. O tabaco é que nunca parou de se desenvolver. A sua grande época 


começaria só a partir de 1650 mas podia ser já prenunciada muito antes. 


Não se esqueça ainda a criação de gado, que não apenas implicava bons lucros 
como também influfa de maneira relevante 


O pou-brai 

Algodão e t-o 

Criação de gado 

490 

O Império tridimensional 


no acréscimo das áreas povoadas. Como o boi se mostrava necessário para o 
trabalho nas plantações e como o cavalo servia todos os fitos de transporte e de 
defesa, não admira que, em redor das fazendas, se implantasse e depressa 
desenvolvesse a criação de gado. Durante todo o século xvii foi-se a pouco e 
pouco espalhando pelo interior, na bacia do S. Francisco e na região de S. Paulo. 
Daqui, conquistou os vastos planaltos do Brasil central. A partir de 1640, a colónia 
pôde deixar de importar carne e couros da metrópole, das ilhas de Cabo Verde e 
do Rio da Prata, para os começar a exportar. Todavia, o grande período da 
pecuária brasileira só se iniciaria por volta de 1670. 


Receitas. Em suma, o Brasil convertera-se em grande colónia de Organização 
povoamento, com um futuro fantástico tanto para a colonização do comércio 


como para o comércio. A marcha dos rendimentos da Coroa revela-o sem 
SOrAbra de dúvida: 26 400 cruzados em 1588, 84 000 em 1607, 108 800 em 


1619, e quase o dobro em 1640. Era ainda menos do que a índia mas crescia num 
ritmo bem mais acelerado. As despesas orCl.narias mostravam-se muito inferiores 
(22 835 cruzados em 1584, 18 744 em 1588, 38 294 em 1607), o que augurava 
um bom saldo para a Coroa quando a paz voltou, na década de 1650. 


As receitas do Estado derivavam dos meios usuais. A Coroa possuía o monopólio 
do comércio do pau-brasil, bem como os dos escravos, das especiarias e das 
drogas. Renunciou a eles, no Brasil como na índia, durante a segunda metade do 
século xvi. Após um curto período de liberdade de comércio (com impostos pagos 
à Coroa), tornaram-se costumados os monopólios periodicamente concedidos às 
companhias particulares ou a entidades privadas (sistema dos contratos ou 
asientos). O tráfico dos escravos estava já assim organizado em 1573 e nunca 
mudou desde então, devendo os contratadores pagar à Coroa uma soma anual de 
22 000 a 80 000 cruzados. A maior parte desses contratadores eram portugueses, 
com a participação de uns quantos cristãos-novos estabelecidos fora do País. O 
comércio do pau-brasil variou quanto ao sistema: houve contratos até 1612, 
seguidos por uma espécie de «régie» (1612-25, 1640-45) e logo por contratos 
outra vez (1625-40, 1645-49). A partir de 1649, a recém- 


Brasil 
491 


“fundada Companhia para o Comércio do Brasil tomou conta de todo o tráfico 
daquela madeira. 


O trato do açúcar era livre, como livres eram os do algodão, tabaco e outras 
mercadorias, tendo somente os exportadores de pagar ao tesouro as habituais 
taxas aduaneiras. Rendosas se mostravam também as dizimas que todo o produto 
do solo devia pagar à Ordem de Cristo, isto é, ao governo. A indústria açucareira 
estava ainda mais tributada em outros pormenores. 


Culturas como o açúcar, o tabaco e o algodão, a criação de gado, etc., que davam 
força e prosperidade à colónia, favoreciam o surto do latifúndio e o crescimento de 
uma classe de ricos proprietários e plantadores. De facto, o sistema feudal de 
economia que o regime das donatarias introduzira no Brasil não fez senão 
desenvolver-se durante os séculos xvi e xvii. As sesmarias, à boa maneira 
portuguesa, que os «capitães» concediam a um colono, converteram-se em 
vastas plantações. Mas os seus senhores (senhores de engenho) só directamente 
exploravam parte delas, subconcedendo o resto a outros colonos ou rendeiros 
(lavradores) por um número fixo de anos. O senhor de engenho era um autêntico 
senhor feudal, com sua hoste de parentes, lavradores, artífices, clientes e 
escravos trabalhando para ele e dele dependendo. O engenho equivalia a uma 
perfeita aldeia, uma «villa» segundo a antiga terminologia, com a sua casa grande 
(sede da administração), suas dependências, a senzala onde viviam os escravos, 
a capela, etc. A maneira das antigas unidades feudais, a plantação tendia a ser e 
procurava ser auto-suficiente, reduzindo ao mínimo as importações mas - 


característica menos feudal - esforçando-se por conseguir um máximo de 
exportações. Os pequenos proprietários baseavam a sua existência e os seus 
lucros em outras culturas, como fossem a mandioca. 


Do ponto de vista administrativo, uma modificação importante ocorrera no final da 
década de 1540: o estabelecimento de um governo geral para todo o Brasil. A 
falência de muitas capitanias, os crescentes ataques do corso estrangeiro, 
nomeadamente o francês, o exemplo de outras possessões portuguesas, a 


tendência geral da política metropolitana, tudo, enfim, conduziu 
492 o Império tridimensional 


à lei de 1548 que criou o governo geral para o Estado do Brasil e nomeou como 
seu primeiro governador-geral Tomé de Sousa, um nobre aparentado com o 
antigo capitão Martim Afonso de Sousa. O governador-geral devia construir a nova 
capital do Brasil, Baía, providenciar sobre a sua defesa apropriada, visitar as 
capitanias (que não eram extintas mas ficavam sujeitas à sua autoridade), 
promover a exploração do país, interferir em assuntos económicos, ocupar-se das 
boas relações com os indígenas, estabelecer alfândegas, servir de juiz em feitos 


cíveis, etc. 


Auxiliando o governador e constituindo uma espécie de ministério existiam um 
ouvidor-geral com funções judiciais, um provedor-mor, um capitão-mor da costa 
encarregado de a defender, um tesoureiro das rendas, um almoxarife dos 
mantimentos e um mestre das fortificações, com seus secretários, técnicos e 
artífices. Em 1578 foi fundada na Baía unia Relação, modelada na de Lisboa, e 
servindo de tribunal supremo para todo o Brasil. Diversas reformas aperfeiçoaram 
aos poucos o seu funcionamento. Extinta em 1626, a Relação voltou a reaparecer 
em 1652. 


Tomé de Sousa chegou ao Brasil nos começos de 1549, iniciando uma nova 
época na história da grande colónia. O governo geral gizou o enquadramento do 
moderno Brasil, esboçando a sua organização como nação. Deu-lhe unidade, uma 
burocracia centralizada, uma capital, um dirigente supremo, continuidade 
governativa. Ao contrário da índia, os governadores do Brasil eram conservados 
em funções por períodos geralmente grandes: Tomé de Sousa e seu sucessor 
Duarte da Costa governaram apenas quatro anos cada, mas já Mem de Sã, que 
veio depois, se aguentou no poder durante quinze anos (1557-72). Mais tarde, o 
governador Francisco de Sousa esteve à frente do Brasil durante onze anos 
(1591-1602). Tal como na índia, todos os governadores pertenciam à alta nobreza, 
mas não tão alta como a dos vice-reis do Oriente no mesmo período. Não há 
dúvida de que o Brasil era ainda encarado como inferior ao Oriente dos pontos de 
vista político, económico e social. De quando em quando, concediam-se títulos de 
vice-rei aos governadores-gerais, mas só em casos especialíssimos e em relação 
a personalidades muito distintas. 


Brasil 493 


A história do governo central teve também as suas peculiaridades: de 1572 a 1577 
e de 1608 a 1612 o Brasil foi dividido em dois governos, o do Norte, com capital na 
Bala (até Ilhéus) e o do Sul, com capital no Rio. Depois, em 1621, após a expulsão 
definitiva dos Franceses do Maranhão, o governo de Lisboa-Madrid achou 
conveniente, para efeitos tanto de defesa quanto de exploração, estabelecer um 
novo Estado com capital em S. Luís, o do Maranhão, estendendo-se do rio 
Amazonas ao cabo de S. Roque e compreendendo as capitanias do Maranhão, 
Pará e Ceará. O primeiro governador foi Francisco Coelho de Carvalho, nomeado 
em 1626. Este Estado do Maranhão iria durar cento e cinquenta anos (com uma 
breve extinção em 1652-54), trazendo alguns benefícios para o desenvolvimento 
dos territórios que o compunham, onde novas unidades administrativas se foram 
criando (Tapuitapera ou Cumã; Gurupá ou Caetá; Cametá; Cabo Norte; Marajó; 
Xingú). 


Em relação às capitanias, a história do governo-central As capitaijj) denota certas 
semelhanças com a história da Europa na época do fortalecimento do poder real. 
A Coroa comprara ou anexara algumas capitanias nos meados do século xvi, tais 
a Baía e o Rio de Janeiro, o que dava ao governador-geral uma espécie de base 
de operações, um «domínio» real no Brasil. Em outros casos estabeleceram-se 
novas capitanias, da Coroa, em territórios que os primitivos capitães nunca haviam 
colonizado: Paraffia, nas décadas de 1570 e 1580, Rio do Norte e Sergipe nos 
finais da centúria. No Maranhão, a maior parte da terra pertencia à Coroa. Mas, 
em qualquer dos casos, os poderes dos capitães hereditários foram gradualmente 
declinando, à medida que o Brasil se tornava cada vez mais um objecto de 
cuidado e de interesse por parte da metrópole. Durante o século xvii, acentuou-se 
a tendência para converter a capitanias em simples províncias para efeitos 
administrativos, mau grado as inevitáveis resistências por parte dos atingidos. 
Havia dois tipos de capitanias, a que se poderia chamar de primeira e de segunda 
classe. Estas últimas estavam subordinadas àquelas em assuntos de 
administração e de justiça: assim, Paraffia e Alagoas dependiam de Pernambuco, 


494 o Império tridimensional 


Rio Grande do Norte, Sergipe e Espírito Santo obedeciam à Baía, enquanto S. 
Paulo estava sujeita ao Rio de Janeiro. 


Administração Ao nível da administração local, o facto importante a acen- 
1011-11 tuar foi o rápido. surto e fortalecimento dos concelhos, numa 


época em que, na metrópole, eles se encontravam em plena decadência. Através 
de todo o Brasil fundaram-se sucessivas Câmaras à moda portuguesa, com 
pessoal e órgãos semelhantes mas maior poder e importância. As Câmaras 
mostravam-se sempre dispostas a lutar, se necessário -e muitas vezes lutaram - 


contra o vice-rei, os governos das capitanias ou os Jesuítas. Esta força derivava 


das condições particulares que o Brasil ofereci 'a nesse 


tempo: país de fronteira, longe da metrópole e longe da cidade-capital, edificado 
sobre as iniciativas de colonos e de exploradores, com um grau muito maior de 
liberdade e de afirmação individualista. 


A Igreja O desenvolvimento do Brasil também se pode atestar pelo 


crescimento do quadro religioso. O bispado da Baía, instituído em 1551, significou 
que a nova colónia atingira a maturidade religiosa. Em 1575, o Sul (do Espírito 
Santo para sul) passou a constituir uma nova diocese subordinada a um 
administrador apostólico, com sede no Rio. 


Contudo, a importância do clero secular não tinha comparação com a das ordens 
religiosas na missão de civilizar e explorar a colónia. Pelo contrário, o que muitas 
vezes acontecia eram conflitos de toda a ordem entre o clero secular e os vários 
níveis da população, desde as autoridades centrais até aos próprios indígenas. 
Deficiente em preparação e em moral, o clero secular enviado para o Brasil 
dispunha de poucas condições para a tarefa que se propunha desempenhar. 
Metia-se ao comércio, possuía escravos, intrigava politicamente, invejoso da força 
e do prestígio demonstrados pelas ordens regulares, mas total. mente incapaz de 
com elas rivalizar. 


A obra dos Jesuítas foi já abordada. No Brasil, a Companhia de Jesus contava 
com o maior número e com os mais empreendedores dos clérigos entre todas as 
ordens religiosas. De 1540 a 1580 seguiram, de Lisboa para o Brasil, dezassete 
mís- 


Brasil 495 


sões de padres jesuítas. Embora a esmagadora maioria tosse de portugueses, 
havia-os de outras nacionalidades também: Anchieta, por exemplo, um 
missionário espanhol notabilissimo. Muitos sofreram o martírio, quer às mãos dos 
Índios quer às dos protestantes franceses e holandeses. 


Grande número de missões fundadas pela Companhia tornaram-se mais tarde- 
cidades de importância: assim S. Paulo, assim a Baía, assim o próprio Rio de 
Janeiro. Os Jesuítas contribuíram igualmente para o surto cultural da colónia, 
estabelecendo escolas tanto para neófitos quanto para portugueses. Quiseram até 
criar uma universidade mas aqui fracassaram. 


Além dos Jesuítas, os Franciscanos e os Carmelitas desempenharam papel de 
relevo na evangelização da grande colónia americana. Os Franciscanos, 
chegados depois de 1580, mostraram-se particularmente activos no Norte. 
Contavam mais de vinte conventos nos meados do século xvii. Os Carmelitas 
vieram pela mesma época mas a sua acção revelou-se sempre de menor 
envergadura. 


Numa terra de fronteira como o Brasil, nunca a cultura Cultura poderia florescer 
muito. Era escasso o número de escolas, como escasso era o número de 
intelectuais e de livros existentes. Não existia imprensa, nem universidade, nem 
sequer seminário. Dominado pelos Jesuítas fundou-se na Baía, na década de 
1570, um Colégio Real das Artes, que solenemente passou a conferir graus desde 
1575. Eram as pasas da Companhia e da ordem de S. Francisco que inclufam a 
maioria das poucas escolas da colónia. Filhos de plantadores que quisessem 
estudar regularmente tinham de ir a Portugal. Aliás, a política cultural da Coroa 
consistia, como consistiu sempre, em centralizar o ensino, forçando todos a 
estudar na metrópole. Do ponto de vista cultural, portanto, as realizações de 
relevo verificaram-se apenas no estudo das línguas e dos costumes indígenas e 
na consequente publicação de gramáticas, vocabulários e catecismos. O mesmo 
se diga do estudo das botânicas, zoologias e geografias locais. As expedições ao 
interior, os esforços dos missionários, a tarefa dos administradores resultaram em 
algumas cartas interessantes, memórias, relatórios e histórias. Mas, no seu 
conjunto, a 


32 
496 O império tridimensional 


produção científica e literária foi pequena e limitada em qualidade, especialmente 
em comparação com a do Oriente. Apesar de toda a sua riqueza e 
desenvolvimento, o Brasil continuava a ser uma colónia de segunda ordem, longe 
de atrair as atenções de uma índia ou de um Japão. 


Com o fenómeno artístico, coisa similar se passou. Menos e menos importantes 
igrejas, mosteiros e edifícios civis foram construídos na América portuguesa 
nesses dias, se comparados com as realizações artísticas da índia ou de Macau. 
Isto explica a relativa pobreza do Brasil actual em monumentos dos séculos xvi e 
xvii, em contraste com grande parte da América espanhola. 


Bibliografia-Os melhores estudos de conjunto sobre o Brasil dos fins do século xv, 
e do século xvii foram porventura os escritos por Jaime Cortesão: «Colonização 
dos Portugueses no Brasil (1557-1640)» e «A integração do território do Brasil», 
na História de Portugal, dirigida por Damião Peres, vol. V, pp. 390-436 e vol. VI, 
pp. 637-741, Barcelos, 1933-34, bem como a sua contribuição para a «Historia de 
América y de los Pueblos Americanos», dirigida por Antonino Ballesteros y 
Bereita, vol. XXVI, Brasil, Barcelona, Salvat, 1956 (2.a edição nas Obras 
Completas do autor). Do mesmo autor vejam-se ainda os artigos publicados no 
diário brasileiro O Estado de S. Paulo em 1947-49 e reimpressos em colectânea 
sob o título de Introdução à História das Bandeiras, 2 volumes, Lisboa, Portugália, 
1964. Entre as histórias gerais do Brasil escritas por historiadores brasileiros, 
vejam-se a História Geral do Brasil do Visconde de Porto Seguro (F. A. de 
Varnhagen), 

5.& ed., 5 volumes, S. Paulo, 1956, e a História Geral da Civilização Brasileira, vol. 


|, «A época colonial», de Sérgio Buarque de Holanda, S. Paulo, 1960. 

O trabalho moderno de Pierre Chaunu, A América e as Américas, traduzido do 
francês sob a direcção de Manuel Nunes Dias, Lisboa-Rio de Janeiro, Cosmos, 
1969 (a edição portuguesa é preferível h versão original francesa, I'Amérique et les 
Amériques, Paris, 1964), mostra-se de certa utilidade, sobretudo por comparar o 
caso brasileiro com o das outras nações americanas. 


Sobre os bandeirantes, a bibliografia é vastissima. O trabalho Clássico foi escrito 
por Afonso E. Taunay, História Geral das Bandeiras Paulistas, 

11 volumes, S. Paulo, 1924-50, com uma versão sumariada na História das 
Bandeiras Paulistas, 2 vols., S. Paulo, 1954. Veja-se uma lista muito completa de 
obras sobre o assunto no Manual Bibliogrdfico de Estudos Brasileiros, dirigido por 
Rubens Borba de Morais e William Berrien, Rio, 1949, artigo «Bandeiras», escrito 
por Alice P. Canabrava, pp. 492-526. Jaime Cortesão dissertou muito sobre as 
bandeiras. Além dos artigos anteriormente citados, veja-se a sua melhor obra 
sobre o assunto, Rapôso Tavares e a formação territorial do Brasil, Rio de Janeiro, 
1958. 


Brasil 497 


Outro clássico a ser consultado é Charles R. Boxer, com as suas excelentes 
monografias sobre a América portuguesa: Portuguese Society in the Tropics. The 
Municipal Councils of Goa, Macao, Bahia and Luanda, 1510-1800, University of 
Wisconsin Press, Madison-Milwaukee, 1965; The Dutch in Brazil, 1624-1654, 
London, 1956; Race Relations in the Portuguese Colonial Empire, 1415-1825, 
Oxford, Clarendon Press, 1953; Salvador de Sã and the struggle for Brazil and 
Angola, Oxford, 1952; The Portuguese Seaborne Empire, 1415-1825, Londres, 
Hutchinson & CO., 1969. 


A administração da justiça foi estudada por Stuart B. Schwartz, Sovereignty and 
Society in Colonial Brazil. The High Court of Bahia and its Judges, 1609-1751, 
University of California Press, Berkeley, 1973. 


Sobre problemas de miscegenação vale sempre a pena ler, para além das obras 
já mencionadas, Gilberto Preire, Casa Grande e Senzala, S. Paulo, 
1933, com várias edições posteriores. 


Os problemas de tipo económico foram, acima de todos, estudados por Frédéric 
Mauro numa obra-prima, Le Portugal et I'Atlantique au XVII, siécle, 1570-1670, 
Paris, Ecole Pratique des Hautes Etudes, SEVPEN, 1960. Vejam-se igualmente 
Caio Prado Júnior, História Económica do Brasil, 

3.a ed., S. Paulo, 1953, e Roberto Simonsen, História Económica do Brasil, 1500- 
1820, 2 volumes, S. Paulo, 1939. Para aspectos sociais consulte-se Caio Prado 
Júnior, Formação do Brasil Contemporâneo, 2.a ed., S. Paulo, 

1963. 


Para a história das missões jesuíticas, a obra clássica deve-se a Seraf-rn Leite, 


História da Companhia de Jesus no Brasil, 10 volumes, Lisboa-Rio de Janeiro, 
1938-50. 


Encontram-se ainda alguns capítulos e artigos de utilidade sobre aspectos 
variados, quer na História da Expansão Portuguesa no Mundo, vol. Ill, quer no 
Dicionário de História de Portugal, vols. | a IV. 


3 -As Ilhas Atlânticas e África 


Marrocos Depois da política de abandono de D. João Ill, os baluartes portugueses 
em Marrocos reduziam-se às três cidades fortificadas de Ceuta, Tânger e 
Mazagão. Por curto espaço de tempo, D. Sebastião teve em suas mãos Arzila, 
mas já Filipe Il achou prudente devolver a cidade aos Mouros. De facto, as 
fortalezas do norte de África de nada serviam a Portugal, rendendo muito pouco e 
custando muito aos cofres públicos. Tinham de importar praticamente tudo, quer 
da metrópole quer das outras colónias portuguesas. A sua manutenção derivava 
mais de uma questão de tradição e prestígio do que de quaisquer razões 
estratégicas ou políticas efectivas. Além disso, os Mouros nunca abandonaram a 
esperança de as recuperar, travando frequentes escaramuças em seu redor e até 
promovendo cercos em forma a cada uma das três. Mazagão, por exemplo, foi 
sujeita a forte ataque em 1562. 


A Restauração de 1640 trouxe consigo a perda de duas das três praças fortes: 
Ceuta não reconheceu a secessão e manteve-se fiel ao monarca espanhol, facto 
que o tratado de paz de 1668 veio a confirmar; Tânger foi cedida pela Coroa 
portuguesa à Inglaterra como parte do dote da infanta D. Catarina aquando do seu 
casamento com Carlos Il (1661). Só Mazagão, portanto, ficou em mãos 
portuguesas. 


Madeira Estrategicamente localizada na rota natural para sul e sudoeste, a ilha da 
Madeira ter-se-ia de desenvolver e prosperar 


As Ilhas Atlânticas e África 499 


à medida que o Império Português crescesse em extensão e em força económica. 
Funchal, a capital da Madeira, tornou-se na verdade um porto de escala 
obrigatório para a maioria da navegação portuguesa dos séculos xvi e xvii. Este 
facto converteu a economia madeirense em coisa muito complexa, porquanto a 
ilha dependia das exportações, importações e reexportações de vários tipos. Fez 
também do Funchal um porto altamente visitado, contribuindo para emprestar à 
cidade uma feição assaz cosmopolita, que só Lisboa e as metrópoles portuguesas 
do Extremo Oriente (Goa, Malaca e Macau) ostentavam. Em população, a Madeira 
cresceu naturalmente, alcançando umas 50 000 pessoas por volta de 1676, das 
quais uma quinta parte residia no Funchal. Em consequência, a capital da ilha 
detinha uma posição bastante honrosa entre os centros urbanos do Portugal 
«branco», ultrapassada apenas por umas seis ou sete cidades importantes na 
própria metrópole. 


Nos meados do século xvi, a principal produção da Madeira era o açúcar. Havia 
na ilha uns quarenta engenhos, com a produção máxima de umas. 200 000 
arrobas (uns 3 000 000 kg) alcançada em 1570. O açúcar madeirense estava 
difundido por toda a Europa. As suas plantações requeriam uma extensa mão-de- 
obra, importando-se anualmente centenas de escravos da África. Em 1552 
existiam na ilha mais de 3000 escravos, percentagem muito próxima de um 
décimo do total demográfico. Uma classe de ricos proprietários locais controlava a 
maioria das plantações, cujo comércio estava na mão de portugueses, cristãos- 
novos e alguns estrangeiros. A Madeira importava têxteis e outros artigos 
industriais, carne, sal e especialmente trigo. 


Cem anos mais tarde, muito se alterara este quadro. A concorrência do açúcar do 
Brasil (cujo preço orçava por metade do da Madeira) e uma doença que sobreveio 
à cana fizeram, a pouco e pouco, baixar a produção: 40 000 arrobas na década de 
1580 e menos ainda nos decénios seguintes. O número de engenhos foi-se 
reduzindo até sete ou oito (1610), e a cinco pelos finais do século xvii. Os 
Madeirenses resolveram então organizar um sistema de compras de açúcar no 
Brasil, que vendiam depois como se fosse de sua produção própria. Mas o 
negócio deparou 


500 O Império tridimensional 


com as naturais resistências e foi repetidas vezes proibido nas décadas de 1590 e 
1600. No decénio de 1630-40, o açúcar da Madeira deixara já de influir 
decisivamente na economia e no sistema de impostos da ilha. A conquista do 
nordeste brasileiro pelos Holandeses traduziu-se por um breve reviver, entre 1640 
e 1657, mas foi fogacho de pouca dura. O açúcar madeirense desapareceu quase 
por completo e, com ele, a escravatura negra na ilha. As importações de escravos 
foram decrescendo e os negros que viviam na Madeira integraram-se, a pouco e 
pouco, na uniformidade étnica branca. 


Todavia, a Madeira substituíra desde cedo o açúcar por nova produção, que lhe 
evitou mudanças estruturais drásticas. Esse produto foi o vinho. Em 1586, os 
proventos que o Estado retirava do vinho não iam além de um sétimo dos que o 
açúcar lhe rendia. Um século depois, o vinho era por assim dizer tudo na 
economia da Madeira. Exportações dignas de menção, só havia duas, o vinho e 
um tipo de conserva doce chamada casquinha (feita de açúcar local e brasileiro). 
O vinho da Madeira tornou-se tão famoso e divulgado como outrora o seu açúcar, 
chegando a todos os pontos do Império Português e a boa parte da Europa. Mas o 
seu comércio, em lugar de pertencer a firmas predominantemente nacionais 
(como antes o açúcar), caiu nas mãos de negociantes estrangeiros, sobretudo 
ingleses. Pela mesma época (fins do século xvii), a Madeira importava mais ou 
menos o mesmo que de havia muito: trigo, têxteis, carne, sal e bacalhau. Parte do 
trigo reexportava-o depois para as possessões ultramarinas. 


Apesar desta substituição, parece não haver dúvidas de que a opulência da ilha 


decaiu consideravelmente com a queda da produção açucareira e de que uma 
corrente emigratória, tanto da Madeira como de Porto Santo, começou por esses 
dias. Durante todo o século xvii, muitos madeirenses emigraram para o Brasil à 
procura de um modo de vida melhor. 


Administrativamente, a grande reforma consistiu no estabelecimento de um 
governador (chamado governador e capitão-general) com autoridade sobre todo o 
arquipélago e residência no Funchal (1586). Os capitães donatários continuaram a 
exis- 


As Ilhas Atlânticas e África 501 


tir, mas sujeitos ao governador. Adoptado como medida necessária para a defesa, 
este acto correspondia também à política bem definida de converter todas as 
capitanias através do Império em colónias da Coroa com governadores nomeados 
temporariamente. 


Empreenderam-se obras defensivas importantes nos fins do século xvi e no século 
xvii. A Madeira sofreu ataques de todos os piratas e inimigos de Portugal e da 
Espanha, nomeadamente franceses, ingleses e holandeses. Nunca puderam, 
aliás, infligir à ilha os prejuízos causados algures, devido às melhores condições 
de defesa aí encontradas. 


Embora a grande expansão dos Açores houvesse findado Açores pelos meados 
da centúria de Quinhentos, não resta dúvida de que o arquipélago continuou a 
aumentar os seus recursos, sem causar dificuldades de tipo económico à Coroa. A 
população dos Açores cresceu, como ia crescendo na metrópole, 
consideravelmente até finais do século, depois em ritmo cada vez menor até um 
período de estagnação. Como ponto de escala para as linhas de navegação de 
todo o Império Português, os Açores continuaram a prosperar e o seu comércio a 
desenvolver-se. Mas, ao mesmo tempo, o arquipélago provava ser também uma 
zona de agricultura rendosa, povoado por cópia de quintas e plantações, 
trabalhadas por uma população predominantemente branca, estratificada de 
maneira semelhante à metropolitana. 


A sua economia atravessou ciclos assaz interessantes: nos meados do século xvi, 
eram o trigo e o pastel que detinham a primazia, seguidos pela cana de açúcar, 
pelo vinho e por diversos outros produtos. O trigo açoreano exportava-se para 
todos os pontos do vasto Império Português Atlântico e, acima de tudo, para 
Portugal. O pastel mandava-se para Inglaterra e para outros países estrangeiros 
em largas quantidades, calculando-se a sua produção em 60 000 quintais (fins do 
século xvi) e mesmo 

100 000 quintais (começos da centúria seguinte). Foi este surto na produção do 
pastel que levou o trigo a sofrer uma espécie de eclipse durante mais de cinquenta 
anos, a começar na década de 1570: diminuíram as exportações, registaram-se 
anos de carestia sem precedentes, tornaram-se necessárias importações. Mas 


502 O Império tridimensional 


a partir de 1612 a produção de pastel baixou (principalmente devido ao excesso 
de tributação e à concorrência do indigo americano) enquanto o trigo inaugurava 
novo período de prosperidade: a última carestia séria ocorreu em 1613; por volta 
de 1621 já os Açores produziam até 8.200 moios de trigo cada ano, com um 
mínimo de 4000 moios em anos maus. 


Por alturas de 1670, tanto o pastel como a cana de açúcar haviam praticamente 
desaparecido da economia do arquipélago, sendo o segundo lugar, após o trigo, 
disputado por uma variedade grande de produções, tais o vinho, o milho, o linho e 
as laranjas. O milho fora introduzido nos começos do século xvii 


e o seu desenvolvimento rápido implicara o surto da pecuária, sobretudo da 


criação de gado bovino. Também a pesca e a caça à baleia alcançavam 
significado económico. 


Nos Açores, os séculos xvi e xvii viram a introdução de novos produtos e de novas 
técnicas agrícolas. Além do milho e das laranjas, vieram da América e da Europa 
a batata-doce, o inhame, diversos outros frutos e o pinheiro. Os camponeses 
aprenderam a aumentar o rendimento do solo pela sementeira do tremoço. Mais 
importante ainda foi o novo método de libertar as terras das cinzas e da pedra- 
pomes espalhadas pelos campos depois de cada erupção vulcânica - autêntica 
praga para os Açores nessa época: erupções violentas em 1563, 1614, 1630, 
1649, 

1652, 1659, ete. O processo descoberto fazia uso de trincheiras e canais onde 
passava a água das ribeiras e rios e para onde se lançava a terra poluída. A água 
arrastava consigo a maior parte da terra, depositando a pedra-pomes no fundo 
das trincheiras. 


Em resumo, os Açores davam um constante rendimento à Coroa e até despesas 
extraordinárias podiam ser cobertas com os seus próprios recursos e 
contribuições. 


Durante os fins do século xvi e o século xvii tornaram-se mais e mais necessárias 
obras defensivas em cada ilha, para proteger os habitantes contra os ataques da 
pirataria e do inimigo. Barcos franceses, ingleses, holandeses e até muçulmanos 
atacavam com frequência as embarcações mercantes portuguesas e espanholas, 
atrevendo-se a pilhar cidades e aldeias onde desem- 


As Ilhas Atlânticas e África 503 


barcavam contingentes com propósitos de saque ou destruição. Foi o que 
aconteceu sobretudo a partir de 1580, ao unirem-se as coroas de Portugal e de 
Espanha. Também a guerra fez os seus estragos nos Açores, especialmente na 
Terceira, em 1580-82, visto que D. António aí foi proclamado rei e apoiado por 
autoridades e povo, conseguindo resistir por algum tempo aos furiosos ataques de 


Filipe Il. Todos estes acontecimentos levaram a certo número de obras de 
fortificação importantes espalhadas pelo arquipélago, mas mais particularmente 
intensificadas nas duas ilhas principais, Terceira e de S. Miguel. Ao mesmo tempo, 
Filipe Il deu nova estrutura ao governo das ilhas, tendente a uma acentuada 
centralização frente ao sistema tradicional das capitanias. Em 1583, foi nomeado 
um governador-geral com autoridade sobre os capitães-donatários de todas as 
nove ilhas dos Açores. A sede do governo fixou-se em Angra (Terceira). 


Se o arquipélago de Cabo Verde não pôde converter-se em Cabo Ver, colónia de 
povoamento próspera, a sua população foi no entanto crescendo ou manteve-se 
estacionária, dentro de uma relativa prosperidade, e isto devido à localização 
geográfica das ilhas como ponto de escala necessário para a navegação do 
Atlântico. Na realidade, a maior parte dos navios que demandavam a Península 
Ibérica vindos do golfo da Guiné, de Angola, da índia, do Brasil e das índias 
Ocidentais, ou vice-versa, paravam em Santiago para meter água e mantimentos. 
Também as linhas de navegação directamente relacionando o golfo da Guiné com 
o Brasil escalavam, quer a Ribeira Grande, quer a Praia, ambas em Santiago. 
Estas duas cidades serviam, assim, de feitorias, dependendo a sua prosperidade, 
mais do número de escalas conseguidas cada ano do que de uma função como 
centros agrícolas ou de povoamento. 


Se este papel importante desempenhado por Cabo Verde explicou a sobrevivência 
da colónia, acarretou igualmente certo número de catástrofes. Os Franceses, os 
Ingleses e os Holandeses, no seu caminho de ataque e pilhagem às possessões e 
aos navios de Portugal e da Espanha, fizeram, eles também, escala no 
arquipélago, roubando-lhe o gado e os habitantes. Alguns ataques foram mesmo 
seguidos de destruição mais ou menos 


504 O Império tridimensional 


total. Os Franceses chegaram em primeiro lugar, depois de 1542; vieram em 
seguida os Ingleses, atacando as ilhas em 1578 (Drake), 1582, 1585 (Drake 
novamente), 1598, etc. Finalmente foi a vez dos Holandeses, a partir de 1598. Nas 
frequentes viagens à América do Sul, estes últimos preferiram, aliás, fazer escala 
na ilha de Maio, ao tempo quase deserta. 


A fim de proteger Cabo Verde, a Coroa teve de imaginar um sistema mais eficaz 
de defesa e de governação. Construíram-se ou repararam-se fortalezas. O 
governo foi reformado quase por completo: acima dos. capitães (cuja autoridade 
não ia além da sua ilha ou parte de ilha) instituiu-se um capitão-geral, mais tarde 
chamado capitão-governador (1587). Sob as suas ordens estavam, não somente 
as dez ilhas do arquipélago mas também a costa africana, desde o sul de 
Marrocos até à Serra Leoa. Para sede governativa foi escolhida a Ribeira Grande. 
Como, porém, a cidade da Praia detinha melhores condições de saúde para os 
Europeus, e um clima preferível, tanto governadores como bispos oscilaram, a 
partir de 1612, entre as duas cidades, já que a Praia se achava fortificada 
também. Em 1652, esta última converteu-se oficialmente em capital da colónia, o 


que trouxe como resultado o declínio total da Ribeira Grande. Diga-se de 
passagem que a capitania de Santiago passara para a Corda já em 1564, quando 
morreu o último capitão-donatário, 


Além das funções que tinha. de abastecer a navegação, Cabo Verde encontrava 
na criação de gado a sua principal fonte de riqueza. Durante todo o século xvii, 
exportaram-se do arquipélago cavalos para o Império Português e até para as 
possessões inglesas das índias Ocidentais. Registou-se também o surto de uma 
pequena indústria de couros, centrada em Santiago. Exportavam-se ainda, se bem 
que em quantidades diminutas, sal e milho. Para subsistência própria, Cabo Verde 
tinha agricultura que bastava, produzindo milho, cana-de-açúcar, algodão, 
hortaliças e fruta. Abundava o peixe. A maior parte das ilhas possuíam burros, 
cabras e mulas. Nos finais do século xvi e começos do xvil, Santiago aparentava 
certa prosperidade, estando coberta de pequenas unidades agrícolas controladas 
por ricos proprietários. Haviam-se rapidamente desenvolvido as hierarquias 
sociais, alia- 


As Ilhas Atlânticas e África 505 


das a uma crescente miscegenação. As demais ilhas, porém, mostravam-se 
estagnadas em desenvolvimento económico. 


A escravatura ajudou à prosperidade do arquipélago. Como S. Tomé, Cabo Verde 
servia de entreposto de escravos para a África Continental, que ai podiam ser 
adquiridos mais facilmente. A economia das próprias ilhas requeria também a 
importação de negros africanos. O tráfico dos escravos estava na mão de 
contratadores, todos portugueses ou cristãos-novos, pelo menos entre o final da 
década de 1580 e 1643. 


Do governo de Santiago dependiam as várias feitorias que Costa da G os 
Portugueses sucessivamente haviam estabelecido ao longo da costa africana, 
desde Arguim (na Mauritânia actual) até à Serra Leoa. Esses estabelecimentos 
viviam do tráfico de ouro, malagueta, marfim e escravos, nunca cessando de 
prosperar nem de crescer em número durante toda a centúria de Seiscentos. 
Apesar da concorrência de holandeses e ingleses, foram surgindo novas feitorias 
portuguesas aqui e além (Biguba -meados do século xvi; Cachéu - 1587; Farim - 
1642; Zinguichor - 1643; e muitas outras), ajudando a dar forma àquilo que viria a 
ser a Guiné Portuguesa. Pela mesma época, os estabelecimentos tradicionais 
caíam em poder dos Holandeses: Rufisque, Portudal e Joal em 1621, Arguim em 
1638. As principais áreas da nova penetração portuguesa eram os rios 
Casamansa e Geba. Um factor que ajudou à fixação europeia na região e 
contribuiu para o seu surto económico foi o acordo (1601) entre a Coroa e os 
Judeus, que permitiu a estes últimos traficar e residir na Guiné. Para as feitorias 
guineenses (chamadas «rios de Cachéu»), o governo estabeleceu um capitão e 
ouvidor, subordinado ao governador de Cabo Verde. 


No golfo da Guiné, Portugal possuía umas doze a quinze feitorias pelos começos 


do século xvii. Em muitas delas, havia pequenas fortalezas para protecção. Todo o 
território controlado desde o cabo das Palmas (na Libéria actual) até ao rio Volta 
(no Ghana de hoje), constituía a capitania da Mina com quartel general em S. 
Jorge da Mina. Do rio Volta ao Congo, incluindo as ilhas do golfo da Guiné, as 
possessões portuguesas estavam compreendidas na capitania de S. Tomé, com 
sede na ilha e 


506 O Império tridimensional 


cidade de S. Tomé. Para fins religiosos, toda a área dependia do bispo de S. 
Tomé. Na realidade, esta ilha funcionava como verdadeiro centro económico e 
político do poderio português a norte de Angola, apesar da antiga prosperidade e 
concorrência de S. Jorge da Mina. 


Ilhas do Golfo As duas capitanias eram colónias da Coroa, conquanto as 
da Guiné 


ilhas do Príncipe e Ano Bom pertencessem a capitães-donatários sujeitos à 
autoridade do capitão-general e governador de S. Tomé. Nesta ilha existia uma 
organização municipal semelhante à de Lisboa, com sua Câmara e Senado da 
Câmara de progressiva autonomia. Em S. Tomé e Príncipe, o processo de 
miscegenação fora muito longe, resultando daí uma população quase totalmente 
mulata, com sua hierarquia social própria e uma crescente rejeição dos recém- 
chegados da metrópole. O grosso do clero era mulato e até negro. Não parava de 
aumentar, todavia, o número de negros puros, devido às importações de escravos 
do continente africano. Estes escravos por diversas vezes se revoltaram contra os 
seus senhores, sem curar de problemas de cor da pele: em 1580, 1595 e 1617 
ocorreram as piores rebeliões, organizando-se, além delas, no interior da ilha, uma 
espécie de resistência continua e de tipo guerrilha, que dava pouca segurança às 
plantações. Os rebeldes conseguiram mesmo dominar, para efeitos práticos, e 
durante breves períodos, toda a ilha, à excepção da cidade e de uma pequena 
área em seu redor. 


A Mina vivera do ouro e da especiaria. S. Tomé dependia principalmente das 
exportações de açúcar. A produção aurífera declinara constantemente e reduzira- 
se a nada nos começos do século xvii. Por isso, as feitorias da África Continental 
estagnaram, obrigadas como foram a tratar de actividades secundárias, que em 
Portugal pouco interesse **s(seitavam. 


O açúcar teve maior importância e durou mais tempo. Na década de 1570, S. 
Tomé era um grande produtor e exportador de açúcar barato, com mais de 20 000 
arrobas (uns 300 000 kg) expedidas anualmente para a Europa. Existiam na ilha 
um número superior a vinte engenhos, aumentando sem parar as importações de 
escravos. O tráfico açucareiro estava arrendado 


As Ilhas Atlânticas e África 507 


pela Coroa a contratadores, que lhe pagavam uns 36 000 cruzados ao ano. Em 
1602, a produção de açúcar atingiu as 40 000 arrobas, com mais de vinte navios 
carregados daquele produto, navegando de S. Tomé para Lisboa. 


Em poucos anos, toda esta situação mudou. Uma moléstia na cana, revoltas de 
escravos, ataques da pirataria holandesa e 


francesa e a concorrência do Brasil arruinaram a economia de S. Tomé. O número 
de 36 000 cruzados caíra para um terço em 

1610. Os engenhos baixaram para quatro ou cinco. De colónia de plantação 
próspera, S. Tomé converteu-se em mero entreposto de escravos, ai mais fáceis 
de comprar do que em Angola. 


Foi antes por este motivo e por razões de estratégia do que propriamente pelo seu 
valor económico que os Holandeses se resolveram a conquistar as possessões 
portuguesas no golfo da Guiné. Uma a uma, todas as feitorias no continente foram 
caindo em suas mãos nas décadas de 1620 e 1630: S. Jorge da Mina rendeu-se 
em 1637. A S. Tomé, o ataque decisivo teve lugar em 1641, perdendo-se a cidade 
também. 


Todavia, os Portugueses não estavam aniquilados de todo. No interior da ilha, os 
Holandeses não conseguiram penetrar. Príncipe e Ano Bom não se lhes 
renderam. Lisboa enviou, em 

1642 e em 1643, duas armadas de reforço que nada conseguiram. Mas em 1648, 
Salvador Correia de Sá, depois de ter libertado Angola, obteve a reconquista da 
cidade ilhoa. 


Isto não impediu o declínio da colónia. Por volta de 1661, a prostração económica 
do pequeno arquipélago atingira porventura o seu nível mais baixo. Só a liberdade 
de comércio decretada por Lisboa em 1673 é que pôde marear o começo de uma 
nova era de prosperidade. 


Outra causa, ou consequência, desse declínio estava na espantosa instabilidade 
governativa. Os governadores que Lisboa mandava jamais se conseguiam 
aguentar. Ou morriam ou entravam em conflito com os caciques locais que os 
forçavam a abandonar o governo. De facto, a história de S. Tomé durante os finais 
do século xvi e todo o século xvii foi de luta permanente entre o governo central 
(nomeado por Lisboa) e os grupos mulatos dirigentes. O clero alinhava muitas 
vezes com estes últimos, mas 


508 O Inpério tridimensional 


muitas vezes também seguia uma política própria que só aumentava a dissensão 
e a anarquia. 


Angola A experiência fracassada de estabelecer um protectorado no 


Congo levou os Portugueses a tentarem em Angola uma outra via. A área 
revelara-se de boas possibilidades no que respeitava a proventos económicos: o 
trato dos escravos e a perspectiva de minas de prata no interior (na região de 
Cambambe) chamava as atenções dos comerciantes de S. Tomé e forçou a Coroa 
* adoptar unia política definida de acção. De facto, Angola (como * Congo) 
começou como uma autêntica colónia de S. Tomé, cujos habitantes receberam o 
monopólio do seu comércio na década de 1550. Pela mesma época (1559), o 
governo de Lisboa enviou ao soberano negro de Angola uma embaixada chefiada 
por Paulo Dias de Novais e onde seguiam alguns jesuítas. Depois de alguns anos 
de estadia, Paulo Dias regressou a Portugal, convencendo os responsáveis pelos 
negócios ultramarinos de que Angola tinha boas possibilidades de se converter 
noutro Brasil, demonstrasse a Coroa algum interesse por ela. O receio de ataques 
por estrangeiros obrigou igualmente Lisboa a tentar a soberania efectiva de toda a 
costa a sul do Congo. 


Como último argumento, o próprio Congo fora invadido pelas tribos Jagas (1569), 
o que leVóu Portugal a tentar a reconquista das áreas perdidas em proveito do 
seu cliente, o rei do Congo. Unia força expedicionária de 600 soldados brancos 
partiu de Lisboa (1571), repôs no trono o rei «Álvaro» e construiu uma fortaleza 
para protecção futura. Pensou-se então no emprego da força militar para 
estabelecer os Portugueses ao sul daquela zona também e para impedir possíveis 
ataques, quer dos Jagas quer dos Teke. 


Assim, em 1574, Angola foi denominada capitania ou donataria e concedida a 
Paulo Dias de Novais, segundo algumas das regras do sistema das capitanias já 
adoptado nas ilhas atlânticas e no Brasil. Abrangia toda a costa a sul do rio Dande 
e até 35 léguas a sul do rio Cuanza, estendendo-se para interior tanto quanto 
possível. 


O capitão tinha por missão estabelecer em Angola, no prazo de seis anos, cem 
famílias de colonos brancos. Devia organizar 


As Ilhas Atlânticas e África 509 


um exército permanente de 400 homens para fins defensivos, e construir três 
castelos. Concederia terras em sesmaria aos colonos portugueses, guardando 
para si uma parte considerável. Foram-lhe dadas a jurisdição plena e a autoridade 
dentro da capitania, a propriedade de todos os meios de produção e minas de sal, 
o produto de todos os impostos no seu quinhão próprio e 


um terço dele no resto da colónia, diversos privilégios comerciais, etc. Contudo, as 
suas atribuições e concessões não se mostravam nem tão completas nem tão 
feudais como as que diziam respeito a outros donatários. Primeiro que tudo, a 
concessão não era hereditária. Em segundo lugar, só parte da colónia ficava na 
posse do capitão como seu senhorio. No que dizia respeito à restante, Paulo Dias 
não passava de um governador de colónia da Coroa. 


Paulo Dias de Novais chegou a Angola em 1575 com 700 pessoas, fundou 
Luanda para sua capital (1576) e construiu as três fortalezas a que se obrigara. 
Governou catorze anos e cumpriu algumas das cláusulas do contrato. Mas 
quando. morreu (1589), os Portugueses achavam-se longe de senhorear 
firmemente Angola, embora dominassem parte da linha de costa. A nova colónia 
nunca se converteu naquilo que os Portugueses dela esperavam, nem de longe se 
pôde comparar com o Brasil. Os Negros, muito mais civilizados e organizados do 
que os Ameríndios, ofereceram forte e permanente resistência. O clima matou 
centenas de colonos brancos e enfraqueceu muitos outros (parece que, de 2000 
soldados enviados para Angola em 1575-94 só 300 sobreviveram). O solo não se 
mostrava tão fértil como no Brasil. E o tráfico dos escravos distraía quase toda a 
gente das práticas agrícolas, tornando a economia angolana inteiramente à mercê 
de raids contínuos ao interior, de compras baratas de mão-de-obra humana a 
tribos inimigas, de intrigas e de guerrilhas. Converteu também Angola em 
«colónia», primeiro de S. Tomé, depois do Brasil, onde a mão-de-obra escrava era 
fundamental para as plantações. 


A Paulo Dias sucedeu Luís Serrão, mas a vitória de uma invasão negra, em 1590, 
obrigou a Coroa a intervir e a pôr fim ao sistema das capitanias. Em 1592, 
Francisco de Almeida tomou 


510 
O Império tridimensional 
Fig. 53 -O Congo e Angola nos séculos xvi e xvii 


posse como governador de Angola sob a supervisão directa do governo. A política 
de conquista manteve-se, tornando-se Angola numa espécie de campo de batalha 
permanente para os Portugueses. O governador Manuel Cerveira Pereira (1603- 
Or; 1615-17; 

1620) conseguiu tornar a presença de Portugal mais firme do que nunca, 
fundando Benguela (1617) e confirmando o domínio português sobre vasta zona 
de costa. No interior, também alguns objectivos se alcançaram, nomeadamente 
Cambambe (só para descobrir que as tais minas de prata eram um mito ... ). 
construindo-se castelos e estabelecendo-se algumas feiras. No seu conjunto, 
porém, o domínio português em Angola nos começos da centúria de Seiscentos 
assemelhava-se bastante ao sistema das feitorias da índia e da África Oriental, 
baseado em certo número de fortalezas e de guarnições militares mas 
essencialmente costeiro em natureza. 


As Ilhas Atlânticas e África Sil 
Em 1641, os Holandeses conseguiram capturar Luanda e dominar assim a 


principal fonte de escravos para o Brasil. Os Portugueses retiraram para o interior 
e, durante sete anos, uma sucessão de actos belicosos, intermeada de armisticios 


temporários, mareou a história de Angola. Do Brasil chegaram duas expedições 
com reforços. Quando os Portugueses se avizinhavam da derrota total, uma 
terceira expedição brasileira sob o comando de Salvador Correia de Sã 
desembarcou na colónia, conseguindo destroçar o inimigo, reconquistar Luanda e 
expulsar os Holandeses definitivamente (1648). 


Esta vitória foi seguida de uma nova política activa de conquista e de «punição» 
de todos aqueles que haviam ajudado a Holanda. Em poucos anos, o governador 
Correia de Sá (1648-52) e seus sucessores impuseram a autoridade suzerana da 
Coroa portuguesa, à falta de um domínio efectivo, sobre grande parte do interior. 


Bibliografia -Além das histórias gerais e do Dicionário, tantas vezes mencionado, 
vejam-se: sobre Marrocos, António Manuel Dias Farinha, História de Mazagão 
durante o Período Filipino, Lisboa, 1969; sobre a Madeira, os Açores, Cabo Verde, 
Guiné, S. Tomé e o Brasil (aspectos económicos, principalmente), Frédéric Mauro, 
Le Portugal et I'Atlantique au XVIIO siécle, 1570-16rO, Paris SEVPEN, 1960 e T. 
Bentley Duncan, Atlantic Islands. Madeira, the Azores and the Cape Verdes in 
Seventeenth-Century Commerce and Navigation, The University of Chicago Press, 
Chicago e Londres, 

1972. Encontram-se mal estudados ainda os elementos que João Cabral do 
Nascimento publicou, Documentos para a História da Capitania da Madeira, 
Lisboa, 1930. Também à espera de historiador se acha essa fonte de primeira 
ordem escrita sobre os ilhas atlânticas em finais do século xvi: as Saudades da 
Terra de Gaspar Frutuoso, 5 livros em 7 volumes, Ponta Delgada, 1922-63. 


Sobre Angola existe uma monografia aceitável por David Birmingham, Trade and 
Conflict in Angola. The Mbundu and their neighbours under the influence 01 the 
Portuguese 1483-1790, Oxford, Clarendon Press, 1966 (existe um resumo em 
português intitulado A Conquista Portuguesa de Argola, Porto, A Regra do Jogo, 
1974), além do já mencionado trabalho de Charles R. Boxer, Portuguese Society 
in the Tropics. The Municipal Councils of Goa, Macao, Bahia and Luanda, 1510- 
1800, Madison-Milwaukee, University of Wisconsin Press, 1965. 


33 

CAPITULO Mill 

ABSOLUTISMO E ILUMINISMO 

1 -As estruturas 

A grande estabilidade demográfica do século xvii outro surto População 
populacional se seguiu. Especialmente marcada a partir de 1725, esta nova 
tendência foi sentida por toda a Europa, derivando em parte de uma baixa na taxa 
de mortalidade, mais do que de um aumento na taxa de natalidade. Menos fomes 


e menos crises alimentares resultaram de uma melhor organização do sistema 
distribuidor, acompanhado por um acréscimo de produção, tanto na agricultura 


como na indústria. Em consequência, desenvolveram-se quase todos os centros 
urbanos, cuja população e actividade económica jamais deixaram de aumentar 
deste então. Pela primeira vez desde a Idade Média, a maioria das cidades 
europeias rompeu decisivamente as suas barreiras medievais, anunciando a 
tremenda expansão dos séculos xix e xx. 


Nos meados da centúria de Seiscentos, Portugal tinha uns dois milhões de 
pessoas. Este número de base poucas alterações sofrera até 1732, data em que 
teve lugar a primeira «contagem» do novo século. Porém, a partir de então, o 
crescimento mostrou-se contínuo: mais de 2 500 000 habitantes em 1758, quase 

3 000 000 quarenta anos mais tarde, cerca de 3 100 000 por volta de 1820. Note- 
se que tal surto não tinha correspondente na capital do País. A população que 
Lisboa exibia no século xvii, em si mesma grande demais para o tamanho de 
Portugal, estagnou ou diminuiu durante a maior parte da centúria seguinte, em 
proveito de uma distribuição melhor na província: antes do terramoto de 1755, não 
viviam mais de 150 000 pessoas dentro das 


516 Absolutismo e iluminismo 


muralhas da cidade; a partir de então, a população cresceu um pouco, mas muito 
moderadamente, sem que, aliás, o terramoto. tivesse influído no facto de maneira 
notável. As cifras dão-nos os mesmos 150 000 ao redor de 1780, uns 180 000 ao 
findar o século, 200 000 em 1820. Também no número de paróquias se denota 
facto semelhante: 37 em 1632, 38 em 1741, 40 em 1770, 

41 em 1833. Se compararmos este aumento, relativamente vagaroso, com o surto 
das principais cidades-capitais da Europa na mesma época, a conclusão só pode 
ser uma: Lisboa deixara de acompanhar o ritmo das grandes metrópoles. Em vez 
de rivalizar na designação de «grande cidade», como dantes, Lisboa baixou à 
condição de urbe de segunda classe, exactamente como Portugal declinava na 
sua posição relativa entre as demais nações. O confronto com a Espanha revela 
sem disfarces um facto similar: enquanto em 1620 Lisboa era a maior cidade da 
Península Ibérica, durante o século xviii e começos do xix foi-se deixando 
ultrapassar por Madrid. 


A província, em contrapartida, passou a melhor povoada e a dispor de algumas 
prósperas cidadezinhas: o Porto, exemplo número um, ultrapassava os 20 000 
habitantes em 1732, subindo para mais do dobro em 1787. Por volta de 1820 
alcançara 50 000 pessoas, distanciando-se cada vez mais das outras cidades do 
País. Mas havia alguns pequenos portos, como Viana, Faro e Setúbal que 
ousavam competir com Lisboa na absorção de parte do comércio internacional. O 
Porto constituía um bom exemplo da prosperidade e desenvolvimento económico 
de todo o Norte durante o século xviii e começos do xix, contrastando com o 
declínio do Sul -facto que precisa de ser acentuado para se compreender o 
Portugal desses dias. 


Do ponto de vista demográfico, o outro aspecto interessante que convirá realçar 
foi a quase completa absorção dos Negros e dos Judeus (isto é, dos Cristãos- 


Novos) pela população branca cristã. Por volta de 1820, Portugal desconhecia 
praticamente diferenças de raça ou de religião, não tendo a extinção do Santo 
Oficio provocado qualquer renascer de Judaísmo que se notasse. 


Economia: A complexa estrutura económica desta época teve, não obstante, um 
denominador comum: o comércio com o Brasil (cf. 


n 

Roo 

1!1TR 
ÁS-0S-MONTE*O 


- Valença 
- Viana 


9,0, 

10 

12.3 

- Bragança 


4 
5 


- Braga 
- Barcelos 


- Guimarães 

UT 

- Miranda 

13 O 

518 Absolutismo e iluminismo 

Cap. IX). Era esse comércio que produzia a maior parte dos rendimentos da 
Coroa, que determinava a vinda de embarcações estrangeiras a Lisboa e a outras 
portos em número avultado, que causava a existência de uma rede florescente de 


ligações internacionais, que tornava a moeda abundante e estável, que permitia o 
registo de superavits na balança comercial e que dava ensejo a investimentos 


consideráveis em propriedade, actividades construtoras e manifestações de arte e 
de cultura. 


Todavia, a existência do Brasil e o seu peso esmagador sobre toda a vida 
portuguesa não devem fazer-nos esquecer a realidade e o surto de uma economia 
portuguesa europeia, baseada na agricultura, no comércio e até nos começos de 
uma indústria local. 


Agricultura O aumento constante das produções de azeite e de vinho 


mostrou-se fundamental na estruturação da economia agrícola portuguesa. A 
guerra da independência destruíra grande número de olivais no Alentejo. Com o 
regresso da paz (1668), voltaram a plantar-se oliveiras nas zonas devastadas, e 
assim também na Beira Baixa, região até esse tempo esparsamente povoada e 
pouco produtiva. O azeite vendia-se com bons lucros para o Norte europeu e as 
suas exportações nos finais do século xvii alcançavam de um sexto a um sétimo 
de todas as exportações que saiam pelas barras de Lisboa e do Porto. Ainda mais 
importantes foram as mudanças na paisagem rural e na riqueza dos povoados, 
causadas pelo surto dos novos olivedos no Ribatejo, na Beira e em parte do 
Alentejo. Quanto ao vinho, a expansão das suas áreas afectou regiões 
extensíssimas, quer na metrópole quer nas ilhas atlânticas. Plantou-se vinha em 
terrenos completamente inapropriados, que mais tarde tiveram de ser postos de 
parte. O número e a difusão de vinhedos por todo o País só podia comparar-se 
com a profusão do trigo na Idade Média. Foram sobretudo eles que trouxeram 
para muitas áreas do Norte uma prosperidade desconhecida antes, escorando o 
aumento populacional. 

O escoamento do vinho do vale do Douro pela cidade do Porto deu origem ao 
chamado «vinho do Porto», que começou a ser conhecido nos princípios do 
século xvili. 


As estruturas 
519 


Mas se o vinho se traduziu por um acréscimo de rendas e por um surto de 
população, também veio a causar o declínio de outras culturas, menos lucrativas 
mas altamente necessárias. Foi o que aconteceu com o trigo e com outros cereais 
(à excepção do milho), cuja área sensivelmente se contraiu. O governo do 
marquês de Pombal (1750-77) compreendeu que eram de adoptar medidas 
severas para dar um ensinamento aos lavradores. Ordenou-se assim que fossem 
arrancados os pés de vinha plantados em terrenos aptos para a produção de trigo, 
e que nesses campos se semeasse o precioso cereal (1765). Mas o incidente não 
trouxe consequências de maior e o deficit cerealífero continuou a ser um facto. 15 
a 18 % de todo o trigo consumido em Portugal tinha de vir do estrangeiro. Só o 
milho é que expandiu a sua área de produção no Norte e no Noroeste. 


Entre as novas culturas introduzidas da América na centúria de Seiscentos, a 


batata mostrou-se a mais importante. Durante o século xviii, começou a plantar-se 
batata em grandes quantidades no nordeste do País, tentando assim colmatar as 
deficiências cerealíferas. Mas levou muito tempo a habituar o camponês e a 
população em geral ao consumo do novo tubérculo. Preferia-se dá-lo aos animais 
como forragem do que aos humanos como alimento. O arroz, também, teve o seu 
começo económico nos fins do século xviii mas escassa expansão até à década 
de 1840. 


O outro inimigo das áreas de trigo era a pecuária, que provavelmente se 
desenvolveu durante os anos de Setecentos. Gados de gado bovino, ovino,-:muar 
e porcino tornavam-se mais e mais lucrativos, abastecendo com a sua carne os 
centros urbanos em expansão e com a sua pele e lã os núcleos industriais 
nascentes e o 


fomento da exportação para o estrangeiro. Na verdade, desenvolveram-se nos 
finais do século xvii e durante a maior parte do xviii as indústrias de couros e de 
tecidos. A Beira Baixa e o Alentejo produziam a maior quantidade da lã. 


Outra parte da produção de Portugal derivava da indústria, indÚstria a grande 
novidade dos finais da centúria de Seiscentos. As doutrinas económicas do 
mercantilismo favoreceram o surto de in- 


Fig. 55 -Portugal económico em fins do século xviii (segundo Vitorino Magalhães 
Godinho, simplificado) 


1 - Vinhos finos; 2 - Vinhos comuns; 3 - Azeite; 4 - Sal., 5 -m- Rotas fluviais e 
marítimas de comércio; 6 - Rotas terrrestres de comércio; 7 - Principais mercados; 
8 - Cidades; 9 - Cidades industriais (indústria têxtil); cerâmica; 10 - Cidade 
industrial e Indústria dispersa. 


As estruturas 521 


dústrias nacionais com intuitos de exportação e assim de conseguir ouro e 
equilibrar a balança de comércio. Em 1675, surgiu no Pais um escrito que se 
revelou fundamental para a política económica do tempo: o Discurso sobre a 
Introdução das Artes no R-eyno, devido a Duarte Ribeiro de Macedo, embaixador 
em Paris e consequentemente em contacto directo com o Colbertismo francês, ao 
tempo nos seus começos. Ribeiro de Macedo defendia a indústria como sendo de 
grande importância para o futuro de Portugal. A sua doutrina veio ao encontro de 
uma crise económica profunda, que durava desde 1669, e apoiou diversas 
iniciativas privadas que pretendiam fomentar novas fontes de receita para o País. 
Os dois vedores da fazenda, o conde da Torre (depois marquês de Fronteira) e o 
conde da Ericeira 

- que foi nomeado superintendente das fábricas e manufacturas do reino- gizaram 
um plano de crescimento industrial, contratando artífices e peritos em França, 
Inglaterra, Espanha e Veneza, adiantando fundos, concedendo toda a espécie de 
privilégios às novas fábricas, etc. Em Lisboa estabeleceu-se uma indústria de 


vidros (1670-71), indústrias têxteis em Estremoz (1671-72), Lisboa (1677-79), e 
nas regiões da Covilhã, Fundão e Tomar (1671-81), e fundições de ferro em 
Lisboa, Tomar e Figueiró dos Vinhos (sobretudo a partir de 1680 mas já com 
alguns precedentes). A fim de proteger as novas indústrias, o governo promulgou 
uma série de leis proibindo o uso de diversas qualidades de tecidos importados, 
chapéus, fitas, rendas, brocados e outros artigos similares (1677, 1686, 1688, 
1690, 1698). Desta maneira, não eram teoricamente violados os tratados de 
comércio que haviam sido firmados com países estrangeiros. Proibiu-se também a 
importação de cerâmica, azulejos e vidro. Fomentou-se ainda a construção naval. 


Com o fim da crise económica (1692) e a descoberta das minas de ouro no Brasil 
(1693-95), surgiram maiores dificuldades para as recém-criadas indústrias. Voltou 
a prosperidade baseada nas exportações de vinho, azeite, açúcar, tabaco, etc., 
sendo fácil pagar em ouro o deficit da balança comercial. Comércio e agricultura 
voltaram a dar-se as mãos. A fraca qualidade de muitos artigos manufacturados, 
aliada ao prestígio dos bens 


522 Absolutismo e iluminismo 


de consumo vindos do estrangeiro, levou muitos compradores a violarem a leie a 
desprezarem os produtos «made in Portugal». A política de «industrialização» teve 
de ser abandonada, o conde da Ericeira suicidou-se e o marquês de Fronteira 
mudou completamente de linha de rumo. 


Quando o «boorn» comercial começou a afrouxar, a partir de 1712, nova tentativa 
de desenvolver a indústria se registou. Capitais, artífices e técnicos franceses e 
ingleses ajudaram a construir outras manufacturas de tecidos e de vidro em 
Lisboa e na província. Na capital surgiu também uma grande fundição de ferro. 
Outras actividades industriais incluíam o fabrico de sabão, papel, couros, vidros, 
seda, pólvora e embarcações. Mas os resultados mostraram-se, em geral, pouco 
convincentes, sobretudo porque, em boa verdade, não se registara nenhuma crise 
económica duradoura. Foi só no governo de Pombal que uma política mais 
frutuosa pôde ser levada a efeito. Durante oito anos (1769-77), novamente em 
época de depressão, o governo ajudou ao estabelecimento de centenas de 
pequenas fábricas para refinação de açúcar, metalurgia, têxteis de lã e de 
algodão, chapéus, louça, vestuário, papel, ferramentas, vidro, e assim por diante. 
Na sua maioria, foram criadas em Lisboa e no Porto, mas por todo o País se 
podiam encontrar pequenas oficinas artesanais, especialmente perto do mar. 
Adoptando os mesmos métodos proteccionistas das épocas anteriores (privilégios 
na importação de matérias-primas, monopólio nas vendas por certo período de 
tempo, diminuição de impostos, etc.), a política pombalina introduziu, não 
obstante, certos princípios novos, tais como a utilização de imigrantes 
estrangeiros, a renúncia às grandes unidades industriais e o abandono (em certos 
casos apenas) do sistema corporativo. 


Entre todas as outras, iriam sobreviver as manufacturas de algodão e de seda, 
que gozaram da sua época de prosperidade. Embora com algumas excepções, 


pode dizer-se que todas essas indústrias visavam apenas o abastecimento do 
mercado interno e das colónias, importando-se pouco com a exportação para fora 
do País. Conseguiram aguentar-se até à Revolução Industrial. Todavia, a baixa 
contínua dos preços, causou a ruína de todo o sis- 


As estruturas 523 


tema manufactureiro nacional a favor, uma vez mais, da indústria inglesa que lhe 
conquistou até mercados internos. Por volta de 1805, as exportações da indústria 
portuguesa para as colónias haviam baixado um terço, em comparação com o 
nível de 1800. Por alturas de 1820, só 27 % dos produtos manufacturados 
enviados para o Ultramar tinham origem nacional. No mercado metropolitano, a 
situação era idêntica. 


No entretanto, tinham-se criado alguns «complexos industriais» de vulto em 
Portugal, nomeadamente a Real Fábrica das Sedas que abrangia, não apenas 
manufacturas de seda como também de lacre, limas de aço, laca e meias, num 
total de um as 


trinta unidades com mais de 3500 operários (1776). Pelo mesmo ano, uma fábrica 
altamente actualizada para o fabrico de lã e de algodão, situada em Portalegre, 
introduzia as primeiras máquinas «modernas», vindas de Inglaterra. Diversos tipos 
de jennies, mule-iennies e outros engenhos mecânicos entraram em Portugal nas 
décadas de 1770, 1780 e posteriormente. Em 1811-13 (já depois de passado o 
apogeu da indústria portuguesa e quando se vivia em período de declínio), ainda 
subsistiam no País mais de quinhentas fábricas, embora 183 fossem consideradas 
decadentes, 8 tivessem acabado de encerrar as suas portas e 6 houvessem 
começado a funcionar. 


O comércio externo atravessou fases de expansão e con. Comércio tracção com 
resultados importantes na economia, um dos quais externo 


foi já mencionado. A grande depressão de 1669-92 seguiu-se um período de 
expansão (1693-1714) que, em Portugal, beneficiou da guerra da Liga de 
Augsburgo (1688-97) e da guerra da Sucessão de Espanha (1702-13). Quando o 
tratado de Utrecht trouxe de novo para a Europa um período de paz, o comércio 
ressentiu-se um tanto mas não até à eclosão de uma crise. Seguiu-se nova era de 
prosperidade e, com altos e baixos, o comércio externo pôde manter-se 
florescente até à grande depressão de 

1766-69. Outra fase de expansão caracterizou os seguintes vinte cinco a trinta 
anos. Vieram depois as invasões francesas ( 1807 ss.) e a Guerra Peninsular que 
se prolongou por esse e por mais quatro anos. Tudo isso significou nova fase de 
depressão até 1826, 


524 Absolutismo e iluminismo 


com um período de crise profunda em 1808-13. Todas estas crises tiveram o seu 


correspondente na conjuntura internacional. 


Durante qualquer delas, o comércio português com os países estrangeiros 
dependeu principalmente das colónias. O Brasil, a Ásia e a África, tomados em 
conjunto, representavam três quartas partes de toda a exportação nacional. O 
açúcar, o tabaco, o algodão, os escravos, as especiarias, os diamantes eram as 
principais fontes de lucro. Também para o Brasil, para a índia e para a África 
seguiam três quartos das importações que o País recebia do estrangeiro (cf. Cap. 
IX). 


Contudo, Portugal em si mesmo tinha muito para vender exportação e muito para 
comprar. O grande produto do século xviii foi, 


sem dúvida alguma, o vinho, que trouxe prosperidade ao País mas o encadeou 
também à Inglaterra, de longe a sua maior compradora. Por vinho entendia-se, 
tanto para fitos de exportação quanto para objectivos ingleses, vinho do Porto, isto 
é, vinho produzido no vale do Douro, artificialmente transformado na cidade do 
Porto, ai armazenado e daí exportado (67 % de todo o vinho português enviado 
para Inglaterra em 1704-12 era vinho do Porto). O seu comércio achava-se 
largamente nas mãos de homens de negócios e firmas britânicas, com muitos 
súbditos ingleses estabelecidos em Portugal (principalmente no Porto). A sorte 
deste vinho melhorou de repente, quando a guerra da Liga de Augsburgo encerrou 
os portos franceses à Inglaterra, forçando os Ingleses a deitarem as vistas para 
outras regiões abastecedoras: Portugal e a Espanha. Os Holandeses haviam já 
sido obrigados a comprar vinhos meridionais, devido à política discriminatória 
exercida sobre eles pela França. Os números anuais mostram o tremendo surto 
da exportação vinícola: de uma média inicial de 632 pipas em 1678-87, para 7668 
(1688-97), 

9644 (1708-17), 17 692 (1718-27), 19 388 (1758-67), 40 055 (1788-97), 

44 487 (1798-1807), com altos e baixos nas cifras intermédias. A partir de 1807, 
as exportações baixaram drasticamente, até 

26 591 pipas em 1808-17 e 24 985 em 1818-27. A posição de Portugal foi sempre 
melhorando no conjunto dos exportadores de vinho para a Grã-Bretanha. Em 
1692, os vinhos portugueses e 


As estruturas 525 


e espanhóis quase se equilibravam nas importações inglesas. De 1696 a 1712,0 
vinho de Portugal atingiu dez vezes o volume do vinho de França e um terço mais 
do que o vinho espanhol. Mas não era só a Inglaterra a absorver os vinhos 
portugueses. Outros países do Norte da Europa, como a Holanda, a Alemanha, os 
estados da Escandinávia, etc., contavam também muito, bem como o Brasil e as 
possessões africanas. 


Além do vinho, as exportações portuguesas incluíam o azeite, o sal, couros e 
fruta, que se expediam para a Europa setentrional e para as províncias 
ultramarinas. Em tempo de guerra, até lã, peixe salgado e outros produtos menos 


abundantes podiam encontrar compradores valiosos no estrangeiro. 


Da Europa, Portugal continuava a adquirir uma imensa va- Importação riedade de 
artigos manufacturados. Os têxteis ocupavam sempre o primeiro lugar, com a 
Inglaterra como o seu maior exportador: em 1731, a Grã-Bretanha abastecia o 
Pais com quatro vezes mais tecidos e vestuário do que a sua rival mais próxima, a 
França. Nos começos do século xviii, circunstâncias particularmente favoráveis 
(Portugal e a Inglaterra eram aliados na guerra da Sucessão de Espanha; o 
comércio entre ambos atingira um nível mais elevado do que nunca, olhando a 
Inglaterra para Portugal como um útil comprador para os seus tecidos, Portugal 
dando-se conta de que fracassara a sua política industrial e vendo nos mercados 
ingleses de vinho a maneira de desenvolver as exportações e ajudar a equilibrar a 
sua balança de comércio) lavaram à assinatura, em 1703, do famoso tratado de 
Methuen, nos termos do qual os tecidos de lã ingleses e outras manufacturas de lá 
seriam admitidos sem restrições em Portugal, não obstante as Pragmáticas 
Sanções que os proibiam, enquanto os vinhos portugueses entrariam em 
Inglaterra pagando dois terços dos direitos pagos pelos franceses. Este tratado 
confirmou a posição de Portugal como exportador de vinho de larga escala, 
ajudando ao crescimento do tráfico vinícola até finais da centúria. 


Outros têxteis vinham de França (seda, por exemplo, com muitos artigos de luxo) 
e da Holanda (linhos), enquanto artigos manufacturados de toda a ordem, feitos 
de ferro, cobre e demais metais, se importavam da Europa setentrional. Trigo e 
outros 


526 Absolutismo e iluminismo 


géneros alimentícios provinham de França, Inglaterra, Alemanha e Espanha. 
Chegava algum ferro do Norte espanhol também. Nos finais do século xviii, novas 
regiões económicas começaram a realizar comércio com Portugal: a Rússia 
enviava ferro, trigo, madeira e linho, buscando em troca açúcar, vinho e fruta; com 
a América do Norte iniciou-se também um tráfico de certo vulto nos fins da 
centúria de Setecentos. 


Balança Torna-se interessante estudar a economia portuguesa em comercio 


termos da sua balança comercial. A grande depressão de 1669-92 deu o sinal 
para um deficit quase permanente nas vendas em relação às compras, o qual 
aumentou com a descoberta das minas de ouro do Brasil e a consequente 
abundância de numerário. Só na década de 1680 se verificou situação favorável, 
graças à guerra da Liga de Augsburgo e à neutralidade de Portugal. Durante toda 
a primeira metade do século xviii, Portugal importou muito mais do que exportou, 
sendo a diferença paga em ouro. Os números, quanto à Inglaterra -de longe o 
maior sócio de Portugal - acusavam um deficit anual de £ 389 000 (média de 
1705-15), que foi subindo para £ 441000 (1716-30), £ 769 000 (1731-50), £ 825 
741 (1750-54), £ 1044 081 (1755-59), £ 1015 660 (1760) e £ 1061049 (1761). Mas 
a situação começou. a modificar-se a partir de 1761: a política económica de 


Pombal levou, por um lado, a um aumento nas exportações, e pelo outro, a um 
decréscimo nas importações. A depressão de 1766-69 contribuiu para que se 
reduzisse o tráfico em ambos os sentidos, ajudando a equilibrar compras e 
vendas. A partir de 1761, os números foram £ 537 415 (1762-66), £ 250 607 
(1767-71), £ 233 372 (1772-76), £ 203 637 (1777-79). Em 1780 o milagre 
verificou-se: pela primeira vez em quase um século, Portugal vendeu à Inglaterra £ 
41012 mais do que lhe comprou. Esta mesma tendência continuou até 1789: os 
deficits foram apenas de £ 269 745 (1781- 

84) e £ 143 092 (1785-89). Em 1790-92 registaram-se saldos positivos todos os 
anos (com uma média de quase £ 200 000), seguidos por deficit em 1793 e dois 
novos saldos positivos em 1794 e 1795. Era evidente que alguma coisa se 
modificara a favor de Portugal. 


As estruturas 527 


A partir de 1796, estamos de posse dos números totais do comércio externo. 
Revelam um saldo positivo constante, embora irregular, até 1809, com duas 
excepções apenas, em 1797 e 1799. É altamente provável que tal houvesse sido 
a situação desde 1786. 


Que modificação ocorrera? Por um lado, o surto da indústria nacional, como já foi 
dito. Pelo outro, o aumento na produção de certos produtos agrícolas, como o 
algodão e o arroz, tanto para fins de exportação como de consumo interno. Por 
fim, a conjuntura internacional, acarretando um período difícil para os comércios 
da América do Norte, das índias Ocidentais e das índias Orientais. Revoluções e 
guerras beneficiaram o País durante algum tempo, devolvendo a Lisboa um pouco 
da sua antiga importância como entreposto das nações. 


Mas a guerra chegou também a Portugal, e de maneira catastrófica. As invasões 
francesas de 1807-11, a abertura à Inglaterra do tráfico com o Brasil e, pior do que 
tudo, o crescimento fabuloso da indústria britânica, implicaram um deficit sempre 
crescente no comércio externo português, com problemas bem difíceis de 
resolver. A partir de 1810, as cifras indicaram um regresso aos tempos anteriores 
a 1761. Em cruzados, o deficit elevou-se de 11 milhões (1810) para 79 milhões 
(1811), depois 59 * 52 milhões (1812-13). Com o fim da guerra a situação tornou * 
melhorar, mas a balança comercial mostrava-se ainda desequilibrada ao nível dos 
9 milhões de cruzados nas vésperas da grande revolução de 1820. 


Os desenvolvimentos do comércio e da indústria depende- Política ram em grande 
parte da adopção de uma política económica económica. consciente, que foi em 
geral seguida nos fins do século xvii e As companh 


durante todo o século xviii. A política de estabelecimento de companhias 
privilegiadas e de monopólios, tanto para o comércio como para a indústria (cf. 
Cap. VI), caracterizou os dirigentes do Portugal de então. Durante a crise de 1669- 
92, o governo privilegiou três companhias para comerciarem em Cabo Verde e 
Guiné, Brasil (Pará e Maranhão) e índia. Todas elas estagnaram, acabando por 


ser extintas quando voltaram os tempos normais. Duas outras companhias, para o 
comércio do golfo da Guiné e de Macau, surgiram nos começos do século xvili 
mas 


34 
528 Absolutismo e iluminismo 


não foram também longe. Durante o governo do marquês de Pombal adoptou-se, 
mais conscientemente e num sentido mercantilista, o princípio do monopólio, 
confiado a companhias privilegiadas. Os tráficos com a Ásia, o Brasil e a África, 
todos foram sujeitos à doutrina monopolista: Companhia para o Comércio com o 
Oriente, 1753 a 1760; Companhia do Grão Pará e Maranhão, 1755 a 1778; 
Companhia Geral de Pernambuco e Paraffia, 

1756 a 1780; Companhia para o Comércio dos Mujaos e dos Macuas 
(Moçambique) na década de 1760. (Sobre o seu nascimento e fracasso veja-se o 
capítulo IX). Para o Portugal metropolitano foram fundadas duas companhias: a 
Companhia para a Agricultura das Vinhas do Alto Douro (1756) e a Companhia 
Geral das Reais Pescas do Reino do Algarve (1773). A primeira visava proteger a 
boa qualidade do vinho do Porto contra o crescimento desenfreado da produção 
de vinho e a concorrência sua correspondente. Associou um cartel de grandes 
produtores do vale do Douro e exportadores do Porto, recebendo numerosos 
privilégios como, por exemplo, nas exportações para o Brasil e para outras partes. 
A quantidade de vinho anualmente produzido bem como o tabelamento dos 
preços contavam-se entre os seus objectivos. Mau-grado a forte oposição dos 
pequenos produtores e dos comerciantes, que levou a motins populares no Porto 
(1757), a Companhia durou, trazendo benefícios importantes para o vinho. A 
segunda companhia indicada tinha por fim controlar as pescarias do atum, da 
corvina e da sardinha no Sul, deparando igualmente com algum sucesso. 


No ramo industrial, foram concedidos alvarás de privilégio à Real Fábrica das 
Sedas e à Cordoaria Nacional, facto que as converteu em organizações 
monopolísticas. 


Atendendo às circunstâncias, pode dizer-se que todas estas companhias tiveram a 
sua utilidade, implicando o surto da produção e da exportação, e a organização do 
comércio. Foi em parte devido a elas que a balança comercial portuguesa se pôde 
equilibrar ou para isso tender a partir de 1761. Ao voltarem os tempos normais, 
finda a crise de 1766-79, a maioria foi julgada inútil e consequentemente extinta, 
mas a sua missão cumprira-se já, com incalculáveis benefícios para a situação 
económica do 


As estruturas 529 


País. Medida importante para estimular o comércio foi também o novo regime de 
liberdade de circulação interna, decretado por Pombal em 1774. 


Até aos fins do século xvii, muito pouco ouro e prata haviam O ouro 


do Brasil. sido achados no Brasil. Como os metais preciosos de origem afri- A 
moeda cana se mostravam igualmente raros, Portugal tinha, quase que 
exclusivamente, de depender das importações de ouro e de prata da Espanha 
(isto é, da América Espanhola, via Cádiz) para pagar os deficits da sua balança 
comercial. Em Espanha, todavia, as produções de metais preciosos decaífram 
significativamente a partir dos finais da década de 1660, sendo adoptadas 
sucessivas medidas que travassem a saída do ouro do país. Em 1686, a moeda 
foi desvalorizada em 25 %. Encadeado como estava à moeda espanhola, Portugal 
teve também de reformar a sua. 

O marco de ouro subiu de 82 500 réis (corrupção do plural reais) para 85 333 
(1677) e depois para 98 700 (1688), enquanto o marco 


de prata se elevava de 6000 para 6360 réis (1688). Pela mesma 


época (leis de 1685-86) introduziram-se novas técnicas monetárias, que 
resultaram num aspecto geral melhorado, nomeadamente na maior perfeição da 
circunferência. A introdução da serrilha exterior impediu o cerceio, prática muito 
generalizada e resultante da escassez de numerário. 


A desvalorização e a redução do cerceio ajudaram a melhorar a situação durante 
algum tempo. Aumentou a moeda circulante e prosseguiram as importações de 
Espanha. Mas foi sã a descoberta das minas de ouro no Brasil que veio resolver o 
problema. Em 1699, Lisboa dava as boas vindas aos primeiros 

514 kg de ouro, enviados directamente do Rio. As quantidades auríferas foram 
aumentando nos anos imediatos: quase 2000 kg em 1701, mais de 4406 kg em 
1703, 14 500 kg em 1712. Após um abaixamento nas médias de 1713-19, 25 000 
kg chegaram em 1720. Este ano, todavia, revelou-se excepcional porque, daí em 
diante, as quantidades de ouro mantiveram-se sempre abaixo do nível dos 20 000 
kg. Na década de 1740 e começos da de 1750, ainda se atingiam médias de 14 
000 a 16 000 kg por ano, mas a maré foi baixando definitivamente: menos de 1500 
kg na década de 

1760, pouco mais de 1000 kg nas de 1770 e 1780. E a curva conti- 


530 Absolutismo e iluminismo 


nuou a decrescer até quase nada haver para marear nos começos do século xix. 
Não se esqueça, aliás, que o contrabando, sempre florescente, contribuiria para a 
subida daqueles números. 


Com ouro em abundância tal e durante quase um século, e com uma balança 
comercial próspera, não admira que a moeda se pudesse manter forte e com 
poucas modificações no valor. 

O marco de ouro subiu para 102 400 réis em 1722 mas não sofreu depois 
alterações até 1822. O valor do marco de prata alterou-se para 7000 réis (1734) e, 
em seguida para 7500 (1747) mas ai parou. Cunharam-se moedas fabulosas, 


tanto em peso quanto em diâmetro e em desenho, por vezes autênticas medalhas, 
em especial durante o reinado de D. João V: o dobrão de 24 000 réis, pesando 
mais de cinquenta gramas; o meio-dobrão de 12 000 réis; a dobra de 12 800 réis; 
a peça de 6400 réis; a moeda (4800); a meia peça (3200); a meia moeda (2400); e 
o escudo (1600). 


Em quantidades totais, o ouro do Brasil foi muito além de todo o ouro que Portugal 
jamais recebera de África e da América Espanhola no século xvi. Em sua maioria 
saiu para Inglaterra, Holanda, Génova e outras regiões da Europa. Serviu pois 
para estimular a economia de toda a Europa, particularmente a inglesa. 
papel-moeda Para os finais da centúria, o declínio na produção aurífera, 

aliado à expansão do comércio e ao crescimento dos encargos governamentais, 
levaram a que se contraísse um empréstimo de doze milhões de cruzados em 
1796-97, aos juros de 5 e 6%. Emitiram-se apólices do Real Erário no valor de 50 
000 e mais réis, que podiam circular como moeda. Pouco tempo depois, as 
apólices foram impostas como moeda obrigatória (embora sujeitas a uma taxa de 
desconto), surgindo assim em Portugal o papel-moeda. Em 1797-99, havia 
apólices nos valores de 1200, 2400, 

5000, 6400, 10 000, 12 800, 20 000, 50'000 e 100 000 réis. Até 1807 as apólices 
do Real Erário totalizaram 11356 589 800 réis ou 

28 391474 cruzados. 

Preços Durante a maior parte do século xvii, a curva dos preços 


europeia mostrara unia tendência decrescente. A guerra com a Espanha (1640- 
68), porém, modificou essa curva um pouco em 


o oO < 

Xx0 0- 

C> 

C>C>CDoC>000«(dDr.4Dw 

--[-111111i 
ooC>0C3C>000C>0a0C>C>0oM<3&noo<»a>CO 40 
532 

Absolutismo e iluminismo 


Portugal, convertendo a vertente em planalto com umas quantas subidas. Ao 
voltar a paz, a tendência geral afirmou-se outra vez. Até 1690-93, a maioria dos 


preços manteve-se estável ou decresceu, com poucas excepções apenas. Lías a 
expansão comercial dos finais da centúria acarretou unia subida até 1712-13, a 
que se seguiram novos abaixamentos ou alguns planaltos, até 1728-29. Em 
Lisboa, o almude ( = 16,8 1) de azeite, que custava 1360 réis 


ROIS/ALQUFIRE 
1600 O 


6001 
Fig. 57-Marcha dos preços, 1680-1820 
As estruturas 533 


em 1668, baixou para unia média de 1210 réis (1669-78), subiu depois para 1397 
(1679-88), 1529 (1689-98), 2088 (1699-1713), baixando novamente para 1721 em 
1714-29. Também em Lisboa, o arrátel do arroz oscilou ligeiramente em torno de 
uma média de 25 réis até 1690; subiu para 35 a 40 réis em 1691-1713, descendo 
depois para 30 ou até menos nos anos subsequentes. O sal, cujo preço não se 
alterara para efeitos de exportação entre 1649 e 1690, à razão de 1490 réis o 
moio, duplicou e triplicou de custo nos períodos seguintes, alcançando 7000 réis 
por volta de 1709, mas baixando depois para 3350 (1713), 3000 (1717), etc. 


A partir de 1730, a tendência geral apontou de novo para cima, e isto até cerca de 
1815-17. Correspondeu à grande expansão da Europa, à Revolução Industrial, à 
abertura de novos mercados em todos os pontos do globo, à abundância de ouro, 
à introdução do papel-moeda. Houve, evidentemente, ciclos de declínio e crises 
passageiras durante esses oitenta e cinco anos, mas a tendência inflatória voltou 
a afirmar-se sempre. A partir de 1789 a subida tornou-se brutal, afectando a maior 
parte dos produtos, juntamente com muitos salários. Em Lisboa, o alqueire de trigo 
quase nunca deixou de aumentar de preço: médias de 295 réis (1728-31), 320 
(1732-39), 345 (1747-52), 396 (1757-58), 440 (1767-71), 469 (1772-73), 480 
(1789-92), 587 (1793-96), 841 (1800-02), 

994 (1808-09) e 1034 (1810-15). Os preços do azeite em Lisboa passaram dos 
1410 réis por almude para 2140 réis (1735), 2380 (1742), 2530 (1771), 2660 
(1789), 3450 (1793), 4000 (1797), 4570 (1800), 5950 (1805), 6070 (1812) e 7600 
(1817). Quanto ao arroz, o nível dos 30 réis. manteve-se estável ou com escassa 
percentagem de subida até à década de 1770, subindo depois para máximos de 
40 (1778), 44 (1785), 49 (1797), 58 (1800), 68 (1801), 

75 (1808) e 84 (1812). 


O sistema das finanças públicas conheceu algumas modifi- Finança., cações 
estruturais: por um lado, as receitas e as despesas passaram a derivar de fontes 
diferentes e a pagar diferentes objectivos; pelo outro, reformas de tipo 
administrativo resultaram num conhecimento mais profundo do mecanismo 
financeiro e nos começos de um sistema de orçamentos regulares e anuais, com o 
conhecimento resultante dos deficits e superavits. 


534 Absolutismo e iluminismo 


Tanto receitas como despesas aumentaram desmedidamente. Um estado do 
século xvili gastava duas vezes mais do que cem anos atrás. Um estado despótico 
do fim da centúria de Setecentos, com sua complexa máquina burocrática, que a 
tudo tocava, gastava mais ainda. Os negócios estrangeiros revelavam-se 
altamente dispendiosos, com suas guerras periódicas e sua actividade diplomática 
contínua. As receitas, por outro lado, também não paravam de crescer. O século 
xviii caracterizou-se, na verdade, por uma riqueza maior resultante de fontes 
variadas, que permitiu considerável aumento nos impostos e possibilidade de 
enfrentar as despesas sem problemas de maior. Não obstante, as dívidas externa 
e interna cresceram necessariamente, ocorrendo bancarrotas aqui e além. 


Em 1681, as receitas públicas portuguesas, incluindo o Ultramar, não iam além 
dos 4 milhões de cruzados, soma muito inferior aos períodos de apogeu do 
começo do século, se atendermos à desvalorização da moeda. Os direitos sobre o 
comércio marítimo entravam com 35 % dessas receitas, seguidos pelos direitos 
sobre o tabaco, com 17 %. Os impostos sobre comércio e circulação internos 
produziam menos de 9 %. No conjunto, quase 40 % das receitas dependiam do 
tráfico marítimo com o resto da Europa. 


Em 1716, as receitas públicas elevavam-se a mais de 9 milhões de cruzados, 
número que se achava já muito próximo da prosperidade dos tempos antigos e 
que era o dobro das receitas de 1681 (atendendo já à desvalorização monetária). 
A intensidade do tráfico com a Europa, o ouro do Brasil e o aumento nos impostos 
internos figuravam como responsáveis por essa subida. Os direitos aduaneiros 
sobre -o comércio marítimo haviam declinado para uns 32 % do total, mas o 
tabaco contribufa com quase 20 %, os impostos sobre o comércio e a circulação 
internos com quase 17 % e os direitos da Coroa sobre o ouro entrado com cerca 
de 9 % do total. Estabelecidos sobre a carne e sobre o vinho transaccionados, os 
novos impostos constitufam a primeira violação da decisão tomada em cortes, em 
1641, segundo a qual nenhumas contribuições poderiam ser impostas sem 
consentimento popular. Ao contrário do que normalmente se julga, 


As estruturas 535 


esses impostos, aliados ao surto do comércio do tabaco e de outras fontes de 
receita, produziram sempre mais para o Estado do que o ouro do Brasil. 


Até 1808, as receitas totais continuaram a subir: 15 milhões de cruzados de média 
anual para o período de 1762 a 1776, 28 milhões em 1805, e isto sem qualquer 
desvalorização monetária a falsear o confronto. Conquanto menos poderoso em 
recursos militares, o País achava-se sem dúvida nenhuma mais rico nos começos 
do século xix do que em qualquer outro tempo da sua história. O comércio 
marítimo com a Europa baseado nos produtos metropolitanos e coloniais, o 
comércio marítimo com a América, a Ásia e a África, o ouro do Brasil, o 


desenvolvimento do comércio e da indústria na metrópole, tudo implicava um 
aumento considerável nas receitas públicas e permitia uma situação 
razoavelmente desafogada para as finanças do Estado. 


Na verdade, se as despesas iam acompanhando as receitas a ritmo paralelo, os 
deficits não se mostravam ainda crónicos e muitos governos puderam apresentar 
contas equilibradas. Existiram, é feito, alguns deficits bem conhecidos, como por 
exemplo os de 1769, 1770 e 1771, o último dos quais atingindo mais de 

1 V2 milhão de cruzados. Não obstante, Pombal findou o seu governo deixando 
um saldo positivo de quase essa importância no erário régio. 


As antigas dívida consolidada e flutuante mantiveram-se sem diminuição. Os 
governos, tanto de D. Pedro Il como de D. João V no começo do seu reinado, 
foram obrigados a contrair frequentes empréstimos públicos. O fim do período de 
guerra trouxe consigo alguma paz financeira também. Apesar de vários 
empréstimos contraídos e particulares e a sociedades, a dívida pública manteve- 
se aproximadamente sem alterações durante a maior parte dos reinados de D. 
João V e D. José. A partir dos fins da década de 1780, o tesouro precisou cada 
vez mais de dinheiro (necessário sobretudo para a guerra e para a efectivação de 
reformas), tendo de adoptar medidas extraordinárias para esse fim. O papel- 
moeda deu ao Estado uns 12 milhões de cruzados extra em 

1796-97 e mais ainda nos anos subsequentes. Reintroduziu-se o papel selado em 
1797. E assim por diante. 


536 
Absolutismo e iluminismo 


A Guerra Peninsular pôs termo à prosperidade do século xviii. Declinaram as 
receitas, =a vez que o comércio, tanto externo quanto interno, esteve paralisado 
durante longos períodos. Terminou o monopólio português no Brasil. Exportações 
e importações decresceram. Em 1819, o Estado recebeu apenas 

24 milhões de cruzados, em 1820, menos de 20 milhões. As despesas em tempo 
de paz subiram a uma média anual de mais de 24 milhões em 1815-19, havendo 
sido muito mais elevadas nos anos de guerra. Decidiu-se assim contrair um novo 
empréstimo de 4 milhões, em 1817. 


A reforma administrativa financeira tivera lugar durante o governo de Pombal. 
Fundou-se em 1761 o Real Erário, com atribuições de superintendência de todas 
as contas públicas, métodos actualizados de controle, maior centralização e 
eficiência. Nos fins do século xviii, a dívida pública foi igualmente reorganizada e 
colocada sob a direcção de uma Junta especial. 


As cortes Os fins do século xvii e o século xviii foram épocas de crescente 
centralização e afirmação do poder real. Toda a instituição que tendesse a 
enfraquecer esse poder teria de declinar e de ser extinta. Foi o que aconteceu 
com as cortes. Depois de um curto interlúdio nos meados da centúria de 


Seiscentos, o seu papel apagou-se de todo. O infante D. Pedro convocou-as 
(1674) para fazer jurar a sua filha herdeira do trono. Todavia, quando as cortes 
tentaram interferir na administração pública, o rei dissolveu-as. Reuniram-se de 
novo, em 1679, para discutir o casamento da princesa e, depois, pela última vez, 
em 1697-98 para jurarem herdeiro da coroa o príncipe D. João. De ambas as 
vezes, as cortes não passaram de servas obedientes dos desejos reais. Nos 
primeiros anos do seu reinado, D. João WV (1706-50) mencionou ainda a 
possibilidade da sua convocação, mas nada fez para a efectivar. Pelo contrário, 
introduziu até novos impostos sem aprovação popular. Nem D. José nem D. Maria 
1 nem D. João VI convocaram cortes. 


Governação Outro sintoma da concentração do poder nas mãos de uns 


poucos foi o declínio do governo por conselhos. O seu apogeu conseguira-se no 
tempo de D. João IV e de D. Pedro Il, épocas 


As estruturas 537 


em que o poder estivera praticamente partilhado entre rei (com seus secretários) e 
conselhos de nobres. Com D. João WV, a situação começou a modificar-se, 
cabendo cada vez mais a governação ao «ministério», enquanto as atribuições 
dos conselhos se iam desvanecendo. Em 1736, uma reforma governativa 
concedeu atribuições maiores aos secretários, cujos nom” tradicionais foram 
modificados com uma correspondente reorganização de funções: Secretário de 
Estado do Reino, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e 
Secretário de Estado da Marinha e do Ultramar. O primeiro dirigia o gabinete, 
actuando como um autêntico primeiro-ministro. Este governo de três pessoas, 
presidido pelo rei, resistiu a quaisquer alargamentos até finais do século xviii, 
quando um quarto membro foi agregado para administrar a Fazenda pública. O 
conselho denominado Junta dos Três Estados foi suprimido em 1813. Embora 
diversas Juntas se houvessem criado, durante os finais do século xviii e começos 
do xix, para assuntos de finanças, marinha, censura, indústria, educação e outros, 
os seus objectivos revelaram-se puramente técnicos ou administrativos e completa 
a sua dependência do Estado. 


Para fins gerais de administração e de justiça, o reino de Portugal e do Algarve 
estava dividido, como antes, em seis pro- 

víncias, subdivididas em comarcas. O número destas últimas, porém, aumentou 
substancialmente: 27 em 1641, 44 nos começos do século xix. Isto significava 
aumento de população, mas também um sistema administrativo mais complexo e 
aperfeiçoado. Entre a província e a comarca introduziu-se um nova unidade, a 
provedoria, existindo umas 25 ou 26 com esse nome nos finais da centúria de 
Setecentos. Igualmente se haviam registado reformas eclesiásticas, com a criação 
de cinco novos bispados: os de Aveiro (1774), Beja (1770), Castelo Branco (1771), 
Penafiel (1770, extinto pouco depois) e Pinhel (1770). Esta divisão diocesana 
implicava uma completa reestruturação do quadro eclesiástico nacional, com 
consequências também ao nível civil. 


As reformas mais importantes efectivaram-se nos campos da justiça e das 
finanças. Em 1760, o futuro marquês de Pombal criou o cargo de Intendente Geral 
da Polícia da Corte e do Reino, 


538 Absolutismo e iluminismo, 


ao mesmo tempo que reformava por completo o corpo de polícia. Esta reforma, 
não só dotou Portugal de uma eficiente e moderna organização policial que 
pudesse eficazmente enfrentar o crime e o banditismo crescentes, como também 
instituiu uma feroz polícia do Estado com amplos poderes para prender todo 
aquele que se opusesse ou fosse tido por suspeito ao governo. Peça fundamental 
na nova concepção de Estado do século xviii, as atribuições da polícia nunca 
cessaram de crescer: em 1780 foram-lhe alargadas as prerrogativas e em 1801 
criou-se uma Guarda Real da Polícia. 


Prender alguém tornou-se muito mais fácil depois de Pombal (1751-53) e até à 
revolução liberal de 1820. Todo o sistema judiciário foi reforçado, aumentando-se 
os meios, não só de julgar mas também de reprimir antes do julgamento. Esta 
política repressiva acompanhou o conceito de Despotismo do Estado e o princípio 
da igualdade de todos perante a lei. 


O intendente Pina Manique, que dirigiu a Polícia durante mais de vinte anos 
(1780-1803) ficou famoso pelas suas perseguições aos liberais e a todos os 
partidários das ideologias políticas francesa e americana, mas também pela ordem 
e disciplina que conseguiu impor no País, sobretudo na capital. Contudo, a acção 
e a competência de Pina Manique foram muito além disso, e com excelentes 
resultados: a iluminação pública em Lisboa inaugurou-se em 1780; nesse mesmo 
ano, o Intendente fundava a Casa Pia para servir de asilo e escola aos órfãos de 
famílias pobres; etc. 


Outra reforma fundamental resultou da lei de 1790, que teoricamente aboliu a 
justiça senhorial. Nos velhos coutos e honras, assim como nas donatarias, os 
senhores possuíam ainda certos direitos feudais relativos a jurisdição e à entrada 
de funcionários da Coroa. A reforma de 1790 suprimiu todos esses vestígios do 
passado, estabelecendo em toda a parte a lei geral e, portanto, unificando a 
administração da justiça. 


lasses sociais. Depois da Restauração, a nobreza reestruturara-se e conseguira 
obter um quinhão das responsabilidades governativas (cf. 


Cap Vl). Rei e conselhos governavam o Pais em relativa boa harmonia. A 
«eleição» de D. João IV, a regência de D. Luísa de 


As estruturas 539 


Gusmão, a deposição de D. Afonso Vl e a entrega, tanto do trono como da linha 


de hereditariedade, ao seu irmão mais novo, D. Pedro, não se haviam feito sem o 
apoio da classe nobre e a sua interferência directa nos negócios da Coroa. 


Nos fins do século xvii, os grandes proprietários detinham firmemente as rédeas 
do poder. A prosperidade económica que se seguiu à crise de 1669-92 deu-lhes 
os meios de aumentar a sua fortuna e, consequentemente, a sua força. Como 
sempre em Portugal, a nobreza competia com a burguesia e com o rei nas 
práticas do comércio, contribuindo para enfraquecer o surto de uma classe média 
e impedir o seu desenvolvimento normal. 


Até cerca de 1720, este panorama sofreu poucas alterações. lam-se regularmente 
criando novos títulos mas acompanhados da extinção de outros por morte ou 
promoção. O balanço mostrava-se positivo mas em pequeno grau: nos finais do 
reinado de D. Pedro Il, o número de nobres-titulares só aumentara em três, após 
dezanove criações e dezasseis extinções. Verificara-se contudo uma renovação 
gradual da alta e da média aristocracia, o que denotara o seu vigor e 
comparticipação social. Este facto, somado às doutrinas e às circunstâncias do 
tempo, causava a divisão da nobreza em dois grandes grupos: um, ligado ao 
passado, olhando para, si próprio em termos de sangue e de linhagem, 
defendendo os velhos métodos de governação e de actividade económica, 
realçando o papel da propriedade rural e da agricultura; o outro, mais progressivo 
e aberto, aceitando a promoção à nobreza dos burocratas, homens de letras e até 
burgueses, importando-se menos com a linhagem, interessado em desenvolver o 
comércio e a indústria para deles tirar o seu quinhão. A Inglaterra e a Holanda 
constitufam os modelos para este segundo grupo, enquanto a França e a Espanha 
atraiam o primeiro. 


D. João V (1706-50) pôde alargar o papel da Coroa, fazendo-a acompanhar de 
maior número de burocratas e intelectuais. O aumento dos impostos e o ouro do 
Brasil deram ao monarca os meios de controlar a nobreza mediante tenças e 
dádivas, reforçando-lhe a autoridade acima de todos. Não admira, pois, que a 
velha nobreza iniciasse o seu declínio e fosse obrigada a aceitar a concorrência 
crescente de burocratas, homens de letras e, 


540 Absolutismo e iluminismo 


mais tarde, mercadores ricos. Durante o reinado do «Magnânimo» criaram-se 
vinte e quatro novos títulos, embora desaparecessem vinte e dois outros. Depois 
de 1720, o número de concessões de títulos diminuiu constantemente: cinco em 
1721-30, quatro em 1731-40, dois em 1741-50. Alguns deles não passavam de 
títulos honorários, no género dos concedidos a viúvas e a damas da corte sem 
transmissão hereditária. Pela mesma época, mui- tos nobres, descontentes com 
os «novos tempos» e ressentidos com o declínio da sua importância (isto, mau 
grado os cargos ultramarinos e a opulência reforçada), deixaram a corte e 
retiraram-se para as suas mansões no campo, que o desenvolvimento económico 
tornara prósperas. Desta forma a fidalguia rural fortaleceu as suas posições - 
sobretudo no Norte- enquanto em Lisboa e na administração se afirmava a 


nobreza de toga, aliada a uns quantos financeiros, burocratas e intelectuais. 


O acto final neste processo de alteração teve lugar no reinado de D. José (1750- 
77) e sob o governo de Pombal. A complexidade dos negócios do Estado 
especializou e realçou o papel da burocracia, exigindo para o desempenho das 
funções administrativas (incluindo as diplomáticas) uma preparação especial que 
os nobres não possuíam já. Também a vida económica carecia de especialistas, 
isto é, de gente que se consagrasse por completo ao trato mercantil, à indústria ou 
à finança. O comércio foi oficialmente declarado profissão nobre, necessária e 
lucrativa (1770). Os comerciantes foram autorizados a instituir morgadios. Tornou- 
se inevitável a todos uma educação regular que à nobreza repugnava. A 
adaptação da velha aristocracia às novas realidades levaria tempo. No entretanto, 
o seu papel económico e político foi diminuindo. Os dois grupos que ainda 
mantinham uma soma perigosa de força e de prestígio, a saber, a fidalguia rural e 
a aristocracia metida nos negócios e cargos ultramarinos, foram perseguidos e 
consideravelmente dizimados por Pombal e pela sua gente, que controlava a 
governação. Desta maneira, pôde conseguir-se um relativo nivelamento de 
classes, ideal do Despotismo setecentista. A renovação da aristocracia durante o 
reinado de D. José mostrou-se quase completa: em vinte e sete anos de governo, 
concederam-se vinte e três novos títulos, desa- 


As estruturas 541 


parecendo outros vinte e três. É extremamente elucidativo desmontar por 
hierarquias este processo de renovação: criaram-se dois duques (extinguindo-se 
outros dois), sete marqueses (extinguindo-se cinco), doze condes (contra catorze), 
dois viscondes (contra um) e nenhum barão (contra um). Ao todo, D. José e o 
marquês de Pombal instilaram sangue novo em cerca de um terço da nobreza: de 
uns 70 titulares existentes em 1750, renovaram 23. 


A morte de D. José e a queda de Pombal nada vieram modificar. Pelo contrário, o 
declínio, dos aristocratas privilegiados acelerou-se e o surto da burguesia (num 
sentido geral da palavra) continuou como dantes. Em 1790, aboliram-se as 
donatarias e, com elas, as funções mais importantes de administração e jurisdição 
ainda reservadas à nobreza. A concessão de títulos tornou-se unia simples 
recompensa, dada a qualquer um, sem respeito por linhagens. O resultado foi uma 
inflação de títulos, particularmente durante o governo do príncipe, depois rei, D. 
João (1792-1826). De 70 em 1777, o número de titulares elevou-se a 78 (1791), 
85 (1801), 104 (1811) e 155 (1825). Em menos de cinquenta anos, o número de 
nobres-titulares aumentou em 

121 % com um saldo positivo de 85 títulos novos, quase dez vezes mais do que 
em todo o século anterior (1670-1777). 


Para o clero, o período de que tratamos foi de continuo e crescente declínio. Entre 
as camadas mais baixas da população, o seu prestígio sofreu indubitavelmente 
poucas alterações e a sua força permaneceu intacta. Mas entre as camadas 
superiores, sobretudo os intelectuais, os burocratas e os nobres, a sua influência 


diminuiu. Viviam-se tempos novos. O espírito do século xviii era de dúvida, de 
impiedade, de ateísmo. O próprio clero se aproximou cada vez mais do mundo 
laico, esquecendo parte da sua disciplina e devoção religiosas. Como 
consequência do fortalecimento e da concentração do poder real, os privilégios e 
as prerrogativas eclesiásticas foram constantemente cerceados, enquanto a maior 
riqueza da Igreja lhe suscitava maior amor pelo luxo e pela vida mundana. 


£ verdade que a constituição de algumas novas ordens religiosas poderia levar a 
crer que permaneceram intactas a fé e 


542 Absolutismo e iluminismo 


o sacrifício. mas essas ordens nada mais representavam do que um esforço 
desesperado para reagir contra o mundanismo crescente; nunca conseguiram 
grande número de membros e a sua importância histórica revelou-se, em geral, 
mínima. Os Capuchinhos franceses (em Portugal chamados Barbadinhos), ou os 
Mercedários de fundação seiscentista, assim como os Lazaristas, os Mínimos de 
S. Francisco de Paula, as Ursulinas, os Concepcionistas Marianos e uns quantos 
outros criados no século xviii jamais se difundiram como outrora tantas ordens 
religiosas nem exerceram qualquer influência no País em geral. Algumas ordens 
especificamente nacionais (a Congregação da Oliveira, os Missionários 
Apostólicos, os Paulistas Descalços, etc.) depararam com pouco entusiasmo 
também. 


Entre as antigas ordens, o crescimento revelou-se igualmente reduzido. Só os 
Agostinhos Descalços encontraram relativo sucesso e aumento dos seus 
mosteiros. Ao todo, menos de. noventa novas casas religiosas apareceram entre 
1668 e os meados do século xvill. A partir de 1782, não se criaram quaisquer 
ordens novas. A população religiosa dos mosteiros diminuiu, reduzindo-se a um 
punhado de monges ou de freiras. Mas, ao mesmo tempo, e como a sua opulência 
aumentava (resultado da expansão económica do País e do ouro do Brasil), o 
número de dependentes não-religiosos dos mosteiros aumentou também: em 
1628-30 havia em Portugal umas 450 casas de religião com 7400 pessoas nelas 
vivendo; um século mais tarde o número de mosteiros atingia 477, 
desconhecendo-se porém a sua população total (talvez uns 10 000); em 1826 
havia 577 mosteiros com um total de 12 980 pessoas (7000 homens e 5980 
mulheres), das quais o número de monges, frades, monjas e freiras não 
ultrapassava provavelmente 3500. 


No entretanto, mais de um milhar de Jesuítas haviam sido expulsos do reino 
(1759) e a sua companhia dissolvida pelo Papa Clemente XIV. Os Jesuítas eram 
tão ricos, poderosos e influentes (cf. caps. VI e VII) que provocaram as críticas da 
maioria da população. Também as outras ordens religiosas os odiavam; e na 
mesma ordem de ideias abundava a maior parte do alto clero secular. Os Jesuítas 
tinham-se mostrado incapazes de acom- 


As estruturas 543 


panhar o desenvolvimento da educação e da ciência, e o seu prestígio intelectual 
estava longe do que tinha sido. A sua força impressionante havia-os feito 
descansar demasiadamente no passado, prestando pouca atenção ao nascimento 
de correntes novas. A sua actividade diplomática era deficiente, porque n:-Do 
podiam conceber que o seu poderio estivesse gravemente ameaçado e próximo 
do fim. Contudo, a sua existência como um estado dentro do Estado tornava-os 
impossíveis no quadro das monarquias despóticas dó século xviii. O governo de 
Pombal expulsou-os e a política externa pombalina contribuiu decisivamente para 
a sua expulsão de França (1764) e Espanha (1767), e para a sua extinção final 
(1773). 


Facto semelhante aconteceu com a Inquisição. A Inquisição Inquisição era viável 
como tribunal régio ou quando o poder real não se mostrava ainda despótico. Não 
tinha hipóteses de sobrevivência depois. Em Portugal (como na Espanha), a 
Inquisição convertera-se noutro estado - e poderosíssimo - dentro do Estado. 
Durante todo o final de século xvii e primeira metade do xviii 


continuou imperturbavelmente a perseguir «judeus» e «hereges» e outros, isto é, 
gente da classe média com grande percentagem de homens de negócios, 
mercadores e artífices. De 1684 a 1747, 

4672 pessoas foram sentenciadas e 146 queimadas no cadafalso. Queria isto 
dizer que o Santo Ofício se mostrava um tanto menos feroz do que dantes, visto 
que o número médio de sentenças e mortes por ano descera para 74 e 2,3 
respectivamente, quando outrora alcançara as cifras de 136 e 10. Mas devemos 
ser cuidadosos ao apreciar a acção da Inquisição em termos de médias, 
porquanto períodos de apaziguamento foram seguidos por períodos de Incrível 
ferocidade. Assim, na década de 1704-13, 1392 pessoas foram sentenciadas (139 
por ano) e 17 executadas; em 1724-33, 22 pessoas morreram em 1070 
condenações; e em 1734-43 o número de execuções subiu a 51. Os derradeiros 
anos da Inquisição como corpo independente foram terríveis: 1107 sentenças em 
1750-59, com 18 queimas. Mas esta ferocidade tardia escondia uma sentença de 
morte para a própria Inquisição. Tal como a Companhia de Jesus, o Santo Ofício 
fora ultrapassado pelos tempos novos, que não compreendia e a que não se 
adaptava. 


35 
544 Absolutismo e iluminismo, 


Na Europa Ocidental, o século xviii matava pessoas por motivos políticos mas 
rejeitava perseguições baseadas em motivos religiosos ou morais. Através da 
Europa ilustrada, Portugal era desprezado e encarado com horror devido à sua 
Inquisição. Em 1769, Pombal sentiu-se forte bastante para a destruir como corte 
autónoma e converter em tribunal régio, inteiramente dependente do governo. 
Para inquisidor-mor, nomeou seu próprio irmão, Paulo de Carvalho. A distinção 
entre cristãos-velhos e cristãos-novos foi abolida (lei de 1768, renovada em 


1773) e extinta toda a discriminação baseada no sangue. Desapareceram os 
autos-de-fé públicos, juntamente com a pena de morte que o novo regimento da 
Inquisição proscreveu em 1774: a última vítima fora um padre jesuíta queimado 
em 1761. Em lugar de um organismo religioso punindo em nome de Deus, o Santo 
Ofício converteu-se num simples tribunal político, castigando em nome de rei. 


Clero secular O clero secular enriqueceu e prosperou enquanto se manteve 


subserviente aos desejos régios. D. João V aumentou consideravelmente a 
opulência e o prestígio da Igreja nacional, mediante ofertas ao Papa, que lhe 
concedeu tudo o que ele queria. 

O arcebispo de Lisboa foi feito patriarca e depois cardeal (1716; 

1737). Privilégios e tenças de toda a ordem acresceram a riqueza e a 
magnificência da Igreja, particularmente em torno. do rei. Cinco novos bispados 
surgiram em 1770-74. 


Porém, toda esta opulência e pompa traduziam mundanismo e falta de 
independência. Como a nobreza, o clero tornou-se dependente do favor real. 
Cardeais, arcebispos, bispos, cónegos, deões, etc. formaram uma numerosa 
aristocracia eclesiástica, pouco diferente da alta nobreza. As mais elevadas 
dignidades da Igreja reservavam-se para os* nobres, como dantes. Dos 

156 bispos activos entre 1668 e 1820, só menos de uma quinta parte não 
pertencia à aristocracia. Na verdade, o clero continuou a aceitar e a estimular até 
a vinda de filhos segundos da nobreza, que não dispunham de bens próprios, e a 
discriminar contra os que provinham de origens mais humildes. 


As estruturas 545 


Pouco se tem feito para analisar os grupos burgueses. Negociantes estrangeiros 
estabeleceram-se em Lisboa e no Porto o artesanato 


(nesta última cidade principalmente após o surto do comércio vinícola), 
controlando a maior parte, ou pelo menos a mais lucrativa, do tráfico com a 
Europa. Foram eles que impediram o desenvolvimento de uma grande burguesia 
nacional, assim como o estabelecimento de instituições de crédito «modernas», 
tipo bancos. Alguns cristãos-novos e alguns judeus, estabelecidos muito longe de 
Portugal, ousaram concorrer com eles, mas, no seu conjunto, a situação do 
grande comércio nacional não se mostrou favorável durante os fins do século xvii 
e grande parte do xviili. Para mais, os poucos negociantes em larga escala que 
existiam concentravam predominantemente a atenção no tráfico ultramarino, 
incapazes ou desinteressados de distrair capitais para qualquer forma de tráfico 
estrangeiro. 


Quase toda portuguesa se mostrava, porém, a pequena burguesia de mercadores 
e artífices. Eram eles quem, por assim dizer, dominava todas as correntes internas 
de tráfico bem como o comércio marítimo de cabotagem. Tinham igualmente o seu 
quinhão nos negócios do Ultramar. Frequentadores habituais de mercados e 


feiras, e lidando com a mercadoria mais variada e com as diversas classes da 
sociedade, relacionando camponeses e pastores com burocratas e nobres, 
conservando sem alteração muitas formas arcaicas de comércio (como por 
exemplo traficar em géneros, em vez de moeda), mostravam-se numerosos e 
activos, sofrendo pouco ou nada com a concorrência estrangeira e multiplicando- 
se à medida que o comércio geral se expandia. Obstáculo a iniciativas modernas e 
a alterações de hábitos, receosos do grande comércio e das grandes companhias, 
hostis a toda a forma de organização, revelavam-se em geral pobres ou 
medianamente ricos, quase nada empreendedores, fracos como corpo autónomo, 
pouco conscientes de si próprios como classe, inteiramente dependentes da 
nobreza, da burocracia e da Igreja, de quem formavam clientela. 


No decorrer do século xviii, algumas mudanças drásticas se registaram neste 
quadro. Ocorreu um surto da alta burguesia nacional, devido a certos factos 
registados nos reinados de 


546 Absolutismo e iluminismo 


D. João V e de D. José: maior número de tenças à nobreza e mais ocupação para 
ela no Brasil e na índia contribuíram para a 


afastar um tanto das práticas comerciais; a criação dos monopólios sobre o 
comércio brasileiro, a política governamental de estimular companhias e proteger 
os investimentos, o surto do comércio com o Norte da Europa mas, acima de tudo, 
a expansão geral do próprio tráfico a distância (tabaco, algodão, vinho, sal, ouro, 
etc.), tudo isso deu uma participação maior aos burgueses, permitindo-lhes 
desenvolver e fortalecer as suas posições. Nos finais do século xviii, a situação da 
alta burguesia mudara consideravelmente, comparada com a de cem anos atrás. 
Se os estrangeiros continuavam a dominar a maior parte do comércio externo, o 
desenvolvimento do próprio tráfico elevara o burguês nacional a um papel 
significativo como nunca. 


Mais interessante ainda do ponto de vista social foi o começo de uma aliança 
prática entre a alta e a pequena burguesia, isto é, a dissociação entre as camadas 
mais baixas dos negociantes, por um lado, e a nobreza ou o clero, pelo outro. 
Uma aliança deste tipo significava, para a pequena burguesia, uma transferência 
de fidelidade; e, para a grande burguesia, uma promessa de protecção. Mais forte, 
apoiada pelo Estado, afirmando-se como classe pela primeira vez, a grande 
burguesia tinha agora condições para possuir os seus próprios clientes. Este 
processo, contudo, levou algum tempo, e seria errado pressupô-lo, concluído ou 
realizado na sua maior parte antes de 1820. 


Nos começos de século xix, havia em Portugal uns 80 000 negociantes e 130 000 
pessoas ocupadas em qualquer tipo de manufactura especializada (destas, 20 % 
viviam em Lisboa). A classe mercantil ia-se afirmando cada vez mais. Estado e 
homens de negócio trabalhavam de parceria, procurando organizar e disciplinar o 
quadro mercantil (por exemplo, estimulando a criação de grandes companhias), 


dar forma eficiente ao comércio ultramarino e aos mercados urbanos, etc. Atingira- 
se como que uma definição de burguês, livre dos preconceitos anteriores, de 
classe inferiorizada. Em Lisboa e no Porto sobretudo, consolidara-se um pequeno 
grupo de mercadores ricos, em viva concorrência com os seus colegas 
estrangeiros, ansioso por mais 


As estruturas 547 


poder e mais influência. Alguns deles haviam já ascendido à aristocracia mediante 
cartas de nobilitação que o príncipe regente concedia de bom grado. 


Parte desta burguesia não se achava directamente ligada ao comércio (como nós 
hoje entendemos em geral a palavra), conquanto a sua prosperidade dependesse 
das vendas aos centros urbanos. Era o que sucedia com um grupo de grandes e 
médios proprietários rurais, espalhados pelo País, mas sobretudo numerosos no 
Sul (Alentejo, Estremadura), onde a propriedade se mostrava mais estendida do 
que no Norte. Embora a maior parte desses grandes proprietários pertencesse à 
aristocracia (ou ao clero), alguns não faziam parte dela, e o seu número não 
cessou de aumentar desde o período pombalino. Muitos negociantes e burocratas, 
seguindo uma tradição antiga, gostavam de comprar terra e assim investir parte 
dos seus capitais em bens de raiz, para onde muitas vezes se retiravam ou onde 
passavam algum tempo no ano. Todos estes proprietários estavam em contacto 
directo com os grandes negociantes da cidade mais próxima ou de Lisboa, a quem 
vendiam o seu trigo, o seu vinho, o seu azeite ou a sua lã. 


Entre as classes inferiores, deve também salientar-se o papel desempenhado 
pelos artesãos. O desenvolvimento da indústria foi de par com o aumento 
demográfico e das necessidades gerais. 

O número de artífices cresceu consideravelmente durante o século xviii e os 
começos do xlx. Muitos operários estrangeiros vieram para Portugal onde se 
fixaram, fortalecendo assim as fileiras dos trabalhadores. Como grupo social, 
porém, os artesãos pertenciam, quer à clientela da aristocracia, quer aos 
dependentes da grande burguesia. Alguns trabalhavam para o Estado, o que os 
colocava na condição de funcionários públicos inferiores. 


A escravatura desapareceu gradualmente com o aumento de preço dos escravos 
e o surto do tráfico negreiro com a América. Durante o governo pombalino, acabou 
por ser proibida na metrópole (1761). 


Para concluir esta breve análise dos grupos sociais, deverá As forjas dizer-se uma 
palavra sobre as forças armadas. Como grupo armadas social, o exército foi 
surgindo no século xviii, ao organizar-se o 


548 Absolutismo e iluminismo 


seu quadro permanente dispondo de hierarquias e promoções. Em vez de traduzir 
um atributo mais da nobreza, como dantes, a função de comandar passou a exigir 


algumas outras qualificações e um curriculum próprio. Em resumo, ser oficial 
tornou-se uma profissão. Eram os oficiais do exército e da marinha quem planeava 
fortificações e edifícios públicos, superintendia nas instalação de novas indústrias 
ou estudava os meios de abastecer com água uma cidade. Numa palavra, os 
oficiais converteram-se nos técnicos da época. 


No século xviii e nos começos do xix, a maioria da oficialidade ainda pertencia à 
aristocracia. Alguns, porém, provinham de origens mais humildes, sobretudo, das 
fileiras burguesas e burocratas. Como membros de um corpo em crescimento, 
cujo papel na sociedade não cessava de se desenvolver, os oficiais do exército e 
da marinha começaram a ter consciência de si próprios e um sentido de 
proximidade para com os outros grupos « modernos», tais como os burocratas e 
os negociantes. Aliados aos primeiros, representariam a élite dessa nova classe 
burguesa em evolução, que tão drásticas mudanças traria ao País, apoiada sobre 
o dinheiro dos negociantes. 


Bibliografia -Até 1730 (ou mesmo 1740), o melhor estudo de conjunto sobre as 
estruturas de Portugal acha-se no capitulo de Vitorino de Magalhães Godinho 
(«Portugal and her Empire, 1680-1720») inserto em The New Cambridge Modern 
History, vol. VI, The Rise of Great Britain and Russia, 

1688-1725, Cambridge University Press, 1970. Existe também uma monografia 
razoável sobre as relações comerciais entre a Inglaterra e Portugal: A. D. Francis, 
The Methuens and Portugal, 1691-1708, Cambridge University Press, 1966. 


Depois dessa data, mostra-se extremamente útil a leitura dos capítulos 
introdutórios e das conclusões da obra monumental de Albert Silbert, Le Portugal 
Méditérranéen à la fin de I'Ancien Régime-XVilll-début du XIXO siécle, Paris, 
S.E.V.P.E.N., 1966, que constitui também a obra fundamental para o estudo da 
agricultura e da estrutura agrária do período. Deste livro fez ultimamente Orlando 
Ribeiro um útil resumo e comentário crítico, A Evolu*ção Agrária no Portugal 
Mediterrâneo, Notícia e Comentdrío de uma Obra de Albert Silbert, Centro de 
Estudos Geográficos, Universidade de Lisboa, Lisboa, 1970. Também importante, 
quer para os aspectos gerais quer para os económico-financeiros (fundamental 
para estes ú ltimos), se mostra o livro de Vitorino Magalhães Godinho, Prix et 
Monnaies au Portugal 1750-1850, Paris, S.E.V.E.N., 1955. A situação económica 
do 


As estruturas 549 


País em meados e fins do século xvil, foi analisada por Jorge B. de Macedo em 
três livros desiguais em qualidade: A Situação Económica no tempo de Pombal. 
Alguns Aspectos, Porto, Portu,gália, 1951; O Bloqueio Centinental. Economia e 
Guerra Peninsular, Lisboa, Delfos, 1962; e Problemas da História da Indústria 
Portuguesa no século XVIII, Lisboa, 1963. 


Sobre o clero, veja-se Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, nova 
edição, vols. Il e III, Porto, 1969-70. Acerca da Inquisição, o melhor estudo deve- 


se a Antônio José Saraiva, Inquisição e Cristãos-Novos, 2.a edição, Porto, Inova, 
1969. 


Boa quantidade de informação útil e actualizada encontra-se ainda nos vários 
artigos do Diciondrio de História de Portugal, como por exemplo « Burguesia», 
«Nobreza», «Finanças», «Companhias», «Indústria», etc. Colhem-se igualmente 
elementos nas histórias gerais, já tantas vezes mencionadas. 


D,esPolisillo tsclartcído 
2 -As Luzes 


É costume fazer-se o paralelo entre esse vasto corpo de princípios e de actos 
conhecido como «Luzes» ou « Iluminismo» e a doutrina política do Despotismo 
Iluminado ou Esclarecido, interpretando-se muitas vezes o segundo como 
consequência do primeiro. Contudo, o Despotismo Esclarecido pode bem melhor 
explicar-se como sendo uma fase tardia e final do absolutismo régio, muito mais 
em conexão com as grandes mudanças que a Europa sofreu no século xviii do 
que com a única influência de uma atitude filosófica. 


O novo poderio económico em expansão, a complexidade crescente da 
administração pública, o desenvolvimento dos contactos internacionais exigiam 
novos métodos de governo e a sua maior interferência em qualquer campo da 
vida. O absolutismo real foi, assim, levado às suas últimas consequências, ou 
seja, à doutrina de que a autoridade do rei não tinha limites e de que as barreiras 
do poder do Estado estavam no próprio Estado. 

O absolutismo tradicional proclamava a subordinação do monarca aos costumes 
do Pais (lei comum), às leis naturais, às leis de Deus conforme a interpretação da 
Igreja, e às leis que o próprio rei (e seus antepassados) promulgara para a nação. 
O despotismo vinha proclamar que usos e costumes não desempenhavam 
qualquer papel; defender o princípio de que as leis naturais eram interpretadas 
pelo soberano e de que as leis de Deus estavam depositadas no próprio rei, 
incluindo a submissão da Igreja à sua vontade; e, finalmente, negar que as leis do 


As luzes 551 


reino obrigassem o monarca. Desta maneira, o despotismo iluminado tendia a 
nivelar todas as classes sociais perante o poder real, a abolir quaisquer privilégios 
baseados na hereditariedade e na tradição, a rejeitar todos os organismos 
políticos e sociais de controle à administração central, e a fomentar o surto de uma 
Igreja nacional independente de Roma. Havia de favorecer o 


industrialismo e as novas técnicas, no seu combate às importações do 
estrangeiro; apoiaria monopólios e proteccionismos económicos; desenvolveria a 
burocracia. No campo cultural, tinha de adoptar a secularização mediante uma 
intervenção directa no ensino público e no sistema cultural e mediante uma 
censura do Estado. Favoreceria igualmente a assistência pública organizada, em 


oposição à caridade religiosa. 


O despotismo esclarecido começou em Portugal com o reinado de D. José, 
sobretudo a partir de 1755. O seu grande criador foi o marquês de Pombal o qual, 
em parte, adoptou princípios teóricos expostos por alguns filósofos e pedagogos 
portugueses que tinham vivido no estrangeiro (Verney, Ribeiro Sanches, 
Sarmento) ou por alguns dos seus predecessores no governo e na diplomacia 
(Luís da Cunha, Alexandre de Gusmão). O despotismo de Pombal sobreviveu ao 
seu criador, mantendo-se como **doU Uriif(o Q"g'eral de governo* durante mais 
de quarenta anos, até à revolução liberal de 1820. Os seus sucessores para 
efeitos práticos foram diversos secretários de estado durante os reinados de D. 
Maria | e de D. João Vl, tais como José de Seabra da Silva (Secretário do Interior 
em 1788-99) e o conde de Linhares, Rodrigo, de Sousa Coutinho (Secretário da 
Marinha em 1795- 

1803; Secretário dos Negócios Estrangeiros e da Guerra em 

1807-12). 


O fundamento jurídico de todos os estados **(dlurninados» O Direito era a razão. 
A legislação não devia ser mais do que um corpo de princípios acertados, 
deduzidos a partir da razão de acordo com a natureza humana. A razão dirigiria o 
homem a encontrar a lei que a natureza humana determina, isto é, a lei natural. 
Promulgada em 1769, a chamada lei da boa razão servia para fundamentar cada 
lei e cada costume na «boa razão», sem cujo atributo não podia ser válida. 
Embora a lei tentasse definir o 


552 Absolutismo e iluminismo 


significado de «boa razão», abria antes a porta para um vasto campo de 
imprecisão e de subjectivismo, concedendo a juízes e a tribunais uma ampla 
possibilidade de interpretações próprias e, por consequência, de serem sujeitos a 
pressões políticas. A lei de 1769 derrogou praticamente as leis da nação sem 
edificar um novo corpo legislativo que as substituisse. É verdade que diversas 
tentativas de rever as Ordenações existentes (que datavam de 1603) haviam tido 
lugar nos séculos xvii e xvili. Em 1778 fora mesmo encarregada uma comissão da 
tarefa de preparar. novo código de leis, mas o conflito entre absolutismo e os 
novos princípios do liberalismo impediu a sua redacção final. 


A lei de 1790, unificando a jurisdição em todo o País, constituiu novo passo em 
frente no sentido de abolir de vez os privilégios feudais e de a todos impor e por 
toda a parte a autoridade única da Coroa. 

Os «estrangei- Além do Direito, o outro vasto campo em que o iluminismo 


i-ados» desempenhou papel decisivo foi o da cultura em geral e o da 


educação regular em particular. O atraso do sistema português de ensino era 
acentuado por todos aqueles que o comparavam com o de países estrangeiros. 


Portugueses que viviam lá fora ou haviam viajado demoradamente pela Europa 
tiveram papel de relevo, em apontar os seus muitos- defeitos e em preparar a sua 
revisão total. Estes «estrangeirados», como se lhes chamou 

66m certo desprezo, foram em grande número, e imensa a sua continuação do do 
progresso cultural. Podiam bem comparar-se com os Humanistas do'-século* xv-i< 
que estudaram fora do País (cf. cap. IV). Houve-os diplomatas, como D. Luís da 
Cunha, Alexandre de Gusmão e o próprio Pombal que servira como enviado em 
Viena e em Londres; residentes em vários países, como o judeu Castro Sarmento 
(em Inglaterra), o padre Luís António Verney (na Itália) ou o Dr. Ribeiro Sanches 
(médico na corte russa, depois residente em França); exilados políticos, como o 
Cavaleiro de Oliveira (em Londres), o duque de Lafões (em Londres e por toda a 
Europa e Próximo Oriente), o abade Correia da Serra (em Itália, França e 
Inglaterra), o poeta Filinto Elísio (em França); oficiais do exército, como o general 
Gomes Freire de Andrade, educado na Áustria e mais tarde servindo no 


As luzes 553 


exército francês de Napoleão; ou simples «turistas», como Pina e Proença que 
acompanhou o infante D. Manuel num passeio demorado pela Europa. 


Alguns destes cientistas e homens de letras deram o melhor ou boa parte dos 
seus esforços aos países que os haviam acolhido. Vários ficaram famosos em 
sociedades internacionais e o seu renome foi muito além de Portugal. Tal sucedeu 
com o padre João Jacinto de Magalhães, conhecido em França, onde vivia, como 
o abbé Magellan, um dos homens que mais fez para o progresso geral da Física; 
ou com o botânico Avelar Brotero, quase tão famoso como Lineu no seu tempo; ou 
ainda com Correia da Serra. 


Estes «estrangeirados» actuaram de diversas maneiras. Muitos deles, como 
funcionários públicos, foram formalmente consultados pelo governo ou tiveram 
autoridade e prestígio bastantes para dar o seu conselho em matéria de 
diplomacia, de política e de educação. O Testamento Político de D. Luís da Cunha 
(1747-49), por exemplo, continha todo um programa de como governar o País. 
Castro Sarmento foi consultado (1730) sobre o modo de reformar a Faculdade de 
Medicina, mas sem consequências de maior. Ribeiro Sanches, a pedido de 
Pombal, escreveu um Método de como aprender o estudo da Medicina (1763). A 
obra fundamental de Verney, Verdadeiro Método de Estudar (1746) cobria quase 
todos os campos do ensino, fornecendo ao marquês de Pombal os princípios 
básicos para levar a efeito as suas reformas educativas. 


Alguns outros «estrangeirados» regressaram a Portugal onde a sua acção se 
pôde exercer directamente. Foi o que aconteceu com os dois diplomatas 
Alexandre de Gusmão (nomeado secretário particular do rei e primeiro-ministro, 
praticamente, entre 

1730 e 1750) e o marquês de Pombal, no campo governativo, assim como com 
Gomes Freire, que espalhou as doutrinas da Revolução Francesa, morrendo 
mártir (1817), ou ainda com o duque de Lafões cuja acção foi, simultaneamente, a 


de um rico e culto Mecenas e a de um membro do governo. Correia da Serra, que 
viveu unia vida fértil em viagens e em incidentes, cheia de altos e baixos na 
protecção oficial que lhe dispensou o seu pais, 


554 Absolutismo e ituminisino 


foi um dos primeiros representantes diplomáticos de Portugal nos Estados Unidos, 
onde o cumularam de honrarias (o presidente americano Jefferson chegou a 
consultá-lo sobre os estatutos da nova universidade de Philadelphia, sendo-lhe 
oferecida uma cátedra nessa universidade e a presidência da de Virginia). 


Alguns outros, bastante mais modestos na projecção contemporânea que tiveram, 
exprimiram os seus contactos com as ideias modernas através do trabalho e da 
produção literária. Tal sucedeu com Filinto Elísio e com Brotero, entre muitos. 


Influências A profunda revolução cultural -que se estava, processando 
estrangeiras no País nesses dias significava também a substituição da influência 
espanhola pelas influências francesa,, inglesa., italiana e alemã. Depois de 1640 
(e já antes até), a Espanha tornara-se o inimigo, embora a sua influência 
declinasse muito mais devido ao declínio e atraso da própria Espanha. Até finais 
do século xvii, a Espanha contava-se entre as nações dirigentes da Europa na 
maior parte dos ramos do saber; depois dessa época, o seu papel decresceu 
constantemente, carecendo a própria Espanha de buscar estímulos e padrões de 
desenvolvimento fora das suas fronteiras. Não admira que Portugal, sempre 
ansioso em acertar o passo com as mais avançadas novidades, olhasse para 
outras bandas, tendendo a desprezar o que quer que viesse dos lados do vizinho. 
Esta permeabilidade a novas influências necessita de ser acentuada, porque 
mareou o início de um novo período cultural para o País, juntamente com uma 
nova mentalidade e uma nova atitude face à Europa. A partir do século xviii, 
Portugal deu-se conta de que o seu lugar entre as nações civilizadas do globo e a 
sua individualidade como nação europeia dependiam da sua reacção contra a 
Espanha. Pela primeira vez na História, e apesar de todas as lutas e afirmações 
culturais do passado, a unidade espiritual da Península Ibérica foi rompida, e com 
ela a possibilidade de uma união política viável. O fosso entre os dois estados 
ibéricos fora cavado para sempre. Portugal começou a odiar e a desprezar a 
Espanha como um obstáculo situado entre ele e o resto da Europa, qualquer coisa 
a obstruir o caminho, a impedi-lo de comunicar facilmente com a França e com os 
demais países. Gradualmente, Portugal foi-se tornando menos ibérico 


As luzes 555 


e mais europeu. E a frustração portuguesa de isolamento e de distância acentuou- 
se também então. 


Muitos se revelaram os sinais desta modificação cultural. 
O declínio do Espanhol como segunda língua do País a favor do Francês começou 
nos fins do século xvii. A primeira gramática portuguesa de Francês apareceu em 


1679, seguida por diversas outras no começo do século xviii. Na década de 1730, 
foram publicadas também as primeiras gramáticas de Italiano e Holandês, assim 
como o primeiro dicionário Inglês-Português. Apareceram igualmente traduções e 
adaptações de autores franceses, ingleses e italianos, ao mesmo tempo que se 
importavam quantidades crescentes de livros nessas línguas e se representavam 
peças de teatro de autores franceses e italianos. A literatura e 


o teatro espanhóis passaram a ser rejeitados como algo de antiquado e de mau 
gosto. O Latim também declinou, consequência natural do declínio da Igreja. Nas 
artes, o barroco, tido como corrupção espanhola dos modelos clássicos puros, 
cedeu lugar aos neo-classicismos de tipo francês e italiano. 


Entre as principais arenas onde as novas «luzes» puderam ser discutidas 
contavam-se as academias. As primeiras surgiram na segunda metade do século 
xvii, mas com escassa actividade prática. Multiplicaram-se nos começos da 
centúria seguinte, não apenas em Lisboa mas também no Brasil e noutras partes. 
Em 1720, D. João V instituiu a Academia Real da História, seguindo o exemplo 
das academias reais francesa e italiana, mas bastante original em a especializar 
no estudo da História. Foi-lhe concedida imprensa própria, receitas e diversos 
privilégios como por exemplo a isenção de censura régia. Cerca de metade dos 
seus cinquenta membros não pertenciam à ordem clerical, facto importante para 
documentar o surto de uma intelligentzia laica. Embora esta Academia não 
perdurasse, os seus esforços. ainda conduziram à publicação de diversas obras 
importantes, tais como unia história genealógica da Casa Real portuguesa 
(Historia Genealogia da Casa Real Portuguesa por D. António Caetano de Sousa, 
1735-49, na realidade uma história da maioria das linhagens nobres), a primeira 
bibliografia geral portuguesa (Biblioteca Lusitana por Diogo, Barbosa Machado, 
1741-59) e 


556 Absolutismo e iluminismo 


deram estímulo para o completamento do primeiro dicionário desenvolvido da 
língua portuguesa (Vocabulário Português e Latino de Rafael Bluteau, 1712-28). 
Outra importante academia foi a Arcádia Lusitana (1756), fundada a modelo da 
famosa Academia dell'Arcadia italiana e consagrada à literatura. De origem 
particular -fundadores burgueses- lutou pelo classicismo, definindo alguns 
princípios literários e estéticos. 


Mas a mais importante de todas as academias portuguesas, e aquela onde as 
doutrinas das Luzes estiveram melhor representadas, foi sem dúvida a Academia 
Real das Ciências, fundada em 1779 pelo duque de Lafões e pelo abade Correia 
da Serra com protecção real. Entre outros, os seus fins consistiam em relacionar a 
Universidade com o desenvolvimento da investigação económica e científica. 
Teve, a princípio, três secções, dedicadas às Ciências Naturais, às Matemáticas e 
à Literatura. Organizou um museu científico, uma biblioteca excelente com livros 
estrangeiros e nacionais, participou ou fomentou numerosos projectos de reforma 
económica, científica e de saúde, e contactou com academias e instituições de 


toda a Europa e da América. Defendia as doutrinas económicas dos fisiocratas e 
urna mudança completa no regime agrário feudal. Até certo ponto, favoreceu 
também a liberdade de comércio e de indústria contra o sistema dos monopólios. 
Mas embora a fisiocracia tivesse a sua influência nos ensaístas da Academia e da 
Universidade, não houve qualquer português que defendesse ou sequer 
expusesse um corpus completo de fisiocratismo. 


Até 1820, a Academia Real das Ciências publicara um bom número de livros de 
grande importância (muitos deles relatórios) sobre economia geral, agricultura, 
história e filologia, tornando-se o principal centro do avanço intelectual do País. 


De todo este fermento e da intensidade dos contactos internacionais resultou uma 
vida cultural bastante rica. D. João V e seus sucessores enviaram um número 
relativamente grande de estudantes fora de Portugal, sobretudo para Itália e para 
França, a fim de se familiarizarem com a música e com a arte. Por sua vez, a 
vinda de estrangeiros, quer a convite do monarca ou dos 


As luzes 557 


nobres, que por iniciativa própria, ajudou igualmente a difundir modas e doutrinas 
novas em todos os campos de actividade. 

Contudo, é interessante notar que o século xviii português não contou com 
grandes nomes na literatura e nas artes, mas antes com um grupo numeroso de 
amadores que produziram pouco ou de fraca qualidade, mas que constituíram 
bons exemplos de um ambiente cultural desenvolvido e expresso através de 
corpos colectivos, como por exemplo as academias. Semelhante facto já se notara 
com os dois últimos monumentos da literatura portuguesa barroca, as colectâneas 
de poemas de autores múltiplos conhecidas pelos nomes de A Fenis Renascida 
(1716-28) e Eccos que o Clarim dd: Posfilhão de Apollo (1761-62). Mostraram-se 
também abundantes as peças de teatro, tanto na forma de comédias, farsas e 
tragédias (Manuel de Figueiredo), quanto com acompanhamento musical (António 
José da Silva). A ópera foi o grande género teatral de Setecentos introduzido no 
País. Traduções do italiano mas também adaptações para o Português e libretos 
portugueses originais eram conhecidos em Lisboa e no Porto de um vasto público 
de nobres e de burgueses, que frequentavam os diversos teatros existentes. 
Teatros especiais para ópera começaram a ser construídos nos meados do século 
xviii, sendo de todos o mais famoso o Teatro Real de S. Carlos, inaugurado em 
Lisboa, em 1793, e inspirado no Teatro della Scala, de Milão. Um número 
considerável de músicos nacionais tentou competir com os mestres italianos e 
franceses, tanto no género operático, como no de concerto, por vezes com 
sucesso (Marcos Portugal, Carlos Seixas). Outros espectáculos colectivos que 
favoreciam uma pluralidade de talentos eram os salões aristocráticos (por 
exemplo, o da marquesa de Aloína), os picnics, muito em moda, as festas de 
jardim, os teatros de bairro populares e os pátios das comédias, etc. Os botequins 
desempenharam igualmente um papel de relevo em reunir amadores de literatura 
e músicos de todos os géneros. Diga-se por último uma palavra acerca dos 


mosteiros de freiras, onde muitas delas passavam o tempo lendo, escrevendo ou 
escutando, com visitas masculinas frequentes, incluindo a do próprio rei D. João 
V. Nesses conventos desenvolveu-se um género literário 


558 Absolutismo e iluminismo 


de algum interesse, combinação de misticismo popular, ninharias barrocas, temas 
amorosos e nostalgia pelo mundo exterior. 


O surto do jornalismo e das memórias deu origem a outro género de expressão 
literária. Depois de algumas tentativas prematuras nos meados do século xvii, 
surgiu o primeiro periódico com continuidade, a Gazeta de Lisboa, que começou a 
publicar-se em 1715 e durou mais de um século. Teve à sua frente diversos 
escritores talentosos e revelou o interesse crescente pelos assuntos e modas do 
estrangeiro. Vários outros jornais apareceram no século xviii e começos do xix, 
alguns consagrados a notícias de carácter geral, outros mais preocupados com 
temas literários e económicos. A censura, todavia, particularmente apertada desde 
1750, impediu o desenvolvimento de um jornalismo livre como o que existia em 
Inglaterra ou na Holanda. 


Entre os principais escritores desta época (que todos floresceram nos fins do 
século xviii ou começos do xix), meneionem-se Bocage (1765-1805), um pré- 
romântico que viveu e morreu na miséria, Filinto Elísio (1734-1819), falecido no 
exílio em França, Cruz e Silva (1731-99) e Correia Garção (1724-72), todos eles 
poetas e todos eles provenientes de origens burguesas. 


O movimento científico foi certamente mais modesto mas não menos importante 
como revelador de uma nova mentalidade de cunho internacional. A matemática, a 
geometria, as ciências naturais, a química, a física, a astronomia e a medicina 
suscitaram grande interesse por parte da intelligentzia, atraindo o próprio rei D. 
João V, protector de uns quantos cientistas de renome internacional. Publicaram- 
se muitos livros sobre ciência e tecnologia, aliados a traduções e adaptações de 
tratados e manuais estrangeiros. O Padre Bartolomeu de Gusmão inventou um 
aparelho voador que subiu até ao tecto da sala de baile do palácio real e depois, 
de novo, em pleno ar livre (1709). Pela mesma época instalava-se no palácio do 
rei um observatório astronómico. Nas praças públicas de Lisboa, assim como nos 
«laboratórios» desses dias, realizaram-se numerosas experiências ingénuas, 
algumas com finalidades comerciais, tal como a do tubo óptico ou a da lanterna, 
mágica. Introduziram-se novas técnicas e aparelhos com objectivos práticos (na 
engenharia, na tintura- 


As luzes 559 


ria, no tiro, ete.). Importaram-se máquinas de todos os tipos, às vezes copiadas 
por artistas nacionais, mas frequentemente sem quaisquer resultados de valor ou 
fins de natureza prática. E assim por diante. O ambiente mostrava-se, portanto, 
preparado para as grandes reformas educacionais que tentaram adaptar o ensino 


oficial ao progresso reconhecido em todos os campos do saber * nomeadamente 
no que respeitava à ciência. 


Por sua vez, essas reformas trouxeram consigo um enquadramento mais 
favorável para o desenvolvimento da maior parte das ciências, sobretudo da 
medicina, das ciências naturais, da física, da química e da matemática. 


Haviam-se já efectuado tentativas para construir um sistema Reformas de 
educação renovado e mais progressivo, em alicerces diferen- na educação 


tes dos da Companhia de Jesus. A ordem religiosa de S. Filipe Nery (Oratorianos) 
foi protegida por D. João V, que lhe concedeu uma escola para o ensino das 
Humanidades utilizando métodos romanos «modernos». Os Padres do Oratório 
contaram-se entre os primeiros a lutar contra o monopólio jesuítico, da educação e 
a denunciar o seu atraso. Mas foi só sob o governo pombalino T,ie algo de mais 
radical pôde ser levado a efeito. 


As reformas -começaram em 1759 e prosseguiram até 1772, abrangendo os 
níveis primário, secundário e universitário. A expulsão dos Jesuítas serviu de 
pretexto, visto que eram eles que tinham na mão boa parcela.. do sistema de 
ensino. Uma lei de 

1,75ã criou por todo o reino classes de latim, grego, hebreu e retórica para as 
crianças, proibindo a utilização dos manuais e métodos de ensino jesuíticos. As 
aulas de latim incluífam a aprendizagem regular do Português. Os professores 
deviam igualmente ensinar aos alunos conhecimentos bastantes de escrita, 
ortografia, aritmética, catecismo e regras de boa educação. Em 

1761, ao jQOgr,,q CalégiO Idedg (Ddos Nobres, Pombal instituiu como que 
um nível secundário de instrução para os nobres e filhos de altos funcionários. Al 
se passava a ministrar o, ensino de línguas (latim, grego, francês italiano e inglês), 
humanidades (retórica, poesia e história), ciências (aritmética, geometria, 
trigonometria, álgebra, óptica, astronomia, geografia, náutica, arquitectura militar, 
arquitectura civil, desenho e física), bem como 


36 
560 Absolutismo e iluminismo 


desporto (esgrima e equitação) e dança, para um máximo de cem estudantes. As 
aulas só começaram em 1766, compondo-se a maior parte do corpo docente de 
mestres estrangeiros. 


O sistema universitário foi completamente renovado. Em 

1759 fora extinta a universidade de Évora ao serem expulsos os seus 
proprietários, os Jesuítas. Assim, só existia a universidade de Coimbra. Depois de 
um inquérito às suas condições (1770-71), o qual revelou a completa decadência 
e o atraso dos estudos, promulgaram-se novos estatutos em 1772, exibindo todo 
um programa moderno de humanidades e de ciências. Além das existentes 


faculdades de Teologia, Cânones, Leis e Medicina, Pombal criou as faculdades de 
Matemática e Filo q 


s, (ou seja, ciências), dotando-as de um observatório astronómico, um museu de 
história natural, laboratórios de física e química, um «teatro de anatomia» (isto é, 
um laboratório médico), uma farmácia e um jardim botânico. As faculdades 
existentes foram completamente renovadas, introduzindo-se novas disciplinas, tais 
como história do direito e história eclesiástica. A medicina ganhou também um 
carácter muito mais prático. Pombal e seus sucessores convidaram numerosos 
estrangeiros (Vandelli, Della Bella), principalmente para as faculdades recém- 
criadas. 


As reformas culturais não se detiveram aqui. No PoQto -e em Lisboa 
inauguraram-se escolas de náutica e de desenho. bem como aulas de ciência 
militar. Em Lisboa surgiu uma Escola de Comércio para os jovens burgueses. Em 
1768 criou-se uma Imprensa Régia. Para conseguir fundos para tantas reformas 
InstitUiu-se o chamado «subsídio literário», subtraindo verbas especiais dos 
impostos existentes sobre o vinho, a aguardente e o vinagre. 


Censurj É importante acentuar que todas estas mudanças culturais 


de vulto não implicavam liberdade de cultura. Se a censura deixou de ser 
primariamente religiosa e geralmente retrógrada de espírito, nem por isso cessou 
de se exercer ferozmente por motivos políticos. A Real Mesa Censória, criada em 
1768, transferiu para o Estado o controle pleno sobre livros e outras publicações, 
abolindo ao mesmo tempo as censuras existentes e tornando burocraticamente 
mais fácil a edição de qualquer livro. Contudo, 


As luzes 
561 


das suas regras não se exclufram os princípios religiosos nem a participação de 
representantes da Igreja nas suas reuniões. Como dantes, proibiam-se todos os 
livros que defendessem doutrinas ateias ou não-católicas, que ensinassem 
feitiçarias ou astrologia, ou que estimulassem superstições de qualquer ordem. 
Proscreviam-se também as publicações obscenas, bem como todas aquelas que 
atacassem o governo ou pudessem ser consideradas subversivas para a ordem 
social existente. Não terminou o controle sobre bibliotecas particulares. E as 
atribuições da Real Mesa Censória (depois chamada Junta da Directoria Geral dos 
Estudos e Escolas) alargaram-se ainda mais, quando a total administração e 
direcção dos ensinos primário e secundário foi colocada sob sua autoridade. 


Não obstante a persistência e a identidade aparente das antigas formas de 
censura, não há dúvida de que um espírito de maior liberdade surgiu a pouco e 
pouco dos novos conceitos cosmopolitas de «razão» e «luzes». Os princípios 
tradicionais já não dispunham daquela força universal que os impusera por todo o 


reino. Cada intelectual, cada nobre e cada burocrata estava em transgressão com 
as regras prescritas pela Real Mesa Censória, possuindo, lendo e difundindo livros 
proibidos. Muitas obras permitidas sobre história, filosofia, física, medicina e 
ciências naturais, que pareciam inofensivas à primeira vista e eram 
consequentemente toleradas, iam sapando, na realidade, os alicerces do antigo 
regime, a intangibilidade das crenças religiosas e as doutrinas do despotismo, se 
não a própria realeza. A censura apenas reprimia o que se afigurava óbvio; mas 
deixava em livre circulação ameaças perigosíssimas à ordem existente, que em 
breve iriam causar a sua destruição final. 


O movimento cultural pombalino não morreu com a queda do Marquês; pelo 
contrário, as reformas que encabeçou mantiveram-se e ampliaram-se sob os seus 
sucessores. A tendência para o empirismo e a reacção contra os excessos de 
uma metafísica balofa e sufocante (expressa pelo tipo «Jesuítico» de saber) 
continuaram: em 1791 foi suprimido dos cursos da Faculdade de Filosofia o ensino 
da filosofia racional e moral e substituí do por uma cadeira de botânica e 
agricultura. Nestes termos, a 


562 Absolutismo e iluminismo 


Filosofia (como nós a entendemos hoje) desapareceu por completo dos estudos 
universitários. Mais escolas de desenho foram criadas em Lisboa e “no Porto, 
estabelecendo-se na capital uma muito discutida Academia do Nu, para o estudo 
estético do corpo humano (1780). Criaram-se também escolas de -aritmética e de 
geometria. Mas os passos em frente mais importantes no campo da educação 
foram porventura a criação de uma Academia Real da Marinha (1779), de um 
Colégio Militar para os moços filhos de oficiais (1803) e de escolas para raparigas 
(1815). Ao mesmo tempo, frisou-se ainda mais o principio «esclarecido» da 
difusão da cultura, quando a livraria do rei abriu as suas portas ao público como 
primeira biblioteca pública do País (1796). 


Artes O impacto das «Luzes» nas artes não se mostra tão fácil de 


avaliar. Até meados do século xviii, o barroco (que os «estrangeirados» odiavam 
como um estilo retrógrado) dominou inteiramente Portugal. Como dantes, 
continuaram a construir-se igrejas decoradas com magníficos exemplos de talha 
dourada e de azulejaria (cf. Cap. Vl). Inúmeros interiores (e exteriores) de 
monumentos românicos e góticos sofreram o vandalismo de uma época que os 
não podia apreciar e que os precisava de cobrir com outra decoração. O ouro do 
Brasil e o vinho exportado para Inglaterra trouxeram prosperidade ao reino, com o 
resultado de que um número incrível de mansões aristocráticas se elevou por toda 
a parte seguindo as formas tradicionais barrocas. D. João V ordenou a construção 
de um soberbo interior de biblioteca para a universidade de Coimbra, (1716-25), 
onde aliás o tradicionalismo decorativo sofreu já os embates de unia «chinoiserie» 
delicada, de importação francesa. Mas, ao mesmo tempo, mestres italianos e 
alemães eram convidados para Portugal, começando a edificar em maneira 
menos adornada e mais classicizante. O arquitecto alemão Ludwig (Ludovice) 


construiu o enorme mosteiro de Mafra (consagrado em 1730), além de vários 
outros exemplos de mestria sóbria e elegante. O arquitecto italiano Nazoni 
desenvolveu a sua actividade no Norte de Portugal, deixando como obra-prima a 
igreja e a torre dos Clérigos no Porto. Entre as edificações mais úteis e 
pragmáticas, faça-se referência especial ao extenso e artístico aqueduto que 
resolveu o problema do abas- 


As luzes 563 
tecimento de água a Lisboa (Aqueduto das Águas Livres, aberto em 1748). 


Porém, o grande acontecimento que influenciou as artes foi o terramoto que 
destruiu cerca de metade da cidade de Lisboa Lisboa na manhã de 1 de 
Novembro de 1755. A parte mais importante da capital caiu em ruínas, incluindo o 
palácio real, inúmeras igrejas e casas religiosas, o hospital de Todos os Santos, a 
ópera e as ruas e bairros mais opulentos. Em vez de ordenar a reedificação da 
cidade de acordo com a traça anterior, o futuro marquês de Pombal decidiu que 
ela se fizesse segundo conceitos totalmente novos em urbanismo e em 
arquitectura. Aprovou um plano muito simples, mas revolucionário, que 
transformou o centro da cidade num enorme tabuleiro de xadrez, precedido por 
uma vasta praça aberta sobre o rio. Nessa praça seriam construídos os edifícios 
do governo e da administração, bem como um arco triunfal e uma elegante 
estátua equestre ao rei D. José. Todas as casas seriam semelhantes quer em 
largura quer em altura. A cidade terminava-se por outra praça de amplas 
dimensões, rodeada de palácios e edifícios elegantes. Para a efectivação deste 
plano ambicioso e único, o futuro Marquês ordenou que todas as ruínas fossem 
arrasadas, incluindo as muitas casas que o terramoto deixara de pé. Tudo foi 
construído de novo. Consequentemente, Lisboa transformou-se numa cidade 
autenticamente «esclarecida», racionalmente planeada e edificada, com suas 
ruas, praças e casas traçadas à régua, na maneira mais teórica com que um 
filósofo do século xviii poderia sonhar. Esta cidade nova levou evidentemente 
várias décadas a completar-se, sendo mais tarde alterados muitos pormenores do 
traçado inicial. Alas, na essência, não sofreu modificações o plano que o 
engenheiro Manuel da Maia e os arquitectos Eugénio dos Santos e Carlos Mardel 
haviam gizado e começado a efectivar. 


Além de Lisboa, com os seus novos palácios, igrejas e cha- oufrú.(O farizes, 
construiu-se unia muito bela casa de campo para a família real em Queluz, 
copiando mas reduzindo em escala o palácio artísticas de Versailles; edificou-se 
um palácio sumptuoso na Ajuda; e vá-rias outras residências nobres e burguesas 
proclamaram por todo o Pais a «restauração das artes» defendida pelos 
classicistas. 


564 Absolutismo e iluminismo 


A escultura e a pintura exibiram menos esplendor do que a arquitectura, mas 
mesmo assim algumas boas escolas de ambas as artes surgiram desde os fins do 


século xvii até aos começos do xix. Domingos António de Sequeira, pintor de 
renome, floresceu nos finais de Setecentos e princípios da nova centúria. Uma vez 
mais, boa parte do movimento artístico desenvolveu-se anonimamente, expressa 
em decorações de igrejas e de palácios mas sem se individualizar. 


Bibliografia-Um excelente embora curto resumo do Iluminismo, português foi 
escrito por António Coimbra Martins para o Dicionário de História de Portugal 
dirigido por Joel Serrão, vol. II (artigo «Luzes», pp. 836-856). No mesmo Dicionário 
podem encontrar-se alguns outros artigos de utilidade sobre aspectos vários do 
movimento ou sobre os seus 


principais representantes, nomeadamente «Estrangeirados» (vol. Il, pp. 122-129) 
pelo mesmo autor, «Absolutismo» (vol. |, pp. 8-14) e «Despotismo» (vol. |, pp. 
804-806), ambos devidos a Jorge Borges de Macedo. Todos incluem 
desenvolvidas e actualizadas bibliografias. 


Sobre o Direito, veja-se L. Cabral de Moncada, «O século xviii na 


legislação de Pombal», nos seus Estudos de História do Direito, Coimbra, Acta 
Universitatis Conimbricensis, 1948, pp. 83-126. 


Acerca das influências estrangeiras em Portugal, o melhor trabalho deve-se a 
José Sebastião da Silva Dias, 11( )rtiOgu1 e a Uziltura Europeza (Se culos XVI a 
XVIII), 2 volumes, Coimbra, 1953. As academias e os problemas gerais da 
literatura encontram-se bem estudados em Antônio José Saraiva e 


oscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, 3. edição, Porto, Porto Editora, 
s/d. Existe uma excelente monografia sobre o teatro escrita por Luciana Stegagno 
Picchio, Storia del Teatro Portoghese, Roma, Edizioni dell'Ateneo, 1964 (existe 
também tradução portuguesa). Sobre a imprensa e 


as publicações periódicas veja-se José Tengarrinha, História da Imprensa 
Periódica Portuguesa, Lisboa, Portugália. 1965. O movimento científico pode 
estudar-se com algum pormenor nas histórias gerais (sobretudo na História de 
Portugal, dirigida por Damião Peres vol. VI, Barcelos, Portucalense Editora, 1934, 
e na História da Literatura (Dortuguesa Ilustrada, dirigida por A. Forjaz de 
Sampaio, vol. Ill, Lisboa, Livraria Bertrand, 1932), que também incluem bons 
artigos sobre literatura e cultura em geral. 


Rómulo de Carvalho escreveu uma sólida monografia sobre educação: História da 
Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa, 1761-1772, Coimbra, Atlânticla, 
1959. A clássica História da Universidade de Coimbra, de Teófilo Braga, vols. Ill e 
IV, Lisboa, 1892-1902, continua a prestar excelentes serviços, Sobre a Real Mesa 
Censória existe uma monografia por 


As luzes 565 


Maria Adelaide Salvador Marques, A Real Mesa Censória e a Cultura Nacio,nal, 
Coimbra, 1963. 


Finalmente, sobre as artes, os dois trabalhos básicos complementares devem-se a 
Reinaldo dos Santos, História da Arte em Portugal, vol. III, Porto, Portucalense, 
1953, e a Robert C. Smith, The Art of Portugal, 1500-1800, New York, Meredith 
Press, 1968. José Augusto França escreveu uma excelente monografia sobre a 
reconstrução de Lisboa após o terramoto: Lisboa Pombalina e o Iluminismo, 
Lisboa, Livros Horizontes, 1965. Sobre o movimento artístico no tempo de D. João 
V, consulte-se Aires de Carvalho, D. João V e a Arte do Seu Tempo, Lisboa, 1962. 
Para os fins do século xviii 

e começos do xix interessa igualmente a obra de José Augusto França, A Arte em 
Portugal no Século XIX, vol. |, Lisboa, Livraria Bertrand, 1966. 


3 -Os eventos decisivos 


A data de 1667 inaugurou para Portugal um longo período governativa de 
estabilidade política, que se concluiria apenas com as invasões francesas nos 
começos do século xix. Três reinados extensos, para já, abonaram essa 
continuidade: os de D. Pedro Il (1667 a 1706, como regente e como rei), D. João V 
(1706-50) e D. José (1750-77). O período relativamente curto do governo pessoal 
de D. Maria 1 (1777 a 1792) foi seguido por outro demorado governo, o de seu 
filho D. João VI como regente e como rei (1792 a 1826). A esta continuidade régia 
correspondeu também uma continuidade secretarial: os cargos mais importantes 
na governação conservaram-se nas mesmas mãos durante longos períodos de 
tempo. Assim, D. Pedro Il confiou o governo ao primeiro duque de Cadaval, que 
praticamente supervisou a administração pública até à morte do soberano, 
secundado por secretários como o terceiro conde da Ericeira (que se suicidou em 
1690) e o segundo marquês de Fronteira. Com D. João V, os secretários de 
estado Diogo de Mendonça Corte Real (1706-36) e Cardeal da Mota (1736-47) 
governaram o País, juntamente com o secretário particular do rei, Alexandre de 
Gusmão (1730-50). D. José confiou plenos poderes a Sebastião José de Carvalho 
e Melo, mais tarde conde de Oeiras e marquês de Pombal, que governou durante 
vinte e sete anos (1750-77). Com os seus sucessores, o controle da administração 
não se mostrou tão espectacular, mas no entanto o visconde de Vila Nova de 
Cerveira (depois marquês de Ponte de Lima) governou durante vinte e três 


Os eventos decisivos 
567 


anos (1777-1800), Martinho de Melo e Castro vinte e cinco (1770-95) e Miguel, 
Pereira Forjaz doze (1808-20), conquanto com muito menos latas atribuições 
individuais. A estabilidade governativa teve as suas vantagens mas igualmente os 
seus inconvenientes: se permitiu reformas, favoreceu também o conservantismo e 
a rotina. Umas e outros dependiam muito do carácter do soberano, da 
personalidade do ministro e, acima de tudo, das circunstâncias da época. 


Tanto como príncipe regente quanto como rei após a morte D. Pedro 1, do irmão 
(1683), D. Pedro pouco modificou os métodos de governo, partilhados com a alta 
nobreza. Cadaval, Ericeira, Fronteira e outros ministros foram hábeis estadistas 
que se esforçaram por restaurar a prosperidade e o prestígio internacional do País 
e em geral o conseguiram. Para este fim, e contrariamente à política tradicional 
portuguesa, tomaram parte activa nos assuntos europeus, modo de afirmar a 
posição de Portugal como nação independente uma vez mais. Cadaval era 
partidário de uma aliança com a França, que ele julgava a melhor maneira de 
conter a força da Espanha, política essa geralmente seguida até começos do 
século xviii. Também a França se mostrava interessada na aliança por razões 
idênticas. Não obstante, quando a rainha D. Maria Francisca morreu (1683) e o rei 
se decidiu a casar de novo, foi antes escolhida uma princesa alemã, Maria Sofia 
de Neuburg, o que aproximou notavelmente as cortes portuguesa e austríaca, 
visto a nova rainha ser filha do Eleitor Palatino. 


Apesar deste e doutros factos, a política externa de Portugal nunca deixou de se 
mostrar extremamente cautelosa. O País não se quis envolver nos conflitos 
europeus do final de Seiscentos, fossem eles a Guerra dos Nove Anos ou a 
Guerra da Liga de Augsburgo (1688-98), em que a França lutou contra uma 
coligação de potências que abrangia a Alemanha (com o Palatinato 
desempenhando papel de relevo), a Inglaterra, a Holanda, a Espanha e a Sabôia. 


A sucessão ao trono espanhol seria motivo para uma alteração na política externa 
portuguesa. D. Pedro Il fora um dos candidatos àquele trono, como tantos 
príncipes de sangue da Eu- 


A Guerra da Sucessão de Espanha 
568 Absolutismo e iluminismo 


ropa do tempo. Portugal proclamava os seus direitos ao Rio da Prata como 
fronteira meridional do Brasil (cf. Cap. IX) - coisa que a Espanha se recusava a 
aceitar - e desejava proteger melhor as suas fronteiras na Europa pela aquisição 
de várias cidades fortificadas espanholas. Consequentemente, Portugal resolveu- 
se a interferir depois da morte de Carlos Il de Espanha (1700). Tendo as suas 
pretensões sido rejeitadas pela Inglaterra, Portugal aliou-se primeiro à França mas 
hesitou depois em entrar em guerra quando verificou que os inimigos daquele país 
dominavam os mares. Razões económicas - o surto das exportações de vinho 
para Inglaterra - ajudaram a vencer, senão a 


convencer, os partidários da aliança francesa. Pelo tratado de 

1703, Portugal juntou-se aos aliados (a Inglaterra, a Holanda, a maior parte da 
Alemanha, a Áustria, a Sabóia) contra a França e a Espanha, reconhecendo o 
arquiduque Carlos da Áustria como 


legítimo soberano espanhol. O tratado de 1703 dava a Portugal as fronteiras 


desejadas, tanto na América como na Europa. 


De 1704 a 1708, a guerra devastou parte do Alentejo e da Beira, embora as forças 
aliadas se mostrassem geralmente vitoriosas. A frente do exército português, o 
marquês das Minas conquistou Madrid (1706), onde o arquiduque Carlos foi 
solenemente proclamado rei, Na Catalunha, aquele mesmo general ficou uma vez 
mais vitorioso em Almansa (1707) e, mais tarde, no Aragão, os Portugueses 
alcançaram novo triunfo em Saragoça (1710). Contudo, e apesar de todas estas 
vitórias, o exército português teve de retirar quando a coligação aliada se rompeu 
(1711) a fim de evitar a união política da Áustria e da Espanha. Um armistício 
(1712) conduziu ao tratado de paz de Utrecht (1713), nos termos do qual Portugal 
e a Espanha simplesmente devolviam uma à outra as praças fortes capturadas. 
No Brasil, porém, Portugal conseguiu certas vantagens. 


D. loJo V Seguiram-se cinquenta anos de paz, só interrompidos por 


uma curta intervenção que D. João V resolveu levar a efeito no Mediterrâneo para 
ajudar o Papa e Veneza a combater os Turcos. Com destino ao teatro das 
operações seguiram duas esquadras, em 1716 e 1717, a segunda das quais 
entrou em combate com o inimigo e saiu vitoriosa numa batalha naval ao largo da 


Os eventos decisivos 569 


costa grega (cabo Matapan). Inútil do ponto de vista estritamente nacional, esta 
intervenção revelou apenas o propósito de D. João V de continuar a política de 
seu pai, intervindo nos assuntos europeus. Ajudado por uma hábil diplomacia, 
dispondo de bons trunfos pela sua prosperidade económica, Portugal reafirmou o 
lugar que lhe competia entre as nações como estado respeitado, cuja 
independência não suscitava dúvidas. O preço dessa independência, porém, 
passou a consistir cada vez mais numa dependência comercial e industrial 
relativamente à Inglaterra. Desde começos do século xviii (e, para dizer a verdade, 
até ao século xx), essa subordinação aos interesses ingleses nunca deixou de 
crescer. 


O governo de D. João V desenvolveu as relações com a Santa Sé, parte devido à 
devoção pessoal do monarca, parte por questões de prestígio externo. Mediante 
dádivas, promessas, artifícios diplomáticos e ajuda efectiva, o rei conseguiu que 
os arcebispos de Lisboa fossem automaticamente feitos cardeais e patriarcas, que 
se criassem duas catedrais em Lisboa, que aumentasse o número de dignidades 
eclesiásticas e respectiva soma de privilégios, que lhe fosse concedido o título de 
Fidelíssimo, etc. Pretendeu também que todos os núncios papais acreditados 
junto da corte portuguesa recebessem a dignidade cardinalícia, o que levou a um 
conflito diplomático e, paradoxalmente, à quebra de relações com Roma durante 
quatro anos (1728-32). Este incidente ligou-se também a problemas de autonomia 
do Estado em relação à Igreja, assunto em que D. João V, claro predecessor de 
Pombal em questões de despotismo, se mostrava altamente cioso-. 


O reinado do «Magnânimo» ficou famoso pela tendência do monarca em copiar 
Luís XIV e a corte francesa. O ouro do Brasil deu ao soberano e à maioria dos 
nobres a possibilidade de ostentarem opulência como nunca anteriormente. Por 
toda a parte se construíram igrejas, capelas, palácios e mansões em quantidade. 
Em Mafra, perto de Lisboa, um enorme mosteiro exibiu a magnificência real. D. 
João V ocupou-se igualmente das artes e das letras, dispendendo vastas somas 
na aquisição de livros e na construção de bibliotecas. Como em tantas cortes do 
século xviii, a depravação moral ocupou lugar preponderante. 


570 Absolutismo e iluminismo 


O rei - e com ele muitos nobres - gerou diversos filhos em freiras de diversos 
conventos, muitos dos quais se converteram em. centros de prazer e numa 
espécie de lupanares reservados à aristocracia. 


D. José 1. Depois da morte de D. João V (1750), seu filho D. José conce- -bal deu 
plenos poderes a um ex-diplomata, Sebastião José de Carvalho 


e Melo, representante da baixa aristocracia, a quem o monarca 


elevou sucessivamente aos títulos de conde de Oeiras (1759) e marquês de 
Pombal (1770). Este princípio de confiar a governação a um primeiro-ministro 
nada tinha de novo, quer em Portugal quer fora dele, havendo-se mesmo 
convertido em regra quase geral na Europa dos séculos xvii e xviii. Tanto D. Pedro 
Il como D. João V deram plenos poderes a secretários de estado e a favoritos que 
governaram durante períodos mais longos do que o próprio Pombal. A única 
diferença esteve em que, com este, o primeiro-ministro controlou, não só a 
governação, mas igualmente a totalidade do Pais, aniquilando toda e qualquer 
veleidade de oposição, incluindo a do próprio rei que mostrava escassos talentos 
governativos. Neste sentido, pode dizer-se que o domínio do governo por Pombal 
foi apenas o climax de uma tendência que durava havia já mais de um século, 
exactamente como o despotismo não foi mais do que o acto final do absolutismo 
régio. 


O, regime pombalino teve o grande mérito de (involuntariamente.(O preparar o 
País para a revolução liberal do século xix. Tanto a Igreja como a nobreza 
sofreram um golpe mortal de que nunca se conseguiram recompor. Ao mesmo 
tempo, foi dada à burguesia (homens de negócio e burocratas) o poder de que 
necessitava para tomar conta da administração e do domínio económico do País. 
Ao nivelar todas as classes, leis e instituições ante o despotismo único do rei, 
Pombal preparou a revolução da igualdade social e o fim dos privilégios feudais; 
ao mesmo tempo que, reforçando a máquina repressiva estatal e rejeitando toda e 
qualquer interferência da Igreja, preparou a rebelião contra a opressão laica e, 
portanto, a revolução da liberdade. 


Em 1 de Novembro de 1755, um terramoto destruiu meia Lisboa e boa parte do 
Sul de Portugal. Umas cinco mil pessoas mor- 


Os eventos decisivos 571 


reram sob os escombros da capital e durante o incêndio que se seguiu, e outras 
tantas no decorrer do mês devido a ferimentos recebidos e a ataques cardíacos. A 
catástrofe realçou o prestígio de Carvalho e Melo, pelas medidas rigorosas que 
imediatamente foram adoptadas a fim de restaurar a ordem, remover os mortos e 
os feridos, e reconstruir a cidade. Diversos governos estrangeiros ajudaram 
Portugal, enviando víveres, ferramentas e dinheiro. 


Depois de oito anos de ultrajes à nobreza e de humilhações que lhe foram 
dirigidas de variadas maneiras, o regime de Pombal suscitou uma vasta 
conspiração de aristocratas visando substituir o rei por sua filha e herdeira D. 
Maria. Encabeçada pelo duque de Aveiro, efectuou-se uma tentativa para matar o 
soberano, que fracassou (1758). Isto deu a Pombal o pretexto por que esperava: 
foram presas numerosas pessoas, incluindo muitos representantes da grande 
nobreza. Juntos com os Jesuítas, todos foram acusados de conspirar contra a vida 
do monarca. Um pretenso julgamento levou à morte, no cadafalso, de um duque 
(Aveiro), dois marqueses e uma marquesa, um conde e diversos criados e clientes 
seus. Outros nobres foram punidos ou banidos. A maioria dos Jesuítas foram 
expulsos do País (1759), enquanto outros muitos eram presos e um morria no 
cadafalso, acusado de heresia. É provável que os Jesuítas não houvessem tido 
intervenção directa no atentado, mas está fora de dúvida a sua acção em criar 
uma atmosfera geral de medo e de ódio contra o poderoso primeiro-ministro até 
ao ponto de interpretar o terramoto como castigo de Deus pelos seus crimes. 


A expulsão dos Jesuítas teve motivações muito complexas -e acarretou toda uma 
série de consequências. Além da participação ou não-participação da Companhia 
no atentado contra o rei (um mero pretexto), ou da sua oposição a Pombal (razão 
muito mais séria), havia nos bastidores um conjunto de motivos partilhados por 
muita gente. No Brasil, os Jesuítas desafiavam a autoridade da Coroa, tendo 
edificado um Estado próprio que se opunha aos interesses do Estado (cf. cap. VII 
e IX). Em Portugal, a maior parte das pessoas cultas acusavam-nos de 
responsáveis pelo sistema retrógrado de ensino vigente e pela oposição a 
quaisquer actualizações. A sua tradicional situação de privi- 


572 Absolutismo e iluminismo 


légio contrapunha-se à tendência geral do despotismo esclarecido. Os Jesuítas 
haviam-se a pouco e pouco guindado a posições de direcção incomportáveis com 
o seu número e únicas entre as demais ordens religiosas e o próprio clero secular. 
Se Pombal e a intelligentzia laíca, os odiavam, ódio não menor lhes tinham muitos 
bispos, abades de mosteiros e padres ou frades mais humildes. Mesmo entre as 
camadas inferiores da população, os Jesuítas estavam longe de ser amados ou de 
manter os contactos de que outras ordens se orgulhavam. Tudo isto explica a 
atitude drástica que Pombal pôde tomar, o auxílio que obteve por parte do clero e 
de inúmeras pessoas e o apoio geral que lhe foi prestado tanto no País como fora 


dele. Outras nações católicas alimentavam contra a Companhia de Jesus queixas 
semelhantes. As medidas de Pombal e a intensa actividade diplomática por ele 
dirigida exerceram um profundo impacto por toda a Europa, levando a sucessivas 
expulsões de Jesuítas de França, Espanha e Nápoles, e finalmente à própria bula 
de extinção da Companhia. Outra consequência, importante foi a reforma da 
educação a todos os níveis, resultado directo da súbita escassez de professores. 


Até ao fim do seu governo, Pombal continuou a perseguir os nobres, o clero e 
quaisquer outros que ousassem combater a sua política despótica. Ao mesmo 
tempo, ia promovendo muitos burocratas, burgueses e representantes do baixo 
clero e da baixa nobreza a hierarquias superiores. Apoiado pela burguesia, por 
parte do clero e pelas camadas inferiores da aristocracia, conseguiu manter-se no 
poder até à morte de D. José. 


Saliente-se também a sua política religiosa. Pombal patrocinava ou olhava com 
simpatia, tanto o Jansenismo como. o Galicanismo-. É possível que acarinhasse a 
ideia de criar uma Igreja nacional portuguesa. Não era política totalmente nova, 
esta, e as atitudes de D. João V em relação a Roma podiam apontar-se como 
precedente. Questiúnculas, sem importância levaram à expulsão do núncio papal 
e à quebra de relações diplomáticas com a Santa Sé durante nove anos (1760- 
69). Pombal tentou concertar esforços com a França e com a Espanha a fim de 
obrigar o papa Clemente XIII a extinguir a Companhia de Jesus. 


Os eventos decisivos 5/73 


Não o conseguiu, mas a morte do Sumo Pontífice e a eleição de Clemente XIV 
vieram modificar a situação num sentido favorável às pretensões portuguesas e 
internacionais. 


Depois de se ter visto livre dos Jesuítas, de haver domesticado os nobres e de ter 
convertido a Inquisição numa disciplina fundamental do Estado, Pombal governou 
dispoticamente durante muitos anos. Mas nem a crise económica nem a 
conjuntura internacional lhe foram favoráveis, levando ao fracasso de muitos 
objectivos a que se dirigia. Portugal tentou conservar-se neutro durante a Guerra 
dos Sete Anos (1756-63). Contudo, uma batalha naval entre ingleses e franceses 
em águas territoriais portuguesas e as vantagens que os portos portugueses 
ofereciam à causa da Inglaterra tornaram difícil a manutenção da neutralidade. Em 
1761, os monarcas Bourbons da França, Espanha, Nápoles e Parma assinaram 
uma aliança defensiva e ofensiva conhecida como Pacto de Família. Convidado a 
aderir aos aliados e a declarar guerra à Grã-Bretanha (visto que D. José estava 
casado com uma Bourbon), Portugal recusou, invadindo então tropas espanholas 
e francesas a província de Trás-os-Montes (1762). 


O exército português achava-se em mau estado e os preparativos para a guerra 
eram poucos. Pombal contratou um príncipe alemão, o conde Wilhelm von 
Schaumburg-Lippe, para comandante em chefe das tropas, com o encargo de 
reorganizar as forças nacionais. Recrutaram-se também contingentes ingleses e 


mercenários suíços. Com esta ajuda, os Portugueses conseguiram resistir no 
Norte e obrigar os invasores à retirada. Na Beira e no Alentejo, novas invasões 
conduziram a idêntico 'resultado. A assinatura do tratado de paz de Paris (1763) 
veio pôr fim à ameaça. 


Um dos derradeiros planos de Pombal consistia em convencer a princesa D. 
Maria, herdeira do trono, a renunciar os seus direitos à coroa a favor do filho, D. 
José, considerado discípulo do primeiro-ministro. Tanto Pombal como o rei 
conheciam bem a fraqueza de espírito da futura rainha e a sua pouca 
determinação em prosseguir na política de despotismo. A princesa era muito 
devota, mostrando-se religiosamente temerosa 


574 Absolutismo e iluminismo 


das consequências das perseguições de seu pai. Odiava Pombal e não 
demonstrava qualquer simpatia pela sua obra. Ela e o marido (o infante D. Pedro, 
irmão de D. José) encabeçavam o partido dos descontentes. Mas o plano de 
Pombal foi descoberto e não pôde efectivar-se. Pouco tempo depois falecia o rei 
(1777) e um novo grupo de pessoas ascendia ao poder. 


D. Maria | Até 1786, D. Maria | governou juntamente com seu marido, 


o qual, por vontade da rainha, se intitulou D. Pedro Ill. Quando este morreu, a 
soberana. governou só durante mais seis anos. Nos fins de 1791 enlouqueceu e, 
quando todas as esperanças de melhoras se desvaneceram, seu filho D. João 
tomou conta da regência (1792). O outro filho mais velho, D. José, falecera em 
1788. 


Foram libertados a maior parte dos presos políticos, reabilitada a memória de 
alguns dos nobres executados, julgado e banido o marquês de Pombal e 
afastados do poder muitos dos seus partidários. Mas a sua obra não pôde ser 
abolida, a não ser em pormenores de somenos importância. O despotismo era um 
facto, a burguesia, aliada à nova aristocracia, governava o País, os Jesuítas 
estavam extintos e a Inquisição amordaçada. Assim, os governos de D. Maria | e 
de D. João limitaram-se a continuar a nova ordem e, em certos aspectos, 
ajudaram até a fortalecê-la. Dois dos três ministros da situação pombalina foram 
até mantidos no poder. E as perseguições a todo aquele que resistisse ao 
despotismo estatal prosseguiram, ainda que num ritmo mais lento e menos feroz. 


Política As principais modificações ocorreram na política externa. externa: L, fase 
Às atitudes firmes de Pombal e à sua aliança clara com a Inglaterra, D. Maria | e 
D. João preferiram uma diplomacia dúbia de compromisso com a Inglaterra, a 
França e a Espanha. Para evitar a guerra, O novo governo renunciou às 
pretensões portuguesas sobre o actual Uruguai, e cedeu à Espanha as duas ilhas 
de Pernão do Pó e Ano Bom, no golfo da Guiné (1778). A Revolução Francesa e a 
guerra entre a França e a maior parte da Europa tornaram extremamente difícil a 
política externa de Portugal. As manobras do governo português de conseguir 


uma 
Os eventos decisivos 575 


tríplice aliança com a Espanha e com a Inglaterra contra a França revolucionária a 
nada conduziram, a não ser a uma hostilidade sistemática por parte da França. 
Em 1793, corsários franceses começaram a atacar os navios e comboios navais 
portugueses. Uma força expedicionária foi enviada para a Catalunha a fim de 
tomar parte numa ofensiva conjunta hispano-portuguesa contra a França. Mas a 
guerra terminou pouco tempo depois sem vantagem para qualquer dos 
contendores (1795). 


Em 1795-97, negociações e acordos secretos entre a França e Espanha previram 
uma invasão e conquista de Portugal. Depois de morosas manobras diplomáticas, 
que ao País não trouxeram nem vantagens nem honra, a Espanha e a França 
confirmaram a sua aliança e declararam guerra a Portugal (1801). A campanha 
durou três meses apenas mas revelou-se desastrosa. No Alentejo, o exército 
português foi sistematicamente derrotado. Uma paz feita à pressa obrigou os 
Portugueses a entregarem a cidade de Olivença à Espanha e a pagarem uma 
pesada indemnização. Para mais, Portugal comprometia-se a fechar os portos aos 
navios de guerra ingleses. 


As humilhações sofridas pelo Pais no campo da política o fim externa foram em 
parte compensadas por uma situação favorável no plano interno. O comércio e a 
indústria prosperaram, a Regime» balança comercial exibiu o seu primeiro saldo 
positivo desde havia décadas, o tesouro conheceu alguns anos de relativo 
desafogo, as letras, as artes e até a ciência floresceram. Socialmente, alcançara- 
se um estado de relativo equilíbrio: antiga e nova nobreza aceitavam-se 
mutuamente, a burguesia estava em fase de expansão e as classes inferiores não 
mostravam sinais de viver pior que dantes. A polícia mantinha a ordem interna, 
perseguindo ferozmente todo e qualquer sintoma de «maçonaria», prendendo os 
suspeitos de «liberalismo» e conservando-os na cadeia anos a fio. Na corte, como 
fora dela, as influências francesa, espanhola e inglesa davam-se as mãos e 
impunham modas, não chegando, todavia, a formar grupos ou partidos. A princesa 
Carlota Joaquina, espanhola, mulher do regente D. João, desempenhava papel de 
relevo, rodeando-se no seu palácio de Queluz de todos aqueles que se 
«opunham» ao governo, e gerando filhos 


37 
576 Absolutismo e iluminismo, 


de pais desconhecidos. Queluz tornara-se o Versailles português, menos alegre e 
esplendoroso, em boa verdade, mas assim mesmo um bom exemplo dos 
ambientes reais decadentes do «Antigo Regime». Tal como na Espanha ou na 
França anterior a 1792, e em tantos outros países, o governo e o príncipe regente 
caracterizavam-se por indecisão, medo, inoportunidade nos actos, inteiramente 


falhos de planos e ao sabor de caprichos e de pressões de favoritos, totalmente 
incapazes de compreenderem as grandes mudanças que se estavam a efectuar, e 
de se lhes adaptarem, por pouco que fosse. Tal era o resultado inevitável do 
despotismo sem limites quando apenas déspotas medíocres governavam a nação. 


Política De 1801 a 1807 (como já antes), a política externa portuguesa externa: 
2.(O lase oscilou entre as pressões da Inglaterra (cuja assistência se mos- 


trava indispensável, tanto económica quanto militarmente) e as da França. Em 
parte apoiada por esta última, a Espanha tentou que lhe fossem dadas liberdade e 
ajuda nas suas vistas acerca de Portugal, com o intuito de invadir o País e, 
eventualmente, reconstruir a União Ibérica perdida em 1640. Tal foi a política de 
Godoy, o favorito da corte espanhola e primeiro-ministro durante algum tempo. 


Nos fins de 1806, Napoleão decretou o bloqueio continental, nos termos do qual 
nenhuma nação da Europa podia comerciar ou manter relações de qualquer tipo 
com as Ilhas Britânicas. Como Portugal não se mostrava apressado em aceitar o 
bloqueio, Napoleão enviou-lhe uma nota diplomática bem clara sobre o 
encerramento dos portos aos Ingleses, a prisão de todos os cidadãos ingleses 
estantes em Portugal, o confisco dos navios e bens britânicos e a quebra de 
relações diplomáticas com o governo inglês (Julho de 1807). 


O governo português deu-se então conta de que, ou o bloqueio era levado a efeito 
e os Ingleses se apoderavam do Império Português, ou a aliança com a Inglaterra 
se mantinha e Portugal era conquistado pelos Franceses e o seu governo 
obrigado a fugir para o Brasil. Este plano datava já do tempo da Guerra dos Sete 
Anos e estava na mente de todos os responsáveis pela 


Os eventos decisivos 5177 


política nacional quando o perigo napoleónico começou a impender sobre a 
Europa. 


A Regência ainda tentou as suas manobras habituais de compromisso e 
apaziguamento. Mas era já tarde demais e excessivo para a paciência de 
Napoleão. Em Agosto de 1807, os enviados diplomáticos francês e espanhol em 
Lisboa apresentaram um ultimatum ao governo do príncipe D. João: ou Portugal 
declarava guerra à Inglaterra até 1 de Setembro, ou os exércitos franco-espanhóis 
invadiam o País. Em fins de Outubro um tratado assinado em Fontainebleau entre 
a França e a Espanha dividia Portugal em três partes: a província de Entre-Douro- 
e-Minho, com capital no Porto, era dada ao rei da Etrúria com o título de «reino da 
Lusitânia Setentrional»; o Alentejo e o Algarve ficavam a pertencer a Godoy, 
formando o principado dos Algarves; da parte restante de Portugal se decidiria 
quando voltasse a paz. Em meados de Novembro, o general francês Junot 
atravessou a fronteira portuguesa com um poderoso exército, começando assim a 
invasão. 


Nesses dias, tinha-se por garantido que o Imperador dos Invosões Franceses era 
invencível, e os seus exércitos espalhavam o terror francesas por toda a parte. O 
governo português nem pensou em se opor à França, dando ordens terminantes 
para que não fosse levada a efeito qualquer resistência e para que os invasores 
fossem bem recebidos. Em Lisboa, a família real, o governo, e centenas de 
pessoas carregadas de alfaias preciosas, livros e arquivos, embarcaram para o 
Brasil 'em fins de Novembro - quando já Junot estava a entrar na cidade -, 
chegando à América do Sul nos começos de 1808. A nova capital do reino foi 
estabelecida no Rio de Janeiro e, durante catorze anos, a metrópole não passou 
de uma colónia do Brasil (cf. cap. IX). 


Em Portugal ficara uma regência de cinco membros e dois secretários, presidida 
pelo marquês de Abrantes. Mas Junot imediatamente a dissolveu, governando o 
País como terra conquistada sob ocupação militar estrangeira. Uns 50 000 
soldados franceses e espanhóis espalharam-se por toda a nação, confiscando, 
pilhando, roubando, matando e prendendo a seu bel prazer. O exército português 
foi parcialmente dissolvido e par- 


578 Absolutismo e iluminismo 


cialmente transformado numa «Legião Lusitana», que seguiu para Espanha e 
depois para França e outras partes da Europa a lutar por Napoleão. Muitos nobres 
e altos funcionários seguiram igualmente para França a pretextos diversos. 


A resistência popular começou desde logo, organizando-se guerrilhas contra o 
invasor. Em Junho de 1808, o príncipe regente foi aclamado no Norte, 
estabelecendo-se uma Junta Provisória sob o comando supremo do bispo do 
Porto. A revolução alastrou por toda a parte, estimulada com a retirada das tropas 
espanholas e com as novas da rebelião contra os Franceses na própria Espanha. 
Em muitas terras constitufram-se juntas de administração local. 


Apoiados por este vasto movimento popular, os Ingleses, sob o comando de Sir 
Arthur Wellesley (o futuro Lord Wellington), desembarcaram na Galiza e entraram 
em Portugal em Julho de 1808. Outras forças britânicas se lhe vieram juntar e, em 
conjunção com as tropas portuguesas, Wellesley pôde derrotar os Franceses em 
duas batalhas (Roliça e Vimeiro, na Alta Estremadura), obrigando Junot a solicitar 
um armistício. Em Setembro, os Franceses embarcavam com destino a França, 
levando consigo a maior parte da pilhagem que ainda hoje se pode encontrar em 
museus e bibliotecas francesas... 


A antiga regência nomeada por D. João entrou de novo em funções, agora sob a 
presidência do marquês das Minas. Restaurou-se a ordem mais ou menos por 
toda a parte e começou-se imediatamente a organizar a defesa contra um novo 
ataque francês (que se afigurava -provável) sob o comando do general britânico 
William Beresford (Março de 1809). Beresford foi eleito marechal-de-campo no 
exército português,, sendo-lhe dados plenos poderes. Governaria praticamente o 
País até 1820. 


A segunda invasão francesa começou em Fevereiro de 1809 sob o comando do 
marechal Soult, duque da Dalmácia. Os Franceses entraram em Portugal por 
Trás-os-Montes, conquistando todo o Norte, até ao rio Douro. Soult acariciou o 
sonho de se fazer rei da «Lusitânia Setentrional», mas as suas forças não 
conseguiram enfrentar a pressão anglo-portuguesa, que o obrigou a retirar de 
novo para Espanha, em Maio de 1809. 


- pr;me;fa 
- Segunda - Terceira 


- Linhas de Torres 

50 km 

Fig. 58-Invasões francesas, 1807-1811 
580 Absolutismo e iluminismo 


No Outono do mesmo ano, e prevendo novo ataque francês, Lord Wellington 
organizou a defesa de Lisboa. Fez cercar a capital por três linhas fortificadas, a 
mais distante das quais afastada uns 40 km (linhas de Torres Vedras), o que a 
tornou praticamente inexpugnável. Na verdade, quando o marechal Masséna, à 
testa de um forte exército onde participavam alguns generais franceses famosos, 
tais como Ney, invadiu Portugal (Julho de 1810), foi forçado a deter-se nas linhas 
de Torres, após ter já sofrido uma primeira derrota no Buçaco que o não impedira 
de prosseguir no avanço. Os dois exércitos observaram-se um ao outro durante 
cinco meses, Masséna à espera de reforços, Wellington à espera da fadiga geral 
do inimigo. Nos começos de Março de 1811, cansados de esperar e abatidos no 
moral, os Franceses iniciaram a retirada. Wellington seguiu-os de perto, derrotou- 
os de novo em Redinha e obrigou-os a passar a fronteira em Outubro. Em 
Espanha, o exército inglês, com alguns contingentes portugueses, e ajudado pelos 
Espanhóis, continuou a empurrar os Franceses à sua frente, até Toulouse 
(Primavera de 1814). Além de restaurar a plena independência e integridade de 
Portugal, o congresso de Viena (1814-15) restituiu Olivença aos Portugueses, 
facto que a Espanha se recusou a aceitar. 


Portugal Quatro anos de guerra haviam deixado o País em situação 
as miserável. As invasões e a ocupação francesas devastaram boa invasões 


parte de Portugal, sobretudo a norte do Tejo. A agricultura, o comércio e a 
indústria foram profundamente afectados, já sem falar das perdas em vidas, das 
crueldades habituais e das destruições sem conto. Tanto franceses como ingleses 
saquearam bom número de mosteiros, igrejas, palácios e casas humildes, levando 
consigo toda a casta de objectos preciosos, incluindo quadros, esculturas, móveis, 
jóias, livros e manuscritos. Num país pequeno como Portugal, tais perdas 


sentiram-se profundamente. Juntamente com o grande terramoto, a Guerra 
Peninsular foi a grande responsável pela ausência, em monumentos, museus, 
arquivos e bibliotecas do futuro, de materiais sem conto que neles se deveriam 
encontrar. Para. mais, as invasões francesas deixaram Portugal numa condição 
política especialíssima. 


Os eventos decisivos 581 


De 1808 a 1821 o Pais passou a ser, quer um protectorado inglês, quer uma 
colónia brasileira. O governo central manteve-se no Rio, funcionando em Portugal 
uma regência somente. O Brasil fora proclamado reino, unido com Portugal. 
Beresford recebeu plenos poderes para organizar a defesa, o que, na realidade, 
significava a direcção suprema do Pais. Oficiais britânicos serviam no exército 
nacional, que se tornara inteiramente inglês no tipo de organização. O rei D. João 
VI (D. Maria | morrera em 

1816) não manifestava desejos de regressar à Europa. Os principes revelavam-se 
mais brasileiros do que portugueses, visto que o mais velho saíra de Portugal com 
nove anos. A regência mantinha intactos os antigos métodos de governação, não 
mostrando qualquer disposição de os adaptar ao ideário moderno. Continuou a 
perseguição feroz a todos os liberais. Através do País, o descontentamento contra 
o rei, Os Ingleses e a regência eram acompanhados por uma situação económica 
e financeira deplorável. Por toda a parte lavrava um fermento revolucionário, que 
bem depressa conduziria à rebelião. 


Bibliografia - A História de Portugal, dirigida por Damião Peres, vol. Vl, Barcelos, 
Portucalense Editora, 1934, é praticamente a única visão de conjunto aceitável 
para os aspectos políticos deste período. A História de Fortunato de Almeida 
mostra-se extremamente partidária, não sendo aconselhável a sua utilização. No 
Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, contêm-se alguns bons 
artigos sobre as cabeças coroadas e os principais ministros, com valiosas 
bibliografias. 


Não existe qualquer biografia moderna de D. Pedro Il. D. João V tem sido 
estudado por muitos historiadores, mas raras são as monografias recomendáveis. 
Vejam-se contudo, de Eduardo Brazão, as seguintes obras: Portugal no 
Congresso de Utrecht (1712-1715), Lisboa, 1933; Relações externas. Reinado de 
D. João V, Porto, 1938; D. João V e a Santa Sé. As Relações Diplomáticas de 
Portugal com o Governo Pontifício de 1706-50, Lisboa, 1937; D. João V. Subsídios 
para a História de seu Reinado, Barcelos, 1945; e Subsídios para a História do 
Patriarcado de Lisboa, 1716-1740, Lisboa, 1945. Sobre D. José e o Marquês de 
Pombal são inúmeras as monografias, mas quase todas extremamente parciais. A 
obra clássica continua a ser Simão José da Luz Soriano, Historia do Reinado de 
El-Rei D. José 1 e da Administração do Marquez de Pombal, 2 vols., Lisboa, 1867. 
Jorge Borges de Macedo escreveu uma curta biografia de Pombal: «Marquês de 
Pombal», in Os Grandes Portugueses, direcção de Hernâni Cidade, vol. Il, Lisboa, 
Arcádia, s/d, pp. 141-152. Sobre D. Maria | existe um estudo limitado de Caetano 
Beirão, 


582 Absolutismo e iluminismo 


D. Maria |, 4.a ed., Lisboa, 1944, que mantém a utilidade da obra clássica de José 
Maria Latino Coelho, Historia Politica e Militar de Portugal desde os fins do seculo 
XVIII até 1814, 3 vols, Lisboa, 1874-91. Sobre D. João Vl e o seu tempo, vejam- 
se: Simão José da Luz Soriano, História da Guerrct Civil e do Estabelecimento do 
Governo Parlamentar em Portugal, 17 vols., Lisboa, 1867-90; e Raul Brandão, El-” 
Junot, Lisboa, 1912. Uma boa monografia da guerra peninsular foi escrita por 
Charles Oman, A History of the Peninsular War, 7 vols., Oxford, 1902-30. 


CAPÍTULO IX 
BRASIL 
1 -O Brasil, elemento basilar do Império Português 


Dos finais do século xvii a 1822, o Brasil constituiu a essência do Império 
Português. Com algum exagero, até se.poderia dizer que constituía a essência do 
próprio Portugal. Foi o Brasil que, em grande parte, levou à separação da 
Espanha, em 1640. Foi o Brasil que deu a Portugal os meios de se conservar 
independente depois, e que justificou o apoio concedido pelas outras potências à 
secessão portuguesa. Foi o Brasil que trouxe uma nova época de prosperidade 
durante o século xviii e que fez Portugal respeitado uma vez mais entre as nações 
civilizadas da Europa. 


Que Portugal se ocupasse, pois, do Brasil - incluindo as demais províncias 
ultramarinas - e desprezasse os assuntos europeus, era a opinião de muitos. 
Governasse, como um diplomata famoso aconselhava o seu rei, com a frente 
virada para o Brasil e as costas voltadas para a Europa. 


A criação do governo-geral nos meados da centúria de Governo-6 Quinhentos 
reduzira consideravelmente a autonomia de cada capitania e os consequentes 
poderes de cada capitão. Pelos começos do século xvii, poder-se-ia julgar que a 
tendência para a centralização e para o reforço das atribuições do governador- 
geral levaria a um Brasil unitário, dirigido a partir da Baía. Contudo, a colónia 
revelou-se grande demais para ser governada como a metrópole, e as crescentes 
necessidades de expansão territorial fomentaram antes unia estrutura política, 
social e 


económica totalmente oposta à ideia de centralização. O tre- 
586 Brasil 
mendo surto das potencialidades brasileiras desde 1650 rompeu essa unidade 


precária e devolveu às capitanias um grau de autonomia ainda superior à que 
antes tiveram. O governo-geral manteve as suas atribuições no que respeitava à 


defesa, mas foi a 
pouco e pouco perdendo muitas outras nQ que se referia à administração, à 
economia e às finanças. 


Esta mudança gradual que, de certa maneira, aproximou o Brasil setecentista da 
«idade do ouro» anterior a 1549, foi acompanhada de uma série de regulamentos, 
leis e instruções definindo as responsabilidades do governador-geral bem como os 
poderes dos outros capitães (também chamados governadores). Mantiveram-se 
as capitanias de primeira e segunda classe, oficialmente crismadas de capitania- 
geral e capitania-subalterna, respectivamente, estando a última dependente da 
primeira, como dantes sucedia. O que mudou foi o número e o tipo de relações 
entre as diversas capitanias. O desenvolvimento do interior implicou a criação de 
novas unidades, tais como Minas Gerais (1720), Goiás (1748), Mato Grosso 
(1748), Rio Grande de S. Pedro (1730) e Santa Catarina (1737), todas 
desmembradas de S. Vicente, e S. José do Rio Negro (1757), separada do Pará. 
S. Vicente esteve subordinada ao Rio de Janeiro até 1709, passando depois a 
capitania-geral; foi ainda unida ao Rio de Janeiro outra vez durante alguns anos 
(1748-65), para de novo ganhar individualidade com o nome de S. Paulo, 
designação por que já era conhecida havia muito. 


Pela mesma época, a Coroa decidiu exercer supervisão directa sobre todas as 
capitanias que ainda pertenciam aos capitães hereditários originados no século 
xvi. Algumas reverteram para ela mediante a concessão de pensões ou de títulos 
compensatórios às famílias dos donatários, outras por confisco puro e simples. 
Por volta de 1761 o processo achava-se praticamente terminado. Cada capitania 
fora convertida em mera unidade administrativa, dependendo do governo de 
Lisboa para as nomeações dos capitães ou governadores por períodos de três 
anos. 


Paradoxalmente, a gradual redução de autoridade efectiva dos governadores- 
gerais nas capitanias (excepto, claro está, na que lhes estava de direito 
assignada, a da Baía, com suas subal- 


O Brasil, elemento basilar do Império Português 587 


ternas), veio acompanhada de um aumento de prestígio social e económico, e de 
uma elevação de título. Em 1720, os governadores-gerais do Brasil passaram a 
vice-reis, com acréscimo comensurável dos salários. Cada vez mais iam sendo 
escolhidos entre os melhores nomes da aristocracia portuguesa, com larga 
experiência de assuntos ultramarinos colhida na índia, na África ou no próprio 
Brasil, subindo a número um a sua posição hierárquica em todo o Império 
Português. Os Meneses, os Noronhas,, os Mascarenhas e outras famílias de 
primeira plana foram distinguidos com nomeações sucessivas para o vice-reino do 
Brasil. 


Em 1763, a sede do governo-geral transferiu-se da Baía para o Rio de Janeiro, 


uma vez que o centro económico e político do Brasil se movia para sul também. 
Queria isto dizer que, em vez da Baía, a capitania-geral do Rio de Janeiro, muito 
mais pequena e menos rica, passava a constituir a base de operações do vice-rei. 
Dela dependiam as duas capitanias-subalternas de Santa Catarina e Rio Grande 
de S. Pedro. 


Em 1772, com a extinção do estado do Maranhão, os dois Brasis uniram-se para 
sempre, encerrando-se as mudanças administrativas de toda uma centúria. Daí 
por diante, a América portuguesa passou a constituir um único vice-reinado com 
sede no Rio, dividido em nove capitanias-gerais e nove subalternas: Grão-Pará 
(com S. José do Rio Negro, hoje chamado Amazonas), Maranhão (com Piauí), 
Pernambuco (com Ceará, Rio Grande do Norte e Paraffia), Bala (com Sergipe e 
Espírito Santo), Rio de Janeiro (com Santa Catarina e Rio Grande de S. Pedro, 
hoje Rio Grande do Sul), S. Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Olhando 
para um mapa do Brasil nos começos do século xx, facilmente nos damos conta 
de que, com excepção dos dois estados de Alagoas (fundado em 1817) e Paraná 
(criado em 1853), todos os demais coincidem, quer em nome quer em limites, com 
as capitanias de 1772. 


A divisão eclesiástica alterou-se ainda mais, mostrando O Divisão enorme 
desenvolvimento da colónia durante os séculos xvii eciesiástin, e xviii. Nos 
começos da década de 1670, só a Baía tinha o seu bispo, cuja autoridade 
abrangia todo o Brasile o Maranhão. 


588 Brasil 


Depois, em 1676-77, três novas dioceses surgiram, as do Rio de Janeiro, Olinda e 
Maranhão, ascendendo a arcebispo o bispo da Baía. Nos princípios do século 
xviii, o Papa estabeleceu uma nova diocese no Pará (1719), a que se seguiram 
Mariana (1745), S. Paulo (1745), Goiás (1745 mas com efectivação apenas em 


1782) e Cuiabá (1745, efectiva somente em 1782), as duas últimas sujeitas à 
jurisdição eclesiástica de um prelado. O Maranhão e o Pará dependeram de 
Lisboa até à extinção do «estado» do Pará e Maranhão. Portanto, nos finais do 
século xviii, o Brasil católico compreendia um arcebispado, o da Baía, com 
autoridade directa sobre as capitanias de Sergipe e Baía, e supremacia sobre todo 
o Brasil e também Angola. O bispo de Pará governava S. José do Rio Negro e 
Grão Parã; o de Maranhão, Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte; o de 
Olinda, Paraíba e Pernambuco; o do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Rio de 
Janeiro; o de S. Paulo, S. Paulo, Santa Catarina e Rio Grande de S. Pedro; e o de 
Mariana, Minas Gerais. Os prelados de Goiás e Cuiabá exerciam jurisdição sobre 
Goiás e Mato Grosso, respectivamente. A divisão eclesiástica não coincidia 
rigorosamente com a política mas mostrava-se-lhe muito próxima. 


Administração A administração local evoluiu de acordo com o gradual 
fortalecimento do poder da Coroa e o declínio das prerrogativas 


municipais. É verdade que no Brasil, país de fronteira típico, a descentralização 
jamais se atenuou, até ao limite que conheceu em Portugal ou noutras partes da 
Europa, em proveito de uma esmagadora e avassaladora interferência da Coroa. 
Não obstante, a tendência geral teve o seu impacto na América portuguesa 
também, sendo o declínio das Câmaras um facto real no século xviii e começos do 
xix. 


Em 1696, o governo alterou o sistema eleitoral da Baía, dando a juízes da 
Relação, nomeados pela Coroa, a missão de superintenderem nas votações, e ao 
vice-rei a selecção final dos funcionários entre a lista dos eleitos. Outras reformas 
alargaram ainda mais o papel desempenhado pelo poder central. O tabelamento 
de preços, por exemplo, uma das prerrogativas da Câm ara da Baía (como da 
maior parte dos grandes centros urbanos), foi frequentemente impedido ou 
desaconselhado pelo governo 


O Brasil, elemento basilar do Império Português 589 


geral e por fim proibido em 1751, data em que se criou uma comissão de 
inspecção com esse objectivo, composta sobretudo de burocratas régios. Como é 
lógico, as pequenas cidades mais afastadas da «civilização» conheciam na 
condução dos assuntos locais um grau de autonomia superior ao dos grandes 
centros urbanos, em contacto directo e permanente com os representantes da 
Coroa. 


Tal como na metrópole, os Câmaras Municipais de alguma importância estavam 
nas mãos dos habitantes mais ricos. Numa cidade como a Baía, os plantadores de 
açúcar controlavam a situação. Noutras regiões, podiam predominar os grandes 
rancheiros ou os plantadores de tabaco. Cedo se originou um conflito entre esta 
aristocracia latifundiária e a crescente burguesia de mercadores e artesãos ricos, 
com aspectos violentos em muitas cidades, como por exemplo no Recife. 
Questões deste tipo terminavam em geral em compromisso, mais do que em 
vitória final de uma das partes, tudo dependendo da conjuntura económica e da 
distribuição social das influências na localidade. São ainda muito poucas as 
monografias sobre lutas sociais no interior das Câmaras. Na Baía, parece que a 
aristocracia do açúcar continuou a caminhar à frente durante todo o século xviii e 
começos do xix. Os representantes dos mesteres, cuja entrada fora consentida 
nos meados da centúria de Seiscentos, deixaram de ser admitidos em 1713, 
embora datassem de muito antes as restrições à sua participação plena nos 
assuntos locais. 


O surto do Brasil pode ainda comprovar-se pelo aumento da PoPulafã& 
população. Com uns 50 000 brancos e menos de 100 000 de outras raças (sem 
contar com os índios selvagens) em meados do século xvii, o Brasil podia 
orgulhosamente registar mais de 

1500 000 pessoas na década de 1770, o que representava um aumento de mais 
de dez vezes! Em comparação, a América espanhola menos do que duplicara a 
sua população total (excluídos os índios), de uns dez milhões a cerca de quinze 


milhões nos finais de Setecentos, dos quais apenas 10 % eram brancos. A 
América inglesa subira de menos de um milhão (1620) a dois milhões de almas 
(1763), sem contar, uma vez mais, os índios. Assim, o Brasil mostrava, desde os 
finais do século xvii aos finais 


590 Brasil 


do século xvili, a mais elevada taxa de crescimento de toda a América, iniciando 
essa ininterrupta expansão a um ritmo acelerado. 


De todos os habitantes, pouco mais de metade eram provavelmente escravos e, 
entre os demais, revelava-se considerável o número de mestiços. A capitania de 
Minas- Gerais, após a febre do ouro, crescera para mais de 300 000 habitantes, 
ou seja, 

20,5 % da população total do Brasil. Seguia-se-lhe a Baía, com 

289 000 (18,5 %), depois Pernambuco, com 240 000 (15,4 %) e o Rio de Janeiro, 
com 216 000 (13,8 %). S. Paulo tinha somente 

117 000, ou 7,5 %. Em conjunto, estas cinco capitanias agrupavam 75 % do povo 
brasileiro. 


Haviam surgido algumas cidades importantes. O Rio de Janeiro contava 51000 
habitantes em 1780, tendo-se convertido na terceira cidade do Império Português, 
imediatamente depois de Lisboa e da Baía, que pouco mais gente tinha. O Rio 
exibia um plano urbano semelhante ao da capital portuguesa, com a sua 
arquitectura tentando avidamente copiar algumas das novidades que a Lisboa 
«moderna» introduzira após o terramoto. Dentro da América Latina, o Brasil 
começava agora a estar bem representado, com as suas duas metrópoles - Bala e 
Rio - colocando-se imediatamente depois da cidade do México (135 000 
habitantes em 1749) e equiparando-se a urbes como Puebla e Lima (ambas com 
uns 52 000 na década de 1790). A concentração urbana mostrava-se mais 
elevada ainda do que no México (10 %). Burocracia e administração geral 
irradiavam das cidades para o campo, à boa maneira portuguesa e espanhola. 


A maior parte deste crescimento resultava, claro está, da imigração. A corrida ao 
ouro e outras notícias da riqueza do Brasil atrafam milhares de pessoas em 
Portugal, oriundas de todas as regiões, mas sobretudo do Norte e dos 
arquipélagos da Madeira e dos Açores. Durante as primeiras duas décadas do 
século xvill, um máximo de cinco a seis mil pessoas deve ter largado de Portugal 
com destino ao Brasil, percentagem assaz elevada para a época. Deve lembrar-se 
que, na Europa setecentista, se estava a verificar um acréscimo geral de 
população (cf. Cap. VID. Poucas medidas se adoptaram para canalizar essa 


O Brasil, elemento basilar do Império Português 591 
emigração devidamente, mas o número cada vez maior de homens válidos que 


safam do País todos os anos levou o governo a limitar a fuga de gente, 
estabelecendo o regime do passaporte (1720). 


Outra quantidade apreciável de imigrantes veio para o Brasil à força: os escravos 
africanos, cujo número não cessou de aumentar durante todo o século xviii. 
Conquanto se mostrem escassas as estatísticas globais, é possível que tenham 
chegado médias anuais de 20 000 negros durante os anos da febre do ouro. 


Last but not least, outra prova evidente da expansão do Bra- Expansão p sil foi a 
conquista de terras no interior. Comparando mapas da o interior 


colónia em 1650 e 1750, damo-nos conta da imensa adição de território recém- 
colonizado ou perfeitamente conhecido. De Sul a Norte, toda a área das capitanias 
costeiras até ao Plauí fora convertida em terra produtiva. Grandes extensões do 
Maranhão e do Pará haviam também passado a lugares de povoamento, incluindo 
uma parte profunda do vale do Amazonas. No interior, toda a capitania de Minas 
Gerais e algumas boas parcelas de Goiás e Mato Grosso foram conquistadas 
pelos colonos. No conjunto, cerca de metade do Brasil actual estava explorado e a 
correspondente população indígena submetida ao domínio português. Este facto 
foi internacionalmente reconhecido, quando o tratado de Madrid (1750), entre a 
Espanha e Portugal, veio formalmente substituir o caduco e esquecido tratado de 
Tordesilhas de 1494, estabelecendo uma nova linha de fronteira, 
aproximadamente igual à do Brasil dos nossos dias. 


Esta grande expansão para o Interior resultou de sucessivas bandeiras (cf. Cap. 
VID, que iam largando de S. Paulo e de outras partes sob o comando de ousados 
e aptos capitães. Fernão Dias Pais Leme, seu filho e genro Manuel de Borba Gato 
exploraram durante sete anos (1674-81) o território de Sabarábuçu (Minas 
Gerais), procurando pedras preciosas. Luís Castanho de Almeida viajou por todo o 
norte do Mato Grosso (1671), enquanto Bartolomeu Bueno da Silva peregrinou por 
Goiás (1682). Outras expedições partiram para combater os Índios ou os 
Espanhóis, para levar auxílio a guarnições cercadas ou para capturar escravos 
fugitivos. Querelas com os Jesuítas eram fre- 


38. 
592 Brasil 


quentes. A fixação dos Portugueses no interior do Brasil não significava uma área 
contínua de estabelecimentos com campos cultivados entre si. Pelo contrário, o 
que se verificava era a existência de grande número de «ilhas» de povoamento, 
fosse num vale fértil, fosse em redor de um jazigo de minério, por vezes 
totalmente isoladas, rodeadas de território hostil ou mal conhecido e com falta das 
mais elementares comunicações. 


ouro Nos fins do século xvii, exploradores de S. Paulo encontraram finalmente o 
ouro que há tanto tempo buscavam. Nos últimos anos da centúria e até à década 
de 1720 foram-se sucessivamente descobrindo jazidas de ouro, esmeraldas e 
outras pedras preciosas. As mais importantes minas localizavam-se nas Minas 


Gerais de hoje, que ao facto devem o nome. Mas Goiás, Mato Grosso, Baía e 
outras capitanias cedo abriram aos mineiros as suas fabulosas entranhas. Por 
todo o Brasil, nomes de povoações recém-fundadas simbolizaram a corrida ao 
ouro do século xviii: Ouro Preto (devido à sua cor mais escura), Ouro Fino, Minas 
de Santa Isabel, Diamantina, Diamantino, etc. 


A febre do ouro arrastou milhares de pessoas, a escumalha da Terra, vindas 
principalmente de Portugal. Não admira que se desencadeasse a curto trecho um 
conflito entre eles e os Paulistas, que se sentiam no direito de dispor das minas 
que haviam descoberto com o seu persistente esforço. Uma série de 
escaramuças, conhecida como Guerra dos Embdabas matou algumas centenas 
de pessoas em 1708-09. Os Emboadas ou imigrantes do fresca data, que eram 
muito mais numerosos, venceram, mas a vitória real coube em boa verdade à 
Coroa (para quem ambas as partes haviam apelado), a qual se aproveitou das 
dissensões para estabelecer um controle estrito e rigoroso sobre as minas e sua 
exploração. 


O ouro tornou-se assim a base principal da economia brasileira durante quase 
todo o século xviii. É difícil saber quanto ouro foi, na realidade, extraído do solo do 
Brasil nesses dias. Como() sempre sucede, uma parte enorme desapareceu no 
contrabando, sem que nunca pudesse ser supervisada nem registada. As fontes 
principais mencionaram-se já no Capitulo “VIII. As remessas de ouro começaram 
por volta de 1699 e continuaram em ritmo cres- 


O Brasil, elemento basilar do Império Português 593 


cente até 1720, quando um máximo de mais de 25 000 kg entrou em Portugal. Em 
1725, foram enviados 20 000 kg mas, de então em diante, a produção baixou, 
lenta mas continuamente. Até à década de 1760, puderam ainda conseguir-se 
médias anuais de mais de 14 000 kg. A baixa acelerou-se nas décadas de 1770 e 

1780. A pouco e pouco, as jazidas do precioso metal foram-se esgotando, até só 
uma quantidade mínima aparecer nos registos aduaneiros dos começos do século 
xix. Em 1801 a exportação de ouro representava ainda 15,2 % do total das 
exportações do Brasil, mas essa percentagem baixou para 5,6 em 1805 e para 
uns ridículos 0,2 % em 1816. De 1729 em diante, após as grandes descobertas 
nas Minas Gerais, em Mato Grosso e na Baía, os diamantes vieram somar-se ao 
ouro. A sua época de expansão coincidiu, grosso modo, com a do fulvo metal, 
declinando rapidamente já no período pombalino. Em conjunto, e calculados em 
libras esterlinas, ouro e diamantes passaram de um total de £ 728 000 em 1711- 
15 para £ 1715 201 em 1721-25, baixando depois até à década de 1730. O seu 
valor tornou ainda a subir até £ 1311175 (1736-40) e £ 1371680 (1741-45). Ao 
todo, cerca de £ 7 248.669 de ouro e diamantes entraram em Lisboa - o que quer 
dizer na Europa - em trinta e quatro anos. 


Levou algum tempo a organizar um sistema tributário eficaz nas novas minas. No 
começo, aplicou-se simplesmente a legislação geral sobre mineração. 
Remontando à Idade Média, a lei prescrevia o pagamento à Coroa de um quinto 


de todos os minérios. O problema estava em como controlar a quantidade de ouro 
realmente extraída e evitar que se verificasse o contrabando de largas 
quantidades. Não admira que, até 1713, a quantidade total de ouro confiscado aos 
contrabandistas pelos funcionários régios quase igualasse o produto dos quintos. 
Ao todo, cobraram-se por ambas as formas mais de 155 milhões de réis, um 
rendimento anual de cerca de 12 milhões. Em 1713, o governador-geral quis 
estabelecer fundições régias, de forma a impedir que o ouro em pó circulasse e 
fosse facilmente passado aos direitos. Os mineiros opuseram-se com violência à 
medida, chegando-se por fim a um compromisso entre ambas as partes: a Coroa 
receberia uma soma anual fixa de trinta arrobas de ouro (1 arroba = 15 kg 


594 Brasil 


aprox.), mais tarde reduzida para 25 e depois aumentada para 

37. Em dez anos e meio (1714 a 1725), foram pagas umas 312 V2 arrobas, num 
total de 1920 milhões de réis, ou 182 milhões ao ano. De 1725 a 1735 existiram 
finalmente as almejadas fundições, para onde todo o ouro era transportado, 
deduzindo-se ai o quinto da Coroa e devolvendo-se o resto aos possuidores na 
forma de barras seladas. Segundo este sistema, 1068 arrobas de ouro entraram 
no tesouro real em dez anos, num total de 5249 milhões de réis ou 524 milhões ao 
ano. 


Em 1735, criou-se novo sistema tributário. Cada mineiro, de idade igual ou 
superior a catorze anos, teria de pagar um imposto de 17 gramas de ouro por ano. 
Até 1751, este sistema rendeu ao Estado 2066 arrobas ou 12 700 milhões de réis 
(quase 800 milhões ao ano). A receita baixou depois: médias anuais de cerca de 
100 arrobas (1751-54), 105 (1755-59), 97 (1760-64), 87 (1765-69), 

17 (1770-774) e 73 (1775-77). Em 1785 já não se pagaram mais de 

57 arrobas, número que decresceu ainda para 30 em 1808, 7 em 

1819 e somente 2 em 1820! A quantidade do imposto per capita foi sendo, é claro, 
gradualmente reduzida. 


O açúcar No consenso geral, o açúcar vinha a seguir nas produções 


do Brasil. Na realidade, porém, o açúcar situou-se acima do ouro e dos diamantes 
combinados durante muitíssimos anos. Em 

1670, 2 000 000 de arrobas de açúcar deixaram o Brasil, avaliadas em mais de £ 
2 000 000. A crise que se seguiu (cf. Cap. VIII) arruinou quase completamente a 
indústria açucareira do Brasil, mas 

* nova fase de expansão económica subsequente restaurou-lhe 

* importância. Durante toda a primeira metade do século xviii, mais e mais açúcar 
se produziu e enviou para a Europa: 1600 000 arrobas em 1710, 2 500 000 em 
1760. É interessante notar que a Inglaterra deixou virtualmente de ser o principal 
mercado consumidor do açúcar brasileiro - preferindo-lhe o seu, das índias 
Ocidentais -, o que mal afectou a produção, pelo menos nesse tempo. A Itália e 
outros países mediterrâneos absorviam a maior Darte dela, enquanto Portugal e o 
seu Império se tinham de contar também como compradores de relevância. Mas o 


A 


declínio começou exactamente devido à concorrência das índias Ocidentais. 
Dispondo de técnicas mais aperfeiçoadas, que resultaram 


O Brasil, elemento basilar do Império Português 
595 


Fig. 59-0 Brasil nos séculos xviii-xix 

1 - Sede de arquidiocese; 2 - Sede de diocese com bispo; 3 - Sede de diocese 
com prelado; 4 - Limite de capitania; 5 - Limite de diocese; 

6 - Relacionação entre as capitanias; 7 - Cidades capitais; 8 - Cidades mais 
importantes; 9 - Limite da área efectivamente colonizada; 10 - fronteira segundo o 
tratado de Madrid; 11 - Fronteira actual; 12 - Datas políticas; 13 - Datas religiosas; 
14 - Principais áreas mineiras (ouro e diamantes); 15 -Territórios em litígio. 


num aumento espantoso de produtividade -só a Jamaica, em 

1788, exportava mais açúcar do que todo o Brasil - o açúcar da América Central 
expulsou o brasileiro dos mercados europeus. A produção declinou para 1500 000 
arrobas (1776), nível que 


596 Brasil 


pôde ser mantido durante algum tempo (sobretudo devido à guerra da 
independência dos Estados Unidos), e depois para 
660 000 (1809) e 460 000 (1812). 


Os escravos Tanto a mineração como as plantações de açúcar necessitavam de 
mão-de-obra barata e abundante. Mais tarde, do mesmo careceriam o algodão, o 
tabaco e outras culturas extensivas. Não admira, pois, que as importações de 
escravos africanos alcançassem cifras fabulosas. A média anual de 7500 da 
década de 1660 duplicou ou mesmo triplicou até finais do século xviii. Em 1755, só 
Angola exportou para o Brasil 13 534 pretos, outros chegando também da Guiné e 
de algures. Não existem estatísticas de confiança a ajudarem-nos no cálculo da 
totalidade do tráfico esclavagista, mas pode aceitar-se uma estimativa de cerca de 
dois milhões para o período de 1700-1820, o que provavelmente não andará muito 
longe da verdade. 


Outros Abaixo dos três pilares da economia brasileira do século xviii Produtos - 
ouro e diamantes, açúcar, escravos - existiam muitos outros 


produtos menores que não eram de desprezar. Vinha primeiro o tabaco, 
mercadoria importante depois de 1650, com produções e avaliações em ritmo 
crescente. Em certas áreas do Brasil, como na Baía, o tabaco ultrapassava 
mesmo o açúcar e, durante muito tempo, aquela capitania deteve o seu monopólio 
para fins de exportação. Quando foram levantadas as restrições, o tabaco 
expandiu-se em Pernambuco e noutras partes, conquanto mais tarde declinasse, 
em proveito do algodão. Este não registou exportações de vulto antes da década 


de 1780 mas, desde então, o seu papel não cessou de aumentar, exportando-se o 
algodão para Portugal, de onde voltava a sair para a Inglaterra, em grandes 
quantidades. Pernambuco e o Maranhão eram as principais áreas produtoras. Na 
segunda metade do século xviii, a Coroa promoveu a sementeira e a exportação 
de trigo e arroz com bastante sucesso. Por volta de 1781, já todo o arroz 
consumido em Portugal provinha da sua colónia americana. Fibras e corantes 
também conheceram algum surto nos finais do século xviii, mau grado o facto de 
que o pastel brasileiro jamais pôde competir com os seus rivais das índias 
Ocidentais e da índia, tanto em 


O Brasil, elemento basilar do Império Português 597 


produção quanto em qualidade. O cacau começou a dar lucro depois de 1750, 
duplicando as exportações em vinte anos, quer em quantidade quer em preço de 
venda. Finalmente as peles tornaram-se outra exportação de relevo nos finais de 
Setecentos. O gado bovino desenvolvera-se gradualmente em toda a colónia mas 
sobretudo nas capitanias meridionais e na colónia do Sacramento, no Uruguai de 
hoje. O couro converteu-se na matéria-prima mais barata e mais usual para 
qualquer fim, desde vestuário a habitação. Em 1777, exportaram-se mais de £ 150 
000 de couros e peles. Criavam-se igualmente cavalos em larga escala, que eram 
enviados vivos para a metrópole. Nos começos do século xix, as exportações de 
couros e peles iam, a pouco e pouco, compensando a baixa na produção aurífera: 
10,7 % do total em 1801, 13,6 % em 1805, 20,8 % em 

1816. 


Em resumo, poder-se-ia dizer que o fantástico crescimento do Brasil e a sua 
opulência durante o século xviii assentaram em três pilares principais, mas 
também numa variedade enorme de outros produtos, cujo número não cessava de 
aumentar. 

O fim da era do ouro e dos diamantes estimulou a criação de gado bovino e o 
crescimento das plantações de açúcar, tabaco e algodão. As crises brasileiras 
nunca duravam muito tempo e apresentavam todas as condições para serem 
facilmente debeladas. 


Só a indústria não recebeu qualquer estímulo, com excepção Indt;siri,1 da 
construção naval - durante a centúria de Setecentos, muitos e comérci,> 


dos navios da carreira da índia foram fabricados no Brasil. A política tradicional de 
todos os países colonialistas consistia em fomentar o desenvolvimento agrícola 
mas impedir toda e qualquer concorrência com a mãe-pátria. Uma lei de 1785 
proibiu as manufacturas têxteis no Brasil, à excepção de pano de algodão barato 
usado pelos escravos e para sacas. Em consequência, a maior parte da produção 
artesanal portuguesa seguia directamente para o Brasil, que figurava com 96 a 98 
% de todas as exportações metropolitanas para o Ultramar nos começos do 
século xix. Apesar disto, a balança comercial entre Portugal e 


598 Brasil 


a sua colónia americana mostrava um deficit constante do lado da metrópole até 
findar a Guerra Napoleónica. 


Mau grado as críticas levantadas contra elas, parte do desenvolvimento 
económico -bem como demográfico e geográfico - 


do Brasil deve creditar-se às várias companhias de comércio surgidas nos séculos 
xvii e xviii. A Junta do Comércio, instituição do Estado que derivou da Companhia 
para o Comércio do Brasil (cf. Caps. Vl e VID, organizou os comboios mercantes 
de e para aquela colónia até 1720. A Companhia de Cabo Verde e de Cachéu. 
(1680) estimulou indirectamente o comércio com a América. Foi seguida por unia 
outra sociedade de curta vida, a Companhia do Pará e Maranhão (1682), que 
recebeu o monopólio do tráfico de escravos, devendo abastecer anualmente 
aquela região americana com 10 000 escravos e toda a sorte de mercadorias. 


O regime de Pombal instituiu outras duas companhias, a Companhia Geral do 
Grão Pará e Maranhão (1755) e a Companhia Geral de Pernambuco e Paraffia 
(1759) para estas duas grandes áreas. O objectivo da primeira consistia em 
fomentar tanto o comércio quanto a agricultura. Com sede em Lisboa e um capital 
de 1200 000 cruzados, dirigida por um conselho de deputados eleitos entre os 
maiores accionistas, a Companhia do Grão Pará e Maranhão recebeu importantes 
privilégios (tais como o de estar isenta da usual jurisdição dos tribunais), embora o 
Estado nela não tivesse participação financeira. Durante vinte anos, a Companhia 
teve o monopólio do comércio com o Pará e o Maranhão, possuindo a sua própria 
frota que incluía até navios de guerra. Serviu para estimular a agricultura naquelas 
regiões, especialmente no que respeitou ao algodão e ao arroz. O Norte brasileiro 
- sobretudo o Maranhão - desenvolvera-se bastante devido à sua actividade, 
convertendo-se em vinte anos numa das regiões mais dinâmicas e prósperas da 
colónia, no dizer do historiador Charles Boxer. É verdade que a guerra da 
Independência Norte-Americana teve igualmente o seu impacto no 
desenvolvimento do Maranhão, visto obrigar a Inglaterra a olhar para outras 
bandas em busca do algodão que lhe vinha das colónias da América do Norte. Na 
década de 1770, a Companhia possuía 


O Brasil, elemento basilar do Império Português 599 


mais de trinta navios, activamente ocupados no tráfico do algodão, de madeira, do 
sal, do arroz e dos escravos entre os Velho e Novo Mundos. 


A outra Companhia foi ainda mais rica, com um capital de dois milhões de 
cruzados e a concessão de privilégios e exclusivos semelhantes para as áreas de 
Pernambuco e Paraffia. Fomentou a agricultura também, nomeadamente a 
produção de cacau. 


Trinta navios sua pertença cruzavam constantemente o Atlântico, abastecendo as 
duas capitanias com escravos e outros artigos e exportando para a Europa os 


produtos do Brasil. Citando de novo Boxer, pode dizer-se que «o comércio 
estagnado do açúcar de Pernambuco e Paraíba experimentou um renascimento 
temporário». 


Interesses privados e sobretudo a reacção antipombalina do governo de D. Maria | 
puseram fim às companhias privilegiadas como tais (1778-79). Não obstante, 
ambas continuaram a existir como sociedades particulares, revestindo-se de muito 
menor significado no desenvolvimento do Brasil. 


Por esta época iniciou-se também a moeda própria brasileira. Moeda Em regra, o 
dinheiro não se mostrava abundante na colónia até começos do século xviii 
(idêntica situação ocorria nas colónias portuguesas de África), conquanto em 
algumas áreas - como 


a Bala - pudesse existir em quantidade. Tudo dependia da intensidade do tráfico 
levado a efeito com a Europa. 


A crise açucareira dos fins do século xvii, por exemplo, privou o Brasil da maior 
parte do seu numerário, acarretando toda a casta de problemas para a colónia e 
seus habitantes em geral. Além das moedas portuguesas, tinha circulação legal o 
numerário espanhol, frequentemente bem mais fácil de conseguir. Em vez de 
moeda, podiam também utilizar-se artigos variados, como panos, farinha, carne 
salgada, couros e peles, açúcar, algodão e 


assim por diante. A era do ouro, claro, introduziu-o como moeda padrão 
abundante, mesmo no caso de escassez monetária. 


Em 1694, depois de pedidos e representações sem conto, a 


Coroa decidiu-se a estabelecer a primeira Casa da Moeda brasileira, localizada na 
Bala. Funcionou igualmente, por períodos curtos, no Rio de Janeiro e no Recife, 
onde cunhou o numerário 


600 Brasil 


para essas regiões. A moeda brasileira compreendeu muitos tipos e valores, quer 
em ouro (1000, 2000 e 4000 réis -esta última a chamada moeda), quer em prata 
(20, 40, 60, 160, 320 - a pataca - e 640 réis). Numerário de cobre só apareceu no 
reinado de D. João V, circulando até então na América portuguesa as moedas 
cabo-verdiana e angolana (5, 10 e 20 réis). A partir de 

1702, funcionou no Rio de Janeiro uma segunda Casa da Moeda permanente. A 
pouco e pouco; foram surgindo novos valores monetários: moedas de ouro de 
6400 réis, moedas de prata de 

960 e 80 réis, relacionadas com a pataca, e de 75, 150, 300 e 600 réis 
relacionadas com o tostão de Portugal ( = 100 réis). O numerário de cobre incluía 
moedas de 5, 10, 20, 40 e 80 réis. O estado do Maranhão teve as suas primeiras 
moedas em 1749 apenas. Para evitar exportações de moeda colonial, o real 


brasileiro foi desvalorizado em relação ao português. Algumas destas moedas 
circulavam largamente no estrangeiro até finais do século xviii, sobretudo no 
mundo anglo-saxónico (incluindo a América). 


Sistema O sistema de finanças públicas foi sendo gradualmente organizado e 
sucessivamente melhorado em termos de cobrança de 


impostos, centralização e métodos contabilísticos. As reformas de Pombal na 
metrópole (ef. Cap. VIII) afectaram o Brasil também, como afectaram todo o 
Império Português. Nas décadas de 1760 e 1770, surgiram em todas as 
capitanias-gerais as Juntas de Fazenda. Directamente subordinadas a Lisboa, 
exerciam responsabilidade colectiva e superintendência sobre todo o fisco, 
incluindo as alfândegas. 


As receitas da Coroa não sofreram alterações estruturais por esta época, 
aparecendo no entanto algumas novas, à medida que as despesas públicas 
cresciam. O imposto sobre o ouro e os diamantes foi certamente a mais relevante 
de todas as receitas. Entre 1699 e 1715, começaram a cobrar-se os primeiros 
direitos alfandegários sobre a mercadoria importada. Pela mesma época, 
introduziram-se também pesados impostos sobre a importação de escravos. Nos 
meados e fins do século xvii, impuseram-se diversas taxas locais sobre o vinho, a 
aguardente, o azeite, o sal, o tabaco, etc. O Brasil teve também de contribuir com 


a sua quota-parte de oito milhões de cruzados para ajudar a financiar 
fin 
O Brasil, elemento basilar do Império Português 601 


os casamentos entre as casas reinantes de Portugal e de Espanha em 1729. 
Pombal criou novos impostos e direitos (para a educação e outros assuntos), o 
mesmo fazendo os seus sucessores dos reinados de D. Nlaria 1 e D. João VI. 
Contudo, na totalidade, as receitas públicas provindas do Brasil estiveram em 
constante decréscimo a partir de 1740. Nos finais da década de 1770, estavam 
reduzidas a cerca de um terço do que haviam sido antes. 


Por outro lado, a divida pública jamais cessou de aumentar: os números para o 
período de 1762 a 1780 revelam que o tesouro da colónia devia cada vez mais, 
sobretudo em 1763-607 e 1774-78. 

O orçamento oscilava entre saldo positivo e deficit: em 1775, registou um excesso 
das receitas sobre as despesas de 11762 000 réis, transformado em deficit de 
111502 000 réis dois anos mais tarde. Era, na realidade, mais uma questão de 
guerra e de defesa do que propriamente de boa ou má administração. 


O crescimento de uma aristocracia terratenente no Brasil , começara muito antes 
dos finais do século xvii (cf. Caps. V e VII), e + Oses 


soctais como consequência óbvia da estrutura quase-feudal introduzida pelos 


colonos e pelo governo português. Contudo, não parece que o desenvolvimento 
da colónia até essa época tenha sido coaretado pela concentração da terra nas 
mãos de uns poucos. A Coroa tentou reduzir a extensão das concessões 
fundiárias, mencionando-se até - na boa tradição medieval - a possibilidade de 
expropriar aquelas fazendas que não fossem cultivadas. Mas, na realidade, 
continuou a existir e até a aumentar o grande latifúndio, em obstáculo sério ao 
surto de unia classe média e ao avanço da economia. Durante todo o século xviii, 
a agricultura do Brasil estagnou, sobretudo em contraste com a das índias 
Ocidentais e América do Norte, sendo baixa a sua produtividade e nulo o seu 
progresso. 


Socialmente falando, o crescimento do latifúndio implicou o surto de uma classe 
superior de grandes proprietários, de ascendência branca, frequentemente 
manchada, aliás, de espessas gotas de sangue negro ou índio. Em influência 
social e económica, esta aristocracia depressa teve de competir com uma 
florescente burguesia de mercadores estabelecidos nos portos mais importantes. 
Nos meados e fins de Setecentos, a burguesia dos 


602 Brasil 


portos somava-se a uma crescente burocracia (juristas, advogados, etc.), à 
oficialidade militar e a diversas outras profissões de tipo liberal. No Brasil, 
portanto, o processo foi semelhante ao de Portugal, embora com uma luta de 
classes menos acentuada. Mau grado alguns conflitos, traduzidos por tumultos 
locais e 


competição nas Câmaras, os grandes proprietários, os comer- 


ciantes e os funcionários públicos conseguiram harmonizar-se dentro do quadro 
geral de serem brasileiros. O que se desenvolveu cada vez mais foi a oposição à 
metrópole e aos portugueses nomeados para cargos públicos no Brasil, oposição 
que serviria para resolver as contradições sociais até ao momento da 
independência. 


Este grupo de crioulos controlava por completo a linha de costa e as grandes 
cidades, conquanto muitas vezes estivesse ultrapassado em número pelos Negros 
e pelos Mulatos. Em S. Paulo e no Rio Grande de S. Pedro, os crioulos formavam 
a maioria nos meados do século xviii, alguns ostentando linhagens bem 
conhecidas ou presumidas, que iam remontar aos primeiros anos da colonização. 


No interior, particularmente nos distritos mineiros, a realidade social mostrava-se 
diferente. Predominavam os pretos e os mestiços, havia poucas famílias de 
grandes proprietários bem radicadas, a terra estava mais dividda e menos 
vinculada. Era a região de fronteira* diluída em barreiras sociais, fácil em 
mutações de classe. Durante o período da febre do ouro e dos diamantes, foi 
também a área de imigração, constantemente inundada de recém-chegados 
portugueses brancos e de escravos africanos pretos. Aí, a organização social 


revelava-se ténue, o banditismo florescente. Uma miscegenação intensa alterava 
os padrões étnicos de geração para geração. Não levou muito tempo aos mestiços 
conseguirem a direcção social e política nessas áreas, independentemente do 
facto de serem, ou não, ultrapassados em número pelos Negros. 


No Pará e no Maranhão, o quadro social e principalmente o rácico mostrava umas 
quantas particularidades. A maioria era aí constituída por índios cristianizados e 
por mamelucos ou caboclos (mestiços de branco e índio). Até à década de 1750 
viam-se 


O Brasil, elemento basilar do Império Português 603 


poucos negros; a importação maciça de escravos veio depois alterar 
completamente a estrutura étnica daquelas duas capitanias. 


As ordens religiosas tiveram um papel extremamente rele- o clero vante na 
exploração e colonização do Brasil. Os indígenas mostravam-se relativamente 
fáceis de converter, pelo menos em contraste com os povos da África e da Ásia. 
Este facto fez do Brasil uma espécie de terreno de eleição para todos os 
missionários, apesar do clima, das dificuldades oferecidas pela geografia e dos 
perigos que a ferocidade de muitas tribos apresentava. Contudo, não havia região 
mais compensadora para o trabalho dos missionários do que a América 
portuguesa. A todos aqueles que se preocupavam com a «salvação» dos seus 
habitantes, o Brasil pagava em conforto espiritual e em riqueza material. 


Entre as várias ordens que exerceram a sua acção no Brasil, os Jesuítas levaram, 
indubitavelmente, a dianteira. Influentes já nos fins de Quinhentos e começos de 
Seiscentos, haviam edificado um autêntico reino pelos meados do século xviii. 
Achavam-se por toda a parte, da Amazónia ao Rio da Prata, embora os seus 
feudos principais se localizassem nas bacias do Paraná-Uruguai. Possuíam 
extensas propriedades, incluindo plantações de açúcar e ranchos de gado. Eram 
os senhores de centenas ou milhares de escravos negros e tinham sob a sua 
direcção exércitos de milhares de ameríndios, que agiam como seus clientes. Nas 
reduções e aldeias (cf. cap. VID, o seu poder não tolerava interferências, fosse 
dos colonos, fosse dos representantes da Coroa, fosse mesmo da Igreja. 

No que respeita à escravatura, a história dos Jesuítas na América revela-se 
bastante contraditória. Lutando até ao absurdo pela liberdade dos índios, que por 
fim acabaram por conseguir, dificultando a expansão económica do Brasil com a 
sua resistência aos desejos dos colonos de obterem mão-de-obra indígena, 
incorrendo no ódio dos Brancos e do próprio clero secular pela sua política 
sistemática de protecção ao Ameríndio, encontraram todavia poucas palavras para 
condenar a importação de escravos de África, chegando a favorecer a escravatura 
negra como meio de distrair a atenção dos seus protegidos. De certo modo, 
podem até ser considerados os principais responsáveis pela inten- 


604 Brasil 


sidade do tráfico de escravos entre os dois continentes e pela substituição de um 
mal por outro ainda maior. 


Do ponto de vista político, os Jesuítas cedo puseram em xeque, tanto a política 
centralizadora levada a efeito pela Coroa como o própria definição das fronteiras 
do Brasil. Consideravam as aldeias como suas, não tolerando que se integrassem 
no enquadramento geral económico, político e administrativo do Brasil 
setecentista. Neste sentido, opunham-se aos colonos brancos, aos burocratas do 
Estado e até aos representantes da Igreja, fazendo-se odiados por todos três. 
Importando-se apenas com a pureza espiritual dos seus Índios e encarando a 
unidade da Companhia de Jesus como estando acima das distinções políticas 
entre Portugal e a Espanha, dificultaram muitas vezes a definição fronteiriça, 
teoricamente planeada pelas cortes de Lisboa ou de Madrid, que poderia vir 
destruir a unidade das suas reduções na América. Sob este prisma, pode até 
dizer-se que lutaram por uma fronteira muito mais correcta sob os pontos de vista 
lógico e etnográfico do que as duas Coroas, uma fronteira que respeitasse mais os 
interesses dos indígenas do que os princípios arbitrários decididos pelos 
governos. Contudo, uma política deste tipo não podia nem devia ser tolerada, 
fosse no século xviii, fosse em outro qualquer. 


Na bacia do Amazonas, Jesuítas e Carmelitas entraram em conflito frequente, 
visto que estes últimos (ordem muito menor em número e de menos importância) 
defendiam o expansionismo português na região, enquanto aqueles resistiam a 
qualquer mudança do status-quo que reunia um grande número de missões sob 
controle teórico da Espanha. No Mato Grosso, os Jesuítas espanhóis preferiram 
lançar fogo a várias aldeias e emigrar para o interior com os seus rebanhos de 
índios a renderem-se às novas autoridades, quando souberam que o tratado de 
Madrid dava a Portugal a margem direita do rio Guaporé, onde se haviam fixado. 
Mais tarde, tentaram reaver o que tinham abandonado, regressando aos seus 
poisos primitivos mas resistindo às autoridades portuguesas. Ao mesmo tempo, 
procuraram atrair índios que viviam em território português. De tudo isto resultou 
uma situação explosiva, que levou a conflito aberto entre Portugal e 


O Brasil, elemento basilar do Império Português 605 


a Espanha. Factos semelhantes ocorreram ao longo dos rios Paraná-Uruguai 
durante os fins do século xvii e grande parte do xviii. Se, a princípio, as reduções 
jesuíticas ofereciam soldados e pleno apoio à causa espanhola contra a 
portuguesa, posteriormente opuseram-se a ambas as nações, instigando os índios 
Guaranis à rebelião armada (1752; 1756), o que veio impedir a efectivação do 
tratado de Madrid. 


Pode dizer-se com justiça que esta guerra constituiu a última razão para a 
«solução final» da questão jesuítica. Pombal, então senhor supremo em Lisboa, 
não podia tolerar um desafio como esse às ordens do seu governo. Os Jesuítas 
tinham de desaparecer. Quando verificou que os podia acusar de conspiração 


para assassinar o rei (1758; cf. cap. VIII), expulsou-os de Portugal e de todos os 
seus domínios ultramarinos (1759). No entretanto fora decretada a liberdade dos 
índios do Brasil e proibida sob penas severas a sua escravização pelos colonos. 


Aplaudida pela maior parte das pessoas, a prisão e expulsão dos Jesuítas pôde 
ser levada a efeito com muito menos perturbações do que seria para esperar. Em 
1760, praticamente todos os Jesuítas haviam deixado o Brasil. A propriedade rural 
e urbana da Companhia passou para a Coroa, parte sendo desde logo vendida em 
hasta pública e parte ficando sob administração do Estado durante alguns anos 
até seguir o mesmo destino. Os índios perderam, sem dúvida alguma, os seus 
melhores amigos, enquanto o esforço missionário ficou prejudicado durante umas 
boas décadas, já que nenhuma das outras ordens religiosas tinha, quer homens, 
quer condições para tomar à sua conta a herança dos Jesuítas. A educação 
também sofreu com a perda súbita de muitos professores. Pombal criou o 
Subsídio Literdrio (1772) para financiar as instruções primária e secundária, mas 
levou tempo a que lhe aparecessem os resultados. Foi só em 1798 que o novo 
seminário de Olinda pôde oferecer aos estudantes brasileiros um corpo acertado 
de disciplinas. 


Entre as demais ordens regulares, devem- mencionar-se os Carmelitas, os 
Franciscanos e os Beneditinos. Os dois últimos tentaram substituir-se aos 
Jesuítas, com grande empenho mas com pouco sucesso. 


606 Brasil 


O clero secular, mais interessado nos problemas administrativos (consequência da 
criação das novas dioceses) e em abastecer as áreas civilizadas com pessoal 
burocrático e docente, desprezou bastante as missões e integrou-se por completo 
na sociedade branca dos crioulos. No Brasil, como algures, os fins do século xviii 
e os começos do xix trouxeram um declínio evidente para o clero secular, as 
ordens religiosas e a Igreja em geral. 


Bibliografia-A obra clássica para a história do Brasil neste período deve-se a 
Charles R. Boxer, The Golden Age of Brazil, 1695-1750, University of California 
Press, 1962. Veja-se também o seu The Portuguese Seaborne Empire, 1415- 
1825, London, Hutchinson, 1969. Para o período posterior a 1750, consulte-se o 
Visconde de Carnaxide, O Brasil na Administração Pombalina (Economia e 
Política Externa), S. Paulo, Companhia Editora Nacional, 1940, bem como Jorge 
de Macedo, A Situação Económica no tempo de Pombal. Alguns Aspectos, Porto, 
Portugália, 1951, e O Bloqueio Continental. Economia e Guerra Peninsular, 
Lisboa, Delfos, 1962. Até à década de 1730, veja-se igualmente a excelente 
síntese de Vitorino Magalhães Godinho («Portugal and her Empire») escrita para 
The New Cambridge Modern History, vol. VI, Cambridge University Press, 1970, 
pp. 509-40. 


Sobre a administração em geral existem as sólidas monograf ias de Dauril Alden, 
Royal Government in Colonial Brazil. With special Reference to the Administration 


of the Marquis of Lavradio, Viceroy, 1769-1779, University of California Press, 
Berkeley e Los Angeles, 1968 e Stuart B. Schwartz, Sovereignty and Society in 
Colonial Brazil. The High Court of Bahia and its Judges, 1609-1751, University of 
California Press, Berkeley, 1973. Sobre a administração local consulte-se uma vez 
mais Charles R. Boxer, Portuguese Society in the Tropics. The Municipal Councils 
of Goa, Macao, Bahia andLuanda, 1510-1800, University of Wisconsin Press, 
1965. Vejam-se igualmente as histórias gerais do Brasil e de Portugal já 
mencionadas e os diversos artigos publicados no Dicionário de História de 
Portugal, vols. | a IV. Sobre as companhias consulte-se Antônio Carreira, As 
Companhias Pombalinas de Navegação, Comércio e Tráfico de Escravos entre a 
Costa Africana e o Nordeste Brasileiro, Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, 
Bissau, 

1969. 


2 -De colónia a nação 


A vida interna do Brasil tornara-se a pouco e pouco mais independente e mais 
digna de registo também. Cada capitania ia conhecendo a sua evolução própria, 
que não estava necessariamente relacionada com os factos gerais afectando a 
totalidade da colónia. Tudo isso era o resultado óbvio do surto e da expansão do 
Brasil em todos os aspectos de actividade. 


A expulsão dos Holandeses do Norte e do Nordeste (cf. cap. VII) assumira já foros 
de assunto quase brasileiro, apesar da ajuda que a colónia obteve da mãe-pátria. 
A reconquista de Angola e de S. Tomé dependeu sobretudo das iniciativas e dos 
interesses dos colonos brasileiros que não queriam resignar-se a perder a sua 
principal fonte de mão-de-obra. 


Nos fins do século xvii e durante o século xviii, o Brasil crescera tanto e o avanço 
dos Portugueses para o interior alcançara tão longe que os termos vagos do 
tratado de Tordesilhas (1494) entre Portugal e a Espanha, não serviam já para 
nada. Tornava-se necessária uma definição real das fronteiras, baseada nos 
factos e não em teorias, menos no interesse dos Portugueses do que no dos 
Espanhóis que constantemente verificavam novas intrusões e fixações naquilo 
que consideravam território seu. 


Foi no Norte que primeiro se definiram as fronteiras do Brasil. Os Franceses 
haviam-se estabelecido em Cayenne e as suas tentativas expansionistas para sul, 
na direcção do Amazo- 


Aspectos gerais 


Definição de fronteini 
O Norte 


39 


608 Brasil 


nas, enfrentaram a pretensão portuguesa de que a fronteira do Brasil passava 
muito mais a norte. Para apoiar este ponto de vista, o rei D. Pedro Il ordenou que 
fosse construído um forte em Macapá, na margem setentrional daquele rio (1687). 
Os Franceses capturaram-no mas os Portugueses conseguiram reconquistá-lo 
pouco tempo depois (1697). Como a política externa de Portugal, nesse tempo, 
visava a um fortalecimento da aliança com a França, o governo de Lisboa acabou 
por ceder às pretensões de Luis XIV. Um tratado assinado em 1701 entregou à 
França todo o território entre os rios Amazonas e Oiapoc. 


A inversão de alianças na Europa veio determinar uma completa reviravolta de 
perdas e ganhos. Portugal entrou na Guerra da Sucessão de Espanha ao lado da 
Inglaterra e da Áustria contra a França, e a espécie de vitória que os Aliados 
conseguiram obter serviu para devolver a Portugal o território disputado (tratado 
de Utrecht, 1713). Nestes termos, a fronteira definitiva do Brasil foi demarcada no 
rio Oiapoe como ainda hoje é (de 1809 a 1815 os Portugueses ocuparam a 
Guiana Francesa, respondendo assim à invasão napoleónica, de Portugal). 


0S.11 Com a Espanha, as questões mostraram-se um tanto mais 
complicadas e difíceis de resolver, particularmente no Sul. 


Portugal clamara sempre que o Rio da Prata era a sua fronteira meridional mas 
pouco ou nada fizera para efectivar essa pretensão. Ao longo da bacia da rio 
Uruguai, as reduções portuguesas e espanholas, dirigidas pelos Jesuítas, 
espiavam-se mutuamente mas sem consequências de maior. Em 1675, os limites 
da recém-criada diocese do Rio de Janeiro foram definidos como alcançando o 
Rio da Prata. Em 1680, os Portugueses decidiram tentar a ocupação definitiva do 
«seu» território, enviando para sul uma expedição e fundando uma colónia em 
Sacramento, na margem setentrional do Rio da Prata, defronte de Buenos Aires. 
Esta nova colónia dependia da capitania do Rio. Estava-se nos dias anteriores à 
descoberta do ouro, quando Portugal dependia largamente da prata espanhola. 
Fundando Sacramento, os Portugueses tentavam - no que falharam - controlar o 
fluxo da prata das minas de Potosí, na actual Bolívia. Na realidade, o 


De colónia a nação 609 


único proveito que Portugal conseguiu da nova colónia derivou somente da 
criação de gado. 


Os Espanhóis deram-se imediatamente conta do perigo que para eles 
representava o estabelecimento de portugueses na área, com o resultado de que 
a história da colónia do Sacramento foi pouco mais do que uma sucessão de 
campanhas políticas ou militares, com vitórias alternadas de parte a parte. Em 
1681, um primeiro raid espanhol destruiu a pequena colónia sem, no entanto, 
impedir o regresso dos Portugueses pouco tempo depois. Em 1704, durante a 


Guerra da Sucessão de Espanha, os Espanhóis voltaram a atacar, apoderando-se 
da colónia. O tratado de Utrecht (1713) devolveu-a a Portugal, mas, menos de 
vinte e cinco anos mais tarde, os dois lados estavam de novo em guerra aberta 
pela posse do território (1735-37). Embora a vitória pertencesse desta vez aos 
Portugueses, parecia claro que a sua permanência aí havia de ser um foco 
constante de luta e um drenar permanente de dinheiro (com escasso lucro). Em 
1719, a Coroa tentara apoiar Sacramento fundando novos povoados na 
vizinhança, tais como Montevideu, que a Espanha prontamente capturou e 
fortificou (1726). Influenciado pelo hábil diplomata Alexandre de Gtisnião, o 
governo de Lisboa acabou por ceder e, após demoradas negociações, assinar o 
tratado de Madrid com o pais vizinho, que entregava o Sacramento à Espanha em 
troca de sete missões de jesuítas escalonadas ao longo do rio Uruguai (Janeiro de 
1750). 


Mas o conflito não estava findo. Nem a colónia foi, de facto, evacuada pelos 
Portugueses, nem os Jesuítas espanhóis se mostraram dispostos a render-se a 
um inimigo odiado. Para mais, em Portugal, Carvalho e Melo ascendera ao poder 
(1750) e, com ele, uma nova política externa baseada em atitudes firmes e na 


manutenção de direitos tradicionais. O tratado de Madrid foi, assim, 
unilateralmente denunciado (1761) e a Guerra dos Sete Anos transposta para a 
região do Rio da Prata. Uma vez mais os Espanhóis derrotaram. e expulsaram os 
Portugueses (1762), mas uma vez mais os tratados internacionais os puseram de 
retorno (tratado de Paris, 1763). A queda de Pombal trouxe consigo nova 
modificação na política externa portuguesa. O governo 


610 
Brasil 


Fig. 60 -A fronteira meridional do Brasil (segundo Fernando Castro Brandão, 
simplificado) 


1-Fronteira segundo o tratado de Madrid, 1750; 2-Fronteira segundo o tratado de 
Santo Ildefonso, 1777; 3-Fronteira actual. 


de D. Maria | preferiu fazer marcha atrás e efectivar as decisões de 1750. Nestes 
termos, o tratado de Santo Ildefonso (1777) pôs definitivamente em mãos 
espanholas a colónia do Sacramento e, com ela, as sete aldeias que em 1750 
tinham ficado para Portugal. Meses antes, um ataque espanhol expulsara de vez 
as tropas portuguesas do território disputado. A fronteira meridional do Brasil foi 
definida como principiando no rio Chuí, o que assegurava à Espanha a livre posse 
do estuário do Rio da Prata. Tentativas posteriores por parte de Portugal, para 
absorver o Uruguai (como, por exemplo, em 1817, quando Montevideu foi feita 
capital de uma nova província conquistada pelas armas portuguesas, a Província 
Cisplatina), mostraram que o problema não fora ainda resolvido de maneira 
satisfatória. 


De colónia a nação 
611 


A definição de fronteiras a ocidente deveu muito às missões O,.t, de jesuítas e 
carmelitas estabelecidas por toda a bacia do Amazonas, mas não menos às 
ousadas expedições dos bandeirantes dos séculos xvii e xviii. Nos meados de 
Setecentos, uma série de guardas-avançadas fora estabelecida na região, 
justificando assim as pretensões da diplomacia portuguesa e a definição fronteiriça 
resultante dos tratados de Madrid e Santo Ildefonso. Estes dois tratados 
arredondaram o território do Brasil para mais ou menos como existe actualmente e 
como o mapa apenso ilustra melhor do que qualquer descrição literária. 


Internamente, lutas de tipo social e regional estamparam a A, sua marca na vida 
de muitas capitanias. Nas zonas de fronteira rebeliô havia condições mais 
favoráveis a conflitos locais do que nas áreas estabilizadas da costa. É 
interessante verificar que as primeiras rebeliões importantes -no Maranhão e no 
Pará (1661; 

1684-85) - visaram expulsar os Jesuítas e contrabalançar a sua influência entre os 
índios. Podem bem encarar-se como os primeiros movimentos organizados de 
resistência, dentro da colónia, contra princípios e determinações impostas do 
exterior. 


A febre do ouro implicou os tumultos habituais entre mineiros, já atrás 
mencionados. Os Paulistas resistiram à avalanche dos imigrantes portugueses, a 
quem desdenhosamente apelidavam de emboabas, palavra indígena que queria 
dizer pintos-calçudos, isto porque a maioria dos imigrantes usava botas 
compridas. A Guerra dos Emboabas, na realidade uma sucessão de escaramuças 
de pequena importância, opôs os colonos locais aos recém-chegados, podendo 
considerar-se o primeiro esboço de guerra civil brasileira (1708-09). Pouco tempo 
depois, outra querela deste tipo, agora com contexto mais social, ocorreu no 
Norte, em Pernambuco, entre a pequena burguesia de mercadores e artífices, e 
os ricos plantadores de açúcar. O pretexto foi a participação burguesa nas 
Câmaras locais, que os plantadores procuravam impedir ou reduzir ao mínimo, 
mas a razão profunda estava antes no conflito entre famílias de colonos de há 
muito estabelecidos na área e recém-chegados portugueses que rapidamente 
prosperavam. Quando o Recife, centro dos comer- 


612 Brasil 


ciantes, foi elevado a vila (1709), tornando-se independente da velha capital, 
Olinda, os proprietários reagiram, iniciando-se luta campal. Ao que parece, alguns 
plantadores foram ao ponto de pensar numa separação da metrópole portuguesa. 
A luta, conhecida como Guerra dos Mascates (isto é, bufarinheiros de pequenas 
mercadorias, sobretudo tecidos), durou até 1711, data em que a Coroa conseguiu 
restaurar a ordem e castigar os latifundiários rebeldes. Uma terceira rebelião, com 


objectivos um tanto mais precisos, ocorreu em 1720, quando Filipe dos Santos 
Freire chefiou, em Minas Gerais, um protesto armado contra a política fiscal da 
Coroa, representada pelas fundições de ouro. A rebelião, em que escravos, 
mineiros e proprietários combateram juntos, foi sufocada pelo governador conde 
de Assumar, sendo executado o seu cabecilha. 


A prosperidade geral do Brasil, junta à prudente política administrativa seguida 
pela Coroa durante o século xvili, moderou quaisquer veleidades de rebelião ou 
tendências autonomistas durante longo tempo. Mas era óbvio que a revolução 
americana e o surto das novas ideologias políticas haviam de ter sua influência 
sobre a colónia mais cedo ou mais tarde. 


De novo foi Minas Gerais, a mais irrequieta e viva de todas as capitanias 
brasileiras, que tomou a dianteira. Desenvolvera-se aí uma pequena intelligentzia, 
composta de poetas e prosadores, muito receptiva às correntes modernas do 
pensamento. 


O declínio da produção aurífera trouxe para Minas uma profunda crise, com 
razões de sobra para que crescesse o descontentamento geral, sobretudo contra 
a opressiva política do fisco. O alferes Joaquim José da Silva Xavier, conhecido 
pelo Tiradentes porque também se dedicava à prática de dentista, chefiou, ao que 
parece, uma conspiração contra Portugal, aspirando vagamente à separação de 
Minas sob a forma republicana e à abolição da escravatura. A conspirata - que 
ficou conhecida na História com o nome de Inconfidência Mineira - foi descoberta 
(1789), os seus membros presos e Tiradentes executado (1792). Foi o primeiro 
mártir da causa da independência brasileira. 


De colónia a nação 613 
Em 1798 ocorreu outra conspiração republicana, desta vez 
na Baía, com a participação de negros das classes inferiores e 


de escravos até. A execução de quatro dos cabecilhas fê-la abortar com 
facilidade. 


A referência sumária a estes vários movimentos só pretende Demografi, 
demonstrar até que ponto o Brasil alcançara a maturidade polí- e socíodade 


tica e como a sua independência seria apenas uma questão de anos. Em 
quantitativo demográfico, a colónia aproximava-se cada vez mais da metrópole: 
mais de 1500 000 habitantes na década de 1770, 2 500 000 ao findar o século, 3 
600 000 em 1819. As grandes cidades eram o Rio de Janeiro (60 000 em 1808; 
130 000 em 1818) e a Baía (80 000 em 1819). Cerca de metade da população do 
Brasil constituífam-na negros (na maioria escravos), mais de uma quarta parte 
eram mestiços e os restantes «brancos». Foi a estes últimos que o movimento da 
independência ficou sobretudo devedor. Em 1819, os brancos que se 


consideravam brasileiros por nascimento ou geração - proprietários, comerciantes, 
artesãos - somavam quase um milhão de pessoas, contra uns cinquenta a 
sessenta mil reinóis ou marinheiros, como 


chamavam aos imigrantes recém-chegados de Portugal e ao pessoal burocrático 
metropolitano. Os Brasileiros brancos (muitos, em boa verdade, com sangue 
misto) desprezavam os demais 


grupos e visavam naturalmente tomar o poder em suas mãos. No Brasil, como por 
toda a parte na América Latina, autonomia queria dizer poder para os colonos 
brancos. Eram eles quem objectava à manutenção do estatuto colonial- que os 
impedia de, directamente, comerciarem com o estrangeiro, quem se queixava da 
enorme distância a que estava Lisboa para a resolução de problemas 
administrativos e políticos, quem acusava o funcionalismo vindo da metrópole de 
corrupção e despotismo, etc. Em suma, as suas reivindicações mostravam '-se 
idênticas às que todas as colónias perto da independência sempre têm contra a 


respectiva metrópole. 
Culturalmente também, estavam em vias de elaboração unias Surto de s 


quantas formas autóctones. Nos começos de século xviii, alguns cultura pn 
escritores medíocres começaram a exaltar as belezas naturais do 


614 Brasil 


Brasil. Tornaram-se mais comuns as descrições da colónia em seus vários 
aspectos, surgindo, quer em Portugal quer no estrangeiro, um interesse crescente 
pela colónia. Em 1769, Basílio da Gama publicou Uraguay, a primeira espécie de 
epopeia exaltando a nobreza dos índios brasileiros. Mas coube principalmente às 
academias literárias, fundadas durante o último quartel do século, estimular o 
desenvolvimento de uma autêntica literatura brasileira e ajudar a constituir unia 
cultura nacional na América portuguesa. Nas Minas Gerais, ao tempo a mais rica e 
mais populosa região do Brasil, um grupo de académicos lançou os fundamentos 
da poesia e da prosa brasileiras, entregando-se simultaneamente a actividades 
políticas: advogados e juristas como Cláudio Manuel da Costa (1729-89), Tomás 
António Gonzaga, conhecido como Dirceu (1744-1810), Alvarenga Peixoto (1744- 
93) e Silva Alvarenga (1744-93) tomaram-se muito populares, quer no Brasil, quer 
em Portugal, onde as suas obras foram primeiramente publicadas. Dois clérigos, 
Caldas Barbosa e Santa-Rita Durão, exerceram influência similar com os seus 
poemas. As «Luzes» chegaram também ao Brasil, tanto no modo literário quanto 
no científico. O governo português enviou para a colónia cientistas e técnicos 
constituindo várias missões, tais como a de Alexandre Rodrigues Ferreira (1756- 
1815) ao Amazonas (1783-92). Outros autores nados no Brasil, como José 
Bonifácio de Andrade e Silva e Azeredo Coutinho, enfileiraram igualmente entre os 
«iluminados». 


Nas artes, o século xviii e os começos do xix presenciaram a proliferação de 
monumentos nas principais cidades, consequência da opulência e expansão 
brasileiras. Esses monumentos, e bem assim as recém-fundadas cidades, 
reflectiam os estilos barroco e rócocó em toda a sua exuberância, seguindo o 
modelo português metropolitano mas com influências locais também. As bem 
conservadas cidades de Ouro Preto, Mariana, Diamantina, etc., são bons 
exemplos dessa fusão. Artistas locais, como o famoso António Francisco Lisboa 
(1730-1814), apelidado de Aleijadinho, floresceram tanto na arquitectura como na 
escultura, exibindo o surto de uma arte nacional. A Sé da Baía (de fundação 
jesuítica), os mosteiros de S. Bento (Rio, Olinda), as 


De colónia a nação 615 


igrejas de S. Francisco (Baía, Olinda, Paraíba, Ouro Preto, Mariana) ainda hoje 
testemunham da riqueza da colónia nesses tempos, oferecendo bons exemplos de 
uma arquitectura de primeira classe e de uma exuberante decoração em talha 
dourada e em azulejaria. 


Contudo, o processo do Brasil para a autonomia não seguiu Vinda da o modelo de 
todos os demais estados americanos. Uma sucessão para o Brú 


única de factos foi gradualmente aplainando as asperezas coloniais e preparando 
a separação com um mínimo de violência e quase sem alteração de estruturas. 


Em Novembro de 1807, os exércitos napoleónicos invadiram e ocuparam Portugal. 
O rei D. João Vl, com a maior parte do governo e da corte, decidiu refugiar-se no 
Brasil. Chegou à Baía em Janeiro de 1808 e ao Rio dois meses mais tarde. A sede 
do governo português foi assim transferida da Europa para a América. De um dia 
para o outro, o Brasil passava à situação de metrópole e Portugal à de colónia. 


A história do Brasil como sede provisória do governo português durou treze anos, 
período crucial, tanto para a parte europeia como para a parte americana da 
nação portuguesa. Na América emergia uma nacionalidade nova e a missão do 
governo joanino, enquanto ai, consistiu em dotá-la do quadro político, 
administrativo, económico e cultural necessário para o seu nascimento. Neste 
sentido, os anos de 1808 a 1821 significaram para o Brasil muito mais do que 
inúmeras décadas anteriores. A corte portuguesa não se poupou a esforços para 
elevar a colónia à categoria de grande império. 


É preciso recordar que, até 1811 ou 1812, a força e as virtualidades de Napoleão 
dominavam a Europa e os Europeus. Ninguém poderia prever o seu rápido 
declínio e queda. Portugal, como a Espanha, estava em condições de ser 
**iwradido de novo e o seu território permanentemente ocupado por um período de 
tempo imprevisível. Havia pessimistas que chegavam a dizer que a independência 
da nação se perdera para sempre. Neste sentido, a promoção do Brasil a 
metrópole era uma consequência natural dos factos e as medidas anti-coloniais 
tomadas pelo 


616 Brasil 


Regente no Rio de Janeiro não se podiam censurar, nem sequer de um ponto de 
vista estritamente português. A situação, porém, começou a modificar-se a partir 
dos primeiros cinco anos. A Península Ibérica estava liberta de vez dos ataques 
franceses. Fernando, VII fora restaurado no trono dos seus maiores. Mas nem D. 
João VI (sua mãe, velha e louca havia muito, faleceu apenas em 1816) nem sua 
mulher mostravam qualquer desejo de voltar a Portugal, mesmo quando já 
Napoleão se encontrava preso em Santa Helena, a paz na Europa se achava 
completamente restaurada pelo congresso de Viena (1815) e todo o Portugal 
ansiava por um regresso a normalidade. O governo do Rio esqueceu-se então de 
que a situação anormal passara, de que Portugal era a metrópole e o Brasil a 
parte dependente, ao ponto de prejudicar o comércio, a indústria e as finanças 
portuguesas em proveito das da antiga colónia. Na realidade, a corte tornou-se 
estranhamente mais brasileira do que portuguesa... até que uma revolução a 
obrigou a despertar e a decidir-se enfim sobre a 


fidelidade devida a uma ou a outra das partes. 


Governo Um dos primeiros actos de D. João ao chegar ao Brasil de D. J40 
consistiu em abrir os seus portos às nações amigas e a auto- 


rizar que fosse levado a efeito comércio internacional com toda a espécie de 
mercadorias, excepto umas poucas, que constitufam monopólio. Confirmado e 
precisado pelo tratado de 1810, este acto mareou o verdadeiro fim do estatuto 
colonial. A navegação deixava de ser compelida a ir a Portugal e a pagar ai os 
direitos correspondentes, antes de a sua mercadoria poder ser reexpedida para 
qualquer parte do mundo. Como a Inglaterra era, ao tempo, o mais importante 
comprador e vendedor em relação a Portugal, a lei de 1808 (sugerida ou 
pressionada pelos interesses ingleses) trouxe-lhe imensos benefícios, ao mesmo 
tempo que infligia um golpe profundo no comércio português. As exportações do 
Brasil para Portugal baixaram dois terços até 1813, subindo depois um tanto mas 
sem nunca alcançarem o nível de 1807. As importações de Portugal seguiram 
tendência semelhante: até 1813 desceram para cerca de metade do que tinham 
sido; seguiram-se alguns anos mais favoráveis, mas novo 


De colónia a nação 617 


declínio se registou a partir de 1816. Os números para 1819 mostravam um nível 
abaixo do de 1806 e de toda a década anterior. Era óbvio que o Brasil tinha agora 
melhores lugares para vender as suas sobras e comprar o que lhe faltava. 


Durante os anos seguintes, o governo continuou a fomentar o comércio, tanto 
interno quanto externo. Em 1808, foi estabelecida uma Junta do, Comércio, 
Agricultura e Navegação, abriram-se estradas (sobretudo no Sul) e institufram-se 
ou melhoraram-se as comunicações postais. No campo industrial, as medidas 


tomadas mostraram-se ainda mais revolucionárias. Um decreto régio tornou livre P 
criação de manufacturas em todo o Brasil. O resultado foi o rápido 
desenvolvimento de indústrias locais, nomeadamente de fundições de ferro, de 
fábricas de pólvora, de polimento de diamantes, etc. Por volta de 1820, edificara- 
se já uma pequena mas bem fundamentada actividade industrial. 


A máquina burocrática foi também melhorada e melhor enquadrada. Criaram-se 
no Rio tribunais para todas as causas e 


apelos. Teve, evidentemente, de se introduzir um novo sistema de impostos, 
copiando o de Portugal (introdução da sisa, por exemplo, em 1809), mas foram 
também surgindo inovações mais interessantes. Em 1808 criou-se o primeiro 
banco de todo o Império Português. Estabeleceu-se uma Junta de Fazenda, 
semelhante à da metrópole, para superintender nas finanças. E assim por diante. 
Em 1815, o passo decisivo e inevitável no campo político-administrativo teve de 
ser dado: o Brasil deixou a condição de colónia, sendo elevado à categoria de 
reino, com suas instituições próprias. Seguindo o modelo irlglês, criou-se o Reino 
Unido de Portugal, Brasil e Algarve, com igualdade recíproca de direitos e de 
deveres. As capitanias foram abolidas (embora não os títulos de capitão-general e 
governador) e substituídas por províncias, à maneira europeia. Leis sucessivas 
tenderam a pôr fim a todos os atributos coloniais e a estabelecer no Brasil uma 


réplica do Portugal independente. 


Uma série de medidas educacionais e culturais contribuíram também para forjar 
um estado moderno. E certo que não se 


criou nenhuma universidade mas institufram-se academias de 
618 BrasU 


Marinha, Artilharia e Fortificações, e Belas Artes. Outras leis criaram estudos de 
Economia Política, Agricultura, Química e Ciências no Rio e na Baía. O governo 
lançou os fundamentos para um Museu, abriu uma Biblioteca Nacional, plantou 
um Jardim Botânico e criou um Teatro Nacional. Fundaram-se uma Imprensa 
Régia e um Arquivo Militar. Etc. 


Até então o Brasil não tivera imprensa própria. Todos os livros adquiridos na 
colónia americana tinham de ser importados de Portugal ou mandados vir 
clandestinamente de qualquer país estrangeiro. Juntamente com a falta de 
escolas, esta política visava relacionar a colónia e a metrópole tanto quanto 
possível, impedindo a circulação de escritos perigosos e controlando inteiramente 
as formas de expansão cultural na América portuguesa. Com a chegada da corte, 
tudo mudou, começando a imprimir-se livros no Brasil. A Gazeta do Rio de 
Janeiro, fundada em 

1808, correspondia à Gazeta de Lisboa, como órgão oficial do governo. Em 
Londres, um grupo de brasileiros exilados de Portugal (devido às Invasões 


Francesas) deu inicio ao Correio Braziliensê, que defendia a separação do Brasil e 
que durou até à década de 1820. Embora proibido em terras portuguesas, aquele 
jornal era introduzido clandestinamente tanto na metrópole quanto na sua colónia 
americana, alcançando vasto público. 


Agitação Se a transferência da sede da monarquia portuguesa, de evolucionária 
Lisboa para o Rio, implicou a formação definitiva de um novo 


Estado, afirmando a unidade da nação e revelando a sua maturidade política, não 
pôde protegê-la por completo contra a 


inquietação revolucionária causada pela difusão do ideário, liberal. 
Republicanismo e federalismo tornaram-se conceitos em moda, aplicando-se à 
modernidade e extensão do Brasil. Por toda a América Latina, movimentos mais 
ou menos definidos tendendo para a autonomia haviam começado a partir de 
1810, coloridos, em sua maior parte, com as tintas republicanas. A maior parte, 
mas não todos. E precisamente a existência, em terra americana, de uma família 
real e de uma corte activas «monarquizou» alguns desses movimentos, 
levantando a questão da necessidade de alterar as instituições políticas como 
condição 


De colónia a nação 619 


prévia da independência. É interessante registar que houve negociações entre os 
revolucionários das províncias do Prata (futura Argentina) e a princesa (depois 
rainha) Carlota Joaquina, mulher do regente D. João, para a colocar no trono de 
um estado autónomo sul-americano. 


Do lado republicano, descontentamento e princípios revolucionários levaram a 
uma revolta declarada no Brasil, em 1817. Algum tempo antes, o receio de 
perturbações políticas obrigara já o governo do Rio a mandar vir reforços de 
tropas de Portugal. Pouco depois, a lei de Dezembro de 1815, transformando o 
Brasil em reino, constituía já uma tentativa de esmagar os propósitos separatistas. 
Não obstante, Pernambuco revoltou-se, sendo o seu governador obrigado a fugir 
para salvar a vida e proclamando-se a república (Março de 1817). Embora 
triunfante durante algum tempo - chegou a ser adoptada uma constituição - e 
obtendo a adesão de algumas províncias vizinhas, a nova república não pôde 
resistir ao assalto dos batalhões reais enviados do Rio. Treze pessoas foram 
executadas e, mediante repressão em Pernambuco e noutras partes, conseguiu- 
se suster a agitação durante algum tempo mais. 


Os acontecimentos ocorridos em Portugal vieram determinar A Revoluçã a 
independência final do Brasil. Em Agosto de 1820, eclodiu na liberal metrópole a 
Revolução liberal (cf. Cap. X), sendo um dos primeiros actos do novo governo o 
pedido de regresso de D. João Vl. Este quis ainda adoptar uma solução de 
compromisso, enviando seu filho primogénito Pedro com plenos poderes, mas a 
nova situação liberal rejeitou a hipótese. Posto perante o dilema de ficar no Brasil 


e perder Portugal, ou regressar a Portugal e (provavelmente) perder o Brasil, D. 
João VI deu-se conta de que, ao fim e ao cabo, era rei de Portugal e cidadão 
português. Assim, decidiu-se a regressar com toda a corte, desembarcando em 
Lisboa no meio do contentamento geral dos metropolitanos, em Julho de 1821. 
Seu filho D. Pedro ficou no Rio como regente e à testa de um ministério separado, 
composto por um ministro do Interior e Estrangeiros, um ministro das Finanças, 
um da Guerra e outro da Marinha. 


620 Brasil 


O movimento constitucional fora bem recebido no Brasil. Uma revolução no Pará 
(Janeiro de 1821) secundou a de Portugal. Seguiram-se a Baía e o Rio, o que tudo 
obrigou o monarca a submeter-se ao novo estado de coisas (fins de Fevereiro) e a 
nomear um novo governo. Contudo, o regresso de D. João VI à Europa 
desagradara profundamente. O Brasil estava já habituado a ter um rei seu e uma 
corte própria, com a plena sede do governo estabelecida no seu território. Este 
sentimento compreensível foi ainda acirrado pela atitude desastrada do primeiro 
parlamento constitucional português. 


Eleitas em fins de 1820 e até Março de 1821, as primeiras cortes liberais 
compunham-se de 181 representantes, sendo 100 por Portugal, 65 pelo Brasil e 
16 pelas demais províncias ultramarinas. Cada província brasileira estava 
representada consoante a sua população: Minas Gerais tinha 13 deputados, 
Pernambuco 

9, Bala 8, S. Paulo 6, Rio de Janeiro 5, Ceará 5, Alagoas 3, Paraíba 3, Goiás 2, 
Maranhão 2, Pará 2, Piauí 2, Rio Grande do Norte 2, Espírito Santo 1, Rio Negro 1 
e Santa Catarina 1. Até Outubro de 1821 pôde ser mantida a boa harmonia entre 
as novas cortes e o Brasil. Uma lei decretada em 29 de Setembro até serviu para 
melhorar a administração na América portuguesa, ao uniformizar as duas 
categorias de províncias e colocá-las sob a chefia de Juntas de governo 
provisórias eleitas, assistidas por «generais» para os assuntos militares. Os 
cargos de capitão-general e governador foram abolidos. 


Contudo, dominadas pela burguesia portuguesa, que via na autonomia do Brasil 
como reino a perda de enormes proventos no comércio e na indústria, as cortes 
cedo adoptaram unia política tendente a anular os privilégios concedidos por D. 
João Vl e a devolver ao Brasil a condição de colónia, se não de direito, ao menos 
de facto. Em Janeiro de 1822, os tribunais do Rio foram extintos (adoptando-se, 
ao mesmo tempo, várias outras medidas menos importantes mas ainda assim 
exasperantes), enquanto em Lisboa se levantava uma campanha contra o Brasil, 
ridicularizando as suas aspirações e os seus costumes e tornando cada vez mais 
difícil qualquer acordo. Para mais, as cortes ordenaram 


De colónia a nação 


621 


ao príncipe D. Pedro que viesse para a Europa a fim de completar a sua 
educação. 


O Brasil não podia aceitar esta última medida e muito menos A índepená D. 
Pedro, um jovem ambicioso e dotado a quem seu pai instruíra no sentido de não 
deixar o Brasil e de antes se pôr à frente de qualquer movimento separatista se 
este se mostrasse inevitável. Depois de ter decidido «ficar» contra a resolução 
tomada pelas cortes, D. Pedro foi proclamado «Defensor perpétuo do Brasil» em 
Maio de 1822. Nomeou novo ministério chefiado por José Bonifácio de Andrade e 
Silva, um dos maiores obreiros da independência. Foi convocada uma assembleia 
legislativa brasileira, generalizando-se a oposição a Portugal. Quando Lisboa 
decidiu anular as decisões tomadas por D. Pedro, este resolveu-se a proclamar a 
independência do Brasil (Ipiranga, S. Paulo, 7 de Setembro de 1822). Um mês 
mais tarde, e seguindo o exemplo do México, era proclamado imperador. 


Todo o Brasil aclamou a independência, embora, em certas regiões, a presença 
de fortes guarnições portuguesas tornasse impossível uma adesão imediata ao 
grito do Ipiranga. Contudo, desejos de uma solução rápida para o problema 
surgiram desde logo, tanto do lado brasileiro quanto do português. Em Portugal, * 
restauração do Absolutismo (Junho de 1823) deu a D. João VI * ao seu ministério 
plenos poderes para pôr termo à questão, anulando o obstáculo mais poderoso ao 
reconhecimento da independência do Brasil, as cortes burguesas. Iniciaram-se 
imediatamente as negociações, nunca aliás tendo sido suspensa de todo a 
correspondência particular entre D. Pedro e seu pai. Formularam-se planos para 
reunir as duas coroas de maneira fictícia, proclamando D. João VI imperador dos 
dois países e D. Pedro rei do Brasil. Ao mesmo tempo, ninguém punha em dúvida 
os direitos de D. Pedro à coroa portuguesa como herdeiro legítimo na sucessão de 
seu pai. Conceitos de «português» ou de «brasileiro» como qualquer coisa de 
antagónico estavam ainda muito longe de definidos nesse tempo. Dois países, por 
certo, mas uma só nação com um só património cultural. D. Pedro via-se a si 


622 Brasil 


próprio simultaneamente príncipe português e soberano do Brasil sem que neste 
facto encontrasse contradição. 


Desejado por quase toda a gente e ainda por cima com a pressão da Inglaterra 
(para quem a independência do Brasil trazia imensas possibilidades de expansão 
económica e política, ao mesmo tempo que enfraquecia Portugal para todo o 
sempre, colocando-o ainda mais, se possível, na dependência inglesa), alcançou- 
se bem depressa um acordo entre as duas partes. Pelos fins de 1823, as 
derradeiras tropas portuguesas deixavam o Brasil, poucos obstáculos ficando 
agora no caminho do apaziguamento. Em 29 de Agosto de 1825, o tratado do Rio 
de Janeiro reconhecia a separação do Brasil e a sua conversão em império. Nos 
termos das suas cláusulas, D. João VI era proclamado co-imperador (teórico) do 
novo Estado em sua vida. Com muito pouco derramamento de sangue e tão 
pacificamente quanto possível (houvera, é certo, alguns combates na Baía e no 


Rio) a maior nação da América Latina alcançara a soberania plena no seu 
território. Para Portugal, também, uma nova época ia começar. 


Bibliografia - Os livros de Boxer, as histórias gerais do Brasil já mencionadas (cf. 
também o Cap. VID, o Dicionário de História de Portugal nos seus muitos artigos e 
as histórias gerais de Portugal incluem os factos mais importantes e uma visão de 
conjunto da evolução para a independência. Veja-se ainda J. F. de Almeida Prado, 
O Brasil e o Colonialismo Europeu, S. Paulo, Companhia Editora Nacional, 1956. 


Para o problema da definição das fronteiras, os estudos fundamentais devem-se a 
Jaime Cortesão, Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, 

9 volumes, Instituto Rio Branco, Rio, 1950-63, e História do Brasil nos Velhos 
Mapas, Rio de Janeiro, 1966; de consultar são ainda o livro de Luis Ferrand de 
Almeida, A Diplomacia Portuguesa e os Limites Meridionais do Brasil, Faculdade 
de Letras da Universidade dê Coimbra, Coimbra, 

1957, e, do mesmo autor, um excelente e desenvolvido artigo sobre «Sacramento 
(Colónia do)» com boa bibliografia, no Dicionário de História de Portugal, III, pp. 
708-14. 


Acerca dos movimentos culturais e artísticos podem consultar-se, entre inúmeras 
obras, António José Saraiva e óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, 3.a 
ed., Porto, Porto Editora, s/d.; José Veríssimo, História da Literatura Brasileira, 
Rio, 1916 (entre outros); Sílvio Romero, História da Literatura Brasileira, 5.a ed., 
Rio, 1953; Germain Bazin, LArchitecture Religieuse Baroque au Brésil, 2 vols., 
Paris, 1956-1958; e G. Kubler 


De colón,.a a nação 623 


e M. Soria, Art and Architecture in Spain and Portugal and their American 
Dominions, The Pelican History of Art, Harmondsworth, 1959. 


A estadia de D. João VI no Brasil foi analisada por muitos autores. Veja-se, como 
obra clássica, Manuel de Oliveira Lima, D. João VI no Brasil, Rio de Janeiro, 1908. 


Finalmente, entre a vasta bibliografia acerca do movimento de independência, 
consulte-se, do lado português, Antônio Viana, Apontamentos para a História 
Diplomdtica Contemporânea, vol. Il, A Emancipação do Brasil, Lisboa, 1922. Do 
lado brasileiro, a obra clássica deve-se a F. A. Varnhagen (Visconde de Porto 
Seguro), História da Independência do Brasil, 3.11 ed., S. Paulo, 1957. 

40 

3 -Os elementos secundários do Império 


Pelos finais do século xvii, o Império Português - excepto Império 


África fio tuado o Brasil - mostrava-se, do ponto de vista geográfico, base asiático 


tante familiar a um estudante de assuntos coloniais portugueses 


dos fins do século xix. No Atlântico Norte, havia os três arquipélagos dos Açores, 
Madeira e Cabo Verde. Na costa da Guiné, Portugal possuía umas quantas 
feitorias e pequenas fortalezas localizadas nas bacias dos rios Cachéu e Geba. 
Vinham depois as ilhas de S. Tomé, Príncipe, Fernão do Pó e Ano Bom nas águas 
equatoriais do golfo da Guiné, juntamente com a fortaleza de Ajudá no continente. 
A sul do equador, os Portugueses detinham uma longa e estreita faixa costeira 
(com algum hinterland) na costa ocidental africana, conhecida como Angola, e 
outra tira ou tiras na costa oriental com o nome de Moçambique. Na Ásia, era seu 
o chamado «Estado da índia», que abrangia Goa, Damão e Diu na índia, Macau 
na China e Timor na Indonésia. A mais, só a cidade e fortaleza de Mazagão em 
Marrocos, as ilhas de Fernão do Pó e Ano Bom, e porventura uma zona de 
influência em redor de Ajudá. Em área territorial efectiva, bem como em 
importância económica e política, este Império mostrava-se incomparavelmente 
mais pequeno do que aquilo que é hoje (1971). A força e a riqueza de Portugal 
estavam algures, na imensa colónia americana. O Brasil era o Império, e todo o 
resto nada mais do que parcelas secundárias, com diminuto interesse quando 
encaradas em si mesmas. 


É verdade que, antes do Brasil, a índia constituíra um pólo semelhante de 
atracção. Contudo, enquanto a maior parte das 


Os elementos secundários do Império 
625 


possessões portuguesas de então se localizavam no caminho marítimo para a 
índia (incluindo o próprio Brasil) e beneficiando portanto do esplendor daquela, 
apenas a Madeira e Cabo Verde se localizavam no caminho para o Brasil. Não 
admira, pois, que a história do Império Português africano e asiático não tivesse 
sido mais do que estagnação e declínio - não obstante uns curtos períodos de 
prosperidade - durante todo o final do século xvii, o século xviii e os começos do 
século xix. 


Por várias vezes Lisboa tentou superar essa estagnação mediante reformas, quer 
do tipo económico, quer político, quer administrativo. Foi o que aconteceu com a 
política das companhias ou, mais precisamente, sob o governo do marquês de 
Pombal. Contudo, os resultados finais eram sempre desapontadores, visto que a 
essência do problema não fora nem podia ter sido tocada. 


Entre os vestígios de um passado de glória, Mazagão. re- Mazagão velava-se, 
sem dúvida, a mais inútil de todas as possessões portuguesas. Só servia para 
custar dinheiro ao tesouro, não desempenhando qualquer papel de mínima 
utilidade. Depois de uma história sem interesse, o governo pombalino ordenou o 
abandono de Mazagão quando um poderoso exército marroquino veio cercar a 
fortaleza, em 1769. Os seus habitantes foram transferidos para Portugal, e depois 


para o Brasil, onde vieram fundar Vila Nova de Mazagão. 


A Madeira e os Açores tinham pouco de colónia, já nesses dias. Povoadas por 
unia população quase inteiramente branca, semelhantes à mãe-pátria na maioria 
das instituições, formas de vida social e características económicas, tendiam 
rapidamente para a condição de apêndices distantes do próprio Portugal, 
tornando-se a sua história parecida com a de qualquer província mais atrasada do 
continente, como Trás-os-Montes ou a Beira Baixa. 


Superpovoados para as possibilidades do tempo, ambos os arquipélagos 
começaram a expedir emigrantes para o Brasil e para outras partes do Império. No 
século xvili, muitos jovens açorianos e madeirenses em idade militar iam para 
Angola, 


Afadeira e Açores 
626 Brasil 


como recrutas, quando um novo governador era nomeado, morrendo como tordos 
com a mudança de clima e de alimentação. Nos meados do século xvii, os Açores 
tinham menos de cem mil pessoas, a Madeira mais de cinquenta mil. Um século 
depois, a população fixa subira uns 25 a 50 % (a Madeira registava umas 

75 000 almas em 1748), emigrando anualmente uma percentagem enorme. O 
governo até se preocupou com organizar a emigração para o Brasil, promovendo 
a fixação de casais e dando-lhes terra. 


Apesar disto, os dois arquipélagos iam lentamente desenvolvendo os seus 
recursos económicos. A Madeira vivia do tráfico marítimo e do vinho, ambos os 
quais se expandiram - com diversos altos e baixos - nos finais do século xvii e no 
século xviii. Nos Açores, o declínio do pastel e do trigo foi depressa compensado 
pela exportação de laranjas, linho e milho. Nos começos do século xviii, fundava- 
se na ilha de S. Miguel uma fábrica de fiação com pessoal francês, que teve um 
período relativamente longo de actividade e prosperidade. A pesca da baleia 
começou a render durante a centúria de Setecentos, introduzindo-se ainda a 
cultura da batata, vinda do continente. Ambos os arquipélagos mostravam saldo 
positivo nas respectivas balanças de comércio, conseguindo pagar as suas 
próprias despesas sem encargos para a Coroa. O Funchal, Angra e Ponta 
Delgada tornaram-se grandes cidades provinciais, exibindo certa opulência em 
seus palácios barrocos e em suas igrejas pomposamente decoradas. 


Pombal reformou a administração, extinguindo as donatarias e criando para cada 
arquipélago uma capitania-geral, com capitães nomeados por períodos de três 
anos (1766). Angra, onde residia o bispo, foi feita capital dos Açores. Pombal 
instituiu também juízes de fora para todas as ilhas e corregedores para S. Miguel e 
Santa Maria. Um outro melhoramento consistiu em introduzir moeda própria de 
cobre, tanto para os Açores quanto para a Madeira, resolvendo-se assim (ou 
tentando-se resolver) o problema crónico da falta de moeda de trocos. A fim de 


promover um melhor abastecimento em cereais das cidades em via de expansão, 
criaram-se celeiros públicos no Funchal, em Angra e em Ponta Delgada. Os seus 
sucessores no governo reforçaram 


Os elementos secundários do Império 627 


a competência e a jurisdição dos capitães (1799), pondo em vigor uma série de 
medidas que favoreciam a agricultura e os interesses dos proprietários locais. Nos 
começos do século xix, instituífram-se Juntas para o progresso da agricultura. 
Entre. outros objectivos, as Juntas tentaram promover o aproveitamento dos 
baldios, dividindo-os em parcelas, arrendadas depois aos camponeses médios. 
Esta política, que Pombal tentara já, ia contra os interesses centenários dos 
camponeses e dos proletários rurais mais pobres, que utilizavam colectivamente 
os baldios. Introduziu-se igualmente moeda de prata local e papel-moeda. O 
comércio externo estimulou a economia a tal ponto que a maior parte do dinheiro 
em circulação consistia em moedas de prata espanholas e mexicanas, bem como 
outro numerário estrangeiro. 


A história de Cabo Verde e da Guiné constituía uma só. As cabo verde ilhas e a 
costa do continente dependiam uma da outra, sobretudo no que respeitava ao 
trato dos escravos, pertencendo assim a uma capitania única. 


Apesar do tráfico marítimo de e para o Brasil e o resto do Império, o arquipélago 
cabo-verdiano mareou passo durante os finais da centúria de Seiscentos e quase 
toda a de Setecentos. Havia pouco comércio e a falta de exportações resultava 
numa drenagem continua de moeda e numa escassez monetária crónica. Panos 
de algodão serviam de sucedâneo, não se conseguindo que o governo da 
metrópole cunhasse numerário próprio para Cabo Verde. 


Em 1676, surgiu a Companhia dê Cachéu e dos Rios da Guiné, com direitos sobre 
as feitorias do continente africano. Desapareceu ao cabo de poucos anos, sem 
grandes resultados práticos. De 1680 a 1706, Cabo Verde e a Guiné pertenceram 
para todos os efeitos à recém-criada Companhia de Cabo Verde e de Cachéu, que 
recebeu o monopólio do comércio em ambas as partes e que conseguiu obter um 
monopólio ainda melhor, o da exportação de escravos para a América Espanhola. 
Este monopólio não durou -país do que seis anos e oito meses (1696-1703) e 
nunca foi tomado muito a sério, conquanto tivesse originado um curto período de 
prosperidade. 


628 Brasil 


Quando a Companhia faliu, tanto o arquipélago como a costa guineense caíram 
de novo no sono interrompido, apesar de alguns esforços para desenvolver a 
agricultura mediante a introdução de novas plantas industriais: indigo, urzela e 
sena, bem como, mais tarde, o café. Só a urzela conseguiu erguer-se a níveis de 
comércio externo e, juntamente com o algodão, dar a Cabo Verde 

- isto é, aos Ingleses que o controlavam - as suas únicas exportações proveitosas. 


Nos meados do século xviii, as ilhas viviam principalmente de gado, milho, feijão e 
peixe (incluindo a pesca da baleia), mas o todo rendia, ao fim e ao cabo, muito 
pouco e dependia em excesso de uma pluviosidade sempre incerta. As secas 
eram, como são, frequentes e, à medida que a população aumentava, a pobreza e 
as fomes surgiam como seus corolários óbvios. 


Na Guiné, fundou-se em 1696 uma pequena feitoria em Bissau, com fortaleza, 
igreja e até hospital. Mas foi difícil encontrar colonos que para lã quisessem ir com 
carácter permanente, tendo a Coroa de «confiar» apenas nos degredados, 
obrigatoriamente enviados para o Ultramar todos os anos. A lei fixou mesmo o 
número de degredados a transportar, cabendo à Guiné e a Cabo Verde não mais 
de uma dúzia por ano. Embora esta cifra fosse mais tarde aurjientada para 
quarenta, a população só muito lentamente foi crescendo, devido à elevada taxa 
de mortalidade. Na Guiné, Portugal tinha ainda de contar com os indígenas, que 
frequentemente atacavam feitorias e fortalezas, obrigando a expedições de 
represália e de «castigo». 


De 1757 a 1777, Cabo Verde e a Guiné foram novamente entregues a uma 
companhia, a do Grão-Pará e Maranhão, seguida pela Companhia para o 
Monopólio do Comércio nas ilhas de Cabo Verde, Bissau e Cachéu até 1786. 
Ambas, as companhias, mas sobretudo a primeira, serviram para estimular um 
tanto a economia do arquipélago. Talvez devido a isso, o número de habitantes 
voltou a subir e, pela primeira vez em dois séculos de história, as ilhas ainda 
despovoadas foram, a pouco e pouco, recebendo gente: Santo Antão, S. Vicente, 
S. Nicolau e o Sal. A ilha da Brava obtivera já os seus primeiros habitantes em 
1680 - quando uma erupção vulcânica na vizinha ilha do Fogo 


Os elementos secundários do Império 629 


forçou muita gente a procurar outra morada -, de forma que só a pequena Santa 
Luzia permaneceu deserta. 


No entrementes, as reformas de Pombal alcançaram Cabo Verde também. Os 
derradeiros donatários haviam vendido ou foram obrigados a renunciar os seus 
privilégios, criando-se unia capitania-geral de curta duração para abranger o 
conjunto das ilhas e a Guiné. Mas a acção das companhias privilegiadas reduziu a 
autoridade dos capitães e nivelou-os com os da Guiné. Foi só em 1808 que uma 
nova reforma administrativa restaurou o governo de Cabo Verde à sua primitiva 
autoridade. A capital da colónia fora definitiva e oficialmente transferida para a 
Praia, na ilha de Santiago (1769), onde o bispo e os principais funcionários 
públicos viviam havia muito tempo. 


Como a maior parte das possessões portuguesas, Cabo Verde sentiu os perigos 
das diversas guerras internacionais. Em 1712, os Franceses atacaram e 
saquearam, tanto a Ribeira Grande como a Praia. Em 1798, voltaram de novo e 
pilharam a Brava. Os Ingleses, por sua vez, tentaram estabelecer-se em várias 
das ilhas, quer por meios pacíficos, quer militares. Fracassaram em Cabo Verde, 


embora passassem a controlar parte do comércio, mas triunfaram na Guiné, onde 
fundaram uma feitoria em Bolama nos últimos anos do século xviii. 


No golfo da Guiné, verificou-se um curto período de expan- G,,If, são portuguesa 
no fim da era de Seiscentos. No Dahomey de da Gw'né. 


S. Tome hoje, o capitão-general de S. Tomé, Bernardino Freire de An- e PríncíPe 
drade, ordenou a construção de uma fortaleza em 1677-80. Foi ela S. João 
Baptista de Ajudá, que controlava uma pequena rede de feitorias ao longo da 
costa e de onde vários missionários (sobretudo Capuchinhos) partiram para 
missões perigosas e inúteis junto dos indígenas. Ajudá dependia da capitania de 
S. Tomé e não passava de uma base operacional para o tráfico dos escravos e do 
marfim. 


A Companhia de Cabo Verde e de Cachéu (1680) estendeu também as suas 
actividades ao golfo da Guiné. Controlou Ajudá, onde estimulou o comércio, 
fundando-se novas feitorias em Jaquém, Popo, Apa, Calabar e Camarão, todas na 
costa continental, 


630 Brasil 


e Corisco e Fernão do Pó nas ilhas. Navios dedicados ao comércio do tabaco, 
provenientes da Baía, iam ai carregar escravos, A Companhia desenvolveu 
igualmente o comércio no Príncipe, onde foi construída uma fortaleza (1694). Num 
espaço de poucos anos, nasceu e morreu ainda a chamada Companhia da Ilha de 
Corisco. 


Ao falir a Companhia de Cabo Verde e de Cachéu (1706), as possessões 
portuguesas na região do Golfo entraram noutra fase de estagnação e declínio. Os 
Franceses saquearam o Príncipe e S. Tomé, ajudando os Negros a revoltar-se 
uma vez mais (1709). S. Tomé mostrava-se nesses dias uma das mais corruptas 
colónias do Império Português. O poder estava em grande parte nas mãos de uma 
«aristocracia» local de negociantes de escravos e de mulatos terratenentes que 
dominavam a Câmara e se entretinham a disputar com a outra força da ilha, o 
clero. Entre bispo, frades capuchinhos e Câmara, o processo de intrigas e 
violência declarada não conhecia limites. Os capitães nomeados pela Coroa 
pouco ou nada podiam fazer para impor a ordem e as decisões régias. Muitos, 
aliás, foram mortos ou faleceram em circunstâncias misteriosas. Nenhum 
conseguiu durar. Na ausência do capitão, a Câmara detinha muitas vezes o poder. 


Todas as tentativas de remediar, quer a economia, quer a administração de S. 
Tomé, levaram a becos sem salda. Em 1721, resolveu-se abrir a ilha ao comércio 
externo, mas com escassos resultados. O governo de Pombal conseguiu modificar 
um pouco este estado de coisas. A ilha do Príncipe fora comprada pela Coroa ao 
seu último capitão hereditário (1753). Pombal elevou a aldeia principal da ilha, 
Santo António, à categoria de cidade, transferindo para ela a capital da colónia. 
Foi nomeado um novo 


capitão-general com autoridade sobre o de S. Tomé. Mais tarde (1770), outros 
decretos governamentais reduziram a competência da Câmara de S. Tomé. 


Esta legislação não fez sarar a ferida mas serviu para minorar os seus efeitos. O 
comércio entre o Brasil e o golfo da Guiné expandiu-se um tanto nos meados do 
século, o que ajudou a emprestar ao governo central alguma força mais e a 
conceder aos habitantes das ilhas algum dinheiro extra. Ajudá obteve um 


Os elementos secundários do Império 631 


subsídio da Baía, porque, em boa verdade, mais de um terço dos escravos do 
Brasil de lá provinha. Pelos finais da centúria de Setecentos, a situação geral 
melhorara, apesar de uns quantos ataques dos Franceses ao Príncipe. No 
entretanto, porém, Portugal dera-se conta da inutilidade de conservar algumas das 
suas possessões no Golfo. A maior parte das feitorias do continente foram 
abandonadas e Fernão do Pó com Ano Bom cedidas à Espanha pelo tratado de 
Santo Ildefonso (1778). Os esforços concentraram-se, pois, nas duas ilhas 
conservadas, S. Tomé e o Príncipe. 


A função de Angola como o mais importante abastecedor Angola de escravos do 
Brasil prosseguiu durante todo o século xvii e xviii. Como os territórios 
portugueses da América do Sul não cessavam de crescer, a posição de Angola 
como reservatório de mão-de-obra havia de continuar também. Neste sentido, 
pode bem dizer-se que, conquanto colónia do Brasil, Angola se mostrava a pedra 
angular do Império Português. 


Não dispomos dos números totais de escravos exportados por Angola durante 
este período. Mas as cifras existentes dão-nos já um quadro bem claro do surto do 
trato escravagista. Na década de 1670, uma média anual de 7500 negros entrava 
no Brasil, na sua maioria vindos de Angola, mas igualmente de outras 
proveniências. Nos começos do século xviii, a escravatura declinara 
aparentemente um pouco, visto que as estatísticas angolanas não registam mais 
do que uma média anual de 4618 escravos exportados em 1710-14. Contudo, este 
número cresceu rapidamente: 

6101 em 1720-24, 10 054 em 1735-39, 12 415 em 1755-59, 14 259 em 

1765-69. Portanto, o tráfico de escravos duplicou praticamente nos meados do 
século, se comparado com cem anos atrás. Os pretos eram expedidos de Luanda 
e de Benguela, no Sul de Angola, cujo papel aumentou constantemente durante a 
centúria de Setecentos: enquanto pelos meados do século xviii, a sua quota-parte 
era de um quinto a um quarto das exportações saídas de Luanda, alcançava já 
5739 negros num total de 13 534 em 1775. 


O comércio de escravos era a única forma de comércio que se mostrava em surto 
constante em Angola. Todo o tráfico ba- 


632 Brasil 


seado em outros artigos se revelava altamente irregular, com períodos de 
prosperidade seguidos por outros, maiores, de estagnação e de declínio. O Brasil 
e Portugal abasteciam a colónia com praticamente tudo de que ela necessitava, 
tanto para intercâmbio quanto para sobrevivência dos colonos. Têxteis, louça, 
esmalte, tabaco, metais, facas, aguardente e sal eram os principais produtos 
demandados pelos reinos negros de Angola em troca de escravos e marfim. A 
moeda mostrou-se sempre escassa, apesar da introdução de numerário de cobre 
privativo desde 

1694. Utilizavam-se também, como sucedâneos da moeda, pequenos rectângulos 
de palha, ao lado de sal e conchas, até mesmo para pagamento de prés militares. 


Por volta de 1665, Luanda tinha uns 132 fogos de brancos, e toda a Angola não 
mais de 326. A acreditar num cronista contemporâneo, Luanda possuía, ao findar 
o século xvii, alguns «edifícios caros e sumptuosos, que grandemente enobrecem 
esta cidade», mostrando-se um activo porto de mar com consideráveis recursos 
financeiros. A miscegenação prosseguia a ritmo acelerado, com os soldados, os 
marinheiros e outros muitos fornicando «com damas pretas por falta de damas 
brancas». 


Em 1684, toda a distinção entre soldados brancos e não-brancos (mulatos e 
pretos) chegou ao fim, efectivando-se a não discriminação nas fileiras inferiores. 
Os oficiais, evidentemente, eram todos brancos. A Câmara local exercia grande 
influência no controle e administração de toda a colónia. Deteve em suas mãos o 
governo geral por três vezes (1667-69, 1702 e 1732), ao ocorrerem mortes de 
governadores. Como todas as demais colónias portuguesas (e não portuguesas) 
em África, a sociedade branca de Angola nesse tempo não se mostrava por certo 
muito «respeitável», com grande parte do's «notáveis» da terra sendo antigos 
degredados ou seus filhos. Também ciganos foram mandados para a colónia, 
suscitando protestos dos brancos locais. 


Nos fins do século xvii, uma série de campanhas militares deu a Portugal um 
domínio ainda mais firme em território angolano, tanto na costa como no interior. O 
reino indígena de Ndongo ou Andongo foi derrotado e convertido em protectorado 
(1671). Ao sul, em Benguela, fundaram-se uma feitoria e uma fortaleza 


Os elementos secundários do Império 633 


bastante longe da costa, em Caconda (1682), iniciando-se a rivalidade Luanda- 
Benguela. Durante o século xviii, diversas expedições partiram de Luanda e de 
Benguela para o interior, com objectivos comerciais, militares ou puramente 
geográficos (ao reino de Cassanje em 1755; ao Encoje em 1758; etc.). Para 
promover a evangelização, a Igreja criou em Luanda uma Junta de Missões 
(1682). Missionários capuchinhos italianos estiveram à frente dos principais 
esforços para cristianizar os indígenas, embora com resultados fracos. O clima 
punha entraves às penetrações no interior, enquanto os Negros ofereciam 
resistência tenaz, tanto às conversões como à simples presença do branco. 


De 1683 à década de 1730, houve paz em Angola. Portugal tinha conseguido 
impor suserania ou até plena soberania, nas áreas em que flutuava a sua 
bandeira, sem que nenhum reino local apresentasse problemas especiais de 
submissão. Uma epidemia de varíola entre as tribus bantus (1685-87) ajudou a 
enfraquecer os Negros, favorecendo a conquista portuguesa. Diga-se de 
passagem que os Portugueses respeitavam geralmente a estrutura tribal ou régia 
que encontravam. Desde que obtivessem em número suficiente os escravos para 
mandar para a América e que lhes respeitassem um mínimo de suzerania, não se 
comportavam excessivamente como senhores e não suscitavam ódio especial por 
parte dos indígenas. 


Não obstante, a Coroa tentou a pouco e pouco dar uma certa organização à 
colónia e apertar os laços que a uniam à mãe-pátria. Em 1651, fora instituído um 
ouvidor-geral para superintender na justiça. Em 1666, a Coroa estabeleceu um 
provedor para decidir em assuntos de finanças e de guerra. Em 1676, Lisboa 
conseguiu que a Sé de S. Salvador do Congo fosse transferida para Luanda. Em 
1688, foi nomeado um primeiro secretário para o «reino» de Angola, por períodos 
de três anos, a fim de assistir o capitão-general a registar decretos, posturas 
locais, etc. Em 1722, nomeou-se igualmente um primeiro juiz de fora, que presidia 
à Câmara Municipal de Luanda. Acaso mais importante ainda foi a lei de 1721 
proibindo aos capitães-generais que participassem no tráfico dos escravos, como 
geralmente faziam. 


634 
Brasil 


Houve uns quantos tumultos populares em Luanda nos fins do século xvii, ao lado 
de uma campanha militar bem sucedida para expulsar os Ingleses (1723) de 
Cabinda, mas pouco mais ocorreu na história rotineira de uma colónia 
subdesenvolvida. A população de Luanda estagnou à volta dos 150 homens 
brancos. 


As guerras coloniais recomeçaram a partir de 1730. As principais campanhas 
tiveram lugar em 1744, contra o reino de Matamba (os Portugueses tinham 
penetrado mais interiormente do que nunca) e em 1765, contra os Hungus. 


Quando Pombal tomou conta do governo metropolitano, encontrou Angola numa 
fase de expansão comercial que datava já da década de 1720 e que 
provavelmente o levou, e aos seus conselheiros, à convicção errada de que a 
colónia poderia ser convertida num segundo Brasil. A grande medida de Pombal - 
que afectou não só Angola mas também a maior parte das possessões 
portuguesas- consistiu em decretar liberdade de comércio para todos os 
Portugueses (1755-56), abolindo assim o monopólio da Coroa. No interior de 
Angola, também, os brancos foram autorizados a traficar sem peias (1758), prática 
até então restrita a pretos e mulatos. O governador Francisco de Sousa Coutinho 


(1764-72) esforçou-se por estimular a agricultura, o comércio (para além da 
escravatura), o povoamento e até a indústria. Foram introduzidas a urzela e o 
pastel, assente em novas bases o sistema de mineração, criada perto de Luanda 
uma fundição de ferro, estabelecida uma indústria de couros. 

O governador fez construir ainda um celeiro público, uma alfândega e um hospital 
em Luanda. Fundou diversas aldeias no interior, a fim de promover a fixação de 
portugueses longe da 


quer para encorajar os particulares a dedicarem-se a outras costa. O trato dos 
escravos passou a constituir monopólio régio, 


actividades, quer para dotar o governo central de uma boa fonte 


V de receitas. Pela mesma época, exploradores portugueses alcançavam o rio 
Cuango (no reino de Cassanje) e a área conhecida por Eneoje, onde fundaram um 
povoado. O grande plano de Sousa Coutinho era estabelecer comunicações 
terrestres entre Angola e Moçambique. Fortificou também algumas feitorias e 
tentou pôr fim à concorrência comercial inglesa. Na adminis- 


636 Brasil 
tração pública, a Coroa instituiu uma Junta para tratar das finanças. 


Estes esforços de Pombal e de Sousa Coutinho fracassaram nas suas linhas 
gerais. A partir de 1766, uma contracção económica fez baixar o nível das 
exportações ao que fora em 1720. A maior parte das reformas não pôde ser 
efectivada. Até cerca de 1790, nova vaga de estagnação e declínio cobriu toda a 
colónia, exceptuando o tráfico de escravos com o Brasil. Fracassaram também as 
tentativas de controlar os portos frequentados pela navegação estrangeira. Em 
Cabinda, os Portugueses foram derrotados pelos Franceses (1783-84). As 
missões religiosas diminuíram, tanto em quantidade quanto em actividade. A única 
exploração importante foi a expedição por mar ao cabo Negro, no Sul, organizada 
pelo governador barão de Moçâmedes (1784). 


Depois de 1790 ocorreu outro curto período de desenvolvimento. Aumentaram as 
exportações, fomentou-se de novo a mineração e levou-se a efeito a primeira 
ligação terrestre entre Angola e Moçambique, quando os pombeiros 
==mercadores mulatos) Pedro João Baptista e Amaro José, saindo de Cassanje, 
alcançaram Tete, regressando depois à costa ocidental pelo mesmo caminho 
(1806-15). Contudo, Angola continuou praticamente a ser uma colónia do Brasil 
até à independência deste pais em 1822. 


Aloçombique O papel das possessões portuguesas da costa oriental africana 
durante todo este período foi ainda mais insignificante. Pelos finais do século xvir, 
não havia na cidade de Moçambique mais de quinze fogos de Portugueses 
brancos - o que, em boa verdade, queria dizer apenas quinze brancos do sexo 
masculino - e dezasseis de Indianos goeses, sem contar os clérigos, que eram 


muito poucos, e os soldados da guarnição. Espalhados por todo o território do 
actual Moçambique, menos de cem brancos controlavam as poucas feitorias que 
arvoravam bandeira portuguesa. 


Moçambique continuava a depender da índia, tanto económica quanto 
administrativamente. Existia muito mais comércio e navegação entre aquelas duas 
possessões do que entre Moçambique e Lisboa. De 1686 a 1777, uma companhia 
indiana de Diu 


Os elementos secundários do Império 637 


obteve o monopólio do comércio entre Diu e Moçambique, que se mostrava assaz 
lucrativo. 


É verdade que a Coroa por várias vezes pretendeu fomentar uma economia 
moçambicana própria. Projectos de transformar as diversas colónias portuguesas 
em outros Brasis estavam, evidentemente, no espírito de todos. Se a escravatura, 
porém, entravou de forma decisiva uma tal política em relação a Angola, a 


dependência em relação à índia actuou semelhantemente em Moçambique, 
embora com menos vigor. 


Já em 1671 a Coroa decretara liberdade de comércio com a cidade de 
Moçambique, levado a efeito por cidadãos portugueses. Até então era o capitão 
local quem detinha o monopólio. Esta liberdade 'alargou-se depois ao comércio 
dos rios de Sena (1680), findo um curto período de monopólio da Coroa. Para 
fomentar o comércio na colónia foi estabelecida uma Junta (1675), mais. tarde 
convertida em companhia de comércio, que obteve o exclusivo de todo o tráfico 
com a capital da colónia, excepto o efectuado com Diu (1694). Mais uma vez, 
revelavam-se maiores as relações que esta companhia tinha com a índia do que 
com a África. A Companhia procurou também controlar o comércio com Macau, 
mas em vão. Veio no fim a falir, como todas as companhias coloniais portuguesas 
da época, poucos anos passados (1699). 


A vida de Moçambique foi ainda prejudicada por ataques de estrangeiros e por 
guerras com os indígenas. Em 1670, os Árabes de Oman, que haviam já expulso 
Portugal da Arábia (cf. Cap. VID, atacaram a capital da África Oriental Portuguesa. 
Em 1693, uma invasão de cafres negros devastou muitos povoados, matando 
grande número de pessoas, incluindo alguns colonos recém-chegados de 
Portugal. Três anos mais tarde voltaram os Árabes, cercando Mombaça, a 
fortaleza mais ao norte que os Portugueses possuíam na África Oriental. Depois 
de um longo cerco, Mombaça rendeu-se (1688) e, com ela, Pate e Zanzibar, suas 
dependentes. Nas décadas de 1720 e 1730, os Holandeses e os Ingleses 
tentaram frequentes vezes fixar-se em Lourenço Marques. Na década de 1740, a 
pirataria francesa em águas moçambicanas principiou também. O único contra- 
ataque bem sucedido 


638 Brasil 


de Portugal efectuou-se contra Mombaça - incluindo Pate e Zanzibar - que foram 
reconquistados (1728), só para serem perdidos de novo, e desta vez para sempre, 
no ano imediato. 


Com o governo de Pombal, iniciou-se novo período na história da colónia. 
Moçambique passou a capitania separada (1752), com o nome de «governo e 
capitania geral de Moçambique, Sofala e Rios de Sena». O comércio em toda a 
capitania foi declarado livre para qualquer súbdito português, proibindo-se os 
funcionários públicos de comerciarem e pagando-se-lhes em dinheiro (1755-61). 
Lourenço Marques foi reconquistada e o governador Baltasar Pereira do Lago 
(1765-78) fortificou Tete, Inhambane e Mossuril. Para a preparação do clero local, 
a Igreja fundou um seminário na cidade de Moçambique (1761), prevendo a 
ordenação de mulatos -e de pretos (que aliás nunca ocorreu). 


Nos fins do século xviii e começos do xix, Moçambique conheceu um breve 
período de expansão, com o desenvolvimento da pesca da baleia, a criação de 
uma Junta de Fazenda para assuntos financeiros e comerciais, e a abertura de 
uma alfândega no Ibo. Introduziu-se a cultura do café , futura fonte de 
rendimentos. Tete substituiu Sena como o mais importante posto avançado de 
Portugal no interior. O governador Cavalcanti de Albuquerque (1816-18) fez muito 
para fomentar o progresso de Moçambique. A fim de explorar o interior e alcançar 
Angola por terra, partiu de Tete em 1798 uma expedição comandada por Lacerda 
de Almeida, que não conseguiu ir além de Cazende, onde o seu chefe morreu 
(1799). 


Depois da Revolução Francesa, vários ataques de Franceses se registaram contra 
Moçambique, sendo Lourenço Marques assaltada e destruída (1796). Até os 
Austríacos procuraram pôr pé na baía de Lourenço Marques. 


Índia Nos finais do século xvii, o domínio português na índia 


reduzia-se a Diu, Damão, Baçaim e unias quantas outras cidades fortificadas no 
Norte, e a Goa com suas dependências, no Sul. Apesar do seu constante declínio 
e perda de população, a cidade-capital de Goa continuava a parecer uma grande 
metrópole, grande de mais para corpo tão pequeno. Fazia ainda figura de 


Os elementos secundários do Império 639 


Lisboa ou de Roma do Oriente, com sua plétora de instituições administrativas, 
económicas e religiosas, já destituídas de qualquer sentido. 


Uma delas era certamente o Padroado real, que os monarcas portugueses haviam 
obtido da Santa Sé nos primórdios dos descobrimentos e que os investia com 
plena responsabilidade e controle da difusão do cristianismo na Ásia (bem como 
em todas as suas outras possessões). A partir dos meados ou fins do século xvii, 
Portugal perdeu claramente as possibilidades de cumprir um dever tão oneroso. 


Manteve-se todavia apegado ao direito de Padroado, recusando-se, pelo menos 
de um ponto de vista teórico, a aceitar qualquer competição. Em Roma, diversos 
pontífices deram-se conta das realidades e gradualmente foram quebrando o 
monopólio português com fundamento na manifesta incapacidade de Portugal de 
o efectivar. Durante o século xviii, a acção da Propaganda Fide (v. Cap. VII) foi-se 
fazendo sentir cada vez mais. Missionários italianos, espanhóis e franceses 
pregavam na índia, Indochina, China e noutras regiões do Extremo Oriente. Os 
papas nomeavam constantemente vigários-apostólicos sem consultarem Lisboa. 
Quando Pombal expulsou os Jesuítas, principal sustentáculo do Padroado na 
Ásia, as poucas armas de que os Portugueses dispunham para afirmarem os seus 
direitos desapareceram também. Na China, ao começar o século xix, não existiam 
provavelmente mais de 

50 000 católicos, quando um século atrás haviam chegado a 300 000. 


Na índia, a autoridade eclesiástica do Padroado, fora dos territórios portugueses, 
começou a ser negada na década de 
1770, mas apenas na centúria seguinte desapareceria quase por completo. 


Goa, porém, manteve uma força económica desproporcional ao (Qseu tamanho. 
Não obstante as perdas territoriais e a concorrência estrangeira, Portugal 
continuava a dominar uma grande quantidade de tráfico mercantil, tanto dentro da 
Ásia quanto entre a Ásia e outros continentes. Com um número muito menor de 
navios e de carreiras, valia ainda a pena comerciar com Goa, sendo 
indubitavelmente muito mais fácil para um emigrante 


41 
640 Brasil 


enriquecer na índia do que na África portuguesa. A principal fonte de receitas 
eram os diamantes, trocados por numerário e 


por coral. 


Junto à questão do prestígio e a uma tradição duas vezes centenária, isto explica 
porque motivo a Coroa jamais desprezou a índia como desprezou outras parcelas 
do Império, e porque motivo de tempos a tempos foi aí tentada uma política de 
revitalização e até de reconquista. 


Os fins do século xvii e a primeira metade do xviii trouxeram estagnação, declínio 
e derrota à índia Portuguesa. Os Árabes saquearam Diu (1668) e dificultaram a 
navegação durante algum tempo. Houve depois um ligeiro levantar de cabeça, 
mas logo o surto do poder maratha pôs em perigo os derradeiros baluartes do 
outrora poderoso Império. Depois de um longo período de ameaças, humilhações 
e conflitos abertos, os Maraffias ocuparam Baçaim e todas as demais praças do 
Norte com excepção de Diu e de Damão (1739). Pouco tempo decorrido, 
atacaram Goa e só o pagamento de um tributo pôde salvar a «Roma do Oriente». 


Chaul, porém, teve de ser-lhes abandonada. Destruída como lhes fora a frota de 
guerra, podia bem dizer-se que os Portugueses haviam atingido o nível mais baixo 
do seu poderio na Asia (1740). 


Contudo,, levantaram de novo a cabeça. Em Lisboa, havia dinheiro de sojjra e 
vontade decidida de vingança. Uma expedição de mais de dois mil soldado!O, 
incluindo artilharia e dinheiro, deixou Portugal, chegou a Goa e pôde derrotar o 
exército maratha em Bardez. Esta batalha inaugurou uma longa série de 
campanhas que duraram até à década de 1750, seguidas por outra de 1779 a 
1795. Os Portugueses sofreram umas quantas derrotas, com a agravante de que 
o vice-rei, conde de Alva, foi até aprisionado e morto (1756), mas, feito o balanço, 
a vitória final pertenceu-lhes. A Goa foi anexado um território quatro vezes maior 
do que as suas possessões no Sul, conquanto duas vezes menos povoado. A isto 
se chamou as Novas Conquistas. Uma tal política de conquista encerrou a 
expansão portuguesa na índia, dando-lhe toda a extensão territorial que se iria 
conservar intacta até ao século xx. Deu também motivo a conside- 


Os elementos secundários do Império 

641 

Fig. 62 - As «Novas Conquistas» 

rável prestígio (e fortuna) para os generais - isto é, a nobreza - 
que chefiaram os exércitos e conquistaram as cidades. 


No entretanto, diversos outros problemas perturbaram a vida de Goa. Um deles foi 
a necessidade de transferir a cidade-capital para outra parte,* por se ter provado 
que os condições sanitárias de Goa não se mostravam favoráveis aos Europeus. 
Nos finais do século xvii e começos do xviii, houve construções de tipo urbano em 
Mormugão (a sudoeste de Goa), como substituto possível. Mais tarde, abandonou- 
se a ideia de Mormugão a favor de Pangim, aldeia muito próxima da cidade de 
Goa. Embora Pangim se tivesse oficialmente convertido em capital da índia 
Portuguesa já em 1760, a transferência efectiva dos muitos serviços públicos, 
incluindo a residência do vice-rei, demorou largos anos: a Alfândega só em 1811 
foi transferida e os tribunais em 1818 apenas. Nestes termos, Pangim foi, na sua 
maior parte, 


642 

Brasil 

edificada nos finais do século xviii e começos do xix, exactamente quando em 
Portugal a cidade de Lisboa estava emergindo das ruínas do terramoto. Entre as 


duas cidades havia inevitavelmente de surgir também uma semelhança em 
concepção e em estilo. 


O governo de Pombal encarou com realismo a situação da índia Portuguesa, 
tentando reduzir o seu corpo inchado ao tamanho que, na realidade, lhe 
correspondia. Começou por decretar liberdade de comércio para todos os 
cidadãos portugueses (1755-56), como fizera já para com as demais colónias. 
Depois, instituiu a habitual Junta para os assuntos financeiros, extinguindo o 
Tribunal dos Contos e a Relação, simultaneamente com 


muitos outros cargos e dignidades. Criou também celeiros públicos, reorganizou o 
sistema municipal suprimindo muitas das prerrogativas da Câmara, simplificou a 
justiça, etc. Em suma, reduziu Goa à situação de todas as outras possessões 
ultramarinas portuguesas, exceptuado o Brasil. Em 1774, o pomposo título de 
vice-rei foi igualmente suprimido, e substituído pelo de governador. O Marquês 
determinou ainda que os indígenas cristãos, não obstante a sua raça ou cor, 
fossem considerados iguais aos Portugueses da metrópole, dando-se-lhes até 
preferência no desempenho de cargos públicos locais e na posse da terra. Esta 
medida, que foi na realidade efectivada, tivera a prepará-la diversas leis 
anteriores, uma das quais a aceitação de nativos pelas ordens religiosas. 


Outra medida importante da administração pombalina respeitou à Inquisição. 
Tendo em conta a população de Goa e suas dependências, é fácil de constatar a 
violência de que aquele tribunal se revestiu durante os séculos xvii e xviii. De 1600 
a 1773, houve 71 autos de fé com 4046 sentenças, das quais 57 de morte pelo 
fogo. Estes números correspondem a uma média anual de mais de 23 sentenças, 
com uma execução de três em três anos. 


A nova política da Coroa de «luzes» religiosas e étnicas não podia tolerar um 
tribunal como o do Santo Oficio de Goa, cujas principais vitimas eram Hindus. Se, 
em Portugal, a Inquisição fora convertida numa instituição do Estado, no Ultramar 
teria de desaparecer por completo. É preciso recordar que se tentava então levar 
a efeito uma política de conquista, e que a consoli- 


Os elementos secundários do Império 643 


dação da presença portuguesa na índia tinha de implicar tolerância. Assim, uma 
lei de 1774 aboliu, pura e simplesmente, a Inquisição de Goa. 


A política de Pombal foi seguida por unia reacção, em alguns aspectos mais 
acentuada em Goa do que noutras partes. A Inquisição apareceu de novo (1779), 
conquanto de maneira muito mais moderada. Restabeleceu-se a Relação (1778) 
e, alguns anos mais tarde, voltaram a conceder-se títulos de vice-rei aos 
governadores da índia. 


A importância de Goa dentro do Império é que jamais cessou de decair. A Coroa 
gastava com a índia muito mais do que lucrava. Apesar da lei de 1774 e de uma 
outra medida que criou um Conselho Legislativo para Goa (1778), a reacção dos 
Indianos contra os Europeus prosseguiu, descobrindo-se em 1787 uma 


conspiração para expulsar todos os brancos. De 1801 a 1815, Goa 

- como o próprio Portugal - esteve praticamente sob ocupação inglesa, com todos 
os seus fortes guarnecidos por soldados britânicos. Foi por este tempo que a inútil 
Inquisição recebeu o seu decreto de extinção final (1812). 


Na China, os Portugueses conservavam Macau, não a título Maca« de colónia da 
Coroa - como muitas vezes gostavam de lhe chamar- mas como simples favor da 
China a quem se revelavam úteis como mercadores mas que sempre reafirmou os 
seus direitos de senhora do território. Até ao século xix, Macau pareceu-se mais 
com uma senhoria feudal à maneira ibérica do que com unia colónia europeia. 


As provas da interferência chinesa seriam longas de esmiuçar. Em 1688, a China 
estabeleceu uma alfândega em Macau, para controlar o comércio e impor direitos 
sobre todo o navio chinês e sobre todas as exportações em navios portugueses. 
As importações trazidas pelos Portugueses tinham só de pagar direitos ao 
município, a menos que fossem reexportadas para a China. Neste caso, pagavam 
direitos na alfândega chinesa. Em 

1689, as autoridades locais portuguesas tiveram de sancionar a prestação de 
honras militares às autoridades chinesas, aos mortos chineses e a celebração de 
festividades chinesas. Em 1718, a China decretou várias medidas para dificultar e 
limitar todo 


644 Brasil 


e qualquer comércio estrangeiro, na sua maior parte português. Mais tarde, em 
1736, foi nomeado para Macau um mandarim especial, espécie de delegado das 
autoridades de Cantão. Passou a agir como autêntico governador, a quem as 
autoridades portuguesas tinham de prestar homenagem. 


O poder restante estava nas mãos da Câmara ou Senado local, o que emprestava 
a Macau a curiosa fisionomia de uma pequena república urbana. O Senado 
compunha-se de brancos, na sua maioria fixados em Macau havia gerações, e de 
mestiços de português e chinês. Na verdade, a miscegenação caracterizou a 
sociedade macaísta como possivelmente nenhuma outra colónia, à excepção de 
Cabo Verde. 


Muitas foram as tentativas de incentivar a autoridade do poder central e reduzir as 
atribuições do Senado da Câmara. Em relação à influência da China, nada pôde 
ser realizado até meados do século xix, não obstante algumas pomposas 
embaixadas a Pequim e a uma atmosfera geral de boas relações. Quanto ao 
Senado, porém, a luta teve aspectos mais definidos e caracterizou-se por 
alternativas de sucesso para ambas as partes. Em 

1738, Lisboa nomeou um ouvidor régio para participar na administração 
camarária, mas teve de o retirar alguns anos depois. As reformas pombalinas 
tentaram qualquer coisa de semelhante mas também em vão. Na década de 1780, 
novas leis procuraram diminuir as atribuições do Senado. Mas, em boa verdade, 
nada de essencial veio a ser atingido até à década de 1830, mantendo-se o 


Senado como fonte de toda a autoridade na colónia, dominando a administração 
em caso de interregno governamental, tomando a iniciativa de negociações 
diplomáticas com a China e outros estados asiáticos, etc. Quando surgiam 
conflitos entre o Senado e o governador, era geralmente ao primeiro que a vitória 
final vinha a caber. 


Economicamente falando, Macau contribuífa com boas receitas para a Coroa, 
apesar do seu declínio gradual durante todo o século xviii. Este facto ajuda a 
explicar a tolerância do governo da metrópole para com uma situação tão irregular 
e a manutenção de um estranho status-quo. O comércio entre Macau e tanto a 
Ásia do Sudoeste como Goa era livre. Entre Macau e Timor, 


Os elementos secundários do Império 645 


porém, o tráfico estava nas mãos do Senado, representando para a colónia a 
principal fonte de receitas nesse tempo.: sândalo, ouro, cera e escravos 
constitufam as mais relevantes importações. Em cada navio, cabia ao Senado 
fazer a distribuição dos quinhões aos «accionistas». 


A população de Macau decresceu até ao século xix. Nos fins da centúria de 
Seiscentos, havia na cidade 150 fogos de Portugueses num total de 19 500 
Cristãos e muitos mais não-cristãos. Por volta de 1746 só havia cinquenta 
Portugueses residindo na colónia. Com uns quantos mestiços, eram eles quem 
formava a aristocracia local, em luta permanente pela manutenção de privilégios, 
sobretudo no que respeitava à exclusão dos indígenas chineses da administração 
do Senado. Nisto triunfaram, mau grado a legislação pombalina que os quis 
obrigar a aceitar uma igualdade total com os Amarelos. 


A possessão mais oriental portuguesa era Timor e Solor, Timr último vestígio do 
outrora poderoso Império da Indonésia. Ambas as ilhas só em parte estavam 
ocupadas por Portugal, que respeitava geralmente os pequenos régulos e divisões 
entre reinos, sob a cobertura artificial de uma suserania portuguesa. Timor 
dependia de Macau e da intensidade das suas relações comerciais com a China. 
Comunicações altamente irregulares tornavam difícil para o governo de Lisboa 
controlar Timor como controlava outras colónias. 


Nos finais do século xvii, a aldeia de Lifau foi fortificada e convertida em sede do 
governo timorense. António Coelho Guerreiro, um rico mercador e homem de 
negócios, foi nomeado como primeiro governador independente da colónia (1701). 
Não pôde fazer muito, mas tentou estabelecer um padrão de relações com os 
chefes indígenas que os seus sucessores mantiveram e se converteu em principal 
fundamento da presença portuguesa na região. A vida de Timor foi-se arrastando, 
entre as querelas habituais entre governador e clero regular. Os indígenas 
também se revoltavam de tempos a tempos. Em 1742, um frade dominicano 
chefiou uma dessas rebeliões. Em 1769, o governador teve de fugir de Lifau e de 
se refugiar em Díli, que se tornou a nova 


646 Brasil 


capital. Em 1790, revoltou-se o pequeno reino de Mombaça, que se 
independentizou do domínio português. A presença holandesa na Indonésia 
prejudicou a ocupação portuguesa mas, no seu conjunto, o quinhão de Portugal 
mostrava-se pequeno e insignificante demais para suscitar aos Holandeses 
qualquer interesse especial em se verem livres dos seus vizinhos. E, em boa 
verdade, também o seu Império se encontrava em declínio já. 


Bibliografia -Para uma visão de conjunto, veja-se Charles R. Boxer, The 
Portuguese Seaborne Empire, 1515-1825, London, Hutchinson, 1969. Os diversos 
artigos do Dicionário de História de Portugal permitem actualização de 
conhecimentos e de bibliografias. A História de Portugal dirigida por Damião 
Peres, vol. VI, dá alguns factos mas mostra-se bastante dificiente em pormenores. 
O mesmo sucede com a História da Expansão Portuguesa no Mundo, vol. Ill. A 
História de Portugal de Fortunato de Almeida revela-se praticamente inútil para 
este período. Charles Boxer publicou outra obra importante sobre administração 
local: Portuguese Society in the Topics. The Municipal Councils of Goa, Macao, 
Bahia and Luanda, 1510-1800, University of Wisconsin Press, 1965. 


Sobre os Açores, a Madeira e Cabo Verde até começos da século xviii 


veja-se T. Bentley Duncan, Atlantic Islands. Madeira, the Azores and the Cape 
Verdes in Seventeenth-Century Commerce and Navigation, The University of 
Chicago Press, Chicago e Londres, 1972. 


Sobre Angola consulte-se David Birmingham, Trade and Conflict in Angola. The 
Mbundu and their neighbours under the influence 01 the Portuguese, 1483-1790, 
Clarendon Press, Oxford, 1966. Nada de equivalente existe para Moçambique, 
embora se revelem de utilidade os estudos e 


edições de textos de Antônio Alberto de Andrade, Relações de Moçambique 
Setecentista, Lisboa, 1955, de Alexandre Lobato (Colonização Senhorial da 
Zambézia e outros Ensaios, Lisboa, 1962; Evolução Administrativa e Económica 
de Moçambique, 1752-1763, Lisboa, 1957), e de E. Axelson, Portuguese in 
Southeast Africa, 1600-1700, Witwatersrand U. Press, 1960. Fritz Hoppe escreveu 
em alemão uma monografia (Portugiesisch-Ostafrika in der Zeit des Marquês de 
Pombal, 1750-1777, Berlim, 1965), recentemente traduzida para português com o 
título de A Á frica Oriental Portuguesa no Tempo -do Marquês de Pombal (1750- 
1777), Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, 1970. Sobre Mombaça, consulte-se 
Charles R. Boxer e Carlos de Azevedo, A Fortaleza de Jesus e os Portugueses 
em Mombaça, Lisboa, 1960. Para a India existe uma histó ria pouco cuidada de 
Germano da Silva Correia, História da Colonização Portuguesa na India, Lisboa, 
1948-58. Para Macau, a fonte é de novo Charles R. Boxer, Fidalgos in the Far 
East, 1550-1770, 

2., edição, Oxford University Press, Hong-Kong, 1968, enquanto para Timor há 
apenas o recurso a Humberto Leitão, Os Portugueses em Solor e Timor de 1515 a 


1702, Lisboa, 1948, e Vinte e Oito Anos de História de Timor, 

1698-1725, Lisboa, 1952, e a Virginia, Rau, O «Livro de Rezão» de Antônio 
Coelho Guerreiro, Lisboa, Companhia de Diamantes de Angola, 1956. 
GOVERNANTES DE PORTUGAL 


Afonso Henriques (infante e príncipe) (rei) Sancho | Afonso Il Sancho Il 


Afonso, regente 1245-1248 Afonso Ill Dinis Afonso IV Pedro | Fernando | Beatriz 
(Leonor Teles, regente) 


João, mestre de Avis, regente João | Duarte Afonso V 
Leonor de Aragão e Pedro, duque de Coimbra, 


regentes 1438-1439 Pedro, duque de Coimbra, só 1439-1448 João, regente 1476- 
1477 João Il Manuel | João Ill Sebastião 


Catarina de Áustria, regente 1557-1562 cardeal Henrique, regente 1562-1568 
Henrique 


648 
Governantes de Portugal 


5 Governadores, presididos por Jorge de Almeida, arcebispo de Lisboa Antônio 
Filipe | (Il de Espanha) 


cardeal Alberto, vice-rei 1583-1593 
5 Governadores, presididos por Miguel de Castro, arcebispo de Lisboa 1593-1600 
Filipe II (Ill de Espanha) 


Cristóvão de Moura, marquês de Castelo Rodrigo, vice-rei 1600-1603 Afonso de 
Castelo Branco, bispo de Coimbra, 


vice-rei 1603-1604 Pedro de Castilho, bispo de Leiria, vice-rei 1605-1608 
Cristóvão de Moura, marquês de Castelo Rodrigo, vice-rei 1608-1612 Pedro de 
Castilho, bispo de Leiria, vice-rei 1612-1614 Aleixo de Meneses, arcebispo de 
Braga, vice-rei 1614-1615 Miguel de Castro, arcebispo de Lisboa, vice-rei 1615- 
1617 Díogo da Silva e Mendonça, marquês de Alenquer, duque de Francavila, 
vice-rei 1617-1621 Filipe III (IV de Espanha) 


Conselho de Governadores presididos por 


Martinho Afonso Mexia, bispo de Coimbra 1621-1623 Idem, por Diogo de Castro, 
conde de Basto 1623-1626 Idem, por Afonso Furtado de Mendonça, arce- 


bispo de Braga e depois de Lisboa * 1626-1630 Diogo de Castro, conde de Basto, 
só 1630-1631 António de Atalde, conde de Castro Daire e 


Castanheira e Nuno de Mendonça, conde de Val de Reis 1631-1632 Antônio de 
Atalde, conde de Castro Daire e 


Castanheira, só 1632-1633 João Manuel, arcebispo de Lisboa, vice-rei , 1633 
Conselho de Estado, encarregado do governo 1633 Diogo de Castro, conde de 
Basto, vice-rei 1633-16.34 Margarida de Saboia, duquesa de Mântua, 

vice-rainha 1634-1640 João IV Afonso Vl 


Luísa de Gusmão, regente 1656-1662 Pedro, regente 1667-1883 Pedro Il João V 
José | Maria 1 e Pedro III 


1580 
1580 
1580-1598 
1598-1621 
1621-1640 


1640-1656 
1656-1683 


1683-1706 

1706-1750 

1750-1777 

1777-1786 

* SUlnho, entre 1627 e 1630. 
Governantes de Portugal 


Maria |, só 


João, regente (no Brasil desde 1808) 1792-1816 Regência de governadores ** 
presidida pelo 


marquês de Abrantes, Pedro de Lencastre da Silveira Castelo Branco Sã e 
Meneses 1807-1808 Ocupação francesa substituindo a regência 1808 Regência 
presidida pelo bispo do Porto e 


patriarca-eleito de Lisboa, Antônio José de Castro 1808-1814 P4 Idem, pelo 
marquês de Olhão, Francisco de 


Melo da Cunha Mendonça e Meneses, ou o marquês de Borba, Fernando Maria 
de Sousa Coutinho Castelo Branco e Meneses 1814-1818 Idem, pelo cardeal- 
patriarca de Lisboa, Car- 

los da Cunha e Meneses 1818-1820 

João VI (no Brasil até 1821) 

** Número variável. 

ÍNDICE DOS MAPAS 

Fig. 1 -Paisagens agrárias (segundo M. Draín) ... 4 » 2 -Vegetação natural 
(segundo Ruth Way) ... 5 » 3 - Relevo (segundo M. Drain, simplificado) ... 6 » 4 - 
Precipitação (segundo Ruth Way) ... 7 » 5 - Jazidas rnegalíticas no ocidente da 


Península (segundo 


V. e G. Leisner) ... 14 » 6-As tribos hispânicas ao tempo da conquista romana (se- 


gundo Pericot) ... 16 » 7-Dialectos hispânicos por volta de 950 (segundo 
Menéndez 
Pidal e Lapesa, simplificados) ... .. 21 » 8-Dialectos portugueses actuais (segundo 


J. Leite de Vas- 


concelos, simplificado) ... 23 » 9 - A Espanha romana no tempo de Augusto 
(segundo Manuel 


Torres, simplificado) ... 26 » 10-A Espanha do Baixo Império (segundo Manuel 
Torres, 


simplificado) ... 28 » 11 -A Espanha muçulmana no século x ... 31 » 12-Principais 
vias romanas da Lusitania e da Gallaecia (se- 


gundo Hiúbner, simplificado) ... 36 » 13 -O reino dos Suevos em cerca de 570 ... 42 
» 14-0 reino da Galiza (1065-1072) ... 46 » 15 -Os reinos de taifa no século xi ... 53 
» 16-0 Condado Portucalense ... 72 » 17-Portugal muçulmano (séculos xii-xili) ... 
95 » 18-A «Reconquista» cristã em suas principais fases , ... 109 » 19-A 
«Reconquista» cristã em Portugal ... 112 » 20-Doações às ordens religiosas- 
militares no Centro e Sul 


de Portugal (segundo Rui de Azevedo, simplificado) 118 » 21 -O povoamento de 
Portugal no 1.0 quartel do século xv, 


segundo o rol dos «besteiros do conto» ... 130 » 22-Feiras medievais portuguesas 
(segundo V. Rau, simpli- 


ficado) ... 138 

652 

Indice dos Mapas 

» 23 - Concelhos medievais portugueses (segundo T. Soares, sim- 


plificado) ... 142 » 24 -O Portugal românico e o Portugal gótico ... 151 » 25 - 
Desvalorização da moeda portuguesa nos séculos xiv e xv 162 » 26 - Cortes 
medievais portuguesas ...* ... 165 » 27 - Definição da fronteira portuguesa nos fins 
do século xii, 175 » 28 “Guerra com Castela, 1369-71 ... 180 » 29 - Guerra com 
Castela, 1372-73 ... 181 » 30 - Guerra com Castela, 1381-82 ... 182 » 31 - 
Revolução de 1383-85 e guerra com Castela ... 186 » 32 - Viagens de 
descobrimento até à morte do infante D. Hen- 


rique ... 216 » 33 - Portugal urbano, 1527-32 (segundo O. Ribeiro) ... 235 » 34 -Os 
portos secos no começo do século xvi ... 245 » 35 - Desvalorização da moeda nos 
séculos xv-xvi ... 247 » 36 - Divisão administrativa e financeira do País nos sé- 


culos - e xv, ... 262 » 37-Divisão eclesiástica do País nos séculos xv e xvi ... 263 » 
38-Distribuição geográfica do chamado estilo Manuelino ... 282 » 39-Conquistas e 
perdas em Marrocos, 1415-1769 ... 299 » 40 -Descobrimentos e estabelecimentos 
em África desde 1460 308 » 41 -As divisões do globo entre Portugal e Espanha ... 
313 » 42 - Rotas de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral (segundo 


Gago Coutinho e outros) ... 317 » 43 - Principais estabelecimentos portugueses na 
Ásia no sé- 


culo xvi e pontos por eles demandados ... 324-325 » 44 -O Brasil até meados do 
século xvi ... . ... 349 » 45 - Evolução monetária, 1539-1680 ... 380 » 46 - Marcha 
dos preços 1578-1680 ... 384 » 47 - Portugal administrativo em começos e 
meados do sé- 


culo XVII... 401 » 48-Guerra da Restauração: principais combates ... 447 » 49- 
Carreiras marítimas dos Portugueses no Oriente, sé- 


culos xvi-XVII ... 463 » 50-Situação financeira dos principais estabelecimentos por- 


tugueses na Ásia em 1574 (segundo Vitorino Magalhães Godinho) ... 468 » 51 - 
Dioceses ultramarinas nos séculos xv, e xvi, ... 470.71 » 52 -O Brasil nos séculos 
xvi-xvii ... 484 » 53 -O Congo e Angola nos séculos xv, e xvii ... 510 » 54 -Portugal 
demográfico em fins do século xviii ... 517 » 55 - Portugal económico em fins do 
século xviii (segundo Vito- 


rino Magalhães Godinho) ... 520 » 56 - Evolução monetária, 1688-1820 ... 531 » 
57 - Marcha dos preços, 1680-1820 ... 532 » 58-Invasões francesas, 1807-1811... 


579 
Indice dos Mapas 653 


» 59-0 Brasil nos séculos xvili-xix ... 595 » 60-A fronteira meridional do Brasil 
(segundo Pernando 


Castro Brandão, simplificado) ... 610 » 61-A África portuguesa nos séculos xviii-xix 
(segundo 


C. Boxer) ... 635 » 62 -As «Novas Conquistas» ... 641 
INDICE ANALÍTICO 
A 


A-Ma-Kao - 453. Abação - 75, 76. Abbevillense - 10. Abd al-Rahman b. Marwan b. 
Yunus 


-51. Abissínia - 200; cf. Etiópia. Aboim (João Peres de) - 172 Abrantes - 577. 
Absolutismo - 429, 446, 550, 551, 552, 


621. Abu 'Amr 'Abbad b. Muhammad- 

54. Abu-l-Qasim al-l-lusaym b. Qasi - 90. Abu Muhammad Sidray b. Wazir - 

90. Abu Walid Muhammad b. al-Mundir 

90. Abu Yalqub Yusuf | - 92. Abu Yalqub Yusuf Il - 92. Academia dell'Arcadia - 
556. Academia do Nu - 562. Academia Real das Ciências - 556. Academia Real da 
História - 555. Academia Real da Marinha - 562. Acaderhias - 555, 556, 557, 614. 
Acheulense - 10. Açores - 199, 213, 217, 218, 222, 228, 

233, 251, 307, 311, 312, 329-333, 348, 

346, 365, 376, 389, 425, 501-503, 590, 

624-626. Açougues - 137. Açúcar - 135, 203, 348, 349, 355. 


Açores, 223, 502. Brasil, 345, 488, 489, 594-596. Madeira, 221, 330, 499, 500. S. 
Tomé, 335, 506, 507. Aden - 310, 325 


Administração 


período romano, 19,20,25-29,34; período muçulmano, 101, 102; período da 
«Reconquista», 45, 47 


120; séculos -xiii, 84-86; séculos xili-xiv, 141-143 séculos xiv-xv, 163 séculos xv- 
xvi, 261-266 séculos xvi-xvii, 399, 400, 427, 428 séculos xvii-x, 537, 538 


Administração 

Açores, 503 Angola, 633 Ásia, 341-343, 460, 461 Brasil, 491, 492, 588, 589, 617 
Cabo Verde, 504 índia, 642, 643 Macau, 644 Madeira, 219, 500, 501 Moçambique, 
638 S. Tomé, 630 Timor, 645 Administração 

eclesiástica - 27, 29, 30, 67-70 Aesuris - 35 Afonso | (rei das Astúrias) - 44 Afonso 
HI (rei das Astúrias)-44, 52 Afonso V (rei de Leão) - 48, 62 Afonso VI (rei de Leão e 
Castela) 

-60-67 Afonso Vl (rei de Leão e Castela) 

-63, 64, 67 Afonso IX (rei de Leão) - 100 Afonso X (rei de Castela) - 110, 111, 


147, 173, 197 Afonso XI (rei de Castela) - 177 Afonso | (rei de Aragão) - 88 Afonso 
| (rei do Congo) - 337, 338 


sz 

656 

indice analítico 

Afonso (1) Henriques (rei de Por- 


tugal) - 60, 64-68, 74, 83, 88, 89,91, 
921 133 Afonso | | (rei de Portugal) - 69, 70, 


TT, 718, 81, 85, 93, 127, 128 Afonso III (rei de Portugal) - 70, 
93, 111, 129, 140, 146, 171-173, 176 Afonso IV, (rei de Portugal) - 134, 


140, 143, 161, 166, 169, 176, 177, 178, 
183, 204, 211 Afonso V (rei de Portugal)-129, 


144, 166, 190, 191, 209, 228, 246, 252, 
254, 256, 264, 266, 271, 277, 290-292, 
295, 297, 351 Afonso VI (rei de Portugal) - 446, 


448, 449, 539 Afonso (conde de Barcelos) - 129, 


188, 190, 201 Afonso (filho de D. João Il) - 294 Afonso (Jorge) - 284 Af f aitati - 
351 Aforamentos - 129, 159-161 Agadir - 298 Agostinhos - 390, 404, 471 
Agostinhos Descalços - 391, 542, Âgueda (rio) - 175 Agulhas (cabo) - 309 
Ahmadnagar O 326 Ahmad Ibn Majid - 314 Ajuda - 563 Ajuda - 624, 629, 630 
Aksum - 200 AlAliya, - 94 Al-Andalus - 54, 88, 96, 98, 101, 108, 


104 Al-Garb - 51, 52, 54, 90, 91, 92, 94, 98, 


101, 102, 103, 104, 110, 291 Al-Jilligi - 52 Al-Maldin - 94 Al-Mansur - 45, 92, 93 Al- 
Muhtasib - 120 Al-Mundir - 90, 91 Al-Murabitun - 83 Ai-Mu'tadid - 54, 63 Al- 
Mutawakkil - 54 Al-Muwahhidun - 88 Al-Nasir - 93 Al-Qadi - 120 Al-Qa'id - 102, 
120 Al-Qa'irn - 101 Al-Qasr Abu Danis - 91, 94, 96, 98, 


100, 101 Al-Qasr al-Sagir - 207, 291 Al-Qazwini - 103 Al-Sahid - 92 Al-Tagr al- 
Adna - 30-31 


Al-Usbuna - 32, 54, 55, 90, 91, 94, 96, 


97, 98, 101, 103 Al-Wazir - 120 Alagoas - 493, 587, 620 Alandroal - 96 Alanos - 39 
Alba (duque de) - 425 Albergaria (Lopo Soares de) - 327 Albergarias - 126, 267 
Alberto (cardeal) - 427, 428 Albuquerque (Afonso de) - 324, 325, 


327, 340, 341, 362, 469 Albuquerque (Cavalcanti de) - 638 Alcácer Ceguer - 207, 
291, 299 Alcácer Quibir - 422, 430 Alcácer do Sal - 19, 91, 93 94, 107, 


110 Alcáçovas - 293, 307 Alcaide, alcaides - 102, 120. 143 Alcaides do mar - 461 
Alcaides-mores - 461 Alcalde, alcaldes - 102, 120 Alcaflices - 175 Alcântara - 425 
Alcarias - 102 Alcobaça - 77, 145, 149, 167, 257, 440 Aldeia - 99, 100 Aldeias 
(Brasil) - 486, 603 Aldeias novas - 72, 75 Aleijadinho - 614 Alemanha, alemães - 
129, 133, 145, 


169, 242, 244, 355, 361, 379, 406, 415, 
431, 442, 445, 525, 526, 567, 568 Alentejo, alentejano-3, 13, 68, 89, 


92, 93, 98, 117, 121 128, 150, 158, 

175, 185, 237, 242, 261, 263, 264, 519, 

547, 568, 573, 575, 577, 578 Alexandre Ill (papa) - 67 Alexandrf- VI (papa) - 312 
Alexandria - 102 Alfaquis - 102 Alfarrobeira - 191 Alferes-mor - 85 Algarve, 
Algarves - 3, 13, 15, 51, 52, 


93, 96, 97, 98, 109, lio, 111, 117, 121, 

130, 131, 150, 158, 173, 203, 206, 208, 

212, 218, 224, 234, 237, 239, 242, 244, 

252, 261, 263, 291, 330, 332, 356, 389, 

439, 537, 577 Algodão - 225, 489, 596 ,Ali b. Yusuf - 88 Aliste - 85 Aljubarrota - 
150, 185 Almada - 94 Almansa - 568 Almeida - 244 


Indice analítico 
657 


Almeida (Francisco de) - 312, 323, 


324, 339, 342, 509 Almeida (Lacerda de) - 638 Almeida (Luís Castanho de) - 591 
Almediína - 102 Almeria - 12 Almirante (Ilhas do) - 320 Almiscar - 227 Almocreves - 
139 Almohadas - 88, 91, 92, 93, 100, 107, 


204 Almorávidas, almorávida - 54, 55, 


60, 61, 83, 89, 91, 100, 107 Almotacés - 102, 120, 137 Almoxarifados, almoxarifes 
- 262, 


263, 492 Alódio-66, 74, 78, 116, 117, 160 Alorna (marquesa de) - 557 Alva (conde 
de) - 640 Alvarenga (Silva) - 614 Álvares (Francisco) - 321 Álvares (Gonçalo) - 318 
Álvares (Jorge) - 320 Álvares (Nun*) - 185, 188. 190 Álvaro (rei do Congo) - 508 
Alvasil, alvasis-50, 120 Alvites (Nuno), dux-48 Alvito (barão de) - 258 Alvor - 107 
Amadis de Gaula-147 Amazonas, Amazônia - 479, 480, 48 1, 


493, 587, 591, 603, 604.. 608, 611, 614 Âmbar - 98 Ameríndios - 486, 487, 509, 
603 Amicitia (De) - 271 Arnir - 102 Amous - 61 Amsterdam - 3711 376, 379, 483 
Anamita - 474 Anchieta (José de) - 495 Andaluz, Andaluzia - 3, 5, 15, 51, 92 


103, 177, 242, 243, 445 Andeiro (conde) - 185 Andeca - 41 Andongo - 339, 632 
Andrade (Antônio de) - 474 Andrade (Bernardino Freire de) - 


629 Andrade (Gomes Freire de) - 552 Angamale - 470 Angediva - 324 Angola - 
307, 321, 339, 353, 443 483, 


488, 503, 506, 507, 508, 509, 516, 511, 

588, 596, 607, 624, 625, 631, 632, 634, 

636 Angra - 331, 389, 503, 626 Anil - 220 

Animais (fornicação com) - 392 Ano Bom - 306, 334, 506, 507, 5/74, 


624, 631 Ansiães - 74 Antaniya - 32, 44, 52 Antilhas - 217 Antillia - 198 
Antoniniana (província) - 27 Antônio (rei de Portugal) - 423, 424,. 


425, 426 Antuérpia - 243, 244, 251, 280, 355, 

376, 379, 380, 416 Apa - 629 Apanágios - 61, 117, 128, 206, 255, 

256 Apólices - 530 Aquae Flavíae - 19, 29, 34, 44 Aqueduto das Águas Livres - 
563 Aquila Sículo (Cataldo) - 271 Aquitânia - 60 Arabes, Arábia, Arabe - 20, 21, 
195, 

196, 198, 199, 202, 298, 320, 324, 325, 

326, 327, 374, 443, 455, 456, 458, 466, 

637, 640 Aragão, aragoneses - 60, 63, 65, 71, 


88, 135, 145, 147, 174,177,179, 224, 


242, 244, 292, 294, 298, 359, 387, 415, 
436, 568 Arborização - 372 Arcádia Lusitana - 556 Arcediagados - 85 Argentina - 
316, 318, 619 Arguim - 226, 227. 335, 350, 356, 438, 


505 Arianismo - 40, 41 Aristocracia - 601, 602, 611, 612 Aristóteles, aristotelismo - 
406 Armadas - 462, 463, 464 Arménia - 322 Arouca - 74 Arqueologia - 10-17, 96 
Arquitectura - 169, 410, 411, 476, 477, 

563, 564 (ef. arte) Arquivos - 85, 142 Arquivo Militar - 618 Arrabi-mor - 237 
Arrábidos - 257, 345, 390 Arronches - 244 Arroteias - 74, 75, 238-240, 372 Arroz - 
97, 519 Arruda (João de) - 282 Arte 


período muçulmano - 104 séculos xiii-xiv - 147-153 séculos xiv-xv - 169 séculos 
xv-xvi - 280-284 séculos xvi-xvii - 410-412 


658 
Indice analítico 


séculos X-xix - 562-564 Ásia, 476, 477 Brasil, 496, 614, 615 Artesãos, artesanato- 
98, 131, 240, 


241, 259-261. 398, 547 Arzila-291, 298, 299, 422, 498 Ascensão - 316 Asientos - 
490 Asila - 291 Assumar - 632 Astrolábio - 367 Astrologia - 207 Astronomia - 197, 
207, 284, 366, 367, 

405, 558 Astúrias - 43, 45, 52 Asturica - 25, 27, 34 Asturicensis - 25 «Atlantização 
do Povoamento» - 35 Atoleiros - 185 Atum (pesca do) - 208 Augsburg - 351, 355 
Augusto - 25 Aumale (madernoiselle d*) - 443 Auriense - 30 Aurignacense - 12 
Austrália - 320 Áustria, austríacos - 552, 568, 608, 


638 Autos-de-f é - 395, 396, 473 Ave (rio) - 71, 84 Aveiro - 234, 257, 537, 571 
«Aventureiros» - 198 Avinhão - 183, 187 Avis (mestre de; ordem de) - 117, 


179, 185, 187, 188, 189, 190, 208, 255, 

277, 383 Axim - 336 Azamor - 298, 299 Azeite - 97, 134, 159, 239, 373, 52.5 
Azenha - 97 Azilense - 12 Azulejos - 104, 411, 412 

B 

B. Qasi - 91, 101. Baçaim - 325, 342, 457, 461, 467, 476, 

638, 640 Bacalhau (pesca de) - 316, 375 Bada,) oz - 52, 54, 61, 83, 92, 110, 197, 
214,225 Baetica - 20, 25, 27, 34, 35, 40 Baghdad - 459 Balhri - 52 


Bala - 346, 432, 433, 480, 482, 483, 485, 


488, 492-495, 585, 587-590, 592, 593, 

596, 599, 613, 615, 618, 620, 622, 630, 

631 Baj a - 31, 32, 52, 54, 89-91, 94, 96, 101 Balais - 134 Balata - 97 Balança 
comercial - 526-530, 597, 598 Balansiyya - 96 Baldaia (Afonso Gonç alves) - 214 
Baldios - 8, 158, 238 Baleia (pesca de) - 225, 316 Balestilha - 367 Bancarrota - 
381, 382 Bancos - 617 Banda (ilhas de) - 352 Bandarra - 43j. Bandeiras - 480, 
481, 591, 592 Banu Abbad. - 54 Banu. 1-Aftas - 54 Banu-l-larun - 52 Banu Muzayn 
- 54 Baptista (Pedro João) - 636 Barbadinhos - 391, 542 Bárbaros 


v. Suevos, Visigodos, etc. Barbosa (Aires) - 278 Barbosa (Caldas) - 614 Barbosa 
(Duarte) - 322 Barcelona - 310 Barcelos - 201 Barcelos (Afonso de) - 128, 129, 
190 Barcelos (Pero de) - 316 Bardez - 640 Bardi (companhia dos) - 351 Baronceli - 
84 Barroco - 555, 562, 563, 614 Barros (João de) - 277, 408 Barros (Luís Pedroso 
de) - 481 Bascos - 206, 244 Basileia - 201 Basra - 459 Basto (conde de) - 434 
Batalha - 150, 152, 281, 282 Batalyaws - 31, 52, 54, 55,90, 91, 92, 


101 Batata - 519 Bazaruco - 469 Beatriz (rainha de Portugal) - 184, 
187 Beira - 3, 24, 74, 82, 84, 117, 121, 127, 


130, 206, 261, 263, 264, 376, 518, 519, 
573, 625 Beirão (dialecto) - 23 Bej a - 19, 23, 52, 94, 130, 236, 382, 


383, 410, 537 Belas-Artes (ensino das) - 618 
índice analítico 
659 


Belém - 281, 282, 480, 481 Bella (Della) - 560 «Beltraneja» - 291, 292 Bengala - 
320, 459, 462, 466, 471, 474, Benguela - 510, 631, 632 Benavente - 237 
Benavente (Jacob de) - 168 Benira - 336 Beneditinos - cf. S. Bento Berberes, 44 
Berbéria - 422 Beresford (William) - 578, 581 Berlengas - 7 Bermudo Il (rei de 
Leão) - 48 Bermudo Ill (rei de Leão) - 62 Bernardos - cf. S. Bernardo Besteiros do 
conto - 130 Biafra (baía de) - 306 Bíblicos (Estudos) - 405 Biblioteca Nacional - 
618 Bibliotecas - 556, 561, 562 Bibliotheca Lusitana - 555 Biguba - 505 Bijapur- 
326, 327 Bilhão - 83 Birmânia - 459, 461, 462 Biscaia - 439 - cf. Bascos Biscoito - 
240 Bissau. - 628 Bixorda (Jorge Lopes) - 344 Bizâncio - 83 Blane (cabo) - 215 
Bloqueio continental - 576 Bluteau. (Rafael) - 556 Boa Esperança (cabo da) - 309, 
314, 


335 Boavista (ilha da) - 215, 333 Bocage (Manuel Maria Barbosa du) 
-558 Bolina (navegação à) - 196 Bolívia - 481, 608 Bolonha - 145, 271 Bolsas de 


mercadores - 133 Bombaim - 444, 456 Bonifácio VIII - 144 Borba - 96 Bordéus - 
133, 273 Borgonha, borgonheses - 60, 61, 62, 


244, 292 Bornéu - 466 Boron (Robert de) - 168 Bosque Deleitoso - 168 Botânica - 
406, 474, 553, 561 Botequins - 557 Boulogne-sur-Mer- 70, 133, 140, 173 Bourbon 
- 573 Boxer (Charles R,) - 364, 598, 599 

Boytac - 282 Bracara, bracarensis - 19, 25, 27, 29, 

30, 34, 40, 41, 43 Bracari - 16 Braga - 19, 45, 50, 67, 68, 691 71, 73, 

77,83, 85, 96, 130, 131, 148, 149, 234, 

256, 264, 273, 329, 389, 430 Bragança - 130, 156, 244 Bragança (Casa de) - 385 
Braganças (família) - 129, 253, 254, 

296, 307, 425, 430, 431, 437 Bragança (1.1 duque de) - 128, 191, 

222, 290 Bragança (3.,, duque de) - 293 Bragança (D. João, 6.1 duque de) - 

424, 425, 441 Brahmanes, brahmanismo-285, 363 Branco (cabo) - 215 
Braquicéfalos - 12, 13 Brava (ilha) - 333, 628, 629 Bretanha - 60 Bristol - 244 
Bronze (idade do) - 12, 13, 15 Brotero (Félix de Avelar) - 553 Bruges - 133, 243, 
244, 355 Budismo, Budistas - 285. 363, 473 Buçaco (batalha do) - 580 Buchanan. 
(George) - 272, 405 Budé (Guillaume) - 274 Buenos Aires - 608 Bulhão - Cf. Bilhão 
Burdino (Maurício) - 68 Burgos - 72, 73, 74, 83, 84, 351 Burgueses, burguesia 


séculos xi-xiv-83, 84, 131 séculos -,i,.-x - 155, 163, 164 séculos -vi-259, 361, 362 
séculos -xvii-393, 396-398, 442 séculos xvii-xix-541, 545-547, 601, 


602, 611, 612 Bússola - 195 Butão - 474 Buzi (rio) - 340 
Cc 


Cabinda - 634, 636 Cabo (Senhora do) - 167 Cabo Verde - 199, 215, 312, 314, 
329, 


331, 332, 333, 334, 343, 346, 347, 358, 

426, 433, 485, 490, 503, 504, 505, 527, 

624, 625, 627, 628, 629, 636, 644 Caboto - 316 Cabral (Pedro Álvares) - 315, 320, 
323, 366, 367, 474 Cabrilho (João Rodrigues) - 319 

660 

Indice analítico 

Cacau - 597 Cacela - 94, 474 Cachéu - 321, 505, 624 Caconda - 633 Cadaval 


(duque de) - 566, 567 Cadamosto (Alvise da) - 215, 367 Cádiz - 91, 242, 243, 529 
Cairo - 310 Calabar - 629 Calatrava (ordem de) - 93, 108, 116, 


117, 119 Calicut - 310, 323, 326, 327, 352 Calif órnia - 319 Callaecia - 19 
Calvinismo - 286 Camarão - 629 Camarões - 306 Cambaia, cambaianos - 326, 
327, 466. Cambambe - 508, 510 Cambodja - 474 Cametá - 493 Caminha - 373 
Caminha (Álvaro de) - 334 Camões (Luís de) - 408, 409, 419 Campignyense - 12 
Canadá - 316 Cananor - 310, 322, 323, 324, 326, 340, 

464 Canárias, canarinos -97, 177, 197, 

199, 202, 211, 212, 213, 221, 223, 225, 

307, 312, 343 Cancioneiro Geral - 277 Cânones - 271, 276, 404, 470, 560 
Cantábricos - 196 Cantão - 322, 336, 350, 644 Cantigas de amigo - 146, 147 
Cantigas de amor - 146 Cantigas de escárnio ou maldizer - 


146 Cantigas de Santa Maria - 147 Cão (Diogo) - 307-309, 312, 336 Capitães- 
donatários - 219, 222, 228, 


346-350, 500, 501, 503 Capitais (problema de) - 361, 362, 
376, 396 Capitanias 

Açores e Madeira - 219, 220, 222, 

223, 626 África - 333, 334, 336, 339, 504-506, 

508-510, 629 Brasil - 346-350, 492-494, 585-587, 


617 Capsenses - 12 Capuchinhos - 257, 542, 629 Capuchinhos Franceses - 391 
Caravela - 196 Caravo - 196 


Carlos da Áustria (arquiduque) - 

568 Carlos Il (rei de Espanha) - 449, 

568 Carlos Il (rei de Inglaterra) - 378, 

444, 446, 498 Carlos V (imperador) - 288, 300, 

318, 319, 415, 420 Carlos Magno - 140 Carlos Mardel - 563 Carlos o Temerário - 
292 Carlota Joaquina - 575, 619 Carmelitas - 390, 471, 495, 604, 605 Carmelitas 
Descalços - 390 Carmo (igreja do) - 152 Carneiro (Antônio) - 334 Carolíngio 
(império) - 59 Carreira da India - 462 Carreiras de navegação - 462, 463, 


464 Cartaginensis - 40 Cartagineses - 15 Cartas do Japão - 475 Cartazes - 324 
Cartografia - 211, 481 Cartuxos - 390 Carvalho (Francisco Coelho de) - 


493 Carvalho (Paulo de) - 544 Carvalho e Melo Sebastião José 


de)-566, 570, 571, 609 Casa de Bragança - 385 Casa de Ceuta - 227, 356 Casa 
do Cível - 142, 264 Casa dos Contos - 462 Casa dos Escravos - 357 Casa grande 
- 491 Casa da Guiné e índia - 356 Casa da Guiné e da Mina - 356 Casa da índia - 
351, 356, 357, 381, 


429 Casa do Infantado - 385 Casa da Justiça da Corte - 264 Casa da Moeda de 
Lisboa - 350, 379, 


599, 600 Casa da Moeda de Malaca - 469 Casa Pia - 538 Casa da Pólvora - 462 
Casa da Relação da índia - 462 Casa da Suplicação - 264 Casais - 74, 75, 76 
Casamansa - 505 Casamentos mistos - 340-342 Casa dos 24 - 260 Cascais - 425 
Casquinha - 500 

índice analítico 

661 

Cassanje - 633, 634, 636 Casuística - 404 Castelhanização - 418, 419, 436, 437, 
438 Castelo Branco - 537 Castelo Melhor (conde de) - 403, 

448, 449 Castelo Perigoso - 168 Castelo Rodrigo (marquês de) - 429 Castelos 
(linhas de) - 111, 113, 152 Castiços - 460 Castro (Baltasar de) - 321 Castro (Inês 
de) - 177, 178, 187 Castro (João de) - 327, 342 Castro (Martinho de Melo e) - 567 
Castro (Mateus de) - 460 Castro (Miguel de) - 428 Castro Laboreiro - 74 Castros - 
15, 16, 183, 461 Catalães, Catalunha - 5, 22, 59, 60, 


135, 146, 189, 197, 205, 206, 219, 429, 
437, 439, 440, 445, 568, 575 Catarina (duquesa de Bragança) - 


423, 424, 441 Catarina (filha de João IV) - 378, 

444, 446, 498 Catarina (mulher de João III) - 

300, 416, 420, 421 Caurium - 34 Cavaleiros - 81, 254 Cavaleiros-vilãos - 80, 163 
Cavalos - 134, 322, 374, 504 Cayenne - 482, 607 Cazende - 638 Cea - 62 Ceará - 
346, 348, 480, 483, 493, 587, 

588, 620 Ceilão - 320, 325, 352, 375, 433, 4483, 

453, 456, 461, 462, 466, 467, 469, 470, 

471 Celebes - 471 Celeiros comuns - 373 Celeiros públicos - 626 Ceitas - 13, 15 
Celtici - 15, 17 Censo de 1527-32 - 234 Censura - 408, 409, 410, 558, 560, 561 
Cereais - 4. 8, 82, 97. 135, 158, 159, 


160, 220, 221, 242, 596 Cervantes - 437 Cetraria (livros de) - 168 Ceuta - 189, 


204, 206, 207, 208, 221, 228, 229, 298, 299, 440, 449, 498 Chagas (Fr. Antônio 
das) - 410 (*bale - 325, 453, 464 Chancelade (homem de) - 12 Chanceler - 85, 
141, 266 

Chantereine (Nicolau) - 283 Chapéus (indústria de) - 522 Chararicus - 41 Chaul - 
325, 327, 459, 467, 640 Chaves - 19, 44, 73, 83 Chesapeake (bala de) - 319 Chile 
- 318 China, Chinesa, Chineses - 195, 285, 

311, 320, 322, 325, 327, 355, 359, 362, 

374, 375, 417, 453, 454, 457, 458, 461, 

466, 469, 470, 471, 472, 473, 474, 476, 

639, 643, 644, 645 Chuí - 610 Chrysopolis (bispo de) - 460 Chrysostomi 
Lucubrationes - 279 Cícero - 271 Cid - 62 Cidades 

periodo romano - 19, 20, 27, 29 período suevo e visigodo - 35, 40, 

41 período muçulmano - 35, 51, 94, 


96, 102 período da «Reconquista» - 44 séculos -xiii - 73, 74 séculos -xiii-.xv - 130, 
131, 132, 156, 


157 séculos xv-xvi - 234-236, 329-331, 


333 séculos -xvii - 371, 372, 499 séculos -x-515, 516, 590 Ciência - 22, 197, 284- 
286, 406, 407, 


558-560, 618 Ciências Naturais - 284, 556, 558 Ciganos - 237, 238 Cisplatina 
(Província) - 610 Císter, cístercíenses - 77, 117, 149, 


150 Civitates - 27, 29, 33 Clactonenses - lo Clairvaux - 149 Classicismo - 562, 563 
Clemente Ill - 68 Clemente V - 144 Clemente VIl - 183 Clemente XII - 572 
Clemente XIV - 542, 573 Clementinas - 144 Clenardo (Nicolau) - 272, 273 Clero 


período medieval - 69, 70, 81 séculos xv-xvi - 255-257 séculos xvi-xii -,388-391,* 
442, 506 séculos xvii-xix-541-543, 603-606, 


630, 645 Clima -3, 7-10 Cluny, Cluniacenses-61,77,149,150 

662 

índice analítico 

Coa - 175 Coast (cape) - 336 Cochim - 323, 324, 326, 340, 342, 456, 


459, 461, 464, 469, 470 Cochinchina - 474 Coelho (Duarte) - 348 Coimbra - 44, 
45, 49, SO, 61, 68, 69, 


73, 77, 83, 85, 96, 109, 117, 130, 131, 

137, 149, 156, 169, 187, 190, 236, 260, 

264, 272, 273, 275, 276, 372, 389, 404, 

405, 407, 411, 412, 430, 432, 560, 562 Colbertismo - 521 Colégio das Artes-274, 
405, 406, 407 Colégio de Jesus - 405 Colégio Militar - 562 Colégio Real - 274 
Colégio Real das Artes - 495 Colégio Real dos Nobres - 559 Colégio de Santa 
Bárbara - 272 Colégios - 273, 274 Colégios maiores - 273, 403 Colégios menores - 
273, 404 Colimbria - 30, 44 Collecção de Leis Extravagantes - 

402 Collêge Royal - 274 Colombo (Cristóvão) -285, 311, 312, 

314, 316, 325, 456 Colónia - 133 Coloniae - 27 Colonização fenícia - cf. Fenícios 
Colonização grega - cf. Gregos Colonização romana - 16, 18, 19, 20 Comarcas - 
261, 399, 537 Combe-Capelle (homem de) - 11 Comendas (concessão de)-257, 
390 Comércio 

período romano - 37 período muçulmano - 37, 98 período da «Reconquista» cristã 
- 37 séculos xii-v-82-84, 131-137, 159, 

160 séculos Xv-u - 225-227, 241-246 séculos -- - 339, 340, 343.351, 


354-356, 374, 378, 438, 439, 464-467, 
491, 500, 506, 507 séculos -xix - 516, 518, 523-527, 


545-547, 599, 616, 617, 627-639, 642, 
643 Comes - 45 Comissário - 394 Comores - 352 Comunas 


de Judeus - 236, 237 de Mouros - 237 Comentarii Collegii Conimbricensis 
Societatis lesu - 406 
Companhia para a Agricultura das 


Vinhas do Alto Douro-528 Companhia de Cabo Verde e de Ca- 
chéu. - 598, 629, 630 Companhia de Cachéu e dos Rios da 


Guiné - 627 Companhia para o Comércio com o 

Brasil - 378, 598 Companhia para o Comércio dos 

Mujao.s e dos Macuas-528 Companhia para o Comércio com o 
Oriente - 528 Companhia Geral do Grão Pará e 


Maranhão - 528, 598 Companhia Geral de Pernambuco e 


Paraffia - 528, 598 Companhia Geral das Reais Pescas 


do Reino do Algarve - 528 Companhia da Ilha de Corisco - 630 Companhia das 
índias Orientais - 


454 Companhia de Jesus - 300, 471, 474, 
486, 494, 543, 559, 572, 604 Companhia para o Monopólio do 


Comércio nas ilhas de Cabo Verde, Bissau e Cachéu-628 Companhia da 
Navegação e do 


Comércio com a índia - 377 Companhia Portuguesa das índias 

Ocidentais - 377 Companhias 

séculos xv-xvi - 224, 350 séculos xvi-xvii - 376, 377 séculos xvii-x - 546, 598, 599 
Compostela - 68 Comunais (cartas) - 120 Conceição (Freiras da) - 391 Concelhos 
- 80, 117-121, 330-334, 341- .343, 348, 462, 494, 506 Concepcionistas Marianos - 
542 Concordata - 70, 175 Condes - 44, 45 Cônegos Regrantes de Santo Agos- 
tinho - 117, 149 Confrarias - 139, 259, 260 Congo, Congoleses-307, 308, 321, 

336, 337, 338, 339, 505, 508 Congregação da Oliveira - 542 congregação da 
Propaganda-470 Conii - 15, 17 Conimbricenses - 407 Conimbria - 30, 32 
Conimbriga - 34 Conimbriga (bispado de) - 40, 41 Conselho de Estado - 266, 402, 
460 Conselho da Fazenda - 402, 429 Conselho de Guerra - 403 

Indice analítico 

663 

Conselho da India-403 Conselho Legislativo - 643 Conselho de Portugal-403, 427, 
429 Conselho do rei - 85, 86 . Conselho Ultramarino - 403 Conselhos (governo 
por) - 446, 536, 


537 Constança - 61, 177, 179, 201 Constantinopla - 41, 290 Constantim de 
Panóias - 74, 83 ConstruQão naval - 98, 132, 139, 195, 


196, 240, 521 Contia - 253 Contra-Reforma - 300, 405, 458, 473 Contratos (regime 
dos) - 344, 350- 


-352, 464, 465, 490 Conventus - 19, 25, 26, 27, 29, 30 Coral (pesca de) - 208 
Corantes (materiais) - 203, 211, 218, 


596 Cordoaria Nacional - 528 Córdova - 51, 52, 54, 88 Coria - 54 Corisco - 630 
Corporações - 139, 259-261, 398 Corregedor da corte - 142, 266 Corregedores - 


143, 254, 262, 265, 66026 Correio Braziliense - 618 Corte Real (Diogo de 
Mendonça) - 


566 Corte Real (Gaspar) - 316 Corte Real (João Vaz) - 310 Corte Real (Miguel) - 
316 Cortes - 86, 143, 144, 165, 166, 2617, 


402, 403, 441, 536 Cortiça - 134, 242 Corvina (pesca da) - 208 Corvi - 217 Corvo - 
217, 222, 330 Corunha - 426 Cosmotheoria - 279 Costa (Cláudio Manuel da) - 614 
Costa (Duarte da) - 492 Costa (Jorge da) - 256 Costa dos Escravos - 306 Costa da 
Malagueta - 306 Costa do Marfim - 306 Costa do Ouro - 306 Coudelarias - 374, 
445 Coulão - 323, 443, 464 Couros e peles - 134, 203, 522, 525, 

597 Coutinho (Azeredo) - 614 Coutinho (Prancisco de Sousa) - 

634, 636 Coutinho (Rodrigo de Sousa) - 551 Coutinhos (família) - 253, 461 

Couto (Diogo, do) - 410, 475 Coutos - 79, 127 Covilhã - 521 Covilhã (Pero da) - 
310 Cranganor - 326, 456, 470 Crato - 423 Creixomil - 75, 76 Cremona - 351 
Crioulos - 602 Crises cerealíferas - 158, 159, 160, 

373, 501, 502 crises económicas -376,383,43.9,466, 

467, 521-524, 612 Cristo (Ordem de) - 108, 176, 189, 

207, 208, 213, 218, 219, 222, 228, 229, 

230, 255, 282, 296, 305, 491 Cro-Magnon (homem de) - 11, 12 Crónica del-rei D. 
Fernando - 168 Crónica del-rei D. João - 168 Crónica del-rei D. Pedro - 168 
Crónica dos Godos - 113 Cromwell - 443 Cruzada * Cruzadas - 91, 93, 106, 107, 
219 Cruzada (espírito de) - 228-230 Cruzada (ideal de) - 106, 108, 204, 

205 «Cruzadas. do Ocidente» - 106, 107, 

108 Cruzado - 246, 248 

de Goa - 469 Cruzado de Goa - 469 Cruzeiro do Sul - 367 Cuango - 337, 634 
Cuanza - 508 Cubas (Brás) - 347, 480 Cueva (Beltrán de la) - 291 Cuiabá - 588 
Cultura 


período muçulmano - 103-104 séculos xii-xv - 144-147, 167-169 séculos xvi»xvii - 
410, 411, 418420, 


437, 438, 473, 474, 495 séculos xvil-ix - 552-562, 613, 614 Cunei - 16 Cunha (Luís 
da) - 551-553 Cunha (Tristão da) - 318 Cúria régia - 62, 85, 86 Cutanda - 88 


D 


Dahomey - 306, 629 Dai'a - 99, 100 Dalmácia (duque da) - 578 Damão - 325, 453, 
457, 461, 467, 476, 


624, 638, 640 

664 

Indice analítico 

Dande - 337, 588 Danzig - 242 Davidiz (Sesnando) - 50 Decretais do papa 
Gregório IX- 144 Decretos de Graciano - 144 Delgado (cabo) - 458 Demografia - 9, 
14 

séculos xi-xiv - 71-75, 121, 129-131 séculos xiv-xv - 156-158 séculos xv-xvi - 233- 
238 séculos xvi-xvii - 371, 372 séculos xvii-xix - 515, 516, 517 Desamortização 
(leis de) - 77 Descartes - 406, 407 Desembargo do Paço - 409 Desertas - 212, 219 
Deserte - 212 Despotismo do Estado - 538, 540, 


550, 551, 561 Desprezo pelo Mundo - 168 Dialéctica - 145 Dialectos - 18-24 
Diálogo de Robim e do Teólogo - 


168 Diamantes - 593, 594 Diamantina, Diamantino - 592, 614 Dias (Fr. André) - 
168 Dias (Bartolorneu) - 309. 314, 351 Dias (Ximeno) - 49 Díaz (Murnadona) - 47 
Diaz (Rodrigo) - 62 Dicionário de História de Portugal 

-236 Dicionários - 555 Dili - 645 Dinamarca, dinamarqueses - 71, 359, 

455 Dinar - 83 Dinheiro - 83, 140, 161 Dinis (rei de Portugal) - 70, 111, 


127, 128, 133, 137, 140, 144, 147, 152, 
171, 172, 174, 175, 176, 187, 190, 213 Díoceses 


períodos romano e muçulmano - 
21-29, 30, 32 séculos xi-xiv - 67-69. 84-85 séculos xv-xvi - 228, 256, 263, 264, 
330, 331, 333, 335, 341 séculos xvi-xvii - 389, 390, 444, 470, 


471, 494 séculos xvii-x - 537, 588, 606 Diocleciano - 27 Diogo (duque de Viseu) - 
2583. 254 Direito - 144, 552 Direitos reais - 78, 127, 128 Dirham - 83 


Discurso sobre a Introdução das 
Artes do Reyno - 521 Dívida pública - 251, 381, 382, 535, 


536 Diu - 325, 327, 457, 459, 461, 467, 476, 


636, 637, 638, 640 Dobra -248, 530 Dobrão - 530 Dolicocéfalos - 12, 13 
Dominicanos - cf. S. Domingos Domínio - 493 Douro - 11, 13, 16, 22. 25, 30, 32, 
49, 


50, 61, 68, 71, 75, 77, 84, 130, 234, 
373, 518, 525, 528, 578 Drake - 426, 428, 504 Duarte (rei de Portugal) - 128, 144, 


161, 168, 188, 189, 190, 209, 228, 252, 

21717, 423 Dublin - 133 Ducado, duques - 29, 45, 248 Duces - 48 Dulmo (Fernão) - 
311 Dume - 45 Dumio - 45 Dumio (bispado de) - 41 Durão (Santa Rita) - 614 Dux - 
29, 45, 47, 49, 50, 65, 67 

E 


Eanés (Estêvão) - 172 Eanes (Gil) - 214 East London - 309 Ebora Liberalitas lulia - 
19, 29, 


32, 34 Eccos que o Clarim dá - 557 Economi - 50 Economia - cf. Agricultura, 
Comér- 


cio, Indústria, Moeda, etc. Economia Política - 618 Eduardo Ill (rei de Inglaterra) - 
134, 177, 179 Educação - cf. Cultura Egipto, Egípcios - 30, 322, 326, 327 Efzitania 
- 30, 32, 35, 44 Egitania (bispado de) - 41 El-Argar - 12 El-Jadida - 298 El-Ksar-el- 
Kebir - 422 Elcano (Sebastián de) - 318 Elísio (Filinto) - 552, 554, 558 Eleitor 
Palatino - 567 Elvas - 94, 96, 130, 236, 242, 244, 264, 

372, 389 Emerita Augusta - 20, 25, 29, 30, 31, 

34, 35, 41 

Indice analítico 


66,5 


Emigração - 590, 591, 625, 626 Emiratos - 30, 31, 32 Empréstimos -381, 427, 429, 
430, 433, 


444, 445, 530 Encina (Juan del) - 278 «Encoberto» - 431; cf. Sebastião Encoje - 
633, 634 Ensino - cf. Cultura Entre-Douro-e-Minho - 261, 263, 385, 


386, 577 Entre-Lima-e-Minho - 84 Entre-Tejo-e-Odiana - 261 Epipaleolítico - 12 
Erasmo - 279 Ericeira (conde da) - 521, 522, 566, 


567 Escandinávia-13, 145, 525; cf. Dina- 


marca, Noruega, Suécia Escócia - 145 Escola de Comércio - 560 Escolar (Pero) - 


306 Escolas 

período romano - 20 período muçulmano - 103 séculos xil-iv - 144, 145 séculos xv- 
xvi - 272-276 séculos xvii-xix - 559, 560 Brasil - 495 cf. também Cultura 
Escolástica - 407 Escravatura 


período medieval - 80 séculos xv-xvi - 203, 211, 221, 223 


224, 236, 261, 332, 334, 338, 339: 
353-355 séculos xvi-xvii-398, 399, 486-491, 


500, SOS, 506 séculos xvii-xix - 547, 591, 596, 603- 
605, 631 Escrivão da puridade - 141, 266, 403, 


448 Escudeiros - 81, 254 Escudos (O- 248, 530 Escultura - cf. Arte Esfericidade da 
Terra (doutrina da) 


- 197 Esopo - 475 Especiarias - 134. 135, 350-353, 355, 
356, 465, 466 
ef. também Comércio Espírito Santo (capitania do) - 346, 


348, 494, 587, 620 Espírito Santo (culto do) - 166 Espírito Santo (igreja do), Évora 


410 Essauira - 298 

Estados Unidos-554, 596 Estradas - 19, 38 

período romano-34, 35 período visigodo-35, 37 período muçulmano - 37, 98 
cf. Comunicações «Estrangeirados» - 552-554 Estrangeiros 

sua participação na expansão ul- 


tramarina - 205, 206, 223 em Portugal, sécs. xv-xvi - 244 em Portugal, sécs. xvii- 
xix-545- 


547 Estrela (Serra da) - 3 Estreia Polar (observação da) -366, 
367 Estremadura (portuguesa) - 3, 4, 11, 


12, 13, 15, 93, 117, 172, 281, 547 Estremoz - 96, 130, 245, 521 Etiópia, Etíopes - 
200, 230, 298, 309, 


310, 321, 338, 457, 458, 459, 470, 471, 
472, 473, 474, 476 Etnia - 10, 11, 12, 13, 14 


cf. Raça Etrúria (rainha da) - 577 Eude 1 (duque da Borgonha) - 61 Eude II 
(duque da Borgonha)-133 Eugênio IV (papa) - 212, 229 Évora - 19, 23, 92, 93, 94, 
96, 117, 130, 

131, 149, 152, 156, 173, 184, 234, 236, 

237, 242, 256, 260, 264, 272, 275, 288, 

389, 390. 405, 407, 411, 412, 420, 439, 

560 Exército - 433, 434, 445, 547, 548, 573 Expedições 


África - 321, 633, 634, 636, 638 Ásia - 321, 322, 474, 475 Brasil - 322, 323, 348, 
4079, 480 Exportação 


período medieval - 134-136, 15.9 séculos xv-xvi - 241-244 séculos xvi-xvii - 374, 
378 séculos xvii-xix - 524, 525 Extravazantes. (ordenações do papa 


João XXII) - 144 Extremadura (espanhola) - 92, 135, 
242 
F 


Fábulas de Esopo - 475 Faculdades - cf. Universidade Faial - 213, 222 Faleiro 
(Rui) - 318 Fangas - 137 Farim - 505 Farnese (Alexandre) - 423 


666 
Indice analítico 
Paro - 15, 52, 93, 130, 242, 280, 329, 


516 Federalismo - 618 Feira - 49 Feiras - 83, 135, 137, 138, 244, 245 Feiras 
trancas - 137, 138 Feitiçaria - 392 Feitorias 


Europa - 133, 134 África - 226, 227, 321, 332, 335, 336, 


339, 340, 457, 505-507, 627-630, 632, 
633 Ásia - 325, 453, 454 Brasil - 344, 345 


cf. Comércio Pelonia - 65, 66 Penícios - 15, 341 Fenis Renascida - 557 Pernandes 
(Antônio) - 321 Pernandes (Vasco) - 284 Fernández (Diego) - 47 Pernando 
(infante, filho de San- 


cho D - 133 Pernando (infante, irmão de Afon- 


so V) - 220, 222, 253, 305, 332 Fernando (Infante Santo) -128,189, 
190, 207, 291 Pernando 1 (rei de Aragão) - 292, 


312 Pernando | (rei de Leão) - 47, 50, 54 Pernando Il (rei de Leão) - 67, 92 
Pernando Ill (rei de Castela e Leão) 


-110 Pernando VII (rei de Espanha) - 

616 Pernando | (rei de Portugal) - 128, 

129, 140, 152, 156, 161, 169, 179, 183, 

184 Pernpl (Jean) - 279 Ferrara (concílio de) - 201 Perreira (Alexandre Rodrigues) 
614 Perreira (Antônio) - 409, 410 Ferro (Deríodo do) - 15 Ferro (Fundições de) - 
521, 522 Feudalismo, feudos - 59-63, 81, 125, 

126, 127, 129 Fidalgos - 254, 386 

cf. Nobreza Fidelís - 126 Fidelíssímo (título de) - 569 Figueiredo (Manuel de) - 557 
Figueiró dos Vinhos - 521 Filipa de Uncastre - 187, 228 FilíDe 11 (1 de Portuzal) - 
372, 373, 


374, 404, 412, 420, 422-429, 434, 441, 
498, 503 


Filipe III (Il de Portugal) - 381, 

4083, 428, 429, 430 Filipe IV (Ill de Portugal) - 429, 

431, 432, 434, 440, 442, 443> 449 Filipe da Flandres - 133 Filipinas - 318, 417 
Filosofia - 274, 407, 560-562 

cf. Cultura Finanças 


séculos xv-xvi - 248-251 séculos xvi-xvil-379, 382, 467-469, 


490, 491 séculos xvii-xix-533-536, 600, 601 Finisterre (cabo) - 7 Fiscais (terras) - 
77, T8 Física - 553, 558 


cf. Cultura Fislocracia - 556 Flagelantes (procissões de) - 166 Flandres, flamengos 
- 84, 133, 134, 


136, 137, 223, 242, 243, 244, 284, 330, 

356, 361 Flaviae - v. Aquae Flaviae Florença - 136, 244, 270, 271 Flores (ilha das) 
- 217, 330 Fi6rida - 316 Florim - 248 Fogo (ilha do) - 215, 332, 426, 628 Fogos- 
mortos - 157, 158 Fomes - 166, 373 Fonseca (Pedro da) - 407 Fontainebleau 


(tratado de) - 577 Forais - 74, 119, 120, 121, 137 Forais (reforma dos) - 249 
Foreiros - SO, 129 Forjaz (Miguel Pereira) - 567 Formosa (Ilha) - 306 Fortalezas - 
324. 325, 335, 336, 339, 


340, 420, 421, 453. 503, 504, SOS, 510, 

618 Fortunatas (ilhas) - 198 Fossadeira - 113 França Antárctica - 482 Francavíla 
(duque de) - 430, 432 Francesinhas - 391 Pranciscanos - cf. S. Francisco 
Francisco | (rei de França) - 274 Freguesias - 85 Freire (Filipe dos SRntos) - 612 
Freire (Gomes) - 553 Freitas (Serafim de) - 455 Freixo - 74, 244 Fromaríz - 75, 76 
Fronteira (conceito, definição) - 25- 


32. 67-69. 71, 91, 92. 93. 110. 175, 
479-482, 521, 522, 566, 567, 604, 607- 
611 

índice analítico 

667 

Fruta - 82, 97, 134, 241, 242, 374, 502, 


525 Fuero Real - 144 Fugger - 351, 465 Funay - 470 Funchal - 220, 221, 329, 330, 
331, 389, 


500, 626 Fundão - 521 

G 

Gabão - 306, 307 Gado (criação de) - 4, 8, 82, 94, 97, 

158, 221-223. 240, 333, 334, 335, 374, 

489* 490, 502, 504, 519, 597 Gafarias - 167 Gaia - 83 Galaico-português - 19, 20, 
22, 147 Galicanismo - 572 Galiza, galego - 3, 7, 11, 13, 15, 19, 


23, 44, 47,50, 51, 60, 61, 63, 64, 66, 
67, 68, 69, 71, 84, 135, 148, 578 Gallaecia, gallaeci - 16, 19, 25, 27, 29, 


34, 39-41, 43, 44 Galvão (Duarte) - 321 Gama (Basílio da) - 614 Gama (Cristóvão 
da) - 321 Gama(Estêvão da) - 327 Gama (Vasco da) - 282, 298, 314-316, 


320 321, 323, 342, 351, 366, 367 Gâmbia. - 215, 321, 350, 352 Gante (João de) - 
179, 187 GarÇão (Correia) - 558 Garcia (rei da Galiza) - 47, 49 Gasconha - 60 
Gato (Manuel de Borba) - 591 Gatos de argália - 225 Gazeta de Lisboa - 558, 618 
Gazeta do Rio de Janeiro - 618 Geba - 505, 624 Gênova, genoveses - 136, 221, 
244, 


270,- 312, 359, 361, 530 Gentes - 27 Geografia - 5, 197-201, 284 Geometria - 558 


Geraldes (Geraldo) - 92, 117 Geraldo (arcebispo de Braga) - 68 Germânicas 
(línguas) - 20 Gesú (igreja de) - 412 Ghana - 306, 336, SOS Gibraltar - 189, 229 
Gilberto (bispo) - 108 Giraldi (mercadores) - 351 Glaciações - 10, 11 Goa - 310, 
325, 327, 340-342, 351, 433, 


455-462, 467, 469-476, 499, 624, 638- 
644 


Godinho (Vitorino Magalhães) - 


383, 417 Godos - 113 Godoy (Manuel) - 576, 577 Goiás - 586, 587, 588, 591, 592. 
620 Góis (Bento de) - 474 Góis (Damião de) - 277 Goitacazes (campo dos) - 346 
Golfo da Guiné - 306, 630, 631 Golfo Pérsico - 453 Goma arábica - 225 Goma laca 
- 203 Gomes (Díogo) - 215 Gomes (Estêvão) - 319 Gomes (Fernão) - 306, 351 
Gonçalo (conde) - 47 Gonçalves (Antão) - 224 Gonçalves (Fernão) - 91 Gonçalves 
(conde Hermenegildo) - 


47 Gonçalves (Lopo) - 306 Gonçalves (Mendo) - 47-49 Gonçalves (Múnio) - 49 
Gonçalves (Nuno) - 283 Gonzaga (Tomás Antônio) - 614 González (Fernán) - 62 
Górgades - 198 Gótico - 148-151, 281 Gough Island - 318 Governo-geral 


Ásia - 342, 343, 460, 461 Brasil - 344, 345, 491-494, 585-58*(D Gouveia (André 
de; família) - 272, 


273, 274 Grã - 134 Graça (igreja da), Santarém - 152 Graça (igreja da), Goa - 476 
Graciano - 144 Graciosa - 213, 222, 331 Gramática, gramáticas - 145, 274, 


405, 555 Granada - 114, 179, 189, 190, 204, 207 Grar.de Cisma do Ocidente - 183 
Grandes - 386, 387, 388 Grão-Pará - 587, 588, 628 Grão Vasco - 284 Grécia, 
grego - 15, 189, 272, 274, 341. 


374, 404 Gregório VIII - 68 Gregório IX - 144 Grimaldi - 11 Gronelândia - 198, 217, 
310, 316 Groot (Hugo de) - 455 Guadalupe - 422 Guadiana - 16, 25, 27, 31, 51. 
52, 96, 


111, 117 Guanabara - 482 
668 
índice analítico 


Guaporé - 604 Guaranis (Indios) - 605 Guararapes (batalhas dos) - 483 Guarda - 
45, 149, 256, 264, 389 Guarda real - 266 Guarda Real da Polícia - 538 Guerra dos 
Cem Anos - 176, 179 Guerra dos Emboabas - 592, 611 Guerra «justa» - 487 
Guerra da Liga de Augsburgo - 567 Guerra dos Mascates - 612 Guerra dos Nove 
Anos - 567 Guerra Peninsular - 523, 536, 580 Guerra dos Sete Anos - 573, 576, 
609 Guerra da Sucessão de Espanha - 


608, 609 Guerra dos Trinta Anos - 432, 444, 
445 Guerra civil - 69, 70, 90, 91, 128, 174- 


176, 178 Guerreiro (Antônio Coelho) - 645 Guiana Francesa - 316, 482, 608 Guido 
da Vico (cardeal) - 66 Guilherme 1 (conde de Borgonha) 


-61 Guillén (Beatriz de) - 111, 173 Guimarães - 64, 73, 74, 75, 83, 130, 

234, 236, 260 Guiné - 198, 215, 224, 225, 227, 295, 

305-307, 311, 314, 332-336, 350, 352, 

3583, 355, 356, 357. 503, 5O5, 5OY, 527, 

574, 596, 624, 627-629 Gtinz (glaciação, de) - 10 Gurupá - 493 Gusmão 
(Alexandre de) - 551, 552, 


553, 566, 609 Gusmão (Bartolorneu de) - 558 Gusmão (Luísa de) - 446, 538 
Guyenne - 273 Guzarat - 326 Guzmán (Gaspar Felipe de)-cf. Oli- 


vares Gwato - 336 
H 


Hakim - 102 Hallenklrchen - 281 Hansa - 242 Haraj - 99, 100 Hebreu - 272, 274, 
280, 403 Henrique (cardeal-rei) - 372, 402, 


404, 420, 423 Henrique (conde) - 61, 64, 68, 74, 
78, 79, 83 
Henrique (infante) - 128, 146, 179, 


188-190, 206-209, 214, 215, 218-228, 
256, 290, 305, 306, 350, 374 Henrique V (imperador da Alema- 


nha) - 68 Henrique II (rei de Castela) - 179, 

183 Herrique IV (rei de Castela) - 229, 

291 Henrique i (rei de França) - 62 Herdadores - 80 Heresias - 392 Hermenegildo 
(conde) - 49 Hespérides (ilhas) - 198 Heyn (Piet) - 483 Himalaias - 474 Hinduismo, 
hindus - 341, 363, 473, 


642 Hindustão - 467 Hispalis - 35 Hispania Ulterior - 25 História da Conquista de 
Ceuta-271 Historia Genealogica da Casa Real 


Portugueza - 555 História Trágico-Marítíma - 476 Historiografia - cf. Literatura 
Holanda (Francisco de) - 410 Homem (Álvaro Martins) - 310 Homenagem 
(prestação de) - 62-64 Homens bons - 120 Homens livres - 81 Homo Sapiens - 11 
Honras - 79, 126, 128 Horta (Garcia da) - 406 Horto do Esposo - 168 Hospitais - 
167, 267 Hospital de Todos os Santos - 267 Hospitalários - 108, 116, 117 Huelva - 
52 Huesca - 109 Hugo (abade de Cluny) - 61 Hugo | (duque de Borgonha) - 61 
Humanidades - 273, 284, 559 


cf. Cultura Humanismo, humanistas - 270-272, 

274, 278, 279, 410, 411, 552 Hungus - 634 

Iberos - 15 Ibo - 638 Ibn'Abd Allah Muhammad (al-Na- 

sir) - 93 Ibn al-Jilligi - 51 Ibn Tayfur - 52 Ibrahim b. Tasufin - 89 

Indice analítico 

669 

Idanha, 44, 85 Idrisi - 98, 213 lelala - 307 Iguaçú - 480 Iguaraçú - 348 «llha Brasil» 
- 481, 482 Ilhéus - 346, 493 Iluminação pública em Lisboa - 538 Iluminismo - 550 
Imhoff - 351 Imperador (título de) - 60, 63, 66, 

67 Importação 

séculos xili-xv - 134-136, 159, 160 séculos xv-xvi - 239-244 séculos xvi-xvii - 374, 
378 séculos xvii-xix - 525, 526 Impostos - cf. Finanças, tributação Imprensa-279, 


280, 408-410, 475, 576, 


618 Imprensa Régia - 560, 618 Inconfidência Mineira - 612 Index, índices - 407 
Individualidade geográfica de Portu- 


gal - 3-6 Indo-Europeus - 13 Indochina - 322, 471, 474, 639 Indonésia - 320, 326, 
454, 456, 457, 


462, 470, 471, 624, 646 Indústria - 82, 98, 137, 139, 519-528, 


597, 598, 617 Infanções - 81 Infanzones - 50 Infans - 65 Ingenui - 81 Inhambane - 
340, 638 Inocêncio IV (papa) - 70, 111 Intendente Geral da Polícia da 


Corte e do Reino - 537, 538 Inflação - 161, 162, 163 Inquirições - 78, 127, 128. 
173 Inquisição - 115, 286-288, 300. 365, 


377, 391, 406, 408, 409, 411, 420, 422, 
439, 442, 445, 462, 473. 543, 544, 5783, 
574, 642, 643 Institutionum Dialectarum Libri 


Octo - 407 Invencível Armada-426, 428 Ipiranga - 621 Iria - 34 Irlanda - 133 Irmãos 
Hospitaleiros de S. João de 


Deus - 390 Isaac de Ninive - 168 Isabel (filha dos Reis Católicos) 
-298, 416 Isabel (imperatriz) - 300, 420 
Isabel (mulher de D. Dinis) - 174 Isabel (rainha de Castela) - 291-293, 


296, 306, 312 Isabelino - 281 Isag b. Ali - 89 Isbiliya - 52, 54, 90, 92, 101, 104 
Islam - 22. 30, 51, 67, 88, 90, 91, 92, 


94, 99, 100, 103, 135, 140, 2083, 218, 

229, 230, 290, 323, 335, 363, 415 Islândia - 198 Itália, Italianos - 19, 66, 135, 136. 
145, 

159, 169, 189, 205, 206, 211, 223, 224, 

226, 233, 242-244, 271, 287, 355, 365, 

407, 408, 411, 412, 418, 552, 555, 556, 

594 Itamaracá - 346, 348 Itinerário, de Antônio Tenreiro - 322 Ivenheima - 481 


Jagas - 508 Jaquém. - 629 Jamaica - 595 Japão - 320, 322, 375. 454, 456, 458- 
460, 462, 466, 470-475, 496 Jardim Botânico - 618 Java - 322 Jef f erson - 554 
Jeiras - 80 Jennies - 523 Jequitinhonha - 480 Jerónimos (mosteiro dos) - 281 
Jerónimos (ordem) - cf S. Jeró- 

nimo Jesuítas - 257, 390, 391, 404-406, 420, 

442, 458, 470-475, 486, 487. 489, 494, 

495, 542, 559-561, 571-574, 591, 603- 

605, 608, 609, 611, 639 Jesus (igreja de), Setúbal - 282 Jerusalém - 71, 108, 228 
Joal - SOS Joana (a «Beltraneja») - 291, 292 Joana (condessa da Flandres) - 133 
Joana (filha dos Reis Católicos) - 


298 Joana (irmã de Filipe Il) - 416 João (duque de Bragança) - 423 João (filho de 
Inês de Castro) - 187 João (filho de D. João |) - 128, 189, 


190, 191 João (filho de D. João III) - 416 João (filho dos Reis Católicos) - 
298 João | (rei de Castela) - 184, 185 João Il (rei de Castela) - 229 

670 

índice analítico 


João | (rei do Congo) - 337, 338 João | (rei de Portugal) - 128, 150, 


152, 161, 166, 168, 179, 184, 185, 187- 
190, 206, 209, 228. 252, 277 João Il (rei de Portugal) - 150, 246, 


253-255, 259, 264, 265, 271, 275, 277, 
281, 291-297, 301, 306-314, 321, 333, 
351 João Ill (rei de Portugal) -234, 240, 


254, 259, 271, 274-279, 287, 288, 299- 
301, 345, 380, 383, 391, 405, 416, 420, 
423, 431, 438, 498 João IV (rei de Portugal) - 378, 385, 


388, 391, 403, 404, 440-446, 483, 536, 
538 João V (rei de Portugal - 530, 535- 


539, 544, 546, 555-559, 562, 566, 568- 
570, 572, 600 João VI (rei de Portugal) - 536, 541, 


551, 566, 5/4, 575, 577, 578, 581, 601, 
615, 616, 619-622 João Sem Terra (rei de Inglaterra) 


-133 João XXI (papa) - 70 João XXII (papa) - 144 Jograis - 146, 147 Jorge (filho de 
D. João Il) - 255, 


271, 383 Jornadas - 481 
cf. Bandeiras Jornalismo - 558 José | (rei de Portugal) - 535, 536, 


540, 541, 546. 551, 563, 566, 570, 

572-574 José (filho de D. Maria |) - 573, 574 José (Amaro) - 636 Joseph 
dArimathie - 168 Juby (cabo) - 214 Judarias - 237 Judeus, judaísmo- 102, 108, 
114, 119, 


136, 142, 146, 183, 221, 234, 236, 237, 

287, 288, 294, 296, 300, 363, 365, 431, 

439, 505, 516 Juizes - 120, 461 Juizes de fora - 143, 265, 626, 633 Julumaniya - 
94 Junot - 577, 578 Junta do Comércio - 378, 598 Junta do Comércio, Agricultura 
e 


Navegação - 617 Junta da Directoria Geral dos Estu- 
dos e Escolas - 561 Junta da Fazenda - 600, 617, 638 Junta de Missões - 633 
Junta dos Três Estados - 403, 537 Jura - 61 Juromenha - 94 


Justiça (administração da) 


período romano - 25-29 período muçulmano - 32, 102, 103 séculos xii-xiv - 86, 
127, 128. 141- 


143 séculos xv-xvi - 261-266 séculos xvi-xvii - 399, 400, 427, 428 séculos xvil-ix - 
537, 538, 617 Justiniano - 41 Justo Imperio Lusitanorum Asia- 


tico (De) - 455 

K 

Kumis - 102 Kura, kuwar - 30-32, 51, 52, 54, 90, 

101, 102, 110 

L 

La Plata - 438 Lã - 134, 158, 525 Labla-90, 101, 110 Laboratórios - 558 Laca 
(indústria de) - 523 Lacre (indústria de) - 523 Lafões (duque de) - 552, 533, 556 
Lago (Baltasar Pereira do) - 638 Lagos - 207, 224, 227, 236, 242, 356 Larnecum. - 
30, 32, 35, 41, 44 Lamego - 44, 45, 68, 83, 85, 149, 237, 

256, 264, 373, 389, 440, 441 Larnu - 339 Languedocense - 11 «Lanças» - 253 
Lanzarote - 211 Lar - 459 Laranja - 97, 374, 502 Laranja doce - 374 Larins - 469 
Latifúndio - cf. Propriedade Latim - 18-24, 272, 274, 404, 405, 555 Lavrador (João 
Fernandes) - 316 Lazaristas - 542 Leal Conselheiro - 168 Leão - 45, 50, 54, 60, 
61, 62, 64, 65, 

66, 67, 69, 81, 83, 89, 92, 110, 119, 

173, 175 Leão X (papa) - 330 Leão (Duarte Nunes do) - 402 Legião Lusitana - 578 
Legiões romanas - 19 Legionem. - 19 Legistas - 141, 258 Legname - 212 Lei da 
Boa Razão - 551, 552 

Indice analítico 


671 


Lei comum - 550 Lei Mental-128, 346 Lei das Sesmarias - 158 Leibniz - 406 Leiria 
- 89, 111, 143, 264, 280, 283, 


329, 411, 430 Leis - 271, 276, 404, 560 Leme (Fernão Dias Pais) - 591 Leme 
central - 195 Lencastre (duque de) - 185 Leán - 19, 32, 292 


cf. Leão Leonor (filha de Afonso IV) - 177 Leonor (filha de Henrique ID - 179 
Leonor (mulher de João Il) - 267, 


294 Leonor (mulher de Manuel |) - 298, 


415 Leonor de Aragão - 190 Leonor Teles - 184, 185, 187 Lerma (duque de) - 387, 
429, 432 Levalloisense - 11 Liberalismo - 552 Libéria - 306, 505 Libra - 140 Libro, 


del Conoscimiento - 198 Libros del Saber de Astronomia - 

197 Lifau. - 645 Liga de Augsburgo (guerra da)-523, 

524, 526 Lígures, - 13 Lima (Rodrigo de) - 321 Lima - 30, 71, 84, 540 Limas de 
aço (indústria de) - 523 Lineu - 553 Linhares - 551 Linhas de Elvas (batalha das) - 
4,16 Linhas de Torres Vedras - 580 Lippe (Wilhelm von Schaumburg) 


-573 Lisboa (Antônio Francisco) - 614 Literatura 


séculos XIV-xV - 167, 168 séculos xv-xvi - 276-278 séculos xvi-xvii - 406, 411 
séculos xvii-xix - 557, 558, 613, 614 Literatura de viagens - 409, 410, 475, 


476 Livradores do desembargo - 141 Livro da Ensinança de Bem Caval. 


gar Toda a Sela - 168 Livro de José de Arimateia - 168 Livro das Leis e Posturas - 
144 Livro da Montaria - 168 Livro VI do papa Boniffício VIII - 


144 

Livros de marinharia - 367 Lobo (Francisco Rodrigues) -410, 

438 Lobo (Pero) - 323 Lógica - 145, 274 Loguin. - 283 Lóios - 257 Lomellini - 351 
Londres - 133, 244, 371, 552, 618 Lopes (Fernão) - 168, 277 Lopes (Gregório) - 
412 Loronha (Fernão de) - 344 Lorvão - 74, 77 Loulé - 94, 242 Lourenço Marques 
- 340, 457, 637, 

638 Lovaina - 271 Luanda - 509, 511, 631-634 Lucenses - 16 Lucensis - 25 
Lucidez (Onega) - 47 Lúcio Il (papa) - 67 Lucus - 25, 27 Lucus (bispado de) - 41 
Ludus - 273 Ludovice, (arquitecto) - 562 Ludwig (arquitecto) - 562 Luís (infante) - 
423 Luis IX (rei de França) - 127 


cf. S. Luis Luís XI (rei de França) - 266, 292 Luís XIV (rei de França) - 569, 608 
Lusíadas (Os) - 410 Lusitania, Lusitano - 16, 17, 19, 20, 


25, 27, 29,30, 34, 35, 40, 41, 43, 44, 
51, 54 Lusitânia Setentrional (reino da) - 


577, 578 Lusitano (Amato) - 406 Lusitano-Moçárabe - 22 Lutero, luteranismo - 
286, 287 «Luzes» - 550, 556, 562 Lyon - 280 


M 
Macapá - 608 Macau - 325, 342, 433, 453-457, 459, 


462, 470, 471, 473, 475, 476, 496, 499, 
527, 624. 637, 643, 644, 645 Macedo (Antônio de Sousa de) - 


448, 449 Macedo (Duarte Ribeiro de) - 521 Machado (Diogo Barbosa) - 555 
Machico - 220, 221 Maçonaria - 575 Marcas militares - 30, 31, 101 


43 
672 
Indice analítico 


Madagascar - 320, 466 Madariaga (Salvador de) - 5 Madeira - 134, 218, 220, 223 
Madeira (ilha da) - 197, 199, 202, 


211-213, 219-225, 233, 243, 251, 307, 

311, 329-333, 344-346, 350, 458, 481, 

489, 498-501, 590, 624-626 Madina - 102 Madrasahs - 103 Madrid - 376, 377, 
387, 402, 408, 427, 


428, 429, 430, 434. 437, 439, 482, 516, 
568, 591. 604, 605, 609, 611 Mafoma - 363 Mafra-562, 569 Magalhães (Estreito 
de) - 319 Magalhães (Fernão de) - 318, 319, 


360 Magalhães (João Jacinto de) - 553 Magdalenense - 12 Magellan (Abbé) - 553 
Mahaut (condessa de Boulogne) - 


133 Mahdi - 88, 90 Maia (Manuel da) - 563 Maiorini - 5O Malaca - 322, 325, 326, 
327, 342, 343, 


433, 455, 456, 459, 461, 462, 466, 467, 

470, 471, 499 Malados - 99 Malabar - 352. 354, 471 Málaga - 96, 243 Malagueta - 
225, 227 Malaia - 320 Malária - 9 Malásia - 298, 322, 326 Maldivas (ilhas) - 320, 
325 Maldra - 40, 41 Mali - 321 336 Malik - 56) Malocelli (Lancellotto) - 211 
Mamelucos - 486 Mamoré - 481 Mandioca - 491 Maneirismo - 283, 411 Manicongo 
- 337 Manila - 417 Manique (Pina) - 538 Manrique (Sebastião) - 474 Mansus - 74- 
76 Mantua - 434, 440 Manuel (infante) - 553 Manuel Pelisberto (duque de Sa- 


boia) - 423, 441 Manuel | (rei de Portugal)-240,246, 


248, 249, 254-256, 259, 264, 266, 271, 
212, 215, 271, 281, 287, 294-301, 321, 


330, 333, 338, 344, 345, 351, 391, 416, 

423, 426, 438 Manuel (João) - 177 Manuelino (estilo) - 280-282 Manufacturas - cf. 
Indústria Maquinismo (introdução de) - 523 «Mar fechado» (doutrina do) - 454 Mar 
dos Sargaços - 217 


Mar Tenebroso - 199, 214 Maraj 6 - 493 Maranhão - 346, 348, 482, 483, 487, 


493, 527, 587, 588, 591, 596, 598, 600, 
602, 611, 620 Maraffias - 640 Marchione (Bartolomeu) - 351 Marfim - 225, 227. 
337 Margarida de Saboia (duquesa de 


Mântua) - 434 Mare Liberum (doutrina do) - 455 Maria (filha de Afonso IV) - 177 
Maria (mulher de Alexandre Far- 


nese) - 423 Maria (mulher de D. Manuel |) - 
298, 416 Maria 1 (rainha de Portugal) - 536, 


551, 566, 571, 573, 574, 581, 599, 601, 
610 Maria Francisca de Nemours - 448, 


449, 567 Maria Sofia de Neuburg - 567 Mariana (diocese de)-588, 614, 615 
Marida-31, 51, 54 


cf. Mérida Marinha-98, 176, 547, 548, 618, 619 Marinha e do Ultramar (Secretaria 
de Estado da) - 537 Marinheiros - 613 Marrocos - 88, 97, 190, 203, 204, 207, 

221, 224, 225, 227, 228, 230, 242, 243 

250, 299, 305, 333, 355, 356, 362, 363, 

421, 422, 427, 431, 498, 504, 624 Martabam - 459 Martula - 52, 54, 89-91, 94, 96, 
101 Marvão - 244 Mascarenhas (família) - 461, 587 Mascarenhas (João de) - 327 
Mastros (cabo dos) - 215 Massau.a - 321 Masséna (marechal) - 580 Matamba - 
634 Matapan (batalha do cabo) - 569 Matemática - 197, 273, 274, 276, 284, 

403, 405, 556, 558, 560 Matilde (condessa de Boulogne) - 

O 70, 133, 173 Mato Grosso-586-588, 591-593, 604 Maura - 94 

Indice analítico 

673 

Mauritânia-215, 224, SOS, Mazagão - 298, 299, 498, 624, 625 Mealhas - 83 
Mecenas, mecenato - 300, 5,53 Medicina - 276, 404-407, 558, 560 Medina del 
Campo - 221, 355, 376 Medina Rioseco (duque de) - 387 Medina Sidónia (duque 
de) - 229, 

387, 445 Mediterrâneo - 89, 109, 134, 136, 195, 

196, 327, 377, 568 Megalítica (cultura) - 12-15 Meia-anata - 433 Meia-moeda - 530 


Meias (indústria de) - 523 Meio-dobrão - 530 Meiriftho-mor - 143, 266 Meliapor - 
323, 459, 470 Melinde - 339, 462 Melo (Francisco Manuel de) - 410 Melo (Jorge 


de) - 334 Melos (família) - 253, 388 Mendes (Aires) - 49 Mendes (Gonçalo), dux - 
47 Mendes (Nuno), dux - 48, 49 Mendes de Evora (Soeiro) - 226 Meneses 
(família) - 129, 183, 253, 388, 461, 587 Mercado (principio de) - 136, 137 
Mercadores - cf. Burguesia Mercados - 83, 84, 245 Mercantilismo - 519, 521, 527, 
528 Mercearias - 167, 267 Mercedários - 542 Mérida - 20, 54, 68 Mértola - 19, 52, 
94, 104 Mesa da Consciência e Ordens-265, 

403 Mesão Frio - 74, 83 Mesaticéialos - 13 Meseta Ibérica - 3 Mesolítico - 12 
Mesquitas - 100, 104 Messianismo - 431 Mesteirais - 259-261 Mestre das 
fortificações - 492 Metalurgia, metais - 15, 240, 242, 355, 

522 

cf. Mineração Methuen (tratado de) - 525 Método de como aprender o estudo 

da Medicina - 553 Metropolita - 29, 67-69 México - 379, 417, 438, 479, 485, 590 
621 Meyer-Lúbke - 18 Miguel (filho de D. Manuel D - 298 


Mihrab - 104 Milão - 136, 557 Milhete - 82 Milho - 41 8, 239, 372, 373, 502 Mina - 
336, 350, 353, 355, 357, 505, 506 Minas Gerais -568, 578, 586, 587, 588 


590, 591, 592, 593, 612, 614, 620 Minas de Santa Isabel-592 Mindel (glaciação 
de) - 10 Mineração - 13, 15, 98, 593, 594 Minho - 3, 11, 16, 24, 61, 62, 71, 75, 


78, 83, 84, 92. 96, 127, 130, 330, 334, 
373 Minhoto (dialecto) - 23 Mínimos de S. Vicente de Paulo - 


542 Ministério (governação por) - 537 Miranda - 244, 264, 283, 389, 411, 481 
Miranda (Sã de) - 278, 409 Mirandés (dialecto) - 23 Miscegenação - 459, 460, 485, 
486, 

505, 506, 602, 603, 632, 633, 644 

cf. Raça Misericórdias - 267, 411, 476 Missionação, missões - 336, 339, 345. 

363, 364, 458, 470-474, 486, -487, 494, 

495 Missionários Apostólicos - 542 Misticismo - 168 Moagem - 208 Moçambique - 
314, 321, 324, 339, 3583, 


4517-459, 462, 466, 470-472, 476, 488, 
528, 624, 634, 636-638 Moçâmedes - 636 Moçárabe, moçárabes - 22, 23, 89, 


102, 103, 114, 116, 119; 125 Moeda 


séculos xi-xili - 82, 83, 98 séculos xili-xv - 134, 135, 140-141, 


161-163, 202 séculos xv-xvi - 246-248 séculos xvi-xvii - 378, 379, 469 séculos xvii- 
ix-529, 530, 599, 600, 


626, 632 Moeda - 600 Mogador - 298, 299 Molina O Luís de) - 407 Molinisnio - 
407 Molucas (ilhas) - 300, 312, 314, 318, 


325, 352, 355, 360, 375, 454, 456, 462, 
467 Mombaça - 314, 433, 458, 476, 637, 


638 Mombara - 646 Mondego - 13, 15, 22, 32, 51, 55, 75, 


71,84, 88, 104, 110, 116, 117, 127, 
149, 239 


674 
Indice analítico 


Monis (Gonçalo) - 49 Monis (Martim) - 50 Monomopaia, - 321, 353, 457 
Monopólios - 350, 351, 352, 433, 439, 


464-467, 490 


cf. Comércio Monrovia - 215 Montaigne, - 272 Monte Gordo - 208 Montemor-o- 
Velho - 109 Montes Claros (batalha de) - 448 Montevideu - 609, 610 Montijo 
(batalha do) - 446 Moradias - 254 Morabitinos - 83 Mordomo - 85 Mordomo-mor - 
141 Morgadios - 540 Mormugão - 641 Mossel Bay - 309 Mossuril - 638 Mota 
(cardeal da) - 566 Moura (Cristóvão de) - 429 Mourão - 244 Mourarias - 114, 115, 
237 Mouros - 94, 106, 107, 108, 146, 190, 


199, 224, 228, 229, 234, 237, 287, 368, 
365, 498 


cf. Muçulmanos Mousteriense - 11 Mpinda - 339 Muçulmanos - 15, 22, 25, 43-45, 
49, 


51, 55, 62, 66, 91-94, 97, 98, 103, 107, 
108, 111, 115, 177, 197, 206, 229, 297, 
328, 325, 341, 355, 362, 363, 455 


cf. Mouros Mudéjar (estilo) - 104, 281-283 Muge - 12 Muhammad. | - 51 
Muhammad b. 'Abd Allah al-Muzaf- 


far - 54 Muhtasib - 102 


cf. almotacé Municipia - 19, 27, 29 Municípios 


cf. concelhos Mulai Bu Saib-298 Mul:?(Dtos - 602 Mulay 'Abd al-Malik - 422 Mulay 
Muhammad Al-Mutawakkil- 


422 Mule-jennies - 523 Mumadona Dias - 47 Múrcia. - 5, 109 Museus - 556, 618 
Música - 404 Muwallad, muwalladun - 51, 99 


Muwassah - 103 Muzaril - 99 Myrtilis - 19 
N 


Nacionalidade (ideia de) - 436, 437 Não (cabo) - 214 Napoleão - 553, 576, 577, 
578, 615, 


616 Nápoles - 310, 371, 572, 573 Nápoles (Estêvão de) - 271 Nassau-Siegen 
(Johan Maurits van) 


-483 Natal - 156, 314, 480 Naufrágios - 464 Na'ura - 97 Navarra - 60, 65, 71, 429 
Navas de Tolosa (Las) - 93, 108 Nazaré - 348 Nazoni - 562 Ndongo - 632 
Neandertal (homem de) - 11 Negapatão - 443 Negócios Estrangeiros e da Guerra 
(secretaria de estado dos) - 537 Negus - 321 Neo-classicismo - 555 Neolítico - 12 
Nepal. - 474 Ney (marechal) - 580 Ngola - 339 Nicobar - 320 Nicolau IV (papa) - 
145 Nigéria - 306, 336 Nilo - 200, 213 Nilo Azul - 474 Nóbrega (Manuel da) - 480 
Nobreza período medieval - 70, 81, 155 


séculos xv-xvi - 252-255 séculos xvi-xvii - 385-388, 441, 442 séculos xvii-xix - 538- 
541, 570, 571 Nobreza de corte - 386 Nobreza de espada - 386, 387, 388 Nobreza 


de toga -386 Noli (Antônio da) - 332 Nomismata - 83 Nora - 97 Norba - 35 
Normandia, normandos - 60, 74, 84, 


132 Noronha ou Loronha (Fernão de) - 


318 Noronha (Garcia, de) - 342 Noronhas (família) - 388, 461, 587 Norte (cabo) - 
493 


índice analítico 

675 

Nova Lusitânia - 348 Novais (Paulo Dias de) - 508, 509 Novas Conquistas - 640 
Nunes (Alvito), dux(?) - 48 Nunes (Fernão) - 322 Nunes (Mendo), dux - 48, 50 
Nunes (Pedro) - 406 Ntirnberg - 351, 355 Nzinga Mvemba - 337. Nzinga Nkuwu - 
337 


(0) 


Observatórios astronómicos - 558 Oeiras - 566, 570 Officiis (De) - 271 Ofícios - 
260 


cf. Corporações, Mesteirais Oiapoe - 608 oleiros, olaria - 98, 139 Olinda - (048, 
433, 483, 588, 605, 612, 


614, 615 óleo de baleia - 225 óleo de peixe - 225 Olisipo Felicitas lulia, Olisipone - 


19, 29, 32, 34, 40 Olivais, oliveiras - cf. Agricultura Olivares (conde-duque de) - 
431, 432, 


433, 434, 440 Oliveira (Antônio de) - 347 Oliveira (Cavaleiro de) - 552 Olivença = 
244, 575, 580 Ornan - 637 ópera - 557, 563 Oratorianos - 391, 559 Orçamento - cf. 
Finanças Ordenações Af onsinas - 144, 264 Ordenações de D. Duarte - 144 
Ordenações da Fazenda - 250 Ordenações Filipinas - 373, 402, 552 Ordenações 
Manuelinas - 246, 249, 

264, 402 Ordens religiosas - 93, 116-119, 179, 


189, 255-257, 390, 391, 494, 495, 541, 
542, 603-605 


cf. também o nome de cada or- 


dem «Ordinário» - 409 Ordófiez (Ramiro) - 45 Ordófiez (Sancho) - 45 Ordonho Il 
(rei das Astúrias e 


Leão) - 45 Ordonho III (rei das Astúrias e 

Leão) - 45, 62 Ordonho IV (rei de Leão) - 45, 62 Orografia - 3, 4, 6,9 
Ormuz - 325-327, 355, 432, 458, 459, 

461, 462, 466, 467 Óscio - 20 Ossonoba, Oesonoba - 15, 27, 29, 32, 


34, 35 Ossuna (duque de) - 387 Ourique-89, 111 Ouro-83, 98, 202, 203, 214, 225, 
247, 


248, 350, 353, 479, 521, 529, 530, 592, 
593 Curo fino - 592 Ouro preto - 592, 614, 615 Ouvidores - 141, 461, 492, 633, 
644 Oviedo - 64 Oxford - 145, 271 


p 


Pacém Pacensis - 25, 27 Pacheco (Manuel) - 321 Paço - 75, 79, 80, 85 Paço de 
Sousa - 77 Pacto de Família - 573 Pacto Sucessório - 63 Padroado - 230, 639 
Padroados - 78, 127 Padrões das descobertas - 308, 309 Padrõe, (O, de juro - 250, 
251, 381 Pádua - 270, 271 Paganismo - 392 Pagode - 464 Pais (Domingos) - 322 
Pais (Fernão Dias) - 481 Pais (Gaspar) - 474 Pais (Pf.ro) - 474 Países Baixos-242, 


244, 271, 272, 284, 
359, 423, 432, 442 Paiva (Afonso de) - 310 Palatinato - 567 Palatium - 75 


cf. liaço Paleolítico Inferior - 10, 11 Paleolítico Médio - 10, 11 Palestina - 91, 107, 
108, 322 Pallastrello ou Perestrelo (Bartolo- 


meu) - -218 Palmas - 505 Palmela - - 281 Pangim - 641 Panegyricus Traiano - 271 
Pannonia - 41 Papel (indústria de) - 98, 522 Papel-moeda - 530 PaDel selado - 
535 Pará-346, 348, 493, 527, 588, 591, 598, 

602, 611, 620 

676 

Indice analítico 

Paralba-482, 483, 486, 493, 587, 588, 

599, 615, 620 Paraná-323, 479, 480, 481, 587, 603, 


605 Paraguai-479, 480, 603, 605 Pardau - 469 Paris - 70, 145, 271, 272, 274, 280, 
371, 


521, 573, 609 Parma - 423, 573 Paróquias - 85 Partidas - 144 Pascoal Il (papa) - 
68 «Passagem de noroeste»-319 «Passagern de sudoeste» - 318 Pastel - 331, 
501, 502, 596 Pataca - 600 Patacão - 469 Pate - 637, 638 Patriarcado de Lisboa - 
569 Pau-brasil - 343, 344, 349, 355, 489- 


-491 Paulistas - 592, 611 Paulistas Descalços - 542 Paulo III (papa) - 288 Pax lulia 
- 19, 25, 29, 30-32, 34 Peça - 530 Pedidos - 250, 381 


cf. empréstimos Pedro (arcebispo de Braga) - 68 Pedro (filho de D. João D - 
188,190, 


191, 201, 207, 209, 222, 225, 226, 271, 
290, 291 Pedro | (imperador do Brasil) - 


619, 621 Pedro IV (rei de Aragão) - 177 Pedro | (rei de Castela) - 178, 179 Pedro | 
(rei de Portugal) - 128, 129, 


140, 177, 178, 179, 183, 185, 187 Pedro II (rei de Portugal) - 448, 


449, 535, 536, 539, 566, 567, 570, 608 Pedro III (rei de Portugal) - 574 Pegu - 326, 
461, 466, 470 Peixoto (Alvarenga) - 614 Pelourinhos - 152 Penafiel - 537 Peniche - 
7, 426 Peões - 80 Pequim - 322, 644 Peregrinaçam - 322 Peregrinações - 167, 
270 Pereira (Manuel Cerveira) - 510 Pereiras (família) - 388 Pérez (Vimara) - 44, 


47, 73 Pericot - 12 Pernambuco - 344-349, 480, 483, 485, 

488, 493. 587-590, 596, 599, 611, 619 Perseguições - 472, 473, 538 

Pérsia, persas - 30, 298, 310, 322, 326, 

327, 453, 455, 459, 466, 469, 471 Pérsico (golfo) - 320, 325, 443, 456, 

462 Peru - 379,438,439,479,481,485,488 Pesca, pescarias - 15, 82, 97, 131, 139, 


201, 203, 208, 211, 220, 223, 225, 525 Pesos e medidas - 246 Pessagno (Manuel) 
- 126, 176 Pestes - 156, 157, 166 Peste Negra - 155, 160, 171, 177, 178, 


233 Philadelphia - 554 Piauí - 346, 348, 587, 588, 591, 620 Picnics - 557 Pico (ilha 
do) - 213, 222 Pina (Rui de) - 277 Pinhais - 372 Pinhel - 537 Pinto (Fernão 
Mendes) - 320, 322 Pintura 


séculos xiii-xiv - 153 séculos xv-xvi - 283, 284 séculos xvi-xvii - 412, 413 séculos 
xvii-xix - 564 Pirataria - 98, 110, 132, 202, 213, 223. 


225, 229, 298, 418, 421, 464, 501, 502, 

507, 637 Piratininga - 348, 479 Pires (Tomé) - 322 Pirinéus - 149, 446 Pisa - 201 
Pisano (Mateus) - 271 Pisuerga - 62 Pithecanthropus - 10 Pithecanthropus erectus 
- 11 Placência - 136 Plano das fndias - 227-230. 306 Plateresco (estilo) - 281 
Plinio o Moço - 271 Pó (Pernão do) - 306, 334, 335, 574, 

624, 630, 631 Poesia 


cf. literatura Polícia - 538 Polo (Marco) - 322 Pólvora (indústria de) - 522 Pombal 
(marquês de) - 519, 522, 


526, 528, 529, 535-544, 551-553, 559, 

560, 563, 566. 569-574, 598, 600, 601, 

605, 609, 625-630, 634. 636, 638, 639, 

642, 643 Ponta Delgada - 331, 626 Ponte de Lima - 74, 83, 566 Popo - 629 
População - 10-17 

séculos xi-xiii - 71-75 

Indice analítico 

677 

Séculos xiii-xv - 129-131, 156-158, 


221 séculos xv-xvi-233-238, 347, 348 séculos xvi-xvll-371, 372, 459, 485, 


486, 499, 501 séculos xvii-xix-515-517, 589, 590, 


613, 626, 628, 629, 632-634, 636-638, 
645 Portagens - 137 Portalegre-236, 264, 283, 289, 411, 


523 Portel - 96 Porto - 69, 71, 73-77, 83, 85, 130, 131 

137, 149, 157, 173, 184, 234, 236, 237, 

239, 242, 244, 246, 260, 264, 274,372, 

373, 389, 411, 516, 518, 522, 524, 528, 

545, 546, 557, 560, 562, 577, 578 Porto Santo - 212, 218, 219, 330, 500 Porto 
Seguro - 315, 344, 345, 346, 

348, 480 Portos (abertura dos) do Brasil - 

616 Portos secos - 244, 245 Portucale, Portucalense - 301, 34, 40, 

41, 44, 47-50, 73 Portucale (bispado de) - 41 Portugal (Marcos) - 557 Português 
(língua) - 18-24, 147 Portugueses - 248 Portulanos - 195, 211, 213 :<Posição» 
geográfica (conceito dp) 


-8 Postal (serviço) - 266 Postilhão de Apolto - 557 Potosi (minas de) - 608 
Povoamento - 9 


período romano - 37 período muçulmano - 37, 94 período da «Reconquista», 44, 
114- 


-121 séculos xii-xiv - 129-131, 133 séculos xiv-xv - 156-158 Ilhas Atlânticas - 219, 
222, 223, 


329-334 África - 340, 509 Brasil - 347-350, 590-592 Póvoas - 82, 131 
Praefecturo,e - 27 Pragmática de 1340 - 155 Pragmáticas - 521 Pragmáticas 
Sanções - 525 Praia - 503, 504, 629 Prata - 98, 247, 248, 378, 379, 416, 

417, 508, 510 Prata (Rio da) - 316, 619 Prazentins - 244 Prazos - 129, 458 
Pré-História - 10-17 Preços 

séculos xili-xiv - 139, 140 séculos xiv-xv - 160 séculos xv-xvi - 251, 252 séculos 
xvi-xvil - 382, 383, 439 séculos XVll-xix - 530-533 Prémontré (Ordem de) - 77 
Préstamos - 126-127 Preste João - 200, 229, 230, 307, 309, 


320, 321, 335. 343 Prestimonia - 127 Presúria - 116. 117 Princeps - 65 Príncipe 
(ilha do) - 306, 334, 506, 


507, 624, 631, 638 Prior do Grato - 4224-427 Processo judiciário 


cf. justiça Proença (Pina e) - 553 Propaganda Fide - 639 Propriedade - 8 

período muçulmano - 99-101 séculos xi-xiv - 76-80, 116-119 séculos xiv-xv - 129, 
160-161 séculos xv-xvi - 252-255 séculos xvi-xvii - 383, 385, 491 séculos xvir-xix - 
601, 602 Protestantes - 388 Provedores - 633, 492 Provedorias - 537 Províncias 
Unidas - 443 

cf. Países Baixos Província, províncias - 25-30, 45, 47, 

49, SO, 261, 399, 537 Puebla - 590 Pungué - 340 

Qadi - 32, 102 Qadis - 91 

cf. Cádiz GCJarib - 196 Qarya, quran - 30, 33, 102 Qasaba - 102 Qastalla - 94 
Quadrante - 367 Quelimane - 340 Queluz - 563, 575, 576 Quénia - 314 Quíloa - 
324, 339 Química - 558, 618 Quintaladas - 352 Quintanae - 76 Quintas, quintãs - 
76 

678 


Indice analítico 


Quintela - 75, 76 Quinto da Coroa - 225, 226 «Quinto, Império» - 431 Quitação 
(cartas de) - 249 Qulumriyya - 32, 44, 54 Quran 


cf. garya Quriyya - 54 Qurtuba - 54, 88, 90, 96, 104 
cf. Córdova 

R 

Raça, racismo - 364, 365, 459, 460, 


485, 486 Raham. - 213 Raimundo (conde) - 61, 63 Ramiro Il (rei de Leão) - 47 
Ranuccio (pretendente à coroa) - 


423, 441 Real - 161 Real de água - 433 Real Erário - 530, 536 Real Fábrica das 
Sedas - 523, 528 Real Mesa Censória - 560, 561 Reales - 379, 469 
Recchismundus - 40 Rechiarius - 40 Recife - 433, 482, 483, 485, 589, 599, 


611 Redinha (batalha da) - 580 Redondo - 96 Reduções - 486, 603 Reforma, 
reformistas - 255, 286, 287 Reforma católica - 388, 390 Regência (conselho de) - 
428-432, 434 Regimento dos Corregedores - 265 Regimento do Cruzeiro do Sul - 
367 Regimento dos Filhamentos - 386 Regimento dos Officios da Casa 


Real - 388 Regimentos dos Contadores das 


Comarcas - 250 Regimentos da Estrela do Norte - 


367 Regimentos dos mesteres - 260 Regina - 65 Regnare - 64, 65 Regnum - 64- 
67 Regras (João das) - 187 Reguengos - 80, 96 Rei (título de) - 64-67 Reinóis - 
460, 613 Relação - 492, 588, 642, 643 Remismundos - 40 


Renascimento, renascentista - 207, 


236, 251, 277, 278, 281, 283, 284, 301, 
411 Republicanismo - 618 Resende (André de) - 278 Resende (Garcia de) - 277 
Resma - 98 Restauração - 377, 382, 404, 443, 444, 


445, 456, 498, 538 Retórica - 274 Revolução de 1383-85 - 187, 188 «Revolução 
da experiéncia»-284-286 Revolução Francesa - 553. 574, 638 Revolução 
Industrial - 522, 533 Revolução liberal - 619, 620 «Revolução dos preços» - 251, 
382, 


383 Rex - 64-67 Rhodésia - 321, 353 Ribatejo - 4, 89, 96, 578 Ribeira Grande - 
332, 333, 503, 504, 


629 Ribeiro (Bernardim) - 278 Ricos-homens - 81 Rio Grande (Guapaí) - 480, 481 
Rio Grande do Norte - 483, 493, 494 


587.,588, 620 Rio Grande de S. Pedro - 586, 587, 

588, 602 Rio Grande do Sul - 587 Rio de Janeiro - 322, 345, 346, 348, 

485, 488, 493-495, 529, 577, 581, 586-590, 599, 600, 608. 613-616, 618-620, 

622 Rio Negro - 620 Rio de Vor - 213 Rio de Oro - 214 Rio do Ouro - 214 Rio da 
Prata - 318, 490, 568, 603, 608, 


609, 610 Riss (glaciação de)= 10 Rizma - 98 Robert (Frei) - 168 Roberto | (duque 
da Borgonha) - 


62 Roca (cabo da) - 7 Rocóc6 (estilo) - 614 Rodes - 310 Roliça (batalha da) - 578 
Roma - 19, 173, 183, 270, 288, 412, 


444, 470. 551, 569, 572, 639 Romanos - 15, 16. 18, 34, 59 Romanos Pontifex 
(bula) - 229 Românico (estilo) - 148-151 Romances de cavalaria - 147 Rosas-dos- 
ventos - 195 Rota do Cabo - 438; 469 

Inuice analítico 


679 


Roteiros - 367 Rott (Konrad) - 421, 464 Rouen. (Jean de) - 283 Rufisque - 505 
Rússia - 526 


S 


sã (Mem de) - 482, 492 Sã (Salvador Correia de) - 507, 511 Sabão (indústria de), 
saboarias - 


- 139, 208, 522 Sabarábuçu - 591 Sabóia - 423, 567, 568 Sabugal - 244 
Sacramento (colónia do) - 608-611 Sado - 91, 97 Saf i - 298 Safim - 298 Safim - 
299 Sagres - 207 Sahara - 197, 202, 230 Sahara Espanhol - 214 Saint Louis - 482 
Saint-Pé - 439 Sal - 97, 134, 199, 241, 242, 333 525 Sal (ilha do) - 199, 215, 333, 
620 Salacia - 19, 34 Salado (batalha do) - 108, 177, 204 Salamanca - 145, 271, 
275, 276 Salários - 157, 158, 251, 252, 383 Salum - 215 « Salve Rainha» - 166 
Samatra - 320, 322, 325, 326, 352, 3:53 Samma - (036 

San Giorgio - 213 San Zorzo - 213 Sancha (filha de Afonso V de 


Leão) - 62 Sanches (Francisco) - 405, 406 Sanches (Ribeiro) - 551-553 Sánchez 
(Garcia) - 62, 65 Sánchez (Ramiro) - 65 Sancho (filho de Afonso VI de Leão 


e Castela) - 63 Sancho 1 (rei de Portugal) - 69, 74, 

128 133, 146, 147 SancÃo Il (rei de Portugal) - 69, 70, 

77, 78, 81, 92, 93 Sancho III (rei de Castela) - 67 Sancho IV (rei de Castela) - 179 
Sancho (rei de Navarra) - 65 Sandoval (Francisco de) - 429 « Sangue de dragão»- 
218, 220 Saniya - 97 Santa Catarina (capitania de) - 346, 

586-588, 620 

Santa Clara (igreja de). Coimbra 

-150 Santa Clara (igreja de), Santarém 

-150 Santa Cruz (terras de)-344 Santa Cruz do Cabo de Gué-298, 


299 Santa Cruz de Coimbra (mosteiro 


de) - 77,117,145,149,238,257,272, 
275 Santa Helena (ilha de)-314, 316, 


616 Santa Luzia (ilha de) - 215, 333, 629 Santa Maria (ilha de) - 213, 222, 626 
Santa Maria (terra de) - 49, 50 Santa Maria de Faro - 94 Santa Mariya al-Harun - 
52, 54, 94, 


110 Santa Teresa de Ávila - 390 Santana (capitania de) - 346, 348 Santarém - 19, 
23, 61, 91, 92, 107, 118, 


117, 130, 137, 142, 150, 152, 156, 234, 
236, 237, 246, 260, 425 Santarém (João de) - 306 Santarin - 54, 55, 88, 90, 91, 
94, 96, 


97, 98, 100. 101 Santiago (igreja de), Palmela - 281 Santiago (ilha de) - 215, 314, 
332, 


333, 503-505, 629 Santiago (ordem de) - 93, 108, 116, 

117, 119, 189, 190, 208, 255, 305, 383 Santiago de Compostela - 68, 148, 

149 Santo Agostinho (Cônegos Regran- 

tes de) - 149 cf. Cônegos Regrantes Santo Amaro (capitania de) - 347 Santo 
Antão (ilha de) - 215, 628 Santo Antônio - 147, 270 Santo Antônio (cidade de) - 
630 Santo Isidoro de Sevilha - 198 Santo Ildefonso (tratado de) - 610, 

611, 631 Santo óficio 

cf. Inquisição Santos - 348, 349, 482, 487 Santos (Eugênio dos) - 563 Sanzala - 
491 S. Bento (mosteiro de), Brasil - 614 S. Bento (igreja de), Porto - 411 S. Bento, 
beneditinos - 77, 150, 390, 


605 S. Bernardo, Bernardos - 337 S. Cristóvão -215 S. Domingos, dominicanos - 
17,117, 


150, 390, 405, 471 S. Filipe (ilha de) - 215 

680 

Indice analítico 

S. Filipe Nery - 559 S. Francisco, f ranciscanos - 77, 117, 


150, 166 345, 390, 471, 495, 605 S. Franci;co (baía de) - 319 S. Francisco (igreja 
de), Évora - 


152 S. Francisco (igreja de), Goa-476 S. Francisco (igreja de), Lisboa- 
150 S. Francisco (igreja de), Santa- 
rém - 150 S. Francisco (igreja de), Brasil- 


615 S. Francisco (rio de) - 480, 490 S. João (ilha de) - 318 S. João Baptista de 
Ajudá-629 S, João da Cruz (Irmãos Hospita- 


leiros de) - 390 S. João Evangelista (cônegos de) - 


257 S. João da Pesqueira - 74 S. João de Tarouca - 77 S. Jorge (ilha de) - 213, 
331 S. Jorge da Mina - 336, 339, 433, 505- 


507 S. José do Rio Negro (capitania de) 

-586-588 S. Lourenço (ilha de) - 320 S. Luís (cidade de) - 213, 482, 493 S. 
Mamede (batalha de) - 64 S. Martinho de Dume - 41 S. Martinho de Tours - 41 5. 
Miguel (ilha de) - 213, 222, 331, 


503, 626 S. Nicolau (ilha de) - 215, 333, 628 S. Paulo - 323, 348, 476, 480, 481, 
485, 


487, 490, 494, 495, 587-592, 602, 620, 

621 S. Roque - 410, 493 S. Salvador (Inglesinhas) - 391 S. Salvador do Congo - 
339, 633 S. Salvador de Vilar (cónegos de) 

-257 S. Torné (ilha de) - 306, 329, 334, 


335, 338, 345-348, 353, 443, 458, 505-509, 607, 624, 629-631 S. Torné de 
Melífapor - 323 São-torné (moeda) - 469 S. Vicente (capitania de) - 323, 344- 


348, 480, 485, 586, 628 S. Vicente (ilha de) - 215, 333 S. Vicente de Fora 
(mosteiro de), 


Lisboa - 117, 145, 149, 411 Saragoga - 568 Saraqusta - 88 Sarmento (Jacob de 
Castro) - 551, 


552, 553 
Satanazes (ilha de) - 198 Sauveterrense - 12 Scallabis Praesidium lulium, scalla- 


bitanus - 19, 25. 27, 29. 30, 32, 34, 

35 Sé de Coimbra - 238 Sé do Congo - 633 Sé de Goa - 459, 476 Sé Nova de 
Coimbra - 411 Sebastianismo - 430, 431 Sebastião (rei de Portugal) - 374, 

408, 416, 417, 420-424, 430, 431, 438, 

498 Secretaria da Assinatura - 403 Secretaria de Estado - 403 Secretaria de 
Estado do Reino -537, 

551 Secretaria de Estado da Marinha e 

do Ultramar - 537, 551 Secretaria de Estado dos NegMos 


Estrangeiros e da Guerra-537, 
551 Secretaria das Mercês e Expediente 


-403 Secretário - 633 Secretário d'el-rei - 266 Secretário da India - 460 «Século de 


Ouro» - 418 Seda (indústria de) - 522, 523 Seguros - 133 Seixas (Carlos) - 557 
Seminários - 389, 605, 638 Sena - 34Q, 457, 637, 638 Senado da Câmara 
(Macau) - 462, 


506, 644, 645 Senectute (De) - 271 Senegal - 215, 320, 321, 336 Senhores de 
engenho - 491 Senhorial (regime) - 125 


cf. Feudalismo Senzala - 491 Sequeira (Domingos Antônio de) - 

564 Sequeira (Rui de) - 306 Sergipe - 483, 493, 494, 587, 588 Serlio - 411 Serpa - 
27, 34, 92. 94 Serra (Correia da) - 552, 553, 556 Serra Leoa - 215. 350, 504, 505 
Serrão (Luís) - 509 Servos - 79-81 Sesnando (alvasil) - 50 «Sete Cidades» (ilha 
das) - 198, 311 Setúbal - 96, 97, 117, 236, 240, 282, 

425, 516 Sevilha - 52, 54, 63, 135. 243, 244, 351, 

371, 376, 379, 416, 438 

Indice analítico 


681 


Seychelles - 320 Sião - 326, 462 Sicília - 242, 442 Sidray - 91 Siena - 271 Silb - 
32, 52, 54, 89,90, 91, 93, 94, 98, 


101-103, 110 Silva (Antônio Dinis da Cruz e) - 


558 Silva (Antônio José da) - 557 Silva (Bartolorneu Bueno da) - 591 Silva (José 
Bonifácio de Andrade e) 


-614, 621 Silva (José de Seabra da) - 551 Silva (Simão da) - 338 Silva y Mendoza 
(Diego de) - 430 Silveira (Antônio da) - 327 Silveira (João Pernandes da) - 258 
Silves - 23, 52, 93, 94, 107, 110, 130, 


131, 149, 156, 256, 264 Silves (Diogo de) - 213 Sintara - 94 Sintra - 94, 245, 283 
Sintra (Pedro de) - 215 Sirba - 92, 94 Síria - 30, 322 Sisas (regulamento das) - 249 
Situação geográfica (problema da) 


-7, 8 Sixto IX (papa) - 287 Sobrejuízes - 141 Sociedade 


cf. Clero, Nobreza, Povo, etc. Socotorá - 320, 324, 325 Sodomia - 392, 404 Sofala- 
324, 339, 340, 342, 356, 457, 


638 Soldo - 140 Solis (João Dias de) - 316, 360 Solor - 645 Solutrense - 12 
Somalis - 321 Soult (marechal) - 578 Sousa (Antônio Caetano de) - 555 Sousa 
(Francisco de) - 481,492 Sousa (Fr. Luís de) - 410, 438 Sousa (Luís de 
Vasconcelos e) - 448 Sousa (Manuel de Faria e) - 475 Sousa (Martim Afonso de) - 


322, 
345-347, 492 Sousa (Tomé de) - 492 .Ss. Cosme e Damião (cardeal de) - 


66 Southampton - 244 «Subsídio literário» - 560, 605 Sucessão de Espanha 
(Guerra da) 


-520 


Sudão - 199. 320, 487 Sudoeste Africano- 307, 309 Suevos - 20, 29, 39-43, 68 
Suécia - 444 Suez - 310, 327 Sufis, sufismo - 90, 103 Suma Oriental - 322 


T Tabaco - 489, 596 Tabira - 91 Table Bay - 309 Tabocas - 483 Tábuas toledanas 
- 197 Tailas - 51-56, 71, 89-93, 100, 101, 110 Talha - 411, 412, 562, 615 Tana - 
474 Tanadarias - 461 Tanga - 469 Tânger - 190, 2,04. 2071, 229, 291, 298, 

299, 444, 498 Tapuitapera (Cumã) - 493 Tarasia (condessa) -61 Tardenoisense - 
1,” Tarouca - 74 Tarraconensis - 19, 25, 27, 40 Tasufin b. 'Ali YUSUÍ - 89 Tavares 
(Antônio Raposo) - 481 Tavira - 91, 94, 130, 236, 242, 260 Teatinos - 391 Teatro - 
2171, 278, 557 Teatro Nacional - 618 Teatro della Seala - 557 Teatro Real de S. 
Carios - 557 Técnicas - 8, 22, 97. 136, 195, 196, 


240, 558, 559 Teive (Diogo de) - 221, 404 Teixeira (Pedro) - 481 Teixeira (Tristão 
Vaz) - 218 Teke (tribos) - 508 Templo (ordem do), Templários - 


108, 116, 117, 119, 149, 176 Tenças (concessão de) - 250, 258, 
386, 387, 539, 540 Tenência, tenens, tenente-49, 61, 

62,63, 84 Terreiro (Antônio) - 322 Teodósio (duque de Bragança) - 
404 Teologia-276, 404, 405, 560 Terceira (ilha) - 213, 222, 331. 426, 
503 Teresa (condessa de Portugal) - 61, 

63, 64, 65, 68, 74, 83 Teresa (filha de Afonso Henriques) 

-133 Ternate - 325, 453 

682 

Indice analítico 

Terra, terrae - 45, 47,49, SO, 67, 84, 


85 Terra dos Bacalhaus - 311 Terra Nova - 198, 217, 310, 316, 319, 


375 Terra Santa - 106, 107, 201, 228, 292 Terra de Vera Cruz - 344 Terramoto de 
1755 - 563, 570, 571 Terramotos - 331 Territorium, territoria, territórios 


- 29, 30, 33, 45, 47, 84, 85 Terzi (Filippo) - 410 Testamento Político de D. Luis da 


Cunha - 553 Tete - 340, 457, 636. 638 Tête-hardie (Guilherme |) - 61 Têxteis 
(produção, comércio, indús- 


tria) - 134, 135, 240, 242, 354, 521- 

523, 525, 526 Theodemirus - 41 Tíbães - 77 Tibet - 471, 174 Tiera de Estevã 
Gomez - 319 Tiera del Labrador - 319 Tietê (rio) - 481 Timor - 320, 457, 462, 624, 
644, 645 Tintas, tinturaria - 134. 208, 223, 355 Tiradentes - 612 Tirania (conceito 
de) - 441 Títulos (concessão de) 


séculos xv-xv, - 252, 253 séculos xvi-xvii - 386, 387 séculos xvi-xix - 539-541 Toda 
(condessa) - 48 Todos os Santos (hospital de) - 563 Togo - 306 Toledo - 54, 63, 
67, 68, 70, 197, 282, 


307, 389 Tomar - 150, 329. 425-427, 521 Tombuktu - 321 Tonquim - 470, 472 
Tordesilhas (tratado de) - 295, 312, 


315, 346, 607 Toro (batalha de) - 292 Torre (conde da) - 483, 521 Torres Novas - 
93 Torres Vedras - 580 Tortosa - 109 Toscanellí (Paolo del Pozzo) - 311 Tostão - 
248 Toulouse - 580 Tradentis Disciplinis (De) - 279 Trancoso (batalha de) - 185 
Trás-os-Montes - 3, 24, 71, 74, 75, 82, 


84, 127, 261, 263, 376, 573, 578, 625 Transmontano (dialecto) - 23 Trava 
(Fernando Peres de) - 64 


Trento (Concílio de) - 389, 390, 406, 
408, 420 Tribunal dos Contos - 642 Tribunal do Desembargo do Paço - 


265 Tribunais - cf. Justiça Tributação - cf. Finanças Trígo-8, 82, 94, 97, 135, 208, 
3a, 


372, 373,901, 502;518;510 

cf. Cereais Trigo mourisco - 97 Trindade (ilha da) - 318 Tristão (Nuno) - 215 
Trovadoresca (cultura) - 146, 147 Tude, Tui - 30, 84 Tude (bispado de) - 41 
Tulaytula - 54, 96 Tuta (condessa) - 48 Tupi - 486 Turcos - 290, 326, 327, 568 

U 


Uceda (duque de) - 429 Uhsunuba - 32, 52, go 'Umar al-Mutawakkil - 54 União 
Ibérica- 291-293, 297, 298, 417, 


418, 423, 425, 426, 431, 442, 576 Universidade - 144-146, 168, 169, 272- 


276, 278, 280, 404, 406, 556, 560 Universidade de Évora - 420, 560 Universidade 
de Vila Viçosa - 405, 


406 Urbano Il (papa) - 106 Urbano VI (papa) - 183 Ursulinas - 542 Urraca (filha de 
Afonso VI de Leão 


e Castela) - 61-65, 89 Uruguai -316, 480, 574, 597, 608-610, 

614 Uso di Mare (Antoniotto) - 215 Utica (bispo de) - 338 Utrecht - 523, 568, 609 

/ 

Valéncia - 310, 437 Valverde (batalha de) - 185 Valladolid. - 437 Vândalos - 39 
Vandelli (Domingos) - 560 Varatojo (mosteiro de) - 281 Vaso Campaniforme 
(cultura do) 

12 

Indice analítico 

683 

Vassalagem, vassalidade, vassalos - 

62-64, 66, 67, 126-128, 253 

cf. Feudalismo Vassalos do rei-253 Vedores - 260 Vedores da fazenda - 141-142, 
402 Vela triangular ou latina - 195, 196 Velho (Gonçalo) - 222 Veneza, Venezianos 
- 136, 243, 244, 

270, 280, 359, 361, 371, 489, 521, 568 Ventos (Atlântico, Indico)-365, 366 Ventos 
alíseos - 212, 213 Vera Cruz (Terra da) - 315 Verdadeiro Método de Estudar-553 
Verde (cabo) - 215 


cf. Cabo Verde Vergel da Consolação - 168 Vereadores - 143 Vermelho (Mar) - 
200, 320, 321, 324, 


327, 462 Verney (Luís Antônio) - 551-553 Versailles - 563, 576 Veseo - 30, 32, 35, 
44 


cf. Viseu Veseo (bispado de) - 40, 41 Vespueci (Américo) - 316 Veterinária (livros 
de) - 168 Viagens (literatura de) - cf. Litera- 


tura Viana - 234, 516 Vicarii - 5O Vice-reis 


Ásia - 342, 343, 460, 461 Brasil - 492, 493, 587 Portugal - 429-434 Vicente (Gil) - 


2171, 278, 409, 419 Vidro (indústria de) - 521, 522 Vieira (Padre Antônio) - 410, 
411, 


487 Viena - 552, 580, 616 Vijayanagar - 322, 326 Vila do Conde - 75, 412 Vila 
Franca do Campo - 331 Vila do Infante - 207 Vila Nova de Cerveira - 566 Vila 
Nova de Gaia - 74 Vila Nova de Mazagão - 625 Vila Real - 387 Vila Viçosa - 96, 
405, 437 «Vilas novas» - 72, 74,75 Villa, villae - 73-76, 82, 83, 85, 99, 491 Villares 
- 76 Villegaignon - 482 Vimaranis - 50 Vimaraniz (Lucido) - 47 Vimeiro (batalha do) 
- 578 

Vinho do Porto - 518, 519, 524, 525, 

528 Vinha, vinho - 4, 8 


séculos xii-xv - 82, 134, 159 séculos xv-xvi - 221, 239, 241, 330 séculos xvi-xvii - 
373, 500, 502 séculos xvil-xix - 518, 519, 524, 525, 


528 


cf. agricultura Vintém - 248 Virgínia - 554 Visão de Túndalo - 168 Viseu - 44, 45, 
68, 83, 85, 149, 190, 


206, 256, 264, 284, 290, 293, 294, 389 Visigodos - 20, 29, 40, 113 Visitadores das 
naus - 394 Vives Quan Luís) - 279 Vocabulario Portuguez e Latino - 


556 volta (rio) - 505 

W 

Waddan - 321, 336 Walba - 52, 54, 90 Wali - 101 Welser - 352, 464, 465 
Wellesley (Arthur) - 578, 580 Wellington Gord) - 578, 580 Wiener (Leo) - 199 
Willekens (Jacob) - 483 Wúrm (glaciação de) - lo 

x 

Xavier (Joaquim José da Silva) - 

612 Xerafim - 469 Xingú - 493 

y Yabura - 32, 54, 89, 90, 92, 94, 96, 101 Yalbas - 94, 96 Yusuf b. Tasufin - 88 

z Zajal - 103 Zaira - 63 Zaire - 307, 339 Zakat - 99 Zambeze - 314, 340, 457 
Zanzibar - 339, 637, 638 Zaragoza - 88 Zarco (João Gonçalves) - 218 Zinguichor - 
505 Zoologia - 406, 474 Zurara (Gomes Eanes de) - 277 


ÍNDICE GERAL 


Introdução - As Raízes de uma Nação ... 1 
1 - Traços permanentes ... 3 


a) O espaço ... 3 

Individualidade geográfica ... 3 
Posição geográfica ... 7 

O Mediterrâneo e o Atlântico ... 8 
Bibliografia ... 9 


b) O povo ... 10 

Paleolítico Inferior ... 10 
Paleolítico Superior ... 11 
Mesolítico ... 12 

Neolítico; Bronze ... 12 

Ferro; Fenicios, Gregos, etc. ... 15 
Romanos ... 16 

Bibliografia ... 17 


c) A língua ... 18 


Origens ... 18 
O Latim ... 18 
O Árabe ... 20 


O Português ... 22 
Bibliografia ... 24 


d) Administração ... 25 
Quadro romano ... 25 
Quadro eclesiástico ... 27 
Quadro muçulmano ... 30 
Bibliografia ... 33 


e) Comunicações e povoamento ... 34 
Rede vial romana ... 34 

Norte e Sul... 37 

Bibliografia ... 38 


686 Índice geral 

2 - As unidades políticas ... 39 
a) O reino dos Suevos ... 39 
História política ... 39 


Organização eclesiástica ... 41 
Bibliografia ... 43 


b) Os condados da «Reconquista» no Norte ... 


43 


A «Reconquista» ... 43 
Organização administrativa ... 45 
Os duques de Portucale ... 47 

O território de Coimbra ... 49 
Reformas de Fernando 1... 5O 
Bibliografia ... 5O 


c) Os reinos muçulmanos «taifas» no Sul... 51 
Al-Garb al-Andalus ... 51 

Os reinos de «taifa» ... 52 

Bibliografia ... 55 


Capítulo | - A Formação de Portugal ... 57 
1-0 Norte cristão ... 59 


a) De condado a reino ... 59 
A base feudal ... 59 

Os cavaleiros franceses ... 60 
Henrique de Borgonha ... 61 
Reinado de Urraca ... 63 
Reinado de Afonso VII... 64 
Afonso Henriques ... 64 
Relações com a Santa Sé ... 66 
Sucessão de Afonso VII... 67 
Primado de Braga ... 67 
Lutas do rei com o clero ... 69 
Outras lutas civis ... 70 


b) O quadro do Norte ... 70 
Características gerais ... 70 
Povoamento ... 71 
Propriedade ... 75 
Sociedade ... 79 

Economia ... 82 
Administração ... 84 
Bibliografia ... 86 


Indice geral 687 


2 - O Sul islâmico ... 88 

O Império Almorávida ... 88 

2º período «taifa» ... 39 

O império Almohada ... 92 
Território e povoamento ... 94 
Vida económica ... 97 
Sociedade e propriedade ... 98 


Administração ... 101 
Judeus e cristãos ... 102 
Cultura ... 103 

Arte ... 104 

Bibliografia ... 104 


3 - À «Reconquista» e a União do Norte e do Sul... 106 
Significado da «Reconquista» ... 106 

Aspectos militares ... 108 

Aspectos políticos ... 113 

População ... 114 

A presúria ... 116 

Propriedade régia ... 117 

Propriedade eclesiástica ... 117 

Organização municipal ... 119 

Bibliografia ... 121 


Capítulo Il - A Era Feudal... 123 


1 - As estruturas do final da Idade Média ... 125 
O Portugal feudal ... 125 

Combate à expansão senhorial ... 127 
Apanágios e doações ... 128 

Prazos ... 129 

Características demográficas ... 129 
O Porto ... 131 

Lisboa ... 131 

Comércio externo ... 132 

Comércio interno ... 136 

Artesanato ... 137 


Preços ... 139 
Moeda ... 140 
Governo e administração ... 141 
Cortes ... 143 
Direito ... 144 


Instrução e cultura ... 144 
Arte e construção civil e militar ... 148 
Bibliografia ... 153 


688 


2 - Acrise... 155 

Aspectos gerais ... 155 

Peste Negra ... 155 

Consequências demográficas ... 156 
Consequências económicas ... 158 


Consequências sobre a propriedade ... 160 
Consequências monetárias ... 161 
Consequências sociais ... 163 
Consequências políticas ... 164 


As novas mentalidades e a devoção religiosa ... 


Impacte na cultura ... 167 
Impacte na arte ... 169 
Bibliografia ... 169 


3 - A evolução política ... 171 
Afonso III... 171 

Lisboa e seu significado ... 171 
Estabilidade governativa ... 172 
Clero e nobreza ... 172 
Independência plena ... 173 

D. Dinis ... 173 

Guerra com Castela ... 174 
Apogeu dionisiano ... 175 
Afonso IV... 176 

Conflitos com Castela ... 177 


Salado ... 178 
A Peste Negra ... 178 
Pedro |... 179 


Fernando |... 183 

As guerras e o Cisma ... 184 
Leonor Teles ... 184 
Actividade pacífica ... 185 

O interregno ... 187 

Guerra com Castela ... 187 
D. João |... 188 

Significado da Revolução ... 189 
Governo joanino ... 189 
Expansão africana ... 190 

D. Duarte ... 191 

Regência de D. Pedro ... 191 
Bibliografia ... 193 


689 
Capitulo Ill - Primórdios da Expansão ... 195 


1 - Apetrechamento e necessidades ... 195 
Inventos na arte de navegar ... 197 
Ciência náutica ... 197 

Conhecimentos geográficos ... 

O Mar Tenebroso ... 

A Ásia e o Preste João ... 


166 


Mão-de-obra ... 

O problema do ouro ... 
Outras motivações ... 

O espírito de cruzada ... 
Os estrangeiros ... 
Interesses locais ... 

D. Henrique ... 
Bibliografia ... 


2 - As viagens de descobrimento 
Séculos XHI-XIV ... 

Canárias ... 

Madeira ... 

Açores ... 

Costa africana... 

Ilhas de Cabo Verde ... 

Viagens para Ocidente ... 
Bibliografia ... 


Os primeiros resultados ... 
Madeira ... 

Açores ... 

Escravos ... 

Outros produtos ... 

Ouro ... 

Formas comerciais ... 
Feitorias ... 

Planeamento das viagens 
A «Reconquista» ... 

O Preste João ... 
Bibliografia ... 


Capítulo IV - O Estado do Renascimento 


A recuperação da crise ... 

A população ... 

Cidades ... 

Escravos ... 

Judeus ... 

Mouros ... 

Ciganos ... 

Agricultura e arroteias ... 

Novas culturas. O milho. Cereais ... 


690 


Pecuária ... 240 


Artesanato ... 240 
Comércio externo ... 241 
Feitorias ... 243 
Comércio interno ... 244 
Pesos e medidas ... 246 
Moeda ... 246 

Finanças ... 248 

Preços e salários ... 251 
A nobreza ... 252 

O clero ... 255 

O 3º Estado ... 258 
Administração e justiça ... 261 
Cortes ... 266 
Assistência ... 267 
Bibliografia ... 267 


2 - Humanismo, Renascimento e Reforma... 


Humanismo ... 270 
Ensino ... 272 

Os colégios ... 272 
Universidade ... 274 
Literatura ... 276 
Contactos internacionais ... 278 
Imprensa ... 279 
Arte ... 280 

Gótico final ... 281 
Manuelino ... 281 
Mudéjar ... 282 
Renascença ... 283 
Pintura ... 283 
Ciência ... 284 

A Reforma ... 286 
Inquisição ... 287 
Bibliografia ... 288 


3 - A evolução política ... 290 
Afonso V ... 290 


João II... 293 
Manuel |... 295 
João III... 300 


Bibliografia ... 301 
Capitulo V - Surto do Império ... 303 


1 - Descobrimento e Conquista ... 305 
Infante D. Fernando ... 305 


270 


691 


Fernão Gomes ... 305 

Infante D. João ... 306 

Diogo Cão ... 307 

Bartolomeu Dias ... 309 

Viagens à Etiópia ... 309 
Viagens para Ocidente ... 310 
Colombo ... 311 

Tratado de Tordesilhas ... 312 
Vasco da Gama ... 314 
Cabral... 315 

Viagens à América do Norte ... 316 
América do Sul... 316 

Fernão de Magalhães ... 318 
Estêvão Gomes; Cabrilho ... 319 


Exploração do Índico e do Pacífico ... 


Viagens no interior ... 320 
Expedição à Etiópia ... 321 
Penetração na Ásia ... 321 
Entradas no Brasil... 322 
Política portuguesa na Ásia ... 323 
Francisco de Almeida ... 323 
Afonso de Albuquerque ... 324 
Expansão até 1557... 325 
Quadro político da Ásia ... 326 
Lutas travadas ... 327 
Bibliografia ... 328 


2 - Organização do Império ... 329 
Madeira ... 329 

Açores ... 330 

Cabo Verde ... 331 

S. Tomé e Príncipe ... 334 
África Continental ... 335 

S. Jorge da Mina ... 336 

O Congo ... 336 

Costa oriental africana ... 339 
Índia ... 340 

Goa ... 340 

Malaca ... 342 

Outras cidades ... 342 
Administração central ... 342 
Brasil... 343 

Período dos contratos ... 343 
Capitanias de mar e terra ... 344 


Divisão sistemática em capitanias ... 


319 


346 


Administração económica do ultramar ... 350 
692 


As especiarias ... 

O ouro ... 

Os escravos ... 

Outros produtos ... 
Rede comercial ... 
Volume do comércio ... 
A Casa da India ... 
Bibliografia ... 


3 - Os grandes problemas a resolver ... 
O «Império» ... 

Mão-de-obra ... 

Coroa e burguesia ... 

Corrupção e administração ... 

Religião ... 

Raça ... 

Questões científicas ... 

Bibliografia ... 


Capitulo VI-Apogeu e Declínio ... 


1 - As estruturas de um estado moderno 
A população ... 
Agricultura ... 

Comércio ... 

Moeda ... 

Finanças ... 

Preços ... 

Propriedade e nobreza ... 
O clero... 

Clero regular ... 

A Inquisição ... 

A burguesia ... 

Os artífices ... 

Os escravos ... 
Administração e justiça ... 
Governação ... 

As cortes ... 

Cultura ... 

A censura ... 

Artes ... 

Bibliografia ... 


2 - União Ibérica ... 

O ideal... 

Ligações dinásticas ... 
Razões económicas ... 


693 


Razões culturais ... 418 

D. Sebastião ... 420 

D. Henrique ... 423 

O Interregno. D. Antônio ... 424 
Filipe II... 426 

Filipe III... 428 

O Sebastianismo ... 430 

Filipe IV... 431 

Bibliografia ... 434 


3 - À Restauração e suas consequências ... 436 
A ideia de nacionalidade ... 436 

Razões culturais ... 437 

Razões económicas ... 438 

Rebeliões populares ... 439 

Preparativos do movimento ... 439 

A Revolução e sua justificação jurídica ... 440 
Apoio ao novo regime ... 441 

João IV ... 443 

A Guerra ... 445 

Formas do governo joanino ... 446 

Afonso VI. A Regência ... 446 

Castelo Melhor ... 448 

Queda de Castelo Melhor ... 449 

Bibliografia ... 449 


Capítulo VII-O Império Tridimensional ... 451 


1-0 Oriente ... 453 

Período de estabilização ... 453 
Macau ... 453 

Os Holandeses ... 454 

Os Ingleses e outros ... 455 
O descalabro ... 456 

África Oriental ... 457 

Etiópia ... 458 

Potencial demográfico ... 458 
A questão rácica ... 459 

O Governo ... 460 

As carreiras ... 462 


Comércio geral ... 464 

Especiarias e outra mercadoria ... 465 
Comércio local ... 466 

As crises ... 466 

Estrutura financeira ... 467 

Moeda ... 469 


694 


Fracasso do cristianismo ... 472 
Aspectos culturais das missões ... 473 
Viagens pelo interior ... 474 

Cultura ... 474 

Arte ... 476 

Bibliografia ... 477 


2 - Brasil... 479 


Explorações para o interior ... 479 

As bandeiras ... 480 

Os estrangeiros ... 482 

População ... 485 

Miscegenação ... 485 

Evangelização e condição do índio ... 486 
A escravatura negra ... 487 

O açúcar ... 488 

O pau-brasil ... 489 

Algodão e tabaco ... 489 

Criação de gado ... 489 

Receitas. Organização do comércio ... 490 
Plantação e estrutura social ... 491 
Administração. O Governo-Geral ... 491 
As capitanias ... 493 

Administração local ... 494 

A Igreja ... 494 

Cultura ... 495 

Bibliografia ... 496 


3 - As Ilhas Atlânticas e África ... 498 
Marrocos ... 498 

Madeira ... 498 

Açores ... 501 

Cabo Verde ... 503 

Costa da Guiné ... 505 

Ilhas do Golfo da Guiné ... 506 
Angola ... 508 

Bibliografia ... 511 


Capítulo VIII - Absolutismo e Iluminismo ... 513 


1 - As estruturas ... 515 
População ... 515 

Economia: traços gerais ... 516 
Agricultura ... 518 

Criação de gado ... 519 
Indústria ... 519 


695 


Comércio externo ... 523 
Exportação ... 524 

Importação ... 525 

Balança comercial ... 526 

Política económica. As companhias ... 527 
O ouro do Brasil. A moeda ... 529 
O papel-moeda ... 530 

Preços ... 530 

Finanças ... 533 

As cortes ... 536 

Governação ... 536 
Administração e justiça ... 537 
Classes sociais. A nobreza ... 538 
O clero ... 541 

Inquisição ... 543 

Clero secular ... 544 

A burguesia e o artesanato ... 545 
As forças armadas ... 547 
Bibliografia ... 548 


2 - As Luzes ... 550 

Despotismo esclarecido ... 550 

O Direito ... 551 

Os «estrangeirados» ... 552 

Influências estrangeiras ... 554 

As Academias ... 555 

Literatura ... 557 

Ciência ... 558 

Reformas na educação ... 559 

Censura ... 560 

Movimento cultural post-pombalino ... 561 
Artes ... 562 

A nova Lisboa ... 563 

Outros exemplos e formas artísticas ... 563 
Bibliografia ... 564 


3 - Os eventos decisivos ... 566 
Estabilidade governativa ... 566 

D. Pedro Il... 567 

A Guerra da Sucessão de Espanha ... 567 
D. João V ... 568 

D. José |. Pombal... 570 

D. Maria |... 574 

Política externa: 1º fase ... 574 

O fim do «Antigo Regime» ... 575 

Política externa: 2º fase ... 576 


696 


Invasões francesas ... 
Portugal após as invasões ... 
Bibliografia ... 


Capítulo IX - Brasil... 


1 - O Brasil, elemento basilar do império Português 
Governo-Geral e capitanias ... 
Divisão eclesiástica ... 
Administração local... 
População ... 

Expansão para o interior ... 

O ouro ... 

O açúcar ... 

Os escravos ... 

Outros produtos ... 

Indústria e comércio ... 

Moeda ... 

Sistema financeiro ... 
Propriedade e classes sociais ... 
O clero ... 

Bibliografia ... 


2 - De colónia a nação ... 
Aspectos gerais ... 

Definição de fronteiras. O Norte ... 
O Sul... 

Oeste ... 

As primeiras rebeliões ... 
Demografia e sociedade ... 

Surto de uma cultura própria ... 
Vinda da corte para o Brasil... 
Governo de D. João ... 


Agitação revolucionária ... 
A Revolução liberal ... 

A independência ... 
Bibliografia ... 


3 - Os elementos secundários do Império ... 
Extensão do Império africano e asiático ... 
Mazagão ... 

Madeira e Açores ... 

Cabo Verde e Guiné ... 

Golfo da Guiné. S. Tomé e Príncipe ... 


Angola ... 
Moçambique ... 
697 

Índia ... 638 
Macau ... 643 
Timor ... 645 


Bibliografia ... 646 

Governantes de Portugal ... 647 
Índice dos Mapas ... 651 

Índice Analítico ... 655 


NOTA FINAL 


O autor não quer deixar de exprimir os seus agradecimentos muito sinceros a 
diversas pessoas e entidades que contribuíram para a boa impressão deste livro. 
Entre outros, cujo nome porventura esquece, salienta os seus editores, srs. arg. 
Graco Wandschneider, dr. Júlio Pedrosa Vieira e D. Maria de Fátima A. P. de Sã 
Pessoa; seu pai, Henrique de Oliveira Marques, que desenhou os esboços dos 
quadros genealógicos; os desenhadores, srs. José Monteiro Peres e Humberto 
Avelar; o fotógrafo, sr. A. Sampaio Teixeira; os seus amigos, srs. dr. Álvaro 
Simões, Rui Rocha e Francisco Louro, que ajudaram a alfabetat o índice; e por 
fim, last but not least, o seu amigo, sr. Arsênio Cavaleiro que pacientemente se 
deu ao trabalho de elaborar o extenso índice analítico. Agradece ainda a todas as 
entidades e particulares que permitiram a reprodução das obras de arte inseftas 
no presente volume. 


REIMPRESSÃO EM OFFSET 


NAS OFICINAS DA SOCIEDADE TIPOGRAFICA, LDA. PARA PALAS 
EDITORES. MARÇO 1977